EUSTÁCIO DE SALES

Atrium | Index



© Greg Ory 2017 – 2018, Record E 6, engl. Totila, Hampshire, dactylic and short hexameters and free verse, 6087 lines, epic poetry, epography, Portuguese.





EVOCAÇÃO DE APOLO


Como devotos de Iemanjá lançando prenda ao mar depus no entardecer, Apolo, ofrenda de flores sobre a pedra cantando pelo prado um nome relembrado. Terás talvez de eternidades perdidas um olhar generoso sobre a sombra das vidas? Tutor de firmes, é somente um poema que dedico ao teu escudo maior, è dom menor que a beleza da flor e que a força das armas. Acede não por mim, mas pela dor de Roma que o verso recorda e que outrora te honrou.

Naveguemos, Febo, pelas ondas desta Internet, abominável bênção por onde, agitados, caçadores de moda e divisores de tempo vão flutuando vagos, intrigados no facebook e no twitter comentando a temperatura do vento. Comparam as fotos e as vidas alternando virtude e vilania pelos sítios, esquisita existência. É por esse deserto que um destino severo impôs viver e dividir o que somos, e desse palco improvável evoco, na flor e na voz e no html, a transcendência dum deus incompatível.

Eu, se puder pedir, pedirei, ò Febo, que a tua mão se abata pelo mundo como um raio escaldante, sol devorador que és, e destruas as redes e os cabos, como um martelo esmagues no ferro uma impostura exterminadora de letras e vida e verdade. Confunde, guerreiro insaciável, a pretensão dos distraídos: Atira os seus filhos contra a rocha!

Muitos quiseram prantear a desventura que canto e também pranteio tarde. Poema! Teu verso è tão velho que do olvido acaba sendo novo. É preciso evocar, Apolo, com toda a força do sopro e todo o peito o teu concurso: Não naufrague na indiferença dos brutos o esmero raro e digno de nota! É preciso muitas flores depor a teus pés a fim de que a boa sorte vença, se assim quiseres, a inveja de tantos deuses e dum destino destruidor de desígnios. Praza às tuas setas cruzando o peito de eleitos despertar amor ao belo, ao bom e ao vero. Ensina ao tolo que nada è velho nem novo, eterno ou não eterno apenas.

Feita a minha parte, Febo, faz a tua. Ordena à musa inebriar o sopro do bom coletor e destruir, na batalha do verso, a presunção de quem lê com pressa e má vontade. Tu que miraste, rei de guerras, o fundo das almas, prepara-me algum pequeno lugar no templo donde Platão com veredito aguarda, juiz implacável de Homero e do verso dos maus. Não ergui minha voz para cantar quimera e peço perdão se, nalgum momento em verso meu, a verdade soou porventura mais sonora do que ordena a gravidade. Redime, Apolo, a pequenez dum poema vahidoso e contudo ansioso da verdade. Ave, eleitor de fortíssimos, ave, desarmado desarmador de armadíssimos!




ODE AO FIM

Por quê, se a verdade
è bõa que luz, destino
quis o fim de todos
dias? Antes da aurora,
serenidade o rever
da sombra eternidade,
cintilante céu.




ARGUMENTO

O povo de Roma fala a Pelágio | Declina o Império Romano | Pelágio intervém a Totila | Totila busca Bento de Núrsia | Totila faz justiça ao camponês | Guardas oferecem Roma a Totila | Totila conquista Roma | Os godos comemoram vitória e Ruderico trava batalha com Vilas | Pelágio lamenta ao mar | Pelágio intervém a Justiniano | Vilas perdoa e adota Ruderico | Totila incendeia Roma | Um Romano morre nas flamas | Belisário intervém a Totila | Belisário reconquista Roma | Totila consola os godos | Totila lamenta ao céu | Os godos reconquistam Roma | Germano marcha a caminho da Itália | Totila apela a Leôncio por Roma | Justiniano envia Narses à Itália | Totila fala ao povo no Circo Máximo | Narses em marcha adota Procêncio | Totila invade Sicília | Os francos recusam Rodelinda a Totila | Godos e bizantinos travam batalha no mar | Narses educa Procêncio | Segisberto dos francos impede a marcha de Narses | Rigo apela a Segisberto e Rodelinda | Rodelinda lamenta ao céu | Ruderico retorna são e salvo | Paulo conduz a Ravena as tropas de Narses | Os godos conclamam à batalha em campo aberto | Narses como Totila encorajam as tropas | Paulo e Rigo aduzem façanhas de guerra | Os godos e as tropas de Narses travam batalha | João sobrinho de Vitaliano e Vilas travam combate | Prossegue a sorte das armas | Termina a guerra.










T O T I L A





– Já non resta em Roma nem urtiga nem rato!
Pois o corpo, Pelágio, desmoronou de repente
sobre mim do nada! Caiu no meio da rua
morto e mastigando poeira. Sabes quem era?
Era gente dos Flávios, povo lá do Senado! 5
Mês inteiro passou cozendo urtiga e comendo
vento, Deus me livre, clausurado co filho!
Mas amigo, este cerco acaba quando, faltando
pão e carne? Vi peão comendo excremento,
tudo que cabe na boca põe que ali mastiga. 10
Bessas lá, guardando gado junto das armas!
Fala com ele! Tem ninguém aqui com dinheiro
nem milagre mas cobrando cinquenta moedas,
gente, por carne assim se vive? Vive nada!
Só de pensar a pessoa para e fica sem rumo. 15
Pois eo quero viver, peregrino! Abre este muro
pelo amor de Cristo compassivo ao faminto.
Guerra è deles! Eu que vivo aqui no meu canto
quero o quê com guerra, Pelágio? Minha vitória
foi comida! Olha bem a que ponto chegaimos, 20
pois melhor de nós até lo escravo com dono,
ai, a vida tem mais sorte longe dos tristes
casos que vou vivendo e vendo. Quem escraviza
dá sustento ao menos! Mas coisa dessa no mundo
nunca vi, e digo mais: Ontem de tarde Terêncio 25
vinha subindo e carregando os cinco filhos
rumo à ponte ali, a prole inteira gemendo
dava dó, e Deus è que sabe como passaram
quase um mês sem comer. Adota um filho pequeno
pois assim se sabe a dor o que é: Terêncio 30
lá com cinco andando sem poder, prometendo
leite e pão. Ô meu Deus, na frente daquela
prole arruinada um pai se atira da ponte!
Some do mundo morto e deixa cinco sem rumo,
vivos só por força do Céu. E vi de meus olhos 35
como do nada mães de empréstimo, osso vagando
semimorto e choro pesando mais que o corpo,
deram braço a renegados, enquanto nas turvas
margens buscavam caçando carne o corpo afogado.
É, meu amigo, a pessoa quer falar e se engasga, 40
come a língua! Esta gente cansada e sem guerra
fez que mal no mundo? Mereciam descanso.
Olha bem o caso! Nõ é favor que nos fazem,
foi Bizâncio com Belisário e Justiniano,
essa gente estranha foi que aqui nos trancou: 45
Nem nasceram perto nem nunca vieram nem viram!
Isto non fosse, Roma inteira estava deserta e
nós correndo pelo mundo, qualquer paradeiro
bênção já, contanto que a vida caiba e comida.
Olha, se querem prender o povo como escravo 50
dentro dum muro do inferno, frei, alimentem!
Ou então que matem, que a fome acaba coa morte.
Mas do modo que vamos, vamos todos embora,
cada qual fugindo como puder e sem medo e
quem vier punir que puna, contanto que mate! 55
I, Pelágio, diz a Bessas que entregue a cidade
toda a Totila, o rei desalmado desses godos.
Coisa feia demais esconder comida do povo!
Já falamos duas vezes, já lhe imploramos:
Ele mente! Vem reforço o quê de Bizâncio? 60
Era fermento o melhor reforço! Tu que doaste
tanto, meu amigo, de prata e valor e bondade,
vê se intercede um pouco por piedade de muitos.
Só teu manto, Pelágio, protege o povo de Roma!
Pede ao general que as vidas vamos embora 65
cada qual de seu rumo e sem destino e demora. –


A fome cala a boca vaga de audazes
corajosos lamentos. Plebeus e patrícios
vão dividindo caídos terra e farrapo
levando areia à boca. Homem da Igreja, 70
Pelágio promete ao povo o quanto pode.
Apareciam-lhe já senadores, privados
de glória tristes esqueletos apenas,
e mães seguravam ressecados rebentos
berrando como gado e concurso de gritos. 75
Chegara ao termo, a multidão entendia,
o brio da idade eterna. Não adentravam
soldados pelos arcos com prenda famosa,
portando forte a lança que outrora partia
os montes nem escudo. As setas punham-se 80
como o sol: Ocaso de impérios raiava
cedendo espaço à treva. Onde os leões
leixando atrás Itália rumo aos extremos?
Passavam devastando em moções arrojadas
peritos no cerco. Formavam fileiras firmes 85
estados de braços imbatíveis. Venciam
valentes. Muita vez as tropas alheias,
ferozes, foram atravessadas a fundo
por uma lança: Bastava a mão dum herói
impôr-lhe força e voo. Espessos houve 90
broquéis suportando a queda de templos.
Os cavaleiros cruzavam a terra num dia
e triste a tropa usando marcha contrária.
Pisar os Alpes, passar o Reno e Danúbio
fora jornada de morte: Cães implacáveis 95
e furiosas mãos dirigindo quadrigas
atropelavam bárbaros, homens e jovens
e cavalgavam sobre o chão de cadáveres
nadadores natos de sangue e de entranhas.
Vorazes carregavam troféus e as cabeças 100
de volta ao ninho das águias, pelas vias
a turba ingente dando salvas afoitas
em nome de deuses. Quando longe estandarte
de tropas tremulava trazendo vitórias,
abriam-se as portas de Roma e Roma dançava 105
em delírio libações de glórias e guerra,
o nome são do Senado e do Povo passando
de boca em boca como vinho de amantes
por almas ébrias lascivamente imortais.
U essora entretanto os leões agitados, 110
u los homens de imoderados humores,
varões violentos? Era terra perduda
e campo aberto a toda espécie de gente
o traço destruído da Itália. Entrava
como o vento em popa o cavalo inimigo 115
matando à toa. Bárbaros, homens novos
apareciam do nada lutando por terra.
Desnorteavam cidades dantes floridas
vertendo muro ao mar. À beira da estrada
cruzava-se norte e sul com pilha de corpos, 120
a terra fértil deflorada em batalhas.
El homem sábio largava da mão la enxada,
leixava gado à deriva e corria sem rumo.
Quem se creu seguro em próspero abrigo
viu subir na aurora o soldado da morte. 125
Quem buscou la cidade cercada por muros
deu-se ao cerco hostil, campanha de meses,
privados de pão e d'água, morrendo fracos
uns nos braços dos outros. El homem prudente
quando havia tempo e valor em tesouros 130
zarpava em perigosíssimas naus a Bizâncio,
por vezes tomadas em alto-mar ou na praia
de súbito assalto, corpos lançados às ondas,
famílias desfeitas. Quem outrora soubera
o mal dos destinos de Itália cantara talvez 135
com lira menos forte o delírio das armas.
Frequentador da corte em Constantinopla,
Pelágio chegara rico de trigo e de prata.
Expôs um triste caso a Bessas, o chefe
das tropas defendendo a muralha de Roma, 140
mas esse enriquecera vendendo comida:
– Home non pode leixar esta gente sair!
Correndo morrem de fome e mão inimiga.
Todos viram a dira sorte de Nápoles
u sem dó se dizimou fugitivos. 145
Há perigo demais, Pelágio: Esperem!
Em breve Belisário vem com reforço. –
Porém a voz duma grei perdeu paciência:
– O povo, Bessas, somos nós e queremos
que acabe logo o cerco! – Alguns fugiram 150
indiferentes à lei saltando de pontes,
caçando façanha contra incerta corrente,
mas nem por isto se contentaram restantes:
Houve conselho e debate forte e tumulto.
No meio da noite, senadores buscaram 155
Pelágio, andantes tábuas: – Homem de Deus,
jamais se viu parar o comércio de Roma.
Parou! A gente quer obrar e non pode!
A vida humana jà não difere dos ratos
porém milagre, Pelágio, ainda existe 160
que salva Roma e presta bem atenção:
Irás a Totila! – O nome caiu feito raio
sobre um fraco, que recuou aterrado:
– Totila, rei dos godos? – Era impossível.
Tremendas narrações circulavam por Roma 165
da iniquidade dum rei, variado relato:
Cortava e decepava o braço de bispos,
lançando fora da boca a língua do audaz.
Homem irado e vário de humor e nervoso,
mudava de ideias. Dava ordens de morte e 170
traía Deus e promessas. Envolto em sangue
ergueu la espada e Florença veio por terra.
Tratava como escravos romanos e godos
forte no punho. Destruiu monumentos
coas próprias mãos. Tesouros antiquíssimos 175
foram roubados, herdeiros perderam a terra.
Bastava um ato, palavra errada ou depressa
custava a vida ao pedinte: Um rei implacável
reganhara uma guerra e rugiu lo tirano
amigo dos maus, seu nome causando tremores 180
em Roma e toda Itália. Em Constantinopla
o medo perseguia os passantes na sombra
e Justiniano rolava noites em branco
falando a sós no pavilhão de audiências.
Totila esvaziava as cidades e as almas 185
no inferno, parece, temiam dardos do godo
mais que ao demônio. Juiz injusto feria
o ventre inocente expondo tripa na estrada.
Como entorpeçudo em vertigem, Pelágio
meneava a cabeça e mãos tremulavam: 190
– Romanos, qual poder de mundo convence
um homem desta estirpe? Totila me mata! –
O veredito porém de anciãos moribundos
mal se deixa esperar: – Hesitas, Pelágio? –
Assim falando mostravam as multidões 195
prostradas rente à morte. Ora o nobre,
envergonhado de pôr a própria vida
acima da salvação de seu povo, cedeu
temeroso. Pôs-se a sós ao caminho de fora
levando ao godo as embaixadas difíceis. 200
Saiu sem ouvir o apelo extremo de Bessas,
saiu pedindo a Deus piedade e constância.


Ora, a boca de Roma assim lhe rezou a Totila:
– Desconheço, rei, da lei e costume de godos
como tratam na guerra mensageiro de estranhos. 205
Mas em Roma como em terra de gregos sempre
foi ouvido com caridade l'homem sem armas,
boca oferecendo paz. Ao gesto de trégua,
quando è justo o governante e bom, acede e
Deus o tenha. Eu, entretanto, fui enviado 210
sem mi darem tempo ou preparar as palavras.
Venho aqui pedir por humilde gente e famintas
ordens venho cumprir. Deus ilumine o caminho
desde já dum rei que der ouvido ao pequeno.
Quero falar, se puder, e se aprouver falarei ou 215
como ao rei convier. – Totila ouvindo responde:
– Podes falar! Inclui porém à paz a verdade e
diz o dia, Pelágio, onde o rei dum correto
povo castigou desarmados. Não me recordo e
tanta petulância me ofende: Somente covardes 220
ferem na guerra boca buscando paz e concórdia.
Mas diácono, nem dum cão se soube de ofensa
como a que temes. Quero conhecer a proposta:
Tenho a paciência de ouvir o que Roma deseja,
como anela a paz e quais os termos do acordo! – 225
Isto dito, Pelágio rogou: – O povo se acaba e
vai caindo de fome e quase um ano de sítio.
Ó senhor, uma gente atormentada definha
sem maldade, sequiosa da vida e da morte.
Quem socorre, soberano, um destino arruinado? 230
Vão morrendo sem saber a razão duma luta
já maior que razão. Melhor è nem recordar
as bocas mastigando rato e catando formiga,
verme, urtiga. Foram inventadas comidas,
ai, que nem se pode dizer. Culpa do povo? 235
Não! Os homens dessa resistência de Bessas
são apenas poucos: Reprimem no fraco o rouco
grito por paz. Será possível, rei dos godos,
certo amor ou piedade da vida inocente?
Como Teodorico, o rei de outrora e ditoso 240
pai de romanos e godos, cumpre agir. Agiremos? –
Mas responde surpreso um novo rei aturdido:
– Nunca desdenharei de imereçudo infortúnio,
sempre ajudei e protegi da morte inocentes:
Basta a rendição de Roma e seremos amigos! 245
São apenas três as condições da concórdia:
Pelo próprio bem do povo a muralha de Roma
será destruída em primeiro lugar. O longo cerco
já teria acabado se os muros não impedissem.
Não devolvo, em segundo lugar, escravos fugidos 250
dividindo a bandeira dos godos. Não quebrarei,
jamais, el hombridade a quem combate conosco.
Puno Sicília em terço lugar! A terra de ingratos
há de pagar seu mal, porque meu povo a poupou
mas ela abriu seus portos às tropas de Belisário: 255
Sempre ajudei e protegi da morte inocentes! –
Mal ouviu lo diácono e fraquejava perplexo:
– Que dureza de coração, Totila, e que raiva
contra um povo decente e quão injusto juízo!
Nem sabia Sicília que Belisário aportava, 260
nem se soubesse, coitada, que combate ousaria
contra tanta esquadra a triste grei desarmada?
Vão pesando já los meus olhos só de pensar
naquela gente agricultora que mal se mantém e
jamais erguerá no mundo espada contra uma vida. 265
Este o crime, Totila, de que acusais uma simples
grege que tão somente abriga quem foge de Roma?
Mas que digo e que esperança ainda mi resta?
Pois se contra um povo tão pequeno e pacato
tendes tanta raiva, quanto mais do de Roma, 270
ai, que tanto tempo abriga as tropas de Bessas
pero que a contragosto? – Mas o rei sitiante
não concede e Pelágio reconhece a derrota,
fim do intento e breve intervenção por caídos.
Era melhor, talvez, perder os pés e a palavra? 275
Antes porém de soluções e juízo acertado,
Pelágio viu-se a sós e transtornado e sem rumo.


Totila, porém, recordava o falar do legado
todos os dias. E sob o sol como em sonhos
a imagem do mal que descrevera de Roma, 280
fantasma, perseguiu-o. Cismando consigo
e contrito falava a sós, a mente agitada.
– Rigo! – chamou no meio da noite assombrada
o mestre de escudos. Num surto de frio e de febre,
Totila mostrava os guardas na torre distantes. 285
Andando com Rigo no escuro, em torno dos muros,
debaixo das árvores, súbito rompe o silêncio:
– Certa verdade existe, amigo, na voz de Pelágio. –
Mas Rigo perito avisava: – Nega-lhe crédito,
rei, que Pelágio reza por nossa desgraça, 290
frequenta a corte e conhece donos de império.
Aguarda somente a Belisário coas tropas
ca então verás a verdade das suas palavras. –
Totila ouvia e concordava com rosto,
mas Rigo não o vira. Verdade era parte 295
da voz de Pelágio e verdade cabia buscar.
Pensando além, ruminando as perdas inúteis
de guerra e tempo, pesando à mente presságios,
medo e cansaço por entre guerreiros antigos,
tomou pelo braço a Rigo, brando mas firme: 300
– Irmão que és, ajuda-mi e leva-me a Deus!
Farás um favor que te peço. Toma estas armas,
veste o valor do rei dos godos e apressa-te! –
Mas Rigo não entendeu, e Totila explicou-lhe:
– Sabes del homem de Monte Cassino, do santo? 305
Busca-o, diz-lhe “Sou Totila”, pergunta
por Deus e pela causa e vitória dos godos. –
Nembrando imagens da morte no meio das ruas
(Pelágio pintara detalhes), o rei ponderou:
– Se o cerco de Roma è vão, partiremos embora 310
para que pobres sem causa non morram de fome! –
Não se acalmava e tornava e falava aturdido
e repetindo palavras. Perdera o juízo?
Rigo partiu de manhã, cavalgando por ermos
sozinho, no siso incerteza: Deus se esquecera 315
dos godos? E vindo ao monte recluso e calado
por u no sopé cuidavam dous de verduras,
Rigo irrompeu co cavalo e vendo-o coas armas
dous hortelãos prostraram-se, certos da morte:
– Leva o que queres, deixa-mi apenas a vida! – 320
Mas o amigo do rei, descendendo do equestre e
nobre de gesto, pergunta: – É nas entranhas
destes abrigos que Benedito se encontra?
Totila, o rei dos godos, desejo falar-lhe.
Quero esperá-lo aqui. – E leixando hortaliças 325
pela terra e tomados de assombro subiram
dous a chamá-lo. Mas quando Rigo avistou-o
descendo moroso, Bento abria-lhe os braços:
– Bem-vindo, Rigo, à nossa simples morada. –
Como se um raio o fulminasse, o temente 330
amigo do rei, surpreso escondendo soluços,
presa dum pranto ardente ouviu Benedito:
– Filhinho meu, se Totila quiser visitar-me
será bem-vindo na humilde escola de Deus! –
Mas Rigo pasmo subiu ao cavalo e num átimo 335
deu-lhe esporas. Entrou aos gritos na tenda
do rei: – Totila, Bento è mágico ou santo!
Os olhos seus pousando em mim conheceram
quem eo sejo e quem me mandara. Milagre! –
Contou-lhe tudo. O rei, naquele momento, 340
leixando atrás negócios de paz e de guerra,
subiu ao cavalo e varou, com Rigo e com outros,
os campos tristes levando ao Monte Cassino,
passando rente aos mortos, no peito esperança
e desgosto. Quando a prima estrela raiava 345
chegou, de longe como olor da terra molhada
subindo ao céu, e pediu chamassem a Bento.
Ora, Bento, acedendo, desceu a saudá-lo:
– Salve, rei, que buscas? – Um rei de joelhos
beijando-lhe a mão falou co sopro do peito: 350
– Aclara um pouco, Dom, uma mente confusa!
Diz-me, primeiro, qual razão deste mundo
faz um homem culto e de ilustre família
leixar embora nome, passado, pertences
e longe de Roma e cidades buscar abrigo 355
em caverna dividindo a vida coas feras,
bebendo chuva e comendo terra e poeira.
Quem, Benedito, mandou-te embora de Roma,
quem te fez vagar no frio sem amigos?
Diz que punirei los godos que forem! 360
Era de paz o tempo quando partiste e
nenhuma guerra pôs-te aos ombros a fuga. –
Mas Benedito, ou Bento, como lhe chamam,
a destra calma sobre el ombro do rei,
falava brando: – Filho, a vida è constância 365
quando o Cristo nos guia e nunca fuga.
Não por desdém leixei las ruas de Roma,
livros, os pais e companhias ilustres.
Eu, porém, que passei meus dias de jovem
por entre os homens valerosos da glória, 370
julguei de mim pelo amor eterno de Roma
que um homem tão pequeno e fraco e singelo,
filhinho, ofende o bom concurso dos grandes.
E quanto mais o amor de Roma movia-me
mais me recolhia às cavernas escuras, 375
para que aos grandes não faltasse lugar
em Roma que Roma è tão bonita, Totila!
Movido eu da compaixão desses homens
cá me abrigo e peço a Deus pelos grandes
que, como tu, fomentem paz pelas terras. – 380
Totila, porém, mirando os olhos do velho
responde ardente: – Ai de mim, Benedito,
herdei de meu povo dever extremo de guerra,
eu, que nasci na sombra dum reino tranquilo
nos anos do Rei da Paz, do meu Teodorico: 385
Era uma flor a Itália, Roma era amor.
A guerra nova veio da gana de estranhos.
Quero saber de Deus uma coisa somente:
A vitória de Roma è nossa ou de Justiniano?
Um ano quase è passado de cerco e de fome. 390
Se Deus mandar embora eo vou, Benedito,
reúno o meu povo e busco alguma caverna.
Será porém a derrota uma paga divina
depois de tantos anos arados em paz? –
Mas Bento mostrando o céu além respondeu: 395
– Totila, o futuro a Deus apenas pertence.
Talvez se te esforças Roma caia-te em mãos.
Porém se algum pequenino saber eo pussuo,
mi fili, sei que è breve o ganho do mundo:
Vitória e verdade são distintas de essência. – 400
Isto e muito mais el homem santo lhes disse.
Um triste rei cavalgando à noite por bosques
junto a Rigo et outros cismava tristonho:
Não sabia, nembrando as graves sentenças,
se Bento falava da sorte ingrata do mundo 405
ou predizia-lhe a queda e fortuna em ruínas.


Veio a pé da Calábria gritando por dias inteiros
um homem atravessando a terra, arfando cansado:
– Rei! A piedade que rogo è somente a da morte,
sim, ordena ao soldado que desonrou minha filha 410
crave fundo esta faca forte aqui no meu crânio.
Olha, senhor, o mundo nem mi ensinou a falar:
A vida minha è leite de vaca e vagar em cidades
onde Deus mi ajuda e vou vendendo e vivendo.
Era tão bonito quando a menina era alegre. 415
Nunca fez um mal a ninguém, coitada que era,
só tocava em teta de vaca e cuidava de bode.
Dia e noite ela orava e preparava a comida,
tinha tristeza em minha vida não, soberano,
pois a menina pensava mais em mim que na vida, 420
eu, que vou ficando fraco e ficando caduco.
Ai, meu Deus, chegou de repente aquele soldado,
dei-lhe o gado inteiro e comida e leite e dinheiro
não lhe bastou, Totila! A minha filha gritava
feita louca implorando em vão mas nada ajudava. 425
Maltratou demais a menina, desdisse de Deus!
Ela agora corre e grita e non sabe o que fala
nem reconhece pai nem mãe, mas chora agitada.
Isto vida nõ é. Se alguma cura eo soubesse
dava dinheiro mas ali, senhor, non se cura. 430
Já que Deus non teve de nós piedade nem graça
vim morrer. Senão, eo vou viver de que modo?
Era ela o sustento meu e da mãe perturbada
nem justiça ajeita mais uma vida perduda:
Mata logo quem non tem nimigalha na vida! – 435
Dito isto prostrou-se como curvado de cãibras
mas Totila estendeu-lhe a mão, o rei ao caído,
contendo como podia as impressões desregradas:
– Tem a bondade, ancião, de revelando o nome
desse soldado. – Feito assim Totila alterou-se:
– Prendam! Tu porém, senhor, descansa por hoje e 440
logo discutiremos o termo da morte que imploras. –
Mas aos soldados o rei ordenou lhe dessem abrigo,
pão e remédio: Fosse provudo bem e de tudo!
Quando aos conselheiros houve chegado o caso,
pela manhã demandaram transtornados Totila: 445
– Este guerreiro, rei, è forte herói de batalhas!
Veio do peso da sua lança, tremendo projétil e
míssil que como nulhome arremessa, nossa vitória
contra Nápoles: Veio de graça ofertar a vida!
Quando a morte era certa, cercado nunca fugia 450
nem se viu no tempo valência maior entre godos;
antes corria enquanto a multidão de aliados
debandava em retirada escondendo-se em selvas,
todo a sós, al ombro a lança contra milhares
homem sem medo. Perdeu respeito à morte lutando. 455
Pois o corpo carrega inteiro marcas de guerra
como troféu de sacrifício por homens e tropas!
Não baixar ja-quando o viço do bravo soldado:
Que pensarão ao verem preso, punido ou caído
raro exemplo e monumento à coragem de guerra? 460
Toda guerra è feia, senhor! Os crimes da carne
foram preço, nel ato extremo, de várias vitórias.
Algo de compaixão lo bom guerreiro merece,
doutro modo a causa gótica nossa se perde e
vai-se embora entristeçuda a massa dos bravos. 465
Já passaram tantos anos de morte na Itália,
Deus dos céus, e cada dia se assoma incerteza
pelas mentes. Não destruas a pouca esperança e
foco de fé que nos resta ainda: Tempo è verdugo.
Rei, aqui conclama o bom conselho dos grandes: 470
Seja solto, pelo amor da penúria dos godos,
solto um bravo a quem devemos vida e vitória! –
Mas Totila responde: – Perdestes vossa memória?
Eu, senhores, selara acordo de paz com Bizâncio
pronto a render o forte et homens meus de Treviso 475
quando viestes suplicando ofertar-mi a coroa.
Fôramos lá leixados por Vítice, rei dos vis
covarde abandonando as armas durante a batalha.
Fora morto o meu tio Idibaldo, Deus o tenha,
mas a vós pareceu prudente crer no impossível! 480
Ora, desde o primeiro dia roguei mi dissésseis
contra quem imperava prosseguir a contenda.
Contra quem lutamos, godos, quem combatemos? –
Eles porém perplexos retrucaram de súbito:
– Contra Justiniano, Totila, e contra Bizâncio. 485
Como não, se veio deles a guerra e ganância? –
Isto dito, o rei retorna: – Não mi rogastes,
homens, a luta contra romanos, contra inimigos
sim jurei guiar o meu povo, rei dos romanos
como dos godos. – Soldados recebendo o sinal 490
trouxeram adentro o genitor duma vida sem honra:
– Diz uma coisa, senhor – Totila assim começa –
tinha a menina alguma relação com Bizâncio? –
Mas o velho assustou-se: – Tinha como, Totila?
Nunca saiu de casa. – O rei porém continua: 495
– U nasceu? – O velho disse: – Lá na Calábria. –
Nisto Totila apontando os anciãos do conselho
pede ao pai: – Explica por piedade aos juízes
qual a vida que a tua filha em casa levava. –
Mas o senhor ouvindo clara a palavra juízes 500
teve medo e deformado por lágrimas trouxe:
– Só tocava em teta de vaca e cuidava dum bode. –
Foi levado afora por onde esperava aturdido,
Totila dentro falando aos anciãos temerosos:
– Fui traído, godos, foi punida inocência! 505
Era aquele o soldado mais valente dos nossos,
ele que arremessou coa mão lo exército ao chão?
Foi de fato o mais covarde dos homens aquele
que tanta força usou e contra a vida sem erro! –
Quando o guerreiro houve compareçudo na corte, 510
vendo junto ao rei lo conselho, o pai da menina,
pôs a verdade: – Rei, o crime meu è sem cura. –
Totila retruca: – Cão! Algum soldado dos nossos
foi mandar te unires sujo a nossas cohortes?
Como e por que pagaste em modo tão grotesco 515
tanta esperança depositada em ti pelo povo?
Para quê lo ardor de tantos gestos heroicos?
Não leixei passar um único dia em batalhas
sem avisando à tropa que não tocasse castos
nem ferisse mulheres. U passavas, guerreiro? 520
Éramos vinte mil soldados no início da guerra
mas gana e presunções e gestos feios minaram
nossa força: Homens como tu, vergonhoso!
Raça melhor requer um rei de escasso recurso
quando a salvação de seu povo exige vitória. – 525
Mas o guerreiro sem medo agora calava-se,
vendo que nem defensores seus se alegravam,
antes balançavam baixa a cabeça confusos
inda buscando em vão na mente fraca argumento.
Disse-lhes pois o rei: – O pai daquela menina, 530
já sabeis a graça que veio rogar de Totila?
Veio pedir, juízes, a própria morte somente!
Que farei? Mostrar al homem triste e minado
que neste reino a morte vale mais do que a vida?
Ou foi nobreza maior mostrar por alguma atitude 535
que neste mundo alguma coisa bonita è possível? –
Entra entonce o velho trato adentro na corte
donde Totila olhando os olhos seus explicou-se:
– Tenho torturado a mente em vão ruminando
como posso perante meu Deus, juiz de juízes, 540
dar-te a morte que firmemente pedes e imploras.
Diz algum dos crimes que perpetraste na vida,
dá-mi ajuda, ancião, porquanto rem encontrei.
Antes pesei na mente os atos teus e palavras
e como pude as comparei com juízes. Andante! 545
Quanto mais a tua boca articula as palavras
mais se evidencia a mim que tou nome è justiça.
Como manchar de morte a vida que veio de longe
reta e caminhando por léguas a pé destemuda,
trazendo ao peito apenas confiança em Totila? 550
Desta corte o justo vai-se embora com vida! –
Mas o velho não se leixou levar por palavras:
– Rei generoso, è mais amarga a minha verdade.
Tudo acabou: Levaram meu gado, leite, dinheiro.
Todo dia eo busco um lugar de andar pelo mundo 555
mas no mundo acabou lugar e meu gado acabou-se.
Sei viver sem rumo não, eo quero um descanso
e peço morte è para estar chus perto de Deus. –
Isto dito Totila estendeu la mão que calasse!
Junge-lhe o rei: – A tua morte non posso te dar 560
mas posso dar justiça e dom maior do que morte.
Para que tou pedido non fique em tudo incompleto
dar-te-ei de fato uma morte, a morte del ímpio
ser que maltratou la menina. E dou-te um ordem:
Leva contigo o gado, o leite, o remédio, dinheiro, 565
leva el ouro que o rei te daremos e trata a menina,
trata como se fosse filha dum rei que a protege
nem reclames: Maior justiça somente por Deus! –
Totila, pois, ordenando a morte dum pravo soldado
deu los seus haveres todos, pilhagem de guerra 570
ao pai, que retornava embora aos braços da filha
rico rezando a todos que encontrava na estrada
quão bondoso lhe fora o rei Totila dos godos.


[Prosação]

Na mesma noite apareceram quatro
soldados bizantinos. Eram remotos 575
de Isáuria pois lugares ermos proviam
de combatentes o Império. Vindo Totila,
o rei temudo a quem rogavam palavra,
os guardas implorando insistentemente
diziam-lhe: – A gente vem aqui lhe falar 580
da parte de Bessas, mas não mandada por ele.
Totila, até daqui se consegue escutar
gemido e som de todo jeito e sofrido
que mesmo surdo sente. Inda tem gente
em Roma que aguenta gemer na fome, milagre 585
e visão do inferno! Mas uma coisa è verdade:
Non vale nada esse Bessas guardando comida
do povo, comida que nem è dele, è do povo,
pedaço de grão e carne lá da Sicília.
Do que ele gosta è de cachorrada, Totila. 590
Semana passada lhe escreveu Belisário:
Tome vergonha na cara, seu traste infeliz,
e dê de comer ao povo. E Bessas se importa?
Ficou foi rico de tanto vender a quem pode
pagar, ou melhor, podia, dinheiro acabou. 595
Agora mi digam: Isto è serviço de gente?
Até soldado passando fome! De noite
o couro come que è bebedeira e mulher
e dança e só festança e lambança na torre.
Mas fora, meu Deus, dà dó demais de ver 600
morrer menino e gente feito cachorro:
Negócio do cão! – O rei porém respondeu:
– Soldados, várias vezes propus a paz
e a culpa, como se sabe, è só de Bessas.
Buscade caso e jamais vereis entre godos 605
esse tipo de coita. Que Bessas se renda!
Com Bessas cumpre falar, comigo não! –
Mas um dos quatro irrompeu suando nervoso:
– Nem que o demônio me leve falo com Bessas,
gente ruim, que se depender dum cachorro 610
feito aquele Roma se acaba de fome e
morre de vez. – Foram pois revelando-lhe
o plano: – Conheço el hora da troca de guarda
no muro. Eu, e os três aqui, começamos
de madrugada o nosso turno, o resto 615
dormindo. Pelo amor de Deus, soberano,
entre de vez em Roma e acabe com isto,
a gente abre o portão lateral da muralha
e a tropa inteira invade e termina o suplício,
promessa nossa. Mas quero saber um negócio, 620
senhor: Se a gente abrir portão para godo,
será que o godo deixa a gente viver? –
Totila foi tomado como dum raio e
faísca nos olhos respondendo exaltado:
– Se for verdade, guardas, esta promessa, 625
não somente vivêieis mas ricos sereis
e tereis de mim recompensa raro pensada. –
Mostrava-lhes nisto baú repleto de joias,
deliciosas prendas de prata e d'ouro
e pedras delicadas, pulseiras, correntes. 630
Erguendo uma rica presilha, dourado detalhe
na forma talvez de borboleta raríssima,
o rei lhes disse: – Vale mais duma vida! –
Choravam quase em comoção los soldados
nembrando as toscas ocas donde saíram 635
pelos ermos de Isáuria, eles, coitados,
que só buscavam pão de início, dinheiro,
leixado atrás em regiões desgraçadas
família larga na espera, mães e meninas.
Totila marcasse a data e logo abririam 640
generosos ao godo as portas de Roma
e cada qual encontraria ao final
lo paraíso seu, dinheiro out império.
Mas o rei confabulando nos bosques
com Rigo, lo amigo leal, rogava aviso 645
e falava baixo: – Será verdade a promessa?
Sõ espiões mandados por Bessas decerto
tramando ruína. Parecem retos, amigo? –
Mas Rigo ponderava em silêncio cansado
e temendo o destino. Vez et outra mirava 650
folhagens dalgum árvor, antigo ancestral
incerto no meio da noite e respondia
sisudo: – Melhor atender um pouco, estudar
melhor o palavreado e ver as promessas.
Pode esser emboscada. – Conselhos de Rigo 655
bastavam pelo forte efeito. Os soldados
isáuricos iam esperando em vão resposta,
desesperados ao ver perdudo o prospecto
de bõa fortuna e Roma renduda e de paz.
Totila foi astuto e de fato mandara 660
dous ou três dos godos rondar a muralha
de madrugada e comprovar as palavras.
Nisto porém a notícia do plano iminente
chegou a Bessas. Veio da boca abalada
dalgum soldado zeloso e fiel de deveres. 665
Era braço leal de Belisário, chefe
maior e general das tropas de Justiniano
em toda Itália, conquistador de Cartago
contra o povo dos vândalos. Era um homem
de fama em Bizâncio. Belisário contudo 670
via portos e fortes da Itália perdudos.
Por qual perigosa estrada trazer os poucos
soldados? Só que Bessas ouvindo a notícia
decerto ouviu de noite ao canto da cítara,
bebudo em libações nos braços de amantes, 675
decerto assim porquanto não reagira,
antes terá responso ao soldado ansioso
que a flecha forte dos homens seus bastava
contra o godo cansado. No mesmo momento
quatro soldados transbordando de medo 680
buscavam Totila: – Pelo amor de Jesus,
senhor, demora è demais! Se Bessas souber
de alguma coisa a gente morre linchado.
Eo quero que um raio caia na minha cabeça e
me mate agora na frente de tudo que è gente 685
se for mentira o que eo digo. Quase que pede,
está que implora invasão a cidade de Roma,
falta só quererem! – Totila enviava espiões
e nesses lances de medo e tanta incerteza
o monarca buscava como aprehenso na mente 690
a tenda amiga de Rigo: – Talvez Benedito
tenha previsto a vinda da nossa vitória!
Reza, amigo, roga que Deus se apiede
da nossa gente, vitória seja a verdade
e não começo dalgum tropeço de morte. – 695
Mas quando ouviram que já seguiam a Portus
donde Belisário intentava os resgates
certos soldados afoitos, peito na boca
o mais velozes possível querendo avisar
perigo ao general, cavalgando e tremendo, 700
aqueles quatro isáuricos foram aos godos:
– É agora ou nunca, invadam! – Ouvindo atento
os detalhes um rei incerto e lívido incede
a Rigo e poucos outros dos próximos seus
que fossem ver de si mesmos na morte da noite 705
o estado da rês. Em poucas horas voltaram
e Rigo medês lhe disse: – Tudo em silêncio,
a guarda dorme e ronca e sonha tranquila. –
Deu-se assim que um rei arfando exaltado
mandasse a quatro soldados: – Podem abrir 710
as portas de Roma, podem abrir a cidade! –


Quando aluvião de tropas entrou na cidade
Bessas e os seus soldados debandaram embora.
Pela porta oposta desordenados perplexos
cães leixavam pelo chão escudos e lanças, 715
ora que o medo vivo cambaleava a coragem.
Mas as tropas fugiram duma fuga ligeira:
Era o povo que não valia a correr enjeitado
pela sarjeta e dividindo a vala cons mortos.
Que visão e triste sina aguardava Totila e 720
quantos corpos apodrecendo à beira do Tibre,
vivas quinhentas almas em Roma, dantes milhões.
Quem a força extrema dos pés ainda ajudava
já buscava igreja de abrigo e não se enganava:
Era um ódio tremendo depois de meses em duro 725
cerco et anos florescendo no peito dos godos,
era de pouco efeito o sermão dum rei moderado.
Quanta vegada viram pelas ruas a lança, imenso
míssil atravessando pelas costas um velho
corpo merecedor talvez duma morte melhor. 730
Mas aglomaravam-se aflitos dentro de templos
dividindo a fome, a dor e o medo os caídos.
Não havia nem plebeus e patrícios: Romanos
terrivelmente irmãos, e os senadores de agora
vinham batendo porta em porta pedindo comida, 735
concorrendo em caça com cães e moscas por carne.
Uma coisa, parece, Totila ensinou aos soldados
pois que houveram trata por ansiosos lanceiros
Rusticiana, tristonha esposa de outrora Boécio:
– Esta mulher ingrata pagou para destruirem 740
a estátua de Teodorico, rei da paz ultrajado!
Rei, a rameira de Roma nem precisa morrer
se só pudermos usá-la toda e como quisermos. –
Mas a refém mirava o chão e negava palavra,
ela cuja dor, relatavam, matara de pena 745
Teodorico em remorso e desgostoso da vida.
Inda nembravam como outrora o rei da paz,
depois de trinta anos aclamado por todos,
fora imprudente em breve e desgraçado instante.
Dando ouvido à língua duma invejosa mentira 750
veio a crer que Boécio, homem de prece e poemas
cuja causa era um pobre povo, tramava assassínio.
Antes que algum apelo forte pudesse movê-lo
deut à morte Boécio com Símaco, pai et esposo
dela que agora ali se calava perante Totila. 755
Mas o rei da paz percebera tarde o seu erro:
Era em vão que perdia a noite inundado de pranto,
era em vão correr como louco berrando orações.
Nem perdão que pedira da esposa contrito de pena
nem o perdão de Deus bastava, antes sonhava: 760
Via Boécio derramando seus olhos no claustro
e tendo às mãos sangrando a decepada cabeça.
Ora, a visão do inocente seguiu lo rei da paz
na aurora e tarde da noite não havia sossego:
Meses depois, Teodorico enfermou-se e morreu. 765
Mas também a matrona passara os últimos anos
presa dum pranto imorredouro e porém ajudando,
como outrora o marido, infortunados de Roma.
Totila entanto manda: – Fique em paz a mulher! –
Mas uma dor maior se viu de manhã nos famintos 770
quando o monarca, tendo Roma inteira renduda,
veio rezar e agradecer a Deus por tremenda
e grandiosa vitória dentro da igreja de Pedro.
Ora, la igreja de Pedro amanhecera lotada,
era uma densa massa e mar buscando refúgio: 775
Desde a madrugada mães escondendo menores
atrás de bancos gemiam baixo cobrindo o rosto.
Quem podia andava arfando a todos os lados
inda clamando o nome dalgum parente perdudo.
Outros enfim deitavam num canto escuro calados 780
vendo a cruz enquanto perto alguns se abraçavam.
Quando Totila pôs os pés adentro da igreja
rumo al altar, um povo em desespero irrompeu.
Tremendo caiu de joelhos implorando clemência
como insano e balbuciando os apelos confusos, 785
tentando fugir em transtornados saltos e gestos.
Criam que o rei entrara o templo para os fazer
sair à força quando afora a spada esperava.
Veio porém distinto vulto de encontro a si,
curvado e carregando uma bíblia. Era Pelágio: 790
– Amor de Deus soberano e piedade da gente!
O pobre povo abandonado de tudo em Roma
fez o quê para merecer – pero não prosseguia
pois as suas palavras afogavam-se n'alma.
Mas Totila lhe acede: – Sai do chão, infeliz, 795
agora! Eu devia è quebrar a tua cara infame,
eu devia mandar cortar-te a língua, fingido!
Quando me houveste visto fiz ofertas de paz
e generoso acordo: O testemunho da vida
prova quem eo sou e quanto fiz pelo povo 800
não dos godos, mais até por gente de Roma.
Ende rem impressiona as ambições de Bizâncio!
Tens a memória curta, cão! – Pelágio contudo
recomposto um pouco sussurra: – A minha ambição
de mundo, meu senhor, è pão para Roma somente! 805
Eu que servia Bizâncio sejo agora tou servo e
servo apenas teu: Ordena de mim o que queres e
minha vida è tua. El única prenda que imploro,
rei, è compaixão por estes que nada fizeram!
Tem paixão de nós estora que Roma è renduda: 810
Ordena por Deus aos invasores teus caridade
pois aqui se congregam não inimigos, escravos! –
Totila assim ergueu Pelágio et outros do chão
e proferiu aos seus leixar em paz moribundos,
mas voltou adrentro invocando: – Para, Pelágio, 815
suportei demais ofensas por esta paróquia
nem sairei leixando alguém pensar que è minha
culpa a devastação duma terra. Quero justiça!
Quero falar aos senadores de Roma no Forum! –
Foram reunidos às pressas caindo aos pedaços 820
homens velhos e maltratados de fome farrapos.
Já também lo povo se aglomerava ansioso
para ver o que o rei diria e quanto ouviria.
Mas aqueles homens de outrora império calados
foram despidos per ordem do rei perante o povo, 825
para que dessem nus o testemunho da inglória:
– Raça infeliz – Totila acena –, desde o começo
tenho mandado apelos desesperados e cartas.
Não entendo donde veio a vossa descrença e
vou buscando em vão resposta e me desiludo. 830
Que de mal Teodorico outrora vos fez,
senhor que dava ao povo pão e mão amistosa?
Era um protetor do Senado e do povo da Itália,
ele que amava mais a Roma que a própria gente.
Inda dileto em toda a terra nunca interveio, 835
antes vos dava a cada dia mais liberdade.
Mas que paga feia a gestos tão valerosos!
Muitos foram privados para dar ao Senado
nova glória, pero que efêmera como vemos.
Mas i se vê lo princípio que move o destino. 840
Ele que tudo fez se pedisse de volta favor
de vós seria rem comparado ao que dera e
deu de graça, pois è este o modo dos godos.
Pedi somente mi abrissem as portas duma cidade
para que o bem de Teodorico em vós prosseguisse! 845
Quis evitar o triste caso em que agora vos vejo
mas foi tudo ilusão, foi tudo incauto juízo:
Ora sei que de todo gesto nobre se esquece! –
Ossos encolhudos no frio perdiam olhares
pelo chão enquanto a gente tapava os olhos. 850
Mas Totila em novo acesso incluía-lhes inda:
– Er dizede perante a sombra de Teodorico
de qual bondade Justiniano usou per Itália!
Homem que nem aqui nasceu peleja por Roma
como se Roma fosse berço, mas eu vosso rei 855
è nado na terra e na mesma terra cá me criei!
Não cheguei nem vim de alhures como soldados
gregos e persas e constantinopolitanos,
mercenários sem causa e de toda causa paga!
Não saí por aí corrompendo no mundo inteiro 860
jovens na prata para lutarem, nem combatemos
como aqueles no amor dalgum passado de glória:
Nós lutamos è pela própria vida dos nossos,
vida que um homem decidiu ruir sem remorso.
Quero ouvir um bem que lo Imperador vos confira 865
fora guerra e demolição de serenas cidades.
Neste ardor de passado e glória foi retomada
já dos vândalos toda costa d'África e Líbia:
Deus dos céus, acabou-se l'África e Justiniano
cada dia aumenta imposto, arruína as ruínas! 870
Ora quereis que faça o mesmo da Itália? Fará! –
Mas nenhum senador aduz e Totila antefere
frente ao Forum quatro combatentes de Isáuria:
– Pois, Romanos, doravante serão senadores
estes quatro, estes sim amigos do povo! 875
Eles abriram as portas para o fim da miséria!
Não julgaram justos os homens de Justiniano
servos duma ingrata gestão e fazenda de guerras. –
Desta vegada, porém, foi mais amargo o silêncio
pois Totila mirava aqueles homens nos olhos. 880
Mas ergueu la voz por eles um vulto distinto:
– Rei! Tamanho mar de abomináveis anátemas
fora mais correto contra os mais criminosos.
Muita fome faz perder as palavras no ventre
nem convém insultar quem já caiu moribundo. 885
Qual das tuas cartas alcançou senadores?
Todas eram retentas pela guarda de Bessas
ora que o bom Senado non tem exército nulho.
Dentre os homens nus que acusas muitos amaram
Teodorico e cá ficaram, leais a Totila. 890
Não o Senado foi chamar a Roma essas tropas
nem lo Imperador nos consultou de Bizâncio.
Tanto non são Romanas que nem lutaram por Roma,
antes fugiram já com Bessas e sous provimentos.
Estes que increpas poderiam ter debandado 895
mas melhor pareceu ficar conosco e servir-te!
Ora, assim non trates quem te implora tutela
e quem ficou por confiança e não covardia! –
Foi talvez no efeito desse apelo que o godo
mandou vestir do frio los macerados aspectos 900
mas intermitiu a Pelágio: – És o meu servo
como dizes? Ouvi direito o termo no templo?
Ora Pelágio, Roma quer a guerra ou la paz? –
Roma decerto queria paz e Totila arremata:
– Boca de Roma, tu que dantes iste falar-me 905
agora irás de Roma falar a Constantinopla! –
Houve tremor e convulsão perante os caídos
dum povo quando a nova correu as ruas: Pelágio
fique conosco! Totila contudo não concedeu.
Na mesma noite foram acertados às pressas 910
termos de paz: – Em tuas mãos – o rei avisa –
jaz o destino de Roma. – E não havia demora.
Zarparia a nave em breve et era de império
quanto antes retornar ca lo rei esperava.
Mas uma grave ameaça fora escrita e com ódio 915
na carta al Imperador: Se Roma caída non basta,
caso a guerra prossiga um pior evento virá.
Ruína em fogo uma eterna cidade será destruída,
mortos os senadores, tomadas outras províncias.
Tendo em mãos a missiva Pelágio zarpou apressado: 920
Pelas ruas atrás vislumbrava um povo alarmado
antecipando a dor e o fim duma eterna cidade.


Em torno do fogo um forte coro de godos,
vitoriosos soldados, cantava serenas
canções, sorvendo em libações de alegria 925
as notas e um gole, doce, do vinho de mel.
Os ânimos ébrios, entrevendo a muralha
envolta no inverno lunar, alçavam o cálice,
bebendo e dedicando as bênçãos ao rei.
Se algum momento vislumbro triste surgia, 930
amigos e fogo e vinho nembravam sorrisos.
Nessas noites tranquilas rolavam histórias
em torno às rodas de fogo e fatos heroicos.
Passadas horas e casos, contadas façanhas,
os ébrios mandaram buscar, do sono profundo, 935
um jovem de glórias: – Ruderico, meu caro,
a noite è longa! Bebe que o sono è fracasso.
Conta aos homens aqui, mas conta a verdade,
como salvaste a vida. – Um cálice pleno
esvaziava-se, aos poucos, na boca do jovem 940
e Ruderico livrava da boca as palavras:
– Rapaz, a flecha entrou dum lado da cara
e foi sair del outro, aqui a marca, a bochecha.
No dia seguinte, só no final da batalha
foram ver de verdade. Passei que nem vi, 945
lutando feito um morto-vivo e fantasma
apavorando Bizâncio. A flecha era imensa
mas cá ficou, atravessando a cabeça. –
Mostrava assim deformações elegantes
no rosto, exemplo extremo: – Só me livrei 950
do pau porque pus eo mesmo sozim prafora.
Ninguém queria arrancar e o povo dizendo
que a morte era certa, a carne acabada
todinha, bastava alguém tocar na ferida.
Morrer? Estou è vivo e que vivo demais! 955
Depois de um mês tirei la flecha na marra,
melhor, tirei que não! Eo toquei, caiu. –
Mas Vilas, o bom guerreiro, deu-lhe espada:
– Mostra então, rapaz, a flecha na cara
como quebraste e como salvaste a cabeça. – 960
Do fundo do fogo a gargalhada irrompia
mas Ruderico abafa os risos, galante:
– Amigo, mostro na tua cara e se queres
agora, gracioso! – Mas foi impedido:
– Calma, soldados! – É que todos sabiam 965
que Ruderico, coa mesma flecha arrancada,
noutra luta cortara a cabeça dum grego.
Foi buscar o crânio, nembrança de guerra
e prova de imensa força, valor de respeito.
Mas quando o próprio crânio de Ruderico 970
navegava no vinho, o jovem guerreiro
ergueu perante o fogo o crânio vençudo,
prenúncio dum ritual temível, e a spada
partiu-o, rápida e leve, em duas metades,
uma vil, lançada embora entre os ratos, 975
outra uma esbelta e rara circunferência,
corte reto em perfeito cálice côncavo.
Num grito de guerra, Ruderico irascível
bebeu daquele crânio pleno de vinho
a goles fartos. Bebeu las últimas gotas. 980
Dizia a crença: Quem bebesse dum crânio
de grande inimigo sorvia a força do morto,
o próprio espírito. Era a vitória cabal,
conquista da carne como d'alma, roubadas.
E Ruderico sorvia em ruídos vorazes 985
o sopro daquele morto, dito valente
por entre os gregos bizantinos; tomava
o vento do corpo pelo vinho de mel.
Após um breve e cadavérico instante,
canções de outrora soaram perto do fogo. 990
Tornada a calma Vilas contou lo seu caso
prevendo a Ruderico: – Pois que cresceres
darás valor maior ao amor pelos outros.
Eu, por exemplo, não careço de crânios
nem me curei, menino, de grandes feridas, 995
salvei meu povo bom sem alarde e sozinho.
Alguns se esqueceram já pero não me importo:
Na memorável contenda aos pés de Verona,
enquanto os vinte, trinta mil de Bizâncio,
covardes, lutavam contra os nossos godos, 1000
de quem restavam somente uns cinco milhares,
estava eu entre os poucos, a lança nas mãos,
a vara ocupada o tempo inteiro e cercada.
Amigos, a sorte era estar sitiado por quatro
ou cinco apenas: Vinham vinte e montados! 1005
Caí diversas vezes. Pensaram-me morto.
Eu, porém, non piso um campo de luta
e fujo quando a morte parece iminente.
Uma coisa, queridos, meu pai mi ensinou
no leito de morte: Não apanhes jamais 1010
da lança para lancá-la em fuga no chão!
Caí, de fato, mas caí com grandeza,
erguendo a lança mesmo roto no abismo
e derrubando abaixo os vis do cavalo.
Aceito a perda, a morte não me assusta. 1015
Vergonha fugir, consolo o viço dum povo:
Soldados, os camaradas naquela batalha
entraram a campo para ficar e ficaram
até lo fim, e quem caiu levantou-se e
quem morreu foi grande. Eles fugiram, 1020
vinte mil covardes, rabo entre as pernas,
jogando por terra escudo e spada, cachorros
buscando covil. Mas Ruderico, menino,
não matei ninguém por busca de crânios
nem chutei caídos. Sperei que se erguessem! 1025
A mia lança, porém, o tesouro guardado,
a ponta derrubou guerreiro e cavalo,
lanceiro, flecheiro e poderosas espadas.
Atravessei sozinho o rio caudaloso
quebrando flecha forte no escudo certeiro 1030
coas próprias mãos, nadando contra a corrente.
Cheguei primeiro de todos à margem oposta,
valente em meio ad inimigos, milhares.
Vieram contra mim mas me subestimaram
e vacilando caíram, calaram, correram. 1035
Foi assim! – Os camaradas ergueram
o cálice pela glória invejada de Vilas,
ninguém menor do grande mestre de lanças.
Assim lhe aduz um bravo: – Homem de gestos,
a coragem tua è mais até de invejável: 1040
Home non pode invejá-la e nem se tenta
de tão distante de nós, incomparável.
Direi porém meu caso tão curto e menor? –
Dissesse, foi unânime a voz dos ouvintes!
Ergueu portanto a voz Elerico de novo: 1045
– Meu caso è nulha rem, bagatela meu caso.
Alguém se nembra do cerco de Roma, primeiro,
da tropa de Belisário lutando com Vítice?
Durante um ataque, dois soldados do Império
caíram nas minhas mãos. Caíram mesmo, 1050
de joelhos, desarmados e desesperados,
balbuciando frases em grego e latim.
Queriam viver e a decisão era minha. –
Ouviam atentos e o doce olor do hidromel
tornava as palavras mais macias na boca: 1055
– Leixei viver! – revelou enfim Elerico,
o modesto, dividindo os espíritos bravos.
Em verdade erat único o caso daquele soldado:
Fora-lhe dado, um momento, juízo de vidas.
Talvez por isto respondeu aos irônicos: 1060
– Julgar, amigo, è fácil, difícil ser justo.
Leixei viver. Eo não conheço a justiça
de Deus e prefiro não julgar. Perdoei. –
E completou acanhado: – Antes da guerra,
minha gente, eo amava era a minha romana. 1065
Mas veio a guerra e perdi meu amor, se perdeu.
Destino è assim, separa quem nem se casou.
Foi cada qual de seu lado. Será quinda vive,
coitada, será que nembra? Eo fico pensando.
Mas gente, matar de graça eo non mato. Praquê? 1070
Perdoei. – Sorriu dum sopro triste e profundo.
Mas não faltou dum pouco de aplauso na roda.
Seguindo os casos da noite horoica soavam
poemas serenos. Monumento germânico,
foi-se embora de nós a língua dos godos, 1075
morreu sem leixar um verso, vento a nembrança.
Mas home lá cantava ainda e cantava-se alegre
amores de histórias perdudas pelas pedras,
ouvidos velhos de Roma. Leixemos a sombra!
Chegando ao fim o fogo, ergueram-se os homens 1080
em busca de lenha. No meio da rota, um gemido
abafado subiu da terra, cantiga do inferno.
El homem-rato prostrado calava-se em vão,
decerto um macerado e faminto de Roma.
O brio delirava mas veio de Vilas a mágoa: 1085
– Hà quanto tempo non comes? – Ele mirava
contudo vago e contava os dedos doídos.
Perdera a voz, e Vilas avisa ad amigos:
– Carece de pão estomem e vou-lhe buscar
algum pedaço. – Mas Ruderico interveio: 1090
– Cachorro merece morte e carece de nada,
diabo de pão! – Assim proferindo estendeu
la espada, separando os passos de Vilas
e a roda de cinzas, a boca vaga do rato:
– Queísso, rapaz, te fez o quê lo mendigo? – 1095
Vilas demanda e lo jovem retruca: – Nasceu
romano! Por causa desses o cerco foi longo. –
Em vão nembraram a Ruderico a clemência
do rei ca Vilas, num gesto grave e ligeiro,
tomout às mãos a própria espada antepondo: 1100
– És um grande atrevido, menino! Previno,
baixa a spada ou terás uma grande lição! –
Mas Ruderico, em libações embalantes,
rugia como um louco: – Nem que me mates! –
Ouvindo o grito de guerra, Vilas desbrava: 1105
– Recebo ordens do rei, e pão para os pobres! –
O sopro mal terminara as palavras e a luta
abriu-se viva e repentina entre as armas.
Voavam os velhos caçadores de sangue
pelos céus, farejadores de morte. 1110
Abaixo os gumes afiados cravavam
lâmina em lâmina e fulminantes rajadas
causavam tremor. Mas pois a inveja do acaso
decide os casos na tirania do arbítrio,
jamais ou quase nunca em causa de honor, 1115
um gesto falso bastou, momento fugaz,
e Vilas viu descer a espada del outro
contra o próprio pulso: Um raio de ódio
bateu e la mão caiu ao chão decepada!
Às pressas foram apartados, tarde 1120
demais, enquanto os camaradas choravam
pela morte iminente de Vilas, sangria,
e pela de Ruderico, já condenado
do rei e réu de libações assassinas.


[Elegia]

Longe porém na barca incerta, Pelágio 1125
aumentava em vão o tamanho do mar:
– Quanta mágoa, Deus, e quanta angústia
vai consumindo o meu peito e mi pesa
mais do que o mar e vai me engolindo
como um túmulo. Eo vou embora de Roma 1130
nesta nave e na verdade eo busco o navio
que me levasse embora è do mundo.
Eo fico olhando esse céu estrelado
como um tolo e vou errando em mim mesmo
e perguntando mais e sabendo e conhecendo 1135
sempre menos. Mas Senhor, que mundo è este?
Desde cedo eo sabia que a vida è tormenta,
desde cedo eo fui buscando um caminho
longe de império e tentações ligeiras.
Do berço ouvi da voz dos meus pais 1140
o destino arruinado dos homens.
Eram rumores de amigos, parentes
que a mão dalgum partido imigo punira.
Eram rumores del ódio, de fuga e de morte.
Eu passava pelas ruas de Roma e pelas 1145
estradas vagas da Itália e nos traços
dos homens e das paisagens castigadas,
ai de mim, eo percebia bem que ruína
e que mundo sem futuro os pés andavam.
Usar de que modo a fortuna dos meus? 1150
Ia embora um amigo todo ano e vizinho
ninguém sabia aonde. Era a cadência
de Roma ca mesmo com Teodorico,
aquel homem tão bom e tão generoso,
as pedras rudes das ruelas velhas 1155
já diziam toda parte que Roma acabou,
que Roma morreu ca dali non sai futuro.
Eo nembro as almas da minha infância
e nulhome nado queria honor et ofício
amanhã se acabou ca governo è sem remo. 1160
Meu pai, que Deus te tenha, graças a Deus
non vês o que Roma vive. Agora entendo
quando dizias: Filho, esquece ofício.
Ainda naqueles tempos as estátuas
e venustas casas contavam histórias 1165
e quão viva, Deus dos céus, a nembrança.
Mas ao lado das pedras estava a poeira
desde então e Roma já era uma sombra.
Que destino o meu, que mal nascer na morte
dum povo e duma história, do amor incapaz. 1170
Ai, Senhor, ninguém levanta Roma do chão,
acabou, meus filhos, repito, acabou.
Eo vejo os pobres na ermida e nas ruas
e pela missa como andando entre o povo
eo queria è gritar no topo dos monumentos 1175
como no altar das minhas lágrimas:
– I-te embora, infeliz, sai daquende,
sai pelo mundo afora, povo perdudo,
Roma desaba sobre a tua cabeça! –
Só muito amor de nem sei o quê retém 1180
um homem naquel antro de ratos.
Eu pensava porém que o serviço de Deus
seria uma vida mais grata e feliz,
pero não, coitado e condenado de mim:
Fortuna arrasa o ser em qualquer posição 1185
e nem servindo a Deus o esser è seguro.
Em que vaga de perdimento me encontro,
eu, que quanto mais fugia a ruína
de Roma a ruína de Roma seguia
e vem comigo na terra e no inferno? 1190
Não, meu Deus, eo preferia mil vegadas
o trato rude no extremo do mundo,
os homens sem cultura e fortunados.
Mas não, busquei la barca de Cristo
e as mãos dos homens vão me jogando 1195
polo mundo e me vejo no meio do mundo,
eu, que queria rezar no meu canto
longe de tanta ruína e de mundo.
Eo perco o fôlego e falo sem fim:
Se ao menos no peito eo soubesse, 1200
lá no fundo, que Justianiano,
o caro amigo que tanto me estima,
er pudesse ouvir e ver o impossível.
Mas non pode, non pode não, minha gente,
gente de dentro de mim, pode como? 1205
A pessoa non viu lo estado de Roma,
non viu, e quando foi que palavra
tocou el alma dum homem tão distante
de Roma, banquete aberto de ratos?
Que metáfora, Cristo, qual retórica 1210
de imagens fortes convence uma pedra?
Ai, eo queria è desaprender a pensar,
subir dessa nave nas asas dum ícaro
e me perder pelo mar e pelos céus
sair voando a lugar de menos guerra, 1215
menos fome e menos ódio, qualquer lugar,
a caverna de Bento, ai homem sábio,
sim, levar também um punhado de vento
e caminhar sozinho pelo mundo inteiro
rezando pela estrada e falando coas feras. 1220
Mas não, infeliz, essa nau me leva
não à liberdade duma escura caverna
nem aos ratos companheiros do pobre,
leva-me sim às portas de Constantinopla
e delicados palácios, à púrpura, al ouro, 1225
ao sólio donde um homem querido, amigo
governa Roma e nunca a viu nem verá
lo tamanho da sua indigência infinita.
È bom que nem veja e bom que se poupe
dos mastigadores de urtiga e de esterco, 1230
ei lacerada existência, ei perdimento.
Era Roma a capital do mundo. –
Pelágio inclinando a cabeça
mirava, sentindo frio das nuvens,
a superfície das ondas, espelhos 1235
incertos, fitando o líquido brilho
como se desvendasse, da treva,
verdade no embalo do abismo.


Quando porém Pelágio aporta em Constantinopla
pondo os pés no paço do Império, u do sólio 1240
Justiniano recebe os enviados e os grandes
(como lhe reza o protocolo col ordem do dia),
vai, correndo, levar al Imperador a grave
nova do rei Totila, as mãos tremendo coa carta.
Calmo o dono do Império acena aos guardas doríforos 1245
e num segundo os hipaspistas, levando consigo
para fora os legados e os súditos, deixam vazio
quase l'átrio das audiências. Justiniano começa:
– Fala, amigo, vejo que um caso urgente te move.
Que se passat e que mi diz Belisário da Itália? – 1250
Foi-lhe explicando os acontecimentos recentes
tão marcante e tão profundamente que o rosto
como o cetro quase que empaleciam no trono.
Antes porém que o mensageiro de Roma entregasse
a carta Justiniano estende a destra impedindo: 1255
– É de Totila? Non quero nem saber do que trata!
Rasga! Diz ao vil que a Belisário compete,
pois assim o quero, fazer a paz como a guerra.
Ele decida, pois o Imperador que procuram
não discutimos guerra e paz com usurpadores. 1260
Já podemos voltar portanto al ordem do dia. –
Mas Pelágio, antes que Justiniano acenasse
para os doríforos reabrirem as portas, orando
como podia mostra a missiva: – Honrai, Senhor,
o diadema d'ouro que ilustra o crânio do justo, 1265
esse que tendes, e pelo amor de Deus e de Roma
tende bondade e lede as ameaças dum godo!
Vim rogando aos céus durante longa jornada
pelo mar que mi desse letra e verbo correto:
Roma se acaba, ad olhos vistos um túmulo aberto! 1270
Fome e frio castigam os inocentes e os párias
mas parece que apenas começa a nossa desgraça:
Não nos disse Totila, frente ao povo cansado e
frente aos senadores, que Roma será destruída e
posta ao chão se não bastar o termo do acordo? 1275
Venho aqui na condição de escravo implorar-vos,
sim, que enfim me fiz escravo do rei e refém:
Basta um gesto e Roma inteira se perde no fogo. –
Justiniano lendo a carta pondera e reclama:
– Mas Totila non tem autoridade do Império! 1280
São de pouco valor as ameaças fingidas.
Todos os monumentos, os muros e os templos,
casas de Roma restituídas erem, prometo,
cada pedra recolocada ao lugar de origem. –
Nisto l'outro estende a mão suada interpondo: 1285
– As pedras sim, mas e las vidas? Que mão coloca
tantas devastadas almas no logo de origem? –
Mas o Imperador reverbera: – A vida est amara,
homem, e não me tortures mais! Erat o início,
idos primeiros meses do meu bondoso governo 1290
e já chegavam cartas e apelos de Roma e godos.
Não permito aos súditos deste Império dizer
que tenho contra esse povo rem. Eu lo protejo
e como não? Esqueceste aquela triste mulher
e filha de Teodorico, Amalasunta, a regente? 1295
Não mi implorava socorro a vida reta e valente?
Dês que o pai morrera guiava com mão generosa
Roma e reino já que Atalarico, o menino,
era herdeiro menor de idade. Foi perseguida
dês o primeiro e desditoso instante regendo. 1300
Não conheci no tempo um número mais oneroso e
mais cruel de intrigas contra o cetro do justo:
Isto, Pelágio, pois queria fazer de seu filho
rei decente, vida amiga do nosso estandarte
como amigo e dos grandes fora Teodorico. 1305
Que fazer, indago, quando uma vida sem erro
como essa se lança a tous pés rogando socorro?
Ela perdeut o filho corrompudo por vermes,
sim, por homens vis: embriagado de morbo
não resistiu lo doente e foi embora do mundo. 1310
Ela cedeu, Pelágio, contra apelos pungentes
o próprio trono. Quis salvar apenas a vida!
Ela escreveut as cartas mais penosas que li,
dia e noite implorando a proteção de Bizâncio.
Ela morreu! Assassinada per ordem daquele 1315
Teodato que as suas mãos puseram no trono!
Era um próximo! Aprisionou-a pois numa ilha
e contra os meus apelos et ameaças choradas
ordenou de soldados a trucidassem na jaula.
Não bastou! Negou ata la morte o seu crime 1320
contra muitas provas et evidências patentes.
Ela, coitada, teria leixado embora a cidade
vindo pôr-se ao pé de Bizâncio donde um retiro
calmo e generoso aguardava. E ali morreria.
Não lhe foi permitido inofensivo silêncio? 1325
Contra um ato inglório levantei mias armas
nem descanso ata que os impostores se rendam.
Luto per Roma de outrora e per Amalasunta:
Saiam da Itália pois ou sejam súditos nossos! –
Vendo a fúria fulminar dos olhos do augusto 1330
Pelágio torna em toda pressa num gesto agitado:
– Mas se è Teodato a causa do vosso desgaste
todos os godos e o rei vos dão aplauso e razão.
Ninguém duvida que Teodato, juiz sem direito,
foi lo autor da fealdade maior deste século. 1335
Foi punido porém duma morte mais infeliz,
alívio vosso como dos godos. Dono dos povos,
já non são de Teodato as mãos de Totila:
Fora mais alegre o destino de Amalasunta,
sim, se desde então Totila fosse monarca. 1340
Mas que dizer, amigo, quando um justo reúne
toda a gente e senadores de Roma no Forum
orando: “Que maldade fiz, ingratos, ao povo?”
Ora, as bocas dos oradores fartos calaram
frente ao rei ca frente ao rei calaram audazes. 1345
Mas a resposta, Senhor, somente Justiniano
sabe e somente a vossa boca prova e conhece:
Sei que tal pergunta transtornada e pungente
Totila dirigia menos aos pobres que a Vós! –
O Imperador, a mão cobrindo a testa suada, 1350
fala baixo al outro, quase tocando seu ombro:
– Est um caso de fato raro, ingrato e funesto.
Já se evidenciat às ruas o brio de Totila.
Mas direi a quem mi pede o mal que tem feito.
Veio das suas próprias mãos a proposta de paz: 1355
Pois que outrora Vítice houve rendudo Ravena
veio depois Totila em carta propondo render
as armas, homens e poderoso forte em Treviso.
Pois! A pedido seu aceitaimos propensos à calma,
fora já marcada a data da entrega das armas! 1360
Que dizer, porém (agora è minha a pergunta),
quando um rumor extremo irrompet ubíquo
anunciando Totila o novíssimo rei dos godos?
Já lhe bastou dum pouco d'ouro e coroa de vis
e lá se foit infame revigorando os rancores. 1365
Não me acuses! Deus è testemunha de acordos:
Quantas vezes depus de bõa fé mias armas?
Eu queria crer em Totila letra por letra
mas non posso: Como agir se vivo confuso?
Quantas cartas recebi recitando promessas? 1370
Não mi jurou Teodato que Amalasunta vivia?
Fui traído muitas vezes por muitos governos
mas, Pelágio, a confiança se perde co tempo.
Não me comovem mais correspondências extensas,
já demais enganaram meus esforços ingentes. 1375
Quero pois, está decidido, que saiam da Itália! –
Lívida a boca de Roma transtornada recorda:
– Algo de alívio, Dom, è necessário dizer-lhes
para acalmar os godos como o povo sem rumo. –
Justiniano lhe assere: – Digam toda a verdade: 1380
Cabe a Belisário nossa campanha de Itália!
Já podemos voltar portanto al ordem do dia:
Há questões iminentes da santa Igreja a tratar! –
Ainda falava lo Imperador pero l'outro entrevia
como um fastasma Roma devorada por flamas. 1385


Mas aproximou-se do rei lo guerreiro
Vilas, el homem sem mão, a lança caída:
– Durante dias, andei perdudo por ermos
jurando a Deus e a Ruderico vingança.
Per u lo corpo meu se arrastava doído 1390
o movimento tranformava-se em sangue.
Era um rio que jorrava, um mar infinito
levando embora o brio, valor duma vida.
Caí, senhor, às margens dalguma corrente,
sem força de alevantando, presa del ódio, 1395
e quanto mais eo maldizia o destino,
o nome inglório de Ruderico e de infames,
mais o sangue fugia de dentro de entranhas,
mais aquele rio et as pedras e a strada
bebiam a minha vida, o vaso quebrado. 1400
Não me recordo como colhi memórias
abandonado perante as portas do inferno.
Mas percebi, por algum recurso divino,
descendo no escuro pela escada da morte,
que a mão que me empurrava abaixo, tirana, 1405
menos que a espada de Ruderico atrevuda
era el ódio que propulsava o meu sangue
e derramava ao mundo afora uma vida.
Ora, desde aquele momento e remorso
retive a derradeira gota que havia. 1410
E derribando um peso mortal de meu peito
jurei de novo ao doador de destinos:
Dá-mi tão somente um pedaço de vida
e leixarei de mim, a meu rei e meu povo,
o testemunho dum coração sem rancor. 1415
Venho pedindo, desde então, piedade
pela vida errada dum jovem sem pai.
Andei por estradas refletindo atitudes:
Totila! Antes que o jovem pague coa vida
deixa-me consumar a sagrada promessa. 1420
Eu guiarei Ruderico, eo ero seu mestre!
O povo inteiro em pouco tempo verá
lo exemplo dum firme, valoroso na lança
como nos atos reto gestor de vitórias. –
Contudo, um rei estupefato mirava 1425
el homem que amigos acreditavam morto.
Viera como um raio a notícia dos guardas,
de Vilas ferido, moribundo e perdudo.
Totila passara sete noites sem sono
vagando pelo escuro em recintos vazios. 1430
Ruderico detento em fuga e rendudo
sperava na jaula a spada pena de morte,
corpo ferido por toda espécie d'armas.
O rei, porém, imagens mistas na mente,
fitando el ar tenebroso induz a Vilas: 1435
– Eras a mais valente mão dos guerreiros.
Eras el alma dum povo e bateram tou viço.
Renegas, Vilas, o tou direito de guerra?
Tão grande se fez o medo teu dum covarde
que já nem queres punir, pretendes amá-lo? 1440
Não, guerreiro, assim non será: Morrerá
ainda esta noite. Perdoaste, infeliz?
Mas a mão que a spada ingrata abateu
non foi de Vilas somente, foi de Totila.
O céu conhece o tamanho do meu coração. 1445
Perante o sofrimento e remorso do incauto
jamais hesitei: Estendi minha mão, perdoei.
Desci do cavalo et alevantei-o do chão,
ouvi confissões e ponderei argumentos.
Mas compaixão de iníquos, maus sem motivo, 1450
não comparto e nunca coube em meu peito.
Estomem que queres salvar da justiça
merece morte apenas. Estirpe de ingratos,
viveu sem virtude. Ébrio, chutava caídos.
Negava a vida como o pão a vençudos. 1455
Vencendo, vilipendiava cadáveres
corpos sem defesa. Usava das armas
contra os amigos como contra verdugos.
Desconhecia a mãe, o sou pai, os irmãos.
Foi verdade, Vilas, que ergueu sua espada 1460
contra ti a que um pária morresse de fome?
Este o filho que adotas, algoz de mendigos? –
A palavras exaustas somavam-se gestos
e o rei arfava. Ora, ainda que fosse
possível perdoar Ruderico da morte 1465
fora um gesto de impunidade soltá-lo,
exemplo mau aos jovens, virtude vençuda.
Mas Vilas inabalável insiste valente:
– Eu afianço a minha vida à promessa:
Se o filho meu cometer um gesto injusto 1470
mata-nos ambos cada qual no seu crime! –
Totila enfim desiludido e surpreso
mandou trazerem Ruderico ao recinto
donde anunciou, na frente de Vilas:
– O crime tou, menino, não se perdoa 1475
mas tua pena de morte será postergada.
Afiançaram a vida por tua conduta:
Mas Ruderico, non reconheces tou pai? –
Assim mostrando o vulto de Vilas atrás,
Totila viu lo susto no rosto do jovem 1480
ora prostrado, a rouca voz soluçando
enquanto o novo pai tocava-lhe a fronte.


Fora, porém, apareceut uma sombra apressada
pedindo ver o rei, temendo cada palavra.
Foi preciso certo esforço do povo e de guardas 1485
para reconhecer aquele aspecto assombrado:
Era Pelágio, cabelos enbranqueçudos de súbito!
Tinha às mãos a mesma carta do rei devoluta
mas Totila entendeu sem carecer de delongas:
Era decerto um homem sem honor Justiniano! 1490
Mal se importara em lendo (a dedução era óbvia)
lo apelo e julgara o remetente rei sem promessa.
Ora o rei cerrando punhos num gesto irascível
foi secando em vão lo pranto farto e de ódio:
– Esse Império Romano não se importa com Roma? 1495
Abre mão das construções, da paz e das vidas? –
Como tomado num riso atarantado e del asco
não se leixou impressionar e perder ameaças:
– Pois se Roma non vale nimigalha a lo Império
hei de mostrar o quanto menos mi vale Roma! – 1500
Não assentia desrespeito à sua embaixada e
já cumpria gustar melhor o sabor da vitória!
Assim pensou, e firme perante os emissários
Totila sem mais demora e vacilo pronunciou:
– Quero que seja destruída a cidade de Roma! – 1505
Ato contínuo, falanges sequiosas de fogo
foram embebendo em combustíveis as pedras:
Era em vão abandonados correrem aos gritos.
Nem bastava ainda al ira do rei lo incêndio
pois a história sabia de Nero, viço instável: 1510
Roma sobrevivera à tempestade das flamas.
Ora cumpria, queimados edifícios ilustres,
pôr ao chão la derradeira pedra quebrada.
Cada soldado carregava um martelo raivoso
prenhe de morte e destruição, sinal violento. 1515
Fora selada a sorte da capital dos leões:
– Roma doravante seja um pasto de gado!
Quem no futuro vir aqueste trato de terra
não recorde a vila que pés de bois apagarem. –
Quando o fogo irrompeu das antiquíssimas casas, 1520
quando ao trom do martelo cambalearam pilastras
veio a massa às ruas, erguendo os olhos ao céu
por u las flamas altas anunciavam verdade.
Fora permitido aos godos entrar pelos átrios
confiscando todo valor que non fosse alimento. 1525
Não surtiram efeito senadores e lágrimas:
Rem se ouvia além de crepitar e tremores,
sons de escudos e espadas abafavam clamores.
Era debalde buscar apelo e moção de clemência
pois Totila fechara firme os olhos e ouvidos. 1530
Era maior do mundo o grito infindo de Roma
mas o mundo ensurdecera esqueçudo de Roma.
Muita voz naquela noite clamou sem resposta
o nome do Imperador, angustiada esperança.
Veio no meio do fogo l'ordem novo do rei: 1535
– Nel alba vá-se embora o povo todo de Roma
nem circulem por estas ruas homens e cães! –
Nisto aqueles porém que nada tinham de seu
et eram muitos agarravam-se a pedras ao chão.
Nem a ruína lhes removia amor às origens, 1540
reto afã de ficando e recompor monumentos.
Era a vontade do rei cortar a raiz do afeto,
erva daninha, despovoando la inteira cidade.
Mas ouviram contar um caso na noite de flamas:
Quando Totila dormia na espera veio del alto 1545
o clarão e a caravana de cem arqueiros ilustres.
Eram luminosos heróis em quadrigas douradas
que descendendo alados envolveram Totila.
Foi levado pelos carros por rodas de vento
rumo ao Forum Romano donde um vulto atendia. 1550
Quando os dous se viram a sós, o rei estendeu
la mão ao pária debruçado perante uma estátua.
Mas el outro ajoelhado e beijando-lhe a mão
rogava ao godo: – Não destruas a minha cidade! –
Tamanha dor de apelo entristeceu a Totila: 1555
– Ergue a vida do chão, amigo, como te chamas? –
Mas o pária chorando sangue aponta al estátua
em cujo rosto Totila vislumbra Teodorico!
Súbito um raio fulmina e despedaça a státua
quando Totila acorda imóvel sentindo o trovão: 1560
medo e ruído ensurdecedor tremendo no peito.
Entra Rigo no mesmo instante e transtornado
corre como vedor de fantasmas prorrompendo:
– Vem andando um vulto atrás de mim sem cabeça
e vem chorando e me perseguindo a noite inteira. 1565
Era que nem um sonho, Totila, no Forum de Roma:
Vinha vagando e carregando a própria cabeça
fora do corpo e vinha choramingando comigo.
Eu mandava sair pero o vulto parava e dizia:
Pede ao rei, meu amigo, piedade de Roma. 1570
Vegada et outra descia um anjo querendo levar
mas ele recusava mostrando o fogo nas casas.
Eu andava adiante mas ele sentava-se perto:
Pede ao rei, meu querido, piedade de Roma.
Quanto mais eo olhava o seu aspecto amargo 1575
mais eo via a multidão dos mil que o seguia.
Eu queria fugir pero estendia-mi as mãos
e balançava a cabeça angustiado e rogava:
Pede ao rei, meu amigo, piedade por Roma.
Era um aluvião sem rumo pedindo socorro 1580
mas vi de repente a transfiguração dum alma:
Quando o vulto se diluiu num etéreo vapor
um merencório chover de gotas irradiantes
cobriu los sofredores e a voz do céu ressoou:
Filhos de Roma, Boécio permanece entre vós. – 1585
Totila assustado rumina a intervenção dos sonhos:
Como agir? Buscava resposta nos olhos de Rigo
mas o amigo perdera a voz e Totila sugere:
– Traz os cavalos, Rigo, vamos a Monte Cassino!
Bento conhecerá lo sinal secreto dos sonhos. – 1590
É que Totila ainda não soubera que Bento,
certa noite, alçando além os braços em prece
caíra morto em meio a seus amados discípulos:
Era o peso dum peito compadeçudo por Roma.
Mas o conquistador del Urbe não se arredava 1595
nem cedeu independente de imagens e assombro:
Inda restava a destruir a muralha odiada
que tantas vezes repelira impávida ataques.
Já soava o bater de martelos e os muros tremiam
mentre o fogo passava atravessando vielas. 1600
Iram minando primeiro bastiões importantes
pela margem do Tibre e perfurando crateras.
Inda restava exposta e derribada a passagem
que apenas Pedro Apóstolo protegera do assalto:
Contam pois que durante a campanha de Belisário 1605
grande parte do muro caiu mas nulhome invadiu
que a mão de Pedro e nada mais decerto impediu.
Ogano andavam longe Pedro e Bento e Boécio
ca longe andavam Teodorico e Justiniano.
Ogano passavam retirantes em tiras extensas 1610
e pés de senadores e párias sedentos de vida.
Quem a sorte dotou dalgum sentido e prudência
já leixava às pressas e não se adiram sozinhos:
Levaram consigo os fracos e deserdados embora
e pouco antes da aurora Roma se fez deserto. 1615
Dentre fugientes que se adentravam ad ermos
pelos campos um corajoso porém retornou.


Entrou a sós pelo fogo o romano sem nome
lançando o corpo gasto aos pés duma estátua.
Guerreiros godos, maravilhados da imagem, 1620
quiseram bani-lo e retirá-lo por armas,
mas ponderando o perigo, iminência de morte,
miravam apenas, confusos, o gesto inaudito.
Era tamanha a loucura, patente, do estranho
mendigo abraçando-se à forma da estátua, 1625
que mesmo os rudes se apiedavam da cena.
Ora, diziam, se o pária perdeu lo juízo
alguém se prontifique, por Deus, a salvá-lo!
E não faltavam mãos e virtudes valentes
prontas à luta extrema contra calores. 1630
Cumpria-lhes pressa pois estavam cercados,
a estátua co estranho, por edifícios em flamas
prestes a sucumbir e soterrar esperanças.
Ali se lançaram desrespeitando os temores
pela vida própria e prestando o socorro: 1635
– Ainda è tempo, vem conosco, romano! –
Mas qual non foi, Senhor dos Céus, a surpresa
pois que aquele estranho julgado sem ânimo
houve erguda a voz, lamentando del alto:
– Salvai melhor a vida vossa, guerreiros, 1640
a minha se esconde dentro desta escultura! –
Assim falando mostrava pálido o mármore
enquanto os godos retrucavam-lhe abaixo:
– És insano? Vês a salvação que te ofertam
e queres a morte? Deixa embora a figura! – 1645
Mas el homem sem nome num ato de angústia
e confusão e desespero responde-lhes:
– Nem que um raio me parta eo saio daqui! –
Os godos porém concatenando respostas
e mais seguros da insanidade do estranho, 1650
dobravam indagações, procurando argumento:
– Explica então por que te abraças a estátuas
quando o mundo se acaba em torno de ti! –
Mas o romano tomando de fôlego assere:
– Não por estátuas mas por esta somente 1655
eo retornei de meu rumo a Roma, guerreiros! –
Humores mais nervosos e o medo da morte
causavam perguntas mais impacientes:
– Mas esta estátua è tua e vale-te tanto? –
O romano porém ouvindo a franca demanda 1660
gritou e prorrompeu num pranto agitado:
– Este monumento da história que vedes,
esta estátua veio dos braços de Fídias! –
E assim lhes recontava no meio do fogo
a vida dum grande escultor, exemplo sem par. 1665
Mas não se contentavam os godos arfando:
– Romano, as tuas mãos non vencem o peso
da estátua nem o fogo e rem a resgata! –
El outro não se impressionou, resoluto:
– Éste l'alma de Roma que impera salvar! 1670
Nela meus pais e meus avós se abraçaram,
suspiros de tantas gerações enterradas.
As alegrias da infância e nembrança da rua,
guerreiros, da rua de outrora apontam ad ela.
Era orgulho da praça e da vida dum povo 1675
testemunhando que um século Roma foi bela.
Soldados, non quero mal a nulhomem de vós:
Eo quero salvar em paz a história de Roma,
ai leixai-me sim, caridosos, por graça!
Eo peço tão pouco e quase nulha vos peço: 1680
Ora que è todo vosso o presente e futuro
eo peço apenas o meu passado em pedaços.
Filhinhos meus contemplarão esta imagem! –
Decerto aqueles godos não se esqueceram
do quanto amor separa pedras e estátuas, 1685
ca sol as pedras enxergarão nas estátuas
pedras apenas, apenas o amor monumento.
Era em vão que argumentassem lanceiros
enquanto o calor e o nervosismo aumentava.
Num ato extremo porém decidiram movê-lo 1690
embora à força, e sob ameaças de lanças
tentavam pôr as mãos nel homem sem nome.
Ora o romano apagando o fogo co pranto
e protegendo o corpo del obra coa pele,
rugia contra as mãos de socorro e de ataque: 1695
– Leixai-me em paz e rebaixai vossas armas!
Vale mais do que o povo inteiro esta estátua! –
Os gritos de salvação e socorro mesclavam-se
cons impropérios, as preces e indagações.
Mas o incêndio interrompeu los diálogos. 1700
Soldados iam retirando-se às pressas
enquanto a morte os remordia de perto.
O romano, num lance alucinado e veloz,
tentou mover o monumento de Fídias
querendo carregá-lo embora nas costas. 1705
Mas as pilastras do edifício defronte
vieram abaixo, soterrando as histórias
em meio ao tremor e à fumaça das flamas.
Caíram juntos l'homem e a státua de Fídias
despedaçando-se cada qual a seu modo. 1710


Pela manhã porém chegout às mãos de Totila
novo apelo, correspondência de Belisário:
“Rei de Roma, trata melhor a cidade que è tua!
Não condiz um gesto infame coa mão generosa
que tanta vez e sem rancor estendeste a caídos. 1715
Não se passa um dia sem que ouçamos façanhas:
Ora retribuis o pai da mulher desonrada,
ora salvas da morte o fraco, poupas pequenos.
O nome teu se espalha pelas plagas da Itália
como doador de consolo, farol de esperanças. 1720
Mas, Totila, explica, por piedade aos amigos,
como entender um gesto feio num rei de proezas.
Por que vieram, rei, acordar-me no meio da noite
dizendo que tua ira incendeia a cidade de Roma?
Tal menção entristece os amigos, confunde juízes. 1725
Roma è tão formosa et abriga tantas famílias,
traz idosa la história de meio mundo no seio.
Pensa melhor! Se fores vencedor nesta guerra,
queres despedaçada a capital do teu reino?
Mas também è nobre saber perder em batalhas. 1730
Quão distinto o teu nome será nembrado nas eras,
rei, se mesmo perdendo tiveres salvo a cidade
mãe de mundo. E quão funesta a nembrança será
dum rei que recusou la mão à cidade caída.”
Isto e muito mais Belisário escreveu-lhe. 1735
Fora de fato acordado pela voz de Pelágio
junto a senadores mendigos no meio da noite.
Mas o general de Bizâncio, em meio a vertigens,
pôde apenas pedir que lo atendessem afora,
já perdudo rente ao chão e ponderando palavras. 1740
Quem o visse por vez primeira, naquele momento,
nunca pudera crer em quantas glórias de guerra
ele, recurvado e tremendo, trouxera a Bizâncio.
Fora o mentor de vitoriosas batalhas na Pérsia.
Fora o gestor de reconquistas vastas em Áfricas 1745
onde triunfara contra o reino dos vândalos.
Sem saber direito em que porto ancorar os navios
veio a Cartago ao amanhecer e de noite imperava:
Comeu da ceia que fora posta ao rei inimigo.
Cônsul de Roma, desembarcou em Sicília, tomou-a. 1750
Veio à Calábria, entrou vitorioso em Campânia,
teve Nápoles, Roma e Ravena em mãos joviais.
Homem de honor prezado em continentes diversos,
fora-lhe oferecido um império, coroa de godos
quando rendendo Vítice, o rei, cativou inimigos. 1755
Mas o destino invejou lo seu vigor inaudito
quando Justiniano, incomodado coa glória,
veio a suspeitar dum homem reto e sem gana.
Desde então procurava retê-lo perto inativo
mas o povo, quanto mais Belisário escondia-se, 1760
mais o conclamava a mais vitórias no Império.
Lá porém se encontrava debruçado ao opróbrio
dono de escassos homens e rarefeito recurso.
Fora pois o desígnio de Justiniano do trono
ver o general pela Itália porém diminuto: 1765
Fora ordenado a Belisário, leal sem vacilo,
ir a custear a campanha cons próprios recursos.
Muito amor à causa comum o moveu. Aceitou.
Varava pela Itália aquelora um vulto sem brio,
por terra e mar um colecionador de desgostos, 1770
el a quem se oferecera o reino dos godos.
Mas agora um novo fato agravava o seu caso:
Era o destino o compelindo à vida mendiga,
pena às mãos implorando piedade a Totila.
Mas Totila ponderando o seu gesto extremo 1775
leu e releu durante horas o apelo da carta.
Era de fato um caso desesperado e perdudo
para Bizâncio. Mas quando Rigo leu a missiva
pronto irrompeu, falando pelo próprio peito:
– Deus non quer que seja destruída a cidade! 1780
Pelo amor do teu povo, Totila, ainda duvidas?
Quantos sinais ainda atendes da terra e do céu?
As almas transtornadas de Teodorico e Boécio
vagam de noite e de dia os inocentes lamentam.
Já se uniram vivos e mortos rogando clemência: 1785
Para, Totila, a covardia ofende as estátuas!
Roma inteira implora aos olhos vistos por vida,
roga renduda um gesto mais bonito e decente.
Rei, apaga logo este incêndio, salva a cidade! –
Totila tomou lo amigo pelo braço e lhe disse: 1790
– Rigo, trahirei las mias palavras de guerra?
Não se importou Justiniano, impostor de Bizâncio,
coa carta repropondo-lhe a paz, prefere o flagelo! –
Rigo redobra: – Prefere pois è homem sem honra!
Fosse de fato o pai deste povo a paz reinaria. 1795
Quem abandona deste modo os súditos próprios
nem merece resposta nem a espada do justo.
Pune o pravo e não o povo: O povo te serve. –
Isto dito, Totila considera o teor do problema
longas horas. Cede! Não porém por inteiro: 1800
Foi de fato ordenado conter o fogo de Roma
pelas construções periféricas u lastrava.
Foi retento o martelo desmembrando a muralha,
ora que a sua força estratégica fora eversa.
Mas a cidade seguiria um deserto fantasma e 1805
de quanto a isto nem um raio arredava Totila:
– Pena de morte a quem puser os pés em Roma! –
Antes, Totila levava a massa embora consigo,
pobres e senadores cruzando a pé por estradas
nem cessaram sofrendo ata chegar à Campânia. 1810
Lá por fim lhes permitiu lo rei residência:
Mas que não intentassem fuga no meio da noite!


Quem buscava fuga da inglória e milagres
era Belisário conjunto a falanges
de desesperançosos que pouco alçavam: 1815
Durante meses Roma esteve deserta
enquanto o General, ancorado no porto
e sem reforço, mirava em vão direções
por onde encadear certeiros ataques
em certa brecha et ousadores intentos. 1820
Mas onde quer que ao horizonte zarpasse
olhou lo mundo e viu: O mundo era godo.
Os montes escondiam fortes armados,
as armas eram fortes, subiam aos montes:
Cada estrada guardava pronta emboscada, 1825
cercava la espada e tempestade de lanças.
Retenta fora Portus por pouco e lanterna
no meio da noite: Era pequena el única
célula viva de resistência por milhas
e cada movimento adentrando terrenos 1830
longe do mar expunha Portus ao cerco.
Muita vegada caminhada breve bastou
e norte e sul revigoravam-se godos
em violenta vergasta, donos do ensejo.
No cerco morte era certa e fuga impossível: 1835
Marchava muito além o socorro das armas
passando cansado e mal-tratado distante
quase uma eternidade do leste e d'oeste.
Andava pelas margens do Pó desolado
e mantinha temeroso a guarda em Ravena 1840
ou prosseguia lento pela Calábria.
A causa de Belisário deitava arrasada
e Roma largada inalcançavel ao braço.
Mas Belisário na impaciência dos dias
não se conformava coa mão do destino, 1845
antes tapava os olhos coas próprias mãos
repudiando o veredito e visão da verdade.
Pois rebelou-se! Reunindo os soldados
orou-lhes: – Quem de vós estiver ocupado
coa salvação da vida própria e covarde 1850
vá-se embora. Quanto a mim, seguirei
com minhas próprias armas e braço valente
a Roma: Pois! E seguirei de repente
e contra o titubeio me impera marchar! –
Houve alarme por entre espertos guerreiros 1855
ca Belisário não recorria a palavras
por mero prazer, jamais, de encher a boca
nem voltava atrás decisões e promessas.
Mas como entender a nova tática audácia?
Era gesto impensado, aventura de vidas! 1860
Atordoados ouviam os planos e o risco
rogando em vão explicações e cautela,
sabendo apenas que novas lutas retinham
Totila alhur. Porém senhores da terra
como eram, ninguém garantia passagem 1865
segura pela estrada e caminho de Roma:
Era caso de sorte, destino ou de Deus.
O general maior non concede e prossegue:
– Guerreiros, não me deslocaram de longe
no rumo de Roma para salvar-me medês 1870
mas pela salvação de Roma e da Itália,
nem aceitei um dever maior do que a vida
para julgar mia vida maior que o dever.
El homem poderoso e gestor de vitórias
não dependeu de ocasiões favoráveis, 1875
meninos, para alcançar o nome que tenho.
Em meio à luta não pondero o tamanho
da chance para ficar se o ganho è certo
mas fugir se a queda parece iminente;
antes combato firme nem fujo nem temo 1880
e quero cair com valor se destino è cair.
Portanto: Marcharemos juntos a Roma e
lutemos como convém à virtude guerreira! –
Assim falout e assim se fez a jornada:
Quando houveram desperto na aurora soldados 1885
pronto foram tomando escudos e espadas,
troféis de melhor manejo ali preperados.
Destemudos da morte abraçavam-se amigos
qual del último braço, jurando promessas
de lealdade eterna e recíproco auxílio. 1890
Enfileiraram-se logo em marcha e marcharam
homens sem esperança de vida e sem medo!
Desprevenidos soldados godos sozinhos
eram rendudos, aprisionados ou mortos.
Arqueiros impediam a fuga de audazes 1895
transidos pela flecha e caindo no campo.
A lança lançou ao chão inimigos de longe
e quem escapou pereceu na ponta da espada.
Nos flancos cavalaria franca avançava
impressionando incautos como peritos. 1900
Ao fim do dia surgiu la cidade fantasma
coberta de musgo e grama, apenas ruína.
Quem nos tempos de César, Augusto e Trajano
pintasse aquela imagem do Forum Romano,
quanto de escárnio colheria o profeta! 1905
Agora porém nenhuma visão de abandono
lhes parecia impossível, derrota infinita.
Largados num sentimento de amor e de morte,
alívio na reconquista de Roma e tristeza,
soldados amparavam-se cheios de angústia, 1910
os olhos confusos. Mas Belisário, na mágoa
de perceber remorso estampado nos rostos
como agora enxergassem quanto o descaso
das tropas regulares custara à cidade;
vencendo a comoção Belisário lhes prega: 1915
– Aí se vê, Romanos, a nossa desgraça
e cá mirais o preço do vosso vacilo
et anos de hesitação e coragem incerta.
Mas quem de vós imaginou presunçoso
que já bastava retomar a cidade 1920
para a cidade retomar o seu brilho,
engana-se: Não vos enganeis, combatentes!
É trabalho demais e sem trégua trabalho
que as vossas mãos ainda têm pela frente!
As pedras, filhos, que a mão hostil derribou 1925
a mão amiga levanta e restaura as ruínas,
devolve à patria o brio, a vida, a vitória.
Reconquistar a cidade è metade da meta
que cumpre agora reter, defender a cidade:
Tomai, soldados, ruínas de Roma aos ombros 1930
e reerguei no cimento da vossa aflição
a muralha, os monumentos e a vida dum povo! –
Assim lhes orou, e tomando a primeira pedra
a recolocou aos pés da muralha sem base.
Sem dormindo lançaram-se todos soldados 1935
à lida perdendo a noite e ganhando firmeza.
Mas não se arriscaram sozinhos: Pela manhã,
quando a nova das tropas se teve espalhada,
correu de volta à cidade um povo perdudo
turvando de longe a nitidez do horizonte. 1940
Leixaram para trás os negócios que havia
e sem promessa de pão, de teto e de vida
pisaram aquele chão que o rei prohibira
e chão que em vida já non creram pisar.
Juraram carregando o peso dos sonhos 1945
jamais abandonar a morada e morrer
se preciso fosse, mas cair com ruínas
trabalhadores rudes e nobres sem nome
não porém sem amor e sacrifício no peito.
Quando Totila ouviu da vitória das tropas, 1950
cercado de ansiedade e combates acerbos,
leixou de lado a luta e subiut ao cavalo
zarpando inopinadamente, assombrado,
acompanhado do grosso do exército godo
e guerreiros acostumados a todo cenário! 1955
Mas qual non foi lo sobressalto de Roma
quando se ouviu la cavalaria de longe
gritando maldições, impropérios irados.
No terremoto que fez tremer intrépidos
havia agravante: Que as portas de Roma 1960
ainda non foram repostas, lacunas abertas
em meio ao muro reergudo de súbito.
Gritos dos invasores eram mesclados
a desespero ofegante correndo nas ruas:
Romanos que poucas horas antes plantavam 1965
grãos pelas praças prevenindo escassez,
perdiam novamente esperança e fitavam
horizonte hostil e muralha indefesa
ca manifesto estava: Fora preciso
obrar de dias a terminar os portões! 1970
Soava naquelas mentes sinal de chacina
e jovens e velhos fabulando sem nexo
sentavam-se pelo chão esperando martírio.
Mas Belisário conclamando os soldados,
selecionando os mais audazes a dedo 1975
mandou: – Seremos nós as portas de Roma!
Provade, honrados, de qual cimento se fez
o portão de vossos braços chave da vida.
Sabei uma coisa apenas: Se o braço cair
cairá co vosso braço la história dum povo. 1980
Usai com gosto o vosso impávido escudo
porquanto muitos de vós los erguerão
aqui pel última vez, e não os lanceis
ao chão sem antes leixardes pelo chão
a própria vida testemunhando quem sois! 1985
Pensai nas mãos que se calejaram caladas
para vestir broquéis às portas de Roma!
Pensai na angustiada esperança deposta
por estes caídos em vós e apenas em vós
porque vos digo, filhos, se não lutardes 1990
pelo povo honroso atrás destes muros
como se fossem vossos pais e famílias,
leixai las armas antes mesmo da luta
e poupai da vergonha a vossa vida infame:
Guerreiros mais credores desta vitória 1995
dividirão seu sangue amargo conosco! –
O ataque irrompeu interrompendo junções.
Totila porém no seu avanço exaltado
mirou surpreso a ressurreição da muralha
e de escudos humanos que ali se puseram 2000
desrespeitando as ameaças da morte.
Acumalavam-se corpos de nome indistinto
perante os muros: Sob assalto incessante
lanceiros cercados derrubavam cavalos,
escudos repelindo a clava dos godos. 2005
Trocavam turno combatentes nas portas
aliviando feridos, mantendo esperanças
e os novos braços avançavam na linha
spada contra espada, broquéis de bravura.
Muita vez um soldado caiu atingido 2010
e prevendo morte deslocou-se, calado,
para que o corpo derrotado em batalha
não perturbasse mais os pés de guerreiros
nem pela imagem do fim e nem por despojo
tomando espaço inadequado à virtude 2015
dum sacrifício maior que a vida exige:
Morreu escondudo não porém sem memória.
Mas outros num movimento mais embalante
lançaram-se repentinos contra inimigos
e enquanto os invasores alçavam a lança 2020
tremenda e míssil derrubador de gigantes
a espada atravessava rasgando as entranhas,
tolhendo o golpe. Foram vistos soldados
de Belisário tendo um braço arrancado
enquanto l'outro arremessava uma clava 2025
certeira contra a cabeça dum desprovudo.
Os semimortos no chão perfuravam cavalos
e os corredores incautos caíam atônitos.
Do céu desciam vorazes corvos e abutres
e disputando a carne coas águias lutavam 2030
a guerra dentro da guerra, ébrias de sangue.
Quando porém arqueiros subiram os muros
mirando facilmente a flecha à vontade,
Vilas, o professor maior dos lanceiros
tomando a Ruderico seu filho adotivo 2035
correu a Totila. O dia inteiro passara
e já caíra a noite nas portas de Roma.
Totila, depois de recolhudas as tropas
e mar de feridos ouviu la palavra de Vilas
que não insista no ataque! Homens valentes 2040
merecedores de morte mais proveitosa
seriam presa em campo aberto de flechas.
Fosse pois evitado um cenário penoso
e triste desperdício de vidas e godos.
Totila como um surdo manteve a campanha 2045
e lo sol assitiu lo segundo dia de sangue.
Mas Roma não se abalara! Novo utensílio
de guerra, durante a noite soldados cravaram
na terra estrepes e agudas pontas brilhavam
em torno de muros, parvo engenho de quedas. 2050
Ai do cavalo que cavalgasse emboscadas
pois cavalgaram colecionando derrotas!
Lanceiro ao chão lançado, flecha no peito,
fechava os olhos fitando o céu sem resposta.
Ainda assim lo rigor dos olhos atentos 2055
muita vez enxergou Ruderico, o zeloso,
o braço versado derrubando os arqueiros.
Vilas notando agora o brio de seu filho
notava também Totila ciente dos feitos.
A morte contudo acumulava os seus corpos 2060
e transformava campos de guerra em planalto.
De noite Rigo, o guarda do rei, se aproxima:
Era melhor escutar o conselho de Vilas!
Totila lívido em cólera não se impressiona,
trompeta de praga e percussor de impropérios 2065
berrando a perda de Roma; não se acalmava.
Nasceu-lhe em mente o plano, ataque frontal,
e rompendo o nascer de mais um dia desdito
Totila lançou los godos às portas de Roma.
Nas portas de Roma porém esperavam soldados 2070
mais valentes que nunca e tropas impávidas
ora que a resistência, a força de braços
em repelindo revigorava os escudos
ca sorte das armas aumentava o moral.
O rei dos godos percebendo vigores 2075
mudou la meta e concentrou los soldados
quase todos aos pés dum única porta,
decerto presa fácil com menos escudos.
Aglomeravam-se pois espadas e lanças,
cavalos e clavas intimidavam os guardas. 2080
Destino contudo provou correto o conselho
de Vilas como depois palavras de Rigo
porquanto um fato ominoso se deu repentino:
Num lance agitado veio ao chão co cavalo
o grande porta-bandeira do rei, atingido 2085
ao mesmo tempo por flecha e lança: Morreu!
Quando enfim circulou pelas tropas a nova
que el estandarte do rei, a briosa bandeira
caíra ao chão pisada por patas equestres,
lábaro violado por barro e por sangue, 2090
houve medo e tumulto no exército godo.
Vilas e Rigo e todos os grandes dum povo
correram ao rei: – Termina agora o combate! –
Logo Totila recebendo em mãos o estandarte
dourado e recuperado e contudo ultrajado 2095
mandou soar a trombeta do fim da batalha,
batendo em retirada co grosso dos godos.
E o povo de Roma vendo um novo milagre
ergueu las mãos aos céus e beijou Belisário
enquanto os combatentes trocavam abraços 2100
e lágrimas e sentimentos mistos, cansados,
contando façanhas ganhas e amigos perdudos.
Coubera ao General caído em desgraça
porém fiel al Império, patrono de Roma,
colher em Roma dum última vez a vitória 2105
antes de retornar sem recurso a Bizâncio.
Leixava a Roma assim esperança e soldados
que não se atrevesse um outro rei poderoso,
jamais, a despovoar a matrona dos povos.


Qual non foi na noite porém o peso do peito 2110
quando o rei deitou la sua espada por terra.
Fora derrubada a bandeira em plena batalha!
Era em vão Totila abraçar o trapo no escuro
como se angústia diluísse das horas memória.
Cedo aproximaram-se Rigo, Vilas e os guardas: 2115
Era preciso dizer alguma palavra aos soldados
pois o viço inconstante os abatera calados.
Iam leixando pelo chão os olhos e as armas
antes fortes, ora ansiosos e tristes e amargos.
Ora espalhou-se no coro desanimado das almas 2120
nova crença: Totila os conduzira à derrota!
E os cabisbaixos recusavam dever e hesitavam.
Mas o rei avançando e vencendo o próprio receio
reza ao rol dos entristeçudos: – Corja de ingratos,
em qual escola infeliz aprendestes ofício de guerra? 2125
Não sabeis que o sangue irmana derrota e vitória?
Pois a vida è esta, guerreiros, a vida è vitória
como a vida è derrota e cada dia um destino.
Fui esculto o rei de meu povo e não hesitei,
tomei às mãos a espada testemunha de méritos 2130
mas jamais prometi a ninguém ca ninguém enganei:
Vitória vem de Deus e Deus desdenha de méritos!
Quantas vezes se viu lo robusto cair do cavalo,
quantas vezes caídos colecionando façanhas?
Não perdeimos o ataque por covardia ou fraqueza 2135
pois non foi um tolo que a vós se impôs no prélio,
foi o maior general de Roma e perito em contendas!
Mas, soldados, não nos venceu por sermos menores,
antes contrariou la prudência, a razão, a decência
vindo a lançar soldados seus à clemência da sorte! 2140
Pois! A sorte apenas, não Belisário venceu-nos.
Ora, bastava um foco de resistência na estrada
já teriam perdudo a meta, as vitórias e as vidas.
Mas a estrada, meu povo, a estrada estava vazia
pois um outra estrada assistia a vossa coragem 2145
et outra estrada testemunhava o mérito vosso!
Não vos esqueçais do bem que vos torna maiores:
Não a sorte e sim virtude vos trouxe vitórias!
Quando o ganho è maior será vergonha uma perda?
Peço e peço não por mim, è por Deus o que peço: 2150
Não erguestes tanta vegada os braços aos céus
agradecendo a Deus por proezas? Não afirmastes
tanto que vezes a força foi menor que o milagre?
Eire Deus dispôs que as mãos de Roma vencessem
mas se tanta vez foi Deus que vos fez vencedores, 2155
basta uma perda e vos esqueceis de quem vos ajuda?
Eu, guerreiros, confio sobretudo nos méritos
mas eo sei que sem Deus nõ há vitória no mundo.
Peço apenas que não vos revistais de tristeza,
não demais, a fim de que baste o combate perdudo e 2160
não percais também respeito por Deus! – E calaram.
Vinha porém de Totila a voz maior da tristeza
gritando inaudível a dor dum coração alquebrado.
Home viu lo rei a vagar e cavalgar pelos ermos
como falando a sós e sussurrando a fantasmas. 2165
Pouco importava o rumor de reconquistas menores.
Outras vezes lançava olhar piedoso aos soldados
godos e balançava a cabeça, a cabeça nas mãos.
Mirava e tinha inveja dos animais e das coisas:
Era decerto o cavalo o seu amigo impossível. 2170
Ora fitavant um al outro, ambos os seres
como se conversassem, tão vizinhos e surdos
um al outro; afeto estranho irmana os estranhos.
Indassim o rei olhando os olhos do equestre
certo emulava tanta casta essência e bondade: 2175
Era cavalo seu de desde o tempo da infância.
Como os homens corria pela terra e lutava
mas estava ali no herói menor o guerreiro
mais fiel: o sacrifício daquele indivíduo
fora sempre puro, coitado, sempre inocente. 2180
Não sabia a causa da guerra e sofria sem causa
não porém sem aquela secreta amizade dos bichos.
Quão injusta amizade, pensava Totila sisudo:
Ora o cavalo leixava a liberdade dos campos
u corria outrora e contemplava o seu mundo 2185
para servir o amigo mau na batalha da morte.
Certo merecia um destino melhor o consorte
mudo e confiante de tanta coita e maldade.
Era insuportável ao ver um cavalo caído
olhar os olhos do bicho agonizante e varado. 2190
Sempre havia nos movimentos loucos del íris,
sempre a dor sem resposta e desespero do escravo
como clamando ao fado: Que fizeram de mim?
De mim, que apenas cavalgava livre nos pastos
sem cobiça e sem ódio, que fizeram de mim? 2195
Mas assim pensando o rei se nembrava dos godos
como do povo romano lançados ao meio do sangue.
Era decerto Deus que o punia coa perda de Roma:
Fora maltratada demais uma grei desarmada!
Nesse merencório momento Rigo avançou-se, 2200
guarda leal: – Amigo, qual tortura te assoma
e faz um rei prudente falar a pedras e bichos? –
O rei demite: – Rigo, como ainda perguntas? –
Antes porém de prosseguindo entrou pela noite
quase correndo pelo campo e buscando distâncias. 2205
Não se importava co vento castigando-lhe o rosto
nem o frio lhe importava, apenas corria sem rumo.
Mas o amigo o seguia mantendo às custas o passo
mais e mais ansioso e temendo perdê-lo de vista,
inda clamando: – Totila! – Mas Totila deitou-se 2210
sobre um vasto feixe de feno mirando as estrelas
como se procurando resposta e tesouro intocado:
– Rigo! O mal que as minhas mãos fizeram a Roma
não se faz! – Balbuciava palavras perdendo-as.
Rigo entendeu. E reatou, ponderando na calma: 2215
– Não te faltara outrora o meu conselho de amigo.
Muito sangue eo derramei e perdi pelos nossos
e muita luta ingrata eo lutei ca sei do que digo.
Mas senhor, por amor dum povo inteiro que abraças
dá-mi as mãos, levanta do chão e deixa a poeira! – 2220
O rei porém condena: – Era a mensagem de Bento!
Inda nembras o santo que vimos? Ganho de mundo
passa e Deus deitou por terra a causa dos godos! –
Rigo interveio: – Nunca repitas tamanha mentira!
Deus jamais abandona o pobre, o fraco e tementes 2225
homens como os nossos godos: Este o teu povo,
este o povo cuja vitória o céu confiou-te!
Sim, e confiou-te pois conhece os teus passos,
sabe que em tuas mãos se ergueu la clava do justo! –
Mas Totila estendeu-lhe a mão a fim que calasse: 2230
– Como te enganas, amigo, quão tristior a verdade. –
Rigo falou pero um rei roído irrompeu explicando:
– Crês de fato que Deus me pôs ao trono dos godos?
Ouve pois o meu mérito e julgarás com juízo:
Já me rendera, Rigo, eu e meu forte em Treviso 2235
de muitos homens e já selara a paz com Bizâncio
quando uma tira infeliz de dissidentes mi atira:
Toma a coroa! Em vão falei da paz contratada
como em vão pedi respeito ao rei que os reinava.
Não te ocorre mais à mente o fim de Erarico, 2240
rei sem feito? A sua morte nasceu em Treviso,
Rigo, nasceu da mesma boca que aqui se confessa!
Como não? No mesmo instante da minha recusa
disse a grei cobiçosa confabulando desgraça:
Mas Totila, se o rei morrer, estamos sem rei! 2245
Eu contudo no afã de consolando uma gente
disse-lhes, ó juízo infeliz, palavra impensada:
Godos, se o rei morrer, aceitarei la coroa!
Pois pronunciei, meu Deus, um ordem de morte
e quando tive atinado co efeito da minha palavra 2250
já mi trouxeram unidas num casamento de angústia
como tesouro a cabeça do rei, a coroa dos godos!
Diz porém, meu amigo, diz uma coisa somente:
Quando um reino se funda sob auspício dum crime
como o meu por u se encontra Deus neste reino? – 2255
E Rigo transtornado coa confissão sem remédio,
tonto e procurando ao chão equilíbrio remoto,
disse apenas: – Que gesto mau, amigo, engendraste! –
Não prosseguiu, calado e desolado e surpreso
ainda pensando: Tantas vezes ergui meu escudo, 2260
Deus, na bõa fé de servindo um rei verdadeiro.
Ora que o rei errou, Senhor, e rei de meu povo,
será perdudo meu povo como è perdudo meu rei?
Mas Rigo tomando alguma força avisa ao amigo:
– Foi Teodorico o rei que me fez escudeiro... – 2265
Certo Totila entendeu lo sopro amargo do guarda
como usurpara recursos que reis maiores lhe deram.
Deram? Totila meneando envergonhado a cabeça
pede: – Se alguma piedade couber em teu peito,
Rigo, não me queiras mal per amor deste povo! – 2270
Antes porém que o portador de escudos falasse
súbito ergueu-se o rei emaranhando-se ao campo
e foi sumindo em meio ao feno e correndo sozinho.


[Elegia]

Longe e rodeado de angústias
um rei deitado ao chão clamou: 2275
– Eu me perco de mim pela terra
dividindo a vala cons mortos
e me retorturo e mi pergunto
por que, no mais infame dos dias,
iram tão longe iludir o meu povo! 2280
Meu povo andava livre pelo mundo,
sem maldade meu povo trabalhava,
meu povo conclamado de tão longe
para entrar nesta terra tão danada.
Meu povo veio num gesto amistoso 2285
ca prometeram que a terra era sua.
E no furor dum desditoso instante
leixaram para trás o que sabiam,
montaram seu cavalo e zarparam,
levando além das esperanças 2290
mães e filhas e bodes e arado.
Ó palavras, mentira e desengano,
foi por amor de Deus que Teodorico
morreu sem vendo o que vivemos ora,
meu povo agora povo perseguido, 2295
mandado embora e sem aonde acorrer.
Quantas pazes roguei deste Império
e mandei-lhe dizer e mandei jurar
por milhares bocas: Escolhe apenas,
meu amigo, escolhe o dia da paz 2300
e serás de todo o coração meu pai
e pai dum povo: Novos filhos teus
seguir-te-ão a todo canto do mundo
por u la guerra chamar o Império!
Aprouve a Deus porém o ver meu povo 2305
em tormento maior e maior sofrimento:
Mas a que parte abençoada e grata
levarei desta terra enganadora
um povo inteiro fraco e sem consolo?
Que mi mostrem por caridade no norte, 2310
e no sul apontem à fuga o porto
em que l'homem maior deste mundo
não encontre meu povo nem persiga,
nem nos aporte a morte na espada!
Eo passo os dias mirando distâncias 2315
mas da distância perdeu-se horizonte:
O mundo è pequeno ca sempre soube
e decidiram, meu povo não lhe cabe!
Eo sei que pela grande grei que aduzo
respiram vidas já maiores da minha! 2320
Eo sou assassino et ímpio sem nome:
Pune, Senhor, o meu gesto grotesco
e salva somente o meu povo que è teu!
Eo vejo quem eo sou e porque sou
me odeio e quero gritar somente: 2325
Eu me arrependo, errei, desdigo
o dia em que usurpei um cetro maior
do que as minhas mãos foram dignas.
Eo olho os meus caminhos para trás
e não me reencontro em meus dias 2330
ca nenhum de meus dias foi correto!
O desgraçado instante em fui nado
me persegue e me entristece e mata:
Eo sei que a minha vida è derrota
e minha morte è vontade de Deus 2335
ca não se viu ja-quando um danado
manter-se no dia del ira e da verdade.
Mas antes que minha vida se entregue
ao inferno tormentoso que mi cabe
quero, ai, leixar um bem a meu povo 2340
e reparar a desgraça desta Itália.
Que digo porém e que mi imploro?
O mal que fiz jamais se repara
nem se devolve à vida uma morte.
Peço perdão do corpo e d'alma 2345
mas enquanto peço espero contrito
mi seja negado de Deus e de Roma.
Conheço meu caminho e vejo o fim!
Mais que perdão eo peço ensejo:
Será possível, Deus, algum bondoso 2350
gesto e gesto amigo dos homens?
Concede ao criminoso a bõa hora,
Deus, concede menos já por mim
que pela salvação duma gente:
Eo quero erguer o fraco do chão! 2355
Quero restituir uma terra abatuda!
Se pelas estrelas dum mundo melhor,
Teodorico, me escutas então escuta:
Abre-mi a porta e verás reerguda
Roma e bem-tratada como apraz a Cristo, 2360
o compassivo. Roga por teus filhos,
rei verdadeiro que és de meus godos.
Intercede pelos que hão de calar
nos antros desolados desta Itália.
Não permitas que migo se perca 2365
uma grei valerosa e maior de mim
que Bizâncio odiou ca virá dizimar.
Dá-mi força, Deus, a conduzir melhor
guerreiros cujo fim a morte selou:
Esconde da vida as minhas lágrimas! 2370
Mas aqui me vejo falando a fantasmas?
Ó minha gente, não esperes jamais
que a dor do mundo caiba numa boca. –
Totila falou entregando-se à sombra
e transformando as noites em mar. 2375


Mas Ruderico explicout astuto a seu pai:
Durante a guarda noturna fora atacado!
No fervor da refrega apoderou-se da clava
e contra quatro romanos, mancebos rudes,
lançou-se, derrubando espadas intrépidas. 2380
Deu-se conflito de punhos. Medida a valência
e vendo-se os quatro desarmados de súbito,
houve pânico e pela noite adentro correram.
O filho de Vilas, porém, pertinaz na batalha,
não se satisfez com vitória sem ganho. 2385
Emaranhou-se no bosque buscando fugidos
e em diro golpe bateu-os, um contra quatro.
Mas levantaram-se atordoados da lama,
cada qual tateando um caminho no escuro.
O primeiro caiu, partido em dous pela lança 2390
afiada do jovem. Três restantes, irados,
vendo a Ruderico sem arma e sem medo,
tentaram ataque, mas o golpe certeiro
do punho fez cair de pronto um soldado.
Como um leão atirando-se à fera indefesa, 2395
pulou sobre o morto que a sua lança partira
e retirou da carcaça a lâmina em sangue,
sedento de mais e maior mistura de fluidos.
Os sitiados soldados, porém, no transtorno,
julgando a vida maior do que a causa de Roma, 2400
ajoelharam-se, flentes, aos pés dum herói,
pedindo clemência e sussurrando promessas:
– Guerreiro, pelo amor maior de quem és
piedade dos homens desarmados rendudos!
Em vida serviremos melhor do que mortos: 2405
Dá-nos apenas a chance e verás o proveito. –
Houve barganha, pois o filho de Vilas,
pero que foi lo bastante pedirem clemência
(pois recordava ainda o próprio destino),
fora excitado ao prometerem proveito: 2410
Ora explicassem a proporção da vantagem!
E foi-lhes arrancando, assim, uma jura:
Abrir de novo aos godos as portas de Roma!
Era promessa de emocionando a defuntos.
Como penhor, leixarant um dos soldados 2415
sob a guarda de Ruderico, o temível,
enquanto os outros retornariam a Roma
a preparar melhor o plano e partiram!
Quando pois Ruderico abeirou-se de Vilas
levando sigo o refém, fatal garantia, 2420
Vilas reprehendeu: – Corrompeste soldados? –
Mas ouvindo melhor o caso e contexto
não lhe desagradou la coragem do filho.
Foi apressado ouvir o conselho de Rigo,
amigo sem par do rei e mestre da guarda. 2425
Antes porém que Rigo dissesse ao lanceiro
o desespero profundo a que o rei se lançava,
Vilas e Ruderico e refém prorromperam
palavras, descrevendo em detalhe as imagens.
Rigo então num salto assustado, exaltante 2430
saiu pelos ermos procurando a Totila,
seguido pelos homens: Totila correu-lhes
como por acaso de encontro aos passos
e ouvindo longo relato deu-lhes el ordem:
– Quero vê-los e ouvir o tamanho da jura! – 2435
Aproximavam-se já na noite seguinte,
ainda feridos e atordoados da luta,
desertores: – Somos homens de Isáuria
e vimos claro, Totila, como se paga
um bom serviço a conterrâneos nossos! – 2440
Nisto referiam-se aos homens que outrora
abriram as portas de Roma, agora opulentos.
Totila, mandando vir o tesoureiro dos godos,
mostrou no mesmo instante o tamanho do agrado
esclarecendo: – Jamais faltou recompensa 2445
a serviço bem prestado e jamais faltará!
Se ainda abrirdes de fato aquelas portas
as vidas vossas terminarão em fartura! –
Assim falando, entregava joias briosas
prometendo mais depois, cumprido o serviço. 2450
Pois de imediato acertou-se o momento!
Horas antes do ataque, Totila interveio,
reunindo perante si las tropas dos godos:
– Desta vegada, heróis, entraremos em Roma
como convém à grandeza dum povo amistoso! – 2455
E deu-lhes instruções severas de porte:
Poupar os desarmados, mulheres e velhos.
Quando, porém, abertas as portas, entraram
de noite e repentinos na antiga cidade,
descarregou-se nos fracos ódio sem nome, 2460
veneno destilado por anos, e foram batudos,
trucidado quem lhes caísse nas mãos
ou mesmo nos olhos, soldados e destitutos,
homens de todo origem e todo partido
que certo acaso ingrato ali reunira. 2465
Sangue relavava as pedras e as casas
e as ruas se revestiam de medo e de morte.
Totila, porém, erguendo os olhos aos céus
perante o sacrifício dum povo inocente,
vendo talvez renegados favores de Deus, 2470
agiu de pronto: Mandou que fossem tratos
dous ou três de violências notórias
e frente a romanos e godos foram punidos,
antes que Roma inteira caísse, de morte.
O rei irado clamou: – Assim se repaga 2475
quem ultraja, contra as ordens expressas,
tranquilidade dos mansos e paz de inocentes! –
E recolhendo-se, pasmos, à própria razão,
os godos deitarant a espada, temendo calados.
Totila enfim retornara e Totila vencera. 2480


[Prosação]

Não durou demais o regozijo dos godos
pois aproximava-se já da Itália Germano!
Primo do Imperador e general violento
desde sempre vastou, impávido, bárbaros.
Era herdeiro imperial do trono e do cetro! 2485
Cedo nomeado mestre de exército em Trácia,
cedo impôs um golpe irado às armas eslavas.
Foi Germano que, como de intervenção divina,
frente a milhares repelira o rol de invasores
pouco longe das portas magistrais de Bizâncio. 2490
Foi ataque de monstros raro leito em relatos:
Seres animalescos andavam leixando terror
em toda terra de Ilíria. Sedentos de império
fácil, dividiram, na sorte dos dados, o mundo.
Iam, pois, levando aos ombros a morte certeira 2495
rumo à casa alheia. Não lhes tocava inocência.
Punham ao chão pontiagudas estacas de lenho
lá cravando o lombo de quem a vista alcançasse:
Eram assassinados os velhos e mães e pequenos.
Mentre o lenho lhes adentrava fundo as entranhas 2500
grito em sinfonia de sangue ecoava no incêndio,
nem as casas nem lavouras poupadas de flamas.
Antes entravam pelas frestas procurando pertences,
todo valor humano ou bruto. Passada a derrama
eram entregues cada qual a destino arbitrário 2505
(palha ao fogo e vida às espadas), eram lançados
contra a rocha recém-nascidos, aos pés de cavalos
vinha terminar o labor de pastores tranquilos.
Não havia em todo oriente uma terra segura,
medo levantava o sol do horizonte e depunha 2510
toda vila e família em renitente incerteza.
Ora, Germano, carregando sigo falanges,
homens abissais e feras de todo inferno,
foi vencendo os invasores em cenas inglórias
ante as portas da capital e vãos de províncias. 2515
Pois pagou-lhes o dobro de escandalosas chacinas!
Foram dizimadas tropas num paraíso de abutres,
sangue e carnificina o testemunho da pena e
pus e maldições por u los olhos caíssem.
Deste modo e de modo pior a razão conhecia, 2520
certa, por quais horripilantes estâncias vastaram
mãos de Germano, vencedor de invictos severo.
Herói temível, fora mandado às bordas de Líbia
para debandar, sem dó, resistência de vândalos,
logo reduzindo a poeira o reino de Estozas, 2525
ora deserto desordenado e morada de najas.
Indo à Pérsia, impôs temor a leões irascíveis!
Viço leal, recusou concurso a conspiradores
quando houveram tentado oferecer-lhe a coroa.
Quando a rumo de Itália nova incursão ocorreu 2530
de grupações vehementes cruzando o Danúbio,
não hesitou. Mudou de rumo e modo e contenda
já recrutando, além de romanos, homens alheios
como impetuosos lombardos, gépidas, érulos –
fortes, unidos no desamor do inimigo comum. 2535
Lá fundaram, em vilarejo e por entre lavouras,
largas charcuterias de corpos a céu aberto e
diro albergue de redivivas aves carnívoras,
víboras monstruosas, de rara estirpe elápidas.
Não os impressionou la multidão de invasores 2540
nem moções de iniquidade, sevícia sem nome:
Cada qual impôs a força máxima à firme
lança derribadora insaciável de equestres!
Foram ali descobertas destruições de inimigos
inda não narradas em prestimosos cronistas. 2545
Tal teor e grau de incubações vingativas,
tal vigor exterminou la campanha de eslavos,
fez do oriente cemitério aberto dos povos.
Falanges vencedoras gozavam amor à vitória
mais visceral e desumanemente possível. 2550
Ora, Germano, a cabo de similares cohortes,
pôs-se em cavalgada veloz a caminho da Itália!
Dentre trunfos terríveis que carregava consigo,
foi temuda por godos menos a lança certeira,
menos a espada e coleção maldita de arqueiros. 2555
Era la esposa, sim, a força maior de Germano!
Filha de Amalasunta e neta de Teodorico,
Matasunta, forçada ao matrimônio com Vítice,
rei de vis, migrara, junto ao monarca rendudo
rumo a Constantinopla, donde foi cobiçada, 2560
logo após a desgostosa morte do cônjuge,
pela corte inteira e, notadamente, Germano.
Certo, o primo do Imperador, medindo os efeitos,
viu na viúva a clave para o domínio da Itália.
Ora, casou-se! E Matasunta, infeliz nos amores, 2565
pouco pôde interpor ao cortejador influente,
ela, que ainda chorava a sós a desgraça da mãe
Amalasunta. Não esquecera insistentes promessas,
cartas do Imperador assegurando-lhe a vida.
Não esquecera imagem daquela amada regente 2570
feita prisioneira e trucidada na jaula!
Sabia, como não, que a causa de Justiniano
era menos el honra da mãe, ardiloso pretexto,
menos que reconquista a todo custo da Itália.
Inda assim, sem escolha, cedeut à mão de Germano. 2575
Deu-lhe um filho! Constelação de vitória perfeita
já se vislumbrava, conspícua, Constantinopla:
Era o signo da legitimidade do Império,
chave-mor de união pessoal em único herdeiro.
Mundo irônico! Como outrora anseio esperava, 2580
pelo casório de Amalusunta co nobre Eutarico,
ver unificados os godos de Itália e de Espanha!
Via-se agora os de Itália subjugados no Império...
Tais moções de pensamento turvavam as tristes
noites de Matasunta ao renembrar esperanças. 2585
Como não? O nobre Eutarico, herdeiro do reino,
pai do povo e pai somente seu, falecera
jovem, enbranquecendo cabelos de Teodorico,
rei que, batudo deste e doutros males do acaso,
morreu sem gosto, pressentindo o fim de seu povo. 2590
Não por menos, Matasunta implorava a Germano
quando à noite tomava-lhe o braço: – Tem piedade
desse povo de meus e não o destruas sem causa!
Nembra, Germano, pelo amor sem fim que mi nutres:
Provém de godos, também, o filho que te ofereço! – 2595
Isto dito, ajoelhava-se aos pés do marido
grávida e sem palavra e rebeijando-lhe dedos.
Mas Germano, arrebatado em paixões e desejos
ante aquela beleza a confundir estadistas,
dentro ouvindo, porém, uma emoção de justiça, 2600
disse-lhe enquanto as mãos a reerguiam suaves:
– Minha amada, l'ódio meu nõ é de tou povo,
são impostores os meus inimigos. Todos o sabem:
Pois que Germano demandar a terra da Itália,
quem dos godos de bõa fé dupuser suas armas 2605
ere aceito como filho fiel de meus braços. –
Como porém Matasunta, inconsolável, chorasse,
Germano recolhia em beijo lágrimas da esposa:
– Ouve, minha amada velida, razão do meu sopro:
Junto a meu sangue o sangue teu adentra Itália! 2610
Ama-me um pouco, Matasunta, crê no que digo
como senhor, esposo e amigo teu sem limite.
Não nas minhas mãos perecerá lo teu povo
pois em nosso filho è povo meu e de amigos. –
Ela porém ouvindo e meditanto intervinha: 2615
– Não me enganes, senhor, ca não mereço mentira.
É tão pouco (ou será demais?) o que peço de ti. –
Mas Germano invertendo os papéis e até cenário,
ele medês ajoelha-se e faz promessa solene:
– É por ti somente e não por mim que combato. 2620
Tu, e somente tu, serás a rainha legítima!
Faço favor a teu povo em devolvendo a coroa:
Tomo dos impostores o nobre cetro de amigos
para retrazê-lo ao sangue de Teodorico! –
Não mentia! No amor sincero verdade se impõe. 2625
Mas terá controle um homem apenas, valente,
sobre amálgama tão brutal de tropas unidas?
Era difícil crer. E dentre os godos na Itália
rondavam histórias nada cordiais de Germano:
Mau fiel, destrói por dever e destrói por prazer. 2630
Medo, mas também esperança encontrava soldados
pelos sentimentos mistos que o caso evocava.
Era de fato inimigo ou companheiro do povo?
Era um alarme! Totila reconheceu, num segundo,
toda astúcia, malícia que mascarava o projeto: 2635
Rigo, Vilas e os conselheiros lhe deram razão.
O rei, reunindo aliados no meio do breu, ansiava:
– Claro está: Se Germano puser os pés nesta terra,
homens, acabou-se a nossa vida, reino e povo! –
Desde então, buscavam convencer os soldados 2640
como os nobres do risco iminente. Uns resistiam,
pois, de fato, como erguer as armas de guerra
contra o sangue de Teodorico? Coisa impensável!
Foi em tal desespero de vagações solitárias
pela noite que o rei, confuso, viu-se abordado: 2645
– Não adianta, Totila, buscar abrigo no escuro. –
Era Rigo! Antes que o rei porém respondesse,
inda envergonhado da confissão que fizera,
Rigo prossegue: – Jurei fidelidade a meu rei!
O gesto teu de outrora foi maldoso, Totila, 2650
mas agradeço a confiança em mim colocada.
Não te percas em tanto remorso. Roma te atende
mais urgentemente que nunca, caso de extremos! –
Que fazer, porém? A pergunta maior torturava.
Rem obstante, o mestre dos escudeiros sugere: 2655
– Manda emissários! – Já no dia seguinte partiam
rumo a Germano representantes do rei e de Roma,
homens de todo sangue, pela causa dos godos.
Fossem claros! Era apenas de paz a embaixada.
Ora, falassem a Matasunta se fosse preciso, 2660
todo recurso fosse usado e todo milagre.
Não tornassem, contudo, sem a paz acertada:
paz, se fosse o caso, até nos termos do Império.
Quase ninguém discordava do rei. Era sabudo
já que a vida em si seria até de vantagem 2665
quando nem a certeza havia, ali, de a retendo!
Dias depois, seguiu-se ainda outra missiva:
Totila entregaria a Matasunta a coroa,
sob a condição de que fossem feitos súditos
novos os seus guerreiros, asseguradas as vidas 2670
como pertences: Nulho soldado fosse punido!
Mas também se organizava em meio a temores
graves a resistência antecipando o combate.
Deste modo, fortificavam os muros de burgos,
eram mandados corredores rumo à Dalmácia 2675
para saber a que ponto cavalgava inimigo.
Nada garantia, porém, a chegada por terra.
Era preciso entender se passariam por Vêneto
ou zarpariam do mar, desbaratando preparos.
Uma vez demandando os litorais de Salones, 2680
vila maior de Dalmácia, eram donos do acaso:
Basta um vento forte, em poucos dias alcançam
frotas Piceno desembarcando perto de Ancona.
Era cenário grave: Em sobressalto ansioso,
soldados repetiant os exercícios de guerra. 2685
Flecha, escudo, espada e sobretudo lanceiros
não dormiam, a todo instante esperando ataque.
Fato inquietante, Germano chegara a Salones!
Cada nova aurora, Totila entrevia o retorno
triste dos emissários seus, prenúncio de dores. 2690
Qual non foi, porém, o estupefato e surpresa
quando correu dum lado ad outro do mar Superno
boca a boca a fulminante notícia: Germano
pondo os pés na velha capital de Dalmácia,
mundo irônico, contraiu doença e morreu. 2695


Totila o tinha por certo: Augúrio divino
mudara o curso do acaso em nome dos godos!
Mandou buscar impressionado coa nova
Leôncio, senador de ascendência distinta
junto ad outros membros, antigos da Cúria: 2700
Leixaram de imediato a paz de Campânia
por u lo rei lhes ordenara quedar-se.
Totila os recebera de humor ruminoso
guiando além por construções arruinadas.
Os olhos pousavam atordoados por antros 2705
testemunhando outrora espírito urbano.
Notando entonce as impressões de Leôncio,
que vez et outra balançava a cabeça
e suspirava apurado, o rei lhe propunha:
– Levanta do chão, Leôncio, levanta ruínas! 2710
Repara por poderoso que és o flagelo!
O rei que outrora ria agora lamenta
mas ouve: Roma já caminhava acabada
desde o pavoroso saque dos vândalos;
desde o reino de Vítice o fogo tortura 2715
as pedras veneráveis e rosto do tempo.
Por piedade e discernimento correto
não mi imputes, não apenas a mim,
a causa destes desastrosos escombros!
Aqui conclamo um portador de virtudes 2720
sabendo que a causa minha è causa nossa.
Reflete, amigo, de quais recursos carece
o bem-estar de Roma e reúne reforços.
Abrirei las portas empoeiradas da Cúria
e logo o Senado cuidará duma eterna 2725
cidade como tempos de César e Augustos.
Porém se tu medês te recusas a Roma
quem terá clemência do povo e das pedras? –
O velho senador, cabisbaixo entretanto
de avermelhados olhos, a voz tremulante 2730
e cambaleando no passo, para um momento.
Retendo o rei que prosseguia na estrada
frente a danificadas pilastras pondera:
– Rei de Roma, tantas vezes pedi piedade
desses escombros desolados por terra 2735
rogando: Poupa, rei, o passado inocente!
As pilastras ora lançadas ao meio da rua,
da Itália como da Grécia, foram perdudas
para sempre se aqui se permite a verdade.
Eram de mármore raro as obras caídas, 2740
vieram das mãos de inimitáveis artistas.
Se apenas mi fosse favorável fortuna
reergueria coas próprias mãos a cidade.
Ó desilusões e desgraça e destino:
Enxergas mal a condição dum coitado! 2745
Outrora em todos litorais deste mar
os meus colecionávamos casas e glebas.
Mas desde que foram distributas províncias
a novos povos, migrantes vândalos, francos,
como extrair, Totila, o recurso de longe? 2750
O rei de vândalos, pero que não tomara
a terra fértil bordejando a Cartago,
nunca permitiu que os frutos saíssem
do reino rumo a Roma empobreçuda.
Como não? Chegavam d'África escravos 2755
e toda esperança de economia correta.
Desde a minha infância a vida de Itália
e Roma já sofria. Chegaram as guerras
e somos ora à mercê do acaso somente!
Responde, rei: Os mármores u buscar, 2760
pagar com cujo dinheiro? Onde artesãos
imitadores de momumentos antigos?
São projetos mais custosos que o luxo
da catedral de Santa Sofia em Bizâncio,
obra que vem sugando impostos do Império 2765
e que mal se sabe como Império sustém.
As velhas construções derribadas de Roma
requerem recursos para tantas Sofias!
Home ainda encontra tanta prata na Itália?
Direi, Totila, não a resposta do enigma, 2770
direi apenas como vivo em Campânia:
Vivo? Já mi falta, em toda a verdade,
o mero recurso contra a própria fome
e fome dos meus. Sobrevivemos somente
por caridade e gratidão de famílias 2775
ligadas e protejudas por nós. Salvadores
eram outrora clientes, servos, escravos!
De graça, sacrificam da própria escassa
colheita no amor do nome de minha família,
bondade imereçuda e que apenas tortura. – 2780
Mas Totila no impulso da pena reteve-o:
– Entendo bem, Senador, o teor da desgraça?
Disseste mesmo que partirás da cidade
e não lhe renderás um gesto de ajuda? –
Atarantado, um rei mirava as estátuas, 2785
baixando o rosto como se visse fantasma.
Considerando pilastras como em vertigem,
Totila escorou-se aos galhos duma oliveira
por u la sombra o retrazia à verdade.
Leôncio, contudo, continuava o relato 2790
alheio ao quadro desolador do monarca.
O velho dum povo a muito custo somente
leixou-se convencer ao cuidado romano.
Talvez, de fato, algum auxílio minuto
o tempo inspirasse, conselheiro sereno. 2795
Naquela tarde entristeçuda entretanto,
ocaso imaturo, arrematou, nebuloso:
– Se aqui me queres eu aqui me acomodo.
Mas o gesto maior que mi vem a juízo
de benefício pequeno et único à gente, 2800
è menos mármore raro e mais alimento:
Pão, Totila, pão e circo somente! –


Quando Justiniano pareceu confortar-se,
como um trovão arrasador a morte ecoou.
Correu alada no paço imperial e nas ruas 2805
tendo à boca assustadora o trunfo: Germano!
Pasmo leixou cair o cetro o dono do Império
pelo mármore frio do pavilhão de audiências.
Vagava mudo de madrugada os átrios escuros
horas inteiras, louca aparição sem cabeça. 2810
Uma circunstância em singular agravava
tanto luto, pois non fora espada inimiga,
lança e flecha o triturante verdugo do primo,
não humana: flecha sim do acaso implacável!
Fora certo morrer precoce um varão virtuoso? 2815
Não se encaixava o fato atroz no plano divino.
Foram consultados na madrugada os profetas
e fez-se claro o caso: Intervenção do demônio!
Deus, assim pareceu, em tais desastres pune
a presunção de potestades e reis ociosos. 2820
Manda a morte castigar com Satã la nociva
preguiça arrebatando toda força do Império.
Pois agissem! Arrebentassem de vez inimigos
nem atendessem pior evento das mãos do diabo.
Vinham reunir-se ao coro irado de prestes 2825
vates senatoriais de opulentos rancores.
Lá se congregaram desdo começo da guerra
donde suntuosos formavam partido influente.
Dia e noite se acumulavam missivas, visitas
longas e peso contínuo sobre o cetro reinante. 2830
Já nõ eram meros pedintes que ali demandavam:
Fortes no verbo não los impressionava Bizâncio;
antes, conhecendo bem los próprios origens
punham repentinos os pés no Paço e bradavam:
– Age, César, tira de Roma a cambada de abutres! 2835
U se viut uma eterna gente entregue a cadelos?
Limpa a mãe do Império da bacanal de bandidos
nem consintas jamais Império Romano sem Roma! –
Era em vão renembrar desordenadas finanças
e verba escassa à temerosa empresa de tropas. 2840
Inda e sempre o medo pressionava de Pérsia
ca velho algoz imbatível devastava Orientes.
Mas os senadores vociferavam sem medo:
– Éste persa império teu out Império Romano?
Inda hesitas? Não mi interessa esforço nem preço! 2845
Morra se assim preciso for o coveiro do mundo
nem se salve o derradeiro abutre na Itália:
Mas seja destruído enfim o domínio dos godos! –
Foi ali deciso, sem mais, o fato dum povo
nem pungentes termos de paz seriam releitos. 2850
Quem contudo encarregar dum gravíssimo ofício?
Era dever maior manter Belisário por perto
tanto pelo risco de Pérsia quanto por fama:
Fama demais ameaça a consistência de tronos.
Inda aguardava em Salones João de Vitaliano, 2855
genro até de Germano, estrategista de astúcia,
mas lhe faltava o carisma condutor de vitórias.
Indo por nomes, apenas um general erigiu-se
digno da perigosa empresa: Narses, o eunuco.
Foi chamado às pressas al átrio das audiências 2860
onde o dono dos povos transtornado rezou-lhe:
– Narses, pende apenas de ti lo futuro de Roma.
És, amigo, a derradeira esperança do Império! –
Foi-lhe mastigando o plano oneroso do prélio,
foi-lhe pouco a pouco revelando detalhes 2865
vivos e tortuosos de delicadas campanhas.
Narses, porém, concatenando bem la extensão
de tal fazenda e belicosíssimos riscos recua.
Pede tempo. Assiste o pôr das horas calado
frente ao Bósporo mas adentra enfim o palácio 2870
donde, reverente amigo, responde ao supremo:
– Desde que jovem vislumbrei la sombra do mundo,
César, o mundo me perseguiu, indústria de ultrajes.
Não se passou sem abatimento um dia, um momento.
Vítima grátis, fui castrado, privado e vexado. 2875
Ó destino impossível, desanimada existência!
Quem me vê pequeno e percorrendo ruelas,
quem se ri dum condenado eunuco à tristeza
não conhece, céus (e como alguém o pudera?),
não conhece a dor do sentimento sem meio! 2880
Não aprehende o mar por u lo amor naufraga:
Não paixão, amor! Saber que a cura do mundo
cabe no próprio peito e passa perto a mulher
amada e fonte dalgum feliz instante incabível!
Saber que no abraço meu floresceria uma vida, 2885
alma desejada e velida, mas que naufrago
perto da cura e sem remédio... Ai miserável
pária que sou ca nimigalha val o infinito
dentro de mim! Meu coração è poço tapado.
Não abusarei, porém, os ouvidos do Império 2890
co drama infindo e corriqueira vida de eunuco.
Peço apenas, César, imploro à vossa bondade
não aumenteis em vão la humilhação duma vida!
Antes, quando cabia esperança no meu coração,
rogava a Deus, ao ver passando perto uma bela, 2895
morte em breve e fim da dor! Aqui me encontro,
ai de mim, setenta primaveras de angústia.
Não, Senhor, humilhai soldado mais vigoroso e
mais carente de ultraje! Inda não entendeis?
Então explico: Quem non sabe a ruína da Itália? 2900
Quem duvida que perda e morte certa me atende?
Basta olhar por alto os instrumentos escassos
dessas tropas largadas e claro está lo caso.
Não, amigo, não al Itália, irei ao jazigo
donde repouso eterno aguarda uma vida arrasada. 2905
Sei que jamais pedi favor, diminuto que fosse,
antes me desloquei por Vós em cohortes e armadas.
Inda me tremo a renembrar revoltas no Hipódromo,
quando a sós e desarmado enfrentei multidões
no amor de vosso nome; carregando um tesouro e 2910
prata aos ombros no afã de demovendo inimigos
não na Itália mas ali, nas portas do paço,
homens desta cidade unidos contra a cidade!
Pois vos salvei sem medo trono, cetro, coroa.
Não me ofendais oferecendo presentes e pagas 2915
para um gesto parvo e grátis, dever de lacaios.
Dai-mi apenas aquela paz de morrendo esqueçudo:
Quero estrebuchar a sós abraçando-me a sombras!
Quero entregar a Deus minh'alma em sopro modesto
e mais ameno da lança hostil numa luta perduda. – 2920
Antes porém que prosseguisse a voz suplicante
foi sublata. Justiniano lhe apôs de seu trono:
– Nesta idade, homem, que mi enbranquece cabelos
vi demais peritos em desrespeito e calúnias.
Mas que um homem de vida e valentia ilibada 2925
fosse capaz de tão desconcertante ultraje
contra simesmo, Céus, inda não me nembrava.
Outra boca a falar de ti num desdém semelhante
já teria encontrado vexame ou castigo de morte.
Mas nem a ti permitirei que te ofendas impune: 2930
Reza assim o dever que me rege e fala por muitos.
Esse comércio estranho e desonroso de eunucos
já mandei banir dos hemisférios do Império
pois a Deus nõ apraz, e nem o pode, suplício
como o teu: Amando e mutilado no amor! 2935
Em homens de teu destino Deus porém manifesta
muita vez a grandeza verdadeira das almas,
sim, porquanto tendo menos de todos os homens
a vida reta faz-te já maior do que os outros. –
Isto dito, Justiniano ergueu-se do grave 2940
trono: Retirando da própria cabeça a coroa,
súbito estende al amigo o diadema dourado:
– Toma, Narses, põe sobre ti lo peso do Império
fardo sem par, e diz e decide o caso da Itália!
Eu, porém, perdi demais as noites e as poucas 2945
forças ruminando em vão lo fim desta guerra.
Eras tu, eunuco, na tua eunuca estranheza
meu consolo e derradeira esperança de glória.
Eras tu com tua dor incurável a cura!
Mas se tão vehemente e valentissimamente 2950
já recusas ao trono a salvação de teu povo,
que mi vale agora a coroa? Leva contigo. –
Narses, tocado na sua reticência tristonha,
toma nova força: – O caso, Dom, è diverso:
Não renego o dever de servitude e de luta 2955
mas convém alguma compaixão por soldados;
pois macar a morte seja o preço do ganho
muita vez, o herói que leva al ombro a lança
luta não pela morte, mas luta pela vitória.
É preciso viver quem quer cumprir um dever! 2960
Não chamei decente a vida que entrou numa guerra
vendo já perduda a vida e perduda a batalha,
como se combatesse na pura intenção de morrendo.
Não, amigo, lo herói de verdadeira valência
entra em guerra sempre certo de certa vitória. 2965
Morto, sabe que a morte patefaz o seu ganho,
nunca derrota. Pois porém razão e prudência
já de longe apontam constelação de desgraça,
que proveito nos traz um sacrifício supéfluo?
Ora, em tal situação se consomem as tropas 2970
pela Itália, certos da morte em vão e morrendo!
Tanto apreço mi tendes, Dom, e quereis um idoso
como o que sejo a cabo de similares destinos?
É preciso pesar melhor o valor de soldados!
Homens desta terra como povos de alhures 2975
lá se congregam no amor do diadema do Império!
Que direi, Senhor, do triste povo dos érulos,
grei leal que a cada noite enterra centenas?
Não contestam, dão à morte o que têm de melhor
ca já caíram mortos dous ou três de sous reis 2980
e muitos bravos no decorrer de batalhas inúteis.
Não renego o dever, ao desperdício renego
pois se consentides verdade, verdade direi:
Esses recursos novos que tenho visto agregardes
bastam para a morte, para vitória non bastam. – 3985
Inda concatenando a confusão das ideias e
quase constranjudo enfim nel imo do orgulho,
Justiniano pondera longamente e profere:
– Não por isto, Narses, perderemos a guerra,
pois se fore recurso a carência recurso terás! – 2990
Era agora questão de honor e amor à promessa:
César mandou parar a construção de seu Templo!
Foi esvaziado o tesouro erário do Estado e
verba amarga reunindo a fazenda dos anos.
Foi alocado o que havia e não havia de rico 2995
d'ouro e grãos de pobres e sortimentos de couro
seco e cavalos et abundância de lanças e espadas.
Quem vislumbrava as movimentações em Bizâncio
mal atinava coa proporção de divícias e largas
forças, ininvenjáveis, acumuladas às pressas: 3000
Narses enfim munido de provisões indescritas.
Era simples o plano do Imperador: Destruir
Totila! Pelo caminho, recrutar combatentes,
ir unir-se a João de Vitaliano em Salones
frente a poderosa armada co resto das muitas 3005
tropas que lá Germano leixara. Pronta a partida,
Justiniano porém adverte, olhos nos olhos:
– Pus-te al ombro o sacrifício maior deste tempo
pois o Império parou no mero afã de prover-te!
Servido estás, amigo, de tais recursos que pagam 3010
já, se não as vitórias, pelo menos as mortes.
Mas herói, se for perduda a campanha da Itália,
tem piedade dum trono entregue ao vexame de mim
por ter empobreçudo em vão lo meu povo e por ti.
Se forem inúteis camanhas privações e renúncias 3015
não retornes. Morre por lá! – E Narses partiu.


Totila, porém, no medês instante adentrava
o Circo Máximo donde a massa aguardava
ansiosa corrida de bigas. O ensejo festivo
que o próprio rei custeara marcava nova 3020
amizade e reconciliações entre os povos:
Era um mínimo agrado e mimo a cansados.
Prenunciando os ludos, a pompa circense
marchava pela arena, plebeus e soldados,
romanos e godos portando estandarte do rei, 3025
toando os cânticos pela parada solene.
Home perdera a memória dos últimos jogos
a reunir multitudes, e mais memorável
saltava pois aos olhos raríssimo evento
e caso caríssimo, caro ao rei sobretudo! 3030
Totila plantara fundo propósito ao peito:
Ganhar a guerra ganhando apreço do povo;
curar, tratar ao menos, feridas antigas.
Foram restaurados alguns monumentos
e construções e foi proviso alimento 3035
al ânimo e certo alívio mesmo se breve.
Mas pois chegou ao fim a pompa de praxe,
um rei ergueu-se frente à massa, pedindo:
– Povo de Roma! Nem as pedras ignoram
o nome do vosso labor e da vossa tristeza. 3040
Pequenos pagaram pelo vício dos grandes
um preço que não convém al homem sereno.
Não creiais que me desloquei de distâncias
trazendo pela Itália as armas e os homens
para erguer minha espada contra caídos! 3045
Desde que Deus mi trouxe a coroa dos godos
e o fardo angustiado da guerra e do sangue,
julguei correto e consoante à decência
buscar em campo aberto os meus inimigos;
poupando longe das vilas a vida inocente 3050
merecedora de morte honrada e tranquila.
Segui portanto (os homens meus testemunham!)
pelos ermos do Vêneto e pela Toscana,
segui buscando e desafiando oponentes
e preparando em campo aberto os exércitos. 3055
E no entanto os inimigos fugiam ligeiros
quando as ocasiões de batalha arribavam,
leixando o campo e transtornando sensatos!
Corriam querendo abrigo em cidades e vias,
atrás de muralhas, cada qual da primeira 3060
que via, para que, perdedores, morressem
não sozinhos, mas levando inocentes
sigo! Em tal valor vos mediram, Romanos,
que rem lhes importou la vossa existência!
Antes aglomeraram-se atrás desses muros 3065
por u la fome veio punir vossos filhos
mentre comiam a sós do grão que colhêreis.
Entristeçudos dum modo ingrato de guerra,
muita vez apelaimos em vão, repetindo:
Covardes, não vos escondais em cidades 3070
mas vinde medir a vossa força coas nossas
como convém ao bom guerreiro a contenda!
Mas não vieram, e bem sabemos do resto.
Romanos! Foi por amor de vossa firmeza
e vida reta que despovoei la cidade 3075
e fiz trazer ao chão a muralha maldita
para que não custasse, mais uma vez,
as vossas vidas como a vida dos vossos!
Se dano indébito a minha ira abalada
causou à cidade, vão-se já reparando 3080
estragos e mais remédios serão ministrados. –
Houve pausa, porquanto a voz de Totila,
enquanto o rei nembrava imagens, tremia
e os olhos seus avermelhavam-se fartos.
A massa silenciosa atendia entretanto 3085
e lo rei, tomando fôlego novo, rezou-lhe:
– Não, Romanos, nõ é silêncio de morte
como este que um rei decente deseja,
deseja sim o riso e suspiro tranquilo.
Mas inda vos provarei valor que vos dou 3090
e ganherei por fim a fé de indecisos.
Agora consolai vossos filhos e ouvi-me:
Começa novo ordem na história de Roma
nem se levanta em meu domínio clava
contra a mão inerme que apenas labora. 3095
El homem toma al ombro martelo out enxada
e vai obrar e nulhomem pune ou molesta,
porquanto sacrifica a vida por todos.
E seguet al o seu comércio de espécias,
provém quejandas vidas, conforto devudo. 3100
Inda um outro deixa atrás os parentes
e amigos e toma às mãos as armas do reino;
defende firme a liberdade dos fracos.
Num reino meu, e vosso mais do que meu,
o juíz nõ esquece quem oprime o trabalho 3105
pois è reino, Romanos, è reino de livres!
O velho comércio e desgostoso de escravos
não condiz co respeito a Deus poderoso
e nem se viu jamais, no reino dos godos,
el homem bom querer guiar sua vida 3110
pero o mau senhor lhe tolher o direito:
O nome de Roma è doravante Justiça
e protejudos estão los braços obreiros!
Se algum de vós trabalha grãos pela terra
ou leva gado, siga sereno o seu rumo. 3115
Porção que noutro tempo dáveis a ingratos
senhores dareis ao rei que a deve ao povo!
E não vos intimideis co'ameaças de longe
porquanto já non tendes libertos senhor
ou mestre, dono, patrão ca ninguém è cliente 3120
senão de simesmo e senadores sois vós!
Pensai na liberdade que aqui vos oferto,
amigos meus, e julgai se quis no passado
acaso vos deu de melhor ou parte ou al.
Que Deus permita a salvação desta Itália, 3125
bondoso e generoso quem é de milagres,
pois além de Deus ninguém nos acode!
Acode? Já se maquina morte em Bizâncio,
Quirites, donde acorrem diários imigos
osores da nossa liberdade inocente. 3130
São sedentos de sangue, homens comprados
marchando violentamente em campanhas
no afã de nos destruindo a todo custo!
Tampouco impressionam apelos prudentes.
Imoderados, recusam acordos e cartas 3135
pois non querem a paz, a desgraça procuram:
Virão talvez em breve às portas de Roma!
Quereis de pagamento ao penoso trabalho
justiça ainda? Ou já vos basta a derrama
levando embora o fruto de ingrata labuta 3140
para o sustento de suntuosos tiranos?
Deixo a vós decidir em paz o partido!
Conjuntos venceremos as armas da morte
se apenas quiserdes como já vos prometo.
Respeitarei lo que a vossa fé decidir! 3145
Totila, como singelo signo de afeto
e gratidão sem fim a serenos, oferto
a filhos meus e caros estes jogos festivos!
Praza a Deus que um dia algum de vós
me queira e perdone como bem vos quero. – 3150
Houve aplauso. Houve ardor prolongado
e profundos brados e comoção pela prole.
O nome do rei dos godos soava espontâneo
por entre as bocas como o Rei dos Romanos!
Num gesto raro, os cujo ouvido sentira 3155
levadas pela brisa palavras dum rei
estendiam os olhos, mãos e toda angústia
na direção de Totila. Speravam socorro
e que lhes importavam, coitados, bandeiras
e nomes de reis? Estava clara uma coisa 3160
somente: Era decerto um senhor generoso
que erguera a voz à plebe em tal gravidade
e tão patente arrebatamento de espírito!
Era de fato um tutor, escudo de justos
e protetor perpétuo de vidas perdudas. 3165
Aproximou-se porém receoso Leôncio,
impressionado e repetindo os apelos:
– Aduz verdade, rei, a tantas palavras!
Inclui verdade se podes, pois iludir
um povo generoso e crédulo e simples 3170
è crime pior que impiedade na guerra.
Fora melhor ultrajar de pronto caídos
dando-lhes súbita morte que semear
mentira às aflições duma grei desolada. –
Passavam no embalo bigas, cavalos afoitos 3175
dobrando perigosas curvas e esbeltos
enquanto a morte suplicava por carne.
Bastava a queda em velocidade voraz
e os éguos sem freno arrastavam o corpo
agonizante em desgraçados trajetos, 3180
a biga vazia e descontrolada e tombada.
Muita vez, um guia de carros perdia
controle de rédeas e parecia ceder,
e pero ressurgia pleno em comando
quando a massa o cria morto na arena. 3185
Mas quem atinava coas emoções esportivas
quando ainda soavam, no fundo do peito
perfundas, graves orações e promessas?
Quanta vez os olhos voltaram-se ao céu
calados nalguma espera de paz duradoura. 3190
Totila ganhara a massa. A massa contudo
descendo os olhos do céu mirava o chão
e questionava do acaso a verdade do tempo.
Será que algum Apolo ou Cristo Jesus
ainda recorda por alto o povo romano? 3195
Terá piedade enfim de quejendo destino?
Mas as vozes se ergueram amargas pedindo
a Deus amor, assistindo, sem o saber,
os derradeiros jogos do circo de Roma.


Narses, o general, passava por entre pobres 3200
vilas balançando joias douradas no braço,
mar de prendas comovendo ambições de mancebos.
Como esperado, jovens de todo modo e talento
já largavam a vida velha, juntando-se a tropas.
Era de confundir os olhos a grei de guerreiros 3205
cada dia a crescer e desafiando contagens.
Quem demandava cohortes abandonando famíliam
era menos a mágoa dos seus do que certa alegria:
Era pois a guerra esperança de vida bastante!
Mas julgout enganado quem julgou nesses homens 3210
prole de desafortunados que a prata comprara.
Quando soou nas abissais estâncias de Trácia
como pelas montanhas e em litorais de Dalmácia
que Narses aglomerava cohortes no rumo da Itália,
veio ao seu encontro o povo inteiro dos érulos, 3215
grêmio distinto. Iram às armas sem que soubessem
bem de recompensas pagas, de como e de quanto.
Antes lhes importava apenas servir um vetusto
amigo e protetor e companheiro firme no prélio,
pois honravam, em tudo, a retidão do aliado: 3220
Não existia Narses voltar atrás em palavras
como quem fala primeiro e reflete apenas depois.
Promessas vãs passavam longe da sua amargura.
Foi de fato um claro e raro exemplar de destinos
onde a frustração conduziu la vida a virtudes. 3225
Pouco antes porém que demandassem Salones,
houve, num vilarejo perto, um certo episódio.
É que circulava livre um ladrão de galinhas!
Ágil, furtava de madrugada, na aurora e no dia,
inda impune e despertando a raiva das tropas. 3230
Pois se fez questão de ficando mais uma noite
para armar emboscada: Foi detento em flagrante!
Quando contudo o carrasco alevantara o machado
contro ladro, a mãe correu carregando crianças.
Ela ajoelhou-se em frente ao primeiro que viut 3235
e derramava inquietante afluência de gotas:
– Tem amor de Procêncio e pune o crime da mãe,
soldado, pois fui eu que fiz meu filho ladrão;
mandei roubar um grão de alimentar estas bocas!
Sei que a vida nossa è vida suja e perduda 3240
e vida feia, mas entre a vida feia e morrer
escolho a fealdade que fez meu filho viver.
Mas tem amor de Procêncio que nem queria viver
e só viveut e só roubou porque lhe mandaram.
Desde que o pai caiu por Belisário na Itália, 3245
anda pela casa sem rumo e chorando e sem gosto.
Mata meu filho e mata a gente junto, soldado:
Família nossa já non tem razão de existência. –
Era pois a Narses que aquela mulher suplicara!
Quando porém ergueu lo rosto cons olhos molhados, 3250
Narses amou-a como nunca se amou neste mundo.
Era a nembrança viva de desventuras antigas,
faces que o coração guardout em vão pelos anos.
Ó desencantos, ó, reerguer as almas que amava
como se fosse possível amor e afagos e beijos! 3255
Mas a mulher, entendendo desdém em tal silêncio,
não se contentava mais e abraçava-se aos pés
de Narses inda suplicando, tocando-lhe entranhas:
– Diz àquele carrasco deixe embora Procêncio!
Olha, meu filho è pessoa bõa e de bom coração 3260
e nunca fez um mal de verdade, mal a nulhome.
Leva embora contigo que já non consigo criar:
Será tou escravo e logo tou amigo e tou filho!
Leva embora e faz do ladrão de galinhas um homem
como Procêncio deve esser e queu sei que será. 3265
Mas leva embora meu filho dessa vida tam feia
pelo amor de Jesus. Ensina a conduta sem erro
como o pai que non tem e logo o mundo verá,
soldado, quem Procêncio é! – Faltava-lhe fala.
Mas o eunuco, amando em silêncio e sem esperança 3270
como escondendo a dor dos próprios olhos, responde:
– Por que me tocas, mulher, e que me lavas de lágrima
como somente se toca e se chora no amor verdedeiro?
Não mi dissimules e não mi beijes os dedos!
Inda non sabes quem eo sou e da vida que sofro? 3275
Guardas, cá trazei Procêncio, ladrão de galinhas!
Tu porém levanta-te agora e fala a tou filho!
Pois as lágrimas tuas se esgotarem por ele,
vem falar a mim co desdém que convém a meu rosto. –
Narses entrou na tenda, onde, cabeça entre as mãos, 3280
pensava, deliberando o destino de dous infratores.
Mas a mulher, chegando a saber a quem suplicara,
veio de novo ao general, trazendo Procêncio.
Foi contendo como podia emoções e dizendo-lhe:
– Quanta vergonha, Narses! Na confusão do tormento 3285
não percebi a quão ilustre senhor eo falava.
Como as minhas rudes mãos poluiram-te a glória!
Quão indevidamente toquei tous pés e chorei!
Procêncio veio apenas implorar-te desculpas
para morrer humilde e limpo dum gesto covarde. – 3290
Antes porém que o filho erguesse a voz remoída
Narses pergunta: – É de fato verdade, ladrão,
que a mando desta mulher furtavas grão e galinha?
Veio de tua mãe o nefasto comando? Responde! –
Mas Procêncio, pesando a consequência funesta 3295
de tal confissão, gemia e balançava a cabeça.
Ela contudo reafirmava a verdade da culpa
tão vehemente e destemuda que o filho cedeu.
E Narses, o coração diviso no amor e na fúria,
disse-lhe: – Eu devia matar-te sem mora, mulher, 3300
cortar ao menos ambas as mãos e a língua maldita. –
Levantando-se, fez entrar o carrasco, aduzindo:
– Leva Procêncio! Esses dedos longos que furtam
são perfeitos dedos de arqueiros e arqueiro será!
Procêncio! Ouvindo um tormentoso apelo de mãe, 3305
de quem corrompe mas apenas ama o seu fruto,
quero levar-te comigo como filho e guerreiro!
Pois voltares, tomarás o lugar de tou pai
que, como ouvi, morreu valente em causa correta. –
Antes entretanto que a mãe lhe beijasse os pés, 3310
o eunuco, mostrando-lhe a direção da rua, pedia:
– I-te embora e não mi digas jamais o tou nome!
Esconde para sempre, flor, o tou rosto de mim. –


Reconhecendo ainda o fim de Germano,
Totila dispunha em sobressalto soldados, 3315
e parecia contar coa bondade da sorte:
Escravos aliavam-se a tropas buscando
a vida livre e bizantinos guerreiros
largavam postos para unir-se a Totila,
migrando em massa abandonando bandeira. 3320
E pois o rei gozasse domínio da Itália
quase inteiro, cumpria cortar o sustento
que alimentava inimigos, tolhendo raízes.
Navios de guerra pelas águas de Nápoles
chus ao sul navegando incautos a Roma 3325
foram arrebatados, cercados de súbito,
os marinheiros arremessados de bordo.
Em pouco tempo os godos usavam de frota:
A mando do rei, zarpavam em rumo diverso
desafiando a fúria do mar, cobiçando 3330
saques e ataques em litorais adversos.
Inopinados, desembarcaram em Córsega
para ficar, e não pouparam Sardenha.
Correu la nova como um alarme em Cartago
a comando das ilhas, incapaz de resposta. 3335
Rumavam no mesmo instante agitadas galeras
sedentas de Grécia: Devastavam a costa
tomando embora opulentos envios de Bizâncio
como os provimentos expostos nas praias.
Justiniano ouvia os relatos tremendos 3340
e balançava lento a cabeça cansada.
Concatenava a custo o vigor das imagens
deliberando em vão repentinas medidas.
Totila assomara uma abundância de naves
a dar inveja quase à gana dos vândalos. 3345
Decerto Genserico, rei das esquadras
que se apossaram d'África como de Roma,
desafiando em frota sem par o destino
e derradeiros dias do Império d'Oeste,
decerto invejaria as galeras de godos; 3350
o rei, que incendiando o grosso da esquadra
romana em litorais espanhóis, destruiu
de Majoriano, lo Imperador humilhado
e derradeiro patrício capaz de defesa,
poder, esperança, nome e desejo de vida. 3355
Os serviços de Genserico a Majoriano
Totila ansiava prestar a Justiniano.
Não hesitou! Vencendo o forte de Régio
zarpou sem mais na direção de Messana
cruzando irado o mar, arribando apressado. 3360
Desembarcou em Sicília stilando rancor
e vivo afã de exaurindo o celeiro da Itália.
A terram percorreram sem pena, pilhando
gado e grãos e quanto os olhos mirassem.
Que não leixassem atrás diminuta migalha! 3365
O godo acompanhava os passos e as armas
ditando à tropa insaciáveis derramas.
Iniciou pilhando somente patrícios
como das vilas de Gordiano, lo Anício,
enquanto Gregório, filho menor, meditava 3370
tristonho, bem convicto já de que vida
segura no mundo fora a vida dos monges
como a de Bento demandando cavernas –
Gregório que dedicout a Deus sua vida.
Mas não bastava o confiscar de patrícios. 3375
Famílias remotas lamentavam caladas
a mão levando além animais e frumento.
El homem de bois que duvidara tranquilo
do desembraque dormia agora com medo.
O plantador de sementes mirava a lavoura 3380
e derribava arado chorando presságios.
O rei, porém, perambulando nos campos
veio a dar enfim no prenúncio da aurora.
Como num breve instante parasse a mirar,
ouviu das ribanceiras um berro de bodes. 3385
Acompanhavam pastor que passava ansioso
enquanto ovelhas mudas seguiam de longe.
Vinha correndo de godos buscando seu gado!
Totila notou la inquietação dos ovinos
e quis: – Aonde foges, pastor, de soldados? – 3390
El outro, contudo, sabendo a quem se avançava,
falou de voz temerosa e caçando palavras
enquanto a talha berrante cercava Totila:
– Perdoa, rei, a intervenção de meus bodes
pela minha vida e menor do que a deles. 3395
Matei ninguém, roubei de ninguém dinheiro!
A minha vida è de andar por aí sem caminho
e bode veio atrás e lhe dei de comida.
Agora, rei, meu bode non vive sem mim
nem eu sem bode, que è bode feito família, 3400
filho meu que tirei da barriga da cabra.
Apareceu soldado caçando o meu gado!
Se aquele homem levar embora meu bode
e cabra de leite, leite de cabra roubada
è leite amargo e boca de gente non bebe! 3405
Cabra levada embora sente o desgosto.
Deixa ficar, Totila, meu bode comigo! –
Ao redor amedrontadas ovelhas pastavam,
os olhos inteiramente voltados ao rei,
rebanho mastigando o pasto e fitando 3410
calado, prestes à fuga desordenada:
Bastava um violento passo e corriam.
Pastor tomou de nova força e seguiut
enquanto os soldados atendiam resposta:
– A vida tua, Totila, è de gesto bonito 3415
e bonito que nem ao meu irmão abonado.
Veio o soldado maltratando a menina,
Totila matou soldado e cuidou da menina
e deu dinheiro e gado a cuidar da menina!
Quando voltou meu irmão e contou da jornada, 3420
o povo entendeu que o rei è bom, esse novo.
Agora chega o rei que è este que ès tu
e vem tomar do gado e tomando do nada?
Ó meu Deus, explica essa coita de novo,
rei que è bom roubando embora meu bode! – 3425
Os bodes, percebendo aflição do pastor,
berravam inquisitivos dum berro agitado.
Totila, porém, nembrando caso longínquo,
mirou melhor el homem de ovinos e disse:
– Este homem, soldados, retenha seu gado! 3430
Ladrão, pastor, ladrão Totila non foi.
Explica aos conterrâneos teus de Sicília
que o rei sentiu la ingratidão de teu povo
quando alegre e de braços abertos abriut
os portos e as portas del ilha a Belisário, 3435
sabendo que guerreava contro meu povo!
Desde esse tempo, carrego entristeçudo
a nembraça dum gesto apagador de amizades
porque, pastor, a vida próspera vossa
também se deve a Teodorico, o bondoso 3440
que nunca pôs a mão no pão de seus pobres.
Diz aos teus, porém, que o gado que embora
levo non levo nem para mim: para Roma!
Se fosse para mim bastava o que è meu
e não precisava empobrecer o teu povo. 3455
Vai para Roma contudo o gado e frumento
como sempre se fez e como è preciso.
Ora, ancião, as bocas e a fome de Roma
são ainda as bocas e a fome de Roma
que alimentáveis como a própria famíliam 3450
quando os Imperadores fartos reinavam.
Serão agora inimigos quem eram irmãos? –
O pastor, entonce, escolhendo de bodes,
cedeu parcela a Roma e Totila se foi.


Mas em Roma o rei sofreu numa triste missiva: 3455
– Foi negada, Rigo, a mulher que mais eo amei!
Como se não bastasse a paz a fugir minha vida
foge também amor. Acabou esperança, escudeiro,
cava a minha cova e me joga. – Totila nembrava,
como não, as juras da juventude e seguras, 3460
como trocaram promessas de sentimento perene
pelos jardins, fitando ao longe o vale do Pó.
E quantas noites perdera desde antigas revendo
cena santa, inesquecível no peito: O abraço
todos anos guardado, paraíso em presságio. 3465
Quão repentino muda o coração de desejos!
Eram décadas já de ausência. Totila atendia
certo, porém, da verdade e retidão de promessas.
Ela perdera amor? O tempo vencera a ternura?
Olhos molhados, o rei releut a carta, buscando 3470
brechas dalguma afeição melhor por entre rabiscos.
Rigo reconheceu de pronto o destino do pranto:
Filha de reis, inalcançável prêmio dos francos,
ganhara desda infância o coração do reinante.
Eram então melhores, na florescência do tempo, 3475
termos entre francos e os godos de Teodorico.
Vinham legados da Gália transportando presentes,
provas de duradoura amizade e palavras sinceras.
Home viu la flor dos povos ambos se unir no futuro
como já se casara o rei coa princesa dos francos. 3480
Mas as juras de amor iludiram muitos amantes.
Passa o tempo e tranfaz os sentimentos em soma.
Bem pensando o caso, Totila não se assustava:
Causas diversas já moveram o reino dos francos.
Homens volúveis, no meio da luta mudavam partido, 3485
ora acordo com godos, ora uma jura a Bizâncio.
Desdo começo, não se contentando co norte,
vinham cobiçando a Gália do sul, visigótica.
Era agora o mar somente a ponte dos povos
entre os reinos ambos de godos, dous isolados. 3490
Muito carisma apenas amansara maiores cobiças.
Quando porém a guerra eclodiu, fecharam acordo
tanto dum lado quanto doutro, buscando vantagem
como os territórios da Itália. Prevendo perigo,
Vítice deu embora aos francos a costa da Gália, 3495
mesmo Marselha, e nem por isto foram detentos,
antes pintavam já na mente maiores conquistas.
Iram pois tomando aos poucos o norte da Itália
pelos Alpes, entrando soltos em campos do Vêneto.
Ambos partidos miravam as incursões insolentes, 3500
ambos que reclamavam a si domínio da terra,
mas prudência pouco lhes consentira resposta:
Era imperioso o manter o grosso dos francos
se não aliado de guerra partido neutro ao menos!
Num quesito, porém, logrou Totila um sucesso: 3505
Deut aos francos reter os territórios do Vêneto
como ao norte do Pó – até lo desfecho do prélio.
Home acertasse, ganha a guerra, acordo de amigos:
Era a política. Mas Totila atinava coa triste
carta do rei negando o casamento coa filha. 3510
Rei, dizia, Totila nunca foi: Ilegítimo!
Nem o reconheceu lo Imperador em Bizâncio
nem Totila, tomando Roma, pôde mantê-la,
visto que Belisário desafiara as vitórias.
Era difícil crer na frieza aberta das frases. 3515
Uma flama, ao menos, Totila reteve no peito:
Talvez a mulher amada até sofresse o destino,
talvez se recordasse ainda da sombra do abraço.
Certo não consetia no peito a dureza paterna.
Qual certeza, contudo, o mundo deu de palavras? 3520
Sol amor impossível conhece a verdade do mundo.
Muita vez, Totila tomava de fôlego a custo:
– Erant esses francos, Rigo, a promessa da vida.
Deles as pazes, as amizades nas armas, o amor
e tudo esperei! E são agora o concurso do nada. – 3525


Contudo um outra carta abordou, navegando
da Itália e caçando João, cabeça de tropas:
“Valeriano, a comando em Ravena, saúda.
Estás a pensar que ventre vive de vento?
Rezei em vão a todos homens do Império 3530
a fome, o cerco, a provação de Ravena?
Ancona está cercada, o porto que resta
e porta nossa a socorro de mar e frumento.
Os homens ende se Ancona cair cairemos!
Morrendo em nós os derradeiros da Itália, 3535
cavai la cova de vós e de Roma e de Narses.
Se houvesse força fora longo o relato
mas non sei de consolo e conselho mi falta,
porquanto, irmãos do forte no cerco, cadeias
impedem nossos pés e lacunas de estômago. 3540
Mas por amor de Jesus compassivo ou de Apolo,
novo deus ou de velhos, ajuda-nos, homem!
Zarpa agora coas naves e os teus de Salones
ou põe às mãos de soldados, em vez de espadas,
somente a pá que aos abandonados enterra.” 3545
João de Vitaliano, balançando a cabeça
e mirando longe o mar, pondera o dilema.
Não guardava ainda, nas mãos e no peito,
a carta imperativa e missão de Bizâncio?
Não te movas! Atende Narses e segue-o! 3550
Vinham de Justiniano as ordens escritas!
Chegara pois o momento, num lance infeliz,
dum desdenhoso gesto e menor que el honor?
João lo sabia: Na vida sem erro decência
impera rogar, de a quem se deve, anuência. 3555
Mas o tempo escasso interpunha-se ao caso:
Mandando al Imperador apressadas missivas,
resposta levava semanas. A morte iminente
atende menos. Quem diria, João ruminava,
o amargo dom que lhe preparava o destino! 3560
Vivendo leal, desrespeitar lealdade:
O futuro de Ancona e juramento a Bizâncio
surgiam, gladiantes, na arena da morte.
Ele, a quem notáveis em nada notavam,
quantas mágoas de Belisário guardava, 3565
quantas de Narses quando em meio a batalhas
a voz de generais abafava os conselhos?
Ele, que tanto ansiava a sós o comando
que enfim lhe vissem bom valor e destreza;
a sós entendia em desencanto o seu fato, 3570
e como ansiou, além, o concurso d'al!
Ali se calou, porém, na escolha dos males,
curvado ao peso do dessaber e das horas.
Mas não havia ensejo a delonga e lamentos
ante lição do acaso e destino de incautos. 3575
João, num surto inordenado e na pressa,
conclama, ordena e grita à massa: – Prepara
navios! – E sem sabendo futuro e jornada,
tropas embarcam de súbito naves adentro,
João escolhendo a dedo heróis de valor. 3580
Zarpou! Ao bafo de frientíssimos ventos
e mar violento, cruzou na tempestade
em virações tenebrosas garganta adriática.
Trinta e oito navios avançaram impávidos.
O remo que a mão impôs à boca das ondas 3585
não se quebrou: Por breve instante a vida
venceu – o vaso frágil – a fúria do eterno.
Passaram fortes, humilhando nos braços
a força de temporais e orgulho do mar.
Exaustos, não porém vençudos, pisaram, 3590
atrás de escuridões flutuantes, a margem,
vistando nas nuvens o sitiado penhasco
donde se erguia firme o forte de Ancona.
Desembarcavam prevendo pois o inglório
tamanho da luta, João apontando claro 3595
a sorte. Em terra e mar, o frio hibernal
mesclava-se al arrepio e temores das almas
subiam, em contemplando o perigo da morte,
alturas maiores da ribanceira cercada.
João mirava mãos e as mãos de seus homens 3600
titubeavam perante o prospecto da treva.
Qual non foi contudo o suspiro de susto
quando do fim de angustiantes praias
surgiu, em derradeiras brumas, moção
de horizonte, véu, revelando do incerto 3605
a bandeira inabalada de Roma e broquéis
de guerreiros: Valeriano e Ravena abordavam!
Ossada ambulante, o general concorria
a João, derramando dos olhos o alívio.
João, porém, percebeu la causa da empresa: 3610
Valeriano o julgara guerreiro sem honra
como os homens vis que, vendo o companha
clamando, passaram reto. Não esperava
encontrar naquela costa navios de Salones:
Se confiasse, teria ficado em Ravena! 3615
Astuto! Pedira ajuda alegando fraqueza
e pero aparecia em pessoa ao combate?
O caso e diversos outros João ruminava
do quão pequeno apreço amigos lhe davam.
Valeriano, enfim, entrevendo a tristeza, 3620
envergonhou-se um pouco da própria alegria:
– Perdoa de mim, João, um juízo incorreto!
Começo a ver, conquanto tarde, o tamanho
das tuas palavras e tua verdade me humilha.
Agora sei, guerreiro, quem és e quem foste! – 3625
Agora? João, vislumbrando o perder-se do mar
um segundo, baixou a fundo os olhos na areia:
– Traí, general, o Imperador em Bizâncio,
perdi meu honor no socorrer de teus homens. –
Valeriano, mordudo por dentro, entendeu 3630
melhor o candor e a raridade dum homem
a quem jamais convém hesitar confiança.
Erguendo a voz contrita responde: – João,
juntei meus homens para que todos vissem
em ti la grandeza dum gesto firme e correto, 3635
homens nossos, antes teus do que meus.
Marchei, João, somente para entregá-los
a quem merece mais do que eu la vitória:
Traíste não, a ninguém, ganhaste batalha!
Aceita, somente, o sacrifício pequeno 3640
dum grato e vou-me embora a sós a Ravena. –
João num gesto súbito roga-lhe: – Fica,
guerreiro! È generoso o pendão da vitória,
paira sereno et abriga o nome de muitos. –
Num momento amargor e remorso abraçaram-se. 3645
Mas não havia tempo a maiores palavras
que já chegava de longe a notícia: Totila
mandara, sabendo do desembarque arrojado,
possante armada em quarenta e sete navios!
Chamando cedo os conselheiros de reino 3650
o reinante explicara: – Basta Ravena cair
e teremos toda Itália. A guerra termina
se Ancona se rende, por onde cópia perene
de provimentos adentra sustendo inimigos. –
Quando contudo expôs o plano em detalhes 3655
de como a frota avançasse buscando batalha,
ergueram-se vozes: – Totila! Guerra de mar
e guerra d'água difere do prélio de terra,
manejo bom de barcas arte de expertos.
Sucesso impera o bom governo de remos! – 3660
Assim falara Vilas, e Rigo assentira
cons outros. O rei retrucava alarmado:
– Mas duvidais, juízes, do extremo do caso?
E qual escolha teremos senão de coragem?
Nenhum auxílio de terra reforça soldados: 3665
Importa-nos ora bater no mar o perigo! –
Os homens grandes vislumbravam os anos
ansiando longe destreza d'água de vândalos,
como outrora em pouca frota apossaram
o mar e do mar a cidade de Roma e milhares. 3670
O sangue irmão dos godos, comum de germanos,
decerto fervia como nos vândalos antes
robusto e prometendo proeza nas ondas.
O rei, atenuados os grandes, adverte:
– Tenhamos sorte e sorte esteja conosco! 3675
Se o forte de Ancona resistir à bravura
do assalto, amigos, nada mais interrompe
os pés de Narses, fecho incerto do tempo. –
Iram zarpando afoitas de toda a costa
galeras largas. Carregadas de guerra, 3680
juntaram-se embora em perdições adriáticas
u remavam depressa a destino sem medo.
E flutuando o mar como o fogo do inferno,
sofriam no corpo os elementos em fúria.
Ao cabo da grande armada estavam capazes 3685
dominadores de remo. Provindos do Império,
buscavam do novo rei la paga e prestígio
que longe Bizâncio negara. Traziam consigo
perícia de naves e perspicácia de ardis.
Arqueiros eleitos se exercitavam na popa 3690
e na proa, donde afiavam flechas, e cópia
de lanças passava pelas mãos de soldados,
notadamente dum jovem: Tenaz, Ruderico
desdo começo pediu a seu pai, insistiu
em seguir e mostrar, aos inimigos de além, 3695
o temor da sua lança e valor de seu nome.
Home non menospreze o poder do arremesso!
E contros avisos insistentes de Vilas
nembrando que mar carece mais de arqueria,
embora embarcou desafiando incertezas. 3700
Quando detrás dos horizontes de Ancona
e de brumas despontaram navios apressados,
João e los marinheiros zarparam. Da nave
o general de Salones orou-lhes: – Guardai
no peito, soldados, o nome desta jornada, 3705
porquanto dela apenas depende o futuro
do Império, Roma e vossas vidas. Coragem
mostrade e valor e bom manejo de flechas,
porque demais ensejos a vida vos nega:
Se aquela frota vencer, o destino acabou! 3710
As armas que ao vosso braço tiverem abrigo
usai com destreza e como pel última vez,
porquanto além, varões, amanhana è milagre! –
Entraram pois a bruma do além, inimigos
remando de encontro. Não porém hesitaram 3715
quando pronto irromperam perto galeras.
Resposta de guerra, a tempestade de setas
cruzava do abismo al horizonte os vazios,
e mãos de Romanos largando flecha d'arco
caçavam pelo véu a cabeça de incautos. 3720
Puxado o míssil co viço maior do braço,
ao feroz em mira milagre algum socorria
contudo caía, cravada a perda no peito
e carregado em vermelhantes ondas embora.
Os godos, então, aproximando as barcas 3725
e as naves atracando, lançavam os corpos
contra os corpos, atacando com clavas,
saltando e penetrando a popa de hostis
por onde arremessavam lança e cortavam
co gume a carne, amedrontando os audazes. 3730
Julgaram já maior a coragem que a vida.
Cantout errado cujo canto de guerra
bradou vitória cedo e tarde a verdade,
porquanto longe e destemudo assomava,
do braço de Ruderico, a lança certeira. 3735
Desafiando arqueiros, o filho de Vilas
coa mera força da mão catava dos ares
pujante pontiagudos projéteis, impondo
a palma como escudo frustrante de setas.
O peito exposto e provocando invejoso 3740
destino, bom lanceiro tomava da proa
as armas em cuidadoso arsenal, coletas
por anos setas que todo dia afiava.
Alimentava a sangrenta sede dos fios
de gumes et haste, cinco pés de madeira. 3745
Troféu tremendo, rumava a lança de ponta
a ponta banhada em sangue de vísceras
quando atravessando o corpo varava
além, buscando vidas outras no incerto.
O brado, o mar e a morte pouco importavam 3750
e pouco impressionavam afoitos ataques,
o herói da lança cercado e gerindo vitória.
Ereito o braço, o jovem lançava arremessos
que em repetidos golpes cortavam escudos,
quebrando a sós o peito armado de intrépidos. 3755
Tamanha força lhe propulsava de entranhas
que vezes a fúria da lança levava consigo
a longe troncos, cravando no fundo do mar.
E quanto mais pelejavam contra perícia
de Ruderico em tanto mais perecessem, 3760
porquanto o braço contro qual se lançavam
braço inquebrantável no amor de seu povo.
A frota pois de João aturdida, vitória
surgia descendendo do sonho à verdade,
nutridos ora godos, viço em coragem 3765
de luta vastando pelo mar e quebrando.
De pouco vale entretanto d'armas valência
quando acaso se opõe, inimigo de esforços.
Ora, Fortuna, invejando a vitória do forte,
beirando o vento que ali passava raivoso 3770
ordena ao elemento: “Confunde esses homens!”
Súbito o caos se alastra em góticas frotas,
desordem desbaratando governo de remos.
Enquanto o bom lanceiro atirava petrechos,
o engano flutuante levava exaltadas 3775
galeras a rumo invocador de desgraça.
Ilusas, ora se aproximavam demais
atrapalhando caminhos umas das outras,
conglomeradas naus e naus atracadas,
ora no afã de desvencilhar-se contudo 3780
demais se afastavam perdendo contato.
Assim unidos no caos e de todo isolados
bradavam-se apenas antagônicas ordens
e não lutavam, Romanos tomando proveito
e arrebatando embora as barcas e as vidas. 3785
Industriosos na espreita, pronto cercavam
galera à deriva, saltando a bordo e matando.
Cruzando grupos de duas vel três atracadas
naves de godos, aproximavam-se arqueiros
enquanto incautos debatiam aos gritos 3790
governo de rumo, e miradas as flechas
o peito alvejado frente ao mar tropeçava,
desgovernadas feridas, carcaças tragadas.
Em vão a barca assaltada lançava de bordo
as armas, ajoelhados rogando clemência, 3795
rendudos todos e todos porém degolados.
Caíra a noite e desesperadas galeras
cuidavam fuga apenas, remando sem rumo
e cada qual por si dispersa, perdudas
no medo barcas pela gartanta adriática. 3800
Pobre a nau que se deparasse no azar
pequena ou grã perante naves em fúria,
assomo das ondas como se pouco bastasse.
João general, reconhecendo a verdade
no escuro, atribuindo pois uma estranha 3805
vitória ao acaso, conclamou marinheiros
e desdenhando, cônscio de si, galardões
de corriqueira fama e troféus, navegou
embora a Salones, o coração humilhado:
Ora, em certa altura perdera a batalha. 3810
Assim pensando e ruminando por brumas,
rumava além com vitoriosos incautos
e preparava desde pronto pungente
missiva, rogando a Justiniano perdão
por gesto intempestivo, dever arriscado. 3815
Em meio à tormenta navagavam os poucos
godos que, sobrevivendo por certo milagre,
buscavam nas ondas a direção duma costa.
E Ruderico, lançado em fúria de bordo,
tomando de tábua flutuava em distâncias, 3820
oculto na treva em perdições impossíveis.
Decerto Netuno ali vingava ultrajado
honor divino que um povo inteiro traíra
quando, inopinado e deitando por terra
antigos ídolos, novo deus e de longe 3825
tomou por seu contrariando avoengos.
Assim coligado à rancorosa fortuna,
soprava assustadoras vagas e abismos
tragavam as desesperações dum guerreiro,
porquanto o filho de Vilas, longe lançando 3830
embora as armas ora inúteis, pregava-se
ao carcomudo escombro que acaso lhe dera.
Acaso, porém, erguendo altíssimas crestas
altíssimo alçava quase às nuvens o náufrago
e súbito, o mar cessante, abismo se abria 3835
por onde em vertigem Ruderico varava
em queda livre. Muita vez a madeira
perdeu-se fraca daquelas mãos e da vista
e Ruderico nadando e buscando e clamando
tomava como do nada e que quase afundava 3840
pedaço de tábua, pau que o deus maldizia.
A voz, abafada no vão das vagas mas alta,
bradava tragando fúria, vento e rajadas:
– Cresci na fé de Cristo, remo de náufragos!
Quem non morre de guerra de mar morrerá? 3845
Em tantos feitos eu busquei de meu peito,
Jesus, os dons daquele gesto correto
e sacrifício pelo povo que abraço!
Quanto mais façanhas a mão perpetrava
menos gosto meu coração lhes gozava. 3850
Mas antes, mar, de aqui beberes a vida,
permite ao destituto melhor atitude!
Invoco ainda a mão que abateu inimigos?
Conheço, ai, a causa do fim que me espera!
Dês que ousei num desgraçado momento 3855
erguer-te, mão infeliz, diante do justo
que frente a meu juiz adotou-me por filho,
desde então notei lo teor de meu crime,
mal que nem por pena de morte reparam.
Terei ensejo do gesto bom a meu povo? 3860
Por graça vivo e sigo, querendo coragem
de vida e vida merecedora de vênia.
Contudo a cada passo esta vida revela
a vergonhosa verdade dum erro sem termo.
Andei ganhando guerras? Perdendo a mimesmo 3865
num crime sem nome vi, entendi, percebi
que minha vida è vida pequena e vida pequena
non cabe às mãos do verdadeiro guerreiro. –
Assim chorando a Deus e rogando impossível
passava o filho de Vilas abismo de crestas. 3870
Desembarcaram os poucos que a sorte trouxera
em colisão a rochedos e a bancos de areia,
nadando como andando e distante do porto.
Corriam na madrugada em demandando socorro,
restantes da formidável armada que fúria 3875
e muita inveja do acaso soprara à ruína.
Aquela derrota de mar quebrou-lhes espírito.
Partiram, pois, confusos no meio da noite,
levando a Totila a desastrosa notícia.
E longe de praias, escuridões carregavam 3880
a triste tábua de Ruderico à deriva.


Narses porém marchava longe daqueles eventos,
tendo em mente o filho apenas, mãe que assombrava
firme ainda na imagem, dia e noite, a memóriam.
Todas as horas, o peito mais vistoso lhe arfava 3885
quando se comentava o bem de Procêncio nos arcos,
rara destreza calando aos poucos a boca de mestres.
Narses, o pai, educava em permanente exercício
como quer a retidão constante a força do jovem:
– Cuida bem de Procêncio! – respondia a flecheiros 3890
qual se o novo filho a derradeira esperança.
Ora, o ladrão de galinhas, refletindo a bondade,
punha a vida inteira ao bom manejo de flechas,
doradiante buscando somente afeto de Narses,
o protetor, nembrando a dor da mãe que leixara. 3895
Como o filho no pai, o pai indagava no filho,
ambos homens, mulher que os irmanara no espírito.
Longas horas aproximava a conversa as idades,
falas de amor e brios de guerra pelas estradas.
Narses contudo percebia-lhe aspecto estranho: 3900
– Que te abate, filho? Por que te vejo atristado
frente à corda sussurrando medo em teus sonhos?
Não te contenta ainda a perfeição de tous alvos
ora que aprendes mais e mais veloz de perfeitos?
Bom sucesso aguarda, Procêncio! – Procêncio atende: 3905
– Pai! Percebo sim os dons e a rapidez dessas mãos
e como è destro o meu tiro e caçador de inimigos.
Foram porém, meu pai, somente as aves e as árvores,
nada mais, que o meu punhado de flechas feriu,
e vão passando os dias e vou pensando de mim 3910
se guerra me quer, e erguendo d'armas vou atinando
mais e mais que non sou violento, vergonha marchando
junto e perseguindo os pés dum ladrão de galinhas.
Ero eu, que non sou violento, um homem de guerra? –
Mas o filho baixou la cabeça e Narses lhe disse: 3915
– Vêm da vida correta as tuas palavras, Procêncio,
entram no peito como alívio, dote de orgulho.
Uma coisa contudo aprendi de sinceros soldados:
Há diferença de ser violento e de usar violência.
Filho! O bom guerreiro alevantou suas armas 3920
como gesto de amor primeiro e depois violência.
Quando l'homem vil, destruidor de pequenos,
põe a lança aos ombros, querendo como presas
vida sem erro, cumpre à mão decente resgate:
Cumpre erguer bandeira justa e co peso da vida 3925
como das armas lutar, impedir um gesto indevudo
contra nossas mães e companhas. El homem de guerra
sabe usar violência quando o prélio conclama,
mas el homem de guerra, filho, foi homem primeiro
e só depois è de guerra o guerreiro que è homem. – 3930
Dito isto, o perito mirava nos olhos o jovem
calado e boquiaberto, mentre l'outro assistia
Narses como por dentro e como ruminando na mente:
Frente a poderosas tropas marchava um eunuco,
ora idoso e de pouco endorso no corpo e valência. 3935
Donde, pois, atender em Narses o afã violento?
Ali conheceu, de seu pai, lo virtuoso valente.
Não porém contente arremata: – A guerra castiga
tanta vez, meu pai, quem não merece a vergasta.
Tanta vez, el homem bom e correto guerreiro 3940
foi abusado pela fealdade das ordens
más e desordeiras, o coração generoso
coberto de crime e perpetrando dor desmedida. –
Narses contudo impôs-lhe a mão, seguro de lutas:
– Filho, a fealdade maior duma vida que vale 3945
foi erguer a espada contra a mão que te implora!
Quando o tou inimigo se rende rendudo está:
Quem se lança a tous pés confia a ti sua vida.
Preza, pois, o gesto de quem escolheu se humilhar. –
O novo filho entonce entendeu, da boca de Narses, 3950
fato: Da boca de Narses non vem el ordem covarde,
mal que tanto ultraja a retidão de quem serve.
Mas o pai completou: – No dia del ordem que ofende,
menino, consciência dos homens e peso das armas,
sê primeiro homem e salva a verdade das armas, 3955
pois o nome da bõa guerra è virtude, mentira
a guerra que ofende a vida desarmada e caída. –
Mas do termo del orbe a silhueta surgiu de
Salones, interrompendo verbo, tempo e verdade,
donde correu de encontro João falando apressado: 3960
– Perdoa, Narses, a intrepidez dum ato impensado! –
Foi-lhes pois narrando em cena forte os detalhes,
cônscio de si, atribuindo ao acaso a vitória.
Era preciso saber se, descumprido o desejo
de Justiniano, Narses o eunuco ainda o julgava 3965
digno de luta. João de fato escrevera a Bizâncio
já rogando atônito ao dono do Império clemência.
Ora, o pai de Procêncio considerando relatos
disse apenas: – Prepara logo as tropas e vamos! –
E foram! A nova marcha unira aos homens de Narses 3970
restos da belicosa grei que seguia a Germano
quando a morte o sequestrou, e leais de João
agora aumentavam além da vida o número d'armas.
Mas enquanto l'outro perambulava aturdido,
Narses pensava o caso inusitado dum grande 3975
pedindo vênia ao mundo pela própria vitória.
Antes porém de mais o general se aproxima:
– Foi decerto fiel, João, o tou gesto valente.
Ensina um pouco dessa tua hombridade a Procêncio,
filho de meus, e morrerei feliz de meus dias! – 3980
Pôs ao peito o bom sucesso do filho de Narses
como a vida própria João, e lições prosseguiram
desde então, Procêncio aprimorando-se em flechas
tanto quanto em razão de combate: – Foi covardia
então fugir – perguntout ao general moderado – 3985
quando em vã batalha vitória se fez impossível? –
Mas João, aluno de lidas ingratas, concede:
– Muitas vezes, prudência recomenda retiro
quando o bom guerreiro em recuando se avança
rumo a novo ataque, levando as armas consigo. 3990
Feio, porém, deitar ao chão espada e broquel
no amor à vida desonrosa e por medo da morte!
Uma coisa è certa, Procêncio: Quando a batalha
não se ganha, estás cercado e contudo lutaste,
rende-te: Sabe honrar um inimigo chus forte! 3995
Lança-lhe aos pés as tuas armas e pede bondade
pois guerreiro que è forte em verdade sabe usá-la.
Não as lances porém ao chão escondudo de amigos
mentre ainda for incerto o percurso do prélio;
mas enquanto houver um bem a ganhar no combate, 4000
pero que pouco, luta ainda e morrendo venceste. –
Isto et al e mais debatiam detalhes de flechas
e tiro justo e gesto correto pela Dalmácia.
Logo entanto lombardos engrossaram as tropas,
homens irascíveis, mancebos de humor variado. 4005
Povo errante em desafeto aberto dos povos,
guerra constante governantes seus engendravam
contra gépidas, érulos, francos e contra Bizâncio.
Mãos violentas incendiavam os corpos e aldeias
mas o Imperador, no afã da conquista de Itália 4010
como sedento de amigos, retecera cons bárbaros
nova causa, forjando-se a dubiosa aliança,
dote desastroso e dor hedionda na história.
Inda assim, ao amor de sangue esperdiçado
o povo rude mesclava afeto ao nome de Narses. 4015
Lá marchavam pois impávidos juntos do Império
os povos, carregando consigo em sede diversa
pela via incerta os homens, as armas e as aves,
sangue despertando em mente temor e apetite.
Já se aproximavam quase paisagens del Ístria 4020
quando João general recebeu missiva da corte.
Era decerto l'ordem de retornar a Bizâncio,
voz punitiva do trono. Mas o astuto enganou-se:
“Tomaimos ora nota, João, do tou gesto impensado.
Segue, destrói Totila e trataremos do resto.” 4025


Mas qual non foi surpresa a Deus milagroso
pois que demandando as portas do Vêneto
forte de francos interrompeu-lhes o rumo,
donde Segisberto marchava de encontro:
– Em nome do bom honor que abraçais, aliados, 4030
parti-vos desta terra embora e salvai-vos!
Ousaves, Narses, ultraje ao solo de Itália
leixando um povo reto à mercê de lombardos?
Muito me espanta a que triste ponto chegaste! –
Narses, porém, surpreso da audácia, retruca: 4035
– Muito me espanta, Segisberto, que francos,
a quem o dono do Império clamava aliados,
num gesto menor se apoderassem de terras
propriedade de Roma e das leis de Bizâncio!
Como não lhes bastasse a reis sem nobreza 4040
usar ovantes a parte que o Dom concedera,
vieram farejando o que nunca lhes coube!
Ora, a que ponto em desdenhosa indústria
os cobiçantes reis se arrogaram, declara
mais que a palavra a cena triste que assisto. 4045
Ignoro em cujo desígnio o povo dos francos
migrou, desabonado, das Gálias ao Vêneto
mas aviso bondoso em que terra te encontras:
Propriedade de Roma e das leis de Bizâncio! –
O comandante do forte contudo interpõe: 4050
– A profusão de imoderadas palavras
menos me ofende que apenas entristece,
vindas que vêm do de quem melhor se esperava.
El homem que vê primeiro e que julga depois
jamais desabusou deste modo a meu povo. 4055
A terra de Vêneto, Narses, fora concessa
de godos à cautelosa tutela dos nossos.
Propriedade de Roma, Roma a cedera
a Teodorico e todos reis que o sucedam.
Ora, Totila, o protetor de oprimidos, 4060
rendeu-nos generoso o lugar que pisamos,
a fim de que os aliados de Roma e de godos
defendam de impostores porção de mundo
tão relegada à fealdade e barbárie:
Tão exposta que nem hesistas, audaz, 4065
introduzir em seu meio rol de lombardos
e os homens vis que recrutaste em cadeias,
comprando em muito ouro amizade e ladrões! –
João de Vitaliano ergueu sua espada em
protesto contudo Narses tranquilo provoca: 4070
– Ladrão chamei lo povo que entrou num alheio
país sem nem convite e devudo permisso.
Inventas pretexto: Teodebaldo, teu rei,
uniu-se à filha do trono lombardo, Valdrada!
A diferença que sei de lombardos e francos, 4075
Segisberto, è esta: Lombardos se agregam
à causa do Império quando Império conclama.
Alheias terras que adentram, entram chamados
não por falsários, mas pelo Imperador
somente, cuja vontade cá questionaste! 4080
Leais, sacrificaram a vida por honra,
amor ao Dono sacrossanto das gentes.
Os francos contudo prometendo amizade
primeiro medem vantagem, decidem depois.
Foi deste modo que o mundo testemunhou 4085
a jura vossa aos nossos e como a traístes,
e como jurastes marchar de guerra conosco
e como fugistes quando Império clamou-vos
contra os godos, deliberando malícias.
E no entanto aqui mi cumpre dizer a verdade 4090
desta terra e doutras que longe usarpastes:
Propriedade de Roma e das leis de Bizâncio! –
Mas Segisberto crava la espada na terra
enquanto em torno os impropérios irrompem
pelas tropas e troca de olhares irados, 4095
e realçando a voz em flama interrompe:
– Não se assente em meu domínio mentira:
Estuda a nossa história e verás o que somos!
O povo de francos è federado do Império
porquanto o trono do Imperador a que serves 4100
reconheceu, e lhe aprouve a nossos reis reinado
em territórios não roubados, porém concessos.
Os francos partilham da mesma fé de Bizâncio,
de fato, enquanto abraças o peito de hereges
lombardos, dum povo desordeiro e sem rumo 4105
e transmissor de desgraça por donde se apossa.
Não se assente em meu domínio lombardos! –
Mas Narses não se impressionando declara:
– Abre alas, Segisberto, a meus homens
lombardos, érulos, gregos, persas, Romanos 4110
que os francos em vergonhosa mente traíram.
Abre alas que os homens todos que adentram
adentram contra godos e não contra francos
e buscam longe do Vêneto a sorte das armas. –
E como Segisberto negasse a passagem, 4115
Narses ouvia calado a resposta do franco:
– É direito meu decidir os que adentram
a parte que o rei mi confiou de defesa.
E para que não repitas de modo indevudo
ofensas contra um povo correto, amigo 4120
não de impostores, mas de Deus e da paz,
discutiremos os francos a causa que invocas
não com tipos da tua estirpe e soldados;
mas inda hoje a delegação de enviados
nossos parte a mando do rei a Bizâncio 4125
para tratar, com a quem compete em pessoa,
propriedade de Roma e domínio de francos! –
E não mentiu, porquanto os altos legados
leixavam já remoto o forte seguindo
em viagem, planejada quiçá de antemão. 4130
Mas que fazer? Forçar entrada por armas?
Era demais arriscado atacar uma gente
de jure aliada, expor o grosso de armadas
forças à guerra contra dous inimigos,
quando em verdade estava incerto o caso 4135
contra um único apenas. Francos e godos
unindo-se contro Imperador? Desastroso!
E Narses calado e consternado nas portas
do Vêneto consultava em vão conselheiros.


Veio porém de encontro a Segisberto mendigo, 4140
corpo coberto em pele ovina, pálido aspecto.
Dentro do forte revelou-se uma grave surpresa:
Era Rigo e mais ninguém, escudeiro do rei
Totila em torturante jornada, gemendo e rogando
ver Teodebaldo, o rei dos francos, urgente. 4145
Mas ali se encontrava em caravana de acaso
perto de Segisberto entristeçuda mulher.
E Rodelinda conhecendo-lhe o gótico traço
disse a Rigo: – Que desejas do rei meu irmão
que tão doente sofre quanto infirme te vejo? – 4150
Rigo duvida: – Doente o jovem rei deste povo,
filho do bom Teodeberto e monarca sem mancha? –
Antes de mais a princesa atordoada interrompe:
– Ó guerreiro, percebo bem a que vens e de quem!
Totila não me engana apesar do tempo e da guerra. 4155
Quem o viu durante a paz o que as horas fizeram
quase descreu, de promessa serena a vida perduda. –
Mas o mestre de escudos responde: – Nada perdudo!
Este de quem falamos ora por vós como amigos.
Sofre como o povo inteiro dos godos em vendo 4160
como son vãs e como iludem palavras de caros.
Mas o coração se è nobre o tempo non fere!
Não direi, Distinta, o que um rei saberia dizer
do peito à venerada mulher por quem se deplora.
Diz porém ao nobre dos reis, teu irmão combalido, 4165
diz a verdade: Totila ainda atende uma prenda,
gesto plus bondoso e digno dum povo de justos.
Quando tou triste pai invadiu castelos de godos,
Totila transtornado maldisse e pero perdoa.
Pois! Maior que ofensa vive o passado que nembra, 4170
toda parte, os fortes laços que uniram os povos
dous, os francos e godos no amor de Teodorico.
Totila roga apenas de vós verdadeira amizade. –
Ela sentou-se calada e calma perante a janela,
donde mirava em sonho paisagens e cursos de rios: 4175
– Rigo – retorna baixo e balançando a cabeça –
que deseja Totila? – Rigo: – Deseja vitória,
vida e salvação duma grei perseguida sem causa.
Ouve-me, Rodelinda, e tu também, Segisberto:
Nosso rei reclama um novo mundo e de caros! 4180
Longe do peso que oprime Roma querendo passado,
ele pesa à mente o futuro da Itália liberta.
Vede se donde nossas livres gentes migraram
houve povo leixando à larga seus fracos e pobres
como è lei no modo romano e nas leis de Bizâncio! 4185
Como os francos, os godos estendemos abertos
braços e dividimos grátis do pão que comemos.
Sei que o reino do rei Totila è reino correto,
lei que defende aflitos da violência do forte
nem permite à fome sequestrar moribundos 4190
u la terra è farta e provedora de muitos;
reino feliz, porquanto frutos dons do trabalho
rei non toca, num gesto raro sabudo de Roma!
Ide pela estrada querendo verdade do povo
pois do povo dirão quem foi Totila e quem é. 4195
Totila? Digo mal e corrijo, Totila somente
imita o reino bom de Teodorico, e de todos.
Juntos construiremos o mundo novo e de amigos
longe do peso, taxa e pretensões de Bizâncio,
livres com Deus: Unidos venceremos o Império. 4200
Cada de nós a sós, contudo, futuro è derrota,
nossa pelos poucos homens que a guerra nos deixa,
vossa pela insídia que amigos falsos preparam.
Não pensedes que retereis este trato de Itália
que um rei modesto vos permitiu ocupar e amistoso. 4205
Digo-vos franco: Destruídos do mundo os godos,
contra vós veredes armas e a gana do Império.
É questão de tempo! – Mas Rodelinda aturdida
apenas interpõe: – Ignoro, Rigo, o motivo
per o que meu pai sentiu desgosto em Totila. 4210
Quanto a mim e do coração de muitos ausentes
dirás ao rei que amor de amigos inda nos une.
Mas, guerreiro, donde veio esta guerra de povos
antes afeitos ca godos e Justiniano se odeiem?
Vive em Totila sentimento que crera impossível, 4215
tão alheio outrora ao coração que ilustrava.
Nesses anos de confusão e de dor que passaram,
muita vez indaguei dos céus uma rem e non vi
ainda, nesta guerra sem fim, o partido de Deus. –
Mas Rigo, antes que Segisberto agisse, responde: 4220
– Al eo creio saber vos dizer: O partido de Deus,
amigos, vereis num povo caído, abusado e ferido.
Esse povo, outrora em paz numa terra distante,
foi iludido e trato ao solo sereno da Itália
quando enganadores disseram: Toma que è tua! 4225
Foi em vão protestar nembrando falsas promessas
como a mentira insistiu falando paz e alegrias.
Nossos pais imigraram trazendo tudo o que temos
nova vida em nova terra, reinante a justiça.
Súbito morre um rei, e amigos falsos decidem 4230
longe mandar embora da Itália povo enganado,
triste porém, pequeno incidente como pretexto.
Desde entonce Justiniano quis que morramos!
Manda tropas maltratando uma grei sem escolha
outra senão a guerra, morrendo e padecendo, 4235
toda parte os olhos voltados a Deus inquirindo:
Por quê? Fizemos o quê de merecer esta coita?
Ora, quanto mais o peito ardente pergunta
mais sabemos que Deus è compaixão de pequenos,
Deus è partido, ilustres, duma grei sem amigos! – 4240
Rigo falou. Do silêncio que preenchia amarguras
ela ergueu lo rosto, limpando a lágrima lenta:
– Antes que ofendas mais ouvidos neste recinto,
Rigo, co ingratidão e palavra indigna de firmes,
diz ao rei o que ouvi: Ouvi que uma certa mulher, 4245
sabendo que Narses se aproximava armado da Itália,
veio falar a Segisberto e rogando implorou-lhe
não leixar, impedir como possa passagem de Narses.
Isto ouvi, e ouvi também que uma certa mulher,
sabendo que Narses se aproximava a ferir um amigo, 4250
leixou embora o próprio irmão, enfermo de cama,
para nembrar a guerreiros a mão que ampara caídos.
Isto ouvi, e ouvi que mais fazer non se pode
contra quem nada fez de mal ao povo dos francos,
homem a quem meu pai em vida jurou amizade. 4255
Como ergueremos a espada contra Justianiano,
cetro que ao povo franco nunca, nunca feriu? –
Flecha forte entrou, devastando naquele momento
mente, peito, entranhas do mensageiro dos godos:
– Ó Rodelinda, quão sinceras palavras e tristes 4260
dizes à gente que aqui depus humilde a teus pés.
Mas colherei sozinho do chão as migalhas dum povo
tão generoso, grei sem crime e sem paz neste mundo!
Deus assim escolheut e destino desdisse de godos. –
Mas Rodelinda, erguendo o rosto molhado, murmura: 4265
– Diz a Totila, Rigo, e por caridade ao amigo,
diz que deixe além a guerra e terras de Itália!
Sei, por Deus poderoso, conheço uma certa mulher
dos francos que saberá de abrigo certo a teu rei
guerreiro e não carente, como crês, de refúgio! 4270
Deixe embora a guerra e venha por dó de queridos!
Diz que uma certa mulher se deplora e lhe implora,
vivo cadáver, salve a própria vida e que fuja,
Rigo, fuja enquanto è tempo da morte e salve
sigo a vida em pranto de quem se perde por ele! – 4275
Pois porém a garganta se afogasse em soluços
súbito o corpo recede e Rodelinda desmaia.
Segisberto lançou a Rigo um olhar tormentoso
como a pedir non insistisse plus em apelos.
Mentre a princesa franca era carregada a socorro, 4280
Rigo abordou a sós Segisberto: – Impede Narses
como podes, pelo amor do futuro e dos godos. –
Mas baixando mais a cabeça incluiu temeroso:
– Vem chegando quase a primavera e cultores
como a terra precisam de paz. Se Narses trouxere 4285
a guerra na primavera, nada se planta nem colhe.
Franco que és, Segisberto, que fomos amigos outrora
mais que agora os nossos povos, resiste se podes
Narses, resiste ata lo estio e ganhamos a guerra:
Apenas isto, caro, te pede o meu povo e meu rei. 4290
Totila è bom, Segisberto! – Segisberto anuiu
auxílio, não porém milagre. E Rigo partiu
orando alto, rogando a Deus piedade dum povo.


[Elegia]

Mas pelas folhas dalgum jardim
ouviu-se a voz uma certa mulher: 4295
– Eo ando pelas trilhas e quanto
mais o meu passo as marca mais
mi dou conta da vida e triste sina
e vejo e sei que nunca mais eo verei
quem amo e mais que ninguém amei. 4300
E no entanto quanto mais eu ando
a derramar de meus olhos verdade
e fôlego mais me perco e mais
mi dói lo peso de ser e esconder
de todos homens o que me sinto 4305
e sejo: Ca dês que vejo este mundo
vejo que o mundo me fez mulher
e nem se viu jamais neste mundo
o mundo ouvir ou sentir a dor
dum ser que chamaram mulher; 4310
que sendo já maior do que mundo
o mundo menospreza e toda parte
ofende, qual se fosse menor
e pior do que o mundo o peito
redentor e sereno e que sofre. 4315
Por quê, se meu coração è maior
e mais verdadeiro que a vida
que Deus mi deu este mundo
me ofende e despreza meu ser?
A minha vida è barganha somente 4320
nas mãos do império dos homens,
que nem na vida e na morte
saberão lo que cabe e carrego
num coração maior do que a vida
e da morte, ai, meu fôlego, ai, 4325
morrer, se esses homens soubessem
o que è de fato uma guerra
e como luta contro mundo
e contra si uma vida sem erro
mas que sendo vida e mulher 4330
non tem lugar em que seja livre,
livre sem que uma espada ou braço
interrompa o candor de seu passo
por entre as aves e as árvores,
inda que apenas procurando, 4335
como busco, Deus que me alenta
e sabe, talvez, de melhor morada
por u la vida è livre e verdade
pode andar sem grilhões e sem medo
cantar por entre todas as aves 4340
e as árvores sem a tristeza
da morte! Mas Deus è grande
e mundo com Deus non se acaba
nem vida em Deus è pequena.
O mundo me acaba mas vivo 4345
e vou vivendo como o guerreiro
a quem recusaram as armas
e adentrando o campo de guerra
eleva os olhos ao céu, erguendo
a spada da prece como el única 4350
arma que tem porque Deus lhe deu
e ninguém desarma e que peço
às aves, aves, levade a Deus
minha prece que è prece apenas
e não espada e prece da vida 4355
sem rumo e que non sabe orar
mas ora e por quem padece!
Clotilde, mãe de meus francos,
desce um momento da excelsa
esfera que Deus te abonou além 4360
et ensina à vida que só è livre
na prece a rezar, como a vida
que ao menos merece o que tem
e que sendo pouco tem que ser
o melhor que puder. Tu que outrora 4365
inspiraste a conversão de Clóvis,
inspira menores e dá-mi forças
de erguer a Deus um pranto melhor
e não de murmúrio, mas de busca,
para que firme um grande Rei 4370
estenda do firmamento a sua mão
de misericórdia ad um homem,
ai, que tanto padece e que tanto
e por tão grande tempo eo amei
sem medo e sem permissão do mundo. 4375
Deus è testemunha que não de mero
carnal desejo me movo, mas amor
de meu peito maior do que a carne
e maior do mundo me impele que peço:
Piedade, Céus, dum homem que grandes 4380
odeiam mas cujo coração conheço
apenas eu, que peço amor e peço
compaixão e peço a Deus o ensejo,
se ensejo aprouver, de ajudar
o meu amigo maior e meu homem 4385
como a Deus meu Pai convier:
Levai, andorinhas, levai a Deus! –


No meio da estrada porém que Rigo varava
surgiu, por entre pilha de corpos esparsos,
confuso vulto depondo: – Socorre-me, godo, 4390
e diz, por amor dum caído outrora firme,
por onde encontro o paradeiro de Vilas
em Roma e rei Totila! – Mas Rigo, estendendo
a mão ao faminto que mal em pé se mantinha,
persegue: – Donde conheces a gente distinta, 4395
filho, que buscas e pedes, e que desejas? –
Mas o perambulante erguendo o seu pálido
rosto revela ao senhor uma mesta verdade:
– O mar mudou deveras, Rigo, as feições
de meu ser e muita fome perdeu minha força. – 4400
Rigo percebe num susto de dor e de angústia
a voz, a cor e al duma vida que falam,
testemunhando o que ali restava dum náufrago:
– Sus, Ruderico! – acede e logo se abraçam,
Rigo amparando os passos do filho de Vilas 4405
e Ruderico explicando o que o mar ensinara.
– Por qual milagre, menino, salvaste a vida? –
O jovem, porém, que já non mais se plangia,
os olhos secos e deprivados de prantos,
narrava em voz tremente de como passara. 4410
Perduda por culpa do acaso uma luta vençuda
migrara tempo incerto na noite e nas ondas,
levado de abismo em abismo por entre gigantes
crestas de mar engolindo altíssimas naves,
penoso brinquedo às maldições de Netuno. 4415
Lançado cá e lá, renegando esperanças,
pegava-se presa da morte à triste tábua
que muita vez o azar lhe tomava das garras.
Jurou, no tumulto das águas, doar sua vida
a Deus apenas se apenas Deus se abeirasse 4420
do seu naufrágio, guiando a tábua sem rumo
rumo a milagre dalgum socorro de praia.
Lavando quiçá semanas, o mar se cansara
enfim de Ruderico e lançara o seu trapo
de corpo em meio a tortuosos rochedos, 4425
donde a custo e perdendo sangue salvou-se.
Pesqueiros dividiram de peixes, passantes
largando, rara vegada, um pedaço de pano
e carne escassa. Assim andou, demandando
de campo em campo e vila em vila destino, 4430
cônscio do engenho de Deus e devudo dever
a seu pai generoso. Estava pois decidido:
Vencer primeiro a guerra a que o povo chamara
pera não leixar este mundo de modo covarde,
depois servir a Deus, procurando caverna 4435
e retiro como os homens de Bento e de prece.
Mas Rigo, ouvindo a confissão remorduda,
remete: – Filho, teu pai pensava co povo
que o mar te bebeu! Correu pedindo a Totila
como a Deus poderoso milagre e chorando 4440
de dia e de noite debateu-se de luto,
julgando a vida amena e de menos valia.
Soubesses, Ruderico, de quantos cantaram
de volta ao rei lo tamanho de tuas façanhas
e como instituiste exemplo de impávidos, 4445
bravo herói que ata morrendo se afirma
e lança firme o poder da lança que apossa,
tiveras sabudo que não a sós te salvaste,
menino, mas contigo o teu povo e teu pai!
Nasceu co teu resgate uma nova esperança 4450
de godos desesperados de guerra e de mares.
Sigamos pois que o galardão que te aguarda,
guerreiro, curave a vida, a fome e feridas! –
Mas Ruderico ouvindo em calma interpõe:
– O mar, amigo, ensinou virtude e verdade. 4455
Agora eo sei que o gesto bom que distingue
o parvo do grande guerreiro è justeza de vida
primeiro e depois apenas ganância de prêmio.
O galardão que merece uma vida sem graça
e que vive por graça de Deus è de nulho valor. 4460
Sigamos sim ca quero ver meu pai jubiloso,
meu povo bom de heróis e maiores de mim! –
Seguiram, e demandando a visão de Totila
e Vilas, novo coro de pranto e de alegre
clamor ecoou, lo pai ajoelhando-se ao jovem: 4465
– Sabia, meu filho, que o céu non permitiria
morreres quando somente começo a cumprir
dever de guerra e de amor que a Deus ofertei. –
Totila tomando ao lado o mestre de lanças
explica, emitindo-lhe a sós: – Herói educaste! 4470
Fizeste dum ímpio, Vilas, exímio de godos.
Non fora pela mão que amputou de teu braço
fizera eo já de teu filho cabeça de tropas. –
Mas antes que Vilas reponha Rigo se avança
lançando: – Foi sinal distinto, guerreiros! 4475
Ende assente está que Deus non desdisse
de godos, descendo a nós um olhar piedoso.
Honremos sempre a confiança do altíssimo:
Cumpre agirmos graça a presente sem par
e como reza a quem colhe o dever de doar! 4480
Governa, rei, rendendo ao mundo de volta
os bens que Deus distribuiu sobre nós. –
Ação de louvor, o rei mandou que levassem
rumo a Roma abundância de grãos e de gado,
dispondo: – Dai, soldados, a quem merece 4485
melhor e mais que nós e padece pior! –
Gozando viço novo, cansados se ergueram
e dando por terra desespero e tristeza
correram além, fortificando defesas
e preparando-se para a sorte das armas: 4490
Assim convém, sabiam, à lida de bravos!
Em pouco tempo abasteceram-se os fortes
e novas linhas de guerra formaram-se norte.
Totila mandara um revolto cabeça de tropas
e Teia, assim chamado, seguiu apressado, 4495
temudo a meio mundo e varão violento
no rumo dos francos! Ora Narses, quebrando
talvez o valor de Segisberto avançando
além, seria surpreso nos braços de Teia
e multitude tremenda. Tal ouvindo irascível 4500
partiu, armando por toda a terra emboscada.
Mas Rigo, acompanhado de Vilas e muitos,
insiste: – Importa, rei, além de guerreiros
a causa verdadeira que è causa de amigos. –
Totila entonce ruminando por noites extensas 4505
reúne os seus e profere: – Antes que Narses
intente, a mando de iníquos, guerra covarde
e mentira contra um povo de cor valeroso,
forjai nos jovens, homens, espírito amigo!
Unide nas mesmas cortes romanos e godos, 4510
que godos desde cedo conheçam cultura
de Roma e Roma saiba os valores de godos.
Selai serena mente entre povos distintos
e duas gentes que a Deus reunidas aprouve
nesta Itália mãe de heróis e de eleitos! – 4515
Iram-se pois colhendo, em todas províncias,
a fresca infância de centenárias famílias
por casas de senatoriais e patrícios.
Unido enfim o rol de trezentas crianças,
fundaram escola expondo o modo dos godos. 4520
Apenas Vilas, l'homem sem mão, avisava:
– Cuida de Teia, Totila, e sê cauteloso!
A mão agastada desdenha de leis e caídos. –
Mas qual escolha restava em tal gravidade,
sina incerta e cópia de hostis a caminho? 4525
Ainda doía nel imo dos homens derrota
em alto mar, incubadora de angústias.
Ora que Deus impedira a tomada de Ancona
impondo às armas o abandono do cerco,
Ravena respirando altiva e tranquila, 4530
cumpria a todo custo desgraça de Narses!
A isto assentiam todos. Mas era forçoso,
Vilas inclui, tomar a todo custo Ravena
e Valeriano e banir que avançasse o reforço.
E desde o momento confabulavam assaltos. 4535
Mas quem non via perito o perigo da empresa?
Num gesto veloz e repentino Totila cavalga
a Roma, e querendo na quietude volúvel
Leôncio, dita-lhe nova carta a Bizâncio
que em bom latim a Justiniano traduza: 4540
“Dono de gentes, inglória guerra desune
irmãos que Deus destina iguais ao eterno
banquete, na Itália, na terra como no céu,
e quanto mais a guerra se afasta de alturas,
a vida mais ensina que a causa dos homens 4545
em Cristo è paz conciliando amarguras.
Rogando pois aos céus um juízo correto
Totila ansia, renunciando de glórias
e vahidade e vitórias, o fim dum conflito
que Deus desabonou e confunde juízes. 4550
Pródigo filho, depõe aos pés de seu Dono
oferta que apenas a vida iníqua recusa:
O norte da Itália conquistado por francos,
restando em flor do antigo reino dos godos
somente Sicília, Dalmácia somente, governa 4555
as terras essas como o bem entenderes!
Os godos, retendo a destituta desgraça
e relevando do abismo ruínas que restam,
serão teus filhos dando ao trono o tributo
que o Dono quiser em ouro e prata e labor. 4560
Aponta pois a terra onde a guerra te chama
e lá te segue uma gente aliada no peito,
lutando e morrendo pelo amor de teu nome.”
Porém, o Imperador, recebendo legados
rasgava missivas, mandava embora calados, 4565
Totila ouvindo o caso, em vão insistindo.


Quando se ouviu porém na tropa a nova de Teia,
ora forte em Verona obstando estrada e cavando
fundo fosso ao longo do Pó, eversa a passagem
rumo a todo o resto da Itália, Narses vacila. 4570
Ora, mesmo em Segisberto abrindo o caminho
nada mais servia o favor, e soldados à espera
viam aflitos consternação calando constantes.
Mas João de Vitaliano alarmado se avança:
– De Segisberto, Narses, não se espera socorro! 4575
Que fazer então? Sentados à margem das ondas
somos presa do tempo e tempo foge e nos urge,
pois de Valeriano quase se exaurem recursos. –
Isto ouvindo, Narses conduz: – João conselheiro,
sei tampouco a solução deste caso assombroso e 4580
passo as noites em vão concatenando conatos.
Fala aos teus! Pergunta a conterrâneos de Itália
como agir e que via andar lhes ocorre na mente. –
Isto acertando e pronto demandados nativos,
rompe da multidão atônita Paulo, escudeiro 4585
rumo a João: – O povo de pescadores da costa
povo de amigos e costa desabitada de godos. –
Narses, porém, ca ruminava a marcha morosa
diz apenas: – Já perdeste, Paulo, prudência?
Como impor a milhares ingrato passo por tratos 4590
onde rios e lagunas tributo ao mar desembocam?
Home contorna dificilmente estuários e deltas
nem ajuda o palude pés de guerreiros em pressa.
Passam em tais empresas primaveras inteiras! –
Paulo, filho daquele trato e perito de escolhos, 4595
vendo unidas naus de João redentoras de Ancona,
nembra: – Com naves se vence a vahidade das águas! –
Narses mais desenganado: – Com naves se vence
quando bastam naus, pero Paulo, a tropa ultrapassa
já de muito armada escassa, e cônscios do avanço 4600
fácil seria aos godos desbaratar desembarques. –
Mas a voz do escudeiro consiste: – Não de galeras,
Narses, carece a travessia de rios delicados,
tão somente carece de pontes. – João dubitoso:
– Quem constrói porém, e como, cópia de pontes 4605
quando escasseia lenho, pedra e tempo e diversos
braços d'água requerem a cada passo milagre? –
Paulo compõe: – E que quereis de pedras e lenho?
Bastam barcos apenas e já teremos as pontes.
Ora, explico-me: Tiras enfileiradas de barcas 4610
erem a strada que os pés de guerreiros passavem,
calmos, a cada qual seu tempo, margens ad outras.
Imos pelas praias de marcha e seguimos de perto
lenhos flutuantes, que andemos sobre as águas
quando os rios interpuserem termo e lagunas. – 4615
Pois no meio da noite alevantaram-se as tropas!
Rumo à costa marchava lento o passo escondudo,
levando sigo pequenos barcos que desde Salones
vinham consortes e recrutando ainda em reforços,
u preciso, aventureiras naus de pesqueiros. 4620
Como Paulo aconselhara, assim praticaram:
Qual non foi beleza enfim à vida do ingênuo
ver de longe cruzar as caudalosas correntes
fila de amigos, equilibrando a toscas madeiras
corpos e os pés na inusitada baila das ondas. 4625
Quando porém Procêncio depondo os arcos olhava
a sós o poente endourecendo a cor da laguna,
Narses, sentando-se ao lado: – Respeita, menino,
tanto mar! O valente menosprezando insídias
fora presa fácil das intempéries de vagas. 4630
Ora quietas contudo nunca certas, ondinas
basta um sopro, chuva e logo avançam tragando
barca e vida. Ama se apraz a beleza oscilante,
não porém osciles, meu filho! – Assim apontava
longe a luz que naufragava rubra no incerto. 4635
Mesmo o pai, contudo, cruzando um braço do Pó
no meio do nada, andando pelas barcas, saltando,
alça os olhos ao céu clamando: – Casório feliz,
Procêncio, foi casório de rios e mares e noivos
como estes que a mão de Deus uniu para sempre. 4640
Vê! No medês instante se funde o fluxo diverso
salso e doce: Estamos no rio out estamos no mar?
Estamos em toda parte e porque vivemos estamos,
pois as ondas, porquanto revelem onde passamos,
calam ainda o que somos e somos em toda parte 4645
como agora, pequenos e salteando por barcas
sem sabendo se estamos e como no rio ou no mar. –
Procêncio vislumbrando ainda mar no horizonte
volta a si: – Entendo bem que o mundo decide
muita vez por nós na terra como nas ondas 4650
u estamos, por onde andamos e como passamos;
não contudo, nem na terra e no mar, o que somos:
Sou guerreiro! Sou guerreiro da guerra que è bõa
como a verdade que em toda parte está lo que é.
Prossigo sim, meu pai, levando migo a flecha 4655
d'arco forte! Caço em campo o peito de inglórios
pelo amor de teu nome e do nome dos meus e de Roma!
Narses, terás orgulho de mim! – O pai arremata:
– Sabe pois, Procêncio, que orgulho tive de vendo
amor de como honraste a tua mãe no infortúnio. 4660
Honra agora Roma também que padece e que sangra,
mãe de nossas mães! – Seguiam assim travessias
quando uma carta arrebatou los olhos do eunuco:
“Narses! Soldados outrora abondonando bandeira
vêm pedir-te perdão, e aumentaremos o império 4665
já de poderosas cohortes se apenas mandares!”
Isto lendo, Narses comanda que venham sem medo,
conquanto promete: Receberão enfim pagamento
todos que outrora lutaram, a quem Bizâncio devia
muita prata, porquanto a prata agora chegara! 4670
Como raio a notícia varout excitando guerreiros.
Nova carta porém, e pior, arribava de Roma:
“Narses! Por piedade do pó que resta de outrora
deixa em paz a cidade de Roma! Gera essa guerra
longe dos párias que um generoso rei protegeu! 4675
Caídos, pouco importa a quem se abriga em ruínas
rei de perto ou de longe imperadores; caídos,
sim, Totila ergueu do chão meninos e estátuas
priscas e não derrubes, Narses, mais uma vez
depois de tantas o reergudo escombro das vidas.” 4680
Narses releu por diversas vezes o apelo mendigo,
carta anônima, já que autor temeu represália.
Quem duvidava, porém, da intervenção de Pelágio
como a voz esconduda sob a sombra de escombros?
Quem non via naquela missiva a mão de Leôncio, 4685
Rusticiana e senadores e irmãos na aflição?
O eunuco, porém, aproximou-se inquedo dum poço
para beber, e deliberava o destino das almas
quando uma velha atordoada abordou-o de longe:
– Beba não, senhor, que desse poço se morre, 4690
só eo sei, e como, que desse poço se morre:
Eu, se me nembro, produzia vaso de argila
bem bonito e meu filho, o viajeiro de vila,
ia vendendo. Chegou, coitado já de meu filho,
bebeu do poço e morreu, coitado já de meu fiho, 4695
filho meu sem rancor e sem maldade no mundo.
Foi depois que disseram da má verdade do poço:
Disseram que Belisário jogou carniça no poço,
foi, que aquele forte ali pracima do monte,
forte de godo usava dele e bebendo vivia. 4700
Quando depois o godo soube disso, rendeu-se
pois sem água l'homem non tem sustento de vida.
Mas coitado chegava com sede depois e bebia
sem saber desse poço e do poço coitado morria.
Ai, senhor, è vida não essa vida que è nossa. 4705
Eu que sei o que é porque que o mundo se acaba,
pois escute: Novo deus que trouxeram de longe
gosta da gente não. Deus que gosta da gente,
deus que sempre amou foi deus Apolo e Netuno.
Quando a gente punha fé nesse Apolo e Netuno 4710
coisa ruim assim que nem de agora non tinha.
Esse deus de longe è deus que desdisse da gente!
Mas atrás daquele monte encontrei uma gruta
bem bonita, e vou botando uma flor e pedindo
junto àquela estátua de Jano por dó de Romano, 4715
gente nossa que è maltratada e coitada demais.
Era tão jeitoso o meu vaso que a gente comprava.
Leve consigo um desses aqui, e leve de graça,
leve, que é pesado comigo de andar pelo mundo
e sei que já ninguém passando aqui nesse poço 4720
tem dinheiro, mas leve mesmo assim que precisa.
Leve, que noutro poço a boca bebe e guarda
mais o resto d'água de muita estrada no vaso.
Custava caro quando tinha dinheiro no mundo! –
E lá depondo aos pés do general um ânfora 4725
foi-se embora errando e titubeante nos passos.
Era petrecho benfeito e de mui custoso labor
que lá deixara, rara e formosíssima prenda.
Mas a João que se aproximava Narses ordena:
Issem comprar daquela velha as ânforas todas, 4730
pagando muito ouro para que não carecesse
a bõa vida que a sua vida salvara sem preço.
Ora, tapando o poço da morte, seguiram viagem
inda e sempre e burlando as emboscadas de Teia.
Foi na aurora que as almas vislumbraram de ameias 4735
cores patenteando de longe a bandeira de Roma.
Vinham já de encontro Valeriano e famintos
pelas ruas saudando como a César o eunuco.
Narses cavalgando calmo e seguido de amigos
via à beira da estrada dezenas de ajoelhados. 4740
Clamavam como o pai da liberdade o seu nome
quando lançavam aos paralelepípedos flores.
Pranto mesclou-se à comovuda salva de palmas
testemunhando a redenção que chegava a Ravena.


Da porta oposta contudo adentrava Ravena 4745
o repto a Valeriano, missiva de godos
contendo: “Covarde! Toma um quê de coragem
e sai do vergonhoso covil que te esconde
e por u vacilas vendendo a vida al ócio.
Honra os homens pois e petrechos que aduzes 4750
ao menos por única vez e meçamos a força
de nossas armas como compete à virtude!
Se ainda te contas àquele rol de valentes
que desdenhando a vida em revés combateram
sem mora, vem, maldito, lutemos agora 4755
a luta que a sorte impôs a nossos povos!
Lutemos no extremo a derradeira batalha
como impávido prélio de tudo ou de nada!
Ninguém de godos consente maior espera
nem a ti te convém la fuga que encenas, 4760
armado porém temendo e clamando socorro.
Será de ratos grei guerreira que imperas?
Não envergonhes mais as próprias tropas
leixando imaginar que lhes falta o valor,
ou pior, que sendo fortes ès tu que duvidas 4765
de braços em tudo fortiores que o teu!
Mostra-te pois em campo aberto e comprova
a Roma valência de tropas. Ora, se Narses
vier, chegave decerto amanhã vel depois,
e crês que atenderemos destino de Narses 4770
quando a fome dum povo implora governo?
Se resta em Valeriano quinhão de devuda
decência, ouça o brado nosso de guerra,
porquanto em decidida mente injungimos
que venha: Traga sigo as armas e os homens 4775
todos que houver porquanto lutam a luta
final e para nunca mais!” Provocaram.
Mas caiu la carta nos dedos do eunuco
que inopinado mandou legado a Totila.
Os godos maquinavam na astúcia reptante 4780
recurso arriscado: Antes de Narses Ravena
e Valeriano e restos fossem rendudos!
Quando porém se acumularam de longe
rumores que Narses demandara a cidade
em quantidades dignas do Império Romano 4785
e tremenda cohorte, tumulto e pavor abalaram
moral de pequenos e grandes. Ora, diziam,
se nem com quase toda Itália em domínio
ganharam batalha contra o mar e João,
ganhavem inda contra as cópias de Narses 4790
em numerosa grege e sedentas da morte?
Totila, reunindo o conselho dos grandes,
buscava em pressa discernimento de guerra
quando de Roma não missiva arribou-lhe
e sim Leôncio que prorrompia agitado: 4795
– Ouvimos, rei de Roma, a nova do eunuco
e derribamos ao chão uma indébita espês.
Terás desdito, Totila, da mão generosa?
Cogitas sim trazer o teatro de guerra
adentro Roma, muro adentro as ruínas? 4800
As obras de vida e reergudas estátuas
ora cairão de novo no estrondo das armas?
Avisa, rei, somente avisa que vamos
embora levando cada qual o que possa!
Ó Totila, cabem tantas histórias 4805
em Roma e tanta vida! Não reentregues
à guerra os alicerces que mal se reeguem
de cercos, incêndio e derribada de pedras.
Mas que faremos e como, aonde iremos
e quando chega Narses e quando morremos 4810
e nossa Roma enterramos? – Totila prorrompe:
– Não me ofendas, por caridade, Leôncio!
O povo de Roma conhece o meu coração
que nunca neste mundo negou-se a caídos.
O cerco foi num tempo e num caso diverso 4815
como um caso diverso a tristeza do incêndio.
Percebo bem que nutro em vão esperança
e que nunca perdoaram de mim um momento,
gesto infeliz que tantas vezes chorei
e, como vejo, em vão intentei reparar. 4820
Percebo tarde, Leôncio, de tuas palavras
o medo e pouco apreço que Roma mi guarda,
percebo triste e contudo alegre te peço:
Retorna em paz, amigo, que a mão violenta
que porventura abata os menores de Roma 4825
jamais no mundo, jamais será de Totila.
Paguei demais o preço amargo dum erro
e decerto degustei da lição do remorso.
Mas seja sim se assim requer o destino:
El homem se virtuoso jamais se equivoca 4830
e Totila, tendo errado apenas um dia,
errou demais, errou per toda uma vida:
Todo acerto do resto è resto somente.
A guerra nova porém, e se nova vier,
será distante de tais muralhas minadas: 4835
Ere numa estância mais conforme à desgraça,
Leôncio, que atende o povo dos godos ou Narses
ou todos ambos. Conforta a Roma, entretanto,
e quem souber orar que interceda por nós! –
Assim falando Totila pôs o exército godo 4840
em marcha rumo a Ravena destino de guerra.
Mas pouco andou em campo e veio de encontro
cultor de terra depondo aos pés do monarca
verduras e pranto, armado apenas de rugas:
– Bonito è ver a florescência dum prado, 4845
Totila, quando se deixa em paz a semente.
Bonito era o tempo de Teodorico, que o rei
mi deu de terra e vim plantando e vivendo.
Chegava colheita, eo vinha a pé entregar
com gosto verdejância de mundo a meu rei. 4850
Mas veio a guerra e guerra è isso, pisar
no grão e matar quem nem consegue brotar.
Mas olha, rei, se non brota, morre a semente
que quer nascer e morre o que espera brotar.
Destino è assim: Parece que vem a colheita 4855
coa folha verde saindo, e passa uma tropa
e pisa e guerreia e vem morrer no meu campo.
A mão condenada quer colher e non pode,
passa a primavera enterrando esse mundo
que meu arado plantou e que a guerra abortou. 4860
Passava gente sem rumo na estrada e parava
et eu parando dizia: “Filho, sai dessa vida
que esse rumo è de nada e non passa por nada.”
E passando-lhe enxada e didivindo da mesa
aumentei sem medo a família, que Deus abençoe. 4865
Mas rei, trabalho valia de quê, se nel hora
do grão nascer passava a guerra e pisava?
Quando a lida è de bode l'homem na luta
sai correndo no meio do mundo co bode.
Mas el homem que planta aonde que corre 4870
e corre como a semente que nem desabrocha?
Amor demais de Deus que me deixa viver
e só, que de grão nulhome nado consegue.
Mas vê, senhor, que milagre e que coisa bonita:
Juntei família e sustento e me vim semeando 4875
e já non sei se por certa ilusão de meu Deus
ou que coisa que for parece ogano que brota!
Será que brota, Totila? Passa por longe,
rei, e marcha além de meu prado arruinado.
Pensei que dessa vida eo ainda colhesse 4880
alguma coisa depois de tanto e sem fruto.
Contudo já me canso de vida e de angústia
que è desespero o fim de tanta esperança.
Percebo já que a guerra precisa dum campo
e de todos os campos ela gosta è do meu. 4885
Mas desse estio, Totila, a vida non passa
e ninguém dos meus conseguirá suportar
um ano a mais de fome e de aborto de terra.
Toma então, meu rei, desta pouca verdura
que muita vida perduda te traz e perdoa, 4890
se podes, quem plantout e non pôde colher. –
Totila, porém, estende a destra ao cultor
e retomando-lhe dedos em beijo ajoelha-se
franco: – Como aceitar a prenda distinta,
amigo, se a mim doando te privas da vida? 4895
A prenda mor que mi deste dom de palavras!
Posso morrer em paz enfim, que na Itália
ao menos um se recorda de Teodorico.
Planta mais, cultor, e levanta caídos
da estada a que unidos laboreis amizade. 4900
Era de paz o intento outrora dos godos,
era somente amor de povos que cultivava
o benfeitor que te concedeu esta gleba.
Perdão te peço eu que viajo de guerra
e muito mais te dera se Deus permitira. 4905
Mas ouve! Meu povo inteiro marcha comigo
e vamos já de encontro ao fim desta luta,
fim qualquer que seja, que o povo dos meus,
cultor, non mais suporta o destino dos teus.
Se algum apreço porém te resta de antanho, 4910
tributo que rogo è rogares a Deus piedade. –
Assim orando, um triste rei reergueu-se
e devolvendo verduras partiu de seu rumo,
nenhum dos pés desbaratando sementes.
Andou contudo pouco e missiva secreta 4915
arribava: “Ainda è tempo! Se amas a vida
apenas cruza o Pó que estaremos unidos.”
E bem sabia o rei de que mãos delicadas
e peito generoso as palavras brotavam.
Cruzando qual dos rios porém e que ponte 4920
salvasse as multidões que Totila aduzia?
Guardando pois ao cor uma carta querida
o rei seguia avante no amor de seu povo.
E pouco menos andou e legados de Narses
chegavam, o qual leixara embora Ravena 4925
no rumo de Roma junto à tropa universa.
Intrépidos pois os enviados avançam:
– Não demais distante acampamos, Totila,
munidos de tudo. Ouve porém a proposta:
Narses impõe a paz em nome do Império 4930
se apenas o povo teu abandones a Itália. –
Totila demite: – A paz è certo bem-vinda
quando espelha justiça. O povo a que falas,
legado, nada roubou que te deva entregar!
Chamou-nos Zenão, o Imperador, ao domínio 4935
da Itália e cá viemos, fazendo-lhe agrado
e fiéis dum amigo. Quebrar palavra de honra
cabe sol a cadelos da estirpe que serves.
Não porém se conforma a meu povo de retos
o tratamento ao ladro fugindo em delito. 4940
Aqui ficamos de jus! – Legados contudo:
– A condição de paz è somente que vades! –
Totila apressado: – Pois na sorte das armas
home então decida quem vai e quem fica! –
Os núncios retrucam: – Marca logo a data! 4945
Marca e cá viremos e o resto veremos! –
O rei, enfim, reconhecendo o tamanho
del ódio que produzia à boca palavras,
recua aterrado, contudo pouco lhe resta
e responde pausado: – Em sete dias veremos 4950
pois de Deus o destino e duelo dos povos. –
Assim partiram levando a Narses a nova.
Totila em valentíssimo incêndio de fúria
manda a marcha seguir ao encontro do eunuco.
Nel ato, a multidão de soldados ergueu-se 4955
e pôs aos ombros lança, espadas e flecha,
legados correndo à cavaleria dispersa
de Teia que, congregada, viesse a combate.
Mas Rigo reconhecendo o risco iminente
e correndo ao amigo em transtornados saltos 4960
impõe: – A repentina marcha que imperas,
rei, surprehendendo guerreiros afraca-os:
O viço exausto è mau gestor de batalhas
e luta mal a mão que carece de tempo,
preparo d'armas como perícia de campo. 4965
Calma, Totila! Reflete melhor nosso caso
e deixa Narses chegar, que chegando Narses
ere dos seus o fardo da marcha e do pouco
tempo e preparo escasso. Aqui atendamos!
Intentas de fato destruir o teu povo? – 4970
Totila sucede: – O caso inteiro reflito:
És insano? Marcharam demais pelo mundo
e não lhes cansa a pouca estrada que resta.
O trunfo nosso, Rigo, è chegar de surpresa
e vê-los não exaustos, contudo confusos. – 4975
Assim lançou por vez primeira por terra
o conselho de Rigo e Vilas porém interveio:
– Totila, moral dos homens meus titubeia:
Cuidado requer indústria! Basta uma falha
e veremos nossos godos mais confundidos 4980
que aquela grei de vis. A derrota nas ondas
ainda mal se tragou e temores afogam
anseio de força. Ouve, Totila, por Deus,
esperemos a Narses! – Quanto mais a fala
ofegava mais o rei balançava a cabeça, 4985
limpando a profusão vermelha dos olhos,
repondo: – Bem conheço o temor de derrota
e para menos temer que se lute sem mora!
O desgostoso estado em que vejo meu povo,
amigo, não mi permite maior incerteza: 4990
Perda de tempo, Vilas, è perda de guerra.
Tenha fim, portanto, aflição de guerreiros!
Corramos logo, ergamos o véu do destino
sem medo e desespero de vida e de morte,
pois além da vida e da morte se avança 4995
a retidão dum povo! – E assim refletindo
os godos marcharam, temor no peito e coragem.


Narses, porém, ouvindo a narração de legados
manda prepararem todos braços e as armas
para aurora, já prevendo ataque iminente. 5000
Não se engana, pois o primo raio do leste
longe revelout a bandeira em marcha dos godos,
grave e retumbante brado ecoando nos montes.
Vendo enfim moções dum formigante horizonte,
homens de guerra em sobressalto pedem palavra 5005
quando Narses, interrompendo angústias, explica
em ordem formações de batalha. Os homens paravam
mirando cada qual amigos, sentindo nas clavas
peso salvador de vida, esperança no extremo.
Medo porém falava altior ao cor de bastantes 5010
e Narses, reconhecendo o desassossego de tantos
como até de Procêncio, conclama os combatentes.
Tendo perante si, aflitos e ouvindo calados
grei de regulares soldados e bárbaras gentes
(hunos, lombardos, érulos, persas junto a romanos 5015
em multidão sequiosa), a voz do eunuco ressoa:
– Quanto orgulho escorre destes olhos, meninos,
ao ver gregada sob a sombra de excelsa bandeira
grei de amigos, povos tão distantes de mundo
lado a lado erguendo al ombro amor à justiça. 5020
Será milagre divino a concordância das gentes?
Pois humano, filhos, e muito humano milagre
mas milagre que apenas este pendão oferece,
largo e generoso e já maior do que os séculos.
Não vos enganeis na aflição porquanto a verdade 5025
pela qual erguemos as armas desfaz-se da prata,
d'ouro que paga e não porém sacia a virtude.
É por bem maior que lutamos! O bem que elegendo
pelo ardor defendemos è bem de Roma que herdamos.
Vede pois o que somos e quão distinta amizade 5030
colhem povos unidos no amor do Estado e del ordem,
rol de moderados poderes e harmônicos órgãos,
foro das instituições e das leis protetoras.
Tal tesouro antepassados suores leixaram
não a Roma apenas, porquanto ao braço decente 5035
Roma abraça e não pergunta ao amigo da lei,
jamais, se seja grego ou persa ou donde provenha,
antes estende sobre todos um nobre estandartem,
abre as portas do Estado protegendo perdudos
homens como ao general humilde que vedes. 5040
Eu, meninos, nasci sem prata e fama e distante
pelos vãos de Armênia, u nimigalha è destino.
Desde cedo, porém, no amor de leis e del ordem
Narses reneguei minha vida servindo a maiores
homens e causa maior. E desprovudo de mérito 5045
mesmo assim gozei da confiança do justo
como do Imperador que aconselhei pela vida,
eu, que vim servir apenas e agora comando.
Não, heróis, em povo alheio algum o pequeno
pede amando a lei refúgio e vive sem medo, 5050
Roma apenas ama o amor renegado dos retos,
e a quem duvida rogo examinar minha vida.
Credes mesmo que essa nova estirpe de godos
possa gerir sem lei correta o destino de terra
tanto tempo acostumada à constância del ordem? 5055
Vede o que foi outrora e donde veio Itália,
vede se a tal porção do Império cabe barbárie!
Digo porção? Errado disse, direi genitora
deste Império Romano cuja bandeira elevamos
e cuja bandeira tanta vez elevou nossas vidas. 5060
Tão distante por este mundo andaimos, guerreiros,
e agora titubeais que è já patente a vitória?
Sejamos ora dignos da longa marcha que agimos!
Ora que Deus nos concedeu chegar à batalha
como compete ao viço que não vacila no prélio 5065
para alçar maior o nome dos Céus e do Império,
ora lutemos como cabe ao fiel combatente,
ora lutemos, filhos, a derradeira das lutas,
luta derradeira talvez das vossas vidas
como talvez a derradeira luta de Roma. 5070
Usai de vossas armas como quem se despede
já da vida e das armas, não porém da vitória.
Homens de guerra! Nõ é derrota que apaga virtude,
vício somente e covardia. Se acaso cairdes
como muitos de vós cairão que sei e que aviso, 5075
sabei cair a queda de quem entrou em batalha
para ficar e não fugir, servir sua causa,
pois caindo o bom herói è maior do que a vida,
vida sem honra e sacrifício morte somente.
Ora vivei, guerreiros, a verdadeira das vidas, 5080
eia, regai de vosso sangue o grão da vitória!
Uma coisa apenas, apenas uma eo vos peço:
Ide à luta orando a Deus piedade a pequenos,
pois a força das armas e sacrifício perito
quando Deus non quer non desabrocha vitória, 5085
mas vitória que vem è graça apenas de além.
Rogai de Deus um generoso olhar sobre nós
e a guerra venceremos como a nossa miséria!
Basta tão somente lutar coa virtude de sempre
como cabe à bandeira da bõa guerra que erguemos! – 5090
Totila, contudo, alheio às orações dum eunuco
como à causa de tal clamor, espera na angústia.
Ora, Teia com cavaleiros por onde passavam?
Inda chegave a tempo da luta? Mirando medrosos,
o rei dos godos manda a todo instante legados 5095
a Narses a ver se ganha tempo. Mas os soldados,
vendo atraso de Teia e presumindo o pior,
corriam atordoados contendo prantos et uivos
(como pois travar batalha tal sem cavalos?)
quando carta arribava anunciando a chegada 5100
em meio dia ou menos de cavaleiros sem medo.
Totila, erguendo caídos e confortando abalados,
nesse instante alçou-se pelo relevo do monte
frente às multidões que preparavam espadas
como escudos e lanças. Conclamando guerreiros, 5105
viu voltarem-se os olhos sequiosos de alívio
rumo ao rei, que pronunciava forte a verdade:
– Povo dos godos! Aguarda o galardão da vitória,
pois vençudo Narses e a grei de vis que congrega
já vencemos a guerra e as incursões de inimigos 5110
são menores que o nome e nossa história revela:
Não existe no mundo, guerreiros, o viço do justo
mal algum sofrer na vida ou na morte e na vida
como na morte somos já maiores em nossa virtude.
Esses vis que se aglomeram a velhas bandeiras, 5115
que pricípio de bem e que justiça professam?
É bonita, godos, fortuna à custa de escravos?
Erguei melhor a cabeça ao renembrar o que somos:
Quando em eras antes do tempo o povo dos nossos
indo em paz vivia alçando aldeais na estepe 5120
como em florestas, dividindo bens a menores,
houve nota alguma de irmão leixado à miséria?
Não erguemos na piedade o nosso estandartem?
Houve godo que essendo pobre morresse de fome?
Vossas mães estão aí, perguntai que dizeiem 5125
quando na história recusaimos as mãos a caídos!
Ora, virtude nos fez e virtude um rei de queridos,
rei da paz aduziu à terra Itália que herdamos.
Cumpre lutar, meninos, Teodorico nos olha
triste e receoso do céu que Deus lhe concede. 5130
Eles, que ao peito depuseram a nossa derrota,
vivem no mero amor dum miserável passado!
Não bastando o mal que os opressores trouxeram
pelos séculos inda atentam danada campanha.
Lutam pelo bem de poucos, descaso a pequenos, 5135
nem lhes importa fome se esgueirando na estrada:
Tomam a terra dos pobres e a liberdade se esgota
frente a gana de Imperadores, amantes del ócio
como del ouro, usurpadores de todo trabalho.
Esta grei, guerreiros, não se conforma conosco 5140
pelo bem que como amigos trouxemos à Itália.
Vem lo escravo arrebentando grilhões e descobre
em nosso peito abrigo, abrigo o peito dos nossos
como dos nossos somente. Vem o filho da fome,
pária que Imperadores de longe abandonaram, 5145
e damos à fome pão impondo fim à vergonha.
Vem a vida erma e sem rumo e recebe de nossos
tão somente amizade, novo sentido e trabalho,
pois assim nos formamos povo, assim prosperamos
juntos, crescendo e dividindo a vida em verdade. 5150
É preciso dizer a muitos homens a história
dum povo reto e que essendo reto o mundo odiou,
destino invejou. Cá portanto estamos, amigos,
frente ao futuro, ao novo ordem que cabe melhor
à triste e destituta terra que herdaimos e amamos. 5155
Isto sabendo, filhos, lutai com todas as armas,
homens merecedores que somos de paz e de vida.
Lutai no amor da nossa história, nosso futuro,
pois perdendo que nos resta em passado e porvir?
Não, guerreiros, non seja este o fim duma gente 5160
tão generosa! Não leixemos que a mão de impostores
apague da história o nome do povo dos godos.
Já demais sofremos em desengano, injustiça
seguindo e perseguindo nossos passos serenos.
Tenha fim a dor! Ergamos altíssimo as clavas 5165
para enfrentar a derradeira luta que atende.
Inda temeis, meninos? Que temer, generosos?
Credes que os vis ali gregados lutam por honra,
homens comprados sem nulho amor à bandeira?
Credes que algum lombardo vel outro povo distante 5170
venha dar a própria vida no amor de Bizâncio?
Quando a batalha lhes impuser o peso del honra,
filhos, sacrifício de vida e morte a comprados,
bem sabei que mercenários debandam embora!
Não porém na ganância de impreciosos metais 5175
entraimos destemudos neste campo de guerra,
mas salvando a própria vida e vida dos nossos.
Nada obstante, quanto orgulho corre dos olhos
meus ao ver a multidão que aqui se congrega
como as ondas do mar maior, sabendo com Deus 5180
que nunca nulho guerreiro foi preciso comprar
e lutam pelo amor apenas, jamais por moeda.
Salvam pois o povo amigo que longe inimigos
tantos quiseram destruir, apagando de mapas.
Não digais em tempo algum que buscamos a guerra! 5185
Quantas vezes, caros, em meio a quantos apelos
foram feitas propostas de paz? Ditosos intentos
rem encontraram além da indiferença do Império,
pois nõ é la paz que desejam, desejam o fim
de nosso povo, do rei ao peão. Portanto às armas! 5190
Lutemos como quem luta não por mera contenda,
pela sobrevivência do próprio povo e dos últimos
nomes que restam. Não titubeeis na batalha!
Não carece de grande esforço certeira vitória
contras multidões de mercenários confusos. 5195
Esta basta, guerreiros, esta vitória basta
e nunca mais reerguereis bandeira de guerra.
Rogai a Deus piedade e nossas armas venceiem,
Itália doravante a flor que regamos serenos
como quem obra num campo abençoada semente. – 5200
Pois assim falou Totila, o rei de seu povo,
e assim rejubilou-se novo o viço dos godos,
pronto para a sorte das armas, o cor confiante.
Ora o monarca, montando repentino o cavalo,
passava frente aos seus em dourecente armadura, 5205
destra lançando alto lanças que a mão esquerda
calma pegava del ar em queda franca e velozes.
Homens de toda grei, impressionados miravam
quanta perícia o rei atestava. Lançava sem medo
como em desafiando inimigos, erguendo o moral 5210
ao mesmo tempo de godos. Ora, Narses, o eunuco,
certo non fora capaz da façanha. O rei cavalgava
como cavalga quem passou la vida sobre cavalos.
Era imagem sem par a luz do céu refletindo
nítido o rosto amado a refratárias distâncias: 5215
olhos claros mirando as almas em cada soldado,
pálida a tez e cabelo balançando ao vento,
barba envelheçuda, nariz e boca delgados,
mãos delicadas nem por isto alheias à clava.
Ele dançava! Firme em dirigindo o cavalo, 5220
dava aos olhos mil dos encantados guerreiros
rara prenda, lição de vida heroica nas armas.
Como uma estrela irradiando o sol que reflete
brio da verdade, Totila cavalgava e bradava
como a trompeta final anunciando vitória. 5225


Mas antes que combatentes de Teia arribassem
àquelas regiões tortuosas del Úmbria,
dava-se já contenda aos pés dum outeiro,
porquanto os ambos openentes o vendo
viram vantagem para a mira do arqueiro. 5230
Totila num sobressalto enviara em velozes
cavalos guerreiros, já porém se abrigavam
peritos de escudo, dezenas a mando de Narses
obstando estrada. Eram menores em número
não contudo na audácia como se infere 5235
dum raro episódio: Quando houveram chegado
aos pés do monte e vislumbraram escudos,
os godos prepararam cavalos e crassas
clavas ameaçando e mostrando o tamanho
da morte, mas como os escudeiros do Império 5240
não lhes cedessem, cavalgaram de encontro,
a mão armada caçando o peito de incautos
e a pata de violentos equestres cabeça.
Romanos então se ajoelharam às pressas:
– Já se rendem! – ouviram coro de godos 5245
em prematura emoção, porquanto inimigos
tomando da terra o quanto vissem de pedras,
roçavam-nas contra superfície de escudos,
criando no atrito os acutíssimos guinchos
e sons que transtornavam éguas, medrosas 5250
ora em desordenados relinches e saltos
enquanto escudeiros provocavam sem pausa:
– Não fujades à guerra, covardes, e vinde
medir a força das armas! – Mas se avançavam
os godos titubeava o galope dos bichos 5255
ouvindo os guinhos. Inda não conformados
em tal frustante cena, os homens do rei
largando rédeas desciam trazendo espadas,
lançando-se contros detestados broquéis,
porém Romanos, peritos de antigo modo 5260
depondo cabeça e corpo atrás de escudos
e lado a lado, desbaratavant o ataque,
espada pronta à mão esquerda esperando
a brecha do imigo et al; gesto impensado
expondo braço ou peito ao gume afiado. 5265
Melhor delibarando incertezas do acaso
surpresos godos mandam legado a Totila
pedindo reforço. Não porém debandaram,
antes lançavam assaltos notando melhor
a cada movimento o preparo de guerra 5270
dos escudeiros de Narses. Estava claro,
patente estava: Prosseguindo a contenda
conquanto nada perdessem nada ganhavam.
Astúcia contudo guiante, lanceiros iam
logo se adequando al agreste cenário, 5275
agora evitando contato, caçando lacunas
de gesto e falhas que vez e vez sucediam.
Ganhando tempo exasperaram romanos
e pouco a pouco o bom moral oscilava,
fortes acumulando respeito e vitórias, 5280
quando da barra ajoelhada de escudos
alevantou-se firme um homem intrépido:
– Eia, godos, vejamos qual dos vossos
guerreiros luta à minha altura e lutemos! –
Assim falando, avançou perante broquéis 5285
chamando imigos à sorte e guerra de corpo.
E com certeza sabiam que apenas perito
pusera um tal desafio. Contudo contavam
sempre aqueste ou aquele agastado perdendo
a paciência primeiro, depois a contenda. 5290
Ora, o valente, quando não derrotava
armado muitas vezes tomava a lanceiros
espada e lança coas próprias mãos e lançava
jamais ao peito do imigo, e sim ao chão
num gesto desonroso à virtude de incautos: 5295
– Godos non julgo dignos, não, de morrer
por minhas mãos! – E provocava aos poucos
incêndio nel imo dos cavaleiros, bradando
sem medo e desarmando as mãos de peritos.
Quando contudo a multidão ultrajada 5300
veio toda de encontro ao peito do herói,
os outros homens levantando os joelhos
e escudos encorajados pel alma do sangue,
gritaram guerra e defedendo de ataques
o bom valente, ainda uma vez impediram 5305
fortíssimo prélio. Mas o caso notório
vindo ad ouvidos de Narses, Narses indaga
os detalhes, ouvindo impressionado relatos.
Quando pois se lhe avança l'homem sem medo,
em qual surpresa os olhos do eunuco desvendam 5310
de tal semblante um nome estimado: Paulo
que outrora guiara pelo palude as tropas,
os pés enfileirados passando por barcas,
fizera-se Paulo herói maior do que fora.
Ao desarmado desarmador de armadíssimos 5315
e como animado dalgum divino elemento
Narses, o eunuco, orou: – Doravante serás
o guarda, herói, do general que te fala
e doríforo como os hipaspistas exímios! –
Assim falando, Narses tomou-se de Paulo 5320
como de amigo fiel no peito, retendo-o
todo instante perto de si na batalha.
Do monte contudo aproximava-se Rigo
a mando do rei averiguando o terreno.
Mal vislumbra os escudeiros do Império 5325
contendo ataque e remata: – Bons de guerra,
aqui perdemos tempo que o caso è perdudo
e não me espanta. Conheço bem la façanha
de escudos, escudeiro que sou, e de fato
em vão roguei do rei enviasse broquéis 5330
e não cavalos. Sabia já que um escudo
se atento vale mais do que vida e cavalo
jamais derruba e nem espada a constância. –
Dito isto, guiava embora do outeiro
desiludidos guerreiros quando romanos, 5335
ora embebudos de si, cercaram equestres
e a marcha de godos, provocando iracúndia.
No mesmo instante alevantaram-se espadas
das ambas partes e corpo a corpo o combate
tingiu lo chão. Seguindo aviso de Rigo, 5340
porém, de guardando as armas para batalha
em campo aberto, contentavam-se godos
na defensiva e na retirada ligeira
ao sopé, recuando não contudo fugindo.
Mas Rigo, acompanhado apenas de escudos, 5345
num súbito lance foi cercado de lanças
e gumes, hostis interrompendo-lhe passo.
Num gesto inusitado, interpôs o seu braço
em frente aos violentos que ali marcharam
e deu-se prélio: Os poucos homens seus, 5350
peritos no escudo e desprovudos d'al
obstavam. Na força de suas égides largas
a ponta e desavisada espada crepava-se
contra placas. O peso de tantos metais
condidos em arma rem impedia que Rigo 5355
erguesse como pluma apenas, levíssima
prenda que o braço alçava e rabiscava
nel ar e cá e lá, confundindo peritos.
Vindo dous ou três em fortíssimo ataque
o braço de Rigo entanto sabia o momento 5360
de cada espada e rumo de gume e de punho,
a mão esquerda livre esperando vacilos.
Como girasse a toda parte e sem tempo
o metal que a vida inteira passara lidando,
impunha contro corte o peso nel ângulo 5365
certo e deturpador de intrépidos filos
como um destino destruidor de desígnios.
Quebrando lanças, exasperava os incautos
e incautos no desespero e nel ódio lutavam
de menos perícia. Menosprezaro o talento 5370
da vida dedicada ao emprego correto
dum certo petrecho! Quanto mais perdiam
a ponta afiada mais se lançavam a Rigo,
irados ao ver o fio cortante do rasgo
retento na superfície firme e rugosa. 5375
Era como se o ferro gostasse dos golpes
que quanto mais apanhava mais o poliam.
Incrédulos frente a milagrosas proezas
lutaram até cair el última espada,
ponta quebrada ou torta, força humilhada; 5380
brados insanos, Rigo entretanto calado.
Notaram enfim lo viço de quem se impôs,
e cada qual entendeu que aquele petrecho
de lidas era inquebrantável. Partiram.
Souberam apenas depois, no meio da noite, 5385
que o portador de escudos era o maior
escudeiro de godos e protetor de Totila.
Estava em tudo apagada aquela vitória
de poucas horas antes e escudos menores.


Mas aurora trouxe nova força al Império, 5390
Narses preparando tropas: Arqueiros subiram
rumo ao monte tomado e favorável à mira,
mãos sutis. Acompanhava também Procêncio,
jovem que pela marcha mostrava já pontaria
certa como certa a lida na corda del arco. 5395
Lá subira enfim no entusiasmo de guerra
pronto a proezas. O pai porém chamando João
apenas roga: – Anda perto e defende da perda
Procêncio como possas, cuida bem de meu filho! –
Ora João no apreço maior que nutria do jovem 5400
jura inesitante, os olhos voltados ao monte.
Pois chegassem de longe os cavaleiros de Teia,
Totila já non mais carecia de espera e dispunha
godos em posição de batalha, exército inteiro.
Narses pois concatenando os riscos ordena: 5405
Frente a todos e face a face perante inimigos
fosse exposto o povo lombardo, grei violenta
cercada em toda parte por cavaleiros do Império.
Não lhes fosse possível reconhecendo perigo
mudar de ideia e desertar, repentinos em fuga. 5410
Hunos dispôs atrás de lombados. O povo contudo
dos érulos, grei fiel de palavra, houve consigo,
cônscios que eram dum erro grave e gratos em tudo:
É que em certa guerra contras armas de Vítice
d'anos antes ao lado de Belisário a comando, 5415
érulos vendo-se a sós e já dispersos ao norte
do Pó, num gesto indigno saquearam cidades
pondo fogo, roubando inocentes. Quando seguiam
porém a Milão buscando chus, nembrança pungente
veio ao campo frear os pés da grei cobiçosa: 5420
O próprio rei doara a vida na causa do Império!
Certo um povo a quem Fanisteu cedera existência,
o povo de Narses que socorrera o rei faleçudo
fora povo amigo merecedor de atitude diversa.
Súbito pois e arrependudos de morte nel imo 5425
cruzaram embora. Regando em altos prantos Itália,
eles mandaram missiva confessando o seu triste
crime, contendo dentre mais: “Concede perdão,
Senhor, a povo ingrato em desditoso delito
e decide, por caridade, a qual deserto de mundo 5430
iremos além, escondendo sob as mãos a vergonha,
sina infeliz dum gesto apagador de amizades.”
Mas o Imperador, conquistado dalguma emoção
melhor e mais generosa que a brevidade da vida,
deu-lhes perdão e permitiu e pediu que voltassem 5435
pronto, para lutar ao lado de Narses campanha
nova em novíssimo gesto apagador de vergonha.
Isto ouvindo, mudaram rumo e vieram de encontro,
firme no cor o intento de reparando uma falta.
Quão diverso entretanto o peito de Justiniano 5440
julgara um povo rem pior do povo dos érulos;
quão diversa atitude frente a godos legados
portando em vão desesperadas missivas e apelos!
Fato somente e mistério maior explicam o vário
modo dum peito protetor e verdugo de iguais. 5445
Mas ali se juntava aquelora o povo dos érulos
grande e grato, Narses o pai. E Narses dispondo
mais dispôs nos flancos laterais os lanceiros
junto a mar de espadas, metal bradando com vozes.
Totila enfim notando as posições de inimigos 5450
pôs o grosso das lanças na prima linha de guerra,
para atrás apenas espadas, arqueiros ao lado.
Rigo ainda assim e Vilas ouvindo as ordens
não hesitaram: – Mistura mais espadas ao campo
para que a força da lança esteja menos exausta 5455
pois vier ajuda do flanco. – Totila discorda:
Quer ativos na linha frontal lanceiros somente
e pouco atina com Vilas balançando a cabeça.
Já se avança Ruderico na frente do exército,
braço intimorato em carregando o petrecho 5460
junto à grupação de clavas, forte dos godos.
Ó destino incerto, será possível vencerem
ambos os lados, merecedores ambos de prêmio?
Mas fortuna è surda a preces e avançam as armas
e súbito vida contra vida em fortíssimo impacto, 5465
dous imigos mesclando morte ao rubro da aurora;
sangue ao chão impondo a raios nascentes ocaso.
Firmes em tanto embate as armaduras colidem
contras outras, umas contras outras lutando
lança e spada. Fortuna viu la mão de lombardos 5470
longe arremessar ao chão oponentes sem viço,
godos no mesmo instante atravessando armadura
como corpo hotil na fúria insana de lanças,
muitas vezes uma apenas quebrando coragens.
Raro guerreiro tropeçando ergueu-se de novo 5475
pois milhares de pés pisoteavam a carne.
Passo desordenado passava contra o primeiro,
braço cravante ao peito ou pelas costas espada.
Godos peritos, lança mirando ao longe perdudos,
davam rumo forte à clava: Deitaram à terra 5480
gama de incautos arrancando sem dó suas armas
da carne furada, agonizante carcaça jorrando
fonte de sangue. Vinha porém destemudo lombardo
contra os pouco atentos: Segurando cabelos,
súbito o golpe dissociava do tronco cabeças, 5485
novo troféu ergudo ao céu. Passava no rosto
fel em ritual tenebroso quando de encontro
gótica espada ou clava terminava-lhe o gozo.
Doutra vegada o guerreiro, crepitados ousados,
vendo além amigo em perigo corria de auxílio, 5490
pronto dilacerada a carne atacante por duas
lanças fortemente enterradas, caindo sem alma.
Doutras almas ainda arqueiros cortaram o grito
quando flecha no coração calava impropérios.
Ora atacando marchavam, marchavam ora em defesa: 5495
Marchavam pelo campo e pelas pilhas de corpos,
em todo andar tegumentos ofendendo a semente.
Quando enfim dos godos se aglomeraram espadas
nem esperavam mais o gume dalgum dos érulos,
nova batalha ecoava pelos metais de armaduras. 5500
Pois do trom atroz que trovões invejaram dilúvio
d'ondas cobriu a gleba de fluidos atros purpúreos.
Rem de mais impedia façanhas que a mão inventava
como os passos de Ruderico cercado e sem medo.
Ele, atacado, jogava a sós de ribas ciclopes, 5505
lança deitada ainda à terra. A lança, se erguia
rumo ao peito de certo atrevido, a vida fugia
já do corpo amedrontada evitando arremesso.
Mas ao filho de Vilas não feriram feridas
quando lhe houveram deformado o rosto ligeiras 5510
como o corpo. Rasgaram fendas que pouco notava
pois sabia: O bom guerreiro adentra o combate
para exibir na ferida troféu de sacrifícios
pelo amor de maiores. Sangra e luta contente:
– Vinde, malditos! – repetiu lo jovem lanceiro 5515
frente a muitas levas. Impressionados lombardos
vinham à luta menos nel ódio que pelo respeito
franco e fascinante a tão impávido apelo.
Certo a morte pelas mãos de tal corajoso
viço a desprezar sem medo a vida e sem mora, 5520
tal derrota lhes era quase motivo de orgulho.
Não existia Ruderico enganar-se na mira
nem mirado jamais recuar evitando projéteis,
não, a palma da mão que muita lida adestrara
já se fizera quase pedra. E calmo estendia 5525
contra flecha e lança escudo aberto de carne,
calos imperfurados derrubadores de mísseis.
Muita vez, o herói tomou la espada de imigos
como clavas, partindo em dous metal e madeira
quando batia a toda força contra o joelho. 5530
Numa coisa, entretanto, Ruderico cedia:
Quando hostis oferecendo-lhe a vida deitavam
armas ao chão, ajoelhados rogando clemência,
mão de honor ergueu rendudos. Issem embora
como amigos leixando atrás as armas perdudas! 5535
Não se esquecera jamais da própria vida caída
quando aos pés de Totila após o crime implorava,
Vilas e Rigo reerguendo abalada hombridade.
Mas o rei se concentrava em assuntos diversos:
Vinha camuflado por entre comuns e guiando 5540
como ouvindo ansioso o parecer de peritos.
Prélio sem rumo passava adiantado o farol
do dia e pouco ganho os ambos lados contavam.
Que fazer? Chamando Vilas e Rigo e rogando
Totila ouviu: – Agora, amigo, cabe ao destino 5545
curso de guerra e piedade de nós pequeninos. –
Rigo mandou a campo os escudeiros melhores
e novas espadas arribaram à foz do combate
mas angústia penetrava o rei que escutava:
Deus redentor terá desdito do povo dos godos? 5550


Narses não se via em melhor conjuntura,
guerreiros sacrificando em vão openentes
porquanto a linha de guerra pouco moviam.
Mirando porém a vantagem de arqueiros ordena
que atirem contra cavalos, e assim atacando 5555
projéteis dilaceraram a carne de equinos
causando alarde e perturbando projetos.
Corriam já do outeiro aos ouvidos do eunuco
milagres d'arco que a mão dum jovem agia:
A mira infalível derrubava os impávidos 5560
como animais, e presto Procêncio trocava
os alvos marcando imperturbado no tiro.
Soltas as cordas, inopinados os dedos
puxavam na pressa próxima flecha, deitando
às cordas uma atrás das outras, perito 5565
diminuindo aos poucos o exército godo.
Em tal fortuna Vilas, l'homem sem destra,
andava atrás da linha ajudando caídos
e removendo as setas de peitos feridos
coa mão esquerda apenas. Veio contudo 5570
num turbilhão desordenado de marchas
a guerra, pois a linha de rumo mudara e
surprehendeu em campo varão desarmado,
perdudo agora no vero seio do prélio.
Pois alevantando da terra a primeira 5575
lança que ali divisara, Vilas impede
como pode lo assalto de gépidas gumes.
Quando porém recua buscando os sentidos,
guerreiro hostil que vislumbrava de longe
obstou num sobressalto o passo do velho: 5580
– De mim non fujas, godo, a fuga covarde! –
João de Vitaliano ali se expusera,
alçando espada e desferindo ataques
que a mão de Vilas a todo custo parava,
porquanto o gládio minuto não alcançava 5585
o corpo ancião devudo à lança comprida.
– Desiste, guerreiro, à tua espada compete
espada apenas e contra lança ere inútil –
avisa o mestre de godos. João entretanto
peleja, fiel à bõa guerra que abraça, 5590
quando num gesto de titubeio do imigo
derruba pelo chão o que resta de Vilas.
Erguendo porém a espada ao golpe final,
João, ouvindo o brado exausto dum velho
divisa no corpo de Vilas verdade: A destra 5595
outrora dissociada feria-lhe os olhos
como fio de espadas. Em triste vertigem
João generoso e tomado de angústia recua.
O godo contudo crendo a morte iminente
retira do chão primeira adaga que encontra 5600
e de súbito fere em desespero por vida
a mão e as faces do general, que no susto
tombou, enquanto Vilas erguendo-se presto
tomou da sua lança e com força enterrou-a,
profundo, na terra e por um triz de João, 5605
roçando-lhe quase o crânio. Olharam-se ambos
num longo e desgracioso silêncio de morte,
que Vilas enfim interrompeu, rematando:
– Aí se vê, guerreiro, a vida que engana,
assim se aprende o que a vida faz da gente. 5610
El homem vão comemora fugaz as vitórias
e passa um vento e já lhe mostra verdade.
Verdade porém se descobre com vida no chão,
ca l'homem de pé non comemora verdade
e verdade derriba e quem caiu testemunha. 5615
Levanta-te desse chão, inimigo, levanta
e leva embora de mim tua vida, que vida
nulha è minha e não adentro uma guerra
buscando vida que nimigalha mi serve. –
Vilas estende al outro a mão que lhe resta! 5620
João, porém, ouvindo do chão penitente
reflete ainda e dedica: – Notei de começo,
inimigo, que a tua estirpe era rara e distinta.
Talvez por esto vim correndo a deter-te,
prevendo que certo aprenderia verdade 5625
na luta contigo. Disseste mal uma coisa:
Caí ao chão que me enterra não por fugaz
amor e vislumbro de corriqueira vitória.
Caí porque perdi moções de meu peito.
Perdi porque te vi sem mão e lutando, 5630
varão a quem somente a vida covarde
derruba e vence. Mas no ataque atestaste
a verdade que já supunha: El homem correto
em luta mesmo sem mão è gestor de vitória.
Elo e mais por nosso encontro entendi, 5635
e no entanto ignoro como seja possível
guerreiro excelso perder a destra perita:
Não se encaixa o quadro em meu raciocínio.
Aclara, portanto, entendimento e revela
o verdugo que desonrou tua mão e tou braço. 5640
Revela apenas para que a mão que mi resta
encontre e vingue a dor que impôs a tou nome. –
Mas Vilas contendo os olhos e os membros
opõe a João: – Eo er percebo, inimigo,
quão distinta grei por aqui representas, 5645
e foi sabendo da piedade que abarcas
que vim olhar a profundez de tous olhos
e ouvir tua voz e dizer de nós a verdade:
Da luta nossa aprendi que uma ponte nos une,
laço invisível maior de vitória de guerra. 5650
El homem contudo que arrebatou minha destra
foi lo que mi ensinou da vida a verdade
e fez o bom guerreiro que sejo e prossigo.
Meu filho e professor apagou lo seu erro
e não me vingues pois éste Deus a vingança. 5655
A vida que agora levas a deves àquele
que tanto tem chorado um momento infeliz.
Guerreiro porém me fiz depois de a perdendo
pois, estranho, non fosse a mão que mi falta
eo não me comportara perante tous olhos 5660
como compete ao verdadeiro guerreiro.
De ti contudo rogo: Quando me vires
caído em campo e se novamente eo caíro
em tuas mãos, recorda de como tratei-te.
Levanta já do chão, inimigo, levanta-te 5665
e segue embora! – Mas João que se erguia
tomando a mão de Vilas assente responde:
– Viveste bem, disseste bem, uma ponte
se abriut entre nós, inquebrantável certeza:
Jamais ergueia contra ti, e nem permito 5670
a meus amigos, a mão de guerra e de morte! –
E assim falando e misturando promessas
partiram, cada qual na incerteza do rumo,
olhando vez e vez para trás e querendo.


Novos estrondos contudo interrompiam juízos 5675
pois a guerra avançava cá e lá demandando.
Ó visões de transtornadas gentes parindo
morte e desassossego e tormentoso estupor!
Jazia desafiando o viço das flores a carne
pela terra, clamando em vão socorro caídos. 5680
Ora que a seta dilacerava parcela do crânio
como entranhas, ora a multidão de estirados
ia buscando por entre pilhas pedaços e membros.
Godos et outros pela beira esgueirados gemiam
como o gado perdudo e suplicando um pastor 5685
enquanto irados gládios dilapidavam-se mútuos,
homens atracados caçando sangue e desgraça.
Mas Procêncio, o dedo inabalado e sem pausa,
fere quejendos mira de morte e cala clamores,
vai mudando de posição polo monte e buscando 5690
plus de cavalgantes ousados, em cujos peitos
abre um poço fundo e profundamente rubente.
Quando a mão arrancava do tórax ponta afiada,
mais os contrafios da pua arrancavam do abismo
texto e carne, três metálicas pontas rasgantes, 5695
uma forte adiante e duas de ré traiçoeiras.
O filho de Narses ora ouvia o mestre flecheiro:
– Cuja força és, Procêncio? Rompeste armaduras
raras vezes rotas dum mero tiro de flechas. –
Mas o jovem supõe: – Dever humilde, senhor, 5700
à mãe de minhas mães e ao general que me adota,
nada mais, porquanto em verdade temo o combate! –
Isto ouvindo o mestre procede: – Temor è certo
quando ensina amor à vida que almeja coragem.
Nada temas porém: O galardão que te atende, 5705
bom gestor, è paga de heróis! – Assim ensinava
mais detalhes de mira e tiro, mesclando Procêncio
pelos gépidas muitos que àquele monte chegavam:
Eram competentes arqueiros! O filho do eunuco
vendo o modo dos novos tutores plus se apurava 5710
e chus certeiras setas largava embora da corda.
Nada entanto abalava e rem minava o guerreiro
godo que não demandara aquele campo de guerra
para fugir de imigas setas ou al, pero antes
cair com honor. Ainda ajoelhados, quebravam 5715
pois de própria mão a flecha, tirando de dentro
ponta e peito e quanto de víscera afora viesse.
Lá fechavam os olhos plangendo pelo seu povo
mais que por si, sofrendo e terminando calados.
Longe e de perto, abutres pelejavam a guerra 5720
dentro da guerra: Dissecando o cor de cadáveres
frescos co bico, especial banquete de tripas,
as aves dilaceram no afã da gana a si mesmas
como mesclando próprio sangue à carne engolida.
Home entreviu muita vez se deceparem cabeças 5725
aves às outras: Mentre vertiginosas rolavam
inda mastigavam co bico moelas e entranhas,
fome de morte e fome já maior do que a morte.
Quanto mais a batalha alimentava as rapinas
como as horas, mais distante andava vitória 5730
d'ambas partes ca partes ambas sorte arruinava.
Vendo pois o estrago que ali flecheiros faziam
quase inalcançáveis no outeiro, Totila consulta
Vilas que impera apenas cautela. Rigo pondera
risco maior, porquanto o sol ansiava esconder-se, 5735
triste riso, dum dia astroso de astroso destino.
Triste o sol? Mas quem non via, estrela ultrajada,
quanta imensa dor embarcava no peito dos godos,
nave pesada e naufragatura quiçá pelas ondas!
Cujo rei portanto em vendo tanto suplício 5740
não se condói dum povo face a tal sacrifício?
Mal sabia o rei explicar, no destino da marcha,
como chegaram, andando que estavam perto de Roma,
nesses abismos del Úmbria por u agora lançavam.
Ora Totila na angústia de desairosos suspiros 5745
reza a Rigo: – Por Deus bondoso, prepara o cavalo!
Quero avançar à linha de frente como mi cabe,
rei que sou, e encorajar o braço dos bravos
lança e bandeira às mãos! – Mas Vilas e Rigo:
– Fica, rei, por caridade a caídos e vivos! 5750
Queres expor a vida e terminar a batalha
para o mal maior de teu povo? – Isto apelantes
ambos reprimindo o pranto, Totila interrompe:
– Vejo que titubeiam, amigos, pés de guerreiros,
vejo ceder os primeiros nossos e o dia se apaga. 5755
É preciso impedir sem medo e mora a desdita:
Não sabedes que deste prélio depende o futuro?
Ora perdendo aqui, soldados quais recrutamos?
Venha o cavalo! – E pouco adiataram os muitos
rogos de amigos. Totila montava o bicho apressado 5760
quando longe alguém divisou lo que ali se passava.
Antes pero que o rei dos godos deu las esporas
já vistara um arqueiro o corpo: Procêncio mirou
atrás da linha Totila camuflado de guerra.
Pensando ver assim um soldado puxou intrigado 5765
o quanto pôde a corda, a flecha mais afiada.
Totila tomava a lança quando veio de encontro
seta lacerando-lhe o peito e rajada de sangue:
– Rei alvejado! – ecoa o brado e Totila caindo
leve se ampara pelos braços de Rigo e de Vilas: 5770
– Deus è grande, amigos, e o curador de feridas
não desampara o peito sereno! – Isto dizendo
mal continha a dor nas distorções de seu rosto
como lhe ardiam fundo entranhas. Antes porém
de mais irrompe Ruderico, buscando o patrono 5775
Vilas e derramando forte afluência por terra:
– Eo vi, meu pai, eo vi lo autor dum tiro covarde!
Eo vou, meu pai, vingar meu bom Totila e meu povo! –
Antes que ouvisse os moderados apelos de Vilas
ele partiu, ca não julgou de honor o correto 5780
guerreiro leixar impune o triste gesto que viu.
E Ruderico marchou com lança forte no braço
e passo firme atravessando a linha de frente.
Não se importou desafiando em tudo o destino
pois o peito fora ultrajado dum rei generoso. 5785
Ele marchout e demandando outeiro de arqueiros
viu fugir os atentos: Sabiam que ali penetrava
bom lanceiro e certo o maior do exército godo.
Porém Procêncio desatento mirava adiante
quando o grito de Ruderico irou retumbando: 5790
– Não de novo atires pelas costas de bravos,
covarde, a flecha infame e vem lutar de verdade! –
Mas Procêncio no sobressalto dum gesto agitado,
ato contínuo volta-se a Ruderico e lhe aponta
contra cabeça a seta que preparava na corda: 5795
– Sou guerreiro bravo e pela frente eo atiro
como atiro, atrevudo, contra ti se quiseres! –
Isto dizendo lançaram destemudos olhares,
mas tomando firmes cada qual de petrechos
ambos correram rumo al irrevogável combate: 5800
Foi combate curto ca Ruderico arremessa,
qual se fora flecha, todo o peso da lança
contro corpo desprotejudo do filho de Narses.
Quando entretanto a lança dilacera Procêncio,
jogando fora o seu corpo e cravando na terra 5805
um juvenil cadáver; da corda avança uma seta
e míssil que penetrando Ruderico no crânio
derriba o filho de Vilas em violenta agonia.
Procêncio caído mal parece mais que se move
pelo derradeiro reflexo; l'outro guerreiro 5810
nembra porém dever extremo et amor de seu povo:
Ergueu-se e como em desastroso milagre marchou
lo monte abaixo para expirar no braço do pai.
Contudo um corpo cambaleado recede e se nega:
Em meio à linha de guerra lança um grito inaudito 5815
e finda no meio do rumo; assim morreu Ruderico.
Cai no lanceiro o prematuro fim duma busca
leixando ao chão entranhas e pranto petrificado.
Mas também Procêncio beirando a porta da morte
ainda um momento recorda a pobre mãe que leixava. 5820
Que destino infeliz e vergonha à vida de Narses
como guerreiros de quem a sua sombra abeirou-se!
Ora entendia, e como não, que um pequeno ladrão
furtando galinhas non cabe numa guerra de bravos.
E pois assim pensando assim leixou de pensar. 5825


U lo paradeiro porém de Totila?
Era verdadeira a notícia da flecha?
Caía a noite e lo desespero invadia
guerreiros, rumores circulando confusos
que o rei quiçá caíra, fugira, morrera. 5830
Assim começou la debandada e soldados
querendo em vão resposta lançavam embora
escudo e clava. Ajoelhados e exaustos
batiam ao peito reconhecendo derrota,
livrando angustiados clamores. Perdudos 5835
por entre cadáveres divisavam no escuro
sombras talvez de amigos, imigos quiçá.
Aonde fugir e por quê, e como agir,
de que modo viver? Desordenados lanceiros
corriam rumo abismos maiores no bosque, 5840
caçando a própria vida por entre buracos,
o pranto como o medo guiando por trevas.
As tropas de Narses, embebudas del ódio,
buscavam ainda assim desarmados seguindo
o passo e perseguindo aflição de caídos. 5845
Ó destino espedaçador de esperanças,
quanta vegada o bom guerreiro aturdido
lançou-se aos pés de vencedores irados
rogando clemência? Quanta vez vencedores
erguendo espada decapitaram rendudos 5850
ajoelhados e mendigando e plangentes?
Formigas em formigueiro, morta a rainha
pequenas perambularam morrendo sem causa.
De pouco adiantarant apelos de Narses:
Caça a fugitivos tornara-se o novo 5855
lazer dos atrozes. Cá e lá combatiam
ainda isolados godos, talvez dessabendo
uma triste verdade os derradeiros heróis.
Alguns unidos resgatavam-se em grupos
de dous ou três buscando abrigo na sorte. 5860
Pobre a vida em fuga porém que caísse
nas mãos de caçadores vis de esqueçudos.
Terror na treva em violentas falanges,
os hunos e os bizantinos mataram a esmo.
Passavam lombardos incendiando aldeias 5865
de perto e trucidando quanto avistassem.
Assim pereceram juntos romanos e godos,
crianças, mulheres, inocentes pastores.
Quão diferente Totila tratara essa terra!
Mas godos entanto corriam, comprehendendo 5870
a cada passo que aquela batalha pusera
fim numa noite à florescência dos anos;
às obras de Teodorico, concórdia dos povos,
às esperanças de paz e do bem de Totila.
Clamavam! Choravam amargamente o desfecho 5875
do reino mas fecho não dum reino somente,
dum povo inteiro exterminado num dia:
Jazia uma tumba aberta no meio do nada.
Mas Narses, angustiado na incerta vitória,
ainda atende a palavra final de peritos 5880
vençuda a resistência nos últimos focos.
Qual non foi porém la tristeza do eunuco
quando se houveram aproximado da tenda
dous legados: Vindo de opostas veredas,
um lhe depôs ao braço esquerdo a bandeira 5885
em sangue do rei Totila atestando vitória;
outro lhe impôs ao braço destro o despojo
frio de Procêncio testemunhando derrota.
Narses lançando embora ao chão a bandeira,
Narses num grito ensurdecedor desmorona 5890
perante um corpo sem vida qual se vivesse;
qual se morresse quiçá lo seu brilho sem rumo:
– Eu sabia, amigos, e sempre tive por certa
a verdade: Destino imigo nunca me amou.
Quando fortuna decide a degraça dum homem 5895
não existe vitória de guerra que o salve
nem façanha de mundo e gestos heroicos.
Percebo bem, meninos, que nesta batalha
a vida mais perdi que venci meus imigos.
Como pude mi crer, num momento ilusório, 5900
que por um breve instante a mão do destino
usasse dó de mim por amor de Procêncio?
Ai, guerreiros, por tanta vez implorei
al Imperador leixasse em paz um eunuco
que a má fortuna por toda vida odiou. 5905
Mas não lhe bastout interminável tortura:
Preciso ainda foi, na idade em que estou,
tirar-me do meu retiro por onde aguardava
a morte libertadora dum sopro ultrajado;
para lançar-me mundo afora em campanhas 5910
marchando pelo vão de frustrada esperança.
Poupasse ao menos a vida melhor de Procêncio!
Tiveste a desventura, filhinho, de um dia
cruzar meu andar, e não se conformou
destino com ver meu coração jubiloso. 5915
Lançando a ti, menino, um olhar generoso,
matei-te e contra ti lancei desalmada
fortuna, imigo meu e de todos que amei:
Por quê, Senhor, desdizes tanto de mim? –
Plangendo isto, um general sem vitória 5920
deitou-se breve instante ao lado do corpo
mirando estrelas, mas retornando à verdade
e secando os olhos, a voz clamou resoluta:
– Paulo! – E levantando-se chama um soldado
e desarmado desarmador de armadíssimos: 5925
– U se encontra Paulo? Paulo, guerreiro
que bem te vejo, sai de perto de mim
ca destino arrasa quem se aflige por mim!
Ainda procuras, menino, o gesto correto
de guerra e gesto redentor de existências? 5930
Pois conheço de fato o fim dessa busca!
Toma embora aos ombros teus o meu filho
e vai depô-lo por caridade aos braços
da mãe, de quem num movimento infeliz
sequestrei selando a desventura de três 5935
desditas vidas! Cruza por mim a distância
por terra ou mar e tem bondade dum homem
em tudo menor do que tu! Procuras ainda,
Paulo, o gesto excelso? – Paulo escudeiro
inesitante assente e tomando Procêncio 5940
monta o primeiro equino que lá se mostrava,
cônscio que foi de inquebrantável dever.
Mas Narses, retirando do dedo um anel,
dourada e valiosa prenda que entrega
ao bom guerreiro, roga: – Pois chegares 5945
entrega àquela mãe meu tesouro singelo,
presente que certo proverá de conforto
uma vida arrasada e sem abrigo e comida.
Diz porém que o descobriste na estrada
e não de minhas mãos desgraçadas saiu, 5950
porque matei seu filho mais do que meu.
De mim reporta apenas a breve mensagem:
Procêncio caiu porque destino invejou.
Não contudo como um ladrão de galinhas
Procêncio caiu: Procêncio caiu como homem, 5955
como guerreiro digno do Império Romano
Procêncio caiu, porque caindo venceu. –
Assim partiu a cavalo um fiel escudeiro,
na madrugada misto de treva e de luto.
Estava determinado a varar como raio 5960
e como relampo em poucos dias tornar.
O eunuco entretanto balançava a cabeça
buscando ainda notícia do fim de Totila.


Pelas escuridões a cavalgada avançava,
Rigo perto e os escudeiros seus fugitivos 5965
junto ao rei Totila retorçudo por dentro.
Iam varando a treva em vertiginoso galope
vez et outra defendendo o rei de armadilhas.
Era ainda possível remover das entranhas
flecha desventurosa profudamente alojada? 5970
Totila sangrando comprimia na boca gemidos,
dor insuportável e diro incêndio no peito,
quando do acaso um repentino ataque irrompeu:
Gépidas inda e lombardos perseguindo velozes
vinham cavalgando e mirando lanças na treva. 5975
Rigo porém escudeiro crendo ali desertores
godos reprime: – Alçais espada contra Totila,
cães, o vosso rei? – Alçaram pois e atirando
cegos pelos ermos compridíssimas lanças
uma acertou, assim o quis ruinoso destino, 5980
uma adentrou, por acaso e pelas costas, o rei
que já ferido lançava novo golfo de sangue
boca afora, cada galope cortando-lhe o ventre.
Mas o medo e busca do bom retiro impeliu-os
horas inteiras pelos bosques e pelas estradas. 5985
Quando enfim Totila no indescritível tormento
lançou do cavalo grito de desespero e de morte,
Rigo parou, o rei parou, escudeiros pararam,
Totila pedindo: – Findemos por caridade a jornada
pois, amigos, vou perdendo as rédeas e o fôlego. – 5990
Rigo então, mandando buscarem água e descendo
lento um combalido rei do cavalo, deitou-o
pelo chão à beira da estrada, donde Totila
vendo esparsos astros dizia, a voz se perdendo:
– Rigo, andei demais e demais cavalguei, meu amigo. 5995
Vejo enfim que mi pesa ferida maior do que a vida. –
Antes porém que l'outro responda, segue o soluço:
– Que será de meu povo, escudeiro? Ai, escudeiro,
Deus desdisse em tudo de mim e do povo dos godos. –
Mas o amigo: – Não, Totila, as feridas se curam 6000
e Deus protege da morte o nosso povo inocente.
Antes da aurora teremos removudo esta flecha
e vamos ambos vivos embora! – O rei lhe responde:
– Não percebes já que aqui se acaba uma vida?
Deus non quer, amigo, o nosso povo entre povos 6005
nem jamais lhe agradou meu sacrifício por fracos. –
Isto dito a mão que mal se levanta aponta-lhe
perto uma pedra, a soluçante voz implorando:
– Toma aquela pedra às mãos e apaga da história,
Rigo, por piedade apaga da história meu nome. – 6010
Mas um fiel herói tomando aos braços o rei
falava e consolava um suspiro expirante.
Era em vão! Perdendo pelos astros os olhos,
ele que em generosa mão alçara a caídos
mira ainda per última vez el outro e pergunta: 6015
– U està Deus, amigo? Rigo, onde vem Deus? –
Assim da vida indagando, assim Totila morreu.
E Rigo na escuridão, cadáver nos braços, plangeu:
– Por quê, destino e Deus, abandonastes meu povo?
Paga melhor mereceu quem tanta vida arrisquei 6020
no amor do meu bondoso rei e dum povo temente!
Falhei dever de proteger da morte um amigo?
Antes eu, fortuna, morresse, errada uma vida,
vida sem rumo: Não o grande, morresse o menor! –
Assim dizendo e soluçando e gritando agitado, 6025
Rigo correu, e nem se sabe em qual dos abismos
Rigo morreu. Quando porém no meio da noite
soube Narses do paradeiro final de Totila
pela palavra dalgum amedrontado legado,
Narses mandou buscarem donde fora enterrado 6030
fios de cabelo e pedaços do vestuário sangrado;
prova al Imperador da desfortunada vitória.
Mas aproximou-se do eunuco uma certa mulher
rogando baixo, os olhos derramados ao chão:
– Ouvi dizer que em Palestina e no Egito Maria 6035
mãe de Cristo milagrosa interveio por mortos.
Vim de longe fiando a Deus uma ingrata viagem,
sombra migrando pela Itália de ermida em ermida:
Venho depor uma prece ao repouso final dum amigo.
Diz apenas, Narses, u se encontra a tristíssima 6040
tumba que esconde ao mundo Totila. Não violentes,
homem de guerra e por caridade, um corpo sem vida! –
Sentindo irreversíveis perdas e a mão do destino,
Narses contudo reconheceu que ali se mostrava
certo alguma rara princesa e distinta senhora: 6045
– Chamo covarde o guerreiro que divisando cadáver
nega-lhe a paz atormentando um jazer derradeiro.
Esse gesto que temes, Senhora, não se inscreve
em minha bandeira conclamando a vida à virtude. –
Mas el outra responde em desdenhando palavras: 6050
– Pois o gesto, Narses, que desta vida mi resta
è gesto simples somente e recordando maiores,
ca mia vida è vida pequena e non cabe em poemas:
Quero apenas pedir a Deus piedade de amigos! –
Isto dizendo e Narses revelando o jazigo 6055
lá se foi Rodelinda depor sua prenda pequena:
Lançada ao chão rogando a compaixão de Maria,
ela prestou l'homenagem da imorredoura amizade.
Ó tormentosa noite que os dias mal rememoram,
quantos olhos deplorando a treva se ergueram 6060
cônscios da perdição de Roma e morte da Itália.
Ó tormentosa noite que tanta vida iludiste:
Quantos senadores ouvindo longe rumores
creram que a liberdade triunfara do Império.
Pondo a vida e família rumo a Roma na estrada 6065
caíram todos nas mãos desesperadas de godos;
perderam a vida e família pelo meio da estrada
donde a chacina vingava a covardia de imigos:
Mentre lombardos decapitatavam godos rendudos
implorando clemência, godos lhes responderam 6070
decapitando na noite desprevenidos patrícios.
Teia, o cavaleiro terrível, vendo na escola
filhos da flor romana que ali Totila pusera,
Teia mandou que degolassem trezentas crianças.
Muitas vezes fortuna decidiu que a vitória 6075
tão somente anunciasse maiores desgraças.
Não renasças, Sol, esconde de nós o teu lume
ca nada reergue desta noite ruínas de Itália.
Já non passa pelo campo de guerra o guerreiro,
ninguém enterra a multidão de mortos no olvido. 6080
Apenas Vilas, l'homem sem mão, procura cansado
pelo escombro das vidas remexendo despojos,
vez et outra clamando: – Ruderico, meu filho! –
Mas na madrugada os corpos eram sem rosto
nem se reconhecia semblante godo e de alhures. 6085
Homens falidos e misturados pelo destino
lá jaziam calados como se fossem irmãos.




FIM









ODE AO SOL

Por quê, se a verdade
è bõa que luz, destino
quis o fim de todos
dias? Certeza maior
è que, todos os dias,
da sombra da morte
estrela aurora nasceu.





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