GREGÓRIO BARBOSA


SESSENTA E SEIS VARIAÇÕES

sobre um tema de Olavo Bilac

Index



© Greg Ory 2015 – 2018, Record L 7, engl. Sixty six variations on a theme by Olavo Bilac, october 2015 to november 2017, Hampshire, free verse and transcendental sonnets, 66 poems, lyric poetry, Portuguese.




TEMA


Sperate, creperi!

Não sei. Duvido e espero. Na ansiedade,
Vago, entre vagas sombras. Se não rezo,
Sonho; e invejo dos crentes a humildade
E o orgulho dos filósofos desprezo.

Como um Jó miserável da verdade
E de receios farto como um Creso,
Adormeço a tristeza que me invade
E engano o coração cansado e leso...

Talvez haja na morte o eterno olvido,
Talvez seja ilusão na vida tudo...
Ou geme um deus em cada ser ferido...

Não afirmo, não nego. É vão o estudo.
Quero clamar de horror, porque duvido:
Mas, porque espero, – espero, e fico mudo.


(Olavo Bilac, Tarde, outubro de 1918)





VARIAÇÕES


I.

Sei, duvido e espero.
Vago, rezo,
sonho; e invejo
e desprezo.

Miserável
e farto,
adormeço
e engano.

Talvez olvido,
ilusão
ou deus.

Afirmo, nego.
Quero clamar, duvido:
Espero e fico.


II.

          Tal- Tal- vez vez ha- se- ja ja
          na i- mor- lu- te são o na
          e- vi- ter- da- no
          olvido. tudo.

          Adormeço Engano a o tristeza coração
          que cansado me e invade leso...
          Creso...
          Jó...

          Farto de receios e miserável da verdade, percebo a cada passo que essa tal de verdade é miséria e receio (ao menos aos burros como eu), que além de todo verso geme um deus prosaico e profundamente feio em cada ser ferido.
          Não sei, quem sabe?
          Talvez a vida seja sem mistério mesmo e depois da dor aguarde aquele desfecho grotesco de não ser. Não sei. Grotesco?

          Passam Nasce pela o janela sol as apesar nuvens de
          E toda agredindo dor, os porquanto pássaros o as verde antenas é
          E maior os maior cabos maior de maior TV. maior...


III.

Não.
Se não
e,
e.

Como,
como
que
e.

Talvez,
talvez:
ou

Não,
porque
mas.


IV.

No fundo é privilégio de reis
O devaneio da dúvida.

Bonito é nego trabalhando
Até morrer:

Aposentadoria, tempo livre
Pra quê?

Depois fica aí que nem poeta:

Se dá azar ninguém lê,
Se dá sorte só sai bate-boca.

Pra quê debate?
Boca boa é boca fechada.

Bonito é deixar de viadagem!

Bonito é nego trabalhar
Até morrer. Aí sim.


V.

A |Co |Eu |O |Não
ver |m'um |du |co |re
da |Jó |vi |ra |zo:
de,|| do |ção ||
|| A || || Ge
tris |dor |co |não, |me,
te |me |m'um |tal |Deus!
za |ço |Jó |vez ||
mi || || || Que
|| a |das |i |ro
se |ver |som |lu |cla
rá |da |bras |são, |mar
vel |de |e || ||
|| || || an |de
co |na |dos |si |re
m'um |mor |so |o |cei
Jó. |te. |nhos. |so. |o!


VI.

Eu sei! Ainda espero meu salário
vago de vagabundo. Se não rezo,
trabalho como um crente salafrário,
E o patrão dos políticos desprezo.

Como um peão sem marmita e verdade
E de idiotas farto como um Creso,
Adormeço a revolta que me invade
E obedeço o chefão, safado obeso...

Melhor talvez emprego prohibido,
Talvez é só ladrão na vida tudo
E geme o rego em cada ser fodido...

Não afirmo, meu nego: vão estudo!
Quero matar meu diretor bandido,
Mas como espero a grana, fico mudo.


VII.

d-u v i d o e e s p e r-o
e s-p e r o e d u v i-d o
d u v-i d o e e s p-e r o
e s p e-r o e d u-v i d o
d u v i d-o e e-s p e r o
e s p e r o-e-d u v i d o
d u v i d o e e s p e r o
e-s p-e r-o e-d u-v i-d o
d u-v i-d o-e e-s p-e r-o
e s p-e r o e d u-v i d o
d u-v i d o-e e s p e-r o
e-s p e r-o e-d u v i d-o
e s p i r i t o s a n t o
d u v i d o e e s p e r o


VIII.

A vós, amiga, que o mar nunca vistes
direi se m’oirde-lo qu’ést’o mar:
Aver amigo, amiga, e non saber
se ven ou se mente, est’é lo mar.

Amiga, o mar é non saber u sodes
nen se a nulha part’ides jamais.

Seerdes soa e non saber se Deus
é vosco ou desampara, amiga,
ést’esso o mar – o mar é viver
sen guarida ou sen sabendo se avra.

Pois é tal o mar, amiga, qual vos digo,
ora duvido d’amor e promessa d’amigo,
ca se Deus mi valha, amiga, o mar
é non saber se ven ainda ou se ha ido.


IX.

Me dá negócio no peito,
tipo que nem sei lá quê.
Daí complica o bagulho.

O cara mei-que matuta
mas não tem pronde correr:
Tem que fingir que não vê,
maluco, senão tu pira.

O cara ou morre de vez
e a vida é só paranoia
ou, sei lá, quem sabe vive?

Eu hem? Nem quero pensar,
pensar pra quê na parada?
Bola pafrente, malandro,
bora que a vida é essa!


X. [poema-sem-título]

Sou paradoxo. Segundo Heidegger,
preōcupação constitui a essência.

Enquanto o espírito católico recorre
à prece, Sartre digere a sós l’agonia.

O problema da teodiceia de Jó
é responder com argumento cosmológico,

quando na verdade a dúvida é ontológica
como o questionar cabal de Creso.

Saiu de voga o dualismo de Descartes,
embora a pertinência cética prossiga.

A teologia de Bonhoeffer liberta-se
disto, refletindo dinâmica de grupos.

Mas o vazio dessa angústia existencial
não nos isenta da ética: Cadê metáfora?


XI.

Patati patatá,
Vagas.
Crentes,
Patati patatá.

Miserável,
Farto.
Patati patatá:
Cansado e leso.

Eterno,
Patati patatá.
Ferido.

Vão,
Patati patatá,
Mudo.


XII.

lá no meio do trilho tinha um pombo morto
ao lado dum pente velho e marrom.
a chuva não leixava o corpo apodrecer.
passaram trens.

ponde meus órgãos em quatro canopos
junto ao caixão
para a vida abstrata e flutuante
e leixedes al em paz.

dizede às musas: se é vão o estudo
quão pior a letra –
milhões de zeros à esquerda da sombra.

a verdade é trocar a caneta pela poeira.
embalsamade a boca sem alma porque
palavra apodrece.


XIII.


XIV.

Vou fazer meu soneto e vou rimar
só pra dizer que sei fazer bonito.
A caravana vai me elogiar
e dizer por aí que é bem escrito.

Chapéu palheta vem dos anos vinte!
Se comprar panamá tu tá de boa.
Olha, o primeiro é chapéu de requinte,
mas hoje os dois só quem bota é coroa.

Daí o cara fica matutando:
Compra logo ou não compra essa parada?
Não sei, duvido e espero, sou malandro.
Hoje a moda é o boné da molecada.

Meu sonetinho vai tirar do sério e
quem duvida, duvide mas espere!


XV.

Pega o mar, pega, pega o mar e engole.
O gole ignora o que coube no mar
e o mar retraga no gole a garganta.

Anda, rapaz, resolve aí o problema
da quadratura logo do círculo, vai,
pega o revólver, pega o mar e engole.

O ladrão de galinha caça o galo
mas co canto o ladrão desamanhece.
Um dia morre herói de galinheiro,
e a galinhada à deriva se esquece.

Em meio às levas de refugiados
nada a vida com corpos a boiar.
Passa a boiada rumo às esperanças
que ainda esperam boiada a passar.


XVI.

Peraí que o buzão vai passar,
O buzão vai passar, peraí!

– Esperei demais, to nem aí.

Vai perder seu trem, rapá, tá doido?
Tu vai ficar pra trás, se perder?

– Perdido eu já to com trem ou sem.

Cadê seu barco então, vagabundo?
Pega o remo e sai remando, bora!

– Vou de barco não que barco afunda!

Quem não sabe usar, bagulho afunda!
Mas então tu tá sperando o quê?

– Pois eu to cansado é de esperar.

Então não espera, nego! Anda!
Anda aí que o buzão vai passar!


XVII.

Em caravana, passa o cortejo dos grandes
Deixando para trás o desprezo de estranhos.
Mas vós, que paristes o belo pelo tempo,
Que verdade paristes em vez de verdade?
Aurora traga o sonho e clareza desvenda
O desassombro na babaquice dos dias.

Alto erguei, danados, a cortina do palco
Que traz na caravana o desprezo dos grandes:

Platão coçando o saco no meio da escola
E maldizendo opositores dos sábios;
Beethoven surdo maltratando empregados
E bajulando nobres no amor de dinheiro;
Homero cheirando pó na beira da praia
E reclamando da comidinha do hotel.


XVIII.

Cumprindo a política de austeridade,
Engravemos um sonetinho econômico:

Inda te agita, em madrugada angusta,
O desandar da dúvida e da espera?

Para, porra!

E pensa.


XIX.

Olha aí pra sua língua como é:
O teu negócio é confusão de pronome
E sinérese & Co. co elisão mal-feita.

Mas é melhor, se for pra esculhambar,
A sinérese e tal que a diarreia lírica.

Aí tu fica lá, babando a boca dela,
Como um Jó miserável da verdade
E de receios farto como um Creso,

Que nem tipo nas ligatura do poeta:
“Sonho; e invejo dos crentes a humildade
E o orgulho dos filósofos desprezo”.

O cara vende “o e i” com pausa ortográfica,
“e o o” com pausa fonética! Ficou chocho:

Depois, nego quer declamar, fica feio.
Cadê Gregório de Matos? Má prosódia
Engana um coração cansado e leso.


XX.



XXI.

Porquanto espero, espero e fico mudo.
Quero clamar de horror porque duvido,
Não afirmo e não nego o vão estudo.

Mas geme um deus em cada ser ferido?
Talvez seja ilusão na vida tudo,
Talvez haja na morte eterno olvido.

Engano o coração cansado e leso!
Adormeço a tristeza que me invade
E me receio, farto como um Creso:
Como um Jó miserável da verdade!

Orgulho de filósofos desprezo,
Sonho, venero de crentes humildade,
Vago entre vagas sombras. Se não rezo,
Vago entre vagas sombras.


XXII.

Fala aí, mané, pesse tal de Petrarca:
Vem cantar de galo aqui não com potranca!
Essas pira aí que tu fez pa suas nega,
Tem sonetinho aqui não, tem baile funk.

          Mas lembrai-vos, nas trovas da província,
          Que nem canções de amor do médio evo
          Nem falastrões de marginais culturas
          Superam a sombra da verdade.

                    Ih, maluco, Petrarca mandou te dizer
                    Pa você: To nem aí, mermão, olha só:
                    Cuida aí do seu gado co cuido do meu,
                    De boa: Esse seu baile aí não tá com nada!

          Talvez haja na morte eterno olvido,
          Talvez seja ilusão no verso tudo...


XXIII.

E vamos
               descendo
                               pela escada
                                                   da morte,

Pequenos
                 que apenas
                                    cobiçávamos
                                                          sorte.

Mas a verdade
                         de toda vida
                                              é concreta:

Concreta
                como um soneto
                                            e soneto errado.


XXIV.

Duvido no mar medonho,
Invejo os crentes do sonho.

Ansiëdade? Infindável.
Desprezo, sábios, a vida.
Verdade? Jó miserável!
Vem, tristeza adormecida:
Creso, farto e nunca forte,
Lesa, engana o coração.

Olvido eterno na morte?
Na vida é tudo ilusão!
Geme em Deus um ser ferido?
Nego, afirmo o vão estudo.
Clamo, clamo pois duvido,
Desespero – fico mudo.


XXV.

Em meio a tantas dúvidas, acho muito injusto ninguém dedicar um sonetinho à vida das amebas. merece respeito l’ameba desconhecida, esparramada pelas nossas páginas. em cada ser ferido geme um deus e de profundis pago no epigrama esta homenagem:

Leitor mais fiel do que tu, ’mebinha,
Só quem lê lixo mesmo e sai de baixo!


XXVI.

Como um Jó miserável da verdade
Adormeço a tristeza que me invade.

O bom
Era se Deus tivesse lido um pouco de Quine
Antes de escrever
Seus livros.

Teria mais precisão lógica
A coisa.

Do jeito que está
Complica
Mas, como dizia aquela musiquinha,
“Nobody said it was easy.”

O problema de Deus
É que Deus é poeta.


XXVII.

Quando a pessoa vê
Que nem tudo são flores
Começa a dar chilique.

Nem tudo que é flor
É cheiroso – nem tudo
Que fede é lixo.

(Querido, entenda:
Partido político
Não cura depressão.)

Eu já falei, eu sei,
Mas você não aprende
Então repito:

Nem tudo que fede é
Lixo, meu caro, acredite.


XXVIII.

Como um Jó miserável da verdade
Adormeço a tristeza que me invade.
Não sei, duvido, espero. Na ansiedade
Sonho, invejo nos crentes a humildade.

Vago entre vagas sombras. Se não rezo,
Orgulho dos filósofos desprezo.
E de receios farto como um Creso,
Engano o coração cansado e leso...

Talvez seja ilusão na vida tudo...
Não afirmo, não nego, vão estudo.
Mas, porque espero, espero e fico mudo.

Talvez haja na morte eterno olvido,
Ou geme Deus em cada ser ferido...
Quero clamar de horror porque duvido.


XXIX.

Não, nem tudo são flores,
Perdoem a contundência.
O vaso sanitário,
Digam lá o que disserem,
É uma coisa extraordinária.

Digo isto sem espírito
De porco, até sou grato:
Aquela transcedência do vaso
Pouca gente reconhece.

A beleza da vida é
Sanitária, ordinária mesmo!

Há dúvidas.
Mas olhe ao redor:
Graças ao vaso, nem tudo é merda.


XXX.

Ansiedade,
vagas sombras:
dos crentes a humildade
e o orgulho dos filósofos.

Como um Jó
e como um Creso,
a tristeza,
o coração cansado e leso.

Morte,
vida:
cada ser ferido.

O estudo:
horror,
e mudo.


XXXI.

Or’eu sejo, amiga, se Deus me perdón,
a mais coitada das almas aquém de mar,
ca tam gram coita ou maior desta minha,
amiga, nulh’omen viu, se Deus me perdón.

Pero a que ja vejades, amiga, a causa
de tam gram coita e se mor ouve ja-quando,
digu’eu que mal qual me fez meu amigo,
amiga, nulh’omen viu, se Deus me perdón.

Dês que s’er foi o qu’eu creera amigo,
amigu’, e já non torna macar prometeu,
macar prometeu non torno mais a creer.

Pois non creio rem, duvido e pero sei
ca tam gram coita ou maior desta vida,
amiga, nulh’omen viu, se Deus me perdón.


XXXII.

          Engole, mar, imenso mar, as palavras
          E queima como o inferno
          Redentor as almas.

          Fico pousando os olhos e dormitando a razão perante a flama, como se meus anseios banais fossem grandiosos, ou grandiosos por serem banais, ou grandiosos mais de banais, ou como o sonho que sendo sonho não é banal nem grandioso, é sonho.
          Ai, meninas, a vida é tão cheia de dúvidas e no entanto eu amo tanto esta vida.

                                             da eternidade,
                é subir as escadas
Quero sim

Mas como vivo,
                vivo e duvido
                               e vou descendo mudo.

Mas poeta, pra quê falar de causas incomensuráveis?
A verdade é para um tratado filosófico.
Poema é para não existir.


XXXIII.

A: Jacá, jaqué, jaqui, jacó, jacu.
E se a morte morrer, brincaremos?
Jacá Se jaqué, jaqui, jacó, jacu,
Jacu, jacó A jaqui, jaqué, jacá,
Jacá, jaqué, jaqui Morte, jacó, jacu,
Jacu, jaqué, jaqui, jacó Morrer, jacá,
Jacá, jacó, jaqui, jaqué, jacu Brincaremos?
E se a morte morrer, viveremos?
E sim se sim a sim morte sim morrer
Sim brincaremos? E não se não a não
Morte não morrer não brincaremos?
E jacá se jaqué a jaqui morte jacó
Morrer jacu viveremos? Jacu, jacó,
Jaqui, jaqué, jacá se a morte morrer.

B: quando vier de repente
uma brisa frescante e perfumada
e você chorar,
pense no espírito santo.

qualquer brisa frescante
e perfumada.

d-u v i d o e e s p e r-o
e s-p e r o e d u v i-d o
d u v-i d o e e s p-e r o
e s p e-r o e d u-v i d o
d u v i d-o e e-s p e r o
e s p e r o-e-d u v i d o
d u v i d o e e s p e r o
e-s p-e r-o e-d u-v i-d o
d u-v i-d o-e e-s p-e r-o
e s p-e r o e d u-v i d o
d u-v i d o-e e s p e-r o
e-s p e r-o e-d u v i d-o
e s p i r i t o s a n t o
d u v i d o e e s p e r o


XXXIV.

Vago por vagas sombras na ansiëdade e duvido
Como um Jó miserável de vã verdade e non rezo.
Sonho, mas sem saber espero como os crentes
Vida além da inveja e farto enfim me entristeço.

Mas filósofos, donde tendes vosso desprezo,
Vosso orgulho donde neste mundo bebestes?
Leso o coração cansado eu engano e adormeço
Tanto medo e tristeza que a mim somente me cabe.

Há na morte talvez, na morte o eterno olvido,
Vida e tudo que resta aquém ilusão dos humildes.
Geme de fato um deus em cada ser lacerado?

Que me cerco porém de perguntas vãs e pergunto?
Nego! Quero clamar de horror porque duvido,
Mas espero e como espero perco as palavras.


XXXV.

Sperate, creperi,
quare vagatis iam
per umbram dubitantes?

Vir veritate egens Iob
vobis nil docebit novi:
sperate, creperi!

In morte fortasse latet
oblivium, mentitur forte
fortium tranquillitas.

Freme, abscondite dee,
in vulneratis animis,
inermis apud fortunam.

Damnatus es cum creperis
ad veritatis inopiam.


XXXVI.

Duvido na ansiëdade, espero pois sonho
mas sei que apenas vou vagando na sombra
dum vão estudo. invejo em tudo e desprezo
o filósofo como o crente, soberbos e simples
que nada sabem. non rezo e me entristeço
adormecendo no peito um clamor que me invade.
talvez na morte seja eterna a verdade,
o resto ilusão. será que um deus me conhece
e geme cansado e leso dentro do mesmo
sonho em que existo? como um Jó miserável
pergunto e como nada sei apenas me agito
e clamo de horror: aonde, meu Deus, eu vou?
mas ando ainda que sem saber, porquanto andar
è verdade maior que saber e viver è morrer.


XXXVII.

nescio dubito | An-si-e-da-de | spero
vago | Som-bras | recito
somnio credentium | Hu-mil-da-de | invideo
sapientium | Or-gu-lho | contemno

Iob vir | Ver-da-de | miserabilis
satis | Re-cei-os | satis
sopio | Tris-te-za | invadit
fallo fessum | Co-ra-ção | laesum

forsit | Mor-te, Ol-vi-do | aeternum
forsit | I-lu-são, Vi-da | omnia
fremit | Deus, Ser | feritum

affirmo nego | Es-tu-do | vanum
clamo | Hor-ror | dubito
dubito spero taceo


XXXVIII.

quando vier o meu caixão, se me derem algum,
non quero lágrimas em torno do que já non sou.
mas se quiser chorar quem-quer, que chore agora
ou evite chorar. eu não desejo tributo nenhum
ca sempre disse a todos e todos sempre souberam:
o que me espera è certo, incerto o que me inspira.
e não se ofendam pela forma de minha carcaça
porque carcaça é la vida o que é. a quem duvida
rogo ver na estrada o cadáver dos cães e dos homens,
porque dali bem hão-saber o que me havrá de passar.
o que não sei, nem ninguém saberá, é se a querida
carcaça me guarda o mal maior ou lo maior dos bens.
a quem tanto não souber imploro que, se me amar,
non chore por mim mas viva sua vida e viva bem.


XXXIX.

Não sei. Duvido e espero.
Vago entre vagas vago.
Sei que duvido como espero,
mas como espero não vago.
Vago por vagas como um não
e das dúvidas duvido,
pois espero. Mas como vago,
vago e vagando não sei.
Talvez por vagas será saber
do que duvido e não sei,
porquanto espero, vago:
Porque não sei, duvido
e porque duvido, não sei.
Mas vago como vago, espero.



XL.

Sentado à sombra repouso e penso no cu:
Ó meu cu, e cus de toda gente que a gente
Escarneia e rejeita, quê de mim sem ti?

É meu cu, avisem a todos, que me ensina
O que é mundo e caga fora de meu mundo
Ilusões que uma boca impostora consome:
É pelo cu que me livro de tudo que é lixo.

Era bom se el alma também tivesse o seu cu
E o cu de minh’alma enjeitasse, por si só,
As ilusões duma mente impostora, mas não:

É tão impostora essa mente que mente que
Já non leixa o cu do espírito obrar em paz.
Passo os dias ensinando o cu de minh’alma
A me livrar do mundo e da mentira.


XLI.

num misto de espera e desespero, sonho e vejo estrelas. por que sois tantas e tão distantes? toda vez de vos ver foi primeira como o primeiro amor. amor seria a prolongação eterna:

           a rua quïeta ouvindo o meu silêncio riu.
           na sombra, a brisa esconde as folhas,
           o vago vendo meus os sonhos.

           verdade traz
           perfumes. a rua
           dorme.

           houve ilusões, houve amor.
           estrelas.
           estrelas.

sempre que a morte se abate, sou, estou. e pelas salas por onde a vela me chama incerta, repasso a vida, repasso, repasso...

           quando o sonho riu,
           eu fui à rua
           e a noite se foi.


XLII.



XLIII.

Serei! Prossigo, espero. Nas alegrias,
Paro por entre estrelas. Se não rezo,
Gozo; e invejo de Deus as harmonias
E os contrapontos de Satã desprezo.

Como um Noé navegando a verdade
E de deleites pleno, amor sem peso,
Reconheço a pureza que me invade
E realço o coração sem medo, ileso...

Talvez na morte o despertar querido,
Talvez seja um clarão na vida tudo...
E canta um deus em cada ser nascido...

Não afirmo e não nego o doce estudo.
Quero entoar um hino e não duvido:
Meu hino entoarei, cantando ou mudo.


XLIV. [poema-sombra]

venusta clamat vox quae sperate
        a voz de vates ancestrais ressoa
inquit creperi nec tamen audiunt.
        e projeta em verso a sombra que sou.
ne timueritis ait incertum
        eu sou a sombra tosca e resíduo
quod ceadem ut certam fugitis.
        que um dia foi língua maior.
vitam contrario quasi boves solent
        pessoas passam e vão catando
edentes agere bibenbes nec viventes.
        do chão a verdade suja que sou.
quid fugere quod malum dixistis
        metáforas e letras enfeitadas
si maius quaerentes non veremini?
        são sombras do que não há nem é.
mortem ne timuertitis, estis mortui
        além da dúvida e da espera paira
veram qui vitae nescitis partem.
        verdade além da dúvida e da espera.
nautae officium portum reperire
        a voz emudece e palavras afoitas
quod tempestatibus non eget mar.
        perdem no chão do tempo enfeites.
nec de profundis iuvarit clamare
        as coisas que são do tempo não
tota iam cum latet navis mersa.
        conhecem verdade acima do tempo.


XLV.

não.
não é vão o estudo.
vão é poema.
qualquer poema.

.
..
...
....

.
.
.

.
..
...


XLVI.

teorias de beleza
não combinam com verso
nem verso com vida.
não caia nessa não, meu querido,

querido, acredite:
pode não feder
mas é lixo.

sabe Platão? então, Platão já dizia:
sai dessa vida de metáfora, sai.
o mundo já é fogo com tudo mastigado
e dito na cara.

querido, entenda:
verdade no mundo
é coisa rara.

XLVII.

exce- sacer- cérebro -dotes -rebram
guar- prim- can- pulmão -opo -eiro -da
seg- va- con- fígado -tém -so -undo
ou- jar- esc- estômago -onde -ro -tro
últ- pe- abr- intestino -iga -ça -ima
cor- vaz- man- coração -tém -io -po
cai- colo- enc- corpo -erra -rido -xão
pirâ- env- ete- caixão -rno -olve -mide
aon- pas- fo- vi- sopro -ve -ge -sa- de
não bus- est- ne- verdade -go -udo -co sei
so- va- en- va- sombras -gas -tre -go -nho
duv- esp- ge- re- deus -zo -mo -ero -ido
ven- so- le- al- ilusão -ém -va -pra -to
na- na- na- na- sol -sce -sce -sce -sce


XLVIII. [cem anos sem Claude Debussy, 1862-1918]

câncer colorretal não mata
a música que a morte deixa atrás de si.
imortal em suas obras, Debussy
está aí, maior que o grotesco artifício
que o sequestrou.
os gregos sabiam da inveja do fato,
mas inveja não mata
a música que
além da ansiëdade Debussy
compôs, minado pelo morbo e redento
da dúvida. não esperou, viveu
e venceu invencível sequestro.
está aí, maior que o grosseiro
artifício.


XLIX.

Que me catastes, mia senhor, enos olhos
se nimigalha vos val o qu’en eles ha?
fora melhor eu cego nacer ca veer
quen tan ben amo tan mal mi querer.

Que me catastes, mia senhor, enos olhos
se ren vos valen ondas qu’en eles ha?
Per bõa fe, senhor, melhor ventura fora
ca vos veer eu m’ende afogar e morrer.

Pois m’ar catastes, mia senhor, enos olhos
vou a Compostela e rog’a Deus mi dizer
que mal lh’eu fiz per atal coita sofrer;

mais se Deus non disser mi diga Santiago
en qual guisa viver, par caridade, e veer
quen tan ben quero tan mal mi querer.


L.

          o trem da morte vem vindo por aí.
          esteja pronto.

          só não me apareça com romance dizendo que é para o bem do mundo. se você tiver um problema, alguma frustração com a sociedade ou coisa parecida, não escreva romance não. o mundo não precisa mais disso (narração é pretexto). escreva sim um tratado, um panfleto, um ensaio – exponha seu caso sem subterfúgio literário. o primeiro dever é questionar a literatura e sabotar, se preciso for, sua própria obra como aqui saboto um poema que não existe senão para ser sabotado. a ditadura acabou, cada um pode dizer o que quer, então não perca tempo e não enfeite: diga claro na cara do mundo o que pensa do mundo. e não cobre dinheiro não porque dinheiro compra a coragem. diga de graça mesmo.

          metáfora e ficção é tudo lindo, mas verdade é melhor.

          se for fazer o bem faça
          agora.

          o trem da morte vem vindo aí.
          é o trem da morte.


LI.

Sei não,
Ando é por aí.
Melhor ficar quïeto
Que dizer que sei sem saber.

Que nem burro
E cão co rabo entre as pernas,
Fico triste,
Mas eu lá ligo? Ligo não, senhor!

Quando morrer, quem sabe eu sei,
Vai ver que é só bobagem...
Ou no fundo é verdade essa agonia.

Não sei nem quero saber.
Tem vez que eu grito por aí,
Mas gritar pra quê, se não sei de nada?


LII.

se não rezo, sonho. mas não, ao sonho
segue o despertar. sonhemos menos.
feche sim os olhos mas sente-se reto
e cruze as pernas. respire, respire.
pense e diga a seu próprio sonho
feito vigília: eu respiro, respiro,
respiro e sei que respiro. morrerei
mas respiro ainda e respiro. viverei
que vivendo inspiro, retenho, expiro.
haverá no sonho tristeza e no entanto
inspiro, retenho, expiro. ansiëdade
cansa e lesa o coração a dúvida.
não duvido e não espero, respiro
e porque respiro vivo e não me canso.


LIII. [samsara]



LIV.

invejas de crentes a humildade? reza
então, danado, como humilde nem rogues
prata, império nem prazer. inveja
a desgraça de Jó, mas pede mais.
se queres vida, vive a vida inteira:
louva em qualquer circunstância
a lama, a derrocada, a inglória
e tudo que for
                       tortuoso abraça.
assim se gusta o sabor completo
da vida e se vive por inteiro.
o resto é fumo, cinza, ilusão
e muita, muita, muita covardia:
sofre, preguiçoso, sofre de verdade!
dilacerado o diamante é burilado.


LV.

nuvem nuvem neve névoa neve nuvem nuvem
            e o vento arrancava do chão as folhas em turbilhão
            desordenado prenunciando o mistério maior, maior
mundo fundo mundo fundo mundo fundo mundo

var meta = document.createElement('meta');
meta.name = 'referrer'; referrer refere referrer.
meta.content = 'origin-when-cross-origin';
document.getElementsByTagName('head')[0].appendChild(meta);

            nuvem nuvem neve névoa neve nuvem nuvem
e não me venha citar Schopenhauer dizendo que uma existência
feliz em momento algum foi preconcebida para caber no
            mundo fundo mundo fundo mundo fundo mundo

não cabe mesmo, querido, quem cabe é cabide, mas o vento
desordenado prenunciava meta.content = 'origin-when-cross-origin';


LVI.

olim vatis a musa quaerebat
quare, pulchra cum scripisset
veraque, nemo versus legeret.
scripsisti, ait, quo sermone?
lingua, dixit ille, minorum
mea qua complures nunc utuntur.
nemo te legit, inquit irata,
quod malum optavisti sermonem:
lingua minorum lingua porcorum.
maiorum linguam nisi optaveris
cur, stulte, tam multa scripseris?
meos minores, inquit, educabam.
non educantur, ait illa, in limo
volutantes, vili aluntur cibo.


LVII. [ce que dit Debussy à Bilac]

très modéré, pp vif, quittez, en laissant vibrer
pp léger et lointain, en serrant.
vif f p p dim. molto legg. p joyeux et léger p
pp pp pp pp p expressif p mf f p cédez ... //

a tempo (avec la liberté d'une chanson populaire).
un peu en dehors, cédez ... // a tempo
pp cédez // a tempo f f cédez // a tempo m[ain] g[auche]
dim. e rit. m. g. ||

p modéré et expressif, un peu marqué, plus modéré
rubato, un peu marqué pp pp retenu pp presque lent //
p cres. molto, a tempo (vif) f f p cres. molto.

cédez ... // a tempo f ff cédez // a tempo m. g.
dim. cédez ... // a tempo p f f p f f f
ff lummineux fff très retenu (... Les collines d'Anacapri)


LVIII.

Senão bora ver!
Andança sem dança
reza, sonha em vão.

Andou feito doido
caçando verdade
e caçou foi vento
e foi desengano.

Morreu, se acabou,
viveu, se acabou.
Ou então é fogo,
o fogo lá dentro.

Eu fico abobado:
Eu grito é de medo,
mas medo é de quê?


LIX.

duvida e espera? tenha medo do inferno
você que usurpa o manto das letras.
você que esconde sob a sombra ociosa
de versos e ficções ambíguas a própria
ignorância, tenha medo do inferno.
tema você que alienando leitores vive
rico e famoso e sem ter nada a dizer
de verdade; tanto que jamais ousou
expor seu pensamento pobre ao público
sem o véu duma névoa metafórica e vaga-
bunda demais.
                         por isto lhe digo dum fogo
devorador de impostura e fogo que queima
e queimando purifica – não sei direito
o que é mas aviso: tenha medo do inferno.


LX.

entendo, filhinho: a pessoa não crer
num deus ou conceito abstrato eu respeito.

mas vislumbrar um’árvore centenária
e não se dar conta do tronco e da copa
e tão concreta verdade,
isto não – aí eu não entendo.

entendo o que vendo as aves não canta:

           beneditte il Signor,
           perch’egli è buono.

desprezo sim a sombra que sob o braço
dum verde ancestral não entoa:

           ombra mai fu
           di vegetabile
           cara ed amabile,
           soave più.


LXI. [ex samaññaphala sutta]

o rei sentou-se.
                          vislumbraram em torno
a lua calados,
                       mas angústia interpela:
esse Gautama conhece mesmo o fruto
da vida tranquila? –
                                 houve sim e silêncio
no séquito.
                   então preparem os elefantes,
responde, eu quero ouvi-lo. –
                                                 cavalgaram
pela ansiëdade até a caverna:
                                                Gautama
expôs ao torturado a verdade.
                                                  e o rei
chorando partiu.

                             frutos não frutificam
nele que amando império assassinou
seu pai.
             cavalgou de volta lo amargo
pela lua do alívio,
                              arrependido sopro
rumo ao bom ensejo.
                                   já contudo aguardava
nas sombras do sólio seu próprio filho.


LXII.

          desprezo orgulho dos filósofos
          mas penso e porque penso digo:

          esse seu facebook não tá com nada, saia dessa. não viva em função de saber quem roubou. regimes e programas terminam em desastre, então não fique nervosa, tome uma atitude: empresa, cooperativa, mosteiro, comuna, quilombo, tribo, nomadismo – modelos de iniciativa não faltam. quem espera não vive. viva como se nada disso existisse e deixe o resto seguir sua derrocada de sempre. a não ser que você queira mudar o mundo, mas mudar como? postando meme no facebook? mude a sua vida primeiro e o resto veremos.

          (sussurrando novamente do palco) querida, entenda:
          partido político
          não cura depressão.

          esquerda e direita
          são conceitos esdrúxulos
          da revolução francesa e de coisas superficiais
          que nunca se concretizaram.

          preto e branco mesmo
          só filme.


LXIII.

deus não dá asa a cobra: prefere abutre.
você vota mas eles, na hora de botar a lei,
vão para o hall do lobby e do leilão.
o banquete aguarda o futuro da causa
que engole e traga partido de toda cor.
a cor em si é só pra você pensar que tem
diferença em programa, ideologia, conceito.

descobriram que o poder é gostoso, e mais
gostoso quando é só um que tem. então
não dialogam, fingem: se todo mundo
concorda, fica gente demais num programa
só. aí fica chato dividir o bolo com tanta
gente. gostoso é inventar pretexto e dissenção.
gostoso é ser ilusão na vida tudo, tudo mentira.


LXIV.

疑do e 願ro.
煩dade, 影as, 徘go. se non rezo,
夢nho, 憧jo e 侮zo.

疑 é o que há, e além
as perdições do 夢. mas
願 é preciso ca 影 passam.

憧 os-を que rezam,
filósofos-を 侮, rezo, rezo, rezo
contra 煩 e 夢 não quero.

物の哀れ em toda parte.

o que é melhor nem 影 atoa,
apenas isto-を 憧. mas por onde
a verdade 徘? rezo em toda parte,

ai, em toda parte 物の哀れ.


LXV.

o
eco da
angústia
a n g u s t i a
a  n  g  u  s  t  i  a

verdade invente
se não há,

como quem vive
e maior do que há.

estamos sós? estamos
o que somos:
sejamos.

meta.name = 'plato';
meta.content = 'τὸ γὰρ τῶν καλλίστων ἐφιέμενον αὑτῷ τε καὶ πόλει πάσχειν ὅτι ἂν πάσχῃ πᾶν ὀρθὸν καὶ καλόν';


LXVI.

vem, espírito santo e doador de verbo,
verbera e reverbera nas veias verdade.

como sol que se erguendo das nuvens dispersa,
sopra embora do ser l’assombração da treva.
a ninguém impressione a voz dos tristi-fummo
quando a luz vencedora irradiar do azul,
mas antes seja o pássaro o bom professor
de duvidosas almas, ovante louvor.
passará por estradas a espada da morte
mas não temer, guerreiros, o espírito é forte.
vem, espírito, acende sobre a terra o fogo
e comemora em nós o clarão da vitória.
seguiremos na noite e no fim cantaremos
hino ao vanecer da sombra, impávida aurora.




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