Poemas de Lendas



EUSTÁCIO DE SALES




© Gregorius Vatis Advena 2010 – 2019, Records E1 and E4, Eng. The Song of the Owl and The Water-Lily, March 2010 to May 2014, Hamburg and Hampshire, revised 2018, epic poetry, Portuguese.




Índice



Canto da Coruja – fol. II
Vitória Régia I – fol. IV
Vitória Régia II – fol. VI






Folhas








Sinopse



Canto da Coruja



Era uma vez a pequena coruja na vasta floresta,
longe da claridade urbana. Quando de noite,
iam embora recolher-se os bichos às tocas,
ela porém ficava. Nasceu do lenho limoso,
veio dum velho paul que toda a fauna temia.
Contam que não tivera pais e nasceu como nada
nem os sábios souberam como viera ao mundo.
Mas a terra que abriga animais, o largo berçário
viu a pequena e lhe teve bondade. Nada faltava,
néctar nem à boca nem ao corpo o regaço.





Vitória Régia I



Prenhe? – Da boca ressoava um grito agitado.
Vinham trazendo Mara, que aparecera de bucho,
semi-nua, de mãos amarradas. Em torno da jovem
índia aglomerava-se a tribo como num círculo,
não porém por dança. A voz do cacique, tremente,
dava bem a saber o tom duma fúria sem cura:
– Quê? De menina fez-se meretriz e me ofende?
Há de morrer o homem que desonrou minha filha! –
Pouco fora o valor da intervenção dum sábio,
velho pajé, guerreiro, quiçá mulheres idosas.





Vitória Régia II



Que valia a Mara um milagre? Tomara-lhe a vida
quase a morte da filha e desgostou-se dos dias.
Era apenas a noite que a via, faces alçadas
rumo às invisíveis miríades. Pouco dormia,
rente ao chão, perdera o medo da cobra noturna.
Ia banhar-se pouco antes da aurora num lago
frio de profundíssimas águas. Numa das noites,
quando deitada, Jupi abordou de fora da oca:
– Ó minha filha, sai daí! – Em vão intervinha,
ora que pouco auxílio trazia um sermão de ameaça.











© Greg Ory 2019, Nulla Dies Sine Linea. Website by Gregorius Vatis Advena






Folha II







Canto da Coruja






(De como e onde a corujinha nascera)

Era uma vez a pequena coruja na vasta floresta,
longe da claridade urbana. Quando de noite,
iam embora recolher-se os bichos às tocas,
ela porém ficava. Nasceu do lenho limoso,
veio dum velho paul que toda a fauna temia. 5
Contam que não tivera pais e nasceu como nada
nem os sábios souberam como viera ao mundo.
Mas a terra que abriga animais, o largo berçário
viu a pequena e lhe teve bondade. Nada faltava,
néctar nem à boca nem ao corpo o regaço. 10

(De como a corujinha descobriu o mundo
e de como expressava o seu amor)

Tinha belos olhos que cedo gustaram amores
pela noite. Passava as horas doces com vivas
cores nunca percebidas por olhos humanos.
Onde vemos sombra, notava muitos matizes,
verdes oníricos: Vislumbrava folhas aladas. 15
Strelas, se ouvia, cantavam como as aves nunca,
brilho raro e maior que os postes iluminados.
Pelo bosque, beijava os prateados raios e
véus lunares: Os olhos reguardavam imagens,
nítida fonte. Eram tidos como perfeitos. 20
Eram cílios radiantes que amavam na grande
selva o quanto vissem. Enquanto o mundo dormia,
ela velava alegre e sonhava no espelho noturno.

(De como a corujinha carecia de amigos)

Ia embora o tempo e como adorava os momentos!
Já sabia da história do vento e ventando caducas 25
folhas revelavam os ninhos de seres menores,
trilhas na terra calmas. Eram verdes veredas.
Como não dividir coas aves o quanto aprendera?
Era tortura o silêncio das madrugadas eterno,
era melhor a vida ao narrar alegrias à selva: 30
Muitas histórias eram daquelas pulilas somente.
Foi voando, pois, buscando ouvidos e amigos.

(De como a corujinha veio a ver os pombos
e do que lhe disseram tais aves)

Quando a turba pousou, a revoada de pombos,
uma das aves lhe disse: “São serenos teus olhos!
Quase refletem além o prisma d’ouro do ocaso: 35
Vinde ver, amigos, a luz dessas bolas caladas!”
Mas a corujinha, tomada de afeto, responde:
“Fica aqui comigo e não te apresses, meu caro
pombo, que a noite è longa e passarei sem amigo.”
Mal terminou, porém, e viu-se a sós relegada, 40
pois as aves voavam embora, a voz bradejando:
“Foge logo do monstro, ouve que voz asquerosa!
Deus me livre, coruja, não chegues perto de mim!”
Indo-se embora, a corujinha colheu-se num toco,
onde a treva se houve severa. Jamais chorava 45
pois os olhos puros não careciam de pranto.
Foi fugindo apenas por outros cantos ocultos.

(De como a corujinha encontrou a rosa
e do que ouviu dos espinhos)

Quando a várzea calau e frio se fez a largas,
veio ver na rosa o sorriso e carícia da noite:
“Deixa-me tigo estar, ò rosa. As noites são longas!” 50
Mas a rosa calau, e a coruja dorida lhe insiste:
“Flor, por que me calas? Fala um pouco comigo!”
Veio do espinho a voz: “Vai-te embora, coruja!
Quem amará jamais uma voz desprovida de brilho?”
Mas o pássaro rouco não se contenta e remete: 55
“Eu vivi sem maldade e não me desfiz de ninguém!
Que pesar vos fiz da minha mão, meus amigos?
Veio comigo ao mundo esta voz mas eu sou maior,
eu, que vim ao mundo e vim pedindo tão pouco.”
“Sei que sou bela”, avisa a boca da flor recendente, 60
“vai-te embora, vai!” A coruja calada partiu.

(De como a corujinha buscava consolo)

Farta de rumos a corujinha pousou pelas folhas
inda guardando a voz amarga da rosa nos olhos.
Num momento, quisera defender-se da ofensa,
mas como visse o desdém deitava o rosto no ramo. 65
Como uma selva surda e muda, esta era a terra
cega àquelas faces que se afogavam na sombra.
Pouco penava andar buscando flores em beiras
onde os rios murmuram, pouco errar e mirar.
Não que faltasse o bom exemplo naquela floresta: 70
Toda parte passavam as formiguinhas levando
pelas costas um peso quase mais do que a vida.
Eram bonitas! Tal imagem levanta os ânimos,
bem alenta muita vez e consola os humores.
Quem não via porém no desconsolo indescrito, 75
entre um toco velho e outro a pobre coruja?
Ia varando estranhos rumos num voo desairado.
Mas saber verdades – vale alguma verdade
quando não se divide? Dizer ao céu emoções?
Mas palavras são barcas leves entre tormentas, 80
ilhas longe os grandes sentimentos sem porto.
Não se sabe e nunca se soube o quanto a coruja
viu na selva, voando, imagem tolhendo palavra.

(De como a corujinha encontrou a lama)

Veio a dar no antro da lama. Lá demandara
sem saber a vereda por qual passara a vagar. 85
Ante os olhos, surgiam ramos tortos no pântano.
Pelo breu assombrado e sem janelas ao alto
quase se transfaziam rios morosos em visco,
bolhas borbulhantes no chão de barro salobre.
Era um outro mundo. Faltava a flor no confuso 90
mar de emaranhados galhos. Frio. Labirinto.
Ora, estranha como raro perceita em paludes,
certa calma pairava na escuridão redormente
como convidando a pouso. Mas quando a coruja
quis deitar, um ruído rouco ecoau de repente. 95
Era a lama. Borbulhava um brado embalante
qual pudesse desde sempre falar aos alados,
justo aquela, a lamacenta saliva da selva!

(De como a lama tratou a corujinha)

“Quê?” replica a corujinha, “vai-te embora,
lama, a verdadeira poeira sou eu, a coruja 100
donde nada aflora, que nada tenho de amável.
Tira os olhos de mim! Eu fui expulsa da selva,
quero apenas dormir.” Mas a lama moveu-se
rumo à coruja num gesto de andar onduloso,
forte e pronunciando: “Mal me julgas, pequena! 105
Neste canto que a cor perdeu a verdade floresce:
Não se desdenha a dor e não se ofende o fraco.
Conta, coruja, que te passau em donde aportaste?
Diz-me logo o teu mal e divide a vida comigo.
Dar-te-ei talvez o consolo.” A coruja demite: 110
Não a chamasse a lama fraca ou nem inocente.
Qual a razão de tanto amor? Bastava o silêncio,
stava acostumada ao abandono dos pássaros.

(De como a lama falava e profetizava)

Era tanto o desumano pesar que as palavras
roucas falhavam. Mas a lama não se abalava. 115
Era enganado aviso, disse a bolha à coruja,
pois ali ninguém a vexava. Em calmas cavas
era daquela voz que careciam as sombras.
“Grande mentira!” aduz a corujinha aturdida.
“Como seria possível ser assim recusada 120
minha voz se fosse bela? Por que me abondanam
quando busco algum amigo?” A lama suspira:
“Tem paciência pois um dia, num mundo distante,
homens saberão de ti, viverás na memória.
Estes olhos doces teus brilhavem às almas 125
quando lerem a tua história. Muito falavem
sobre a tua beleza.” Mas a coruja duvida:
“É que não ouvirão a minha voz retorcida.
Falam só de flores.” Ora, a lama dissona:
“Ouve, corujinha! Da flor cairão as pétalas. 130
Tua voz ficará. Os outros cantos são vagas
letras que a flor odeia. Mas se queres a cura,
sei de como afinar tua voz.” Dissesse o remédio
pois a coruja faria de tudo em busca do belo!

(De como a lama ofereceu-lhe a cura)

Duas caminhadas havia. Ficasse na calma 135
simples e encontraria a felicidade perfeita:
Lá, teria as afeições duma fauna completa
nem faltaria abrigo nem abraço entre as ervas.
Mas o outro caminho seria um rumo de busca
longe e perigosa. Dentre os faróis da beleza 140
era aquele o da voz suave e da música doce.
Lá, ninguém ouviria a rouquidão da coruja.
Ela, porém, ouvindo aprenderia dos homens
como cantar: divino dom! E quando voltasse
para a selva teria o carinho de todas as aves. 145
Mas o rumo era incerto, pois chegar requeria
duro risco e risco maior retornar a viagem.
Nem se podia permancer ali para sempre
pois havia um mal naquelas terras distantes
inda que fossem belas. Ora, mesmo as cores 150
muita vez fugiam dali, soluçando assustadas.
“Eu não temo,” prepondera a contente coruja,
“quando chegar lhes dave alento.” Pouco atinava.

(Do quanto custaria a cura à corujinha)

Mas a lama explicau-lhe a gravidade do preço,
antes que decidisse: “Filha, teus olhos são fracos – 155
não poderás chorar senão morrerás pelos olhos!”
Pasma, a coruja ponderau, pesando a verdade.
Que penoso mal macerava uma terra de canto?
“Fica conosco pois o amor è somente dos nossos.”
Mas a coruja olhando os ramos feios em volta 160
não confiava no amor salobro e não se arredava:
Antes morrer que viver abandonada, pensava!
Stava pois decidida a venturar o seu rumo.
Pois a lama pelas ondas mostrou-lhe o caminho.
Quando a coruja livre abrive as asas na estrada 165
já não mais ouvia os avisos, voava empolgada.

(De como a corujinha voou e aonde chegou)

Foi ligeira a sequência: A coruja varar pela noite,
sombras, passar por emaranhados novos de estrelas,
ares, sorver esperança. Pensar também no retorno
nem caberem no peito alegrias da voz redimida. 170
Ver na viagem lugares impossíveis, ignotos
entre surpresas. Quando enfim o céu alvorau-se,
vindo o sol amar, na manhã, os amores primeiros,
veio a dar num campo crescente a fiel corujinha.
Duas árvores gigantescas em mares dourados 175
pelo trigo soavam notas amenas ao vento.

(De quem a corujinha encontrou no novo mundo)

Quis de pronto aprender das mães das avezinhas
nova e nativa língua. Ela imitava os cantares,
arte custosa que era. Repetia exercícios
como se fosse escola: Duro alcançar a meta 180
quando sublime. Porém seguia firme a pequena
pois sabia e reconhecia um divino desfecho.
Mas saiu correndo pelo campo um menino!
Tinha às mãos uma vara e remexia as espigas,
vinha brincando pela terra e na sombra da folha. 185
Era tão bonito assistir uma rara inocência,
tanto que a corujinha sentou-se junto à criança
como se fosse amiga de longa data invisível.
Ela desfrutava do mundo e seguia o pequeno
cada passo rumo à casa – mas algo a magoa. 190

(Do primeiro mal que a corujinha viu)

Conta, coruja, a cena que vês! A mãe do menino
cobre o rosto coas mãos. O pai demora por quê?
Mas morreu? E quem o levou? O pequeno pergunta,
vai ouvindo e não entende. Começa uma luta
pelo campo, onde as armas dos homens trovejam, 195
vão levando os pais e mal-tratando a colheita.
Muito ódio corria por entre um vale formoso.
Mas a mãe tomando o filho ao braço se esconde,
foge deixando a casa em fogo e nada se explica.
Vai correr no desespero da noite em ruína, 200
vida abandonada e jornada sem mão de socorro.
Quando pela aurora a coruja viu os caídos
foi menor a sua alegria ao vislumbro do sol.
Sangue coloria o mundo novo e formoso:
Era um rubro mar, veneno afogando a semente 205
como os corpos estirados, os olhos abertos.
Mortos dividiam campo coas folhas cortadas
pela espada, no fogo as margaridas amargas.
Sombras eram devoradas pelos calores,
flama carcomendo o vale. A causa da luta? 210
Cada um se aclamava dono da terra sem dono.

(De como a corujinha entristeceu-se no mundo)

Onde agora a corujinha veria os fugidos
pelo mundo, por onde procurar os perdidos?
Como se não bastasse não saber o caminho
mal pensava em si mesma e no aviso da lama. 215
Bom coração, esperava ainda virem os anjos,
céus colhendo os olhos dum pequenino caído.
Olhos, frascos de grave fluido gris e tristeza!
São brilhantes pedras mas são pedras espessas
como quimera pesada e nunca forte nas faces. 220
Duas pequenas se pesam tão amargas ao homem,
quão pesadas na cavidade estelar da coruja?

(De como a musa das aves inspirou a coruja
e de como a coruja aprendeu a cantar)

Mas a musa e generosa das aves infunde
força ao peito e logo a corujinha se eleva.
Quase decidira-se a retornar para a lama 225
mas a voz suave consola. Voando por plagas
veio pousar aos pés duma riba sonosa e riacho
para escutar calada: o canto do coro das aves,
ondas odorosas, murmúrios, brinco de bichos
pelos ramos endourecidos. O vento macio 230
dava dança aos arvoredos, voz da floresta:
São surpresas as alegrias suspensas nos ares.
Pois a coruja, atenta ouvinte, aprendeu a cantar!
Quando ouviu a própria voz afinada na várzea,
quase abrive as asas como as almas o peito 235
para engolfar a selva, o mundo inteiro no abraço.
Todo o ser da coruja transformara-se em flauta,
eco sorridente dum canto impossível e doce.
Era como se o coração renascesse num raio.

(De como as alegrias cantaram coa corujinha)

Canta pois um membro novo no coro supremo. 240
Quando alguma nota se perde perante alegria,
quando o ritmo, o metro correto se vai, recomeça.
Doa mais atenção à causa, esmero da indústria,
pois o preço do canto perfeito è perfeito trabalho.
Ora, passava os dias na imitação das cadências, 245
cada das horas dava às auras proezas precisas.
Nesses momentos intensos, as outras aves ouviam
como dum anjo invisível o canto maior da coruja.
Pulsa, amor, e passa das veias às vozes do vale,
deixa as aves saberem o quanto cabe num peito! 250
Música, canto estelar que calas armas dos homens,
fala às cavas das almas, leva além os lamentos!
Tanta natura e puras notas apagam as mágoas.
Como se esquecem pássaros que as horas exaurem,
sol que descendo e dormindo dourifica as margens! 255
Como se esconde o dia atrás das árvores velhas.
Quem será na terra mais feliz do que os pássaros?
Cerram ocelos e dormem doces no meio das árvores.









© Greg Ory 2019, Nulla Dies Sine Linea. Website by Gregorius Vatis Advena






Canto da Coruja Folha III






(De como a corujinha chegou à cidade)

Já podia voltar de viagem e toda a floresta,
mesmo a rosa amaria agora a voz da coruja. 260
Mas um grandioso intento aflorau-lhe na mente,
pois ouviu que a melodia na voz das crianças
era quase mais formosa que o canto das aves.
Era preciso saber de qual mistério se alegram
esses coros jovens, ouvir e aprender a cantar. 265
Nesta busca, a corujinha voau por veredas,
vias desconhecidas, até chegar à cidade.
Para trás ficarom os montes ermos e vales:
Era uma nuvem turva a primeira luz avistada,
ruas amareladas por artifício de postes, 270
fumo das casas pelas chaminés abafantes.
Eram muitas pedras, estranhos entre calçadas,
mais além o asfalto calçando o sapato de carros.
Prédios velhos surgiam, prédios da cor da fuligem:
Quando os olhos procuravam o céu, encontravam 275
cinzas paredes que nunca chovem, véu de vazios.
Não havia flores. Os pés passavam por praças,
turbas carregando maletas. Ninguém escutava
nem enxergava a corujinha no breu, no barulho:
Era o desassossego da rua adentrando a pequena. 280

(Do segundo mal que a corujinha viu)

Quão desassistidas as horas! Numas esquinas
caem da mão calada moedas que párias apanham.
Que te importa o pedinte, coruja? Segue na senda,
busca o coro jovem que queres, nota-lhe as vozes,
vai-te embora. Mas imagens malsãs te dominam 285
pelas ruas. Conta o novo pesar que te abate,
deixa prenhes de pranto os olhos teus inocentes!
Era aquela mãe caída, o rebento nos braços,
fome na espera do pão impossível. Onde buscar?
Vai cantando um ninar ao filho seu que definha. 290
Onde quis a coruja colher o canto dos jovens!
Era melhor fechar os olhos na morte dos astros
ora ofuscados por luzes falsas, farol de automóveis.
Era melhor deixar a cidade e fugir pela sombra.
Mas a pequena ficau. Enquanto rodas corriam 295
rápidas, passos passavam refranzindo a testa:
Nem atinavam coa febre do abandonado menino.
Veio por fim no frio da madrugada o gemido.
Quando porém a coruja ouviu a voz pequenina
deu-se a surpresa: Apareceu, na imagem fatal, 300
ele, o menino perdido por entre a luta no campo,
olhos doentes ali, na calçada. Geme no colo
magro da mãe que o morbo nada menos poupava,
morte iminente. Era verdade o aviso da lama.

(De como a corujinha apiedou-se dos fracos)

Mas agora cumpria agir e pensar num auxílio: 305
Certo um bom amigo tinha o pão preparado,
logo viria o leite alentar a dor do pequeno.
Eram diferentes, porém, os planos de tempo:
Só, a mãe beijava e recobria em vão o faminto.
Não se contentove a coruja e saiu à procura, 310
pobre alado ser invisível. Mas quem escutava?
Nem o desespero daquela mãe lacrimosa
pôde mover à piedade as turbas passantes:
Nada se dá de graça e pressa agita passantes.
Era mundo de ensurdecidos. Podiam as asas 315
inda salvar da morte aquele corpo minado?

(De como a coruja inspirou a bondade de estranhos)

Sem demais pensar, a coruja voau resoluta
rumo à praça e fez a promessa: Não retornava,
não de mãos vazias! O seu apelo inaudível
certo inspiraria o peito aberto dum homem. 320
Teve sorte! Como sentindo desejo imprevisto,
um dos pedestres, mera sombra, muda o caminho.
Vai dirigindo os passos à rua escura dos fracos,
vai seguindo, sem o saber, o cantar da coruja.
Inda que não se pudesse ouvir a flauta perfeita, 325
ela tocava a corda das almas. Aquele pedestre,
pois, chegou à rua da mãe, do menino e da morte.
Que te abate os olhos, valente? Toma coragem
ora que cá vieste, levanta do chão os caídos!
Passa o tempo num sopro qualquer. Usa o ensejo, 330
salva uma vida! O homem ouviu. A mãe explicau-lhe
tanto o céu que perdera como o que estava a perder.

(De como a corujinha conheceu a morte)

Mas o pedestre corajoso lançau-se na busca
como nave em tormenta rumo ao porto: ao pão.
Quantos remos forom perdidos! O tempo passava, 335
mar amargo. A corujinha perdia esperança
pois o pequeno gemia e não chegava alimento.
Quando o desconhecido retornau da jornada
cheia de angústia, tendo às mãos o pão e consolo,
dons de doadores sem nome, a noite era tarde. 340
Quanto aos abandonados pela calçada, dormiam
ambos, a mãe o sono da vida, o filho o da morte.
Que vacilas, herói? Do destino os autos tremendos
nunca esperam por nautas nem toleram descrentes.
Toma as prendas ora inúteis que portas e parte! 345
Tu, pequena coruja estranha no mundo sem sonho,
só agora recordas a escolha que a lama te dera?

(De como a corujinha desgostou-se do mundo)

Ai, corujinha! O teu pesar na floresta virente,
onde vieste do lenho ao mundo e foste enjeitada
pelos bichos, era um sonho apenas contente, 350
sonho apenas se agora bem comparas os casos.
Ora que transformeres a voz em flauta formosa,
ora indagas o coração e a resposta se cala:
Onde è bela a beleza perante a dor da verdade?
São de invejar os cegos e surdos: Falam apenas, 355
cantam sem ouvir o desprezo às flautas felizes.
Que farás, corujinha, que rumo novo tomaves?
Não te atristes, que a profecia da lama se cumpre:
Tua lágrima è tua morte! Deixa os perdidos,
canta a canção de iludir o pranto gris iminente! 360
Falta alegria? Ora, não cantes, decide-te apenas!
Vai-te embora, contente da voz, e confia na lama.
Quem sorvere em selva a perfeição do teu canto,
filha, será feliz, e terás um amor do universo.

(De como a corujinha chegou à capela
e do canto que ali aprendeu)

Mas não veio de longe o som das vozes maiores, 365
quando na noite seguinte a coruja chegou à capela.
Eram crianças! E como perder o ensejo esperado?
Ora, a coruja decide ouvir, aprender e partir.
Senta-se àquela janela envelhecida e contempla,
junto à cor dos vitrais, os sereníssimos cantos. 370
Ouve tanto e quase se esquece de si, redimida
pelas suaves cantatas, longe do altar e divinas.
Como não se esquecer de si no instante sublime?
Ser è sempre pequeno: ouvir è maior do que ser.
Certos acordes são eternidades, recorda-se. 375
Mesmo o instante, o fugitivo extremo dos olhos
rende-se à flauta mas a flauta nem sabe que existe.

(De como as alegrias redescobriram a corujinha)

Como são grandiosos os pequeninos cantores,
como a coruja adora as melodias amenas:
Tangem do infinito as cordas, soam acima. 380
Vai cantando junto aos puros e vai aprendendo,
vai mesclando os próprios tons à ternura do sopro
como se até o templo, parede e pedra escutassem.
Alma atenta, não perderia uma única nota,
antes transformaria o corpo inteiro em ouvidos. 385
Lá chegavam pois alegrias, voando coas vozes
pela capela, como se fosse o fim do universo.
Mas a vida è pequena e não se cabe na lira.
Voa, corujinha, dança e repete as cadências,
mostra a vida aos seres cuja vida è sem música. 390
Quando as alegrias redescobrem essências,
deixam no dia jamais matiz, murmúrios apenas.
Quando a coruja atinava coas alegrias e as notas,
via cumprida a promessa de aprender a cantar.
Ante os vitrais coloridos, cantava e nada retinha, 395
nada mais a liberdade, o seu voo, o seu canto.
Já podia deixar a cidade e passar pelos campos,
já podia alçar-se rumo às noites e aos sonhos:
ir ouvir estes colecionadores de estrelas
pela floresta, pois agora a floresta floria. 400
Era maior que as alegrias do mundo a floresta.

(De como a corujinha conheceu o coro
e do que atormentava os coristas)

Mas a coruja foi medindo a forma das faces,
foi notando a tez entristecida e cismando.
Ora, deixavam cabisbaixos a porta, a capela.
Que lhes passou, corujinha, vai ouvir o que dizem! 405
Era a voz que faltava, o bom amigo impedido:
Era o canto maior, abandonado à miséria,
guerra e morbo. E quem sabia se ainda vivia?
Cuida dos olhos, coruja, não te apiedes demais,
deixa a cada ser as próprias dores e parte. 410
Ela não ouve! Reflete tanto que não se contenta,
voa angustiada e questiona: Quem o doente?
Era de império saber a causa, locais e pessoas,
ir encontrá-lo, pois talvez lhe desse um auxílio.
Ela descobriu pelo coro o distante endereço: 415
Pois voau apressada. Andau seu andar derradeiro.

(De como a corujinha buscou o abandonado)

Já deixara o fumo urbano e passava por vales
onde o tal enfermo morava, a voz da capela.
Ia por casas perdidas, pastos, batia nas portas,
ia ouvindo atenta os ruídos, buscava os caídos. 420
Mal chegove ao campo ensanguentado na luta,
foi estudando os tratos mal-tratados de terra.
Pois a coruja recordava o singelo casebre!
Não correrom ambos dali, a mãe, o menino,
quando o fogo infame fustigava a madeira? 425
Não fugirom transtornados rumo ao incerto,
rumo àquela triste esquina? Viagem perdida,
alça as tuas asas, coruja, e volta à cidade!

(Dos descaminhos que a corujinha encontrou)

Inda que seja ingrata a rota, máximo esmero
fartas vence de velhos quiçá vergados fadigas. 430
Vem a procela insana e profliga universas as vias,
vagas jamais de boca narradas afogam as ribas.
Ventos vencem margens, árvores vastas devoram.
Morte pravos semeiam ares larga nos prados,
fracas do homem armas ante as terras convulsas: 435
trons e tremores, monstros e raios e pélagos raros.
Mas a coruja não se abala. Demanda a cidade,
pousa após impossível viagem, na busca da esquina.
Certo perdera o rumo como perderam o rumo
face à morte a mãe, o menino, a vida largada. 440

(De como a coruja encontrou um vestígio)

Era como a busca da morte uma busca na noite.
Mas passadas horas, os olhos agora pesados,
surge à vista tremulante a tétrica esquina.
Era o vazio: A morte ali passara primeiro.
Mas aonde foram levados e onde enterrados, 445
quais estrelas recolherom os cantos perdidos?
Não sabia. Porém os olhos amigos de cores,
cavas de amor às imagens, iam notando matizes.
Como um traço os pontos coloriam as ruas,
bem pequenos entre as sombras mas engravados 450
fundo junto às pedras. Eram vestígios de vida
lá deixados, cores dum canto simples e fraco.
Mesmo mudo, deixava rastos o canto cansado
toda parte por onde passava o menino das ruas.
Eram cores que apenas olhos sutis recolhiam 455
como os da corujinha que carregavam estrelas.

(De como os pombos reencontraram a corujinha
e do apelo que o seu remorso lhe fez)

Mas uma revoada de pombos, que a lama enviara,
veio interromper de repente a coruja ansiosa:
“Para, coruja!” falavam em ofegantes apelos,
“não prossigas. Ai de nós que te enjeitamos outrora, 460
que divina amizade enjeitamos. Perdão, corujinha!
Tarde a lama nos disse a verdade, pobre corrente
cuja espera por ti desespera e que chora por ti.
Que diremos de nós, arrependidos, sem sonhos?
Desde que ouvimos da tua aventura, voaimos aflitos 465
rumo à dor deste mundo maldito. Volta conosco,
vamos embora contentes, a velha casa te aguarda!
Sobe a todos os mundos a perfeição do teu canto.
Não descubras em vão a dor duma raça perdida,
vem conosco e deixa a cada mundo o seu mal! 470
Ouve, corujinha! Se prosseguires, morreies.
Não te apiedas mais de todos nós que te amamos?
Queres mesmo delir tua vida e nossa alegria?
Mesmo a rosa anseia por ti, remoída de angústia.
Não sacrifiques ao mal do mundo a lágrima e vive!” 475
“Pombo,” diz a coruja, “por que te apressas de longe
para transformar o meu coração numa pedra?
Como deixar derribado ao leito ingrato da morte
quem carece de mãos e pão? Respeita-me, pombo!
Quero cantar aos pés de quem padece calado! 480
Ora que este mundo deu-me o dom do seu canto,
como fugir, mentir, abraçar uma vida covarde?
Ide embora se não quereis me seguir na jornada!”
Mas os pombos partirom, cobrindo o rosto e chorando
pelo intento perdido. Os pombos podiam chorar. 485
Ela porém contrita seguiu procurando a verdade.

(De como a corujinha seguiu na jornada
e da casa aonde chegou)

Quando os coloridos vestígios vierom ao fim,
veio a dar num jardim que a madrugada encobria.
Era pois no horto que encontraria os perdidos?
Inda soava pelos galhos o apelo da lama... 490
Longe e mal-iluminadas surgiam janelas
entre-abertas, pequena casa e casa singela.
Vinha dalguma vela o lume sombrio que velava
pelo quarto escuro, onde jazia o pequeno.
Frio! Vivia? Vivia, mas cobiçava-lhe a morte 495
contra quem a coruja foi lutando e cantando.
Mas o menino já não ouve o cantar da tutora
cujas asas vão abraçando uma vida sem viço.
Pelo jardim circula o pedestre da noite passada,
ele que em vão trouxera pão e leite ao pequeno, 500
ele que em vão trouxera àquele abrigo o pequeno.
Não morrera então! Seria possível salvá-lo?
Sem pensar, a corujinha se acalma e se alegra
como se o céu a tivesse arrabatada em surpresa.
Ora, amava decerto como um filho o menino, 505
filho sem nome e professor maior do seu canto.

(Do mal maior que a corujinha viu)

Mas o caso è grave e não permite alegrias
pois o corpo se debatia, a flama na vela
prestes à treva, a vida em renitente agonia.
Pobre mãe saíra triste em busca dum médico 510
mas a voz na cama esperava em vão o remédio:
Nem abraço e nem um colo lhe foi concedido.
Anjo incapaz, a coruja corre e geme e suspira.
Não havia ninguém naquele abrigo insensível?
Certo havia! Havia de fato os donos do abrigo: 515
Iam afora cobrando quantias à mãe do pequeno
como ao generoso pedestre: “Onde o dinheiro?
Paga agora, paga ou leva embora a criança!”
Mas os apelos e as esperanças pouco adiantam
contra impiedade dos cegos, espinho da rosa. 520
Como se ouvisse ameaça a voz implora na cama:
“Volta, mamãe!” Voltava só a coruja, coitada,
olhos pesando mais que o mar, a flauta quebrada.
Tanto buscara a cura da sua vida sem canto
mas o canto de agora mal salvava uma vida? 525
Foi em vão que a corujinha aprendeu a cantar?
Só restava ouvir daquele amigo um gemido
mas a coruja esperava cantarolando um ninar.
Quando as asas o envolveram, a morte abeirou-se.
Inda entoando a canção de redimir o infinito, 530
lá se rendeu às estrelas a vida calma e caída.

(De como a corujinha chorou no jardim
e do que então lhe ocorreu)

Ó quem visse no amanhecer os olhos da pena!
Quando o primeiro raio corou o silêncio do alto,
já desciam ao mundo três estrelinhas do céu.
Vinham de longe, vinham vivas, vinham ao quarto 535
frio levar um sopro infantil ao jardim encantado.
Mas as flores restavam indiferentes à morte,
inda lembrando a severidade amarga da lama:
Todo amor às flores paga o preço do espinho.
Tanto esforço a coruja fizera, tanto aprendera 540
pela beleza dum mundo que não se apieda?
Não se conteve e repentinamente entendeu:
Era o dilúvio, eram as lágrimas, era a morte!
Ela chorava e o corpo se desfazia nas gotas,
era um vaso feito de gotas e vaso quebrado. 545
Ela soube cantar, amar e morrer pelos olhos.
Mas da piedade deu-se um milagre bonito
quando um raio transluziu além de seu corpo!
Foi dispersa ao mundo intraduzível gama,
luz sem fim prenunciando ao véu a verdade. 550
Ela derramou-se em matizes pelo universo!
Ela deixou por toda parte um traço distinto
donde emana a derradeira visão da alegria.
Toda manhã, os pequeninos tocam nas flores
gotas luminosas que um gesto raro espalhou. 555
Ó bondoso e triste sacrifício dos olhos,
ela que te verteu à terra chamava-se orvalho.





Fim













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Folha IV






Vitória Régia









em memória
de Gonçalves Dias
e d’Os Timbiras
que naufragaram








Prenhe? – Da boca ressoava um grito agitado.
Vinham trazendo Mara, que aparecera de bucho,
semi-nua, de mãos amarradas. Em torno da jovem
índia aglomerava-se a tribo como num círculo,
não porém por dança. A voz do cacique, tremente, 5
dava bem a saber o tom duma fúria sem cura:
– Quê? De menina fez-se meretriz e me ofende?
Há de morrer o homem que desonrou minha filha! –
Pouco fora o valor da intervenção dum sábio,
velho pajé, guerreiro, quiçá mulheres idosas. 10
Era de ordem vi-la puxando pelos cabelos,
enquanto ao pé da maloca-mor o pai preparava
rara tortura: Pintara o rosto de luto e de ódio!
Tinha às mãos já pronto o cipó, a vara pesada:
– Mata um homem! – diziam , nem faltavam decerto 15
casos, provas. Matava no ato! Duas vergastas,
uma bastava a depender da mão que lançava.
Era uma arma tremenda e ganhadora de guerras.
Suja de barro, Mara baixava o rosto molhado
frente ao cacique, a tribo vislumbrando aturdida: 20


1




– Mata não, Puã! – interpõe-se ao golpe o pajé –
deixa ouvir por bem de Ceci, nossa Mãe, a menina.
Como foi isto, Mara? Quem te abusou, de que terra?
Conta, salva a tua vida e confessa a verdade! –
Mara porém calava, os olhos deitados à terra. 25
– Isto me afronta, – Puã perdia a voz desairada –
– quem não vê que pede a própria morte a devassa? –
Ato contínuo, desferiu-lhe uma forte vergasta,
balde ensanguentado alagando um rosto sereno.
Mara perdeu naquele mesmo instante a beleza. 30
Era em vão que Jupi, o bom pajé, defendesse,
único homem ao qual tamanho império se dava:
– Deixa viver, Puã, deixa a criança no bucho,
deixa viver quem nem nasceu nem teve nem tempo
inda de ser culpado. Mata a menina depois! – 35
Era o silêncio que o não deixava mais em sossego:
Mara, quase morta e de boca ainda calada.
Ia-lhe dando uma sanha ingrata pelas entranhas
tanta insolência: – Quero que fale! – dizia Puã –
se quer viver, que o diga! – ora os envelhecidos, 40


2




olhos túrgidos, davam algum aceno discreto,
certo implorando à índia falar. Jupi lhe tomava
pelas mãos, limpando sangue: – Defende-te, Mara,
tem piedade de nós e diz ao juiz o que houve.
Este silêncio já nos mata. Fala, filhinha! – 45
Mara falou. Apoiada ao braço do velho pajé,
a língua, torta depois do golpe, buscava palavra:
– Foi Jaci, meu pai, Jaci do céu que mo deu. –
– Cuja audácia és, menina! – ruge num rouco
grito o chefe Puã seu pai, e desfere-lhe às costas 50
novo golpe, qual se quebrasse uma árvore farta:
– Como ultrajas – segue o pai – um nome divino,
tantas vezes santo e venerado entre os justos?
Ó guerreiros, que grei ingrata de minhas entranhas
veio à luz! E foi Jaci, que clareia os abismos, 55
alva como nenhum mortal que se viu neste mundo,
foi Jaci, infeliz, que te pôs no ventre este filho?
Ousas levar a tanto ultraje a impostura que encenas?
Falta-me o golpe forte à mão de matar-te, rameira!
Diz a verdade, fala já! – Os homens da tribo 60


3




todos angustiados olhavam: – Mara não mente! –
disse Jupi, o cajado de pau cravado na terra –
conta, menina, como foi! – E a boca falou-lhes.
Foi na terra das amazonas o sonho de Mara,
onde a luz das noites era o céu estrelado. 65
Sobre a montanha longe surgia o pálido rosto,
faces cintilantes pousando os olhos à virgem:
– Mara – dizia – terás uma filha. Mani se chamave. –
Quando acordava, restava do sonho apenas a lágrima.
Todas as noites, a imagem voltava. Mara esperava. 70
Era como se a voz de Jaci lhe falasse, do alto,
como se estrelas cadentes, plenas de raros presentes,
ora viessem elas mesmas trazer-lhe uma prenda:
– Mara – diziam – terás uma filha. Mani se chamave. –
Tarde o pajé Jupi lembrava as noites compridas, 75
quando se ouvia da moça um estranho delírio,
quando ainda na aurora aqueles olhos brilhavam.
Era em vão que bebia misturas em busca de cura.
Logo voltava o mesmo sonho, Jaci que cantava:
– Mara – dizia – terás uma filha. Mani se chamave. – 80


4




Certas vezes, Jaci tomava a forma dum homem
bem brilhante, guerreiro navegando nos astros.
Pouco ajudava a bofetada que alguma das velhas
dava-lhe às faces, no meio da noite, pouco ameaças.
Mara sonhava acordada. Alguns a tinham por louca. 85
Ora que o ventre não mais negava, ouviam a história
como maravilhados, e irados, da boca de Mara:
– Foi Jaci, meu pai! – e o velho pajé se lembrava,
algo arrependido, de frases às quais recusara
crédito, sempre que ouvia a voz de Mara na rede. 90
Como agir? Puã perguntava à prole guerreira
pelo pai de Mani. Mas Mara nunca se vira
só com homem que fosse nem na tribo nem fora.
Sua vida era junto a Puã, ao pajé, a doentes.
Era fraca demais para guerrear em batalha, 95
pela caça. Mesclava fluidos suaves somente,
gotas de cura, tintura que a selva dava de alívio.
Ante as vergastas, era milagre que ainda vivesse,
mal se mantendo em pé, ali, no meio de todos.
Foi Jupi que interveio, de novo, e Puã repondera: 100


5




– Viva, portanto! Mas viva longe de mim, escondida
como as meretrizes do mato. Depois de parir,
deixe a menina, tome seu rumo e nunca retorne! –
Duas lágrimas já se mesclavam ao sangue de Mara,
rosto encharcado. Jupi tomou-a pelos braços 105
e pôs a ensanguentada num canto longe da tribo,
onde todos os dias lhe dava um banho de folhas,
ervas e algum de-comer que generosas mulheres,
longe dum pai severo, preparavam sem medo.
Muitas noites, porém, Puã procurava o pajé, 110
e longe das vozes confabulavam ambos na mata:
– Onde se viu, ancião, Jaci emprenhar uma virgem?
Diz, Jupi, que louca lenda foi esta de Mara? –
Mas o pajé, interrompendo: – Mara não mente! –
Como não? – retruca – Queres crer de fato que a lua – 115
e logo tapava a boca. Jupi narrava-lhe casos
raros, nunca aclarados. Mas um ser de vingança
não deixava em paz o cacique. No plano da mente
vinham surgindo pavorosas máquinas múltiplas.
Mara também buscava atônita alguma palavra 120


6




calma do bom Jupi, mas era longe o consolo:
– Todo meu amor meu pai assim que me paga?
Ele crê que uma vida fiel por todos os anos
perpetre ligeira e facilmente tanta desonra?
Mãe Ceci, eu nunca tive um pai neste mundo! – 125
Tais esforços eram contudo escassos de efeito.
Nada arredava Puã dos passos dados, e duros,
nula palavra o pudera convencer duma lenda:
– Olha, Jupi – tomou o pajé pelo braço uma noite
– sabes que tenho bom coração, mas essas histórias 130
inda me matam. Diz a Mara o quanto lhe quero.
Pai è quem perdoa! Se confessar que è mentira,
diga o nome do pai de Mani, ou mesmo que o cale,
diga apenas que é de um homem nosso que è prenhe,
eu a perdoo. Homem! Este desgosto me mata... – 135
Mara, porém, ouvindo do velho a nova embaixada,
como batida dum raio, aleventou-se tremendo:
– Não me ofendas, Jupi! Diz a meu pai me perdoe,
pois o preço do amor não pode ser a mentira.
Foi Jaci que me deu esta filha. Onde no mundo, 140


7




céus, eu podia apontar o pai de Mani sem mentir?
Não encontro em selva alguma o divino guerreiro,
nem entranhas de minha mente confusa conhecem
donde venha o pai de meu fruto. Diz ao cacique,
homem, diz que mande buscar num rumo distante, 145
lá buscar no mundo em vão dos meus sonhos o pai,
que mesmo eu me torturo, confundo dias e noites,
busco em toda parte, no céu e nas selvas, a imagem.
Foi-se-me embora, Jupi, embora num canto estelar! –
E prorrompia em lágrimas. Era nesses instantes 150
vagos que vinha o pajé falar ao pai na maloca:
– Ouve, Puã, a causa do mal de Mara è mistério.
Não condenes, amigo, sem prova maior a menina. –
Disse-lhe então o quanto ouvira. Puã refletia
horas inteiras, trocava o dia por noites na mata: 155
– Isto è muito orgulho! – ouviam-no a sós no escuro.
Como porém lhe surgissem, dessas horas ermitas,
novas ideias, frescas e ao mais das vezes abruptas,
certa noite abordou a Jupi num súbito enlace:
– Chama os xamãs a que imperas! – Foram lá reunidos 160


8




cinco homens, no meio da noite, bebidos de fumo,
água e maga mescla de terra. Dissessem as línguas,
sob a força de sopros ancestrais e fantasmas,
quem o pai de Mani, de que tribo e terra oriundo.
Mas naquela noite as bocas-xamãs se calaram, 165
pouco auxílio o fumo, cantos e o casto chocalho.
Era uma treva densa a resposta dos seres noturnos.
E bastava um silêncio tal a Puã. Mal se continha:
– Mas Jupi, se verdade è que a minha filha não mente,
nem os santos xamãs, que profundamente se calam, 170
claro está nosso caso! – Jupi fitava assombrado,
mal movendo as mãos e a cabeça. Puã prosseguiu:
– Mara enlouqueceu! – E seria em vão discordar.
O pai convencera-se, pois, que a filha fora ultrajada,
crendo porém se tratar dum cavaleiro da estrela. 175
Nesses lances vinha-lhe novo a máquina à mente,
como suflada por espíritos maus da vingança.
Poucas manhãs depois, Jupi notou os guerreiros
mudos que afiavam a ponta de lanças e frechas,
cordas, arcos, enquanto carragavam as bélicas 180


9




tintas, cor de alerta e morte. Jupi lhe falou
severo e baixo: – Puã, que nova guerra è esta? –
Como um raio a notícia varou as veias do velho.
Era um grande assalto contra uma tribo pequena,
mera cabana de desprovidos e magra existência. 185
Não havia tempo a debates. Correndo ofegante
junto aos jovens, Jupi tentava em vão demover,
e via já cons olhos d’alma o banho de sangue.
Não se enganou, a tribo foi rota. Contudo Puã,
querendo ali mostrar algum espírito humano, 190
fez amarrar ao tronco o cacique e dois valentíssimos
índios rendidos. As mãos meladas de sangue, rugia:
– Como foi que disseste, infeliz? Puã desvairado?
Fora tua a filha abusada na flor da inocência,
logo se vira a quais mortais ações te moveras! 195
Mas evoco a sábia voz de Jupi que te diga
onde nas selvas se viu o caso incasto de Mara!
Faço-me breve: Confessa qual infame dos vossos
foi o autor da triste audácia, confessa e viveies. –
Mas ninguém conhecia daquele evento nem alfa. 200


10




Que responder? O cacique ferido falava do tronco:
– Como, Puã? De nós um gesto desses não sai.
Esqueces tão depressa como somos amigos,
como a vida nossa è difícil? Os jovens morreram.
Quem acusas dum crime tamanho se apenas caídos 205
vivem conosco, o resto de adoecidos idosos? –
Nesse momento, Puã tomou da mão dum guerreiro
seta aguda: – Fala! – de nada valiam apelos.
Antes porém que o degolasse, Jupi lhe remete:
– Pára, Puã! Não vês que o homem diz a verdade? 210
Não bastou, cacique, vergar do próprio rebento
teu o ventre e perder num dia a inteira virtude?
Fora preciso ainda assolar essa gente distante?
Tem paixão duma tribo cujo único erro
foi estar em paz e tão perto da tua iracúndia! – 215
Ora Puã, nos olhos um lago de líquido ódio,
ato contínuo puxou coa corda forte do arco,
quanto pôde, a frecha maior que ali se mostrou.
Largou. Veio de encontro ao corpo exposto a seta,
quase o partiu em dous. E degolou-se os restantes. 220


11




Quando a má notícia chegou aos ouvidos de Mara,
pela boca de alguma das velhas, correu como louca,
cá e lá, tapando coas mãos os olhos fechados:
– Não lhe bastou a vida da mais infeliz das mães
que o mundo verá, que já pareço morrer renegada! 225
Ó Jupi! Foi preciso levasse o crime adiante,
ir imolar um canto por quais estrelas choraram!
Foi em nome da minha honra este crime hediondo?
Minhas palavras, Puã, se perderam. – Jurou de joelhos,
ante os velhos presentes, que nunca mais falaria, 230
não a Puã, novamente. – Pois que se cale a rameira –
disse Puã, golpeando o chão, ao saber da promessa.
Mas a natura muda os maus humores dos homens.
Passa o tempo e as emoções extremas vanecem,
nascem novas. Nasceu, numa linda aurora, Mani. 235
Era serena e desde a primeira hora da vida
foi uma fonte de amor. O terno olhar amansava
mesmo feras e quem a visse enlevava alegria.
Vinham velhas portando toda espécia de plantas,
gotas odorosas, cultura dos anos inteiros. 240


12




Como se ali demandara um novo, ignoto mistério,
visto apenas em lenda remota, xamãs abalavam
rumo à casa tosca de Mara, vencendo a distância.
Mesmo um guerreiro se maravilhava em tanta ternura.
Mara aprendeu a sorrir novamente. Passava as horas 245
dando alento e leite a Mani, e dava-lhe o colo.
Eram risos porém de pouca vida e momentos.
Vinha uma sombra em meio ao raio novo de luz.
E quase chorava ao lembrar a mão, a voz de Puã:
Deixe a menina, tome seu rumo e nunca retorne! 250
Mara definhava aos olhos vistos de inquieta
nesses lances, pobre mãe se abraçando à criança.
Ora, Puã, como ouvisse os repetidos relatos,
não porém ousando adentrar a oca da filha,
houve por bem mandar trazer embora a menina 255
quando Mara dormisse. Houve debate e conflito,
houve pouca gente disposta e muita insistência,
tanta relutância que apenas a grave ameaça
pôde vencer. Lá se foi na noite, portanto,
triste tira de velhas tomar a filha de Mara. 260









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Vitória Régia I Folha V






Levaram. Quando enfim Puã tomou-a nos braços,
vendo a graça infinita e sorridente da neta
enquanto toda a tribo chorava, amou-a de morte.
Foi em tal ameno humor que Jupi abordou-o:
– Olha, Puã, a gente vai-se embora com Mara! 265
Não dividas mais o amor que lhe temos e à filha. –
Mas Puã, num lance abalado, cobrindo a pequena
dentre afagos e beijos, ajoelhou-se cantando:
– Esta è Mani então, a filha alegre de Mara?
Mani! Mani me salvou. Puã renasceu nesta aurora. 270
Mani, guerreiros, Mani carece do leite de Mara! –
Súbito alevantou-se, cruzando num átimo o pátio
rumo ao recanto da filha, seguido pelos índios
todos afoitos, levando ao braço Mani que dormia.
Mara, porém, deitada de bruços como a poeira 275
pelo chão que os olhos alagavam amargos,
via já perdida Mani, perdida a esperança
como no sonho no qual Jaci levava o rebento.
Foi tomada de assombro quando o pai adentrou,
num ímpeto grave, portando à boca o peito pesado: 280


1




– Mara, mha filha, Puã perdoa o quanto fizeste!
Toma aos braços o anjo bom que ao mundo pariste,
fica conosco o quanto queiras e poder criá-la!
Dá-me as mãos, esqueçamos para sempre o passado! –
Ela, contudo, curvada, não lhe dizia palavra. 285
Tendo Mani de volta ao braço, baixava as pupilas.
Inda doíam as costas da chicotada levada,
inda no rosto a marca macerava-lhe a carne.
Não esquecia os pobres tipos que o pai trucidara.
Ora, Puã, aterrado, cobria o rosto coas mãos: 290
Era severo o veredito dum longo silêncio.
Desde então buscava em vão a vênia de Mara.
Vinham presentes. Era visto falando sozinho,
ora chorando à beira dos rios, ora batendo
forte ao peito. O nome de Mara soava no escuro 295
quando o pai sonhava a sós. E de nada valiam
rezas nem exortações dum velho pajé venerável:
– Filha – dizia Jupi – em qual tristeza te acabas?
Sê modesta, Mara, aceita o perdão de teu pai
e volta a viver conosco. Não te percas em pena! 300


2




Antes tem amor de teu pai em nome da estrela! –
Mal sabia Jupi dos tantos sonhos terríveis,
cena que atormentava a mãe de Mani pela noite.
Quando veio a fome, rarearam-se os peixes,
mal chovia e caíram pragas sobre as espécies. 305
Era em vão os xamãs da lua pintarem o rosto,
era em vão invocar na mata espíritos puros.
Pouco adiantava o sacrifício das cobras,
pouco o sangue bebido acalentado das feras.
Não surtiam efeito as oferendas diversas, 310
era como se fossem surdos os seres e o sopro.
Muito se debateu na tribo sobre a causa,
fonte de tanta privação, carência da vida.
Cada dia passava na inconsequência da seca.
Era o milagre do mal a visão da flor definhada, 315
trilhas recobertas de carcomidas carçacas.
Certo os elementos conjuravam desgraça.
Quando após as plantas as aves foram embora,
houve clamores altos e o pranto forte soava.
Quando a pedra pareceu renegar de repente 320


3




amparo aos pés, os pés tituberam na pedra.
Ora os flagelados deitavam à espera da sorte
pela maloca erguendo a vista ao céu taciturno.
Quanto mais Puã pensava, mais lhe passavam
cenas à mente de como outrora punira Mara: 325
Mara perdeu naquele mesmo instante a beleza!
Quando fechava os olhos evitando a sentença,
uma coisa apenas lhe parecia importante:
Era mister prover Mani do quanto possível!
Não apenas Puã, mas também os velhos xamãs 330
e guerreiros davam àquela bem-amada da tribo
tudo que houvesse e todo mal visível pedaço,
fosse peixe, pássaro, fosse flor ou floresta.
Mara desesperadamente alentava a menina.
Quanto horror contudo ouvir o grito noturno 335
quando acordava a sós dalgum tristíssimo sonho.
Quantas vezes foi vista vagar, levando Mani
ao braço, sob a luz da estrela. Tantas estrelas
eram vistas naquelas eras, era o infinito.
Mara varava as auras lunares horas inteiras. 340


4




Muita vez, erguia a filha como um troféu,
talvez escudo contra a vida vaga na terra.
Era uma espada luminosa em celeste cadência.
Como brilhavam os olhos seus: Mani cintilava!
Nesses enriquecidos segundos o mundo esquece 345
quase a fome que assola e dói num gozo sem nome.
Coisa notável, jamais se vira Mani chorar,
sorrindo sempre. Era decerto um anjo encarnado,
era uma porta à salvação do peito. Era divina
bênção consolando a tribo perante a miséria. 350
Ai esperanças, quão diverso o plano dos astros!
Doze meses depois de nascer, Mani pereceu.
Quem naquela noite ouviu os urros de Mara,
pouco lhes deu valor, pensando que fossem
inda os velhos sonhos. Foi durante a manhã 355
somente que a gente ouviu Jupi. Caiu de joelhos
ante os olhos de todos os reunidos guerreiros,
velhas, xamãs e do chefe Puã: – Mani morreu! –
Uma fortíssima frecha varou naquele momento
tanto o cacique quanto o resto dos moribundos. 360


5




Fora desferido o golpe final, era certo,
contra a tribo e debalde misturavam gemidos.
Ora Puã chorou, invejando anciãos que morriam,
vendo morta na bem-amada uma nova esperança.
Há no homem, pior que a fome verga do ventre, 365
outra escassez: o pão das almas também se perdeu.
Os mais amados ao fim se vão e seca-se a fonte
donde outrora o transtornado sorvia alegria.
Era porém um pesar maior que Puã suportava.
Via já perdidas as duas almas queridas, 370
uma de morte, outra de similares silêncios.
Mara calava. De todo alheia ao luto de alhures,
ia cobrindo, coa própria nudez, a morte da filha.
Não permitia à tribo entrar. Velava sem nome.
Quando de noite durante a chuva Jupi procurou-a, 375
núncio da dor de muitas bocas num coro de luto,
viu-a deitada rente a pequenina defunta:
– Mara! Mani morreu, filhinha. Nada se pode
contra estrelas. Mas se queres matar-te de luto
longe de quem te amou e do quanto ordena prudência, 380


6




deixa ao menos a grei de quem se deplora contigo,
Mara, despedir-se da bem-amada que deste à floresta.
Pensa na gente afoita que espera afora um consolo!
Não lhes negues divino direito, que neste mundo
nem o vivo pertence ao vivo, e menos a morte. 385
Vem comigo, filhinha, devolve Mani ao regaço
generoso da terra, deixa partir para sempre
quem a morte carregou. Em vão te defendes!
Ouve teu pai que quase morre de tanto remorso.
Morre? Mara, teu pai também morreu neste dia! 390
Resta viva somente uma mera força ambulante,
corpo que os olhos mal reconhecem. Puã se deplora
frente ao mundo. Pede perdão a quantos o ouçam,
roga implorar um derradeiro afago à defunta.
Vamos afora, vamos velar pela morta cons outros. – 395
Mara, porém, respondeu sem grande esforço e cuidado:
– Que me importa agora, Jupi, o amor dessa gente?
Quando Mani crescia em mim, ninguém me ajudou,
ninguém confiou. De quem maior consolo esperei,
Puã, meu pai, me baniu, puniu-me como rameira! 400


7




Homens sem crime foram mortos, Jupi, em meu nome.
Algo em mim destruiu-se naqueles dias tiranos.
Quanto a Mani, mi’ filha não carece de lágrimas.
Dei-lhe a vida sozinha, dou-lhe a morte sozinha. –
Fez-se como a mãe avisara. Ainda na noite, 405
pouco antes da aurora, Mara enterrava Mani,
a sós, e nem Jupi ao lado. Cavava coa mão,
fundo o quanto podia. Trabalhava ansiosa,
como a temer que alguém da tribo logo acordasse.
Depôs Mani no fundo da cova. Cobria de terra, 410
lenta e relutante, o fruto perdido. Cantarolava
quase esquecendo que a vida existe, vida que acaba.
Disse a Jupi, depois de muitos dias passados,
onde a deixara, e os curiosos da tribo seguiam,
uns levavam folhas ou fumo. Puã ordenara 415
rezas constantes nem deixava em paz o pajé.
As velhas prostravam-se caladas, sujas de terra.
Era cumprido o sonho de Mara: Mani perecera.
Tarde a tribo entendia a razão dos gritos noturnos,
eram imagens da filha morta os horrores de Mara. 420


8




Não se conformava. Passava as horas alheia
pela mata. Falava sozinha. Lançava-se à terra,
todos os dias banhando a cova de leite e de lágrima.
Era pungente assitir o rito. Xamãs intervinham
mas debalde – não havia palavra que agisse. 425
Nova esperança, doente, tomara raiz no juízo
fraco de Mara, alimetava o rigor dos clamores:
– Volta, Mani! – E tal gemido flente vergava
fundo a grei, atormentava mesmo o guerreiro.
Iam agora aglomerados num dó desmedido 430
todo dia sentar-se ao redor de Mara, calados,
iam depor a seus pés a su’ humilde homenagem.
Mas Jupi, prorrompendo uma feita com voz alterada,
não se conteve: – Para, Mara! Conforma-te enfim!
Se assim seguires, eres logo tu que enterramos 435
junto a Mani nesta cova. Tem piedade de nós
e dá valor à vida própria que apenas começa. –
Nesse tempo extremo, também Puã se exaltava,
quase irrompia em bofetadas fortes à filha.
Mara chorava como insana e pouco atinava 440


9




quem lhe falasse. Rejeitava comida, bebia
pouco a goles afoitos. Inda grassava a fome
pela tribo e Puã pedia a Jupi que velasse:
– Não a deixes só senão se perde na mata.
Já nem sabe o que faz, coitada, nem do caminho 445
donde vem nem vai nem existe. Fala a fantasmas.
Mara esqueceu-se até de viver... – Puã soluçava –
Foi demais, pajé, a punição que lhe dei?
Se foi, Jupi! A culpa è minha. Mara quebrou-se! –
Era a expressão que usava a dizer a perda da filha: 450
– Mara quebrou-se! – Ela porém mantinha seu rito
todos os dias, agora já sem soluços: Chorava.
Ia calma e sentava-se à beira da cova: Regava-a,
inda uma vez, regava e de novo, regava, regava:
– Volta Mani! – Nasceu, num lindo alvor, uma planta, 455
vinha prenunciando um caule com duas folhinhas.
Como uma alvíssara a nova correu e vinham ver
a novidade, crescendo forte e vividamente.
Mas ninguém conhecia a espécie, nem os xamãs
maduros nem o próprio pajé. Puã se intrigava, 460


10




pois talvez houvesse algum veneno na planta:
Era decerto a derradeira vingança da estrela!
Era possível, o chefe indagava de si para si,
que a filha de Mara fosse filha também de Jaci?
Nunca se ouvira um tal relato, mas como podia 465
Mara mentir, fiel que sempre foi da verdade?
Dia e noite, curvado em tão cruel raciocínio,
não dormia, balançava a cabeça em desprezo
próprio o pai. Por que não refletira melhor,
por que não dera ouvido ao bom Jupi que falava? 470
Mas a voz dos ancestrais ressoava severa:
Não se aceita em tribo reta tanta desonra!
Ai coitada, mas era não a Mara que a rude
verga cabia, era ao homem daquela desonra,
índio que seduzira e perdera a filha imatura. 475
Que servia porém lembrança? Baixava a cabeça,
mas agora vinha à mente o mistério da planta.
Não podia deixar que mais visões enganassem
sua filha! Passados uns dias, mandou buscarem
aquela planta, feita agora arbusto formoso. 480


11




Foram na madrugada, quando Mara afastou-se.
Foram buscando a raiz e descobrindo arrancaram,
olhos atentos estudando o caule e detalhes.
Mal imaginavam que novo plano arrasava
pela noite o penar de Puã. Estava convencido: 485
Era veneno! Antes que comam, eu comerei!
Seja a minha morte o pagamento do mal
que fiz a Mara e Mani! Foi então ingerindo
pouco a pouco a raiz, o caule, folhas inteiras
ante a comoção de transtornados guerreiros. 490
Certo sentiu-se mal, mas era o mal da memória.
Ora, Puã mordeu, mastigou, engoliu – e viveu!
E quanto mais comia mais se fartava e mordia.
Era de fato um precioso maná que ingeria:
– Isto è pão, meninos! Filhos, isto se come! – 495
Entre os famintos a comoção ecoou e sem força
foram-se ajoelhando e recebendo, das mãos
de Puã, fartura inebriante e cura da fome!
Foram plantando inopinadamente as sementes,
ora regadas pelo pranto dos redimidos. 500


12




Para comemorar o dom de Mani, nomearam
pelo nome de sua oca o seu doce maná
e nunca mais careceram: milagre da Mani-oca.
Foi Jupi que entendeu a intervenção de Jaci:
– Mani, meninos, veio mandada longe da estrela 505
para acabar coa fome dos homens! Ela morreu,
Puã, a fim de que nós agora vivêssemos fortes.
Eia, pão da vida! Bendita a mãe de Mani! –
E Puã, a sós no luar, amargamente chorava.









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Folha VI






II






Que valia a Mara um milagre? Tomara-lhe a vida 510
quase a morte da filha e desgostou-se dos dias.
Era apenas a noite que a via, faces alçadas
rumo às invisíveis miríades. Pouco dormia,
rente ao chão, perdera o medo da cobra noturna.
Ia banhar-se pouco antes da aurora num lago 515
frio de profundíssimas águas. Numa das noites,
quando deitada, Jupi abordou de fora da oca:
– Ó minha filha, sai daí! – Em vão intervinha,
ora que pouco auxílio trazia um sermão de ameaça.
Quando o pajé tomou-lhe a mão, aterrado e rogando: 520
– Fala! –, Mara ergueu enfim os olhos fitando.
Já não eram dela aquelas pupilas de espectro:
– Mara morreu com Mani, Jupi! Meu nome è Naiá! –
Jupi recuou de susto e calou, num gesto confuso.
Veio-lhe à mente o claro efeito daquela palavra: 525
Pois trocar embora o próprio nome por outro
era contra a mãe Ceci um sinal de repúdio.
Não se assentia tanta audácia: Era costume
desde sempre mandar emborar quem ousasse,
fosse velho, xamã, guerreiro. Como uma seta 530


1




farta contra o peito a nova chegou ao cacique:
– Fala a verdade! – Puã cerrou as mãos violento.
Ato contínuo, tomou do cipó: – Tragam-ma cá! –
Pelo pátio a novidade correu como um raio:
Vinham reunir–se, aflitos, em frente a Puã, 535
enquanto Naiá se deixava levar austera e calma
pelas mãos dum guerreiro. Mas o pai delirava,
vendo–a novamente atada ao tronco e calada:
– Fala! Como è isto, Mara? Mudaste o teu nome? –
Mara porém responde quieta: – Meu nome è Naiá! – 540
A gente contrita suspirava e Puã reprimia:
– Não se permite aqui viverem vidas ingratas!
Olha, menina, suportamos demais tu’ audácia!
Mas trair o próprio nome, a tal ponto chegaste?
Homem de fora já teria sentido nas costas 545
golpe de vara e castigo apropriado na cara.
É teu pai que te implora, filha, diz a verdade,
diz o teu nome. – Ela, porém: – Meu nome è Naiá! –
Falava tão serena que exasperava o cacique.
Pois num súbito lance o pai, erguendo o chicote, 550


2




fê-lo cair com toda a força contra a maloca.
Houve ali correria, tumulto e gente aturdida,
ora que os anciãos falavam baixo ao cacique:
– Mata não, Puã! – Naiá, porém, cabisbaixa,
sempre queda, não reagia: – Não me conformo 555
mais com tal desprezo! – disse o pai confuso –
dei o quanto pude, implorei, tentei de tudo.
Desde que vi Mani tomei a neta nos braços,
Mara, e perdoei teu gesto, quando de fato
fora eu que de mais e maior perdão carecera! 560
Rogo em nome da mãe Ceci: Perdão, minha filha.
Não passou de meus dias nenhuma noite sem pranto
desde que ousei lançar a minha mão contra ti.
Em vão pedi perdão às ancestrais entidades,
rogo às águas e ao fogo imerecido consolo. 565
Ora se queres punir-me pelo silêncio, que seja
mas: Se mudares teu nome não te posso reter,
jamais, as leis dos ancestrais proíbem. Responde!
Diz uma última vez a verdade, diz o teu nome! –
Era em vão seguir inquirindo: – Meu nome è Naiá!– 570


3




Puã convocou adentro os anciãos e desfez-se:
– Ó minha gente, já nem sei o que faço com ela.
Podes, Jupi, banir as leis ao invés de Naiá? –
Jupi hesitava: Causar a ira de antigos espíritos?
Nunca! O rito reza o desterro. Ouvindo anciãos, 575
Puã pesava à mente o maior agravante: Naiá!
Em toda a terra das amazonas, fora a guerreira
mais valente e mais temida mulher conhecida.
Nunca se ousara, nas eras de selva nenhuma,
nunca ultraje a tão distinta e divina amazona. 580
Como usurpar tamanho nome? – Coitada de Mara... –
disse o pai solene, – Naiá da estrela perdoe! –
Mas Jupi, refletindo em meio ao fumo odoroso
junto a xamãs interveio: – Pois que seja Naiá,
se a tal se atreve! Não se sabe que sopro inspirou-a 585
nem se a condenando acertamos. Cumpre o costume,
sê contudo manso, Puã: O caso è de extremos. –
Deste modo confabulando e trazendo à memória
viva a bênção da bem-amada, o conselho saiu.
Puã, mirando a gente na espera, enfim declarou: 590


4




– Naiá! O apreço nosso ao grande nome que abraças
pede que possas mantê-lo. Mas o nosso costume
reza que vás de teu rumo! – houve soluços na tribo
mas o cacique pediu silêncio, seguiu reticente:
– Cabe a ti saber, guerreira, a hora adequada. 595
Fica o quanto quiseres, pondera, decide sozinha
quando irás. – Era um certo alívio mas o pajé
dos homens indagava perante uma gente ansiosa:
– Como podes tomar o mais sagrado dos nomes?
Aonde irás, Naiá, que novo rumo encontraves? – 600
Nada obstante não respondia, a mente na estrela.
Foi depois que Naiá lhe falou, no meio da noite
quando se viram a sós na oca, dizendo-lhe grave:
– Eu me vou deste mundo a melhor! – Jupi alarmou-se.
Que lhe passava à mente, que novo plano formava? 605
Era urgente impedir mas foi ouvindo o relato:
– Já não sabes, homem, como nasce uma estrela? –
Ai o sabia! Lembrava arrependido, de fato,
como as velhas narravam casos dum tempo passado.
Era uma longa história que o bom pajé confirmara: 610


5




Quando Jaci, que brilha branca no céu e nas águas,
toma de amor àlguma virgem, em luz a transfaz!
Leva o seu coração acima e nascem estrelas.
Trás montanhas que apenas amazonas conhecem,
colhe Jaci num beijo maternal as estrelas. 615
Deste modo falando Naiá mostrava as alturas:
– Olha o tamanho do céu e como tudo lhe cabe.
Há decerto um lugar para mim naquelas entranhas,
vê, por entre aquelas duas estrelas, aquelas...
Olha quantas outras mais e quanto espaço separa, 620
quanto mistério. Se for demais, alguma se move,
dá lugar cadente à nova que chega de longe,
dá lugar para toda a luz – Naiá decidira.
Ia embora buscar Jaci além. Jupi ponderava:
– Mas Naiá, se fores tão longe embora do mundo, 625
que faremos nós, desolados sem ti na floresta? –
Ora a outra baixando a cabeça disse ao amigo:
– Este mundo è sombra somente e nada me resta.
Quais os dons da terra, Jupi, ainda carrego?
Esta vida somente cansa um’ alma que sofre. 630


6




Ai Jaci, transfaz em luz meu corpo de sombra! –
Era um caso a carecer de astuta estratégia.
Sob incansáveis apelos Puã prometera silêncio.
Ante o perigo, bastava um passo falso somente,
ato impensado, e lá Naiá se perdia de vista! 635
Jupi foi ter coas velhas a sós, expor o tentame
triste ao qual Naiá se lançava: Foi decidido
pouco a pouco demovê-la e logo em seguida
veio alguma das velhas falar a sós a Naiá.
Narrava, e não mentia, sobre monstros na mata: 640
– Toma cuidado que o Boitatá devora uma vida! –
Tinha forma lodosa e vivia à beira das águas,
era capaz de façanhas imerso no rio prohibido:
– Sabes quantos rios existem na mata, Naiá? –
Nenhum mortal jamais o soube: – Sabes, de fato, – 645
ia seguindo a velha – quais as formas a mata
toma pela noite e quanto se move nos ares? –
Foi assim arrancando, numa e noutra palavra,
toda a extensão do plano. Ria, como segura:
– Ó Naiá, as amazonas se foram aos montes 650


7




mas os montes, que esperanças, longe demais.
E nem se sabe mesmo se existem. Nunca se viu
montanha na selva. – Naiá duvidava da velha.
Veio o xamã durante a noite e longa conversa
sobre Jaci tomou lugar. O xamã que escutava 655
dava-lhe crédito: – Isto è certo, quando Jaci
decide, nasce a nova estrela. – Sonhava acordada
frente ao velho enquanto o velho porém avisava:
– É Jaci que decide, Naiá, e não o nosso desejo.
Ela que desce e colhe e leva os corpos ao céu. 660
A nós não cabe buscar, Jaci conhece o que somos. –
Mas Naiá retrucou: – È bem Jaci que decide.
É preciso, porém, num santuário de luzes,
ir buscá-la longe do mundo. – E não concedia
quanto a isto. Como pudera? Sabia de outrora, 665
pela boca do mesmo xamã, da velha viagem
rumo às impossíveis paragens onde amazonas
eram colhidas. A velha ouvia aflita e calada.
Horas inteiras, Naiá quedava falando coa lua
como a desenhar no firmamento um caminho: 670


8




– Não percebes, Naiá, o preço de tanta viagem?
É perderes a própria carne, perderes a vida.
Queres ser uma estrela fria, morta, longínqua?
Ó Naiá, as luzes dos astros nada sentem... –
era Jupi que argumentava em vão, devastado. 675
Quando Naiá pediu a guerreiros arcos e setas,
tintas, fumo santo às velhas, Puã interveio:
– Toma prumo, insana, deixa de pouca vergonha.
Queres morrer, Naiá? – Mas era clara a firmeza.
Foi em vão deixar as armas à espreita na noite 680
qual se até pudessem contê-la. Naiá se esvaiu.
Quem o viu a correr aos gritos sem rumo correto
mal podia crer que aquele guerreiro, vergado,
era Puã, desairando perante a beira da aurora:
– Foi-se embora, Jupi! Perdi minha filha Naiá! 685
Quedê, minha gente, quedê Naiá? Quedê minha filha?
Não a verão de novo estes olhos? Dá-me a beber
de morte, pajé! – Jupi mandou guerreiros buscar
mas tornaram, depois de poucas horas apenas.
Era verdade a nova e Naiá se perdera de vista. 690


9




Dentre todas as formas de morte ali concebidas,
fera, fome e veneno, monstros de vário caráter,
houve consenso quanto ao mais temível destino:
ermo à beira dos rios, o Boitatá traiçoeiro.
Movem-se ondas no ar, pupilas, cílios de fogo 695
levam embora as almas à mata na noite sem fim,
devoram olhos, guardam ossos na gruta profunda.
Quem as enxerga, perde a vista, a vida amiúde.
– Calma, Puã, – dizia o pajé –, ninguém conheceu
jamais os bons e os maus intentos do Boitatá. 700
Não condenes um ser que nunca viste no mundo. –
Puã contudo lavado em lágrimas disse ao amigo:
– Protege Naiá da morte! Salva mha filha se podes! –
Já se encontrava longe Naiá daquelas paragens.
Era o peito a bússola única! Durante os primeiros 705
dias correu o quanto pôde, na densa floresta,
rumo aos montes onde a terra tornava-se azul.
Jaci buscava apenas quem chegasse à montanha
mais elevada. Descendia dum astro vizinho
como um alvo, feérico véu lançando-se à mão, 710


10




ao corpo inteiro. Transubstanciava-se a strela,
era eversa a madeira da carne em foco perene,
doce e doloroso o trabalho e parto da luz.
Desfeita a derradeira parte em poeira estelar,
Jaci ascendia, levando à cima infinda a criança. 715
Quanto porém de selva e quantas léguas errôneas
era preciso vencer. Naiá prosseguiu a viagem
sem descanso, correndo quarenta dias e noites.
Dois caminhos havia, d’oeste como do norte,
mas o rumo oeste era perigoso e distante. 720
Ora, avançava uma cordilheira mágica e vasta,
cada cume a porta de entrada, o céu infinito.
Era porém inalcançável aos pés, afirmavam.
Dentre as lendárias amazonas nenhuma chegara
pois aquele rumo era o rumo da eternidade. 725
Bem melhor seria buscar o caminho do norte,
onde os cumes eram menores e perto a vitória.
Mas a selva cobria a trilha na copa das árvores:
Nem de dia e nem de noite, nem nos luares
foco algum ilustrava a tenebrosa passagem. 730


11




Era andar custoso: Quando a noite triunfa,
resta no coração das selvas o azul invisível.
Já nenhuma estrela vencia a crosta das folhas
mas angustiada Naiá prosseguia, que ousava
pela noite andar na busca incerta da trilha. 735
Cada passo deixava atrás a severa certeza:
Nunca passara tão distante e corria adiante,
longe dos homens e até de si na selva deserta.
Antes buscava a solidão maior no mistério,
ela que recusava a luz do dia e dormia. 740
Via cabisbaixa o sol e de pouco importava,
astro que então abandonara o pranto de Mara.
Era doutra esfera de luz que Naiá carecia.
Onde porém o raio final? Onde as montanhas?
Pobre Naiá que quanto mais errava na selva 745
menos sabia por qual vereda estranha passava.
Veio o medo. De noite apareciam fantasmas.
Entre uma sombra e outra balbuciava a palavra,
certas vezes gritava sozinha chamando Jaci.
Do meio da mata respondiam os urros dum bicho, 750









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Vitória Régia II Folha VII






ora um’ ave afoita, símio, feras e répteis.
Quando entendeu, chorou: O rumo estava perdido.
Vinha a noite e Naiá recostava o rosto na pedra
como esperando as sombras e o novo medo passarem.
Medo de monstros? Ela temia o que não tem nome. 755
Mas temeu de verdade quando no meio da noite
viu de longe a sombra do vulto e gritou agitada:
– Quem ès tu? – O espectro desfazia-se em sombra
mas então ressurgia o passo esquivo na trilha.
Pelas folhagens ressoava um rouco rugido. 760
Era lodosa a forma? Eram de fogo as pupilas?
Era decerto o Boitatá, e Naiá preparou-se
longe da estrela para o mais temível destino.
Olhos amedrontados, mirava a treva e calava,
ora recordando as noites da história da morte, 765
ora apavorada no peito e soluçando prostrada:
– Que fizeste de mim, Jaci? Aqui me trouxeste,
mãe Ceci, e aqui morrerá quem tanto te amou? –
No mesmo instante emerge uma imagem tremenda!
Era o vulto que toda noite seguia a guerreira 770


1




pela sombra das árvores, lado a lado o fantasma.
Quando enfim notou, gritou mas a voz lhe faltou:
Naiá vislumbrou na sombra gigantesca uma onça!
Era um jaguar de proporção jamais conhecida,
pronto a matar e de fato avançou-se contra Naiá! 775
Saltou, e repentino rugiu o trovão pavoroso
pela selva, transtornando as águas e a terra.
Houve tremor e caiu do céu um fortíssimo raio
quando a voz de além eccou nas comas da várzea:
– Eia, guerreira, levanta-te, amazona, e cavalga! - 780
Era como se ao firmamento e no fundo dos rios
fosse uma força, a voz onipresente da estrela.
Veio do fundo um clarão etéreo buscando as alturas:
Vinha pelo véu em resplandescentes exércitos
vão de amazonas a cavalgar das selvas aos astros: 785
– Monta! – Naiá de pronto monta ao lombo dum’ onça
mais pujante e poderosa que a morte e cavalga:
– Eia, sus, à montanha! – Zarpou, zarpou como raio
nem cavalgava, voava por sobre um cometa dourado.
Como brilhava na sombra o felino e como varava 790


2




célere rumo ao máximo monte, Naiá transformada!
Fora transfigurada a selva, o mistério desfeito,
fora toda refeita a beleza que Mara perdera –
bela enquanto sombra alguma cobria o seu corpo,
livre nas veigas onde a nudez è pura e perfeita. 795
Seus cabelos suaves crescidos eram a imagem
clara do céu deitando estrelas no meio da trilha.
Que bonito se o mundo visse uma estrela ascendente:
Ela buscava e cavalgava as copas e os cumes,
ela varava a caverna em profundezas do inferno. 800
Indo em jornada aventurosa de rumo em rumo
dois amigos descobriram um novo hemisfério:
Era a terra dalguma extinta gente gigante,
era o reino anão, mas onde a trilha da estrela?
Quando penetraram a selva das cobras souberam: 805
Eram elas em cuja cauda o chão se tremia
dando vida ao vórtice engolidor de floretas.
Elas mudavam serpenteando o curso dos rios
enquanto o navegante buscava o porto seguro.
Foi ali que travaram a memorável batalha 810


3




quando emergiu do turbilhão a primeira serpente:
Pôs a cabeça fora d’água abrindo a garganta
mas Naiá montada se esquivava do ataque.
Era um desfiladeiro sem fim a boca e mordia
contra as águas voraz e procurava os audazes. 815
Nada contudo impôs temor ao salto da onça
quando Naiá no desespero extremo exortou:
– Jaguar, lutemos, vamos, meu jaguar, lutemos,
teu nome è Guaraci porque me lembras o sol!
Jaguar, ilumina e guia e defende meu rumo 820
como o raio que sai vitorioso da sombra! –
Pois da sombra Guaraci emergiu fulgurosa
contra as cobras duma desordenada alcateia.
Ia veloz e passava e se esquivava e saltava
sem pensar de copa em copa enganando serpentes. 825
Mas do escuro um lance perigoso entreveio
quando uma cobra traiçoeira tragou os dois:
Garganta adentro pareciam descer pelo abismo
nem por isto Naiá nem Guaraci se renderam.
Pois testemunharam cobras e os olhos da estrela 830


4




quanto valor viveu no vigor dum raro jaguar!
Pois testemunharam como dum único golpe
Guaraci desvirtuou do abismo a fronteira!
Como um delicado copo e cristal se estilhaça
quando a mão aperta, a garganta larga cedeu. 835
Naiá da escuridão irrompeu, divina ascendência
duma estrela, refeita a destemida guerreira.
É bonita a vida de dois amigos unidos,
foi bonita amizade quando foi verdadeira.
Ora Naiá contente abraçou-se à onça pintada 840
como a boia, socorro a quem se agita nas águas.
Era em verdade um semblante familiar e Naiá
em vão se indagava donde conhecia o felino.
Mas agora que estavam juntos era mister
saber o derradeiro cume, o rumo estelar. 845
Um cheiro doce anunciava a nova esperança
quando o brilho noturno redobrava o mistério.
Vinha então dos céus uma azulada cadência,
foco ameno movendo-se pela flora e morrendo.
Era a luz do sonho nas folhas, era Jaci 850


5




que pelas auras evocava o beijo impossível.
Como avançava sobre as coisas o véu prateado!
Como a voz enlevante ressoava nas almas
selva adentro e perto do céu o cume acenava!
Certo estava perto o derradeiro destino! 855
Mal sabia Naiá respirar e ofegava nervosa
quase esquecendo a si, dizendo à onça pintada:
– Olha, jaguar, as amazonas! – Descia de além
o raio por onde a cavalgada das almas passava.
Como um milagre atravessavam o verso das folhas, 860
ora que a luz vencia a sombra e Naiá se banhava.
Era agora de fato uma estrela terrena avançando
pelas matas e cavalgando na angústia do sonho.
Mas será de bom sucesso a viagem da estrela
quando no meio do rumo a dúvida ataca a certeza? 865
Já bastava uma vaga lembrança e já se perdia
pela sombra dum pranto inopinado o clarão:
– Mani, filhinha, volta, volta, Mani, filhinha! –
Pobre Naiá que cavalgara tão longe e que agora
mal se erguia dum triste chão que em vão inundava. 870


6




Pouco atinava com Guaraci que urrava adiante:
Por que duvidar, Naiá, de tão distinta amizade?
Pois do chão a que se abraçava Naiá duvidou:
Eu sei, Mani, que Guaraci me engana e me perde!
Era um raciocínio ganhando força invencível, 875
tanto que a todo custo Naiá buscava uma brecha.
Tarde da noite, enquanto o bom jaguar repousava
mal Naiá se continha: – Guaraci que me engana!
Ai, Jaci, ninguém, ninguém no mundo me amou!
Mani morreu, Guaraci, porque ninguém confiou! – 880
Não havia tempo a pensar no véu do passado.
Clara e rapidamente, aproveitando o silêncio,
paz do sono, Naiá desvencilhou-se da fera.
Pois correu o quanto pôde, entrou pela sombra,
foi de perto reconhecer os temores do cego, 885
foi buscar a morte das cores. Vagava e parava,
olhos desesperados no nada, apalpando as folhas,
fogo e frio no meio da mente. Naiá caminhava
pelos descaminhos orando às almas da noite:
– Eu não quero mal, Jaci, a ninguém neste mundo, 890


7




quero apenas passar pelo mundo buscando uma estrela!
Ó ancestrais, se algum de vós conhece o rumo sereno
dai-me verdade e luz, aclarai um caminho iludido!
Minha existência não carece de sopro e de essência
nem espero favor de ninguém, eu quero a montanha! 895
Onde encontro a luz sem fim que Jaci prometeu?
No mundo tanto perdi que estou perdida no mundo,
mas onde, ancetrais, Ceci conduz estrelas, dizei! –
Ela ajoelhou-se e num gesto inocente esperava.
Ó Naiá, por que quiseste a senda impossível? 900
Não se sabe se a luz que àquele instante desceu
do céu foi por piedade ou Naiá que inventara.
Mas a lua surgiu mostrando a trilha final
e Naiá seguiu, correndo como louca de morte.
Não podia perder de vista o divino tesouro, 905
luz que quanto mais tocava mais lhe fugia:
– Não, Jaci, espera! – a voz guerreira gritava
como em desesperada batalha buscando a quimera.
Ela tocava a cor de Jaci na folha e no galho,
pela sombra e pelo chão mendigando a verdade. 910


8




Mas revendo por toda parte o brilho da lua,
viu repentinamente um puro reflexo nas águas.
Ela chegou enfim ao mais distante recanto,
onde a luz de Jaci pousava na plácida margem:
Era um rio perigoso no qual o céu cintilava! 915
Mas Naiá, no desassossego das suas lágrimas,
viu na luz acenando das ondas o fim da jornada.
Ela lançou-se à correnteza de braços abertos,
ela entrou desavisada no engano das ondas.
Nem a mão tocava o céu e nem os pés o fundo: 920
– Mani, socorro! – o pranto balbuciado ecoava
mas o gole das ondas silenciava os gritos.
Quanto mais apelava a Jaci, Jaci lhe fugia
pelo corpo inteiro desgovernado nas vagas.
Onde passava Guaraci, protetor de perdidos? 925
Mas Naiá naufragou na intransigência das águas,
ela calou a floresta que percebendo ecoou:
Naiá se afogou! Naiá da estrela, Naiá se afagou!
Entre o mundo e a morte em derradeira agonia,
ela ainda esperava a transcendência do eterno: 930


9




Era isto o parto da luz? Mas Naiá naufragou
sem nem ouvir do céu e nem da terra a resposta.
Foi então que das trevas irrompeu um guerreiro,
tarde demais, correndo pela margem aos gritos.
Ele bem sabia a desgraça que ali se passara: 935
Era Puã, que junto a duzentos guerreiros cruzara
toda a terra numa busca infeliz e sem trégua.
Era Puã, que se aproximando das ondas mandava:
– Vamos buscar, ainda è tempo e Naiá nos espera,
não, è minha vida que espera no fundo das águas. – 940
Foi demovido a grande custo pelos duzentos
homens chorando àquela margem: – Naiá se afogou! –
Era em vão mergulhar colecionando vestígios
mas Puã, erguendo as mãos ao céu, implorava:
– Ó Ceci, eu me vim de tão longe para perdê-la! 945
Perdão, Naiá, meus pés me recusaram vitória,
minhas mãos te abandonaram de novo, filhinha! –
Mal terminou e já se aproximava da oposta
margem um’onça pintada e protetor de perdidos.
Mas Guaraci baixando o corpo entendeu o destino! 950


10




Foi dos homem que prorrompeu de repente o pavor:
Pois imaginaram sem mais que Naiá se afogara
quanto fugia desesperada as garras da onça!
Foi assim que Puã, num novo gesto impensado,
tomando o arco apontou a frecha e puxou a corda. 955
Mas Guaraci, que mirava entristecido, saltou
da margem buscando amigos, fiel companheiro:
Foi alvejado no alto, sangrou e caiu moribundo.
Quando Puã se deparou conduzindo guerreiros
deu-se conta enfim das ilusões deste mundo: 960
Era o semblante do bom Jupi que ali se mostrava:
– Eu fiz a terra parar, Puã, eu tentei ajudar
mas eu falhei, amigo, a morte è merecida!
Eu fiz relampo e trovão, eu defendi a guerreira
pela treva e Naiá raiava como uma estrela! 965
Mas Naiá duvidou, meninos, da minha amizade,
Naiá fugiu, Naiá se perdeu, Naiá se afagou! –
Era Jupi, e fechando seus olhos Jupi pereceu
nos braços frios de Puã, mas logo Puã se ergueu,
e contemplando as ondas revelava a verdade: 970


11




– Não entendo, eu não entendo mais este mundo.
Mas esta foi a mão que desferi contra Mara,
esta foi a mão que arrebentou inocentes!
Matei Jupi, meninos, como se não me bastasse:
Foi Puã que lançou à lama o nome do mundo! 975
Essa vida, minha gente, eu não sei o que é,
que quanto mais se vive mais a gente se perde!
Era bom morrer com Naiá por dentro das ondas,
mas a morte seria uma fuga amena demais.
É preciso viver e dizer ao mundo o meu mal: 980
Eu careço è duma pena pior do que a morte! –
Sem esperar resposta, Puã tomou duma larga
lâmina e fez cair com força contra o seu braço.
Ele cortou, separou, decepou a mão que matou
Naiá e Jupi, o punho que arrebatou inocentes, 985
nem se sabe se após o golpe Puã se salvou:
– Ide, guerreiros, retornareis o rumo sozinhos!
Esse que outrora foi cacique nunca existiu! –
Assim falou, e assim deixava o sangue dizer
a todos o veredito dum sacrifício tardio. 990


12




Onde estava Naiá, Naiá que buscava uma estrela?
Mas ainda faltava a palavra final, e escutaram:
Era o Boitatá, defensor perpétuo dos rios
surgindo repentinamente, emergindo das ondas!
Ele se ergueu, o monstro temido e destemido 995
trazando aos braços o corpo sideral de Naiá:
– Jaci! – clamou a voz que trovejou pela selva.
Viu-se então da montanha das amazonas aladas
raro clarão, azulado manto descendo à floresta.
Mas o Boitatá lhes intercedeu as palavras: 1000
– Eu defendo a glória imaculada das águas
contra os maus e não persigo a vida inocente!
Eu ouvi, Naiá, o teu lamento às alturas,
eu me ajoelhei contigo e pedi piedade.
Mas te abandonaram à morte, vida serena! 1005
Sim, ofenderam este rio tão puro e distante
depondo às minhas mãos a tua morte indevida!
Por que, Jaci, renunciar a quem tanto te amava?
Pobre Naiá, que nada fez de mal neste mundo:
Eu saberei, Naiá, recompensar teu esforço. 1010


13




Não te farei estrela pois o céu é distante,
mas serás a mais distinta flor de meus rios:
Toda noite teu brilho será maior do que a noite! –
Não entregou o corpo a Jaci, mas a lua chorou.
Desde aquele instante vem tentando esconder 1015
em vão a própria luz, passando noites inteiras
longe da vista humana. Alterna os dias minguante
como louca no seu remorso imortal, mas avisa:
– Ó Naiá, perdoa o mistério do céu e não chores.
Não me ofertaste em vão a tua vida inocente 1020
pois um protetor te amou do amor que mereces.
Foste ouvida, filhinha, serás estrela das águas! –
Quando o Boitatá beijou Naiá sobre as ondas
ela renasceu como o lis estelar da verdade.
Eia, luz da vida, bendita a mãe de Mani! 1025
Toda noite a flor desperta e luz a floresta,
marca eterna aos céus a vitória régia dos rios.
Suas folhas flutuam firmes em palmas abertas,
dando calma, socorro a quem se agita nas águas.




Fim













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