Prosódia e Grafia

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© Greg Ory, 2017, Essay: Prosódia e Grafia, by Eustácio de Sales, an outline of a prosodic theory of Portuguese epic forms.



Conceito de Sílaba

Em métrica acentual, a regra de alternação prescreve o seguinte: Alternem-se sílabas tônicas e átonas para maior liquidez do verso. Um encontro de tônicas estanca a fluência. É preferível a sequência tônica-átona-tônica (TaT) à sequência tônica-tônica (TT). Em contrapartida, numa longa sequência de átonas o verso perde o fôlego. Daí o evitar-se átona-átona-átona (aaa).

A regra de alternação requer a prosódia mais clara possível. Por prosódia, entendo o estudo do universo da sílaba pronunciada, incluindo: [1] a composição das sílabas e formas de permutação entre vogais e consoantes (prosódia formal), [2] a separação sonora e gráfica das sílabas (prosódia distributiva), [3] a tonicidade natural e contextual das sílabas (prosódia tonal), e [4] a duração natural e contextual da pronúncia de cada sílaba (prosódia quantitativa ou durativa).


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O problema inicial é definir sílaba. As sílabas existem em si e naturalmente, ou simplesmente por convenção? É uma questão de implicações filosóficas e que não posso resolver aqui. Mas se as sílabas existem, onde, em cada palavra, termina uma e começa a outra? Há um critério absoluto de separação? Reza o vigente acordo gráfico que a divisão silábica »em regra se faz pela soletração« (Base XX). Em muitas escolas se aprende que esta é a divisão natural das sílabas, que em português se dividem »como se falam«. Mas a soletração é um processo subjetivo – como no caso palavra »ruim«, cuja pronúncia erudita é ru-ím, mas que muita gente fala »rũi«. A soletração é uma capacidade não inata, e sim adquirida pelo uso habitual. Não é, portanto, um critério »natural« de divisão.

A divisão etimológica nada tem de inferior à divisão por soletração. No caso da palavra »constatar«, não se infere o que a divisão soletrada cons-ta-tar tenha de intrinsecamente superior, ou inferior, à divisão etimológica con-stat-ar. É apenas por convenção que as sílabas em português »em regra« só podem terminar em vogal, -l-, -m-, -n-, -r-, -s-, -x-, -z-, o que a própria dinâmica da língua refuta em exemplos como: ab-negar, pac-tuar, ad-mirar, ig-norar etc. Nestes exemplos, o ensino duma soletração supostamente natural leva o falante a querer incluir vogais a consoantes finais, como *abinegar, *paquituar, *adimirar, *adevogado, *inguinorar. Deveria ser melhor ensinada a pronúncia de consoantes mudas em final de sílaba, capacidade performativa que está se perdendo. Seria feliz incluir ao abecedário escolar as formações com mudas:


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ab-, eb-, ib-, ob-, ub-;
ac-, ec-, ic-, oc-, uc;
ad-, ed-, id-, od-, ud-;
af-, ef-, if-, of-, uf-;
ag-, eg-, ig-, og-, ug-;
ap-, ep-, ip-, op-, -up;
at-, et-, it-, ot-, ut-.

Mesmo em termos de soletração, não se infere de que modo a variante ig-no-rar seja mais natural do que i-gno-rar, o que soa mais afim a gnós-ti-co. Esses métodos de divisão silábica não conseguem explicar de maneira cabal o que é de fato uma sílaba e no que se constitui a sua natureza intrínseca.

Dirão talvez que a sílaba é uma unidade fonológica indivisível. Mas segundo qual critério? A sílaba -ba- se divide nas letras -b- e -a-, sendo que -a- já constitui uma sílaba. Platão aborda o problema em Teeteto. Ou será a sílaba uma convenção etimológica? Arguirão que uma consoante isolada ainda não constitui sílaba. Mas ao dizer consoante referem-se ao nome da consoante ou à consoante em si? Existe a consoante em si, dissociada do nome? Ora, o nome da consoante -b-, sendo -bê-, já inclui vogal. E se a existência da letra é indissociável da existência da sílaba, onde termina a letra e começa a sílaba?


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Um só idioma pode ter mais de uma convenção. A frase [ Ana e Maria ] terá para alguns seis sílabas, analisando cada palavra separadamente: A-na |e |Ma-ri-a. Mas levando em conta a sonoridade da frase como um todo, as duas primeiras palavras unem-se num ditongo interverbal: A-nae-ma-ri-a. São portanto, aqui, cinco sílabas. Considerando ainda a convenção poética de ignorar as sílabas átonas depois da última tônica, teremos: A-nea-ma-ri-/. Terminamos com seis sílabas gráficas, cinco sonoras e quatro poéticas.

Para a métrica acentual, é fundamental compreender a prosódia tonal do português: Requer, como qualquer outra, claríssima distinção entre o tônico e o átono. Do mesmo modo que, para os antigos, na boa prosa nenhuma palavra é supérflua, a excelência prosódica espera do verso que nenhuma letra seja supérflua. Cada uma deve ter espaço para expressar todo o seu poder sonoro.


Diérese

Ocorre que, amiúde, a chamada ortografia não reflete a grafia que a precisão prosódica requer. Há diferença entre grafia sintética e grafia analítica. A sintética resume-se ao aparato gráfico sem assinalar as marcas tonais. O ouvido tem a inteira responsabilidade prosódica, como em inglês, onde nenhum acento gráfico marca a sílaba tônica. Já a grafia analítica assinala o quanto possível a riqueza sonora, como em francês, onde -e-, -é- e -è- indicam três casos diferentes. Não deixa nada ao discernimento do ouvido. Ambas têm as suas vantagens. Entram porém em conflito a grafia e a poesia quando a precisão prosódica quer assinalar o acento mas a grafia formal o proíbe. É um problema e vejamos por quê:


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Em português existe uma variedade de encontros vocálicos, e nem sempre é explícito, mesmo quando envolvem apenas duas vogais, se estas são parte duma única sílaba, constituindo ditongo, ou de duas, sendo hiato. É o problema mais delicado da nossa prosódia (v. encontros vocálicos, seção 16 ss.). Exemplo comum é o encontro -ai-, que em »baixo« é ditongo e em »vaidade« é hiato: separa-se bai-xo, porém va-i-da-de.

Isto tem suas implicações. Em métrica acentual, seguindo a regra de alternação, a prosódia de va-i-da-de é [sub]tônica-átona-tônica-átona (TaTa). O caso pressupõe, porém, que o leitor saiba que este -ai- constitui hiato, caso contrário lerá vai-da-de, o que seria má prosódia: a depender do contexto, ou átona-tônica-átona (aTa), ou tônica-tônica-átona (TTa). O primeiro caso, ao querer passar um suposto »ditongo« oral aberto como sílaba átona, enquanto a tônica que a sucede tem apenas uma vogal, é artifício grosseiro. A segunda leitura é ainda pior: Ao juntar tônica com tônica destrói a alternação.


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Antes de reforma de 1911, a grafia »vahidade« marcava perfeitamente o fenômeno com o -h- médio, também pertinente em prohibir, cohibir, trahidor etc. Este -h- foi abolido, de modo que vaidade, proibir, coibir, traidor etc. perderam qualquer marca gráfica assinalando a diérese, isto é, a separação prosódica das vogais. A reforma permitia, contudo, o uso do acento grave como consta:

»Quando a segunda de duas vogais consecutivas seja i ou u, que não forme ditongo com a vogal precedente, marcar-se há com o acento agudo, se fôr tónica; ex.: sa-í, sa-í-da, fa-ís-ca, sa-ú-de, ba-la-ús-tre, ra-í-zes, ba-ú(s). Se fôr átona pode assinalar-se com o acento grave; ex.: sa-ì-men-to, fa-ìs-car, sa-ù-dar, en-ra-ì-za-do, a-ba-ù-la-do.«

O Brasil, a princípio, também estipulou algo parecido. O acordo gráfico de 1943 ainda rezava:

»É licito o emprego do trema quando se quer indicar que um encontro de vogais não forma ditongo, mas hiato: saüdade, vaïdade (com quatro sílabas), etc.«

Já o vigente acordo estipula:

»O trema, sinal de diérese, é inteiramente suprimido em palavras portuguesas ou aportuguesadas. Nem sequer se emprega na poesia, mesmo que haja separação de duas vogais que normalmente formam ditongo: saudade, e não saüdade, ainda que tetrassílabo; saudar, e não saüdar, ainda que trissílabo. Em virtude desta supressão, abstrai-se de sinal especial, quer para distinguir, em sílaba átona, um i ou um u de uma vogal de sílaba anterior...«


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O conflito com o anseio da prosódia tonal é inevitável. Implica que certos encontros vocálicos admitem mais de uma leitura, já que saudade, como diz o legislador gráfico, »normalmente« forma ditongo (vide acima). Em termos prosódicos, saudade é sempre hiato, bem como vaidade. Parto dum princípio claro: Para qualquer encontro vocálico só pode haver uma leitura. A leitura de saudade e vaidade, que em boa prosódia não contêm ditongo, é baseada sim em convenção, mas de antiquíssima data. É a etimologia que o atesta, tanto em va-i-da-de < va-hi-da-de < va-ni-da-de < va-ni-ta-tem, quanto em sa-u-da-de < *sa-lu-da-de < so-le-da-de < so-li-ta-tem. O acordo vigente, porém, parece sugerir que qualquer leitura de encontros vocálicos é lícita.

O que me intriga, também, é dizerem que o sinal de diérese »nem sequer se emprega na poesia«. Que é que o reformador gráfico realmente conhece de poesia? Ora, em 1943 um sinal de diérese ainda era julgado pertinente. O reformador teve em foco, aqui, um lapso de apenas quarenta anos para concluir que a poesia abandonara esses sinais.


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Entretanto, a poesia entre 1943 e 1990 não usou sinal de diérese porque o seu viés estético era outro, e não per o sinal ser ou não pertinente. Com a supressão sumária de 1990, como saberão doravante os jovens a prosódia correta dos encontros vocálicos? Consultarão os »bons« dicionários? Mas consultei em vão o verbete »vaidade« no Houaiss, que nem mesmo mostra a divisão silábica. Lendo-se a palavra como ditongo, o meu verso

Dorme quase num véu de vaidade a menina

é de uma negligência imensa, porque ou a regra de alternação sai destruída, ou o verso, que é para ter seis tônicas, acaba tendo cinco. A leitura correta requer a seguinte prosódia distributiva:

Dor-me qua-se num véu de va-i-da-dea me-ni-na

O pequeno -i- carece, sem dúvida, de um sinal que relembre o seu direito de sílaba. É preciso pois refutar o reformador e escolher um sinal poético: vahidade, vaìdade, vaïdade, vaīdade.


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Acelerar a pronúncia das letras prejudica a clareza sonora. De rigor, todo verso é escrito para ser declamado. O verso equilibrado pode ser declamado em qualquer velocidade sem que o leitor precise acelerar ou frear a declamação por »necessidade métrica«.

Quando se quer indicar diérese, pode-se empregar um sinal na vogal átona:

1) Com -a- e -o-, o acento grave ou mesmo o mácron: suàs casas, suās casas, magòado, magōado.

2) Com -e-, além destes o trema: poèsia, poēsia, poësia, socièdade, sociēdade, sociëdade, coèsão, coēsão, coësão.

3) Com -i- e -u-, acento grave ou trema: traìdor, traïdor, saùdade, saüdade (com -u-, também o mácron; com -i-, idealmente o trema).

4) Se houver pertinência etimológica, -h- médio: vahidade, trahidor, prohibir, comprehender, deprehender, cohorte.


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O mais pertinente é o mácron, usado para indicar a duração de sílabas longas em latim. É a melhor opção para se indicar que a duração duma vogal átona deve ser respeitada. Protege-a duma agressão que, sem o acento, pode ocorrer nos seguintes exemplos: quīeto (ou quïeto), dō ouro, ō homem, preōcupes, comprēendo (porém prēocupar, compreēnder) etc.

A grafia que a prosódia requer aqui é poética, e por isto é melhor chamá-la epografia quando se escreve épica, odografia na lírica, ou ainda prosografia em drama ou prosa. Deste modo, os sinais expostos são não ortográficos, e sim epográficos etc. O termo ortografia é impreciso: »Orthos« significa correto e, por lógica, só a verdade é correta. Mas a verdade é imutável, enquanto a grafia da linguagem grafa um fenômeno histórico, sujeito a mudanças. O reformador, ao basear-se no que o uso consagra, promulga não a ortografia e sim a prosografia duma língua – já que tudo o que o uso consagra vem pela fala. Como porém não é qualquer uso que o legislador promulga, e sim o mediano, é correto chamar este uso prosografia padrão.


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O padrão está sempre aquém do anseio poético. O interesse do Estado ao padronizar a grafia é tecnocrático – porque carece de pagadores de impostos, de pessoas que saibam ler recibos e intimações. A grafia do poeta deve estar acima disto, mesmo que para tal seja uma grafia particular. Será cultivada como melhor lhe pareça a prosódia – epografia, como usei em Totila, ou odografia. A prosa literária e o drama, mais próximos da oralidade, terão como recurso, ao lado do padrão, uma prosografia variada, como usei na farsa O Caso de Amanda, para acomodar usos de regiões, grupos ou períodos particulares.


Epografia e formas épicas

Poemas como Totila têm uma epografia analítica, distinguindo formas tônicas e átonas. Para isto, as práticas mais comuns são:


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a) alterar o acento agudo para grave:

Formas tônicas: é, és, só, lá, está, além
Formas átonas: è, ès, sò, là, està, alèm

Como o ideal é escrever apenas o que se lê, as formas átonas è e ès do verbo ser podem formar crase com a palavra anterior, onde a vogal átona antecedente é suprimida: [ A vidè bela. Amiguè quem ajuda. Quem amès tu. Agorè tarde. O que faltè água ].

O acento circunflexo é privilégio de formas tônicas. Nas átonas, pode-se usar o mácron: [ É você? ] Porém: [ Vocē viu? ]

b) alterar o til, em partículas monossilábicas, para formas nasais com -m- ou -n-:

Formas tônicas: não, tão, quão
Formas átonas: non, tam, quam


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O uso do »non« como átono reflete em parte o uso popular. Note-se a grafia »eu num sei, eu num vi, sei não«.

Nas formas átonas, »non« é sucedido por consoante: non faz, non sei, não, non sei! Sucedido de vogal, usa-se nõ / nò para evitar ligação com o -n-, já que »non é« poderia ser lido »no-né«. É melhor portanto: nõ é, nõ há, ou ainda nò é, nò há, nò acredito, para evitar til em formas átonas.

É melhor, para isto, não usar -ão em sílabas átonas, mas -am e -om: órfam/órfom, órgam/órgom, bênçam, órfons, órgons, bênçans.

c) alterar, em pronomes, a grafia -eu por -eo:

Formas tônicas: eu, meu, teu, seu, seus
Formas átonas: eo, meo, teo, seo, seos

d) grafar a terceira pessoa do plural do pretérito perfeito em -om, sem alteração de pronúncia, diferenciando o perfeito e o mais-que-perfeito:

Pret. Perfeito: forom, escreverom, amarom, partirom
Mais-que-pf.: foram, escreveram, amaram, partiram


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A epografia analítica inclui também elementos morfológicos próprios, como as conjugações épicas. Quanto à morfologia nominal, este é o quadro completo de artigos definidos:

artigos sólidos: o, a, os, as
artigos líquidos: lo, la, los, las
artigo unissex: el

A função principal dos artigos líquidos (arcaicos) e unissex, cujo uso é facultativo, é prevenir hiato pobre. Por via de regra, são pobres os hiatos envolvendo artigo, pronome ou conjunção, enquanto os hiatos envolvendo duas palavras com sentido próprio são ricos:

hiatos pobres: o homem, o osso, e alma, a arte, a última
hiatos ricos: único homem, vida árdua, alma única

Assim, usa-se o unissex quando a vogal sucedente é tônica:

o homem, a alma, a última espada
el homem, el alma, el última espada


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O unissex é uma forma sincopada dos protoartigos líquidos *el[le] (m), *el[la] (f) e *el[lo] (n). Note-se as contrações: del, nel, pel, al, coel (ditongo) / col.

O uso é menos necessário se a vogal sucedende é subtônica:

o homenzinho, a ossuda, o animal, o artesão
el homenzinho, el ossuda, el animal, el artesão

Usa-se o líquido arcaico quando a vogal precedente é tônica:

ergueu a vida, amou o amigo, só o amor
ergueu la vida, amou lo amigo, só lo amor

Se a etimologia permitir, usa-se formas líquidas de partículas:

et outros, sol as outras, et homens, ad outros


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Encontros Vocálicos

Encontros vocálicos podem ser intraverbrais, como [coisa, causa, hiato]; e interverbais, como [a espada], [o algoz], [e os carros], [e homens], [a incautos], [a outros]. A precisão prosódica requer que se não transforme hiato em ditongo ou ditongo em hiato por »necessidade métrica«. Doutro modo a sonoridade perde o brilho. É boa prática, pois, e comedida, envolver no máximo três vogais num encontro vocálico. Nos exemplos abaixo, quanto mais vogais se acrescenta, mais se dificulta a dicção:

a espada | ditongo: a-e
e a espada | tritongo: e-a-e
escudo e a espada | tetratongo: o-e-a-e
Gregório e a espada | pentatongo: io-e-a-e


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Só o ditongo expressa clareza sonora. A prosódia se danifica ainda mais se um encontro longo de vogais inclui hiato:

e o homem | ou seja: e-o-O
escudo e o homem | ou seja: o-e-o-O
Gregório e o homem | ou seja: io-e-o-O

Certamente, o encontro [ e-o ] é mais suave que [ io-e-o-O ] e o malabarismo bucal que tal performance requer. Ora, perguntemos: io-e-o-O é para ser uma sílaba só? É grosseiro artifício.

Poderão objetar que, mesmo num pentatongo, a leitura elide muitas letras e que das cinco vogais só duas soam. Mas quais serão? O leitor escolherá a seu bel prazer? E quem quiser soar três ao invés de duas? O problema prosódico de encontros vocálicos longos é que são pronunciados com menos clareza, acelerando a declamação, causando tensão desnecessária. Se é possível reduzir, sonoramente, cinco vogais a apenas duas, então que se faça também uma redução gráfica. Aristóteles recomenda: Só se grafe o que for para ser falado e do jeito que for para ser falado. Vejamos exemplos:


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Gregório e a espada, pentatongo
Gregór e a espada, tritongo
Gregór e a spada, ditongo

Qualquer proparoxítona aparente pode ser grafada sem o ditongo quando uma vogal a sucede, sem perder o acento: Gregório e > Gregór e; decência e > decêns e; dicionário e > dicionár e; história e > histór e.

Pode-se também liquidificar o encontro:

Gregório e a espada, pentatongo: io-e-a-e
Gregório e la espada, tritongo e ditongo: io-e / a-e
Gregór e la espada, ditongo: a-e

Ou ainda, em caso de hiato:

Gregório e o homem
Gregór e el homem


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Em caso de encontro envolvendo ditongo (ou elisão) e hiato, portanto três vogais, é possível unir as vogais do ditongo numa crase, indicada pelo mácron:

carne e osso | elisão e hiato, e-e-O
carnē osso | hiato com crase, ē-O

A enumeração poética, por figura de variedade, não precisa repetir o artigo em cada membro da enumeração:

a espada, a vida e o vento, tritongo: a-e-o
a espada, a vida e vento, ditongo: a-e

Ver-se-á nas cantigas de amigo: [ a vid’e o vento ], mas nem o apóstrofo é necessário, pois o leitor já sabe que não se trata de prosografia padrão. Escreva-se pois sem medo: [ a vid e o vento ]. É bom usar apóstrofo, porém, quando a palavra que for reduzida ficar sem vogal ou sem vogal pronunciada: [qu’esta] ou [questa], não [qu esta].


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Pobre ou rico, o hiato interverbal não pode ser reduzido a ditongo. O verso deve conceder a cada membro uma sílaba própria, e assim deve ser lido. Se começar com a frase [ E homem ], não se leia [iô-mem], e sim, por equilíbro sonoro, [e-ô-mem]. Pode-se usar o mácron sobre a sílaba átona: [ ē homem ]. Se começar com [ De homem ], não se leia [djô-mem], e sim [de-ô-mem]. O mesmo se aplica se o segundo membro do hiato for subtônica, como em [ De Iemanjá ], que não deve ser lido [djê-man-já], mas [dei-ê-man-já].

Muito menos se unam as vogais do hiato se o primeiro membro for o tônico. Se ocorrer [ Já o carro ], não se leia [jáu-car-ro], e sim [já-o-car-ro]. Na dúvida, usar o mácron como diérese: [ Já ō carro ]. Ou artigo líquido: [ Já lo carro ].

O mácron não é acento gráfico. Se num poema longo ocorrer diversas vezes a frase [ do homem ] e o poeta quiser indicar o hiato por [ dō homem ], não é preciso repetir o mácron cada vez que a frase ocorrer. Basta usá-lo na primeira ocorrência. Subentende-se que as outras seguirão a regra.


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Os encontros vocálicos interverbais envolvendo apenas duas vogais dividem-se em quatro casos:

1. átona com átona: grande espada, bela história
2. tônica com tônica: só armas, virá hora
3. tônica com átona: só espada, até agora
4. átona com tônica: bela arma, alta árvore

É preciso distinguir o que se trata de elisão, ditongo ou hiato. Em átona com átona, o encontro é geralmente elisão, porque apenas uma vogal soa, mas será por vezes ditongo, onde ambas soam no espaço de uma. Forma sem dúvida uma única sílaba métrica.

Em tônica com tônica, o encontro é sempre hiato. O uso clássico geralmente o reserva a situações de clara cesura. Doutro modo, a segunda sílaba acaba abafando a primeira, o que nem sempre é boa prosódia, especialmente quando a sílaba abafada é tônica de verbo, adjetivo ou susbstantivo.

Seja como for, o encontro de tônica com tônica envolve sempre duas sílabas métricas. Os encontros de átona com átona e tônica com tônica são portanto contonais, porque as vogais envolvidas têm o mesmo valor tonal.


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Já os encontros de tônica com átona e átona com tônica são distonais, porque as vogais têm valores tonais diferentes. De rigor, deveriam ser sempre tratados como hiato e duas sílabas métricas. Em se tratando de tônica com átona, a pronúncia isolada do encontro poderia sugerir um ditongo decrescente, como na frase [ É o poeta ], onde soa quase como -éu-. No meu entendimento, porém, é tradição tratar tônica com átona como hiato. A prova mais clara é que jamais se tentou aproximar graficamente um tal encontro para sugerir o entendimento de ditongo. A prática dá a entender que é grosseiro fundir, por »necessidade métrica«, este encontro vocálico numa sílaba só. Envolve duas sílabas métricas.

Quanto ao encontro de átona com tônica, há uma certa divergência de usos. Em princípio, deveria ser tratado como hiato, a fim de que a letra átona, conquanto grafada, tenha espaço para se expressar. Mas a prática consagrou inumeráveis exceções. A frase [ muito há ] soa mais clara se o -o- de muito não for engolido, do mesmo modo que o artigo da frase [ o homem ] deve ser preservado. Assim começa, contudo, uma das mais belas cantigas de amigo:


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Ora vej’eu que non ha verdade
en sonh’, amiga, se Deus me perdón;
e quero-vos logo mostrar razón,
e vedes como, par caridade:
            sonhei, muit’ha, que veera meu ben
            e meu amigu’e non veo, nen ven.


Nas frases [ vej’eu ] e [ muit’ha ], átona com tônica são tratadas como elisão. Note-se ainda frases consagradas como Pedr’Álvares, Sant’Ana entre outras. O português antigo costuma tratar átona com tônica como ditongo ou mesmo elisão, o que é legítimo: Qualquer grafia poética baseada em cantigas de amigo é legítima. O que ocorre no verso antigo é uma operação prosódica de redução: Suprime, sonora e graficamente, a átona do encontro, suprimindo o próprio encontro. Grafar a átona seria permitir que o encontro fosse tratado como hiato, o que prova, portanto, que átona com tônica em si é hiato.

Na história do português, o que se observa é um grau de tolerância cada vez menor à redução prosódica do hiato. No entanto, ainda há casos em que supressão é mantida, como [ d’água, n’água, d’alma, n’alma, d’alva, d’ouro, n’ouro ] e expressões fixas com hiato pobre.


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Note-se porém a frase [ que essa ] que, ora hiato, ora ditongo, mesmo sendo átona com tônica: [ Sei| que-es|sa| vi|dè| be|la ]. Poder-se-ia grafar [ qu’essa ] ou [ quessa ], da mesma maneira que o encontro em [ de essa ] deu origem a [ d’essa ] e por fim [ dessa ]. Mas na dúvida, trate-se átona com tônica como hiato.

O encontro de átona com subtônica vale geralmente como átona com átona, ou contextualmente tônica com tônica, marcando em todo caso apenas uma sílaba métrica, como nas frases [ este ordinário, que exagero, que ajudamos, te agradece ]. Todavia, quando a vogal átona é artigo sólido isolado, ocorre hiato: [ o homemzinho = ō homenzinho | a alvorada = ā alvorada ]. No caso do artigo masculino, o hiato é mais suave, visto que esse artigo tem valor sonoro de -u-, de modo que o hiato u-O tem uma certa variedade sonora. Já no caso do artigo feminino, um hiato a-A é a repetição literal do mesmo som. Quem quiser evitar esse efeito, como na frase [ e a alvorada ], pode liquidificar o artigo e contraí-lo com a palavra seguinte:


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e a alvorada > *e la alvorada > e l’alvorada, ou: e el alvorada

O mesmo recurso pode ser usado no masculino:

e o homenzinho > *e lo homenzinho > e l’homenzinho, ou: e el homenzinho

Quanto aos encontros de subtônica com átona, não ocorrem.

A grafia ideal para átona com tônica é a seguinte: Quando forem tratadas como elisão, siga-se o exemplo dos antigos e não se grafe a átona, mas junte-se as palavras por espaço vazio, com ou sem apóstrofo, ou por crase. Quando forem tratadas como hiato, escreva-se ambas as letras. Logo, se se escreve ambas as letras, o ideal é fazê-lo na intenção de indicar hiato. Para reforçá-lo graficamente, a letra átona pode ser grafada com mácron. Por exemplo:

A frase [ do homem ] é de prosódia dúbia. Cada um lê como quer. Assim, a excelência prosódica escreverá [ d’homem ] se tratar o encontro como elisão, ou [ dō homem ] se o tratar como hiato. Já a frase [ o homem ] só pode ser tratada como hiato, portanto [ ō homem ], já que a elisão gráfica seria impossível, e isto, ao menos, deveria servir de regra: Onde a elisão gráfica não for possível, não se faça elisão sonora, para que exista uma harmonia, correspondência entre grafia e dicção. Quem se incomodar com o hiato pobre poderá usar, em epografia ao menos, o artigo líquido: [ el homem, l’homem ].






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