Home

TOTILA

Eustácio de Sales



© Gregorius Vatis Advena 2017, Record E 6, engl. Totila, Hampshire, heterometres, 6087 lines, epic poetry, epography, Portuguese.



Totila

Introdução


Rei dos ostrogodos, Totila luta pela reconquista da Itália após herdar uma custosa guerra contra os bizantinos. Justiniano, o novo Imperador, sonha em revigorar o Império Romano. Roma porém está cercada. A fome e a destruição se espalham pela Itália. O Imperador, enfim, decide enviar Narses a cabo de imensas coortes. A guerra dos godos (535-554) é um dos momentos mais traumáticos da história ocidental.

Imagem: Imperador Justiniano (centro) e séquito (Belisário à esquerda, Narses atrás à direita), Basílica de São Vital, Ravena, ft. de Roger Culos, CC BY-SA 3.0.

Poema épico, Totila retrata a guerra como condição íntima do ser na angústia dum mundo irracional ou racionalizado arbitrariamente. O fogo, o conflito, a destruição exteriorizam tanto o animal indomável quanto o anjo perdido em sua luta por sentido, numa contenda invisível que arrasa e fortifica. O poema discute, entre outros temas, o conceito da boa guerra e seus paradoxos.


Sinfonia No. 9 em ré menor op. 125, primeiro movt., Beethoven, regência de Herbert von Karajan, Filarmônica de Berlim, 1962, PD [União Europeia].


As formas orgânicas do idioma são autônomas, livres de realidade. Não há um padrão morfossintático fixo. A composição reúne práticas medievais e medievalizantes, contemporâneas e experimentais. O mundo que o poema retrata é caracterizado por plurilinguismo e diglossia, sem uma norma coercitiva. O português serve apenas de língua-base para um idioma fluídico.

Em sua guerra de estilos inconciliáveis e escandalosos, é um poema moderno: Traduz o postulado de Rimbaud por uma arte progressiva onde os métodos mais avançados e diferenciados se mesclam às experiências mais avançadas e diferenciadas, também como crítica social.

Em métrica, o poema alterna episódios em hexâmetros longos e breves, por vezes irregulares – seis ou cinco tônicas separadas por uma ou duas átonas, ou por pausa. Em geral, o verso começa em tônica e termina em diérese bucólica – o ritmo tátata-táta. As alternações são frequentemente quebradas por quadros em verso livre.

O uso das formas épicas é tratado no quadro das conjugações épicas e no ensaio Prosódia e Grafia, notadamente os subtítulos [3] e [4]. Certas formas também são ilustradas neste excerto anotado, no Carolíngio.















Glossário Arcaico


Há dois grupos de formas épicas em Totila, as históricas e as avangardistas. No primeiro grupo, ocorrem tanto (a) formas arcaicas, documentadas no português antigo e que se pode consultar no Glossário da Poesia Medieval, quanto (b) formas arcaizantes, isto é, licenças épicas eufônicas ou latinizantes, composições sem documentação histórica, ainda que verossímeis. Dentre os termos documentados, sejam assinalados:


al, pron. [aliud]: algo, outra coisa

atender, verbo: esperar

ca, conj. [quia]: que, já que, porque

camanho, pron.: tal, tamanho

chus, adv. comp. [plus]: mais

eire, adv. [heri]: ontem

elo [ê], pron. [illud]: aquilo

ende, adv. [inde]: daí, de lá, disto

esto, pron. [istud]: isto

er, adv: ~ de fato (enfatisa o verbo)

home, pron. indef.: ~ alguém (~ “se” apassivador)

i, adv. [ibi]: aí

ja-quando, adv.: em algum momento

medês, pron.: mesmo


mentre, adv.: enquanto

mi, pron. dat. [mihi]: a mim

nimigalha, pron.: nada

nulhome, pron.: ninguém

nulho, pron. [nullus]: nenhum

ogano, adv. [hoc anno]: este ano

pero, adv.: mas (geralm. átono)

pero que, conj.: ainda que

pois (que), conj. [post]: depois que (com fut. subj., pret. perf. ou pret. ant.)

quejendo / quejando, pron.: qualquer que seja

quis, pron.: cada um; mais raro: alguém

rem, pron.: nada

sou, pron.: seu (altern.)

tou, pron.: teu (altern.)

u, adv. int. [ubi]: onde

vegada, subst.: vez




Conjugações Épicas


As conjugações épicas são tratadas neste quadro completo. Dentre as desinências mais recorrentes, assinalem-se as do quadro abaixo. A cruz pátea ( ✠ ) indica formas históricas documentadas, como o pretérito anterior (houve amado) e o particípio regular da segunda conjugação (perdudo, temudo, cf. fr. perdu, it. perduto):




PADRÃO FORMAS ÉPICAS


perco
perdes
perde perdet
perdemos perdemus
perdeis perdedes ✠
perdem perdent


perdi
perdeste
perdeu perdeut
perdemos perdeumos
perdestes
perderam perderom ✠


houve perdudo ✠
houveste perdudo ✠
houve perdudo ✠
houvemos perdudo ✠
houvestes perdudo ✠
houverom perdudo ✠


perderei perdeia
perderás perdeias
perderá perdeia
perderemos
perdereis
perderão perdeiam


perde
perdei perdede ✠


perdido perdudo ✠





Glossário Gótico


Poucas palavras do idioma gótico incorporaram-se ao português e castelhano. Em Totila, são reconstituídas algumas palavras em roupagem românica, indicadas no quadro abaixo. Indica-se em itálico o termo original e por vezes a correspondência no alto alemão antigo (AA) e no inglês antigo, ou anglo-saxão (AS).

Pronúncia: A letra ƕ (hwair) soa como uma junção acelerada de hw. A letra þ (thorn) é uma fricativa dental surda (/θ/, cf. th no inglês thick). A letra h final é uma fricativa velar surda (/x/, cf. ch no alemão Loch). A grafia gg soa ng. As grafias aí, ái e ai soam próximas de é, as grafias áu, aú e au próximas de ó.


acrão, subs. [akran]: fruto

aƕa, subs.: rio, água

anamantar, verbo [anamahtjan]: ofender, atacar, violentar

anguisa, subs. [aggwiþa]: angústia

ansa, subs. [hansa]: companhia, multidão

arbedar / abredar, verbo [arbáidjan]: trabalhar

arbel, subs. [arbáiþs]: trabalho

are, subs. [harjis, AS. here]: exército, coorte

armel, subs. [armaio]: piedade

aulear, verbo [aflētan]: perdoar

bandar, verbo [bandi: laço]: unir, juntar

barno, subs. [barn, AA. barn]: criança, jovem

berar, verbo [báiran, AA/AS. beran]: trazer, portar

blingar, verbo [bliggwan, AA. bliuwan]: bater, abater

bloa (m), subs. [blōþ]: sangue

bloma, subs.: flor

bor, subs. [baúr]: menino

brecar, verbo. [brikan, AS. brecan]: quebrar; lutar

brodo, subs. [brōþar]: irmão

dodra, subs. [daúhtar]: filha

eiþan (pron. /'iþan/), adv.: ora, portanto

ero, subs. [haírus]: espada

ersa, subs. [aírþa]: terra

erto, subs. [haírtō]: coração

escado, subs. [skadus]: sombra

escanda, subs. [skanda, AA. scanta]: vergonha

escão, subs. [skáuns, AA. scōni]: belo, bonito

escau, subs. [skatts]: dinheiro, custo

estau, subs. [staþs]: lugar, parte

estoa, subs. [staua]: conselheiro, juiz

éu, subs. [áiws]: vida, vitalidade, força, tempo (de vida), tempo, eternidade

fadro, subs. [fadar]: pai

fagro, adj. [fagrs]: belo, adequado, nobre

féror / fréu, subs. [faírƕs, AS. feorh]: mundo


flol / frol, subs. [þlaúhs]: luta, batalha, campanha

fragadar, verbo [frawardjan]: destruir, corromper

frial, subs. [frijaþwa]: amor

frião, subs. [frijōnds, AS. frēond, AA. friunt]: amigo

froia / frói, subs. [fráuja]: mestre, senhor; aqui: rei

gadrão, subs. [gadraúhts]: soldado, guerreiro

gaiúca, subs. [gajuka]: companheiro, camarada

gão, subs. [gaggs]: caminho, estrada, rumo

gardo, subs. [gards]: casa

gau, adj. [walis]: santo, escolhido

goia (m), subs. [gáuja]: conterrâneo

gor, adj. [gáurs]: triste, dolente

gorisa, subs. [gáuriþa]: tristeza, infortúnio, dor

greto, subs. [garaíhts]: justo, correto

gualdar, verbo [gawaldan]: governar, reinar

guem / guena (f), subs. [wēns]: esperança

guer, subs. [waír]: homem

guerso, subs. [gawaírþi]: paz

guês, subs. [wigs, AA. weg]: caminho, rumo

gueso, subs. [waíhts]: coisa

guma (m), subs. : homem

Gus, subs. [Guþ]: Deus

ƕa, adv. int.: quê?

ƕão, adv. int. [ƕan]: quando?

inufo, adj.: inglório, infame

lustar, verbo [lustōn]: desejar, cobiçar

ogo, subs. [áugō]: olho

suão, subs. [sunus, AS/AA. sunu]: filho

suim, adj. [swinþs]: forte, saudável

toer, verbo [táujan]: fazer (conj. como doer)

tringo, adj. [triggws]: fiel, verdadeiro, íntegro

ufão, subs. [wulþus]: glória


















Argumento


















Ode ao Fim


Por quê, se a verdade
è bõa que luz, destino
quis o fim de todos
dias? Antes da aurora,
serenidade o rever
do escado eternidade,
cintilante fréu.















Evocação de Apolo


Como devotos de Iemanjá lançando prenda ao mar depus no entardecer, Apolo, ofrenda de flores sobre a pedra cantando pelo prado um nome renembrado. Terás talvez de teus éus esquistos inda um olhar sobre a sombra das vidas? Tutor de tringos, é somente um poema que dedico ao teu escudo maior, è dom menor que a beleza da bloma e que a força das armas. Acede não por mim, mas pela dor de Roma que o verso recorda e que outrora te honrou.

Naveguemos, Febo, pelas ondas desta Internet, abominável bênção por onde, agitados, caçadores de moda e divisores de tempo vão flutuando vagos, intrigados no facebook e no twitter comentando a temperatura do vento. É por esse deserto que um destino severo impôs viver e dividir o que somos, e desse palco improvável evoco, na flor e na voz e no html, a transcendência dum deus incompatível.

Eu, se puder pedir, pedirei, ò Febo, que a tua mão se abata pelo fréu como um raio escaldante, sol devorador que sês, e fragades as redes e os cabos, como um martelo esmagues no ferro uma impostura exterminadora de vida e verdade. Confunde, gadrão insaciável, a pretensão dos distraídos: Atira os seus filhos contra a rocha!

Muitos quiserom prantear a gorisa que canto e também pranteio tarde. É preciso evocar, Apolo, com toda a força do sopro e todo el erto o teu concurso: Não naufrague na indiferença brutor o esmero de longos anos! É preciso muitas flores depor a fim de que a bõa sorte vença, se assim quiseres, a inveja de tantos deuses e dum destino destruïdor de desígnios. Praza às tuas setas cruzando o peito de eleitos despertar amor ao belo, ao bom e ao vero. Em ti se acaba o que seja velho ou novo.

Feita a minha parte, Febo, faz a tua. Ordena à musa inebriar o sopro do fagro ledor e destruir, no flol de teu verso, a presunção de quem lê com pressa e má vontade. Tu que miraste, rei guerrar, o fundo das almas, prepara-me a palma no templo donde Platão aguarda, juiz de Homero e dos maus. Não ergui minha voz para cantar quimera e quero vênia se algum momento o verso for menor do que a vida. Redime, Apolo, um cantar imperfeito e contudo ansioso da verdade. Ave eleitor de fortíssimos, ave desarmado desarmador de armadíssimos!















© Gregorius Vatis Advena 2017, Nulla Dies Sine Linea.



Totila






A





α

– Já non sobra em Roma nem urtiga nem rato!
Pois o corpo, Pelágio, desmoronou de repente
sobre mim do nada! Caiu no meio da rua
morto e mastigando poeira. Sabes quem era?
Era gente dos Flávios, povo lá do Senado 5
mês inteiro cozinhano urtiga e comeno
vento, Deus me livre, melhor morrer de fato!
Mas amigo, este cerco acaba quando, faltano
pão e carne? Tem romano comendo excremento,
tudo que cabe na boca põe que ali mastiga. 10
Bessas lá guardano gado, escondeno comida!
Fala com ele! Tem ninguém aqui com dinheiro
não, Pelágio, mas cobrano cinquenta moeda
só por um pedacim de carne, aí non se vive!
Só de pensar a pessoa para e fica sem rumo. 15
Pois eo quero viver, peregrino! Abre esse muro
pelo amor de Cristo e compaixão dum faminto.
Guerra è deles! Eu que vivo aqui no meu canto
quero o quê com guerra? Vitória de pobre è comida
farta no prato! Olha bem a que ponto chegamo, 20


1




pois melhor que nós tà viveno escravo com dono,
claro, a vida ali tem mais sorte longe de è cada
casos que vou viveno e vendo. Quem escraviza
dá sustento ao menos! Mas coisa dessa no mundo
nunca vi, e digo mais: Ontem de tarde Terêncio 25
vinha subino e carregando os cinco filhos
rumo à ponte ali, a prole inteirinha gemeno
dava dó, e Deus è que sabe como passaro
todo o mês sem nada. Adota um filho pequeno
pois aí se sabe a dor o que é: Terêncio 30
lá com cinco andano sem poder, prometendo
leite e pão – ô meu Deus, na frente daquela
prole arruinada um pai se atira da ponte!
Ele desaparece e deixa os cinco sem rumo,
vivos só por força do Céu. E vi com meu olho 35
como do nada umas mãe de empréstimo, osso vagano
semimorto, o choro pesando mais que o corpo,
dero braço aos renegados, enquanto naquela
marge buscavam caçano carne o corpo afogado.
É, meu amigo, a pessoa quer falar e se engasga, 40


2




come a língua! Esta gente cansada e sem guerra
fez que mal no mundo quem merecia descanso?
Olha bem o caso! Nõ é favor que nos fazem,
foi Bizâncio com Belisário e Justiniano,
essa gente estranha aí que trancou todo mundo: 45
Nem nascero perto nem nunca viero nem viro!
Caso contrário Roma inteira tava deserta e
nós correno pelo mundo, qualquer paradeiro
bênção já contanto que a vida caiba e comida.
Olha, se querem prender o povo feito escravo 50
dentro dum muro do inferno, então alimentem!
Ou então que matem ca fome acaba coa morte.
Mas do jeito que vamo, nòr vamo tudo simbora,
cada qual fugindo como puder e sem medo e
quem vier punir que puna, contanto que mate! 55
I, Pelágio, diz a Bessas que entregue a cidade
toda a Totila, o rei desalmado desses godos.
Coisa feia demais esconder comida do povo!
Já falamo duas vezes, já li imploraumo:
Ele mente! Vem reforço o quê de Bizâncio? 60


3




Era fermento o melhor reforço! Tu que doaste
tanto, meu amigo, de prata e valor e bondade,
vê se intercede um pouco por piedade de muitos.
Só teu manto, Pelágio, protege o povo de Roma!
Pede ao general que as vidas vadamo embora 65
cada qual de seu rumo e sem destino e demora. –


β

Mal protestavam, pois a fome calava
a boca de audazes: Plebeus e senadores
iam dividindo caídos a terra e migalhas
levando areia à boca. Homem da Igreja, 70
Pelágio promete ao povo o quanto pode
como aos grandes de Roma, ora meros
mendigos, ossos ambulantes apenas.
A mãe segurava um ressecado rebento
berrando como gado e concurso de gritos. 75
Chegara ao termo, a multidão entendia,
o brio da idade eterna: Não adentrava
o soldado pelos arcos com prenda famosa,
portando forte a lança que outrora partia
os montes nem escudo. A seta punha-se 80


4




como o sol: Ocaso de impérios raiava
cedendo espaço à treva. Onde os leões
leixando atrás Itália rumo aos extremos?
Passavam devastando em moções arrojadas
peritos no cerco. Formavam suas fileiras 85
os braços imbatíveis de César, vencendo
valentes. Muitas vezes tropas ferozes
forom atravessadas a fundo por uma
única lança: Bastava a mão dum herói
impôr-li força e voo. Houve espessos 90
broquéis suportando a queda do templo.
O cavaleiro cruzava a terra num dia
e triste a tropa usando marcha contrária.
Pisar os Alpes, passar o Reno e Danúbio
era a jornada da morte: Cães implacáveis 95
e furiosas mãos dirigindo falanges
atropelavam bárbaros, homens e jovens
cavalgavam sobre o chão de cadáveres,
nadadores natos de sangue e de entranhas.
Vorazes carregavam troféus e cabeças 100


5




de volta ao ninho das águias, pela via
a turba ingente dando salvas afoitas
em nome de César. Quando os estandartes
da tropa tremulavam trazendo vitória,
abriam-se as alas de Roma e Roma dançava 105
em delírio as libações gloriar e de guerra.
O nome são do Senado e do Povo passava
de boca em boca como um vinho de amantes
por almas ébrias, lascivamente imortais.
U essora entretanto os leões agitados, 110
u los homens de imoderados humores,
varões violentos? Era terra perduda
e campo aberto a toda espécie de gente
o traço destruído da Itália: Entrava
como o vento em popa o cavalo inimigo 115
matando à toa. Bárbaros, homens novos
apareciam da treva lutando por terra.
Desnortearom cidades dantes floridas
vertendo muro ao mar. A beira da estrada
mostrava norte e sul a pilha de corpos, 120


6




a terra fértil deflorada em batalhas.
O lavrador largava da mão la enxada,
pastores fugiam leixando o gado à deriva.
Quem se creu seguro em próspero abrigo
viu subir na aurora o soldado da morte. 125
Quem buscou la cidade cercada por muros
foi cercado pelos muros e pelos soldados.
O pão era raro e pereciam os fracos
corpos de fome e sede. El home prudente
quando havia tempo e valor e tesouro 130
zarpava em perigosíssimas naus a Bizâncio:
Muitas forom tomadas no mar ou na praia
de súbito assalto, vidas lançadas às ondas,
famílias desfeitas. Quem outrora soubera
o mal dos destinos de Itália cantara talvez 135
com lira menos forte o delírio das armas.
Frequentador da corte em Constantinopla,
Pelágio chegara rico de trigo e de prata
mas expôs o seu caso a Bessas, o chefe
das tropas defendendo a muralha ferida, 140


7




Bessas que enriquecera vendendo comida:
– Home non pode leixar esta gente sair!
Correndo morrem de fome e mão inimiga.
O mundo todo viu da sorte de Nápoles
como se dizimou sem dó fugitivos. 145
Há perigo demais, Pelágio: Esperem!
Em breve Belisário vem com reforço. –
Porém a voz duma grei perdeu paciência:
– O povo, Bessas, somos nós e queremos
que acabe logo o cerco! – Alguns fugiam 150
indiferentes à lei saltando de pontes,
caçando façanha contra incerta corrente:
Nem por isto se contentarom restantes:
Houve conselho e debate forte e tumulto.
No meio da noite, os senadores buscarom 155
Pelágio, que pareciam tábuas andantes:
– Nunca se viu parar o comércio de Roma.
Parou! A gente quer obrar e non pode?
A vida humana jà não difere dos ratos
porém milagre, Pelágio, ainda existe 160


8




que salva Roma e presta bem atenção:
Irás a Totila! – O nome caiu feito raio
sobre um fraco que recuou aterrado:
– Totila, rei dos godos? – Era impossível.
Tremendas narrações circulavam por Roma 165
da iniquidade dum rei, detalhado o relato:
Cortava e decepava o braço de bispos,
lançando fora da boca a língua do audaz.
Homem irado e vário de humor e nervoso,
mudava de ideias. Dava ordens de morte e 170
traía Deus e promessas. Envolto em sangue
ergueu la espada e Florença veio por terra.
Tratava como escravos romanos e godos
forte no punho: Destruiu monumentos
coas próprias mãos. Tesouros antiquíssimos 175
forom roubados, herdeiros perderom a terra.
Bastava um ato, palavra errada ou depressa
custava a vida ao pedinte: Um rei implacável
reganhara uma guerra e rugiu lo tirano
amigo dos maus, seu nome causando tremor 180


9




em Roma e toda Itália. Em Constantinopla
o medo perseguia os passantes na sombra
e Justiniano rolava as noites em branco
falando a sós no pavilhão de audiências.
Totila esvaziava as cidades e as almas 185
no inferno, parece, temiam dardos do godo
mais que ao demônio. Juiz injusto, julgava
o seu juízo final e os pacatos tremiam.
Pelágio como que entorpisto em vertigem
meneava a cabeça, as mãos tremulavam: 190
– Romanos, qual poder de mundo convence
um homem desta estirpe? Totila me mata! –
O veredito porém de anciãos moribundos
mal se deixa esperar: – Hesitas, Pelágio? –
Assim falando mostravam as multidões 195
prostradas rente à morte. Ora o nobre,
envergonhado de pôr a própria vida
acima da salvação de seu povo, cedeu
temeroso. Pôs-se a sós ao caminho de fora
levando ao godo as embaixadas difíceis. 200


10




Saiu sem ouvir o apelo extremo de Bessas,
saiu pedindo a Deus piedade e constância.


γ

Ora, a boca de Roma assim rezou a Totila:
– Desconheço, froia, da lei e costume de godos
como tratam na guerra o mensageiro de estranhos. 205
Mas em Roma como em terra de gregos sempre
foi ouvido com caridade l’homem sem armas,
boca oferecendo a paz. Ao gesto de trégua,
quando è justo o governante e bom, acede e
Deus o tenha. Eu, entretanto, fui enviado 210
sem mi darem tempo ou preparar as palavras.
Venho aqui pedir por humilde gente e famintas
ordens venho cumprir. Deus ilumine o caminho
desde já dum rei que der ouvido ao pequeno.
Quero falar, se puder, e se aprouver falarei ou 215
como ao rei convier. – Totila ouvindo responde:
– Podes falar! Inclui porém à paz a verdade e
diz o dia, Pelágio, onde o rei dum correto
povo castigou desarmados. Não me recordo e
tanta petulância me ofendes: Somente o covarde 220


11




fere na guerra a boca buscando paz e concórdia.
Mas diácono, nem dum cão se soube de ofensa
como a que temes. Quero conhecer a proposta:
Hei la paciência de ouvi-lo que Roma deseja,
como anela a paz e quais os termos do acordo! – 225
Isto dito, Pelágio rogou: – O povo se acaba e
vai caindo de fome e quase um ano de sítio.
Ó senhor, uma gente atormentada definha
sem maldade, sequiosa da vida e da morte.
Quem socorre, soberano, um destino arruinado? 230
Vão morrendo sem saber a razão duma luta
já maior que a razão. Melhor è nem recordar
as bocas mastigando rato e catando formiga,
verme, urtiga. Forom inventadas comidas,
ai, que nem se pode dizer. Culpa do povo? 235
Não! Os homens dessa resistência de Bessas
são apenas poucos: Reprimem no fraco o rouco
grito por paz. Será possível, rei dos godos,
certo amor ou piedade da vida inocente?
Como Teodorico, o rei de outrora e ditoso 240


12




pai romanor e de godos, cumpre agir. Agiremos? –
Mas responde surpreso um novo rei aturdido:
– Nunca desdenhei de nenhuma imérita coita,
sempre ajudei ca protegi da morte inocentes:
Basta a rendição de Roma e seremos amigos! 245
São apenas três as condições da concórdia:
Pelo próprio bem do povo a muralha de Roma
será destruída em primeiro lugar. O longo cerco
já teria acabado se os muros não impedissem.
Não devolvo, em segundo lugar, escravos fugidos 250
dividindo a bandeira dos godos. Não quebrarei,
jamais, el hombridade a quem combate conosco.
Puno Sicília em terço lugar! A terra de ingratos
há de pagar seu mal, porque meu povo a poupou
mas ela abriu seus portus às tropas de Belisário: 255
Sempre ajudei ca protegi da morte inocentes! –
Mal ouviu lo diácono e fraquejava perplexo:
– Que dureza de coração, Totila, e que raiva
contra um povo decente e quão injusto juízo!
Nem sabia a Sicília que Belisário aportava, 260


13




nem se soubesse, coitada, que combate ousaria
contra tanta esquadra a triste grei desarmada?
Vão pesando já los meus olhos só de pensar
naquela gente agricultora que mal se mantém e
jamais erguerá no mundo espada contra uma vida. 265
Este o crime, porém, de que acusais uma simples
grege tão somente abrigando quem foge de Roma?
Mas que digo e que esperança ainda mi resta?
Pois se contra um povo tão pequeno e pacato
tendes tanta raiva, quanto mais do de Roma, 270
ai, que tanto tempo abriga as tropas de Bessas
pero que a contragosto? – Mas o rei sitiante
não concede e Pelágio reconhece a derrota,
fim do intento e breve intervenção por caídos.
Era melhor, talvez, perder os pés e a palavra? 275
Antes porém de soluções e juízo acertado,
Pelágio viu-se a sós e transtornado e sem rumo.


δ

Totila recordava o legado
todos os dias. Sob o sol e na sombra
o mal que descrevera, 280


14




o fantasma perseguiu-o. Cismando
e contrito falava a sós.
– Rigo! – chamou no meio da noite
o mestre de escudos. Num surto de febre
o monarca buscava resposta. 285
Andavam no escuro
debaixo das árvores quando o rei interrompe:
– Pelágio não mente. –
Mas o perito avisava:
– Ele torce por nossa desgraça, 290
conspira contra nós.
Aguarda as tropas de Belisário
ca então verás a verdade. –
Totila escutava,
mas Rigo não o vira: Verdade era parte 295
da voz de Pelágio.
Pensando além, ruminava as perdas
de guerra e tempo. Pesando os presságios
e muita dor
tomou pelo braço Rigo, depondo: 300


15




– Irmão que és,
farás um favor que te peço:
Veste a roupa do rei godor e te apressa! –
Rigo não entendeu, mas Totila prossegue:
– Sabes do santo do Monte Cassino? 305
Busca-o! Finge seres Totila, pergunta
por Deus e pelo guês e vitória. –
Nembrando imagens
como Pelágio pintara, o rei prescreve:
– Se o cerco è vão, 310
nòs vamos embora! –
Falava aturdido
e repetindo palavras. Perdera o juízo?
Rigo partiu de manhã cavalgando por ermos,
no siso incerteza. 315
Vindo ao monte recluso,
por onde ao sopé cuidavam dous de verduras,
Rigo saltou do cavalo –
os hortelãos se prostrarom
certos da morte. 320


16




Mas o frião do rei
demanda: – É aqui
que Benedito se encontra?
Eo sou Totila, o Frói, eo quero vê-lo.
Chamai o gau! – 325
Os dous assombrados subirom
mas logo Rigo avistou, que descia moroso,
Bento abrindo seus braços:
– Bem-vindo, Rigo, à nossa morada. –
Como se um raio o fulminasse, 330
o servo do rei surpreso ardeu no seu pranto,
mas escondendo os soluços ouviu Benedito:
– Filhinho, será bem-vindo qualquer irmão
que visitar nossa escola de Deus! –
O cavaleiro subiu ao cavalo e 335
foi-se embora. Entrou aos gritos na tenda
do godo: – Benedito è bom de verdade!
Os ogos seus pousarom em mim e souberom
meu nome e quem me mandara! –
O rei no mesmo momento 340


17




leixou atrás o resto
subindo ao cavalo. Varou
os campos tristes dando ao Monte Cassino,
passou perante os mortos.
Quando a prima estrela raiava 345
chegou, de longe como olor da terra molhada
subindo ao céu, e pediu: Chamassem o santo.
O qual acedeu, que descia e saudava:
– Ave rei, que buscas? – Um rei de joelhos
beijando-li a mão falou do fundo do peito: 350
– Como foi isto, Bento?
Por que motivo
um homem ilustre e culto
abandonou seu nome?
Por que 355
buscaste abrigo em cavernas
bebendo chuva e comendo terra?
És um santo e punirei
quem te mandou embora de Roma:
Diz o nome apenas! 360


18




Diz quem te fez vagar pelo frio
abandonando a cidade! –
Mas Bento de Núrsia
põe a destra sobre el ombro do godo:
– A vida è constância 365
quando o Cristo guia, fuga não.
Abandonei meu nome
pois o nome nunca existiu, nenhum existe.
Deus
mostrou-mi um rumo maior do que a glória. 370
Non caibo num Fórum
que à vida verdadeira non cabe:
Foi Deus que me mandou embora!
Pois ouvi, entendi, retirei-me à caverna
pelo amor de Roma e de todos. 375
Deus não se impressiona com Roma,
Deus, que è rumo, vida e verdade!
Foi Deus que fundou esta escola
donde a vida humilde pede por quem è grande,
e pede só piedade. – 380


19




Olhos nos olhos, Totila
responde ardente: – Ai de mim, Benedito,
pois herdei um dever lastimoso,
eu, que nasci no reino tranquilo
na paz de Teodorico: 385
Era uma bloma a Itália, Roma era amor!
Por que odiarom tanto o meu povo?
Quero saber de Deus:
A vitória è nossa ou de Justiniano?
Um ano se passou de cerco e de fome. 390
Se Deus mandar embora eo vou,
reúno o meu povo e busco guês.
Mas Deus desdisse dos godos
depois de tanta guerra e sofrimento? –
O santo mostrando o céu emergiu: 395
– O futuro a Deus pertence.
Talvez a vitória venha a ser de teu povo,
mas ah, filhinho,
como è breve o ganho do mundo:
Vitória e verdade se excluem. – 400


20




Isto e muito mais el homem santo lis disse.
E um rei angustiado cavalgou pelo bosque
junto a Rigo et outros.
Não sabia, nembrando a grave sentença,
se Bento falava da sorte ingrata de todos 405
ou predizia a ruína.


ε

Veio a pé da Calábria gritando por dias inteiros
um home atravessando a terra, arfando cansado:
– Rei! A piëdade que rogo è somente a da morte,
sim, ordena ao soldado que desonrou minha filha 410
crave fundo esta faca forte aqui no meu crânio.
Olha, senhor, o mundo nem me ensinou a falar:
A vida minh’è leite de vaca e vagar em cidade
onde Deur me ajuda e vou vendendo e viveno.
Era tão bonito quando a menina era alegre. 415
Nunca fez um mal a ninguém, coitada que era,
só tocava em teta de vaca e cuidava de bode.
Dia e noite ela orava e preparava a comida,
tinha tristeza em minha vida não, soberano,
minha filha pensava mais em mim que na lida, 420


21




eu, que vou ficando fraco e ficando caduco.
Ai, meu Deus, chegou de repente aquele soldado,
dei-li o gado inteiro e comida e leite e dinheiro
não li bastou, Totila! A minha filha gritava
feita louca implorando em vão mar nada ajudava. 425
Maltratou demais a menina, desdisse de Deus!
Ela agora corre e grita e non sabe o que fala
nem reconhece pai nem mãe, sò fica chorano.
Isto n’è vida não. Se alguma cura eo soubesse
dava dinheiro mas ali, senhor, non se cura. 430
Já que Deus non teve de nós piedade nem graça
vim morrer. Senão, eo vou viver de que jeito?
Era ela o sustento meu e da mãe perturbada
nem justiça ajeita mais uma vida quebrada:
Mata logo quem non tem nimigalha de nada! – 435
Dito isto prostrou-se como curvado de cãibras
mas Totila estendeu-li a mão, o rei ao caído,
contendo como podia as impressões desregradas:
– Tem a bondade, ancião, de revelandi o nome
desse soldado. – Feito assim Totila alterou-se:
– Prendam! Tu porém, senhor, descansa por hoje e 440


22




logo discutiremo-lo termo da morte que imploras. –
Mas aos soldados o rei ordenou li dessem abrigo,
pão e remédio: Fosse provudo bem e de tudo!
Quando aos conselheiros houve chegado o caso,
pela manhã demandarom transtornados Totila: 445
– Este werreiro, rei, è forte herói de batalhas!
Veio do peso da sua lança, tremendo projétil e
míssil que como nulhome arremessa, nossa vitória
contra Nápoles: Veio de graça ofertar a vida!
Quando a morte era certa, cercado nunca fugia 450
nem se viu nos éus valência maior entre godos;
antes corria enquanto a multidão de aliados
debandava em retirada escondendo-se em selvas,
todo a sós, al ombro a lança contra milhares
guer sem medo. Perdeu respeito à morte lutando. 455
Pois o corpo carrega inteiro marcas de guerra
como um troféu de sacrifício por nossas ansas!
Não baixar ja-quando o viço dum tringo soldado:
Que pensavem ao verem preso, punido ou caído
raro exemplo, monumento à coragem de guerra? 460


23




Toda guerra è feia, froia! Os crimes da carne
forom preço, nel ato extremo, de várias vitórias.
Algo de compaixão lo bom guerreiro merece,
doutro modo o gueso gótico nosso se perde e
vai-se embora na sua gorisa a massa dos bravos. 465
Já se passarom tantos anos de morte na Itália,
Gus dos céus, e cada dia se assoma incerteza
pelas mentes. Não fragades a guena menor e
foco de fé que nos resta ainda: Tempo è verdugo.
Eiþan, cá conclama o bom conselho dos rainos: 470
Seja solto, pelo amor da anguisa dos godos,
seja solto um tringo a quem se deve a vitória! –
Mas Totila responde: – Perdestes vossa memória?
Ik, estoas, selara acordo de paz com Bizâncio
pronto a render o forte e gumas meus de Treviso 475
quando viestes suplicando ofertar-mi a coroa.
Fôramos lá deixados por Vítice, o rei dos vis
covarde abandonando as arma durante a batalha.
Fora morto o meu tio Idibaldo, Deus o tenha,
mas a vós pareceu prudente crer no impossível! 480


24




Ora, desde o primeiro dia roguei mi dissésseis
contra quem imperava prosseguir esse flol.
Contra quem lutamos, godos, quem combatemos? –
Eles porém perplexos retrucarom de súbito:
– Contra Justiniano, Totila, e contra Bizâncio. 485
Como não, se veio deles a guerra e ganância? –
Isto dito, o rei concatena: – Não mi rogastes,
goias, a luta contra romanos, contra inimigos
sim jurei guiar o meu povo, rei dos romanos
como dos godos. – Soldados recebendo o sinal 490
trouxerom adentro o genitor duma vida sem honra:
– Diz um gueso, ancião – Totila assim começa –
tinha a menina alguma relação com Bizâncio? –
Mas o velho assustou-se: – Tinha como, Totila?
Nunca saiu de casa. – O rei porém continua: 495
– U nasceu? – O velho disse: – Lá na Calábria. –
Nisto Totila apontando os conselheiros unidos
pede ao pai: – Explica por piedade aos juízes
qual a vida que tua filha levava em gardo. –
Mas o senhor ouvindo clara a palavra juízes 500


25




teve medo e deformado por lágrimas trouxe:
– Só tocava em teta de vaca e cuidava de bode. –
Foi levado afora por onde esperava aturdido,
Totila dentro falando aos anciãos temerosos:
– Fui traído, godos, foi punida a inocência! 505
Era aquele o soldado mais valente dos nossos,
ele que arremessou coa mão lo exército ao chão?
Foi de fato o mais covarde dos hômino aquele
que tanta força usou e contra a vida sem erro! –
Quando o guerreiro teve compareçudo na corte, 510
vendo junto ao rei lo conselho, o pai da menina,
pôs a verdade: – Rei, o crime meu è sem cura. –
Totila retruca: – Cão! Algum soldado dos nossos
foi mandar unires-te sujo à nossa cohorte?
Ƕa? Por que pagaste em guisa tão grotesca 515
tanto de guena depositado em ti pelo povo?
Para quê lo arbel de tantos gestos heroicos?
Não leixei passar um único dia em batalhas
sem avisando ao are que não tocasse castos
nem ferisse inocentes. U passavas, werreiro? 520


26




Éramos vinte mil gadrãos no início da guerra
mas gana e presunções e gestos feios minarom
nossa força: Homens como tu, vergonhoso!
Raça melhor requer um rei de escasso recurso
quando a salvação de seu povo exige a vitória. – 525
Mas o guerreiro sem medo agora calava-se,
vendo que nem defensores seus se alegravam,
antes balançavam baixa a cabeça confusos,
inda buscando pela mente fraca argumento.
Disse-lis pois o rei: – O pai daquela menina, 530
já sabeis a graça que veio rogar de seu froia?
Veio pedir, estoas, a própria morte somente!
Que toer? Mostrave al idoso gor e minado
que neste reino a morte vale mais do que a vida?
Ou foi ufão maior mostrar por alguma atitude 535
que neste fréu alguma coisa fagra è possível? –
Entra entonce o velho trato adentro na corte
donde Totila olhando os olhos seus explicou-se:
– Tenho torturado a mente em vão ruminando
como posso perante meu Deus, juiz de juízes, 540


27




dar-te a mortem que firmemente pedes e imploras.
Diz algum dos crimes que perpetraste na vida,
dá-mi ajuda, ancião, porquanto rem encontrei.
Antes pesei na mente os atos teus e palavras
e como pude as comparei com juízes. Andante! 545
Quanto mais a tua boca articula as palavras
mais se evidencia a mim que tou nome è justiça.
Como manchar de morte a vida que veio de longe
greta e caminhando por léguas a pé destemuda,
trazendo al erto apenas confiança em Totila? 550
Desta corte o tringo vai-se embora com vida! –
Mas o velho não se leixou levar por palavras:
– Rei generoso, è mais amarga a minha verdade.
Tudo acabou: Levaro meu gado, leite, dinheiro.
Todo dia eo busco um lugar de andar pelo mundo 555
mas no mundo acabou lugar ca meu gado acabou.
Sei viver sem rumo não, eo quero um descanso
e peço morte è para estar chus perto de Deus. –
Isto dito Totila estendeu la mão que calasse!
Junge-li o rei: – A tua morte non posso te dar 560


28




mas posso dar justiça e dom maior do que a morte.
Para que tou pedido non fique em tudo incompleto
dar-te-ei de fato uma morte, a morte del ímpio
ser que anamantou la menina. E dou-te um ordem:
Leva contigo o gado, o leite, l’escau, lo remédio, 565
leva el ouro que o rei te daremos e trata a menina,
trata como se fosse dodra dum rei que a protege
nem reclames: Maior justiça somente a de Gus! –
Totila, pois, ordenando a morte dum pravo soldado
deu los seus haveres todos, pilhagem de guerra 570
ao pai, que retornava embora aos braços da filha
rico rezando a todos que encontrava na estrada
quão bondoso li fora o rei Totila dos godos.


ζ

Na mesma noite aparecerom quatro
soldados bizantinos. Eram remotos 575
da Isáuria pois lugares ermos proviam
as tropas de combatentes. Quando Totila
apareceu perguntando o motivo da busca,
os guardas implorando insistentemente
abordarom: – A gentchi venh’aqui li falá 580


29




da partchi dji Bessas, mar não mandada pur eli.
Sinhô, até daqui si consegui iscutá
gemidu i som dji todu jeitu i sofridu
qui mermu surdu sentchi. Inda tem gentchi
im Roma guentano gemê na fomi, milagri 585
a visão du infernu! Mas ua coisè verdadji:
Vali nada essi Bessas guardano cumida
du povu, coisa qui nenh’è deli, è du povu,
pedaçu dji grão i carni lá da Sicilha.
Du qui eli gostè de cachorrada, Totila. 590
Semana passada li iscreveu Belisário:
Tomi vergonha na cara, so trastchi infeliz,
e dê dji cumê au povu. I Bessas s’importa?
Ficô foi ricu dji tantu vendê pa quem pódi
pagá, ou melhó, pudjia: Djinhêr acabô. 595
Agora mi digam: Issè serviçu dji gentchi?
Até soldadu passanu fomi! Dji noitchi
u coru comi qui è bebedera i mulhé
i dança i só festança i lambança na torri.
Mar fora, meu Deur, dà dó djimais dji vê 600


30




morrê mininu i velhu feitu cachorru:
Negóciu du demu! – O rei porém produziu:
– Por várias vezes, homens, propus a paz
e a fome, como se vê, è culpa de Bessas.
Buscai um caso e jamais vereis entre godos 605
esse tipo de gueso. Que Bessas se renda!
Com Bessas vos cumpre falar, comigo não! –
Mas um dos quatro irrompeu suando nervoso:
– Nem quiu demôniu mi lev’eo falu cum Bessas,
gentchi rũi, qui si dependê dum cachorru 610
feit’aqueli Roma si acaba dji fomi i
morri dji veis. – Forom pois revelando-li
o plano: – Sei a hora da troca da guarda
nu muru. Eu, i us três aqui, começamu
dji madrugad’u nossu turnu, u restu 615
durminu. Pelu amor dji Deus, soberanu,
entri dji veis im Roma, acabi cũ issu!
Nòis abri u portão laterau da muralha,
a trop’inter’invade i termin’u suplíciu,
promessa nossa. Queru sabê um negóciu, 620


31




sinhô: Si nóis abrí portão pa godu,
será qui u godu dexa a gentchi vivê? –
Totila foi tomado como dum raio e
faísca nos olhos, concedendo exaltado:
– Se for verdade, wardas, esta promessa, 625
não somente vivêieis mas ricos sereis
e tereis de mim uma recompensa tremenda. –
Mostrava-lis pois o baú repleto de joias,
deliciosas as prendas de prata e d’ouro
e pedras delicadas, pulseiras, correntes. 630
Erguendo uma rica presilha, detalhe dourado
na forma e na tez de borboleta raríssima,
el-rei lis disse: – Vale mais duma vida! –
Choravam quase em comoção los soldados
nembrando as toscas ocas donde saíram 635
pelos ermos de Isáuria – eles, coitados,
que só buscavam pão de início, dinheiro,
leixado atrás em regiões desgraçadas
família larga na espera, mães e meninas.
Totila marcasse a data e logo abririam 640


32




generosos ao godo as portas de Roma –
e quis-cada-quem encontraria ao final
lo paraíso seu, dinheiro out império.
Mas o rei confabulando nos bosques
com Rigo, lo tringo amigo, rogava aviso 645
e falava baixo: – Será verdade a promessa?
Sõ espiões mandados por Bessas decerto
tramando ruína. Não parece verdade. –
Mas Rigo ponderava em silêncio cansado
e temendo o destino. Vez et outra mirava 650
folhagens dalgum árvor, antigo ancestral
incerto no meio da noite e respondia
sisudo: – Melhor atender, melhor estudar
melhor o palavreado e ver as promessas.
Pode esser emboscada. – Conselhos de Rigo 655
tinham forte efeito no rei. Os soldados
isáuricos iam esperando em vão resposta,
desesperados ao ver perdudo o prospecto
de bõa fortuna e Roma renduda e de paz.
Totila foi astuto e de fato mandara 660


33




dous ou três dos godos rondar a muralha
de madrugada e comprovar o episódio.
Nisto porém a notícia do plano iminente
chegou a Bessas: Veio da boca abalada
dalgum soldado zeloso e fiel guerreiro. 665
Era um braço leal de Belisário, chefe
maior e general das tropas de Justiniano
em toda Itália, conquistador de Cartago
contra o povo dos vândalos: Era um homem
de fama em Bizâncio. Belisário contudo 670
via os portus e fortes da Itália rendudos.
Por qual perigosa estrada trazer os poucos
homens? Contudo Bessas ouvindo a notícia
decerto ouviu de noite ao canto da cítara,
bebudo em libações nos braços da amante, 675
decerto assim porquanto não reagira:
Antes houve responso ao soldado ansioso
que a flecha forte dos hômino seus bastava
contra o godo cansado. No mesmo momento
quatro soldados transbordando de angústia 680


34




buscavam Totila: – Pel’amor dji Jesus,
sinhô, demor’è djimais! Si Bessas soubé
dalgua coisa a gentchi morri linchadu.
O quer’è quium raiu cai na mha cabeça i
mi matchi agora na frentchi dji tuquè gentchi 685
si fô mintchir’u c’o tô djizenu, qui Roma
tá qui implora invasão ’sa cidadji dji Roma,
sò faltè querê! – Totila enviava espiões,
e nesses lances de medo e tanta incerteza
o monarca buscava como aprehenso na mente 690
a tenda antiga de Rigo: – Talvez Benedito
preveire, gaiúca, a grandiosa vitoriam!
Reza, amigo, roga que Deus se apiede
da nossa gente, a glória seja a verdade
e não começo dalgum tropeço de morte. – 695
Quando ouvirom que já seguiam a Portus
donde Belisário intentava os resgates
certos soldados afoitos, o peito na boca
o mais veloz o possível querendo avisar
perigo ao general, cavalgando e tremendo 700


35




aqueles quatro isáuricos forom aos godos:
– É agora ou nunca! – Ouvindo e pesando
os detalhes, Totila incerto e lívido incede,
a Rigo e poucos outros dos próximos seus,
que fossem ver de si mesmos no meio da noite 705
o estado da rês. Em poucas horas voltarom
e Rigo medês li disse: – Tudo em silêncio,
a guarda dorme e ronca e sonha tranquila. –
Deu-se assim que um rei, arfando exaltado,
mandasse a quatro soldados: – Podem abrir 710
as portas de Roma! Podem abrir a cidade! –


η

Quando o aluvião de tropas entrou na cidade
Bessas e os seus soldados debandarom embora.
Pela porta oposta e desordenados, perplexos
cães leixavam pelo chão escudos e lanças, 715
ora que o medo vivo cambaleava a coragem.
Mas as tropas fugirom duma fuga ligeira:
Era o povo que não valia a correr enjeitado
pela sarjeta e dividindo a vala cons mortos.
Que visão e triste sina aguardava Totila e 720


36




quantos corpos apodrecendo à beira do Tibre,
vivas quinhentas almas onde dantes milhões.
Quem a força extrema dos pés ainda ajudava
já buscava igreja de abrigo e não se enganava:
Era um ódio tremendo depois de meses em duro 725
cerco et anos florescendo no peito dos godos,
era de pouco efeito o sermão dum rei moderado.
Home assistia pelas ruas a lança, o imenso
míssil atravessando pelas costas um velho
corpo, merecedor talvez duma morte melhor. 730
Mas aglomaravam-se aflitos dentro de templos
dividindo a fome, a dor e o medo os caídos.
Não havia nem plebeus e patrícios: Romanos
terrivelmente irmãos, e os senadores de agora
vinham batendo porta em porta pedindo comida, 735
concorrendo em caça com cães e moscas por carne.
Uma coisa, parece, Totila ensinou aos soldados
pois que houverom trata os ansiosos lanceiros
Rusticiana, que fora esposa de outrora Boécio:
– Essa mulher do demônio pagou pra destruírem 740


37




a estátua de Teodorico! Pois prendemo a cadela!
Froi, a vadia nem precisa morrer de verdade,
basta nós usar como quer, nòs acaba com ela. –
Mas a refém mirava o chão e negava palavra,
ela cuja dor, relatavam, matara de pena 745
Teodorico em remorso e desgostoso da vida.
Inda nembravam como outrora o rei da paz,
depois de trinta anos aclamado por todos,
fora imprudente em breve e desgraçado instante.
Dando ouvido à língua duma invejosa mentira 750
veio a crer que Boécio, homem de prece e poemas
cuja causa era um pobre povo, tramava assassínio.
Antes que algum apelo forte pudesse movê-lo
deut à morte Boécio com Símaco, pai et esposo
dela que agora ali se calava perante Totila. 755
Mas o rei da paz percebera tarde o seu erro:
Era em vão que perdia a noite inundado de pranto,
era em vão correr como louco berrando orações.
Nem perdão que pedira da esposa contrito de pena
nem o perdão de Deus bastava, antes sonhava: 760


38




Via Boécio derramando seus olhos no claustro
e tendo às mãos sangrando a decepada cabeça.
Ora, a visão do inocente seguiu lo rei da paz
na aurora e tarde da noite não havia sossego:
Meses depois, Teodorico enfermou-se e morreu. 765
Mas também a matrona passara os últimos anos
presa dum pranto imorredouro e porém ajudando,
como outrora o marido, infortunados de Roma.
Totila entanto manda: – Fique em paz a mulher! –
Mas o clamor maior se viu de manhã nos famintos 770
quando o monarca, tendo Roma inteira renduda,
veio rezar e agradecer a Deo por tremenda
e grandiosa vitória, dentro da igreja de Pedro.
Ora, la igreja de Pedro amanhecera lotada,
era uma densa massa o mar buscando refúgio: 775
Desde a madrugada as mães escondendo menores
atrás de bancos gemiam baixo cobrindo o rosto.
Quem podia andava arfando a todos os lados
inda clamando o nome dalgum parente perdudo.
Outros enfim deitavam num canto escuro calados 780


39




vendo a cruz enquanto perto alguns se abraçavam.
Quando Totila pôs os pés adentro da igreja
rumo al altar, um povo em desespero irrompeu.
Tremendo caiu de joelhos implorando clemência
como insano e balbuciando os apelos confusos, 785
tentando fugir em transtornados saltos e gestos.
Criam que o rei entrara no templo para os fazer
sair à força quando afora a spada esperava.
Veio porém distinto vulto de encontro a si,
curvado e carregando uma bíblia. Era Pelágio: 790
– Amor de Deus soberano e piedade da gente!
O pobre povo abandonado de tudo em Roma
fez o quê para merecer – pero não prosseguia
pois as suas palavras afogavam-se n’alma.
Mas Totila li acede: – Sai do chão, infeliz, 795
agora! Eu devia è brecar a tua cara de infame,
eu devia mandar cortar-te a língua, fingido!
Quando me houveste visto fiz ofertas de paz
e generoso acordo: O testemunho da vida
prova quem eo sou e quanto fiz pelo povo 800


40




não dos godos, mais até por gente de Roma.
Ende rem impressiona as ambições de Bizâncio!
Tens a memória curta, cão! – Pelágio contudo
recomposto um pouco sussurra: – A minha ambição
de mundo, meu senhor, è pão pra Roma somente! 805
Eu que servia Bizâncio sejo agora tou servo e
servo apenas teu: Ordena de mim o que queres e
minha vida è tua. El única prenda que imploro,
rei, è compaixão por estes que nada fizerom!
Tem paixão de nós estora que Roma è renduda: 810
Ordena por Deus aos invasôribos teus caridade
pois aqui se congregam não inimigos, escravos! –
Totila assim ergueu Pelágio et outros do chão
e proferiu aos seus leixar em paz moribundos,
mas voltou adrentro invocando: – Para, Pelágio, 815
suportei demais ofensas por esta paróquia
nem sairei leixando alguém pensar que è minha
culpa a devastação duma terra. Quero justiça!
Quero falar aos senadores de Roma no Forum! –
Forom rebandados às pressas caindo aos pedaços 820


41




homens velhos e anamantados de fome farrapos.
Já também lo povo se aglomerava agitado
para ver o que o rei diria e quanto ouviria.
Mas aqueles homens de outrora império calados
forom despidos per ordem do rei perante o povo, 825
para que dessem nus o testemunho da inglória:
– Raça infeliz – Totila acena –, desde o começo
tenho mandado apelos desesperados e cartas.
Não entendo donde vieire a vossa descrença e
vou buscando em vão resposta e me desiludo. 830
Que de mal Teodorico outrora vos fez,
senhor que dava ao povo pão e mão amistosa?
Era um protetor do Senado e do povo da Itália,
ele que amava mais a Roma que a própria gente.
Inda dileto em toda a terra nunca interveio, 835
antes vos dava a cada dia mais liberdade.
Mas que paga feia dades ao rei valeroso!
Muitos forom privados para dar ao Senado
nova glória, pero que efêmera como vemos.
Mas i se vê lo princípio que move o destino. 840


42




Ele que tudo fez se pedisse de volta um favor
de vós seria rem comparado ao que dera e
deu de graça, pois è assim la guisa dos godos.
Pedi somente mi abrissem as portas duma cidade
para que o bem de Teodorico em vós prosseguisse! 845
Quis evitar o caso gor em que agora vos vejo
mas foi tudo ilusão, foi tudo incauto juízo! –
Inda boquiaberto, o rei mirava os fantasmas:
Ossos encolhudos no frio perdiam olhares
pelo chão enquanto a gente tapava os olhos. 850
Mas Totila em novo acesso incluía-lis inda:
– Er dizede perante a sombra de Teodorico
de qual bondade Justiniano usou per Itália!
Home que nem aqui nasceu peleja por Roma
como se Roma fosse o berço, mas eu vosso rei 855
è nado na terra e na mesma terra cá me criei!
Não cheguei nem vim de alhures como soldados
gregos e os persas e constantinopolitanos,
mercenários sem causa e de toda causa paga!
Não saí por aí corrompendo no mundo inteiro 860


43




jovens na prata para lutarem, nem combatemos
como aqueles no amor dalgum passado de ufão:
Nós lutamos è pela própria vida dos nossos,
vida que um homem decidiu ruir sem remorso.
Quero ouvir um bem que lo Imperador vos confira 865
fora a guerra e demolição de serenas cidades.
Neste ardor de passado e de ufão foi retomada
já dos vândalos toda a costa d’África e Líbia:
Deus dos céus, acabou-se l’África e Justiniano
cada dia aumenta imposto, arruína as ruínas! 870
Ora quereis que faça o mesmo da Itália? Fará! –
Mas nenhum senador aduz e Totila antefere
frente ao Forum quatro combatentes de Isáuria:
– Pois, Romanos, doravante serão senadores
estes quatro, estes sim amigos do povo! 875
Eles abrirom as portas para o fim da miséria!
Não julgarom gretos os homens de Justiniano
servos duma ingrata gestão e fazenda de guerras. –
Desta vegada, porém, foi mais amargo o silêncio
pois Totila mirava aqueles homens nos olhos. 880


44




Mas ergueu la voz por eles um vulto distinto:
– Poupa, Totila, tanta vehemência verboro
contra quem mostrou lealdade e ficou na cidade.
Não convém insultar um moribundo arruinado
quando a fome fez calar a verdade no ventre! 885
Qual das tuas cartas alcançou senadores?
Eram todas retentas pela guarda de Bessas
ora que o bom Senado não dispõe de recursos.
Qual dos nus que vituperas foi responsável
pelas tropas de Belisário, por armas alheias? 890
Pois non foi o Senado que as foi chamar a Roma!
Pois non foi Senado nem Povo que foi consultado!
Tanto nõ eram daqui que nem lutarom por Roma,
saírom correndo co general e sous provimentos.
Estes que increpas poderiam ter debandado 895
mas melhor pareceu ficar conosco e servir-te!
Portanto não maltrates quem implora tutela,
quem ficou por confiança e não covardia! –
Foi talvez no efeito desse apelo que o godo
mandou vestir do frio los macerados aspectos 900


45




mas intermitiu a Pelágio: – És o meu servo
como dizes? Ouvi direito o termo no templo?
Ora Pelágio, Roma quer a guerra ou lo guerso? –
Roma decerto queria paz e Totila arremata:
– Boca de Roma, tu que dantes iste falar-me 905
agora irás de Roma falar a Constantinopla! –
Houve tremor e convulsão perante os caídos
dum povo quando a nova correu as ruas: Pelágio
fique conosco! Totila contudo não concedeu.
Na mesma noite forom acertados às pressas 910
termos de paz: – Em tuas mãos – o rei avisa –
jaz o destino de Roma. – E não havia demora.
Zarparia a nave em breve et era de império
quanto antes retornar ca lo rei esperava.
Mas uma grave ameaça fora escrita e com ódio 915
na carta al Imperador: Se Roma caída non basta,
caso a guerra prossiga um pior evento virá.
Ruína em fogo, uma eterna cidade será destruída,
mortos os senadores, tomadas outras províncias.
Tendo em mãos a missiva Pelágio zarpou apressado: 920
Pelas ruas atrás vislumbrava um povo alarmado
antecipando a dor e o fim duma eterna cidade.


Totila






B





θ

Em torno do fogo um forte coro de godos,
vitoriosos soldados, cantava serenas
canções, sorvendo em libações de alegria 925
as notas e um gole, doce, do vinho de mel.
Os ânimos ébrios, entrevendo a muralha
envolta no inverno lunar, alçavam o cálice,
bebendo e dedicando as bênçãos ao froia.
Se algum momento o gor vislumbro surgia, 930
amigos e fogo e vinho nembravam sorrisos.
Nessas noites tranquilas rolavam histórias
em torno às rodas de fogo e fatos heroicos.
Passadas horas e casos, contadas façanhas,
os ébrios mandarom buscar, do sono profundo, 935
um jovem de glórias: – Ruderico, frijōnd,
a noite è longa! Drigk, fralusts ist slapan.
Conta aos homens aqui, mas conta a verdade,
como salveires a vida. – Um cálice pleno
esvaziava-se, aos poucos, na boca do jovem 940


47




e Ruderico livrava da boca as palavras:
– Rapaz, a flecha entrou dum lado da cara
e foi sair del outro, aqui a marca, a bochecha.
No dia seguinte, só no final da batalha
foro ver de verdade. Passei que nem vi, 945
lutando feito um morto-vivo e fantasma
apavorando Bizâncio. A flecha era imensa
mas cá ficou, atravessando a cabeça. –
Mostrava assim deformações elegantes
no rosto, exemplo extremo: – Só me livrei 950
do pau porque pus eo mesmo sozim pafora.
Ninguém queria rancar e o povo dizeno
que a morte era certa, a carne acabada
todinha, bastava alguém tocar que doía.
Morrer? Eo tou è vivo e bem vivo demais! 955
Depois de um mês tirei la flecha na marra,
melhor, tirei que não! Eo tocai, caiu. –
Mas Vilas, o bom lanceiro, deu-li a spada:
– Eiþan, menino, mostra a flecha na cara
como quebreires e como salvaste a cabeça. – 960


48




Do fundo do fogo a gargalhada irrompia
mas Ruderico abafa os risos, galante:
– Amigo, mostro na tua cara e se queres
agora, gracioso! – Mas foi impedido:
– Ei, gadraúhtōs! – É que todos sabiam 965
que Ruderico, coa mesma flecha arrancada,
noutra luta cortara a cabeça dum grego.
Foi buscar o crânio, nembrança de guerra
e prova de imensa força, valor de respeito.
Mas quando o próprio crânio de Ruderico 970
navegava no vinho, o jovem guerreiro
ergueu perante o fogo o crânio do vinto,
prenúncio dum ritual temível, e a spada
partiu-o, rápida e leve, em duas metades,
uma vil, lançada embora entre os ratos, 975
outra uma esbelta e rara circunferência:
Na sombra rememorava artefato sagrado e
Ruderico, num grito de guerra irascível,
bebeu daquele crânio pleno de vinho
a goles fartos, lambendo as últimas gotas. 980


49




Dizia a crença: Quem bebesse do crânio
dum grande imigo sorvia-li toda a força,
o medês espíritu: Era a vitória cabal,
conquista da carne como d’alma roubadas.
O jovem d’armas tragava em ruído voraz 985
o sopro daquele morto, dito valente
por entre os gregos bizantinos; as almas
de fato sobrevivem depois da desgraça?
Após um breve e cadavérico instante,
canções de outrora soarom perto do fogo 990
e tornada a calma Vilas contou lo seu caso
prevendo a Ruderico: – Pois que cresceres
darás valor maior ao amor pelos outros.
Eu, por exemplo, não careço de crânios
nem me curei, menino, de estranhas feridas, 995
salvei meu povo bom sem alarde e sozinho.
Alguns se esquecerom já pero não me importo:
Na memorável contenda aos pés de Verona,
enquanto os vinte, trinta mil de Bizâncio
covardes lutavam contra os nossos godos, 1000


50




de quem restavam somente Deus e uma pars,
estava eu entre os poucos, a lança nas mãos,
a vara ocupada o tempo inteiro e cercada.
Amigos, a sorte era estar sitiado por quatro
ou cinco apenas: Vinham vinte e montados! 1005
Caí diversas vezes. Pensaram-me morto.
Eu, porém, non piso num campo de flol
e fujo quando a morte parece iminente.
Uma coisa, queridos, meu fadro ensinou
no leito de morte: Não apanhes de excelsa 1010
lança para lancá-la em fuga ao chão!
Caí, de fato, mas caí com grandeza,
erguendo a clava mesmo roto no abismo
e derrubando abaixo os vis do cavalo.
Aceito a derrota, a morte não me assusta. 1015
Escanda fugir, consolo o viço dum povo:
Gaiúcas, os cameradas naquela travada
entraram a campo para ficar e ficarom
até lo fim, e quem caiu levantou-se e
quem morreu foi tringo. Eles fugirom, 1020


51




vinte mil crepados rabo entre as pernas,
jogando por terra escudo e spada, cachorros
buscando covil. Mas Ruderico, menino,
não matei ninguém por busca de crânios
nem chutei caídos. Sperei que se erguessem! 1025
A mia lança, porém, de tesouro guardado,
a ponta derribou guerreiro e cavalo,
lanceiro, flecheiro e poderosas espadas.
Atravessei sozinho o rio caudaloso
quebrando flecha swim no escudo certeiro 1030
coas próprias mãos, nadando contra a corrente.
Cheguei primeiro de todos à margem oposta,
valente em meio ad inimigos: sem medo!
Vierom contra mim mas me subestimarom
e vacilando caírom, calarom, correrom. 1035
Foi assim! – Os cameradas erguerom
o cálice pelo ufão invejado daquele
mestre de lanças e dele ninguém maior,
até que aduz um goia: – Homem de gestos,
a coragem tua è mais até de invejável: 1040


52




Home non pode invejar e nem se tenta
de tão distante de nós, incomparável.
Direi porém meu caso tão curto e menor? –
Dissesse, foi unânime a voz dos ouvintes!
Ergueu portanto a voz Elerico de novo: 1045
– Meu caso è nulha rem, bagatela meu caso.
Alguém renembra o cerco de Roma primeiro
da tropa de Belisário lutando com Vítice?
Foi no ataque: Dous soldados do Império
caírom nas minhas mãos e lá se prostrarom 1050
sem gana, desarmados e desesperados
balbuciando frases em grego e latim.
Queriam viver e a decisão era minha! –
Um certo e sereníssimo olor do hidromel
tornava as palavras mais macias na boca: 1055
– Leixei viver! – revelou enfim Elerico,
o modesto, dividindo os espíritus bravos:
– Homessa, Elerico, ès insano? Foi-te dado
juízo e leixaste viver, frião, que dizes? –
Porém o guerreiro mirando além revelava: 1060


53




– Julgar a vida è fácil, difice è justiça.
Leixei viver. Eo não conheço a justiça
de Gus ca nem eo sejo o juiz, perdoei. –
E completou profundo: – Antes da werra,
minha gente, ik friyoda Rumanan meina, 1065
iþ afar háifst fraláus ik friaþwa meina.
Destino è assim, separa quem nem se casou.
Foi cada um pra seu lado e será quinda vive,
coitada, será que nembra? Eo fico pensano,
pensano, mas de graça non mato ninguém, 1070
perdoei. – E sorriu dum tristoroso sopro
enquanto o silêncio testemunhou-li respeito.
Mas seguiam na noite os casos e o brio
de poemas serenos num monumento perdudo:
O vento levava embora a língua dos godos 1075
além dos muros de Roma e também do futuro.
O vento de fato è destruïdor de desígnios
nem se importa com nossas rodas de fogo.
O vento sopra, apaga e desfaz l’amizade:
Quando se houverom ereitos os cameradas 1080


54




buscando lenha, no meio do bosque um gemer
abafado e desesperado subiu do inferno.
Um homem prostrado e macerado e faminto
ergueu los olhos do chão. Era um romano
e veio de Vilas a mágoa quando indagou: 1085
– Algum pedaço de pão? – O cão vislumbrava
contudo vago e mordia os dedos doídos.
Perdera a voz e Vilas avisa ad amigos:
– Carece muito estomem e vou-li buscar
algum pedaço. – Mas Ruderico interveio: 1090
– Cachorro merece è morte e carece de nada
e diabo de pão! – Assim proferindo estendeu
la espada, separando os passos de Vilas
e a roda de cinzas, confundindo guerreiros:
– Queísso, barno, fez-te o quê lo mendigo? – 1095
Vilas demanda e lo jovem retruca: – Nasceu
romano! Por causa desses o cerco foi longo. –
Em vão nembrarom a Ruderico a clemência
do rei ca Vilas, num gesto grave e ligeiro,
tomout às mãos a própria espada antepondo: 1100


55




– És um grande atrevudo, gadrão! Previno,
baixa a tua espada ou verás de meu ódio! –
Mas Ruderico, em libações embalantes,
rugiu como um louco: – Nim þana haíru! –
Ouvindo o grito de guerra, Vilas desbrava: 1105
– Recebo ordens do Froia, pão para os pobres! –
O sopro mal terminara as palavras e a luta
abriu-se viva e repentina entre as armas.
Voavam os velhos caçadores de sangue
pelos céus e farejadeiros de morte. 1110
Abaixo os gumes afiados cravavam
lâmina em lâmina e fulminantes rajadas
causavam tremor. Mas ai, la inveja do acaso
decide os casos na tirania do arbítrio,
jamais em causa de honor, jamais justiça. 1115
Um gesto falso bastou, momento fugaz,
e Vilas viu descer a espada del outro
contra o próprio pulso: Um raio de ódio
bateu e la mão caiu ao chão decepada!
Às pressas forom apartados, tarde 1120


56




demais, enquanto os cameradas choravam
pela morte iminente de Vilas, sangria,
e pela de Ruderico, já condenado
do rei como réu de libações assassinas.


ι

Longe porém na barca incerta, Pelágio 1125
aumentava em vão o tamanho do mar:
– Quanta mágоa, Deus, e quanta angústia
vai consumindo o meu peito e mi pesa
mais do que o mar e vai me engolindo
como um túmulo. Eo vou embora de Roma 1130
nesta nave e na verdade busco o navio
que me levasse embora è do mundo.
Eo fico olhando esse céu estrelado
como um tolo e vou errando em mim mesmo
e perguntando mais e sabendo e conhecendo 1135
sempre menos. Mas que mundo è este?
Desde cedo eo sabia, a vida è tormenta,
desde cedo eo fui buscando um caminho
longe de império e tentações ligeiras.
Do berço ouvi da voz dos meus pais 1140


57




o destino arruinado dos hômino:
Eram rumores de conhecidos, parentes
que a mão dalgum partido inimigo punira.
Eram rumores de ódio, de fuga e de morte.
Eu passava pelas ruas de Roma e pelas 1145
estradas vagas da Itália e nos traços
dos homens e das paisagens castigadas,
ai de mim, eo percebia bem que ruína
e que mundo sem futuro os pés andavam.
Usar de que modo a fortuna dos meus? 1150
Ia embora um amigo todo dia e vizinho
ninguém sabia aonde. Era a cadência
de Roma ca mesmo com Teodorico,
aquel homem tão bom e tão generoso,
as pedras rudes das ruelas velhas 1155
já diziam toda parte que Roma acabou,
que Roma morreu ca dali non sai futuro.
Eo nembro as almas da minha infância
e nulhome nado queria honor et ofício
amanhã se acabou ca governo è sem remo. 1160


58




Meu pai, que Deus o tenha, graças a Deus
non vê o que Roma virou: Agora entendo
quando me mandava esquecer ambições.
Ainda naqueles tempos as estátuas
e venustas casas contavam histórias 1165
e quão viva era a sua doce nembrança.
Mas ao lado das pedras estava a poeira
desde então e Roma já era uma sombra.
Que destino o meu e mal! Nascer na morte
dum povo e duma história, nascer sem razão. 1170
Agora ninguém levanta a cidade do chão,
acabou, meus filhos, repito, acabou.
Eo vejo os pobres na ermida e nas ruas
e pela missa como andando entre o povo
eo queria gritar no topo monumentoro 1175
como no altar das minhas lágrimas:
– I-te embora, infeliz, sai daquende,
sai pelo mundo afora, povo perdudo,
Roma desaba sobre a tua cabeça! –
Só muito amor de nem sei o quê retém 1180


59




um homem naquele encontro de ratos.
Eu pensava porém que o serviço de Deus
seria uma vida mais grata e feliz,
pero não, coitado e condenado de mim:
Fortuna arrasa o ser em qualquer posição 1185
e nem servindo a Deus o esser è seguro.
Em que vaga de perdimento me encontro,
eu, que quanto mais fugia a ruína
de Roma a ruína de Roma seguia
e vem comigo na terra e no inferno? 1190
Ó, Senhor, eo preferia mil vegadas
o trato rude no extremo do mundo,
os homens sem cultura e fortunados.
Mas não, busquei la barca de Cristo
e as mãos dos homens vão me jogando 1195
polo mundo e me vejo no meio do mundo,
eu, que queria rezar no meu canto
longe de tanta ruína e de mundo.
Eo perco o fôlego e falo sem fim:
Se ao menos no peito eo soubesse, 1200


60




lá no fundo, que o dono das gentes,
o caro amigo que tanto me estima,
er pudesse ouvir e ver o impossível!
Mas non pode, non pode não, minha gente,
gente de dentro de mim, pode como? 1205
A pessoa non viu lo estado de Roma,
non viu, e quando foi que palavra
tocou el alma dum homem tão distante
quando Roma è só banquete de ratos?
Que metáfora, imagem, qual retórica 1210
nova ou velha convence uma pedra?
Ai! Eo queria è desaprender a pensar,
subir dessa nave nas asas dum ícaro
e me perder pelo mar e pelos céus
sair voando a lugar de menos guerra, 1215
menos fome e menos ódio, qualquer lugar,
a caverna de Bento, dum homem sábio
sim, levar comigo um punhado de vento
e caminhar sozinho pela terra inteira
rezando pela estrada e falando coas feras. 1220


61




Mas não, infeliz, essa nau me leva
não à liberdade duma escura caverna
nem aos ratos companheiros do pobre,
leva-me sim às portas de Constantinopla
e delicados palácios, à púrpura, al ouro, 1225
ao sólio donde um homem assoberbado
governa Roma e nunca a viu nem verá
lo tamanho da sua inteira indigência.
È bom que nem veja e bom que se poupe
dos mastigadores de urtiga e de esterco, 1230
ei lacerada existência, ei perdimento.
Era Roma a capital do mundo. –
Pelágio inclinando a cabeça
mirava, sentindo o frio das nuvens,
na superfície undar espelhos 1235
incertos, fitando o líquido brilho
como se desvendasse, da treva,
verdade no embalo do abismo.


κ

Quando porém Pelágio aporta em Constantinopla
pondo os pés no paço do Império, u do sólio 1240


62




Justiniano recebe os enviados e os grandes
(como li reza o protocolo col ordem do dia),
vai correndo levar al Imperador a novi-
dade do rei: Os dedos tremulando coa carta.
Mas o dono do Império acena ao guarda doríforo 1245
e num segundo os hipaspistas, levando consigo
para fora os legados e os súditos, deixam vazio
l’átrio das audiências. Justiniano se apressa:
– Fala, amigo, vejo que um caso urgente te move.
Que se passat e que mi diz Belisário da Itália? – 1250
Foi-li explicando os acontecimentos recentes
tão marcante e tão profundamente que o rosto
como o cetro quase que empaleciam no sólio.
Antes porém que o mensageiro de Roma entregasse
a carta Justiniano estende a destra impedindo: 1255
– É do rei? Non quero nem saber do que trata!
Rasga! Diz ao vil que a Belisário compete,
pois assim o quero, fazer a paz como a guerra.
Ele decida, pois o Imperador que procuram
não discutimus guerra e paz com usurpadôribos. 1260


63




Já podemus voltar portanto al ordem do diei. –
Mas Pelágio, antes que Justiniano acenasse
para os doríforos reabrirem as portas, orando
como podia mostra a missiva: – Honrai, Senhor,
o diadema d’ouro que ilustra o crânio do justo, 1265
esse que tendes! Pelo amor de Deus e de Roma
tende bondade e lede as ameaças dum godo!
Vim rogando aos céus durante a longa jornada
pelo mar que mi desse a letra e verbo correto:
Roma se acaba, Roma è como um túmulo aberto! 1270
A fome castiga os inocentes, os párias padecem
pelo frio mas apenas começa a nossa desgraça:
Pois Totila avisou, perante o povo cansado e
frente aos senadôribos: Roma será destruída e
posta ao chão se não bastar o termo do acordo! 1275
Venho cá na condição de escravo implorar-vos,
sim, que enfim me fiz escravo do rei e refém:
Basta um gesto e Roma inteira se perde no fogo. –
Justiniano lendo a carta pondera e reclama:
– Mas Totila non tem autoridade do Império! 1280


64




São de pouco valor essas ameaças fingidas.
Todo-los monumentos, os muros e os templos,
casas de Romae restituídas erem, prometo,
cada pedra recolocada ao lugar de origem. –
Nisto l’outro estende a mão suada interpondo: 1285
– As pedras sim, mas e las vidas? Que mão rëergue
tantas almas devastadas do chão que as acaba? –
Mas o Imperador reverbera: – A vida est amara,
vir, e não me tortures demais! Erat o início,
era o primeiro mês do meu governo somente 1290
e já chegavam cartas e apelos de Roma e godos.
Não me venhas dizer que tenho rem, o que seja,
contra um povo que apenas protejo da tirania
e como não? Esqueceste aquela tristem mulher
e filha de Teodorico, Amalasunta, a regente? 1295
Não mi implorava socorro a vida reta e valente?
Dês que o pai morrera foi leixada e guiava
Roma e seus godos já que Atalarico, o menino,
era herdeiro menor de idade. Foi perseguida,
Pelágio, foi condenada desde o primeiro momento! 1300


65




Nunca ouvi falar em mais intrigas e ofensas
contra uma vida tão desinteressada e pacata:
Esto, meu caro, pois queria fazer do seu filho
rei decentem, vida amiga da nossa bandeira
como dantes Teodorico a serviço do Império. 1305
Que fazer, indago, quando uma vida sem erro
como essa se lança a tous pés rogando socorro?
Ela perdeut o filho ca foi corrupto por vérmibos
como por homens torpes: Embriagado de morbo
não resistiu lo doente e despediu-se do mundo. 1310
Ela cedeu, Pelágio, contra os nossos apelos
o próprio trono: Quis salvar apenas a vida!
Ela escreveut as cartas mais penosas que li,
die e noite implorando a proteção de Bizâncio.
Ela morreu! Assassinada per ordem daquele 1315
Teodato que as suas mãos puseram ao trono!
Era um próximo! Aprisionou-a pois numa ilha
e contra os meus apelos et ameaças solenes
ordenou de soldados a trucidassem na jaula.
Não bastou! Negou ata la morte o seu crimen 1320


66




contra muitas provas et evidências patentes.
Ela, coitada, teria leixado embora a cidadem
vindo pôr-se ao pé de Bizâncio donde um retiro
calmo e generoso aguardava. E ali morreria.
Não li foi permitido inofensivo silêncio? 1325
Contra um ato inglório levantei mias armas
nem descanso ata que os impostores se rendam.
Luto per Roma de outrora e per Amalasunta:
Saiam da Itália pois ou sejam nossos súditos! –
Vendo a fúria fulminar dos olhos do augusto 1330
Pelágio todavia devolve num gesto agitado:
– Deus dos Céus, se è Teodato a causa de tudo,
nisto existe consenso universal e concórdia:
Nem os godos duvidam, Domine, que Teodato
foi lo autor da fealdade maior deste século! 1335
Mas o crápula foi degolado no meio da estrada
quando fugia para esconder do mundo a vergonha!
Ele morreu, o inferno è testemunha do alívio!
Nem se compara a Totila, Totila è rei generoso:
Pois ergueu do chão Rusticiana e Romanos! 1340


67




Mas que dizer ao rei generoso quando reúne
todo-los senadores e o povo de Roma no Forum
orando: “Que maldade fiz, ingratos, ao povo?”
Ora, as bocas dos oradores então se calarom
frente ao rei ca frente ao rei calarom audazes. 1345
Mas a resposta decerto somente Justiniano
sabe e somente a vossa boca prova e conhece:
Pois uma tal pergunta transtornada e pungente
Totila dirigia menos aos pobres que a Vós! –
O Imperador, a mão cobrindo a testa suada, 1350
fala baixo al outro, quase tocando seu ombro:
– Est um caso de fato raro, ingrato e funesto.
Já se evidenciat às ruas o brio de Totilae.
Mas direi, Pelágio, todo o mal que tem feito.
Veio das suas próprias mãos a proposta de paz: 1355
Pois que outrora Vítice houve rendudo Ravena
veio depois Totila, por carta, propondo render
as armas, os homens e a fortaleza sua em Treviso.
Pois! A pedido seu aceitaumus propensos à calma:
fora já marcada a data da entrega das armas! 1360


68




Mas agora pergunto: Que fazer, meu querido,
quando em toda Constantinopla irrompe um rumor
anunciando Totila o novíssimo rei dos godos?
Já li bastou dum pouco d’ouro e coroa de vis
e lá se foit infame revigorando os rancores? 1365
Não me acuses! Deus è testemunha do acordo:
Quantas vezes depus de bõa fé mias armas?
Eu queria crer em Totila letra por letra
mas non posso: Fui iludido, fui enganado!
Quantas cartas recebi recitando promessas? 1370
Não jurou Teodato que Amalasunta vivia?
Fui traído muitas vezes por muitos governos
mas, Pelágio, a confiança co tempo se acaba.
Não me comovem mais correspondências extensas
pois non sou palhaço, sou lo Dono das Gentes: 1375
Quero pois, está decidido, que saiam da Itália! –
Lívida a boca de Roma transtornada recorda:
– Algo de alívio, Dom, è necessário dizer-lis
para acalmar os godos como o povo sem rumo. –
Justiniano li assere: – Digam toda a verdadem: 1380


69




Cabe a Belisário nossa campanha de Itália!
Já podemus voltar portanto al ordem do diei:
Há questões iminentes da santa Igreja a tratar! –
Ainda falava lo Imperador pero l’outro entrevia
como um fastasma Roma devorada por flamas. 1385


λ

Mas aproximou-se do rei lo guerreiro
Vilas, el homem sem mão, a lança caída:
– Durante dias, andei perdudo por ermos
jurando a Gus e a Ruderico vingança.
Por onde meu corpo se arrastava doído 1390
o movimento tranformava-se em bloa.
Era um rio que jorrava, um mar infinito
levando embora o brio, valor de meu éu.
Caí, senhor, às aƕas dalguma corrente,
sem força de alevantando, presa del ódio, 1395
e quanto mais eo maldizia o destino,
o nome inufo de Ruderico e de infames,
mais o sangue fugia de dentro de entranhas,
mais aquele rio et as pedras e o guês
bebiam a minha vida, o vaso brecado. 1400


70




Não me recordo como colhi memórias
abandonado perante as portas do inferno.
Mas percebi, por algum recurso divino,
descendo no escuro pela escada da morte,
que a mão que me empurrava abaixo, tirana, 1405
menos que el ero de Ruderico atrevudo
era el ódio que propulsava o meu sangue
e derramava ao féror afora uma vida.
Ora, desde aquele momento e remorso
retive a derradeira gota que havia. 1410
E derribando um peso mortal de meu erto
jurei de novo ao doador de destinos:
Dá-mi tão somente um pedaço de vida
e leixarei de mim, a meu rei e meu povo,
o testemunho dum coração sem rancor. 1415
Venho pedindo, desde então, armel
pela vida errada dum jovem sem pai.
Andei pela estrada refletindo atitudes:
Totila! Antes que o barno pague coa vida
deixa-me consumar a sagrada promessa. 1420


71




Eu guiarei Ruderico, eo ero seu froia!
O povo inteiro em pouco tempo verá
lo exemplo dum firme, valoroso na lança
como no flol escão gestor de vitórias. –
Contudo, um rei estupefato mirava 1425
el homem que amigos acreditavam morto.
Viera como um raio a notícia dos wardas,
de Vilas ferido, moribundo e perdudo.
Totila passara sete noites sem sono
vagando pelo escuro em recintos vazios. 1430
Ruderico detento em fuga e rendudo
sperava na jaula a spada pena de morte,
corpo ferido por toda espécie d’armas.
O rei, porém, imagens mistas na mente,
fitando el ar tenebroso induz a Vilas: 1435
– Handus swinþista wast alláize gadraúhte,
eras el alma dum povo e blingarom tou viço.
Renegas, Vilas, o teu direito de guerra?
Tão grande se fez o medo teu dum covarde
que já nem queres punir, pretendes amá-lo? 1440


72




Não, guerreiro, assim non será: Morrerá
ainda esta noite. Auleaste, infeliz?
Mas a mão que a spada ingrata abateu
non foi de Vilas somente, foi de Totila.
O céu conhece o tamanho do meu coração. 1445
Perante o sofrimento e remorso do incauto
jamais hesitei: Estendi minha mão, perdoei.
Desci do cavalo et alevantei-o do chão,
ouvi confissões e ponderei argumentos.
Mas compaixão de iníquos, maus sem motivo, 1450
não comparto e nunca coube em meu peito.
Este guer que queres salvar da justiça
merece morte apenas. Estirpe de pravos,
viveu sem virtude. Ébrio, chutava caídos.
Negava a vida como o pão a vençudos. 1455
Vencendo, vilipendiava cadáveres
corpos sem defesa. Usava das armas
contra os goias como contra verdugos.
Desconhecia a mãe, o sou pai, os brodos.
Foi verdade, Vilas, que ergueu lo seu ero 1460


73




contra ti a que um pária morresse de fome?
Este o suão que adotas, algoz de mendigos? –
A palavras exaustas somavam-se gestos
e o rei arfava. Ora, ainda que fosse
possível perdoar Ruderico da morte 1465
fora um gesto de impunidade soltá-lo,
exemplo mau aos jovens, vinta a virtude.
Mas Vilas não se abala, insiste valente:
– Eu afianço a minha vida à promessa:
Se o filho meu cometer um gesto ingreto 1470
mata-nos ambos cada qual no seu crime! –
Totila enfim desiludido e surpreso
mandou trazerem Ruderico ao recinto
donde anunciou, na frente de Vilas:
– O crime teu, menino, não se auleia 1475
mas tua pena de morte será postergada.
Afiançarom a vida por tua conduta:
Mas Ruderico, non reconheces tou fadro? –
Assim mostrando o vulto de Vilas atrás,
Totila viu lo susto no rosto do jovem 1480


74




ora prostrado, a rouca voz soluçando
enquanto o novo pai tocava-li a fronte.


μ

Fora porém apareceut uma sombra apressada
pedindo ver o rei, misterioso o seu vulto.
Foi com muito esforço que os cavaleiros godos 1485
enfim reconhecerom aquele aspecto assombrado:
Era Pelágio que demandava, um alma penada!
Tinha às mãos a mesma carta do rei devoluta
mas Totila entendeu sem carecer de delongas:
Esse Justiniano era mesmo um homem sem honra! 1490
Mal se importara em ler (a dedução era óbvia)
lo apelo e julgara o remetente rei sem promessa.
Ora o rei cerrando os punhos num gesto irascível
foi secando em vão lo pranto farto e de ódio:
– Esse Império Romano não se importa com Roma? 1495
Abre mão das construções, da paz e das vidas? –
Como tomado num riso atarantado e del asco
não se leixou impressionar e perder a palavra:
– Pois se Roma non vale nimigalha al Império
hei de mostrar o quanto menos mi vale Roma! – 1500


75




Não assentia desrespeito à sua embaixada e
já cumpria gustar melhor o sabor da vitória!
Assim pensou, e firme perante os emissários
Totila sem mais demora e vacilo pronunciou:
– Quero que seja destruída a cidade de Roma! – 1505
Ato contínuo, falanges sequiosas de fogo
forom embebendo em combustível as pedras:
Era em vão abandonados correrem aos gritos.
Nem bastava ainda al ira do rei lo incêndio
pois a história sabia de Nero, viço instável: 1510
Roma sobrevivera à tempestade das flamas.
Ora cumpria, queimados edifícios ilustres,
pôr ao chão la derradeira pedra quebrada.
Cada gradrão carregava um martelo raivoso
prenhe de morte e destruïção, sinal violento. 1515
Fora selada a sorte da capital dos leões:
– Roma doravante seja um pasto de gado!
Quem no futuro vir aqueste trato de terra
não verá la vila que os pés do boi apagarem. –
Quando o fogo irrompeu das antiquíssimas casas, 1520


76




quando ao trom do martelo cambalearom pilastras
veio a massa às ruas, erguendo os olhos ao céu
por onde as flamas altas anunciavam verdade.
Fora permitido aos godos entrar pelos átrios
confiscando todo valor que non fosse alimento. 1525
Não surtiram efeito os senadores em lágrima:
Rem se ouvia além de crepitar e tremores,
sons de escudos e espadas abafavam clamores.
Era debalde buscar apelo e moção de clemência
pois Totila fechara firme os olhos e ouvidos. 1530
Era maior do mundo o grito infindo de Roma
mas o mundo ensurdecera esquisto de Roma.
Muita voz naquela noite clamou sem resposta
o nome do Imperador, angustiada esperança.
Veio pelo fogo l’ordem da boca dos wardas: 1535
– Pode sair agora, quero Romano aqui não!
Sai, vagabundo, sai, se não sair nòs te mata! –
Nisto aqueles porém que nada tinham de seu
et eram muitos agarravam-se a pedras ao chão.
Nem a ruína lis removia amor ao passado 1540


77




desses monumentos crepados e vida caída,
ora que a mão do rei desejava cortar a raiz
do velho afeto, despovoando toda a cidade.
Mas ouvirom contar que pelas flamas da noite,
quando Totila dormia na espera, vieire del alto 1545
o clarão da caravana alada dos cem cavaleiros.
Eram luminosos heróis em quadrigas ligeiras
que descendendo ilustres envolverom Totila.
Foi levado na caravana por rodas de vento
rumo ao Forum donde um vulto escuro atendia. 1550
Quando os dous se virom a sós, o rei estendeu
la mão ao pária debruçado perante uma estátua.
Mas el outro ajoelhado e beijando-li a mão
rogava ao godo: – Não destruas minha cidade! –
Tamanha dor entristeceu a Totila, pedindo: 1555
– Sai do chão, responde, fala, como te chamas? –
Mas o pária chorando sangue aponta al estátua
em cujo rosto Totila vislumbra: Teodorico!
Súbito um raio fulmina e despedaça o patrono
quando Totila acorda imóvel sentindo o trovão: 1560


78




O medo congelava os membros e a força do grito.
Entra Rigo no mesmo instante e transtornado
corre como vedor de fantasmas prorrompendo:
– Vem andando um vulto atrás de mim sem cabeça
e vem chorando e me perseguindo a noite inteira. 1565
Era que nem um sonho, meu frião, no Forum:
Vinha vagando e carregando a própria cabeça
fora do corpo e vinha choramingando comigo.
Eu mandava sair pero o vulto parava e dizia:
Pede ao rei, meu amigo, piedade de Roma. 1570
Vegada et outra descia um anjo querendo levar
mas ele recusava mostrando o fogo nas casas.
Eu andava adiante mas ele sentava-se perto:
Pede ao rei, meu querido, piedade de Roma.
Quanto mais eo olhava o seu aspecto amargo 1575
mais eo via a multidão dos mil que o seguia.
Eu queria fugir pero estendia-mi as mãos
e balançava a cabeça angustiado e rogava:
Pede ao rei, meu amigo, piedade por Roma.
Era um aluvião sem guês pedindo socorro 1580


79




mas vi de repente a transfiguração dum alma:
Quando o vulto se diluiu num etéreo vapor
um merencório chover de gotas irradiantes
cobriu los sofredores e a voz do céu ressoau:
Filhos de Roma, Boécio permanece entre vós. – 1585
Totila rumina a sós a intervenção dos sonhos:
Como agir? Buscava resposta nos olhos de Rigo
mas o frião perdera a voz e Totila sugere:
– I buscar os cavalos, vamos a Monte Cassino!
Bento conhecerá lo sinal secreto dos sonhos. – 1590
É que o monarca ainda não sabia que Bento
certa noite, quando alçava os braços em prece,
caíra morto em meio a seus amados discípulos:
Era o peso dum peito angustiado por Roma.
Mas o conquistador del Urbe não se arredava 1595
nem cedeu à visão das assombrosas imagens.
Inda restava a destruir a muralha odiada
que tantas vezes houve repelido os ataques.
Já soava o bater de martelos e os muros tremiam
mentre o fogo passava atravessando vielas. 1600


80




Irom minando primeiro os bastiões importantes
pela margem do Tibre e perfurando crateras.
Inda restava exposta e derribada a passagem
que apenas Pedro Apóstolo protegera do assalto:
Contam pois que durante a campanha de Belisário 1605
grande parte do muro caiu mas nulhome invadeire
ca mão de Pedro e nada mais decerto impediu.
Ogano andavam longe Pedro e Bento e Boécio
ca longe andavam Teodorico e Justiniano.
Ogano passavam retirantes em tiras extensas 1610
e pés senadoro e de párias unidos sem rumo.
Quem usou de prudência não pensou duas vezes,
foi embora às pressas e não se adirom sozinhos:
Levarom consigo os fracos e deserdados embora
e pouco antes da aurora Roma estava deserta. 1615
Dentre fugientes que se adentravam ad ermos
pelos campos um corajoso porém retornou.


ν

Entrou a sós pelo fogo o Romano sem nome
lançando o corpo gasto aos pés duma estátua.
Werreiros godos, maravilhados da imagem, 1620


81




quiserom banir o afã pela força das armas –
mas ponderando a morte, iminente perigo,
miravam desnorteados um gesto inaudito.
Era tamanho o descabimento do estranho
mendigo, lançado ao monumento em fogo, 1625
que mesmo osores se apiedavam da cena.
Ora, diziam, se o pária perdeu lo juízo
alguém se prontifique, por Deus, a salvar!
E não faltavam mãos e virtudes valentes
prontas à luta e desafiando calores. 1630
Cumpria ousar, pois estavam cercados,
estátua e stranho, por edifícios em flamas
prestes a sucumbir soterrando esperança.
Ali se lançarom desrespeitando os temores
pela vida própria e prestando o socorro: 1635
– Ainda è tempo, vem conosco, Romano! –
Mas qual non foi, Senhor dos Céus, a surpresa
pois que aquele estranho julgado sem ânimo
houve erguda a voz, lamentando del alto:
– Salvai melhor a vida vossa, guerreiros, 1640


82




a minha se esconde dentro desta escultura! –
Assim falando mostrava pálido o mármore
enquanto os godos retrucavam-li abaixo:
– És insano? Vês a salvação que te ofertam
e queres a morte? Deixa embora a figura! – 1645
Mas el homem sem nome num ato de angústia
e confusão e desespero responde-lis:
– Nem que um raio me parta eo saio daqui! –
Os godos porém concatenando resposta
e mais seguros da insanidade do estranho, 1650
dobravam indagações, procurando argumento:
– Explica então por que te abraças a estátuas
quando o mundo se acaba em torno de ti! –
Mas o Romano tomando de fôlego assere:
– Não por estátuas mas por esta somente 1655
eo retornai de meu rumo a Roma, guerreiros! –
Humores mais nervosos e o medo da morte
causavam perguntas mais impacientes:
– Mas esta estátua è tua e vale-te tanto? –
Ora o Romano, ouvindo a franca demanda 1660


83




gritou e prorrompeu num pranto agitado:
– Este monumento da história que vedes,
esta estátua veio dos braços de Fídias! –
E assim lis recontava no meio do fogo
a vida dum grande escultor, exemplo sem par. 1665
Mas não se contentavam os godos, arfando:
– Romano, as tuas mãos non vencem o peso
da estátua nem o fogo e rem a resgata! –
El outro qual se dessoubesse retruca:
– Éste l’alma de Roma que impera salvar! 1670
Nela meus pais e meus avós se abraçarom,
suspiros de tantas gerações enterradas.
As alegrias da infância e nembrança da rua,
guerreiros, da rua de outrora apontam ad ela.
Era orgulho da praça e da vida dum povo 1675
testemunhando que um século Roma foi bela.
Non quero, soldados, mal a nulhomem de vós:
Eo quero salvar em paz a história de Roma,
ai, leixai-me, sim, caridosos, por graça!
Eo peço tão pouco e quase nulha vos peço: 1680


84




Ora que è todo vosso o presente e futuro
eo peço apenas o meu passado em pedaços.
Filhinhos meus contemplarão esta imagem! –
Decerto eles godos inda não se esqueceram
do quanto amor separa pedras e estátuas, 1685
ca sol as pedras enxergarão nas estátuas
pedras apenas, apenas o amor monumento.
Era em vão que argumentassem lanceiros
enquanto o calor e o nervosismo aumentava.
Num ato extremo porém decidirom movê-lo 1690
embora à força, e sob ameaças de lanças
tentavam pôr as mãos nel homem sem nome.
Ora o Romano, apagando o fogo co pranto
e protegendo o corpo del obra coa pele,
rugia contra as mãos de socorro e de ataque: 1695
– Leixai-me em paz e rebaixai vossas arma!
Vale mais deste povo inteiro esta estátua! –
Soldados iam retirando-se às pressas
enquanto a morte remordia de perto.
Os gritos de salvação e paz mesclavam-se 1700


85




aos impropérios, as preces a indagações.
Mas o incêndio interrompeu los diálogos:
Num lance alucinado e veloz, o Romano
tentou remover o monumento de Fídias
e carregar embora o tempo nas costas. 1705
Mas as pilastras do edifício defronte
vierom abaixo, soterrando as histórias
em meio ao destemor e fumaça de flamas.
Caírom juntos l’homem e l’obra de Fídias,
despedaçados quis-cada-quem a seu modo. 1710


ξ

Pela manhã porém chegout às mãos de Totila
novo apelo, correspondência de Belisário:
“Rei de Roma, trata melhor a cidade que è tua!
Não condiz um gesto infame coa mão generosa
que tanta vez e sem rancor estendeste a caídos. 1715
Não se passa um dia sem que ouçamos façanhas:
Ora retribuis o pai da mulher desonrada,
ora salvas da morte o fraco, poupas pequenos.
O nome teu se espalha pelas plagas da Itália
como doador de consolo e farol de esperança. 1720


86




Mas, Totila, explica, por piedade aos amigos,
como entender um gesto feio num rei de proezas.
Por que vierom, rei, acordar-me no meio da noite
dizendo que a tua ira incendeia a cidade de Roma?
Tal menção entristece os amigos, confunde juízes. 1725
Roma è tão formosa et abriga tantas famílias,
traz idosa la história de meio mundo no seio.
Pensa melhor! Se fores o vencedor desta guerra,
queres despedaçada a capital do teu reino?
Mas também è nobre saber perder a batalha. 1730
Quão distinto tou nome será nembrado nas eras,
sim, se mesmo perdendo tiveres salvo a cidade
mãe de mundo. E quão funesta a nembrança será
dum rei que recusou la mão à cidade caída.”
Isto e muito mais Belisário escreveu-li. 1735
Fora de fato acordado pela voz de Pelágio
junto a senadores mendigos no meio da noite.
Mas o general de Bizâncio, em meio a vertigens,
pôde apenas pedir que lo atendessem afora,
já perdudo rente ao chão ponderando palavras. 1740


87




Quem o visse por vez primeira, naquele momento,
nunca pudera crer em quantas glórias de guerra
ele, recurvado e tremendo, trouxera a Bizâncio.
Fora o mentor de vitoriosas campanhas na Pérsia.
Fora o gestor de reconquistas vastas em Áfricas 1745
onde triunfara contra o reino dos vândalos.
Sem saber direito em que porto ancorar os navios
veio a Cartago ao amanhecer e de noite imperava:
Comeu da ceia que fora posta ao rei inimigo.
Cônsul de Roma, desembarcou em Sicília, tomou-a. 1750
Veio à Calábria, entrou vitorioso em Campânia,
teve Nápoles, Roma e Ravena em mãos joviais.
Homem de honor prezado em continentes diversos,
fora-li oferto um grande império, coroa de godos
quando rendendo Vítice, o rei, cativou inimigos. 1755
Mas o destino invejou lo seu vigor inaudito
quando Justiniano, incomodado coa glória,
veio a suspeitar dum homem reto e sem gana.
Desde então procurava retê-lo perto inativo
mas o povo, quanto mais Belisário escondia-se, 1760


88




mais o conclamava a mais vitórias no Império.
Lá porém se encontrava debruçado al opróbrio
dono de escassos homens e rarefeito recurso.
Fora pois o desígnio de Justiniano do trono
ver o general pela Itália porém diminuto: 1765
Fora ordenado a Belisário, leal sem vacilo,
ir a custear a campanha cons próprios recursos.
Muito amor à causae comum o moveu. Aceitou.
Varava pela Itália aquelora um vulto sem brio,
por terra e mar um colecionador de desgostos, 1770
el a quem se oferecera o reino dos godos.
Mas ogano um novo fato agravava o seu caso:
Era o destino o compelindo à vida mendiga,
pena às mãos implorando piedade a Totila.
Mas Totila ponderando o seu gesto extremo 1775
leu e releu durante horas o apelo da carta.
Era de fato um caso desesperado e perdudo
para Bizâncio. Mas quando Rigo leu a missiva
pronto irrompeu, falando pelo próprio peito:
– Gus non quer que seja destruída a cidade! 1780


89




Pelo amor deste povo, frião, ainda duvidas?
Quantos sinais ainda atendes da terra e do céu?
As almas transtornadas de Teodorico e Boécio
vagam de noite e de dia os inocentes lamentam.
Já se bandam vivos e mortos rogando clemência: 1785
Para, Totila, a covardia ofende as estátuas!
Roma inteira implora aos olhos vistos por vida,
roga renduda um gesto mais bonito e decente.
Rei, apaga logo este incêndio, salva a cidade! –
Totila tomou lo amigo pelo braço e li disse: 1790
– Rigo, trahirei las mias palavras de guerra?
Não se importou Justiniano, impostor de Bizâncio,
coa carta repropondo-li a paz, prefere o flagelo! –
Rigo redobra: – Prefere pois è homem sem honra!
Fosse de fato o pai deste povo a paz reinaria. 1795
Quem abandona deste modo os súditos próprios
nem merece resposta nem a espada do greto.
Pune o pravo e não lo povo: O povo te serve. –
Isto dito, Totila considera o teor do problema
longas horas. Cede! Não porém por inteiro: 1800


90




Foi de fato ordenado conter o fogo de Roma
pelas construções periféricas u lastrava.
Foi retento o martelo desmembrando a muralha,
ora que a sua força estratégica fora eversa.
Mas a cidade seguiria um deserto fantasma e 1805
de quanto a isto nem um raio arredava Totila:
– Pena de morte a quem puser os pés em Roma! –
Antes, o godo levava a massa embora consigo,
pobres e senadores cruzando a pé por estradas
nem cessarom sofrendo ata chegar à Campânia. 1810
Lá por fim lis permitiu lo senhor residência:
Mas que não intentassem fuga no meio da noite!


ο

Quem buscava fuga da inglória e milagres
era Belisário conjunto a falanges
de desesperançosos que pouco alçavam: 1815
Durante meses Roma esteve deserta
enquanto o General, ancorado no porto
e sem reforço, mirava em vão direções
por onde encadear certeiros ataques
em certa brecha et ousadores intentos. 1820


91




Mas onde quer que zarpasse ao horizonte
olhava o mundo e sabia: O mundo era godo.
Os montes escondiam fortes armados,
as armas eram fortes, subiant aos montes:
Cada estrada guardava pronta emboscada, 1825
cercava la espada e tempestade de lanças.
Retenta fora Portus por pouco e lanterna
no meio da noite: Era pequena el única
célula viva de resistência, por milhas,
e cada movimento adentrando terrenos 1830
longe do mar expunha Portus ao cerco.
Muita vegada a caminhada breve bastou
e norte e sul revigoravam-se os godos
em violenta vergasta, donos do ensejo.
No cerco a morte era certa, a fuga impossível: 1835
Marchava muito além o socorro das armas
passando cansado e maltratado, distante
quase uma eternidade do leste e d’oeste.
Andava pelas margens do Pó desolado
e mantinha temeroso a guarda em Ravena 1840


92




ou prosseguia lento pela Calábria.
A causa de Belisário deitava arrasada
e Roma largada inalcançavel ao braço.
Mas Belisário na impaciência dos dias
não se conformava coa mão do destino, 1845
antes tapava os olhos coas próprias mãos
repudiando o veredito e visão da verdade.
Pois rebelou-se! Reunindo os soldados,
ergueu a voz e pronunciou lo seu brado:
– Quem estiver ocupado coa salvação 1850
duma vida covarde e desonrosa, retorne!
Eu porém seguirei coas minhas armas
a Roma, por Deus! E seguirei de repente
e contra o titubeio me impera marchar! –
Houve alarme dentre impávidos homens 1855
ca Belisário não recorria a palavras
por mero prazer, jamais, de encher a boca
nem voltava atrás decisões e promessas.
Mas como entender a novidade da audácia?
Era gesto impensado, aventura de vidas! 1860


93




Atordoados ouviant os planos e o risco
rogando em vão explicações e cautela,
sabendo apenas que novas lutas retinham
Totila alhur. Porém senhores da terra
como eram, ninguém garantia passagem 1865
segura pela estrada e caminho de Roma:
Era caso de sorte, destino ou de Deus.
O general maior non concede e prossegue:
– Guerreiros, não me deslocarom de longe
no rumo de Roma para salvar-me medês 1870
mas pela salvação de Roma e da Itália,
nem aceitei um dever maior do que a vida
para julgar mia vida maior que o dever.
El homem poderoso e gestor de vitórias
não dependeu de ocasiões favoráveis, 1875
meninos, para alçar o nome que tenho.
Em meio à luta não pondero o tamanho
da chance para ficar se o ganho è certo
mas fugir se a queda parece iminente;
antes combato firme nem fujo nem temo 1880


94




e quero cair com valor se o destino è cair.
Portanto: Marcharemos juntos a Roma e
lutemos como convém à virtude guerreira! –
Assim falout e assim se fez a jornada:
Pois houverom desperto na aurora soldados 1885
pronto forom tomando escudos e espadas,
troféis de melhor manejo ali preperados.
Destemudos da morte abraçavam-se amigos
qual del último braço, jurando promessas
de lealdade eterna e recíproco auxílio. 1890
Enfileirarom-se pela marcha e marcharom
homens sem esperança de vida e sem medo!
Os despreventos soldados godos sozinhos
eram rendudos, aprisionados ou mortos.
O arqueiro impedia a fuga de audazes 1895
trânsitos pela flecha e caindo no campo.
A lança lançou ao chão inimigos de longe
e quem escapou pereceu na ponta da espada.
Nos flancos cavalaria franca avançava
impressionando incautos como o perito. 1900


95




Ao fim do dia surgiu la cidade fantasma
coberta de musgo e grama, largada ruína.
Quem nos tempos de César, Augusto e Trajano
pintasse aquela imagem do Forum Romano,
ousasse profetizar uma astrosa verdade! 1905
Ogano contudo nenhuma visão de abandono
lis parecia impossível, infinda a derrota.
Largados num sentimento de amor e de morte,
alívio na reconquista de Roma e tristeza,
soldados amparavam-se cheios de angústia, 1910
os olhos confusos. Mas Belisário, na mágoa
de perceber remorso estampado nos rostos
como agora enxergassem quanto o descaso
das tropas regulares custara à cidade;
vencendo a comoção Belisário lis prega: 1915
– I se vê, Romanos, a nossa desgraça
e cá mirai-lo preço do vosso vacilo
et anos de hesitação, a coragem incerta.
Mas se algum iluso de vós presumeire
que já bastava a reconquista de Roma 1920


96




para a nossa mãe retomar o seu brilho,
engana-se: Não vos enganeis, combatentes!
É trabalho demais e sem trégua trabalho
que as vossas mãos ainda têm pela frente!
As pedras, filhos, que a mão hostil derribou 1925
a mão amiga levanta e restaura as ruínas,
devolve à pátria o brio, a vida, a vitória.
Reconquistar o passado è metade da meta
ca cumpre agora reter, defender a cidade:
Vamos tomar aos ombros as pedras de Roma 1930
e reerguer, no cimento da nossa aflição,
a vida, a muralha, o monumento dum povo! –
Assim lis orou, e tomando a primeira pedra
a recolocou aos pés da muralha sem base.
Sem dormindo lançarom-se aqueles soldados 1935
à lida perdendo a noite e ganhando firmeza.
Mas não se arriscarom sozinhos: Pela manhã,
quando a nova das tropas se teve espalhada,
correu de volta à cidade um povo plangente
turvando de longe a nitidez do horizonte. 1940


97




Leixaram para trás os negócios que havia
e sem promessa de pão, de teto e de vida
pisarom ele chão que o rei prohibira
e terra que em vida já non creram pisar.
Jurarom carregando o peso dos sonhos 1945
jamais abandonar a morada e morrer
se preciso fosse, mas cair coas ruínas
trabalhadores rudes e nobres sem nome
não porém sem amor e sacrifício no peito.
Quando Totila ouviu da vitória das tropas, 1950
cercado de ansiëdade e combates acerbos,
leixou de lado a luta e subiut ao cavalo
zarpando inopinadamente, assombrado,
acompanhado do grosso do exército godo
e guerreiros acostumados a todo cenário. 1955
Mas qual non foi lo sobressalto de Roma
quando se ouviu la cavalaria de longe
gritando maldições, impropérios irados.
No terremoto que fez tremer intrépidos
havia agravante: Que as portas de Roma 1960


98




ainda non foram repostas, lacunas abertas
em meio ao muro reergudo de súbito.
Gritos dos invasores eram mesclados
ao desespero ofegante correndo nas ruas:
Romanos que poucas horas antes plantavam 1965
grãos pelas praças prevenindo escassez,
perdiam novamente esperança e fitavam
l’horizonte hostil, a muralha indefesa
ca manifesto estava: Fora preciso
obrar de dias a terminar os portões! 1970
Soava naquelas mentes sinal de chacina
e jovens e velhos fabulando sem nexo
sentavam-se pelo chão esperando martírio.
Mas Belisário conclamando os soldados,
selecionando os mais audazes a dedo 1975
mandou: – Seremos nós as portas de Roma!
Provade, honrados, de qual cimento se fez
o portão de vossos braços chave da vida.
Sabei uma coisa apenas: Se o braço cair
cairá co vosso braço la história dum povo. 1980


99




Usai com gosto o vosso impávido escudo
porquanto muitos de vós ende erguerão
aqui pel última vez, e não os lanceis
ao chão sem antes leixardes pelo chão
a própria vida testemunhando quem sois! 1985
Pensai nas mãos que se calejarom caladas
para vestir broquéis às portas de Roma!
Pensai na angustiada esperança deposta
por estes caídos em vós e apenas em vós
porque vos digo, filhos, se não lutardes 1990
pelo povo honroso atrás destes muros
como se fossem vossos pais e famílias,
leixai las armas antes mesmo da luta
e poupai da vergonha a vossa vida infame:
Guerreiros mais credores desta vitória 1995
dividirão elor sangue amargo conosco! –
O ataque irrompeu interrompendo junções.
Totila porém no seu avanço exaltado
mirou surpreso a ressurreição da muralha
e de escudos humanos que ali se puseram 2000


100




desrespeitando as ameaças da morte.
Acumalavam-se corpos de nome indistinto
perante os muros: Sob assalto incessante
lanceiros cercados derrubavam cavalos,
escudos repelindo a clava dos godos. 2005
Trocavam turno combatentes nas portas
aliviando feridos, mantendo esperanças
e os novos braços avançavam na linha
spada contra espada, broquéis de bravura.
Muita vez um soldado caiu atingido 2010
e prevendo mortem deslocou-se, calado,
para que o corpo derrotado em batalha
não perturbasse o pelejar dum guerreiro.
A imagem do fim, despojo inadequado
tomando espaço à virtude, não molestasse 2015
um sacrifício maior que a vida exige:
a morte oculta, não porém sem memória.
Mas outros num movimento mais embalante
lançarom-se repentinos contra inimigos,
e enquanto os invasores alçavam a lança 2020


101




tremenda e míssil derrubador de gigantes
a espada atravessava rasgando as entranhas,
tolhendo o golpe. Forom vistos valentes
de Belisário tendo um braço arrancado
enquanto l’outro arremessava uma clava 2025
certeira contra a cabeça dum desprovudo.
Os semimortos no chão perfuravam cavalos
e os corredores incautos caíam atônitos.
Do céu desciam vorazes corvos e abutres
e disputando a carne coas águias lutavam 2030
a guerra dentro da guerra, ébrias de sangue.
Quando porém lo arqueiro subiut os muros
mirando facilmente a flecha à vontade,
Vilas, o professor maior dos lanceiros
tomando a Ruderico seu filho adotivo 2035
correu a Totila. O dia inteiro passara
e já caíra a noite nas portas de Roma.
Totila, depois de recultos os combatentes
e mar de feridos ouviu la palavra de Vilas
que não insista no ataque! Os corajosos 2040


102




merecedores de morte mais proveitosa
seriam presa em campo aberto de flechas.
Fosse pois evitado um cenário penoso
e triste desperdício de vida e de povos.
Totila como um surdo manteve a campanha 2045
e lo sol assitiut o segundo diem de sangue.
Mas Roma não se abalara! Novo utensílio
de guerra, durante a noite soldados cravaram
na terra estrepes e agudas pontas brilhavam
em torno de muros, parvo engenho de quedas. 2050
Ai do cavalo que cavalgasse emboscadas
pois cavalgarom colecionando desastres!
Lanceiro ao chão lançado, flecha no peito,
fechava os olhos fitando o céu sem resposta.
Ainda assim lo rigor dos olhos atentos 2055
muita vez enxergou Ruderico, o zeloso,
o braço versado derrubando os arqueiros.
Vilas notando agora o brio de seu filho
notava também Totila ciente dos feitos.
A morte contudo acumulava os seus ganhos 2060


103




transformando o campo de guerra em planalto.
De noite Rigo, o warda do rei, se aproxima:
Era melhor escutar o conselho de Vilas!
Totila lívido em cólera não se impressiona,
trompeta de praga e percussor de impropérios 2065
berrando a perda de Roma. Inopinado
nasceu lo raciocínio do ataque frontal,
e rompendo a luz de mais um diei desdito
Totila lançou los godos às portas de Roma.
Mas às portas de Roma o soldado esperava 2070
mais valente de nunca e tropas impávidas
ora que a resistência, a força braçor
em repelindo revigorava os escudos
ca sorte das armas aumentava o moral.
O rei dos godos percebendo os vigores 2075
mudou la meta e concentrou los soldados
quase todos aos pés dum única porta,
decerto presa fácil com menos escudos.
E flutuavam num mar espadar e de lanças,
cavalos e clavas intimidando os guardas. 2080


104




Destino contudo provou correto o conselho
de Vilas como depois a palavra de Rigo
porquanto um fato ominoso se deu repentino:
Num lance agitado veio ao chão co cavalo
o grande porta-bandeira do rei, atingido 2085
ao mesmo tempo por flecha e lança: Morreu!
Quando enfim circulou pelas tropas a nova
que el estandarte do rei, a briosa bandeira
caíra ao chão pisada por patas equéstribos,
lábaro violado por barro e por sangue, 2090
houve medo e tumulto no exército godo.
Vilas e Rigo e todos os grandes dum povo
correrom ao rei: – Termina agora o combate! –
Logo Totila recebendo em mãos o estandartem
dourado e recuperado e contudo ultrajado 2095
mandou soar a trombeta do fim da batalha,
batendo em retirada co grosso dos homens.
E o povo de Roma vendo um novu milagre
ergueu las mãos aos céus e beijou Belisário,
enquanto os combatentes trocavam abraços 2100


105




e lágrimas e sentimentos mistos, cansados,
contando façanhas ganhas e amigos idos.
Coubera ao General caído em desgraça
porém fiel al Império, patrono de Roma,
colher em Roma dum última vez a vitória 2105
antes de retornar sem recurso a Bizâncio.
Leixava a Roma assim esperança e soldados
que não se atrevesse um outro rei poderoso,
jamais, a despovoar a matrona dos povos.


Totila






C





π

Qual non foi naquela noite o peso do peito 2110
quando o rei deitou lo seu ero por terra.
Fora derrubada a bandeira, fora ultrajada!
Era em vão Totila abraçar o trapo no escado
como se angústia diluísse das horas memória.
Cedo aproximarom-se Rigo, Vilas e estoas: 2115
Era preciso dizer alguma palavra aos soldados
pois o viço inconstante os abatera calados.
Iam leixando pelo chão os olhos e as armas
antes fortes, ora ansiosos e tristes e amargos.
Ora espalhou-se no coro desanimado das almas 2120


106




nova crença: Totila os conduzira à derrota!
E os cabisbaixos recusavam dever e hesitavam.
Mas o rei avançando e vencendo o próprio receio
reza ao rol de gadrãos entristos: – Corja ingrator,
em qual escola infeliz aprendestes ofício de guerra? 2125
Não sabeis que o sangue irmana derrota e vitória?
Pois a vida è esta, werreiros, a vida è vitória
como a vida è derrota e cada dia um destino.
Fui esculto o rei de meu povo e não hesitei,
tomei às mãos o meu ero testemunha de méritos 2130
mas jamais prometi a ninguém ca ninguém enganei:
Vitória vem de Deus e Deus desdenha de méritos!
Quantas vezes se viu lo robusto cair do cavalo,
quantas vezes caídos colecionando façanhas?
Não perdeumo-lo ataque por covardia ou fraqueza 2135
pois non foi um tolo que a vós se impôs no prélio,
foi o maior general de Roma e perito em contenda!
Mas, soldados, não nos venceu por sermos menores,
antes contrariou la prudência, a razão, a decência
vindo a lançar soldados seus à clemência da sorte! 2140


107




Eiþan! A sorte apenas, não Belisário venceu-nos.
Ora, bastando um foco de resistência na estrada
já teriam perdudo a meta, as vitórias e as vidas.
Mas a estrada, meu povo, a estrada estava vazia
pois um outra estrada assistia a vossa coragem, 2145
um outra estrada testemunhava o mérito vosso!
Não vos esqueçais do bem que vos torna maiores:
Não a sorte e sim a virtude vos trouxe vitórias!
Quando o ganho è maior será vergonha uma perda?
Peço e peço não por mim, è por Gus o que peço: 2150
Não erguestes tanta vegada os braços aos céus
agradecendo a Deus por proezas? Não afirmastes
tanto que vezes a força foi menor que o milagre?
Eire Deus dispôs que as mãos de Roma vencessem
mas se tanta vez foi Deus que vos fez vencedores, 2155
basta uma perda e vos esqueceis de quem ajuda?
Eu, guerreiros, confio sobretudo nos méritos
mas eo sei que sem Deus nõ há vitória no mundo.
Peço apenas que não vos revistais de tristeza,
não demais, a fim de que baste o combate perdudo e 2160


108




não percais também respeito por Gus! – E calarom.
Vinha porém de Totila a voz maior da tristeza
gritando inaudível a dor dum coração alquebrado.
Home viu lo froia vagar e cavalgar pelos ermos
como falando a sós e sussurrando a fantasmas. 2165
Pouco importava o rumor de reconquistas menores.
Outras vezes lançava olhar piedoso aos soldados
godos e balançava a cabeça, a cabeça nas mãos.
Mirava e tinha inveja dos animais e das coisas:
Era decerto o cavalo o seu amigo impossível. 2170
Ora fitavant um al outro, ambos os seres
como se conversassem, tão vizinhos e surdos
um al outro; afeto estranho irmana os estranhos.
Indassim o rei olhando os olhos do equestre
certo emulava tanta casta essência e bondade: 2175
Era cavalo seu de desde o tempo da infância.
Como os homens corria pela terra e lutava
mas estava ali no herói menor o guerreiro
mais fiel: o sacrifício daquele indivíduo
fora sempre puro, coitado, sempre inocente. 2180


109




Não sabia a causa da guerra e sofria sem causa
não porém sem aquela secreta amizade dos bichos.
Quão injusta amizade, pensava Totila sisudo:
Ora o cavalo leixava a liberdade dos campos
u corria outrora e contemplava o seu mundo 2185
para servir o amigo mau na batalha da morte.
Certo merecia um destino melhor o consorte
mudo e confiante de tanta coita e maldade.
Era insuportável ao ver um cavalo caído
olhar os olhos do bicho agonizante e varado. 2190
Sempre havia nos movimentos loucos del íris,
sempre a dor sem resposta e desespero do escravo
como clamando ao fado: Que fizerom de mim?
De mim, que apenas cavalgava livre nos pastos
sem cobiça e sem ódio, que fizerom de mim? 2195
Mas assim pensando o rei se nembrava dos godos
como do povo romano lançados ao meio do sangue.
Era decerto Deus que o punia coa perda de Roma:
Fora maltratada demais uma grei desarmada!
Nesse merencório momento Rigo avançou-se, 2200


110




warda leal: – Amigo, qual tortura te assoma
e faz um rei prudente falar a pedras e bichos? –
O rei demite: – Rigo, como ainda perguntas? –
Antes porém de prosseguindo entrou pela noite
quase correndo pelo campo e buscando distâncias. 2205
Não se importava co vento castigando-li o rosto
nem o frio li importava, apenas corria sem rumo.
Mas o frião lo seguia mantendo às custas o passo
mais e mais ansioso e temendo perdê-lo de vista,
inda clamando: – Totila! – Mas Totila deitou-se 2210
sobre um vasto feixe de feno mirando as estrelas
como se procurando resposta e tesouro intocado:
– Rigo! O mal que as minhas mãos toerom a Roma
não se tói! – Balbuciava as palavras perdendo.
Rigo entendeu. E reatou, ponderando na calma: 2215
– Não te faltara outrora o meu conselho de amigo.
Muito sangue eo derramai e perdi pelos nossos
e muita luta ingrata eo lutei ca sei do que digo.
Mas senhor, por amor dum povo inteiro que abraças
dá-mi as mãos, levanta-te agora e deixa a poeira! – 2220


111




O rei porém condena: – Era a mensagem de Bento!
Inda nembras o gau que vimos? Ganho de mundo
passa e Gus deitou por terra o gueso dos godos! –
Rigo interveio: – Nunca repitas tamanha mentira!
Deus jamais abandona o pobre, o fraco e tementes 2225
homens como os nossos godos: Ei-lo teu povo,
este o povo cuja vitória o céu confiou-te!
Sim, e confiou-te pois conhece os teus passos,
sabe que em tuas mãos se ergueu la clava do greto! –
Mas Totila estendeu-li a mão a fim que calasse: 2230
– Como te enganas, amigo, quão tristior a verdade. –
Rigo falou pero um rei doído irrompeu explicando:
– Crês de fato que Deus me pôs ao trono dos godos?
Ouve pois o meu mérito e julgarás com juízo:
Já me rendera, Rigo, eu e meu forte em Treviso 2235
de muitos gumas e já selara a paz com Bizâncio
quando uma tira infeliz de dissidentes mi atira:
Toma a coroa! Em vão falei da paz contratada
como em vão pedi respeito ao rei que os reinava.
Não te ocorre mais à mente o fim de Erarico, 2240


112




froia sem feito? A sua morte nasceu em Treviso,
Rigo, nasceu da mesma língua que cá se confessa!
Como não? No mesmo instante da minha recusa
disse a grei lustosa confabulando desgraça:
Mas Totila, se o rei morrer, estamos sem rei! 2245
Eu contudo no afã de consolando uma gentem
disse-lis, ó juízo infeliz, palavra impensada:
Grandes, se o rei morrer, eo aceitave a coroa!
Pois pronunciei, meu Deus, um ordem de morte
e quando tive atinado co efeito da minha palavra 2250
já mi trouxerom unidas num casamento de anguisa
como tesouro a cabeça do rei, a coroa dos godos!
Diz porém, meu amigo, mi diz um gueso somente:
Quando um reino se funda sob auspício dum crime
como o meu por u se encontra Deus neste reino? – 2255
E Rigo transtornado coa confissão sem remédio,
tonto e procurando ao chão equilíbrio remoto,
disse apenas: – Que gesto mau, frião, engendraste! –
Não prosseguiu, calado e desolado e surpreso
ainda pensando: Tantas vezes ergui meu escudo, 2260


113




Deus, na bõa fé de servindo um rei verdadeiro.
Ora que o rei errou, Senhor, e rei de meu povo,
será perdudo meu povo como è perdudo meu rei?
Mas Rigo tomando alguma força avisa ao amigo:
– Foi Teodorico o frói que me fez escudeiro... – 2265
Certo Totila entendeu do sopro amargo do guarda
como usurpara recursos que reis maiores li deram.
Deram? Totila meneando envergonhado a cabeça
pede: – Se alguma piedade couber em teu erto,
Rigo, não me queiras mal per amor deste povo! – 2270
Antes porém que o portador de escudos falasse
súbito ergueu-se o rei emaranhando-se ao campo
e foi sumindo em meio ao feno e correndo sozinho.


ρ

Longe e rodeado de angústias
um rei deitado ao chão plangeu: 2275
– Eu me perco de mim pelo fréu
dividindo a vala cons mortos!
Ai, me retorturo e mi pergunto
por que, no mais infame dos dias,
eirem tão longe iludir minha gente! 2280


114




Meu povo andava livre pelo mundo,
sem maldade o meu povo arbedava,
meu povo conclamado de tão longe
para entrar nesta terra tão danada.
Veio o meu povo num gesto inocente 2285
ca prometeram que el ersa era sua.
No furor dum desditoso instante
leixarom para trás o que sabiam,
montaro elor cavalo e zarparom,
levando além das esperanças 2290
mães e dodras e bodes e arado.
Ó palavras, mentira e desengano,
foi per amor de Gus que Teodorico
morreu sem vendo o que somos ora,
meu povo fragadado e perseguido, 2295
meu povo sem rumo e sem amigo.
Tantas vezes roguei dos inimigos
guerso e mandei-lis dizer e jurar
por tantas bocas: Escolhe apenas,
Justiniano, escolhe o diem da paz 2300


115




e serei de todo o coração teu filho
e pai dum povo serás: Estes godos
seguir-te-ão a todo canto do féror
por onde a guerra chamar o Império!
Ai, estrelas, ai, aprouve a Deus 2305
anamantar e castigar minha gente:
Mas a que estau abençoado e grato
eu levarei desta terra enganadora
a multidão dum povo inconsolado?
Mi mostrem por bom frial no norte 2310
e no sul apontem à fuga o portu
em que l’home maior deste mundo
não encontre meu povo nem persiga!
Mi mostrem por caridade as estrelas!
Eo passo os dies mirando distâncias 2315
mas l’horizonte se perde no espaço:
O mundo è pequeno ca sempre soube
e decidirom, meu povo não li cabe!
Sei que pela grande grei que aduzo
respiram vidas maiores da minha! 2320


116




Sou assassino et ímpio sem nome:
Pune, Senhor, o meu gesto grotesco,
salva somente este povo que è teu!
Eo vejo quem eo sejo e porque sou
me odeio e quero gritar somente: 2325
Eu me arrependo, errei, desdigo
o dia em que usurpei um cetro maior
do que as minhas mãos forom dignas.
Olho os meus caminhos para trás
e não me reencontro em meus díebos 2330
ca nenhum desses dias foi correto.
O desgraçado instante em que fui nado
me persegue e me entristece e mata:
Eo sei que a minha vida è derrota
e minha morte è vontade de Dei – 2335
ca não se viu ja-quando um danado
manter-se no die del ira e da verdade.
Mas antes que minha vida se entregue
ao inferno tormentoso que mi cabe
eo quero, ai, leixar frial ao povo, 2340


117




ai, reparar a desgraça desta Itália.
Que digo porém e que mi imploro?
O mal que fiz será que se repara,
será que a morte nos devolve a vida?
Peço perdão de meu erto e d’alma 2345
mas enquanto peço rejeito a verdade.
Dai-mi força, Céus, o povo me espera,
meu povo inocente merece a vitória!
Mais que perdão eo quero a bõa hora:
Ere possível de além algum bondoso 2350
gesto e gesto frião dos homens?
Concede ao criminoso o bom ensejo,
Deus, concede menos já por mim
que pela guarnição desta gente:
Ergue por piedade o justu do chão! 2355
Hei de reconstruir a ruína de Roma!
Se pelas estrelas dum mundo melhor
Teodorico me escuta então escute:
Abre-mi a porta daquela cidade apenas
uma vez e seremos dignos de Roma. 2360


118




Roga pelos teus suãos desvalidos,
rei verdadeiro que sês de meus godos.
Intercede pelos que hão de calar
nos antros desolados desta Itália.
Não permitas que migo se perca 2365
uma grei valerosa e maior de mim:
Amor de Deus vencerá meus inimigos!
Dai-mi força, Céus, o povo me espera,
o povo tão valente que me inspira:
Esconde do mundo as minhas lágrimas! 2370
Mas aqui me vejo falando a fantasmas?
Ó fantasmas, ai da verdade que vedes,
vede, fantasmas, vede o meu coração! –
Totila falou entregando-se à sombra
e transformando as noites em mar. 2375


ς

Mas Ruderico explicout astuto a seu pai:
Durante a warda noturna fora atacado!
No fervor da refrega apoderou-se da clava
e contra quatro romanos, mancebos rudes,
lançou-se, derrubando os elmos intrépidos. 2380


119




Terminarom aos socos. Medida a valência
e vendo-se os quatro desarmados de súbito,
houve pânico e pela noite adentro correrom.
O filho de Vilas, um pertinaz na batalha,
não se satisfez com vitória sem ganho. 2385
Emaranhou-se no bosque buscando fugidos
e em diro golpe bateu-os, um contra quatro.
Mas levantarom-se atordoados da lama,
cada qual tateando um caminho no escuro.
O primeiro caiu, partido em dous pela lança 2390
afiada do jovem. Os três restantes, irados,
vendo Ruderico sem arma e sem medo,
tentarom ataque, mas o golpe certeiro
do punho fez cair de pronto o segundo.
Como um leão atirando-se à fera indefesa, 2395
pulou sobre o morto que a sua lança partira
e retirou da carcaça a lâmina em sangue,
sedento de mais e maior mistura de fluidos.
Os sitiados gradrãos, porém, no transtorno,
julgando a vida maior do que a causa de Roma, 2400


120




ajoelharom-se, flentes, aos pés dum herói
pedindo clemência e sussurrando promessas:
– Nóis si rendji, mata não qui nòis fala,
tudu quiu frói quisé qui nòis faz obedeci!
Mar non dexa nóir morrê não, Ruderico, 2405
nòis tem familh’i fi pa criá, nòis ajuda! –
Houve barganha, pois o filho de Vilas,
pero que foi lo bastante pedirem clemência
(pois recordava ainda o próprio destino),
fora excitado ao prometerem proveito: 2410
Ora explicassem a proporção da vantagem!
Foi-lis arrancando os detalhes da jura:
Abrir de novo aos godos as portas de Roma!
Era promessa de emocionar a defuntos.
Como penhor, leixaront um dos gadrãos 2415
sob a guarda de Ruderico, o temível,
enquanto os outros retornariam a Roma
a preparar melhor o plano – partirom!
Quando pois Ruderico abeirou-se de Vilas
levando sigo o refém, a fatal garantia, 2420


121




Vilas reprehendeu: – Corrompeste soldados? –
Mas ouvindo melhor o caso e contexto
não li desagradou la coragem do filho.
Foi-se apressado ouvir o sereno conselho
dum portador de escudos e mestre da warda. 2425
Antes porém que Rigo dissesse ao lanceiro
o novu desespero a que o rei se lançava,
Vilas e Ruderico e refém prorromperom
palavras, descrevendo em detalhe as imagens.
Rigo entonce num sobressalto exaltante 2430
saiu pelos ermos procurando Totila,
seguido pelos hômibos: Totila correu-lis
como por acaso de encontro aos passos
e ouvido o longo relato deu-lis el ordem:
– Quero ver e ouvir o tamanho da jura! – 2435
Aproximavam-se já na noite seguinte,
ainda feridos e atordoados da luta,
desertores: – Somos homes de Isáuria
e vimos claro, Totila, como se paga
um bom serviço a conterrâneos nossos! – 2440


122




Nisto se referiant aos quatro que outrora
abriram as portas de Roma, ogano opulentos.
O rei, mandando vi-lo tesoureiro do reino,
mostrou no instante medês o talho do agrado
esclarecendo: – Jamais faltou recompensa 2445
a serviço bem prestado e jamais faltará!
Se abrirdes novamente as portas de Roma
as vossas vidas terminareis em fartura! –
Assim falando, entregava joias briosas
prometendo mais depois de feito o serviço. 2450
Pois de imediato acertou-se o momento!
Mas horas antes do ataque, Totila interveio
reunindo perante si lo grosso das tropas:
– Desta vegada, heróis, entraremos em Roma
como convém à grandeza dum povo amistoso! – 2455
E deu-lis a instrução: Usar de bondade,
poupar os desarmados, mulheres e velhos.
Quando, porém, abertas as portas, entrarom
de noite e repentinos na antiga cidade,
descarregau-se nos fracos ódio sem nome, 2460


123




veneno destilado por anos, e forom batudos,
trucidados quem lis caísse nas mãos
ou mesmo nos olhos: Gadrãos e destitutos,
homens de toda origem forom unidos
na mira e congregados na morte sedenta. 2465
O sangue relavava as pedras e as casas
e as ruas se revestiam do medo da sorte.
Totila, porém, erguendo os olhos aos céus
perante o sacrifício dum povo inocente,
vendo talvez renegados favores de Deus, 2470
agiu ligeiro: Mandou que fossem tratos
dous ou três de violências notórias,
e frente a romanos e godos forom punidos
de morte, antes que Roma inteira caísse.
O froia portanto irou: – Assim se repaga 2475
quem ultraja, contra os ordens expressos,
o guerso dos inocentes e a vida mansor! –
E recolhendo-se, pasmos, à própria razão,
os godos deitarom temerosos a espada.
Assim reconquistaront a sombra de Roma. 2480


τ

Não durou demais o regozijo dos godos
pois aproximava-se já da Itália Germano!
Primo do Imperador e general violento
desde sempre vastou, impávido, bárbaros.
Era herdeiro imperial do trono e do cetro! 2485
Cedo nomeado mestre do exército em Trácia,
cedo impôs um golpe irado às armis eslavas.
Foi Germano que, como de intervenção divina,
frente a milháribos repelira o rol de invasores
pouco longe das portas magistrais de Bizâncio. 2490
Foi ataque de monstros raro lido em relatos:
Seres animalescos andavam leixando terror
em toda a terra de Ilíria. Sedentos de império
fácil, dividiram, na sorte dos dados, o mundo.
Iam, pois, levando aos ombros a morte certeira 2495
rumo à casa alheia. Não lis tocava inocência.
Punham ao chão pontiagudas estacas de lenho
lá cravando o lombo de quem a vista alcançasse:
Eram assassinados os velhos e mães e pequenos.
Mentre o lenho lis adentrava fundo as entranhas 2500


125




grito em sinfonia de sangue ecoava no incêndio,
nem as casas nem lavouras poupadas de flamas.
Antes entravam pela fresta procurando pertences,
todo valor humano ou bruto. Passada a derrama
eram entregues cada qual a destino arbitrário 2505
(palha ao fogo e vida às espadas), eram lançados
contra a rocha recém-nascidos, aos pés de cavalos
vinha terminar o labor de pastores tranquilos.
Não havia em todo oriente uma terra segura,
medo levantava o sol do horizonte e depunha 2510
toda vila e família em renitente incerteza.
Ora, Germano, carregando sigo falanges,
homens abissais e feras de todo inferno,
foi vencendo os invasores em cenas inglórias
ante as portas da capital e vãos de províncias. 2515
Pois pagou-lis o dobro de escandalosas chacinas!
Forom dizimadas tropas num paraíso de abutres,
sangue e carnificina o testemunho da pena e
pus e maldições por u los olhos caíssem.
Deste modo e de modo pior a razão conhecia, 2520


126




certa, por quais horripilantes estâncias vastaram
mãos de Germano, vencedor de invictos severo.
Herói temível, fora mandado às bordas da Líbia
para debandar, sem dó, resistência de vândalos,
logo reduzindo a poeira o reino de Estozas, 2525
ora deserto desordenado e morada de najas.
Indo à Pérsia, impôs temor a leões irascíveis!
Viço leal, recusou concurso a conspiradôribos
quando houverom tentado oferecer-li a coroa.
Quando a rumo de Itália nova incursão ocorreu 2530
de grupações vehementes cruzando o Danúbio,
não hesitou: Mudou de rumo e modo e contenda
já recrutando, além de romanos, homens alheios
como impetuosos lombardos, gépidas, érulos –
fortes, unidos no desamor do inimigo comum. 2535
Lá fundarom, em vilarejo e por entre lavouras,
largas charcuterias de corpos a céu aberto e
diro albergue de redivivas aves carnívoras,
víboras monstruosas, de rara estirpe elápidas.
Não os impressionou la multidão de invasores 2540


127




nem moções de iniquidade, sevícia sem nome:
Quis-cada-quem impôs a força máxima à firme
lança derribadora insaciável de equestres!
Forom ali descobertas destruïções de inimigos
inda não narradas em prestimosos cronistas. 2545
Tal teor e grau de incubações vingativas,
tal vigor exterminou la campanha de eslavos,
fez do oriente o cemitério aberto dos povos.
Falanges vencedoras gozavam amor à vitória
mais visceral e desumanemente possível. 2550
Ora, Germano, a cabo de similares cohortes,
pôs-se em cavalgada veloz a caminho da Itália!
Dentre trunfos terríveis que carregava consigo,
foi temuda por godos menos a lança certeira,
menos a espada e coleção maldita de arqueiros. 2555
Era la esposa, sim, a força maior de Germano!
Filha de Amalasunta e neta de Teodorico,
Matasunta, forçada ao matrimônio com Vítice,
rei de vis, migrara junto ao monarca rendudo
rumo a Constantinopla, donde foi cobiçada, 2560


128




logo após a desgostosa morte do cônjuge,
pela corte inteira e, notadamente, Germano.
Certo, o primo do Imperador, medindo os efeitos,
viu na viúva a clave para o domínio da Itália.
Ora, casou-se! E Matasunta, infeliz nos amores, 2565
pouco pôde interpor ao cortejador influente,
ela, que ainda chorava a sós a desgraça da mãe
Amalasunta. Não esquecera insistentes promessas,
cartas do Imperador assegurando-li a vida.
Não esquecera imagens daquela amada regente 2570
feita prisioneira e trucidada na jaula!
Sabia, como não, que a causa de Justiniano
era menos el honra da mãe, ardiloso pretexto,
menos que a reconquista a todo custo da Itália.
Inda assim, sem escolha, cedeut à mão de Germano. 2575
Deu-li um filho! Constelação de vitória perfeita
já se vislumbrava, conspícua, Constantinopla:
Era o signo da legitimidade do Império,
chave-mor de união pessoal em único herdeiro.
Mundo irônico! Como outrora anseio esperava, 2580


129




pelo casório de Amalusunta co nobre Eutarico,
ver unificados os godos de Itália e de Espanha!
Via-se agora os de Itália subjugados no Império?
Tais moções de pensamento turvavam as tristes
noites de Matasunta ao renembrar esperanças. 2585
Como não? O nobre Eutarico, herdeiro do reino,
pai do povo e pai somente seu, falecera
jovem, enbranquecendo cabelos de Teodorico,
rei que, batudo deste e doutros males do acaso,
morreu sem gosto, pressentindo o fim de seu povo. 2590
Não por menos, Matasunta implorava a Germano
quando à noite tomava-li o braço: – Tem piedade
desse povo de meus e não o destruas sem causa!
Nembra, Germano, pelo amor sem fim que mi nutres:
Provém de godos, também, o filho que te ofereço! – 2595
Isto dito, ajoelhava-se aos pés do marido
grávida e sem palavra e rebeijando-li dedos.
Mas Germano, arrebatado em paixões e desejos
ante aquele raro troféu e despólio de guerra,
dentro ouvindo, porém, uma emoção de justiça, 2600


130




disse-li enquanto as mãos a reërguiam suaves:
– Minha amada, l’ódio meu nõ é de tou povo,
são impostores os meus inimigos. Todos o sabem:
Pois que Germano demandare a terra da Itália,
quem dos godos de bõa fé dupuser suas armas 2605
ere aceito como um filho fiel nos meus braços. –
Como porém Matasunta, inconsolável, chorasse,
Germano recolhia em beijo lágrimas da esposa:
– Ouve, minha amada velida, razão do meu sopro:
Junto a meu sangue o sangue teu adentra Itália! 2610
Ama-me um pouco, Matasunta, crê no que digo
como o teu aba, teu frói e frião sem limite.
Não nas minhas mãos perecerá lo teu povo
pois em nosso filho è povo meu e de amigos. –
Ela porém ouvindo e meditanto intervinha: 2615
– Não me enganes, senhor, ca não mereço mentira.
É tão pouco (ou será demais?) o que peço de ti. –
Mas Germano invertendo os papéis e até cenário,
ele medês ajoelha-se e faz a promessa solene:
– É por ti somente e não por mim que combato. 2620


131




Tu, e somente tu, serás a rainha legítima!
Faço favor a teu povo em devolvendo a coroa:
Tomo dos impostores o nobre cetro de amigos
para retrazê-lo ao sangue de Teodorico! –
Não mentia! No amor sincero verdade se impõe. 2625
Mas terá controle um home apenas, valente,
sobre amálgama tão brutal de tropas unidas?
Era difícil crer. E dentre os godos na Itália
rondavam casos, histórias e narrações abissais
de quem destrói num misto raro de ofício e prazer. 2630
Medo, mas alguma esperança encontrava soldados
pelos sentimentos novos que a causa evocava.
Era de fato inimigo ou companheiro do povo?
Era um alarme! Totila reconheceu, num segundo,
toda l’astúcia, malícia que mascarava o projeto: 2635
Rigo, Vilas e os conselheiros li derom razão.
O rei, reunindo aliados no meio do breu, ansiava:
– Claro está: Se Germano pusere os pés nesta terra,
homens, acabou-se a vida, este reino acabou-se! –
Desde então, buscavam convencer os soldados 2640


132




como os nobres do risco iminente. Uns resistiam:
Como erguer as armas de guerra contra o sagrado
sangue de Teodorico? Era coisa impensável!
Foi em tal desespero de vagações solitárias
pela noite que o rei, confuso, viu-se abordado: 2645
– Não adianta, Totila, buscar abrigo no escuro. –
Era Rigo! Antes que o rei porém respondesse,
inda envergonhado da confissão que fizera,
Rigo prossegue: – Jurei fidelidade a meu rei!
O gesto teu de outrora foi errado, Totila, 2650
mas è greta a fé que puseste na mia hombridade.
Não te percas no teu remorso ca Roma te atende
mais urgentemente que nunca, o caso è grave! –
Que fazer, porém, se o tempo medês era imigo?
Rem obstante, o mestre dos escudeiros sugere: 2655
– Manda emissários! – Já no die seguinte partiam
rumo a Germano representantes do rei e de Roma,
homens de todo sangue unidos na causa dos godos.
Fossem claros: Era oferta de paz a embaixada!
Ora, falassem a Matasunta se fosse preciso, 2660


133




todo recurso fosse usado e todo milagre.
Não tornassem, contudo, sem a paz acertada:
paz, se fosse o caso, até nos termos do Império.
Quase ninguém discordava do froia. Era sabudo
já que a vida em si seria até de vantagem 2665
quando nem a certeza havia, ali, de retendo!
Dias depois, seguiu-se ainda outra missiva:
Totila entregaria a Matasunta a coroa,
sob a condição de que fossem feitos súditos
novos os seus guerreiros, asseguradas as vidas 2670
como pertences: Nulho soldado fosse punido!
Mas também se organizava em meio a temores
graves a resistência antecipando o combate.
Deste modo, fortificavam os muros de burgos,
eram mandados corredores rumo à Dalmácia 2675
para saber a que ponto cavalgava o inimigo.
Nada garantia, porém, a chegada por terra:
Era preciso entender se passariam por Vêneto
ou zarpariam do mar, desbaratando preparos.
Uma vez demandando os litorais de Salones, 2680


134




vila maior de Dalmácia, eram donos do acaso:
Basta um vento suim, em poucos dias alcança-
riam Piceno desembarcando perto de Ancona.
Era cenário forte: Em sobressalto ansiosos
gadrãos repetiant os exercícios de guerra. 2685
Flecha, escudo, espada e sobretudo lanceiros
não dormiam, a todo instante esperando ataque.
Fato inquiëtante, Germano chegara a Salones!
Cada nova aurora, Totila entrevia o retorno
triste dos emissários seus, prenúncio de anguisa. 2690
Qual non foi, porém, o estupefato e surpresa
quando correu dum lado ad outro do mar Superno
boca a boca uma fulminante notícia: Germano
pondo os pés na velha capital de Dalmácia,
mundo irônico, contraiu doença e morreu. 2695


υ

Totila tinha por certo: Augúrio divino
mudara o curso do acaso pelos godos!
Mandou buscar um senadorem distinto
de rara gente e Leôncio, junto ad outros
velhos da Cúria, pôs-se a caminho de Roma. 2700


135




Atravessarom cavalgando estradas e corpos
querendo se ao fim a vida ou morte atendesse.
Totila os recebeut às pressas e andarom
passando além por construções arruinadas.
Os olhos pousavam atordoados por antros 2705
testemunhando outrora espírito urbano.
Notando triste as impressões de Leôncio,
que vez et outra balançava a cabeça
e suspirava apurado, o rei li propunha:
– Levanta do chão, Leôncio, nossas ruínas, 2710
repara por poderoso que sês o flagelo!
O rei que outrora ria agora lamenta
mas ouve: Roma já caminhava abalada
dês que outrora saquearom os vândalos,
desde o reino de Vítice o fogo tortura 2715
as pedras veneráveis e o rosto do tempo.
Por piëdade e discernimento correto
não mi imputes a mim a causa, Leôncio,
deste mar de escombros pois te equivocas.
Eo conclamai-te sabendo da tua virtude, 2720


136




do teu amor: o gueso de Roma è de todos.
Reúne reforços! De quais recursos carece
a ressurreição da matrona dos povos?
Abrirei las portas da Cúria et unidos
os senadores decidireis, finalmente, 2725
como se apraz o renascer da Cidade.
Porém, se tu medês te recusas a Roma,
quem terá clemência do povo e das pedras? –
O velho senador, cabisbaixo entretanto
de avermelhados olhos, a voz tremulante 2730
e cambaleando no passo, para um momento.
Retendo um rei que prosseguia na estrada
frente a danificadas pilastras, pondera:
– Rei de Roma, tantas vezes pedi piedade
desses escombros desolados por terra 2735
nembrando: Poupa, frói, o passado inocente!
As pilastras arrebentadas ao meio da rua
forom perdudas, se aqui se permite a verdade.
Eram da Grécia e da Itália, eram de raro
mármore as obras caídas e mármore caro. 2740


137




Vierom das mãos de inimitáveis artistas!
Mas eu, que perdi família, nome e sustento,
non tenho nenhum recurso, nada me sobra.
Enxergas mal a condição dum coitado –
é desilusão e desgraça o destino: 2745
Outrora a minha gente ainda abarcava
em toda parte império, terras e servos.
Daí chegarom os federados e os bárbaros:
forom tomando a terra em toda província,
tanto que ogano vivo só de migalhas. 2750
Eles vândalos, pero que não tomarom
a nossa propriedade aos pés de Cartago,
já non permitiam que o fruto fluísse
como dantes, quando vinham d’África
o mar, os homens e todos os provimentos, 2755
quando Roma era farta. A fonte secou.
A fonte foi secando aos poucos, secando
tanto que agora è toda seca e deserto
e somos ora à mercê do acaso somente!
Erguer ruínas? Os mármores u buscar, 2760


138




pagar com cujo dinheiro? Onde artesãos
imitadores de momumentos antigos?
São intentos mais custosos que o peso
do mundo e construções de Constantinopla:
Sabes do templo que Justiniano constrói 2765
às custas do nosso escombro e da vida?
Rei de Roma! Tantas vezes pedi piedade
de nós e das nossas pedras maiores de nós!
Levanta do chão, Totila, nossas ruínas,
repara por poderoso que és o flagelo! 2770
A vida minha è sombra, o nome è vazio:
No cerco, de porta em porta eo passava
pedindo pão e recusando a verdade.
Estou de fato vivo? O pão que me derom
veio de salvadores que outrora servos! 2775
Veio de vidas mais fiéis do que honor
permite cogitar, e contudo eram servos.
Estou de fato vivo? No amor desse nome
que nem sequer mereço eles vão dividindo
migo um pão impossive, uma escassa seara. – 2780


139




Mas Totila no impulso da pena reteve-o:
– Entendo bem, Senador, as tuas palavras?
Disseste mesmo que partirás da cidade
e não li renderás um gesto de ajuda? –
Atarantado, um rei mirava as estátuas, 2785
baixando o rosto como se visse fantasma.
Considerando as vertiginosas pilastras,
Totila escorou-se aos galhos duma oliveira
por u la sombra o retrazia à verdade.
Leôncio, contudo, continuout o relato 2790
alheio ao quadro desolador do monarca.
O velho dum povo a muito custo somente
leixou-se convencer ao cuidado romano.
Talvez, de fato, algum auxílio minuto
o tempo inspirasse, o tempo revelasse. 2795
Naquela tarde porém de ocaso imaturo
nada mais li restava senão avisar:
– Se cá me quer o froia, cá me acomodo.
Mas o gesto maior que mi vem a juízo,
rei de Roma, è benefício pequeno, 2800


140




pequeno o benefício, serviço pequeno:
Pão, Totila, pão e circo somente! –


φ

Quando Justiniano pareceu confortado,
como um trovão arrasador a mors ecoau.
Correu alada no paço imperial e nas ruas 2805
tendo à boca assustadora o trunfo: Germano!
Pasmo leixou cair o cetro o dono do Império
pelo mármore frio do pavilhão de audiências.
Vagava mudo de madrugada os átrios escuros
horas inteiras, louca aparição sem cabeça. 2810
Uma circunstância em particular agravava
tanto luto, pois non fora a spada inimiga,
lança ou flecha el aniquilador de seu primo,
não humana: flecha sim do acaso implacável!
Era correto um herói morrer daquela maneira? 2815
Não se encaixava o fato atroz no plano divino.
Forom consultos pela madrugada os profetas
e fez-se claro o caso: Intervenção do demônio!
Deus, assim pareceu, em tais desastres pune
a presunção de potestades e reis ociosos. 2820


141




Manda a morte castigar com Satã la nociva
preguiça arrebatando toda a força do Império.
Pois agissem! Arrebentassem de vez inimigos
nem atendessem pior evento das mãos do diabo.
Vinham reunir-se ao coro irado de prestes 2825
vates senatoriais de opulentos rancores.
Lá se congregaram desdo começo da guerra
donde suntuosos formavam partido influente.
Die e noite se acumulavam missivas, visitas
longas ditando a Justiniano moções e destinos. 2830
Pois nõ eram meros pedintes que ali demandavam:
Fortes no verbo não los impressionava Bizâncio;
antes, conhecendo bem las próprias origens
punham repentinos os pés no Paço e bradavam:
– Age, César, tira de Roma a cambada de abutres! 2835
U se viut uma eterna gente entregue a cadelos?
Limpa a mãe do Império da bacanal de bandidos
nem consintas jamais Império Romano sem Roma! –
Era em vão renembrar desordenadas finanças
e verba escassa à temerosa empresa de tropas. 2840


142




Inda grassava em toda parte o medo de Pérsia
ca velho algoz oriental devastava inocentes.
Mas os senadores vociferavam sem medo:
– Éste persa império teu out Império Romano?
Inda hesitas? Não mi importa esforço nem preço! 2845
Morra se assim preciso for o coveiro do mundo
nem se salve o derradeiro abutre na Itália:
Mas seja destruído enfim o domínio dos godos! –
Foi ali deciso, sem mais, o fato dum povo
nem pungentes termos de paz seriam releitos. 2850
Quem contudo encarregar dum gravíssimo ofício?
Era a prioridade manter Belisário por perto
tanto pelo risco de Pérsia quanto por fama:
Fama demais ameaça a consistência de tronos.
Inda aguardava em Salones João de Vitaliano, 2855
genro até de Germano, estrategista de astúcia,
mas li faltava o carisma condutor da vitória.
Indo por nomes, apenas um general erigiu-se
digno da perigosa empresa: Narses, o eunuco.
Foi chamado às pressas al átrio das audiências 2860


143




onde o dono dos povos transtornado rezou-li:
– Narses, pende apenas de ti lo futuro de Romae.
És, amigo, a derradeira esperança do Império! –
Foi-li mastigando o plano oneroso do prélio,
foi-li pouco a pouco revelando os detalhes 2865
vivos e tortuosos de delicadas campanhas.
Narses, porém, concatenando bem la extensão
de tal fazenda e belicosíssimos riscos recua.
Pede tempo. Assiste o pôr das horas calado
frente ao Bósporo mas adentra enfim o palácio 2870
donde, reverente amigo, responde ao supremo:
– Desde que jovem vislumbrei la sombra do mundo,
César, o mundo me perseguiu, indústria de ultrajes.
Não se passou sem abatimento um dia, um momento.
Vítima grátis, fui castrado, privado e vexado. 2875
Ó destino impossível, desanimada existência!
Quem me vê pequeno e percorrendo ruelas,
quem se ri dum condenado eunuco à tristeza
não conhece, céus (e como alguém o pudera?),
não conhece a dor do sentimento sem meio! 2880


144




Não aprehende o mar por u lo amor naufraga:
Não paixão, amor! Saber que a cura do mundo
cabe no próprio peito e passa perto a mulher
amada e fonte dalgum feliz instante incabível!
Saber que no abraço meu floresceria uma vida, 2885
alma desejada e velida, mas que naufrago
perto da cura e sem remédio... Ai miserável
pária que sou ca nimigalha val o infinito
dentro de mim! Meu coração è poço tapado.
Não abusarei, porém, os ouvidos do Império 2890
co drama infindo e corriqueira vida de eunuco.
Peço apenas, César, imploro à vossa bondade
não aumenteis em vão la humilhação duma vida!
Antes, quando cabia esperança no meu coração,
rogava a Deo, ao ver passando perto uma bela, 2895
morte em breve e fim da dor! Aqui me encontro,
ai de mim, setenta primaveras de angústia.
Não, Senhor, vergai soldado mais vigoroso e
mais carente de coita! A vossa causa è perduda
e sem futuro: Quem non vê la ruína da Itália? 2900


145




Quem duvida que a derrocada certa me atende?
Basta olhar por alto os instrumentos escassos
dessas tropas largadas e claro está lo caso.
Não, Augusto, não al Itália, eo eia ao jazigo
donde alguma paz aguarda uma vida arrasada. 2905
Sei que jamais pedi favor, diminuto que fosse,
antes me desloquei por Vós em cohortes e armadas.
Inda me tremo a renembrar revoltas no Hipódromo,
quando a sós e desarmado enfrentei multidões
no amor do vosso nome: Carreguei um tesouro e 2910
prata aos ombros no afã de demovendi inimigos
não na Itália mas ali, nas portas do paço,
homens desta cidade unidos contra a cidade!
Pois vos salvei sem medo trono, cetro, coroa,
nem jamais ofendi requerendo presentes e pagas 2915
para um gesto parvo e grátis, dever de lacaios.
Dai-mi apenas ela paz de morrer sem nembrança:
Quero estrebuchar a sós abraçando-me à sombra!
Quero entregar a Deo minh’alma em sopro modesto
e não na ponta da espada numa guerra perduda. – 2920


146




Antes porém que prosseguisse a voz suplicante
foi sublata. Justiniano li emitiu de seu sólio:
– Nesta idade, Narses, que mi enbranquece cabelos
vi demais peritos em desrespeito e calúnias.
Mas que um homo de vida e valentia ilibada 2925
fosse capaz de tão desconcertante ultraje
contra simesmo, Céus, inda não me nembrava.
Outra boca a falar de ti num desdém semelhante
já teria encontrado vexame ou castigo de mortis.
Mas nem a ti permitirei que te ofendas impune: 2930
Reza assi lo dever que me rege e falo por muitos.
Esse comércio estranho e desonroso de eunucos
já mandei banir dos hemisférios do Império
pois a Deus nõ apraz, e nem o pode, suplício
como o teu: Amando e mutilado no amore! 2935
Em homens de teu destino Deus porém manifesta
muita vez a grandeza verdadeira das almas,
sim, porquanto tendo menos de todo-los homens
a vida reta faz-te já maior do que os outros. –
Isto dito, Justiniano ergueu-se do grave 2940


147




trono: Retirando da própria cabeça a coroa,
súbito estende al amigo o diadema dourado:
– Toma, Narses, põe sobre ti lo peso do Império
fardo sem par, e diz e decide o caso da Italiae!
Eu, porém, perdi demais as noites e as poucas 2945
forças ruminando em vão lo fim desta guerra.
Eras tu, eunuco, na tua eunuca estranheza
meu consolo e derradeira esperança de gloriae.
Eras tu com tua dor incurável a cura!
Mas se tão vehemente e valentissimamente 2950
já recusas ao trono a salvação de teu povo,
que mi vale agora a coroa? Leva contigo. –
Narses, tocado na sua reticência tristonha,
toma novam força: – O caso, Dom, è diverso:
Não renego o dever de servitude e de luta 2955
mas convém alguma compaixão por soldados;
pois macar a morte sê lo preço do ganho
muita vez, o herói que leva al ombro a lança
luta não pela morte, mas luta pela vitória.
É preciso viver quem quer cumprir um dever! 2960


148




Não chamei decente a vida que entrou numa guerra
vendo já perduda a vida e perduda a batalha,
como se combatesse na pura intenção de morrendo.
Não, amigo, lo herói de verdadeira valência
entra em guerra sempre certo de certa vitória. 2965
Morto, sabe que a morte patefaz o seu ganho,
nunca derrota. Pois porém a razão e prudência
já de longe apontam constelação de desgraça,
que proveito nos traz um sacrifício supéfluo?
Ora, em tal situação se consomem as tropas 2970
pela Itália, certos da morte em vão e morrendo!
Tanto apreço mi tendes, Dom, e quereis um idoso
como o que sejo a cabo de similares destinos?
É preciso pesar melhor o valor de soldados!
Homens desta terra como povos de alhures 2975
lá se congregam no amor do diadema do Império!
Que direi, Senhor, do triste povo dos érulos,
grei leal que a cada noite enterra centenas?
Não contestam, dão à morti o que têm de melhor
ca já caírom mortos dous ou três de sous reis 2980


149




e muitos bravos no decorrer de batalhas inúteis.
Não renego o dever, ao desperdício renego
pois se consentides verdade, verdade direi:
Esses recursos novos que tenho visto agregardes
bastam para a morte, para vitória non bastam. – 3985
Inda concatenando a confusão das ideias e
quase constraído enfim nel imo do orgulho,
Justiniano pondera longamente e profere:
– Não por elo, Narses, perderemo-la guerra,
pois se fore recurso a carência recursu terás! – 2990
Era agora questão de honor e amor à promessa:
César mandou parar a construção do seu Templo!
Foi esvaziado o tesouro erário do Estado e
verba amarga reunindo a fazenda dos anos.
Foi alocado o que havia e não havia de rico 2995
d’ouro e grãos de pobres e sortimentos de couro
seco e cavalos et abundância de lanças e espadas.
Quem vislumbrava as movimentações em Bizâncio
mal atinava coa proporção de divícias e largas
forças, ininvenjáveis, acumuladas às pressas: 3000


150




Narses enfim munido de provisões indescritas.
Era simples o plano do Imperador: Destruir
Totila! Pelo caminho, recrutar combatentes,
ir unir-se a João de Vitaliano em Salones
frente a poderosa armada co resto das muitas 3005
tropas que lá Germano leixara. Pronta a partida,
Justiniano porém adverte, olhos nos olhos:
– Pus-te al ombro o sacrifício maior deste tempo
pois o Império parou no mero afã de prover-te!
Servido estás, amigo, de tais recursos que pagam 3010
já, se não as vitórias, pelo menos as mortes.
Mas herói, se for perduda a campanha da Italiae
tem piedade da infâmia que abaterá meu governo,
pois o Império parou no mero afã de prover-te!
Se forem inúteis camanhas privações e renúncias 3015
não retornes. Morre por lá! – E Narses partiu.


Totila






D





χ

Totila, porém, no medês instante adentrava
o Circo Máximo donde a massa aguardava
ansiosa a corrida bigar. O ensejo festivo
que o próprio rei custeara marcava nova 3020


151




amizade e reconciliações entre os povos:
Era um mínimo agrado aos desesperados.
Prenunciando os ludos, a pompa circense
marchava pela arena, plebeus e soldados.
Romanos e godos carregando a bandeira 3025
toavam os cânticos pela parada solene.
Já se perdera a memória dos últimos jogos
a reunir multitudes, e mais memoravel-
mente saltava aos olhos um raro evento,
um caso caríssimo e sobretudo ao froia! 3030
Totila plantara a semente no coração:
Ganhar a guerra ganhando apreço do povo;
curar, tratar ao menos, feridas antigas.
Forom restaurados alguns monumentos
e construções e foi proviso alimento 3035
al ânimo e certo alívio, mesmo se breve.
Quando chegou ao fim a pompa de praxe
o rei ergueu-se frente à massa, propondo:
– Povo de Roma! Nem as pedras ignoram
o nome do vosso labor e da vossa tristeza. 3040


152




Pequenos pagarom pelo vício dos grandes
um preço que não convém al homi sereno.
Não creais que me desloquei de distâncias
berando pela Itália as armas e os homens
para erguer o meu ero contra caídos! 3045
Dês que Gus mi trouxe a coroa dos godos
e o fardo angustiado da guerra e do sangue,
julguei correto e consoante à decência
buscar em campo aberto os meus inimigos;
poupando longe das vilas a vida inocente 3050
merecedora de morte honrada e tranquila.
Segui portanto (os homens meus testemunham!)
pelos ermos do Vêneto e pela Toscana,
segui buscando e desafiando oponentes
e preparando em campo aberto o meu are. 3055
E no entanto os inimigos fugiam ligeiros
quando as ocasiões de batalha arribavam,
leixando o campo e transtornando sensatos!
Corriam querendo abrigo em cidades e gãos,
atrás de muralhas, cada qual da primeira 3060


153




que via, para que, perdedores, morressem
não sozinhos, mas levando inocentes
sigo! Em tal valor vos medirom, Romanos,
que rem lis importou la vossa existência!
Antes aglomerarom-se atrás desses muros 3065
por u la fome veio punir vossos filhos
mentre comiam a sós do grão que colhêreis.
Entristeçudos dum modo ingrato de guerra,
muita vez apelaumos em vão, repetindo:
Covardes, não vos escondais pelos burgos 3070
mas vinde medir a vossa força coas nossas
como convém ao bom guerreiro o seu flol!
Mas não vierom, e bem sabemos do resto.
Romanos! Foi por amor da vossa firmeza
e vida reta que despovoei la cidade 3075
e fiz trazer ao chão a muralha maldita
para que não custasse, mais uma vez,
as vossas vidas como a vida dos vossos!
Se dano indébito a minha ira abalada
causou à cidade, vão-se já reparando 3080


154




estragos e mais remédios serão ministrados. –
Houve pausa, porquanto a voz de Totila,
enquanto o rei nembrava imagens, tremia
e os olhos seus avermelhavam-se fartos.
A massa silenciosa atendia entretanto 3085
e lo rei, tomando fôlego novu, rezou-li:
– Não, Romanos, nõ é silêncio de morte
como este que um home de bem deseja,
lustando sim o riso do irmão e do amigo.
Mas inda vos provarei valor que vos dou 3090
e ganherei por fim a fé de indecisos.
Agora consolai vossos filhos e ouvi-me!
Começa nova ordem na história de Roma:
Não se levanta em meu domínio clava
contra a mão inerme que apenas arbeda. 3095
El home toma al ombro martelo out enxada
e vai obrar e nulhomem pune ou molesta,
porquanto sacrifica a vida por todos.
E seguet al o seu comércio de espécias,
provém quejandas vidas, conforto devudo. 3100


155




Inda um outro deixa atrás os parentes
e amigos, toma às mãos as arma do reino;
defende firme a liberdade dos fracos.
Num reino meu, e vosso mais do que meu,
o juíz nõ esquece quem oprime o trabalho 3105
pois è reino, Romanos, è reino livror!
O velho comércio e desgostoso de escravos
não condiz com respeito a Deus poderoso
nem se viu jamais, no reino dos godos,
el home bom querer guiar o seu éu 3110
pero o mau senhor li tolher o direito:
O nome de Roma è doravante Justiça
e protejudos estão los braços do obreiro!
Se algum de vós arbeda acrãos pela terra
ou leva gado, siga sereno o seu rumo. 3115
Porção que noutro tempo dáveis a ingratis
senhores dareis ao froia que a deve ao povo!
E não vos intimideis co’ameaças de longe
porquanto já non tendes libertos senhor
ou mestre, dono, patrão ca ninguém è cliente 3120


156




senão de simesmo e senadores sois vós!
Pensai na liberdade que aqui vos oferto,
meus friãos, e julgai se quis no passado
acaso vos deu de melhor ou parte ou al.
Que Deus permita a guarnição desta Itália, 3125
bondoso e generoso quem é de milagres,
pois além de Deus ninguém nos acode!
Acode? Já se maquina morte em Bizâncio,
Quirites, donde acorrem diários imigos
osores da nossa liberdade inocente. 3130
São sedentos de bloa, homens comprados
marchando violentamente em campanhas
no afã de nos destruindo a todo escau!
Tampouco impressionam apelos prudentes.
Imoderados, recusam acordos e cartas 3135
pois non querem guerso, desgraça procuram:
Virão talvez em breve às portas de Roma!
Quereis de pagamento ao penoso trabalho
justiça ainda? Ou já vos basta a derrama
levando embora o fruto de ingrata labuta 3140


157




para o sustento de suntuosos tiranos?
Deixo a vós decidir em paz o partido!
Conjuntos venceremo-las arma da morte
se apenas quiserdes como já vos prometo.
Respeitarei lo que a vossa fé decidir! 3145
Totila, como singelo signo de afeto
e gratidão sem fim a serenos, oferto
a filhos meus aquestes jogos festivos!
Praza a Deus que um dia algum de vós
me queira e perdone como bem vos quero. – 3150
Houve aplauso. Houve ardor prolongado
e profundos brados e comoção pela prole.
O nome do rei dos godos soava espontâneo
por entre as bocas como o Frói Romanor!
Num gesto raro, os cujo ouvido sentira 3155
levadas pela brisa palavras dum rei
estendiam os olhos, mãos e toda angústia
na direção de Totila. Speravam socorro
e que lis importavam, coitados, bandeiras
e nomes de reis? Estava clara uma coisa 3160


158




somente: Era decerto um senhor generoso
que erguera a voz à plebi em tal gravidade
e tão patente arrebatamento de espírito!
Era de fato um tutor, escudo justor
e protetor perpétuo de vidas perdudas. 3165
Aproximou-se porém receoso Leôncio,
impressionado e repetindo os apelos:
– Aduz verdade, rei, a tantas palavras!
Inclui verdade se podes, pois iludir
um povo generoso e crédulo e simples 3170
è crime pior que impiedade na guerra.
Era melhor matar todo mundo de vez,
Totila, que prometer, mentir, enganar
uma gente condenada, aflita, arrasada! –
Passavam no embalo bigas, cavalos afoitos 3175
dobrando perigosas curvas e esbeltos
enquanto a morte suplicava por carne.
Bastava a queda em velocidade voraz
e os éguos sem freno arrastavam o corpo
agonizante em desgraçados trajetos, 3180


159




a biga vazia e descontrolada e tombada.
Muita vez, um guia de carros perdia
controle de rédeas e parecia ceder,
e pero ressurgia pleno em comando
quando a massa o cria morto na arena. 3185
Mas quem atinava coas emoções esportivas
quando ainda soavam dentro do peito
as graves orações, a promessa de alívio?
Quanta vez os olhos voltarom-se ao céu
calados nalguma espera de paz duradoura. 3190
Totila ganhara a massa. A massa contudo
descendo os olhos do céu mirava o chão
e questionava do acaso a verdade do tempo.
Será que algum Apolo ou Cristo Jesus
ainda recorda por alto o povo romano? 3195
Terá piëdade enfim de quejendo destino?
Mas as vozes se erguerom amargas pedindo
a Deus amor. Assistirom, sem o saber,
os derradeiros jogos do circo de Roma.


ψ

Narses, o general, passava por entre pobres 3200
vilas balançando joias douradas no braço,
mar de prendas comovendo ambições de mancebos.
Como esperado, jovens de todo modo e talento
já largavam a vida velha juntando-se às tropas.
Era de confundir os olhos a grei de guerreiros 3205
cada dia a crescer e desafiando contagens.
Quem demandava cohortes abandonando familiam
era menos a mágoa dos seus do que certa alegria:
Era pois a guerra esperança de vida bastante!
Mas julgout enganado quem julgou nesses homens 3210
prole de desafortunados que a prata comprara.
Quando soau nas abissais estâncias de Trácia
como pelas montanhas e em litorais de Dalmácia
que Narses aglomerava cohortes no rumo da Itália,
veio ao seu encontro o povo inteiro dos érulos, 3215
grêmio distinto. Irom às arma sem que soubessem
bem de recompensas pagas, de como e de quanto.
Antes lis importava apenas servir um vetusto
amigo e protetor e companheiro firme no prélio,
pois honravam, em tudo, a retidão do aliado: 3220


161




Não existia Narses voltar atrás em palavras
como quem fala primeiro e só reflete depois.
Promessas vãs passavam longe da sua amargura.
Foi de fato um claro e raro exemplar de destinos
onde a frustração conduziu la vida a virtudes. 3225
Pouco antes porém que demandassem Salones,
houve, num vilarejo perto, um certo episódio.
É que circulava livre um ladrão de galinhas!
Ágil, furtava de madrugada, na aurora e no die,
inda impune e despertando a raiva das tropas. 3230
Pois se fez questão de ficando mais uma noite
para armar emboscada: Foi detento em flagrante!
Quando contudo o carrasco alevantara o machado
contro ladro, a mãe correu carregando crianças.
Ela ajoelhou-se em frente ao primeiro que viut 3235
e derramava inquiëtante afluência de gotas:
– Mata Procêncio não, guerreiro, mata a mãe,
mata eu que foi eu que fez Procêncio ladrão,
mandei roubar pra nós comer ca comida acabou!
Sei quessa vidè vida suja de gente feia 3240


162




e vida feia, mas vida fei è mió que morrer.
Vida fei è vida que fez mou filho viver.
Mata Procêncio não, coitado, que nem queria
viver, viveu foi só porque mandei pa roubar.
Ô guerreiro, Procens acabou! O pai de Procêncio 3245
morreu por Belisário na Itália, Procens acabou!
Pode matar mas se matar matè todo mundo
logo que morre tudo junto e morre com gosto! –
Era pois a Narses que aquela mulher suplicava!
Quando porém ergueu lo rosto cons olhos molhados, 3250
Narses amou-a como nunca se amou neste mundo.
Era a nembrança viva de desventuras antigas,
faces que o coração guardout em vão pelos anos.
Ó desencantos, ó, reerguer as almas que amava
como se fosse possível amor e afagos e beijos! 3255
Mas a mulher, entendendo desdém em tal silêncio,
não se contentava mais e abraçava-se aos pés
de Narses inda suplicando, tocando-li entranhas:
– Manda ele soltar meu fi, coitá de Procêncio!
Procens è menino de coração, fez mal pa ninguém, 3260


163




meu fi sò quer comida, vida e pai de verdade.
Ô guerreiro, non tem lugar pa Procêncio na tropa?
Leva Procêncio, leva, pra ser escravo e ser filho!
Leva, que aqui vai ser ladrão de galinha e quem sabe
Procêncio na guerra junto cocê vira um home de bem. 3265
Mas leva embora pelo amor de Jesus porque aqui,
soldado, a vidè fei e non tenho nem como criar.
Ensina tudo o què de bom pro meu fi que meu fi
vão ter orgulho dele e muito! – Faltava-li a fala.
Mas o eunuco, amando em silêncio e sem esperança 3270
como escondendo a dor dos próprios olhos, responde:
– Por que me tocas, mulher, e que me lavas de pranto
como só se toca e se chora no amor verdadeiro?
Inda non sabes quem eo sou e da vida que sofro?
Não mi dissimules e não mi beijes os dedos! 3275
Choras não por mim mas pelo ladrão de galinhas.
I falar a teu filho, vai, teu filho te espera!
Pois essas lágrimas tuas se esgotarem por ele,
quero ver no teu rosto o desdém que convém ao meu. –
Narses entrou na tenda, onde, cabeça entre as mãos, 3280


164




pensava, deliberando o destino de dous infratores.
Mas a mulher, chegando a saber a quem suplicara,
veio de novo ao general, trazendo Procêncio.
Foi contendo como podia emoções e dizendo-li:
– Ô senhor, mim desculpe, eu non sabia quem era, 3285
eu tava atormentada, eu precisava implorar.
Desculpa quem non sabe nem falar nem viver!
Eu me arrependo do dia em que nasci, general!
Procêncio vai morrer mas quer pedir perdão
porque Procens errou sem querer, errou nascendo! – 3290
Antes porém que o filho erguesse a voz remoída
Narses pergunta: – É de fato verdade, ladrão,
que a mando desta mulher furtavas grão e galinha?
Veio mesmo da tua mãe o comando? Responde! –
Mas Procêncio, pesando a consequência funesta 3295
de tal confissão, gemia e balançava a cabeça.
Ela contudo reafirmava a verdade da culpa
tão vehemente e destemuda que o filho cedeu.
E Narses, o coração diviso no amor e na fúria,
disse-li: – Eu devia matar-te agora ou ao menos 3300


165




cortar a tua língua destruïdora de incautos. –
Isto dito, fez entrar o carrasco, aduzindo:
– Ele fique conosco! Esses dedos do furto
são de bom manejo aos arcos e arqueiro será.
Procêncio! Ouvindo um tormentoso apelo de mãe, 3305
quero levar-te embora como filho e guerreiro!
Quero mostrar-te o laborar que edifica uma vida
e pois voltares tomarás as funções de tou pai
que, como ouvi, caiu valente e por causa correta. –
Antes entretanto que a mãe li beijasse os pés, 3310
o eunuco, mostrando-li a direção da rua, pedia:
– I-te embora e não mi digas jamais o tou nome!
Esconde para sempre, flor, o tou rosto de mim. –


ω

Reconhecendo ainda o fim de Germano,
Totila dispunha em sobressalto gadrãos 3315
e parecia contar coa bondade da sorte:
Escravos aliavam-se às tropas buscando
a vida livre e bizantinos guerreiros
largavam postos para unir-se a Totila,
migrando em massa abandonando bandeira. 3320


166




E pois o rei gozasse o domínio da Itália
quase inteiro, cumpria cortar o sustento
que alimentava inimigos, tolhendo a raiz.
Navios de werra pelas águas de Nápoles
forom arrebatados chus ao norte 3325
mentre navegavant incautos, súbito
os marinheiros arremessados de bordo.
Em pouco tempo os godos usavam de frota:
A mando do rei, zarpavam em rumo diverso
desafiando a fúria do mar, cobiçando 3330
saques e ataques em litorais adversos.
Inopinados, desembarcarom na Córsega
para ficar, e não pouparom Sardenha.
Correu la nova como um alarme em Cartago
a comando das ilhas, incapaz de resposta. 3335
Rumavam no mesmo instante agitadas galeras
sedentas de Grécia: Devastavam a costa
tomando embora opulentos envios de Bizâncio
como os provimentos expostos nas praias.
Justiniano ouvia os relatos tremendos 3340


167




e balançava lento a cabeça cansada.
Concatenava a custo o vigor das imagens
deliberando em vão repentinas medidas.
Totila assomara uma abundância de naves
a dar inveja quase à gana dos vândalos. 3345
Decerto Genserico, o rei das esquadras
que se apossaram d’África como de Roma,
desafiando em frota sem par o destino
e derradeiros dies do Império d’Oeste,
decerto invejaria as galeras de godos; 3350
o rei, que incendiando o grosso da esquadra
romana em litorais espanhóis, destruiu
de Majoriano, lo Imperador humilhado
e derradeiro patrício capaz de defesa,
poder, esperança, nome e desejo de vida. 3355
Os serviços de Genserico a Majoriano
Totila ansiava prestar ao dono gêntio.
Não hesitou! Vencendo o forte de Régio
zarpou sem mais na direção de Messana
cruzando irado o mar, arribando apressado. 3360


168




Desembarcou em Sicília stilando rancor
e vivo afã de exaurindi o celeiro da Itália.
A terram percorrerom sem pena, pilhando
gado e grãos e o quanto os olhos mirassem.
Que não leixassem atrás diminuta migalha! 3365
O godo acompanhava os passos e as arma
ditando à tropa insaciáveis derramas.
Iniciou pilhando somente os patrícios
como das vilas de Gordiano, lo Anício,
enquanto Gregório, filho menor, meditava 3370
tristonho, bem convicto já de que vida
segura no mundo fora a vida dos monges
como a de Bento demandando cavernas –
Gregório que dedicout a Deus o seu sopro.
Mas não bastava o confiscar de patrícios. 3375
Famílias remotas lamentavam caladas
a mão levando além animais e frumento.
El home de bois que duvidara tranquilo
do desembraque dormia agora com medo.
O plantador de sementes mirava a lavoura 3380


169




e derribava arado chorando presságios.
O rei, porém, perambulando nos campos
veio a dar enfim no prenúncio da aurora.
Como num breve instante parasse a mirar,
ouviu das ribanceiras um berro de bodes. 3385
Acompanhavam pastor que passava ansioso
enquanto ovelhas mudas seguiam de longe.
Vinha correndo de godos buscando seu gado!
Totila notou la inquirição dos ovinos
e quis: – Aonde foges, pastor, de gadrãos? – 3390
El outro, contudo, sabendo a quem se avançava,
falou de voz temerosa e caçando palavras
enquanto a talha berrante cercava Totila:
– Perdoa, rei, a intervenção de meus bodes
pela minha vida e menor do que a deles. 3395
Matei ninguém, roubei de ninguém dinheiro!
A minha vidè de andar por aí sem caminho
e bode veio atrás e lhi dei de comida.
Agora, rei, meu bode non vive sem mim
nem eu sem bode, què bode feito família, 3400


170




filho meu que tirei da barriga da cabra.
Apareceu soldado caçano o meu gado!
Se aquele home levar embora meu bode
e cabra de leite, leite de cabra roubada
è leite amargo e boca de gente non bebe! 3405
Cabra levada embora sente desgosto.
Deixa ficar, Totila, meu bode comigo! –
Ao redor amedrontadas ovelhas pastavam,
os olhos inteiramente voltados ao rei,
rebanho mastigando o pasto e fitando 3410
calado, prestes à fuga desordenada:
Bastava um violento passo e corriam.
Pastor tomou de nova força e seguiut
enquanto os gadrãos atendiam resposta:
– A vida tua, Totila, è de gesto bonito 3415
e bonito que nem ao meu irmão abonado.
Veio o soldado maltratano a menina,
Totila matou soldado e cuidou da menina
e deu dinheiro e gado e cuidou da menina!
Quando voltou meu irmão e contou da jornada, 3420


171




o povo entendeu que o rei è bom, esse novo.
Agora chega o rei quiè este quiès tu
e vem tomar meu gado no meio do nada?
Ô meu Deus, explica essa coisa de novo,
rei què bom roubano embora meu bode! – 3425
Os bodes, percebendo aflição do pastor,
berravam inquisitivos dum berro agitado.
Totila, porém, nembrando o caso longínquo,
mirou melhor el homem de ovinos e disse:
– Este home, gadrãos, retenha seu gado! 3430
Ladrão, pastor, ladrão Totila non foi.
Explica aos conterrâneos teus de Sicília
que o rei sentiu la ingratidão do teu povo
quando alegre e de braços abertos abriut
os portus e as portas del ilha a Belisário, 3435
sabendo que guerreava contro meu povo!
Desde esse tempo, carrego muito entristo
a nembraça dum gesto apagador de amizades
porque, pastor, a vida próspera vossa
também se deve a Teodorico, o bondoso 3440
que nunca pôs a mão no pão de seus pobres.


172




Diz aos teus, porém, que o gado que embora
levo non levo nem para mim: para Roma!
Se fosse para mim bastava o que è meu
e não precisava empobrecer o teu povo. 3455
Vai para Roma contudo o gado e frumento
como sempre se fez e como è preciso.
Ora, ancião, as bocas e a fome de Roma
são ainda as bocas e a fome de Roma
que alimentáveis como a própria familiam 3450
quando os Imperadores fartos gualdavam.
Serão agora inimigos quem eram irmãos? –
O pastor, entonce, escolhendo de bodes,
cedeu parcela a Roma e Totila se foi.


α’

Mas em Roma o rei sofreu numa triste missiva: 3455
– Foi-mi negada, Rigo, a mulher que mais amei!
Como se não bastasse a paz, agora quem foge
minha vida è l’amor. Minha esperança
foi em vão. – Totila renembrava
as juras da juventude, 3460


173




quando trocavam confissões
pelo jardim que dava ao vale.
Quantas noites perdera repassando
a cena inesquecível: O abraço
guardado pelos anos, o presságio do paraíso. 3465
De repente o coração se transforma!
Décadas de ausência. Totila atendia
certo da promessa e do mundo.
Ela perdera amor? O tempo vencera?
Olhos molhados, o rei relia a carta, buscando 3470
brechas dalguma afeição.
Rigo reconheceu o destino do pranto:
Rodelinda, inalcançável dos francos,
ganhara o seu coração.
Eram melhores, na florescência do tempo, os termos 3475
entre os francos e os godos.
Vinham legados transportando presentes,
provas de duradoura amizade.
Viu-se a flor populoro se unir no futuro
como já se casara o rei coa princesa. 3480


174




Mas as juras de amor
iludirom amantes.
Bem pensando, o rei não se assustava:
Causas diversas moviam os francos.
Volúveis, no meio da luta mudavam partido, 3485
ora um acordo aqui, ora uma jura ali.
Não se contentando co norte,
vinham lustando a Gália visigótica.
Era agora o mar somente a ponte dos povos
entre os reinos godos. 3490
Foi difice amansar maiores cobiças.
Quando a guerra eclodiu, fecharom acordo
dum lado como doutro, buscando vantagem
como terra na Itália. Prevendo o perigo,
Vítice deu embora a costa da Gália, 3495
Marselha, e nem por isto forom detentos:
Já pintavam na mente mais conquistas.
Irom tomando o norte da Itália
pelos Alpes, entrando soltos no Vêneto.
Totila e Justiniano miravam as incursões, 3500


175




reclamando a si lo domínio da terra
mas incapazes de agir:
Era imperioso manter os francos
se não aliados ao menos neutros!
Num quesito, porém, Totila teve êxito: 3505
Que os francos retivessem as terras no Vêneto
para ficarem neutros ata lo fim da guerra.
Home acertasse depois o novu acordo.
Mas Totila atinava coa triste
carta do rei negando a filha. 3510
Rei, dizia, Totila nunca foi:
Nem o reconheceu lo Imperador em Bizâncio
nem Totila, tomando Roma, pôde mantê-la,
visto que Belisário reconquistou.
Era difícil crer na frieza das frases. 3515
Uma flama, ao menos, Totila reteve:
Talvez a sua amada sofresse também,
talvez se recordasse da sombra do abraço,
talvez não consetisse a dureza do pai.
Mas nõ há certeza em palavras, 3520


176




só lo amor impossive è que sabe.
Totila conclui tomando fôlego:
– Era desses francos, Rigo, a promessa da vida.
Deles eu esperava a paz, o amor, a concórdia,
deles apenas! E são agora o concurso do nada. – 3525


β’

Contudo um outra carta abordou, navegando
da Itália e caçando João, cabeça de tropas:
“Valeriano, a comando em Ravena, saúda.
Estás a pensar que ventre vive de vento?
Rezei em vão a todos homens do Império 3530
a fome, o cerco, a provação de Ravena?
Ancona está cercada, el único porto
ainda para o socorro do mar e frumento.
Os homens ende se Ancona cair cairemos!
Somo-los últimos. Pois então, se morrermos 3535
já podeis preparar o sepulcro de Narses.
Se houvesse força seria longo o relato,
contudo força só quem come è que tem.
Estamos cercados e sitiados, cadeias
impedem nossos pés e lacuna no estômago. 3540


177




Por amor de Jesus compassivo ou de Apolo,
novo deus ou de velhos – ajuda-nos, home!
Zarpa agora coas naves e os teus de Salones
ou põe às mãos do soldado, em vez da espada,
somente a pá que aos abandonados enterra.” 3545
João de Vitaliano, balançando a cabeça
e mirando longe o mar, pondera o dilema.
Não guardava ainda, nas mãos e no peito,
a carta imperativa e missão de Bizâncio?
Não te movas! Atende Narses e segue-o! 3550
Vinham de Justiniano as ordens escritas!
Chegara pois o momento, num lance infeliz,
dum desdenhoso gesto e menor del honor?
João lo sabia: Na vida sem erro a decência
impera rogar, de a quem se deve, anuência. 3555
Mas o tempo escasso interpunha-se ao caso:
Mandando al Imperador apressada missiva, a
resposta levava semanas. A morte iminente
espera menos. Quem diria, João ruminava,
o amargo dom que li preparava o destino! 3560


178




Vivendo leal, desrespeitar lealdade:
O futuro de Ancona e juramento a Bizâncio
surgiam, gladiantes, na arena da morte.
Ele, a quem notáveis em nada notavam,
quantas mágoas de Belisário guardava, 3565
quantas de Narses quando em meio a batalhas
a voz de generais abafava os conselhos?
Ele, que tanto ansiava a sós o comando
que enfim li vissem bom valor e destreza;
a sós entendia em desencanto o seu fato, 3570
e como ansiou, além, o concurso d’al!
Ali se calou, porém, na escolha dos males,
curvado ao peso do dessaber e das horas.
Mas não havia ensejo a delonga e lamentos
ante a lição do acaso e destino incautoro. 3575
João, num surto inordenado e na pressa,
conclama, ordena e grita à massa: – Prepara
navios! – E sem sabendo futuro e jornada,
tropas embarcam de súbito naves adentro,
João escolhendo a dedo heróis de valor. 3580


179




Zarpou! Ao bafo de frientíssimos ventos
e mar violento, cruzou na tempestade
em virações tenebrosas garganta adriática.
Trinta e oito navios avançarom impávidos.
O remo que a mão impôs à boca das ondas 3585
não se quebrou: Por breve instante a vida
venceu – o vaso frágil – a fúria do eterno.
Passarom fortes, humilhando nos braços
a força de temporais e l’orgulho do mar.
Exaustos, não porém vençudos, pisarom, 3590
atrás de escuridões flutuantes, o margem,
vistando nas nuvens o sitiado penhasco
donde se erguia firme o forte de Ancona.
Desembarcavam prevendo pois o inglório
tamanho da luta, João apontando claro 3595
a sorte. Em terra e mar, o frio hibernal
mesclava-se al arrepio e temores das almas
subiam, em contemplando o perigo da morte,
alturas maiores que a ribanceira cercada.
João mirava mãos e as mãos de seus homens 3600


180




titubeavam perante o prospecto da treva.
Qual non foi contudo o suspiro de susto
quando do fim de angustiantes praias
surgiu, em derradeiras brumas, moção
de horizonte, véu, revelando do incerto 3605
a bandeira inabalada de Roma e broquéis
de guerreiros: Valeriano e Ravena abordavam!
Ossada ambulante, um general concorria
a João, derramando dos olhos o seu alívio.
João, porém, percebeu la causa da empresa: 3610
Valeriano o julgara guerreiro sem honra
como os homens vis que, vendo o companha
clamando, passarom reto. Não esperava
encontrar naquela costa navios de Salones:
Se confiasse, teria ficado em Ravena! 3615
Astuto! Pedira ajuda alegando fraqueza
e pero aparecia em pessoa ao combate?
O caso e diversos outros João ruminava
do quão pequeno apreço amigos li davam.
Valeriano, enfim, entrevendo a tristeza, 3620


181




envergonhou-se um pouco da própria alegria:
– Perdoa de mim, João, um juízo incorreto!
Começo a ver, conquanto tarde, o tamanho
das tuas palavras e tua verdade me humilha.
Agora sei, guerreiro, quem sês e quem foires! – 3625
Agora? João, vislumbrando o perder-se do mar
um segundo, baixou a fundo os olhos na areia:
– Traí, general, o Imperador em Bizâncio,
perdi meu honor no socorrer de teus homens. –
Valeriano, mordudo por dentro, entendeu 3630
melhor o candor e a raridade dum homem
a quem jamais convém hesitar confiança.
Erguendo a voz contrita responde: – João,
juntei meus homens para que todos vissem
em ti la grandeza dum gesto firme e correto, 3635
homens nossos, antes teus do que meus.
Marchei, João, somente para entregá-los
a quem merece mais do que eu la vitória:
Traíste não, a ninguém, ganhaste valor!
Aceita, somente, o sacrifício pequeno 3640


182




dum grato e vou-me embora a sós a Ravena. –
João num gesto súbito roga-li: – Fica,
guerreiro! È generoso o pendão da vitória,
paira sereno et abriga o nome de muitos. –
Num momento amargor e remorso abraçarom-se. 3645
Mas não havia tempo a maiores palavras
que já chegava de longe a notícia: Totila
mandara, sabendo do desembarque arrojado,
possante armada em quarenta e sete navios!
Chamando cedo os conselheiros do reino 3650
o reinante explicara: – Basta Ravena cair
e teremos toda Itália. A guerra termina
se Ancona se rende, por onde cópia perene
de provimentos adentra sustendo inimigos. –
Quando contudo expôs o plano em detalhes 3655
de como a frota avançasse buscando batalha,
erguerom-se vozes: – Totila! Werra de mar
e guerra d’água difere do prélio de terra,
manejo bom de barcas arte de expertos.
Sucesso impera o bom governo de remos! – 3660


183




Assim falara Vilas, e Rigo assentira
cons outros. O rei retrucava alarmado:
– Mas duvidais, estoas, do extremo do caso?
E qual escolha teremos senão de coragem?
Nenhum auxílio de terra reforça o gadrão: 3665
Importa-nos ora bater no mar o perigo! –
Os homens grandes vislumbravam os anos
ansiando aquela destreza d’água dos vândalos,
como outrora em pouca frota apossaram
o mar e do mar a cidade de Roma e milhares. 3670
O sangue irmão dos godos, comum germanor,
decerto fervia como nos vândalos antes
robusto e prometendo proeza nas ondas.
O rei, atenuados os grandes, adverte:
– Tenhamos sorte e sorte esteja conosco! 3675
Se o forte de Ancona resistir à bravura
do assalto, amigos, nada mais interrompe
os pés de Narses, fecho incerto do tempo. –
Irom zarpando afoitas de toda a costa
galeras largas. Carregadas de guerra, 3680


184




bandarom-se embora em perdições adriáticas
u remavam depressa a destino sem medo.
E flutuando o mar como o fogo do inferno,
sofriam no corpo os elementos em fúria.
Ao cabo da grande armada estavam capazes 3685
dominadores de remo. Provindos do Império,
buscavam do novo rei la paga e prestígio
que longe Bizâncio negara. Traziam consigo
perícia de naves e perspicácia de ardis.
Arqueiros eleitos se exercitavam na popa 3690
e na proa, donde afiavam flechas, e cópia
de lanças passava pelas mãos de gardrãos,
notadamente dum jovem: Tenaz, Ruderico
desdo começo pediu a seu pai, insistiu
em seguir e mostrar, aos inimigos de além, 3695
o temor da sua lança e valor de seu nome.
Não se menospreze o poder do arremesso!
E contros avisos insistentes de Vilas
nembrando que mar carece mais de arqueria,
embora embarcou desafiando incertezas. 3700


185




Quando detrás dos horizontes de Ancona
e de brumas despontarom navios apressados,
João e los marinheiros zarparom. Da nave
o general de Salones orou-lis: – Guardai
no peito, soldados, o nome desta jornada, 3705
porquanto dela apenas depende o futuro
do Império, Roma e vossas vidas. Coragem
mostrade e valor e bom manejo de flechas,
porque demais ensejos a vida vos nega:
Se aquela frota vencer, o destino acabou! 3710
As armas que ao vosso braço tiverem abrigo
usai com destreza e como pel última vez,
porquanto além, varões, amanhana è milagre! –
Entrarom pois a bruma do além, inimigos
remando de encontro. Não porém hesitarom 3715
quando pronto irromperom perto as galeras.
Resposta de guerra, a tempestade de setas
cruzava do abismo al horizonte os vazios,
e mãos de Romanos largando flecha d’arco
caçavam pelo véu a cabeça de incautos. 3720


186




Puxado o míssil co viço maior do braço,
ao feroz na mira milagre algum socorria
contudo caía, cravada a perda no peito
e carregado em vermelhantes ondas embora.
Os godos, então, aproximando as barcas 3725
e as naves atracando, lançavam os corpos
contra os corpos, atacando com clavas,
saltando e penetrando a popa de hostis
por onde arremessavam lança e cortavam
co gume a carne, amedrontando os audazes. 3730
Julgarom já maior a coragem que a vida.
Cantout errado cujo canto de guerra
bradou vitória cedo e tarde a verdade,
porquanto longe e destemudo assomava,
do braço de Ruderico, a lança certeira. 3735
Desafiando arqueiros, o filho de Vilas
coa mera força da mão catava dos ares
pujante pontiagudos projéteis, impondo
a palma como escudo frustrante de setas.
O peito exposto e provocando invejoso 3740


187




destino, bom lanceiro tomava da proa
as armas em cuidadoso arsenal, coletas
por anos setas que todo dia afiava.
Alimentava a sangrenta sede dos fios
de gumes et haste, cinco pés de madeira. 3745
Troféu tremendo, rumava a lança de ponta
a ponta banhada em sangue de vísceras
quando atravessando o corpo varava
além, buscando vidas outras no incerto.
O brado, o mar e a morte pouco importavam 3750
e pouco impressionavam afoitos ataques,
o herói da lança cercado e gerindo vitória.
Ereito o braço, o jovem lançava arremessos
que em repetidos golpes cortavam escudos,
quebrando a sós o peito armado de intrépidos. 3755
Tamanha força li propulsava de entranhas
que vezes a fúria da lança levava consigo
a longe troncos, cravando no fundo do mar.
E quanto mais pelejavam contra a perícia
de Ruderico em tanto mais perecessem, 3760


188




porquanto o braço contro qual se lançavam
braço inquebrantável no amor de seu povo.
A frota pois de João aturdida, vitória
surgia descendendo do sonho à verdade,
nutridos ora godos, o viço em coragem 3765
de luta vastando pelo mar e quebrando.
De pouco vale entretanto d’armas valência
quando acaso se opõe, inimigo de esforços.
Ora, Fortuna, invejando a vitória do forte,
beirando o ventu que ali passava raivoso 3770
ordena ao elemento: “Confunde esses homens!”
Súbito o caos se alastra em góticas frotas,
desordem desbaratando o governo de remos.
Enquanto o bom lanceiro atirava petrechos,
o engano flutuante levava exaltadas 3775
galeras a rumo invocador de desgraça.
Ilusas, ora se aproximavam demais
atrapalhando caminhos umas das outras,
conglomeradas naus e naus atracadas,
ora no afã de desvencilhar-se contudo 3780


189




demais se afastavam perdendo contato.
Assim unidos no caos e de todo isolados
bradavam-se apenas antagônicas ordens
e não lutavam, Romanos tomando proveito
e arrebatando embora as barcas e as vidas. 3785
Industriosos na espreita, pronto cercavam
galera à deriva, saltando a bordo e matando.
Cruzando grupos de duas vel três atracadas
naves de godos, aproximavam-se arqueiros
enquanto incautos debatiam aos gritos 3790
governo de rumo, e miradas as flechas
o peito alvejado frente ao mar tropeçava,
desgovernadas feridas, carcaças tragadas.
Em vão a barca assaltada lançava de bordo
as armas, ajoelhados rogando clemência, 3795
rendudos todos e todos porém degolados.
Caíra a noite e desesperadas galeras
cuidavam fuga apenas, remando sem rumo
e cada qual por si dispersa, perdudas
no medo e vagas pela gartanta adriática. 3800


190




Pobre a nau que se deparasse no azar
pequena ou grã perante naves em fúria,
assomo das ondas como se pouco bastasse.
João general, reconhecendo a verdade
no escuro, atribuindo pois uma estranha 3805
vitória ao acaso, conclamou marinheiros
e desdenhando, cônscio de si, galardões
de corriqueira fama e troféus, navegou
embora a Salones, o coração humilhado:
Ora, em certa altura perdera a batalha. 3810
Assim pensando e ruminando por brumas,
rumava além com vitoriosos incautos
e preparava desde pronto pungente
missiva, rogando a Justiniano perdão
por gesto intempestivo, dever arriscado. 3815
Em meio à tormenta navagavam os poucos
godos que, sobrevivendo por certo milagre,
buscavam nas ondas a direção duma costa.
E Ruderico, lançado em fúria de bordo,
tomara da tábua e flutuava em distâncias, 3820


191




oculto na treva em perdições impossíveis.
Decerto Netuno ali vingava ultrajado
honor divino que um povo inteiro traíra
quando, inopinado e deitando por terra
antigos ídolos, novu deus e de longe 3825
tomou por seu contrariando avoengos.
Assim coligado à rancorosa fortuna,
soprava assustadoras vagas e abismos
tragavam as desesperações dum guerreiro,
porquanto o filho de Vilas, longe lançando 3830
embora as armas ora inúteis, pregava-se
ao carcomudo escombro que acaso li dera.
Acaso, porém, erguendo altíssimas crestas
altíssimo alçava quase às nuvens o náufrago
e súbito, o mar cessante, abismo se abria 3835
por onde em vertigem Ruderico varava
em queda livre. Muita vez a madeira
perdeu-se fraca daquelas mãos e da vista
e Ruderico nadando e buscando e clamando
tomava como do nada e que quase afundava 3840


192




o pedaço de tábua, pau que o deus maldizia.
A voz, abafada no vão das vagas mas alta,
bradava tragando fúria, ventu e rajadas:
– Cresci na fé de Cristo, remo de náufragos!
Não morri de guerra mas morro de mar? 3845
Em tantos feitos eu buscai de meu erto,
Jesus, os dons daquele gesto correto
e sacrifício pelos godos que abraço!
Quanto mais façanhas meu braço toía
menos lusto o meu coração lis gozava. 3850
Mas antes, mar, de aqui beberes a vida,
permite ao destituto uma vida melhor!
Que me vale esta mão que abateu inimigos?
Conheço bem a causa do fim que me espera:
Desde que ousei num desgraçado momento 3855
erguer-te, mão infeliz, diante do greto
que frente a meu juiz adotou-me por filho,
desde então notei lo teor do teu crime,
mal que nem com pena de morte reparo.
Coitado de mim ca mal percebo quem sejo: 3860


193




Vivo por graça e sigo querendo coragem
de vida e vida merecedora de vênia.
Contudo a cada passo esta vida revela
o tamanho do erro, a vergonhosa verdade.
Andei ganhando guerras? Não, me perdi 3865
num crime sem nome e vi, entendi, percebi
que minha vida è pequena e vida pequena
não compete ao verdadeiro guerreiro. –
Assim chorando a Deus e rogando impossível
passava o filho de Vilas o abismo de crestas. 3870
Desembarcarom os poucos que a sorte trouxera
em colisão a rochedos e a bancos de areia,
nadando como andando e distante do porto.
Corriam na madrugada em demandando socorro,
restantes da formidável armada que a fúria 3875
e muita inveja do acaso soprara à ruína.
Ela derrota de mar quebrou-lis espírito.
Partirom, pois, confusos no meio da noite,
levando a Totila a desastrosa notícia.
E longe de praias, escuridões carregavam 3880
a triste tábua de Ruderico à deriva.


γ’

Narses porém marchava longe daqueles eventos,
tendo em mente o novu filho, a mãe que assombrava
firme ainda na imagem, die e noite, a memória.
Gradualmente, o peito li arfava mais vigoroso 3885
quando se comentava o bem de Procêncio nos arcos.
Era uma rara destreza calando a boca dos mestres.
Narses não poupova esforços: Procêncio crescia,
manejava os seus petrechos e muito aprendia:
– Cuida bem do menino! – Narses repetia 3890
vendo ali, no mancebo, novu sentido à vida.
Pois o ladrão galinar, refletindo a bondade,
ora se dedicava coa vida inteira ao manejo.
Doradiante buscava apenas o afeto de Narses,
o protetor, nembrando a dor da mãe que leixara. 3895
Como o filho no pai, o pai indagava no filho,
ambos dous, a mulher que os irmanara no espírito.
Por muito tempo a conversa aproximava as idades,
falas de amor e brios de guerra pelas estradas.
Narses contudo percebia-li o tépido aspecto: 3900


195




– Que te abate, filho? Por que te vejo atristado
frente à corda sussurrando medo em teus sonhos?
Não te contenta ainda a perfeição de teus alvos
ora que atiras melhor e mais veloz que o perito?
Bom sucesso aguarda, Procêncio! – Procêncio atende: 3905
– Pai! Percebo sim os dons e a rapidez dessas mãos
e como è destro o meu tiro e caçador de inimigos.
Forom porém, senhor, somente as aves e as árvores,
nada mais, que o meu punhado de flechas feriu,
e vão passando os dias e vou pensando de mim 3910
se a guerra me quer: Erguendo l’arma vou atinando
mais e mais que non sou violento, vergonha marchando
junto e perseguindo os pés dum ladrão de galinhas.
Ero eu, que non sou violento, um home de guerra? –
Mas o filho baixou la cabeça e Narses li disse: 3915
– Vêm da vida correta as tuas palavras, Procêncio,
entram no peito como alívio, dote de orgulho.
Uma coisa contudo aprendi de soldados sinceros:
Há diferença de ser violento e de usar violência.
Filho! O bom guerreiro alevantou suas armas 3920


196




como gesto de amor primeiro e depois violência.
Quando el home vil, destruïdor de pequenos,
põe a lança aos ombros querendo como presa a
vida sem erro, cumpre à mão decente resgate:
Cumpre erguer a bandeira justa e co peso da vida 3925
como das armas lutar, impedir um gesto indevudo
contra nossas mães e companhas. L’home de guerra
sabe usar violência quando o prélio conclama,
mas el home de guerra, filho, foi home primeiro
e só depois è de guerra o guerreiro que è home. – 3930
Dito isto, o perito mirava nos olhos o jovem
calado e boquiaberto, mentre l’outro assistia
Narses como por dentro e ruminando na mente:
Frente a poderosas tropas marchava um eunuco,
ora idoso e de pouco endorso no corpo e valência. 3935
Donde, pois, atender em Narses o afã violento?
Ali conheceu, do seu pai, lo virtuoso valente.
Não porém contente arremata: – A guerra castiga
tanta vez, meu pai, quem não merece a vergasta.
Tanta vez, el home bom e correto guerreiro 3940


197




foi abusado pela fealdade das ordens
más e desordeiras, seu coração generoso
coberto de crime como um missionário da dor. –
Narses contudo impôs-li a mão, seguro da luta:
– Filho, a fealdade maior duma vida que vale 3945
foi erguer a espada contra a mão que te implora!
Quando o tou inimigo se rende rendudo está:
Quem se lança a tous pés te confiou sua vida.
É preciso prezar quem decidiu se humilhar. –
O novo filho entonce entendeu, da boca de Narses, 3950
fato: Da boca de Narses non vem el ordem covarde,
mal que tanto ultraja a retidão de quem serve.
Mas o pai completa: – Quando el ordem ofende
a consciência do lutador e o peso das armas,
sê primeiro home e salva a verdade das armas: 3955
Pois o nome da bõa guerra è virtude, mentira
a guerra que ofende a vida desarmada e caída. –
Mas do termo del orbe a silhueta surgiu de
Salones, interrompendo verbo, tempo e verdade,
donde correu de encontro João falando apressado: 3960


198




– Perdoa, Narses, a intrepidez dum ato impensado! –
Foi-lis pois narrando em cena forte os detalhes,
cônscio de si, atribuindo ao acaso a vitória.
Era preciso saber se, descumprido o desejo
de Justiniano, Narses o eunuco ainda o julgava 3965
digno de luta. João de fato escrevera a Bizâncio
já rogando atônito ao dono do Império clemência.
Ora, o pai de Procêncio considerando relatos
disse apenas: – Prepara logo as tropas e vamos! –
Forom! A nova marcha unia aos homens de Narses 3970
restos da belicosa grei que seguia a Germano
quando a morte o sequestrou, e leais de João
ogano redobravam a vida e la cópia das armas.
Mas enquanto l’outro perambulava aturdido,
Narses pensava o caso inusitado dum grande 3975
pedindo vênia ao mundo pela própria vitória.
Antes porém de mais o general se aproxima:
– Foi decerto fiel, João, o tou gesto valente.
Ensina algo desta tua hombridade a Procêncio,
filho de meus, e morrerei feliz de meus dias! – 3980


199




Pôs ao peito o bom sucesso do filho de Narses
como a vida própria João, e lições prosseguirom
desde então, Procêncio aprimorando-se em flecha
tanto quanto em razão de combate: – Foi covardia
então fugir – perguntout ao general moderado – 3985
quando em vã batalha a vitória se fez impossível? –
Mas João era aluno de ingrata lida e concede:
– Muitas vezes, prudência recomenda o retiro
quando o bom guerreiro em recuando se avança
rumo a novo ataque, levando as arma consigo. 3990
Feio, porém, deitar ao chão espada e broquel
no amor à vida desonrosa e por medo da morte!
Uma coisa è certa, Procêncio: Quando a batalha
não se ganha, estás cercado e contudo lutaste,
rende-te: Sabe honrar um inimigo chus forte! 3995
Lança-li aos pés as tuas armas e pede bondade
pois guerreiro que è forte em verdade sabe usar.
Não as lances porém ao chão escondudo de amigos
mentre ainda for incerto o percurso do prélio;
mas enquanto houver um bem a ganhar no combate, 4000


200




pero que pouco, luta ainda e morrendo venceste. –
Esto et al e mais debatiam detalhes de flechas
e tiro justu e gesto correto pela Dalmácia.
Logo entanto lombardos engrossarom as tropas,
homens irascíveis, mancebos de humor variado. 4005
Povo errante em desafeto aberto dos povos,
guerra constante os governantes seus agitavam
contra os gépidas, érulos, francos e contra Bizâncio.
Mãos violentas incendiavam os corpos e aldeias
mas o Imperador, no afã da conquista de Itália 4010
como sedento de amigos, retecera cons bárbaros
nova causam, forjando-se a dubiosa aliança,
dote desastroso e dor hedionda na história.
Inda assim, ao amori de sangue esperdiçado
o povo rude mesclava afeto ao nome de Narses. 4015
Lá marchavam pois impávidos juntos do Império
os povos, carregando consigo em sede diversa
pela via incerta os homens, as armas e as aves,
o sangue despertando à menti temor e apetite.
Já se aproximavam quase as paisagens del Ístria 4020
quando João general recebeu missiva da corte.
Era decerto l’ordem de retornar a Bizâncio,
voz punitiva do trono. Mas o astuto enganou-se:
“Tomamos ora nota, João, do tou gesto impensado.
Segue, destrói Totila e trataremos do resto.” 4025


Totila






E





δ’

Mas qual non foi surpresa a Deus milagroso
pois que demandando as portas do Vêneto
um forte francoro interrompeu-lis o rumo,
donde Segisberto marchava de encontro:
– Em nome da vossa bõa guerra, aliados, 4030
ide embora daquesta terra e salvai-vos!
Ousaves, Narses, ultrajar este solo e
sujeitar a Itália à mercê de lombardos?
Muito me entristece a que ponto chegaste! –
Narses, porém, surpreso da audácia, retruca: 4035
– Pois me espanta, Segisberto, que os francos,
a quem o Dono dos povos chamava aliados,
num gesto menor se apoderassem de terras
propriedade de Roma e das leis de Bizâncio!
Como não lis bastasse a reis sem nobreza 4040


202




usar ovantes a partem que o Dom concedera,
vierom farejando o que nunca lis coube!
Ora, a que ponto em desdenhosa indústria
os cobiçantes reis se arrogueirem, declara
mais da palavra a triste cena que assisto. 4045
Ignoro em cujo desígnio um povo franco
migrou, desabonado, das Gálias ao Vêneto
mas desejo avisar em que terra te encontras:
Propriedade de Roma e das leis de Bizâncio! –
O comandante do forte contudo interpõe: 4050
– A profusão de imoderadas palavras
menos me ofende que apenas entristece,
vindo que vêm do de quem melhor se atendia.
L’home que vê primeiro e que julga depois
jamais desabusou deste modo a meu povo. 4055
A terra do Vêneto, Narses, foi concessa
de fato pelos godos à nossa tutela.
Propriedade de Roma, Roma a cedera
a Teodorico e los sucessores do godo.
Foi Totila, o consolador de oprimidos, 4060


203




que cá nos deu lo patamar em que estamos:
Pois a nós, aliados de Roma e dos godos,
compete defender de impostores a Itália
tão relegada à barbaridade das armas:
Tão exposta que nem hesitas de intro- 4065
duzir aqui, audaz, um rol de lombardos
et homens vis que recrutaste em cadeias,
comprando com prata l’afeição de ladrões! –
João de Vitaliano ergueu sua espada em
protesto contudo Narses tranquilo provoca: 4070
– Ladrão, meu caro, è povo que invade país
alheio sem convite nem permissão adequada.
È tudo pretexto: Teodebaldo, o teu rei,
uniu-se a Valdrada lá do trono lombardo!
A diferença que sei de lombardos e francos, 4075
Segisberto, è esta: O lombardo se agrega
à causa do Império quando nós conclamamos.
Quando adentram país alheio, forom chamados
não por falsário, mas pelo Dono dos povos
cuja vontade questionas e desobedeces. 4080


204




Pois aí se vê lealdade o que seja,
pois aí se vê sacrifício de vida.
Eu, contudo, vejo bem desses francos
como prometem primeiro e decidem depois.
Foi deste modo que o mundo testemunhou 4085
la profusão de tantas juras traídas.
Chamados para provar o valor da hombridade,
não viestes, ficastes, calastes, fugistes:
Vivestes somente deliberando malícia!
E no entanto mi cumpre revelar a verdade 4090
desta terra e doutras que tanto usarpades:
Propriedade de Roma e das leis de Bizâncio! –
Mas Segisberto crava o seu ero na terra
enquanto em torno os impropérios irrompem
pelas tropas na troca de olhares irados, 4095
e realçando a voz em flama interrompe:
– Não se assente em meu domínio mentira:
Estuda nossa história e verás o que somos!
O povo dos francos è federado do Império
porquanto o trono do Imperador a que serves 4100


205




reconheceu. Governamos de fato e gualdamos
num território concesso e nunca roubado.
E digo mais: Adotamo-la fé de Bizâncio,
aí se vê lealdade, enquanto te abraças
a hereges, um povo desordeiro e sem rumo 4105
e transmissor de desgraça por donde se apossa.
Não se assente em meu domínio lombardos! –
Mas Narses não se impressionando comanda:
– Abre alas, Segisberto, a meus homens:
lombardos, érulos, gregos, persas, Romanos 4110
que os francos em vergonhosa mente traírom.
Abre alas ca os homens todos que adentram
adentram contra godos e não contra francos.
As ordens vêm do Imperador, obedeçam! –
E como Segisberto negasse a passagem, 4115
Narses ouvia calado a resposta do franco:
– É direito meu decidir os que adentram
a parte que o rei mi confiou de defesa.
E para que não repitas de modo indevudo
ofensas contra um povo correto, amigo 4120


206




não de impostores mas de Deus e da paz,
discutiremos aquesta causam que invocas
não com tipos da tua estirpe e soldados.
Ainda hoje a delegação dos legados
ere enviada a caminho de Constantinopla 4125
para tratar, com a quem compete em pessoa,
propriedade de Roma e domínio francor! –
E não mentiu, porquanto os altos legados
leixavam a fortaleza remota, seguindo
viagem planejada em visita de estado. 4130
E que fazer? Entrar por força das armas?
Era demais arriscado atacar uma gente
de jure aliada, expor o grosso das forças
à guerra contra dous inimigos unidos,
quando em verdade estava incerto o caso 4135
contra um único apenas. Francos e godos
unidos contro Imperador? Desastroso!
E Narses calado e consternado nas portas
do Vêneto consultava em vão conselheiros.


ε’

Apareceu um mendigo buscando Segisberto, 4140
todo pálido, coberto com pele de carneiro.
Dentro do forte foi que reconhecerom:
Era Rigo, o escudeiro do rei
gemendo, rogando
ver Teodebaldo, o rei francoro. 4145
Mas ali se encontrava em caravana de acaso
uma taciturna mulher,
e Rodelinda bem percebeu lo traço gótico,
dizendo a Rigo: – Queres o quê de meu brodo?
Está de cama, está doente! – 4150
Rigo duvida: – Doente o jovem rei,
o filho de Teodeberto doente? Mas como? –
Antes de mais a princesa interrompe:
– Ah, eu sei quem te mandou!
Totila não me engana apesar do tempo e da guerra. 4155
Quem o viu durante a paz o que as horas fizeirem
quase desacredita, e tudo se perde. –
Rigo não permite a tristeza: – Não se perde!
Ele ora por vós como amigos.
Ele sofre ao ver 4160


208




como son vãs as palavras que prometemos por aí.
Mas o coração è tringo, o tempo non fere!
Só Totila sabe o que teria a dizer
à mulher que sempre amou.
Ao rei porém digamos 4165
a verdade: Totila ainda espera, meu Deus,
um gesto à altura deste povo.
Não o gesto de tou pai, que chegou invadindo
nossos castelos. Mas Totila auleia
porque o passado è maior. 4170
Aqueles laços que unirom dous povos,
francos e godos, foi tudo em vão, foi tudo mentira?
Totila sò quer sinceridade, sò isso! –
Ela sentau-se perante a janela
donde mirava, tristonha e sonhadora, o curso dum rio: 4175
– Rigo, responde:
Totila quer o quê? – Rigo responde: – Vitória,
vida, a salvação dum povo
que o mundo inteiro persegue sem motivo.
Totila quer o quê? Um mundo melhor! 4180


209




Longe dum peso repressor querendo o passado,
ele pesa à mente o porvir duma Itália liberta.
Nosso povo veio dum estau sem escravos,
sem pobres, sem gente caída pela estrada.
Roma è assim que deve ser! 4185
Nós abrimo-los braços sem medo,
nós dividimos do próprio pão.
Como è justo, gente, o reino dos godos,
como defende o fraco da truculência do forte!
Como salva da morte o faminto, o moribundo 4190
nesta terra farta e provedora de muitos.
Ah, que feliz o reino cujo rei nunca pôs
a mão no trabalho e no pão de ninguém!
Ide pela estrada querendo verdade do povo
pois dirão quem foi Totila e quem é. 4195
Totila? Totila não, Teodorico,
porque Totila só imita.
Vamos viver juntos, amigos, vamos! Vamos
construir esse mundo novu, livre, bonito
onde toda palavra, toda amizade è verdadeira! 4200


210




Não vamos partir cada qual no seu rumo não:
Nós os godos não temos muita gente
e quanto a vós, a vossa paz não vai durar muito.
Não pensem os francos que essa terra
serà lor, onde estão porque Totila quis. 4205
Não pensem que um home como Justianiano
vai querer alguma coisa cons francos
quando formos destruídos! – Rodelinda
apenas interpõe: – Mas Rigo, Rigo, Rigo,
por que tudo isto, esta desgraça, esta guerra, 4210
donde saiu isso? Meu coração não se esqueceu
de Totila, mas Totila era tão diferente.
Como foi isto, Rigo? Eram tão friãos
o rei dos godos, o Imperador, os povos!
Eu vou pensando e vendo que o mundo não cabe 4215
na minha cabeça, eu não entendo este mundo.
Nesses anos de tanta confusão e de dor,
em vão me perguntei e pergunto ao céu
mas non vejo nesta guerra o partido de Deus. –
Mas Rigo, os olhos avermelhados, contesta: 4220


211




– Ah, Rodelinda, o partido de Deus
está num povo caído, abusado e ferido.
Num povo que vivia em paz numa terra distante
quando um falso amigo disse: Vai pra Itália,
vai, vai que a terra è tua, toma què tua! 4225
A nossa gente implorou: Senhor, não faça isso,
a nossa gente è simples, não caçoe da gente!
Insistirom: Pode ir, pode ir! E vierom,
ah, com tudo o que tinham, vida, amor, esperança
maior do que o mundo. Agora è isso, 4230
agora è assim, agora tem que sair todo mundo
feito cachorro com rabo entre as pernas.
Agora è fugir ou morrer, mas não, lutaremos,
não temos escolha, nós que plantamos, cuidamos,
lubamos esta terra como nunca se amou, 4235
nós que morremos perguntando a Gus:
Por quê? Fizemos o quê para merecer isto?
Mas quanto mais el erto se desespera
mais sabemos que Deus è compaixão de pequenos,
Deus è partido, meus friãos, duma grei sem amigos! – 4240


212




Rigo falou. Do silêncio que tudo preënchia
ela ergueu lo rosto, limpando a lágrima lenta:
– Cala a boca, Rigo, porque não sabes de nada, nada,
cala a boca e non sês ingrato, cala a boca
e me escuta, infeliz: Ouvi que uma certa mulher, 4245
sabendo que Narses se aproximava da Itália,
pediu a Segisberto, implorou:
Non deixes, impede a passagem de Narses.
Ouvi que uma certa mulher,
sabendo que o seu frião estava em perigo, 4250
abandonou lo próprio irmão doente na cama
para pedir: Segisberto, impede a passagem!
Isto ouvi, e ouvi que nada mais se pode toer
contra quem nunca fez nada contra nosso povo.
Meu pai jurou lealdade a Justiniano: 4255
Não posso, Rigo, erguer a espada contra
meu fadro! –
Uma flecha forte entrou, devastando
a mente, el erto, as entranhas do mensageiro dos godos:
– Wê, Rodelinda, quão sinceras palavras e tristes 4260


213




à gente que depus a teus pés.
Ergo do chão a sós as migalhas dum povo
generoso, sem crime e sem paz!
Deus assim escolheut e destino desdisse dos godos. –
Mas Rodelinda, erguendo o rosto ardente, murmura: 4265
– Rigo! Rigo! Fala a teu amigo:
Sai, meu amigo, sai desta terra ingrata!
Rigo! Conheço uma certa mulher
que saberá de abrigo a teu rei
werreiro e generoso! 4270
Abandone a guerra e tenha dó dos amigos!
Diz que uma certa mulher li implora,
um vivo cadáver: Foge, salva a tua vida!
Salva, porque se morreres
tua morte matará também quem te amou! – 4275
Ela afogou-se em soluços, perdendo
lenta e desesperadamente a voz e os sentidos.
Segisberto, calado, olhava Rigo
e balançava a cabeça.
Mentre Rodelinda era carregada às pressas, 4280


214




Rigo abordou Segisberto: – Por dó desta mulher,
obedece, impede Narses, impede! –
Olharom-se longamente. Rigo:
– Vem chegando a primavera e cultores
precisam de paz. Se Narses trouxere a guerra 4285
nada se planta nem colhe.
Franco que és, Segisberto, que fomos friãos outrora
mais que agora os nossos povos, por favor,
resiste ata lo estio e ganhamo-la guerram:
È sò isto que te pede meu povo e meu rei. 4290
Totila è bom, Segisberto! – Segisberto anuiu
auxílio. E Rigo partiut
orando alto, rogando a Deus piedade dum povo.


ζ’

Mas pelas folhas dalgum jardim
ouviu-se a voz duma certa mulher: 4295
– Eo ando pelas trilhas e quanto
mais o meu passo as marca mais
mi dou conta da vida e triste sina
e vejo e sei que nunca mais eo verei
quem amo e mais que ninguém amei. 4300


215




E no entanto quanto mais eu ando
a derramar de meus ogos verdade
e fôlego mais me perco e mais
mi dói lo peso de ser e esconder
de todos homens o que me sinto 4305
e sejo: Ca dês que vejo este mundo
vejo que o mundo me fez mulher
e nem se viu jamais neste mundo
o mundo ouvir ou sentir a dor
dum ser que chamarom mulher; 4310
que sendo já maior do que mundo
o mundo menospreza e toda parte
ofende, qual se fosse menor
e pior do que o mundo el erto
redentor e sereno e que sofre. 4315
Por quê, se meu coração è maior
e mais verdadeiro que a vida
que Deus mi deu este mundo
me ofende e despreza meu ser?
A minha vida è barganha somente 4320


216




nas mãos do império dos homens,
que nem na vida e na morte
saberão lo que cabe e carrego
num coração maior do que a vida
e da morte, ai, meu fôlego, ai, 4325
morrer, se esses homens soubessem
o que è de fato uma guerra
e como luta contro mundo
e contra si uma vida sem erro
mas que sendo vida e mulher 4330
non tem estau em que seja livre,
livre sem que uma espada ou braço
interrompa o candor de seu passo
por entre as aves e as árvores,
inda que apenas procurando, 4335
como busco, Deus que me alenta
e sabe, talvez, de melhor morada
por u la vida è livre e verdade
pode andar sem grilhões e sem medo
cantar por entre toda-las aves 4340


217




e as árvores sem a tristeza
da morte! Mas Deus è grande
e mundo com Deus non se acaba
nem vida em Deus è pequena.
O mundo me ultraja mas vivo 4345
e vou vivendo como o guerreiro
a quem recusarom as armas
e adentrando o campo de guerra
eleva os olhos ao céu, erguendo
a spada da prece como el única 4350
arma que tem porque Deus li deu
e ninguém desarma e que peço
às avibos, aves, levade a Deus
minha prece que è prece apenas
e não espada e prece da vida 4355
sem rumo e que non sabe orar
mas ora e por quem padece!
Clotilde, mãe de meus francos,
desce um momento da excelsa
esfera que Deus te abonou além: 4360


218




Ensina à vida que só è livre
na prece a rezar, como a vida
que ao menos merece o que tem
e que sendo pouco tem que ser
o melhor que puder. Tu que outrora 4365
inspiraste a conversão de Clóvis,
inspira menores e dá-mi forças
de erguer a Deus um pranto melhor
e não de murmúrio, mas de busca,
para que firme um grande Rei 4370
estenda do firmamento a sua mão
de misericórdia ad um homem,
ai, que tanto padece e que tanto
e por tão grande tempo eo amai
sem medo e sem permissão do mundo. 4375
Gus è testemunha que não de mero
carnal desejo me movo, mas amor
de meu peito maior do que a carne
e maior do mundo me impele que peço:
Piedade, Céus, dum homem que grandes 4380


219




odeiam mas cujo coração conheço
apenas eu, que peço amor e peço
compaixão e peço a Deus o ensejo,
se ensejo aprouver, de ajudar
o meu frião maior e meu homem 4385
como a Deus meu Pai convier:
Levai, andorinhas, levai a Deus! –


η’

Mas no meio da estrada que Rigo varava
surgiu, por entre pilha de corpos esparsos,
confuso vulto depondo: – Socorre-me, godo, 4390
e diz, por amor dum caído outrora firme,
por onde encontro o paradeiro de Vilas
em Roma e rei Totila! – Mas Rigo, estendendo
a mão ao faminto que mal em pé se mantinha,
persegue: – Donde conheces a gente distinta, 4395
filho, que buscas e pedes, e que desejas? –
Mas o perambulante erguendo o seu pálido
rosto revela ao senhor uma mesta verdade:
– O mar mudou deveras, Rigo, as feições
de meu ser e muita fome perdeu minha força. – 4400


220




Rigo percebe num susto de dor e de angústia
a voz, a cor e al duma vida que falam,
testemunhando o que ali restava dum náufrago:
– Sus, Ruderico! – acede e logo se abraçam,
Rigo amparando os passos do filho de Vilas 4405
e Ruderico explicando o que o mar ensinara.
– Por qual milagre, bor, salvaste a vida? –
O jovem, porém, que já non mais se plangia,
os olhos secos e deprivados de prantos,
narrava em voz tremente de como passara. 4410
Perduda por culpa do acaso uma luta vençuda
migrara tempo incerto na noite e nas ondas,
levado de abismo em abismo por entre gigantes
crestas de mar engolindo altíssimas naves,
penoso brinquedo às maldições de Netuno. 4415
Lançado cá e lá, renegando esperanças,
pegava-se presa da morte à triste tábua
que muita vez o azar li tomava das garras.
Jurou, no tumulto das águas, doar sua vida
a Deus apenas se apenas Deus se abeirasse 4420


221




do seu naufrágio, guiando a tábua sem rumo
rumo a milagre dalgum socorro de praia.
Lavando quiçá semanas, o mar se cansara
enfim de Ruderico e lançara o seu trapo
de corpo em meio a tortuosos rochedos, 4425
donde a custo e perdendo sangue salvou-se.
Pesqueiros dividiram de peixes, passantes
largando, rara vegada, um pedaço de pano
e carne escassa. Assim andou, demandando
de campo em campo e vila em vila destino, 4430
cônscio do engenho de Deus e devudo dever
a seu pai generoso. Estava entanto deciso:
Vencer primeiro a guerra a que o povo chamara
pera não leixar este mundo de modo covarde,
depois servir a Deus, procurando caverna 4435
e retiro como os homens de Bento e de prece.
Mas Rigo, ouvindo a confissão remorduda,
remete: – Filho, teu fadro pensava co povo
que o mar te bebeu! Correu pedindo a Totila
como a Gus poderoso milagre e chorando 4440


222




de dia e de noite debateu-se de luto,
julgando a vida amena e de menos valia.
Soubesses, Ruderico, de quantos conteirem
de volta ao rei lo tamanho de tuas façanhas
e como institueires exemplo de impávidos, 4445
bravo herói que ata morrendo se afirma
e lança firme o poder da lança que apossa,
tiveras sabudo que não a sós te salveires,
menino, mas contigo o teu povo e teu pai!
Nasceu co teu resgate uma nova esperança 4450
de godos desesperados de guerra e de mares.
Sigamos pois que o galardão que te aguarda,
werreiro, curave a vida, a fome e feridas! –
Mas Ruderico ouvindo em calma interpõe:
– O mar, frião, ensinou virtude e verdade. 4455
Agora eo sei que o gesto bom que distingue
o parvo do tringo guerreiro è justeza de vida
primeiro e depois apenas ganância de prêmio.
O galardão que merece uma vida sem graça
e que vive por graça de Gus è de nulho valor. 4460


223




Sigamos sim ca quero ver meu pai jubiloso,
meu povo fagro de heróis e maiores de mim! –
Seguirom, e demandando a visão de Totila
e Vilas, novo coro de pranto e de alegre
clamor ecoau, lo pai ajoelhando-se ao jovem: 4465
– Sabia, meu filho, que o céu non permitiria
morreres quando somente começo a cumprir
dever de guerra e de amor que a Deus ofertei. –
Totila tomando ao lado o mestre de lanças
explica, emitindo-li a sós: – Herói educaste! 4470
Fizeste dum ímpio, Vilas, exímio de godos.
Non fora pela mão que amputou do teu braço
fizera eo já de teu filho cabeça de tropas. –
Mas antes que Vilas reponha Rigo se avança
lançando: – Foi sinal distinto, werreiros! 4475
Ende assente está que Deus non desdisse
de godos, descendo a nós um olhar piedoso.
Honremos sempre a confiança do altíssimo:
Cumpre agirmos graça a presente sem par
e como reza a quem colhe o dever de doar! 4480


224




Governa, froia, rendendo ao mundo de volta
os bens que Deus distribuiu sobre nós. –
Ação de louvor, o rei mandou que levassem
rumo a Roma abundância de grãos e de gado,
dispondo: – Dai, gadrãos, a quem merece 4485
melhor e mais que nós e padece pior! –
Gozando viço novu, cansados se erguerom
e dando por terra desespero e tristeza
correrom além, fortificando defesas
e preparando-se para a sorte das armas: 4490
Assim convém, sabiam, à lida bravor!
Em pouco tempo abastecerom-se os fortes
e novas linhas de guerra formarom-se norte.
Totila mandara um revolto cabeça de tropas
e Teia, assim chamado, seguiu apressado, 4495
temudo a meio mundo e varão violento
no rumo francoro! Ora Narses, quebrando
talvez o valor de Segisberto avançando
além, seria surpreso nos braços de Teia
e multitude tremenda. Tal ouvindo irascível 4500


225




partiu, armando por toda a terra emboscada.
Mas Rigo, acompanhado de Vilas e muitos,
insiste: – Importa, rei, além de guerreiros
a causa verdadeira que è causa de amigos. –
Totila entonce ruminando por noites extensas 4505
reúne os seus e profere: – Antes que Narses
intente, a mando de iníquos, werra covarde
e mentira contra um povo de cor valeroso,
forjai nos jovens, homens, espíritu amigo!
Bandai nas mesmas cortes romanos e godos, 4510
que godos desde cedo conheçam cultura
de Roma e Roma saiba os valores de godos.
Selai serena mente entre povos distintos
e duas gentes que a Gus reunidas aprouve
nesta Itália mãe de heróis e de eleitos! – 4515
Irom-se pois colhendo, em todas províncias,
a fresca infância de centenárias famílias
por casas de senatoriais e patrícios.
Unido enfim o rol de trezentas crianças,
fundarom escola expondo o modo dos godos. 4520


226




Apenas Vilas, l’home sem mão, avisava:
– Cuida de Teia, Totila, e sê cauteloso!
A mão agastada desdenha de leis e caídos. –
Mas qual escolha restava em tal gravidade,
sina incerta e cópia de hostis a caminho? 4525
Ainda doía nel imo dos homens derrota
em alto mar, incubadora de angústias.
Ora que Deus impedira a tomada de Ancona
impondo às armas o abandono do cerco,
Ravena respirando altiva e tranquila, 4530
cumpria a todo custo a desgraça de Narses!
Ad isto assentiam todos. Mas era forçoso,
Vilas inclui, tomar a todo custo Ravena
e Valeriano e banir que avançasse o reforço.
E desde o momento confabulavam assaltos. 4535
Mas quem non via perito o perigo da empresa?
Num gesto veloz e repentino Totila cavalga
a Roma, e querendo na quiëtude volúvel
Leôncio, dita-li novam carta a Bizâncio
que em bom latim a Justiniano traduza: 4540


227




“Dono das gentes, inglória guerra desune
irmãos que Deus destina iguais ao eterno
banquete, na Itália, na terra como no céu,
e quanto mais a guerra se afasta de alturas,
a vida mais ensina que a causa dos homens 4545
em Cristo è paz conciliando amarguras.
Rogando pois aos céus um juízo correto
Totila ansia, renunciando de glórias
e vahidade e vitórias, o fim dum conflito
que Deus desabonou e confunde juízes. 4550
Pródigo filho, depõe aos pés de seu Dono
oferta que apenas a vida iníqua recusa:
O norte da Itália conquistado por francos,
restando em flor do antigo reino godor
somente Sicília, Dalmácia somente, governa 4555
as terras essas como o bem entenderes!
Os godos, retendo a destituta desgraça
e relevando do abismo a ruína que resta,
serão teus filhos dando ao trono o tributo
que o Dono quiser em ouro e prata e labor. 4560


228




Aponta pois a terra onde a guerra te chama
e lá te segue uma gente aliada nel erto,
lutando e morrendo pelo amor de teu nome.”
Porém, o Imperador, recebendo legados
rasgava missivas, mandava embora calados, 4565
Totila ouvindo o caso, em vão insistindo.


θ’

Quando se ouviu porém na tropa a nova de Teia,
ora forte em Verona obstando estrada e cavando
fundo fosso ao longo do Pó, eversa a passagem
rumo a todo o resto da Itália, Narses vacila. 4570
Ora, mesmo em Segisberto abrindo o caminho
nada mais servia o favor, e soldados à espera
viam aflitos consternação calando constantes.
Mas João de Vitaliano alarmado se avança:
– De Segisberto, Narses, não se espera socorro! 4575
Que fazer então? Sentados à margem das ondas
somos presa do tempo e tempo foge e nos urge,
pois de Valeriano quase se exaurem recursos. –
Isto ouvindo, Narses conduz: – João conselheiro,
sei tampouco a solução deste caso assombroso e 4580


229




passo as noites em vão concatenando conatos.
Fala aos teus! Pergunta a conterrâneos da Itália
como agir e que via andar lis ocorre na mente. –
Esto acertando e pronto demandados nativos,
rompe da multidão atônita Paulo, escudeiro 4585
rumo a João: – O povo de pescadores da costa
povo de amigos e costa desabitada de godos. –
Narses, porém, que ruminava a marcha morosa
diz apenas: – Já perdeste, Paulo, a prudência?
Como impor a milhares ingrato passo por tratos 4590
onde rios e lagunas tributo ao mar desembocam?
Home contorna dificilmente estuários e deltas
nem ajuda o palude pés de guerreiros em pressa.
Passam em tais empresas primaveras inteiras! –
Paulo, filho daquele trato e perito de escolhos, 4595
vendo unidas naus de João redentoras de Ancona,
nembra: – Com naves se vence a vahidade das águas! –
Narses mais desenganado: – Com naves se vence
quando bastam naus, pero Paulo, a tropa ultrapassa
já de muito l’armada escassa, e cônscios do avanço 4600


230




fácil seria aos godos desbaratar desembarques. –
Mas a voz do escudeiro consiste: – Não de galeras,
Narses, carece a travessia dos rios delicados,
tão somente carece de pontes. – João dubitoso:
– Quem constrói porém, e como, cópia de pontes 4605
quando escasseia lenho, pedra e tempo e diversos
braços d’água requerem a cada passo um milagre? –
Paulo compõe: – E que quereis de pedras e lenho?
Bastam barcos apenas e já teremos as pontes.
Ora, explico-me: Tiras enfileiradas de barcas 4610
erem a strada que os pés de guerreiros passavem,
calmos, a cada qual seu tempo, margens ad outras.
Imos pelas praias de marcha e seguimos de perto
lenhos flutuantes, que andemos sobre as águas
quando os rios interpuserem termo e lagunas. – 4615
Pois no meio da noite alevantarom-se as tropas!
Rumo à costa marchava lento o passo nascosto,
buscando a si pequenos barcos que desde Salones
vinham consortes e recrutando ainda em reforços,
u preciso, aventureiras naus de pesqueiros. 4620


231




Como Paulo aconselhara, assim praticarom:
Qual non foi beleza enfim à vida do ingênuo
ver de longe cruzar as caudalosas correntes
fila de amigos, equilibrando a toscas madeiras
corpos e os pés na inusitada baila das ondas. 4625
Quando porém Procêncio depondo os arcos olhava
a sós o poente endourecendo a cor da laguna,
Narses, sentando-se ao lado: – Respeita, menino,
tanto mar! O valente menosprezando insídias
fora presa fácil das intempéries de vagas. 4630
Ora quïetas contudo nunca certas, ondinas
basta um sopro, chuva e logo avançam tragando
barca e vida. Ama se apraz a beleza oscilante,
não porém osciles, meu filho! – Assim apontava
longe a luz que naufragava rubra no incerto. 4635
Mesmo o pai, contudo, cruzando um braço do Pó
no meio do nada, andando pelas barcas, saltando,
alça os olhos ao céu clamando: – Casório feliz,
Procêncio, foi casório de rios e mares e noivos
como estes que a mão de Deus uniu para sempre. 4640


232




Vê! No medês instante se funde o fluxo diverso
salso e doce: Estamos no rio out estamos no mar?
Estamos em toda parte e porque vivemos estamos,
pois as ondas, porquanto revelem onde passamos,
calam ainda o que somos e somos em toda parte 4645
como agora, pequenos e salteando por barcas
sem sabendo se estamos e como no rio ou no mar. –
Procêncio vislumbrando ainda mar no horizonte
volta a si: – Entendo bem que o mundo decide
muita vez por nós na terra como nas ondas 4650
u estamos, por onde andamos e como passamos;
não contudo, nem na terra e no mar, o que somos:
Sou guerreiro! Sou guerreiro da guerra que è bõa
como a verdade que em toda parte está lo que é.
Prossigo sim, meu pai, levando migo a flecha 4655
d’arco forte! Caço em campo o peito de inglórios
pelo amor de teu nome e do nome dos meus e de Roma!
Narses, terás orgulho de mim! – O pai arremata:
– Sabe pois, Procêncio, que orgulho tive de vendo
amor de como honreires a tua mãe no infortúnio. 4660


233




Honra agora Roma também que padece e que sangra,
mãe de nossas mães! – Seguiam assim travessias
quando uma carta arrebatou los olhos do eunuco:
“Narses! Soldados outrora abondonando bandeira
vêm pedir-te perdão, e aumentaremo-lo império 4665
já de poderosas cohortes se apenas mandares!”
Isto lendo, Narses manda que venham sem medo,
conquanto promete: Receberão enfim pagamento
todos que outrora lutaram, a quem Bizâncio devia
muita prata, porquanto a prata agora chegara! 4670
Como um raio a notícia varou excitando guerreiros.
Nova carta porém, e peior, arribava de Roma:
“Narses! Por piedade do pó que resta de outrora
deixa em paz a cidade de Roma! Gera essa guerra
longe dos párias que um generoso rei protegeu! 4675
Caídos, pouco importa a quem se abriga em ruínas
rei de perto ou de longe imperadores; caídos,
sim, Totila ergueu do chão meninos e estátuas
priscas e não derrubes, Narses, mais uma vez
depois de tantas o reergudo escombro das vidas.” 4680


234




Narses releu por diversas vezes o apelo mendigo,
carta anônima, já que lo autor temeu represália.
Quem duvidava, de fato, da intervenção de Pelágio
como a voz esconduda sob a sombra de escombros?
Quem non via naquela missiva a mão de Leôncio, 4685
Rusticiana e senadores e irmãos na aflição?
O eunuco, porém, aproximou-se inquedo dum poço
para beber, e deliberava o destino das almas
quando uma velha atordoada abordou-o de longe:
– Beba não, senhor, que desse poço se morre, 4690
só eo sei, e como, que desse poço se morre:
Eu, se me nembro, produzia vaso de argila
bem bonito e meu filho, o viajeiro de vila,
ia vendeno. Chegou, coitado já de meu filho,
bebeu do poço e morreu, coitado já de meu filho, 4695
filho meu sem rancor e sem maldade no mundo.
Foi depois que dissero da má verdade do poço:
Dissero que Belisário jogou carniça no poço,
foi, que aquele forte ali pracima do monte,
forte de godo usava dele e bebeno vivia. 4700


235




Quando depois o godo soube disso, rendeu-se
pois sem água l’home non tem sustento na vida.
Mas coitado chegava com sede depois e bebia
sem saber desse poço e do poço coitado morria.
Ai, senhor, è vida não essa vida que è nossa. 4705
Eu que sei o que é porque que o mundo se acaba,
pois escute: Novo deus que trouxero de longe
gosta da gente não. Deus que gosta da gente,
deus que sempre amou foi deus Apolo e Netuno.
Quando a gente punha fé nesse Apolo e Netuno 4710
coisa ruim assim que nem de agora non tinha.
Esse deus de longe è deus que desdisse da gente!
Mas atrás daquele monte encontrei uma gruta
bem bonita, e vou botano uma flor e pedindo
junto àquela estátua de Jano por dó de Romano, 4715
gente nossa que è maltratada e coitada demais.
Era tão jeitoso o meu vaso que a gente comprava.
Leve consigo um desses aqui, e leve de graça,
leve, que é pesado comigo de andar pelo mundo
e sei que já ninguém passano aqui nesse poço 4720


236




tem dinheiro, mas leve mesmo assim que precisa.
Leve, que noutro poço a boca bebe e guarda
mais o resto d’água de muita estrada no vaso.
Custava caro quando tinha dinheiro no mundo! –
E lá depondo aos pés do general um ânfora 4725
foi-se embora errando e titubeante nos passos.
Era petrecho benfeito e de mui custoso labor
que lá deixara, rara e formosíssima prenda.
Mas a João que se aproximava Narses ordena:
Issem comprar daquela velha as ânforas todas, 4730
pagando muito ouro para que não carecesse
a bõa vida que a sua vida salvara sem preço.
Ora, tapando o poço da morte, seguirom viagem
inda e sempre e burlando as emboscadas de Teia.
Foi na aurora que as almas vislumbrarom de ameias 4735
cores patenteando de longe a bandeira de Roma.
Vinham já de encontro Valeriano e famintos
pelas ruas saudando como a César o eunuco.
Narses cavalgando calmo e seguido de amigos
via à beira da estrada centenas de ajoelhados. 4740


237




Clamavam como o pai da liberdade o seu nome
quando lançavam aos paralelepípedos flores.
O pranto mesclou-se à comovida salva de palmas
testemunhando a redenção que chegava a Ravena.


ι’

Da porta oposta contudo adentra Ravena 4745
o repto a Valeriano, a missiva dos godos
contendo: “Covarde! Toma um quê de corage
e sai do vergonhoso covil que te esconde
e por onde vacilas vendendo a vida al ócio.
Honra os combatentes teus e petrechos 4750
ao menos uma vez e meçamo-la força
de nossas armas como compete à virtude!
Se ainda te contas àquele rol de valentes
que desdenhando a vida em revés combatem
sem mora, vem, maldito, lutemos agora 4755
a luta que a sorte impôs aos nossos povos!
Lutemos no extremo a derradeira batalha
como impávido prélio de tudo ou de nada!
Nenhum dos godos consente maior espera
nem te convém la fuga barata que encenas, 4760


238




armado porém temendo e pedindo socorro.
Será de ratos a grei guerreira que imperas?
Não envergonhes mais as próprias tropas
leixando imaginar que lis falta o valor
ou pior: que sendo suins ès tu que duvidas 4765
de braços em tudo fortiores que o teu!
Mostra-te pois em campo aberto, comprova
a Roma a valência das tropas. Ora, se Narses
vier, chegave decerto amanhana e depois:
Tu crês que atenderemos a sina de Narses 4770
quando a fome dum povo implora governo?
Se tens, Valeriano, um quinhão de devuda
decência, ouve o nosso brado de guerra,
porquanto em decidida mente injungimos:
Vem! Traz contigo as armas e os homens 4775
todos que houver, porquanto lutam a luta
final e para nunca mais!” Provocarom.
Mas caiu la carta nos dedos do eunuco
que inopinado mandou legado a Totila.
Os godos maquinavam naquela astúcia 4780


239




recursu arriscado: Antes de Narses Ravena
e Valeriano e los restos fossem rendudos!
Quando se houverom acumulado de longe
rumores que Narses demandara a cidade
em tremenda cohorte e quantidades dignas 4785
do Império Romano, tumulto e pavor abalaro
o moral de pequenos e grandes. Refletiam:
Nem com quase toda la Itália nas mãos
ganharo a batalha contra o mar e João.
Agora que Narses trazia uma grege sedenta 4790
de morte e mais numerosa, como ganhar?
Totila, reunindo o conselho dos grandes,
buscava às pressas discernimento correto
quando de Roma não missiva arribout
e sim Leôncio que prorrompia agitado: 4795
– Ouvimos, rei de Roma, a nova do eunuco
e derribamos ao chão uma indébita espês.
Terás desdito dum antro de condenados?
Queres trazer, Totila, o teatro de guerra
adentro Roma e muro adentro as ruínas? 4800


240




As obras da vida e reërguidas estátuas
ora cairão de novo no estrondo dos atos?
Avisa, rei, somente avisa e nos eimos
embora pelo mundo sem paz e sem rumo!
Mas ah, Totila, cabem tantas histórias 4805
em Roma e tantas vidas! Não reëntregues
à guerra os alicerces que mal se rëeguem
do cerco, incêndio e derribada de pedras.
Mas que faremos e como, aonde iremos
e quando chega Narses e quando morremos 4810
desgraçados de Roma? – Totila prorrompe:
– Não me ofendas, por caridade, Leôncio!
O povo de Roma conhece o meu coração
que nunca neste mundo negou-se a caídos.
O cerco foi num tempo e num caso diverso 4815
como um caso diverso a tristeza do incêndio.
Percebo bem que nutro em vão esperança
ca nunca perdoarom de mim um momento,
um gesto infeliz que tantas vezes chorei
e, como vejo, em vão intentei reparar. 4820


241




Percebo tarde, Leôncio, das tuas palavras
o medo e pouco apreço que Roma mi warda,
percebo triste e contudo alegre te peço:
Retorna em paz, frião, que a mão violenta
que porventura abata os menores de Roma 4825
jamais no mundo, jamais será de Totila.
Paguei demais o preço amargo dum erro
e decerto degustei da lição do remorso.
Mas seja sim se assim requer o destino:
L’home virtuoso jamais se equivoca 4830
e Totila, tendo errado apenas um die,
errou demais, errou para a vida inteira:
Todo acerto do resto è resto somente.
A guerra nova porém, e se a nova vier,
será distante, meu amigo, de Roma: 4835
Ere num campo mais conforme à desgraça
que atende o nosso povo sincero ou Narses
ou todos ambos. Conforta Roma, entretanto,
e quem souber orar que interceda por nós! –
Assim falando Totila pôs o exército godo 4840


242




em marcha rumo a Ravena destino de guerra.
Mas pouco andout em campo e veio de encontro
cultor de terra depondo aos pés do monarca
verdura e pranto, armado de muitas rugas:
– Bonito è ver a florescência dum prado, 4845
Totila, quando se deixa em paz a semente.
Bonito era o tempo de Teodorico, que o rei
mi deu de terra e vim plantano e vivendo.
Chegava a colheita, eo vinha a pé entregar
com gosto a verdejância do mundo ao rei. 4850
Mas passa a guerra e guerra vai pisano
no grão e mata quem nem consegue brotar.
Pois, senhor, se non brota, morre a semente
que quer nascer e morre o que espera brotar.
Destino è assim: Parece que vem a colheita 4855
coa folha verde saindo, e passa uma tropa
e pisa e guerreia e vem morrer no meu campo.
A mão condenada quer colher e non pode,
passa a primavera enterrano esse mundo
que meu arado plantou e que a guerra abortou. 4860


243




Passava gente sem rumo na estrada e parava
et eu parano dizia: “Filho, sai dessa vida
que esse rumo è de nada e non passa por nada.”
E passando-li a enxada e didivino da mesa
aumentei sem medo a família, que Deus abençoe. 4865
Mas rei, o trabalho valia de quê, se na hora
do grão nascer passava a guerra e pisava?
Quando a lida è de bode o home na luta
sai correndo no meio do mundo co bode.
Mas o home que planta aonde que corre 4870
e corre como a semente que nem desabrocha?
Amor demais de Deus que me deixa viver
e só, que de grão nulhome nado consegue.
Mas olha só que milagre e que coisa bonita:
Bandei família e sustento e me vim semeano 4875
e já non sei se por certa ilusão de meu Deus
ou que coisa que for parece ogano que brota!
Será que brota, meu Deus? Passa por longe,
rei, e marcha além de meu prado arruinado.
Pensei que dessa vida eo ainda colhesse 4880


244




alguma coisa depois de tanto e sem fruto.
Contudo já me canso de vida e de angústia
que è desespero o fim de tanta esperança.
Percebo já que a guerra precisa dum campo
e de todos os campos ela gosta è do meu. 4885
Mas desse estio, Totila, a vida non passa
e ninguém de casa conseguirá suportar
um ano a mais de fome e de aborto de terra.
Toma então, meu rei, toma aí da verdura
que muita vida perdida te traz e perdoa, 4890
se podes, quem plantou e non pôde colher. –
Totila, porém, estende a destra ao cultor
e controlando a cor de sous olhos suspira,
querendo: – Como aceitar a prenda bondosa,
frião, se a mim doando te privas de vida? 4895
A tua prenda maior forom tuas palavras!
Posso morrer em paz enfim, que na Itália
ao menos um se recorda de Teodorico.
Planta mais, cultor, e levanta os caídos
da estrada a que unidos cultiveis amizade. 4900


245




Era de paz o intento outrora dos godos,
somente amor dos povos que cultivava
o benfeitor que te concedeu esta gleba.
Perdão te peço eu que viajo de guerra
e muito mais te dera se Deus permitira. 4905
Mas ouve! Meu povo inteiro marcha comigo
e vamos já de encontro ao fim desta luta,
fim qualquer que seja: O povo dos meus,
cultor, non mais suporta o destino dos teus.
Se algum apreço porém te resta de antanho, 4910
o tributo que rogo è rogares a Deus piedade. –
Assim orando, um triste rei reërgueu-se
e devolvendo a verdura partiu de seu rumo,
nenhum dos pés desbaratando as sementes.
Andou contudo pouco e missiva secreta 4915
arribava: “Ainda è tempo! Se lubas a vida
apenas cruza o Pó que estaremos unidos.”
E bem sabia o rei de que mãos delicadas
e peito generoso as palavras brotavam.
Cruzando qual dos rios porém e que ponte 4920


246




salvasse as multidões que Totila aduzia?
Wardando pois ao cor uma carta querida
o rei seguia avante no amor de seu povo.
E pouco menos andou e legados de Narses
chegavam, o qual leixara embora Ravena 4925
no rumo de Roma junto à tropa universa.
Intrépidos pois os enviados avançam:
– Estamos acampados por perto, Totila,
munidos de tudo. Queres ouvir a proposta?
Narses propõe a paz em nome do Império 4930
se apenas o povo teu abandone la Itália. –
Totila demite: – A paz è decerto benvinda
quando espelha justiça. O povo a que falas,
legado, nada roubou que te deva entregar!
Chamou-nos Zenão, o Imperador, ao domínio 4935
da Itália e cá viemos, toendo-li agrado
e fiéis amigos. Só los cadelos da estirpe
que serves quebram elor palavra de honra.
Mas não trates meu povo como sem terra
ou como ladrão ou fugitivo em delito. 4940


247




Aqui ficamos de jus! – Legados contudo:
– A condição de paz è somente que vades! –
Totila proclama: – Pois na sorte das armas
home então decida quem vai e quem fica! –
Os núncios retrucam: – Marca logo a data! 4945
Marca e cá viremos e o resto veremos! –
O rei, enfim, reconhecendo o tamanho
del ódio que produzia à boca palavras,
recua aterrado, entretanto pouco li resta
e responde pausado: – Em sete dias veremos 4950
pois de Deus o destino e duelo dos povos. –
Assim partirom levando a Narses a novam.
Totila em valentíssimo incêndio de fúria
manda logo marchar, seguindo de encontro.
Nel ato, a multidão de soldados ergueu-se 4955
e pôs aos ombros a lança, espadas e flecha,
legados correndo à cavaleria dispersa
de Teia que, congregada, viesse a combate.
Mas Rigo reconhecendo o risco iminente
e correndo ao amigo em transtornados saltos 4960


248




impõe: – A repentina marcha que imperas,
rei, surprehendendo guerreiros afraca-os:
O viço exausto è mau gestor de batalhas
e luta mal a mão que carece de tempo,
preparo d’armas como perícia de campo. 4965
Calma, Totila! Reflete melhor nosso caso
e deixa Narses chegar, que chegando Narses
ere dos seus o fardo da marcha e do pouco
tempo e preparo escasso. Aqui atendamos!
Intentas de fato destruir o teu povo? – 4970
Totila sucede: – O caso inteiro reflito:
És insano? Marcharom a pé da Dalmácia
e não los cansa a pouca estrada que resta.
O trunfo nosso, Rigo, è chegar de surpresa
e vê-los não exaustos, contudo confusos. – 4975
Assim lançou por terra, ainda uma vez,
o conselho de Rigo e Vilas porém interveio:
– Totila, o moral dos homens meus titubeia:
Cuidado requer indústria! Basta uma falha
e veremos nossos godos mais confundidos 4980


249




que aquela grei de vis. A derrota nas ondas
ainda mal se tragou e temores afogam
anseio de força. Ouve, Totila, por Deus,
esperemos a Narses! – Quanto mais a fala
ofegava mais o rei balançava a cabeça, 4985
limpando a profusão vermelha dos olhos,
repondo: – Bem conheço o temor de derrota
e para menos temer que se lute sem mora!
O desgostoso estado em que vejo meu povo,
amigo, não mi permite maior incerteza: 4990
Perda de tempo, Vilas, è perda de guerra.
Tenha fim, portanto, aflição de guerreiros!
Corramos logo, ergamos o véu do destino
sem medo e desespero de vida e de morte,
pois além da vida e da morte se avança 4995
a retidão dum povo! – E assim refletindo
os godos marcharom, temor no peito e coragem.


Totila






F





κ’

Quando Narses ouve a narração dos legados
manda prepararem os braços e toda-las armas
par’a aurora, já prevendo ataque iminente. 5000


250




Não se engana, pois o primo raio do leste
longe revelout a bandeira em marcha dos godos,
grave e retumbante o brado ecoando nos montes.
Vendo enfim moções dum formigante horizonte,
homens de guerra em sobressalto pedem palavra 5005
quando Narses, interrompendo angústias, explica
o plano, a formação da batalha. Os homens paravam
mirando quis-cada-quem amigos, sentindo nas clavas
o peso salvador da vida, esperança no extremo.
Medo porém falava altior ao cor de bastantes 5010
e Narses, reconhecendo o desassossego de tantos
como até de Procêncio, conclama os combatentes!
Tendo perante si, aflitos e ouvindo calados
grei de regulares soldados e bárbaras gentes
(eram hunos, lombardos, érulos junto a romanos 5015
em multidão sequiosa), a voz do eunuco ressoa:
– Quanto orgulho escorre destes olhos, meninos,
ao ver gregada sob a sombra de excelsa bandeira
grei de amigos, povos tão distantes de mundo
lado a lado erguendo ao ombro amor à justiça. 5020


251




Será milagre divino a concordância das gentes?
Pois humano, filhos, e muito humano o milagre
mas milagre que apenas este pendão oferece,
largo e generoso e já maior do que os séculos.
Não vos enganeis na aflição porquanto a verdade 5025
pela qual erguemo-las arma desfaz-se da prata,
d’ouro que paga e não porém sacia a virtude.
É por bem maior que lutamos! O bem que elegendo
pelo ardor defendemos è bem de Roma que herdamos.
Vede pois o que somos e quão distinta amizade 5030
colhem povos unidos no amor do Estado e del ordem,
o rol de moderados poderes e harmônicos órgãos,
o foro das instituições e das leis protetoras.
Tal tesouro os antepassados suores leixarom
não a Roma apenas, porquanto ao braço decente 5035
Roma abraça e não pergunta ao amigo da lei,
jamais, se seja grego ou persa ou donde provenha,
antes estende sobre todos um nobre estandartem,
abre as portas do Estado protegendo perdudos
homens como ao general humilde que vedes. 5040


252




Eu, meninos, nasci sem prata e fama e distante
pelos vãos de Armênia, u nimigalha è destino.
Desde cedo, porém, no amor das leis e del ordem
Narses reneguei minha vida servindo a maióribos
homens e causa maior. E desprovudo de mérito 5045
mesmo assim gozei da confiança do justo
como do Imperador que aconselhei pela vida,
eu, que vim servir apenas e agora comando.
Não, heróis, em povo alheio nenhum o pequeno
pede amando a lei refúgio e vive sem medo, 5050
Roma apenas ama lo amor renegado dos retos,
e a quem duvida rogo examinar minha vida.
Credes mesmo que essa nova estirpe de godos
possa gerir sem lei correta o destino da Itália
tanto tempo acostumada à constância das leis? 5055
Vede o que foi outrora e donde veio la Itália,
vede se a tal porção do Império cabe a desordem!
Digo porção? Eo disse errado, direi genitora
deste Império Romano cuja bandeira elevamos
e cuja bandeira tanta vez elevou nossas vidas. 5060


253




Tão distante por este mundo andaumos, guerreiros,
e agora titubeais que è já patente a vitória?
Semos ora dignos da longa marcha que agimos!
Ora que Deus nos concedeu chegar à batalha
como compete ao viço que não vacila no prélio 5065
para alçar maior o nome dos Céus e do Império,
ora lutemos como cabe ao fiel combatente,
ora lutemos, filhos, a derradeira das lutas,
luta derradeira talvez das vossas vidas
como talvez a derradeira luta de Roma. 5070
Usai de vossas armas como quem se despede
já da vida e das armas, não porém da vitória.
Homes de guerra! Nõ é derrota que apaga virtude,
vício somente e covardia. Se acaso cairdes
como muitos de vós cairão que sei e que aviso, 5075
sabei cair a queda de quem entrou em batalha
para ficar e não fugir, servir sua causa,
pois caindo o bom herói è maior do que a vida,
vida sem honra e sacrifício è morte somente.
Ora vivei, guerreiros, a verdadeira das vidas, 5080


254




eia, regai de vosso sangue o grão da vitória!
Uma coisa apenas, apenas uma eo vos peço:
Ide à luta orando a Deus piedade a pequenos,
pois a força das armas e o sacrifício perito
quando Deus non quer non desabrocha vitória, 5085
mas vitória que vem è graça apenas de além.
Rogai de Deus um generoso olhar sobre nós
e a guerra venceremos como a nossa miséria!
Basta tão somente lutar coa virtude de sempre
como cabe à bandeira da bõa guerra que erguemos! – 5090
Totila, contudo, alheio às orações dum eunuco
como à causa de tal clamor, espera na angústia.
Ora, Teia e sous cavaleiros por onde passavam?
Inda chegave a tempo da luta? Mirando medrosos,
o rei dos godos manda a todo instante legados 5095
a Narses a ver se ganha tempo. Mas os soldados,
vendo lo atraso de Teia e presumindo o peior,
corriam atordoados contendo prantos et uivos
(como pois travar sem cavalos camanha batalha?)
quando a carta arribava anunciando a chegada 5100


255




em meio dia ou menos de cavaleiros sem medo.
Totila, erguendo caídos e confortando abalados,
nesse instante alçou-se pelo relevo do monte
frente às multidões que preparavam os eros
como escudos e lanças. Conclamados os homens, 5105
eles ora voltavam os olhos sedentos de alívio
rumo ao rei, que pronunciava forte a verdade:
– Povo dos godos! Aguarda o galardão da vitória,
pois vencendo Narses nòs venceremos a guerra.
Essa grei de vis que congrega e moções do inimigo 5110
são menores que o nome e nossa história revela:
Não existe no mundo o viço, a virtude do tringo
sofrer derrota verdadeira na vida ou na morte.
Pois na vida como na morte nòs fomos maiores!
Esses vis que se aglomeram a velhas bandeiras, 5115
que princípio de bem e que justiça professam?
É bonita a glória, a fortuna à custa de escravos?
Erguei melhor a cabeça ao renembrar o que somos:
Quando em tempos ancestrais nosso povo de godos
inda vivia em paz na floresta como na estepe, 5120


256




quem jamais morreu sem pão relegado à miséria,
ƕão jamais foi recusado um braço ao caído?
Pois erguemos na piedade o nosso estandartem:
Nosso povo não conhece nem rico nem pobre.
Vossas mães estão aí, perguntai que dizeiam 5125
quando na história lo godo padeceu sem amparo!
Tal virtude nos fez e tal virtude nos trouxe
co froia querido ad esta nossa Itália querida.
Cumpre lutar, meus amigos, Teodorico nos olha
triste e receoso do céu que Deus li concede. 5130
Eles, que ao peito depuserom a nossa derrota,
vivem no mero amor dum miserável passado!
Não bastando o mal que os opressores trouxerom
pelos séculos inda atentam danada campanha.
Lutam pelo bem de poucos, descaso a pequenos, 5135
nem lis importa a fome se esgueirando na estrada:
Tomam a terra dos pobres e a liberdade se esgota
frente à gana de Imperadores, amantes del ócio
como del ouro, usurpadores de todo trabalho.
Essa grei, werreiros, não se conforma conosco 5140


257




pelo bem que como amigos trouxemos à Italiae.
Vem lo escravo arrebentando grilhões e descobre
em nosso erto abrigo, pois o fraco è frião
que levantamos do chão. Vem o filho da fome,
pária que Imperadores de longe abandonarom, 5145
e damos à fome pão impondo fim à vergonha.
Vem a vida erma e sem gão e recebe de nossos
braços éu, amizade, amor de Deus e trabalho:
Pois assim nos formamos povo, assim prosperamos
juntos, crescendo e dividindo a vida em verdade. 5150
É preciso dizer a muitos homens a história
dum povo reto e que essendo reto o fréu odiou,
destino invejou. Cá portanto estamos, amigos,
frente ao futuro, ao novo ordem que cabe melhor
à tristi e destituta terra que herdaumos e amamos. 5155
Isto sabendo, suãos, lutai com toda-las armas,
homens merecedores que somos de guerso e de vida.
Lutai no amor de nossa história e de nosso futuro,
pois perdendo que nos resta em passado e futuro?
Não, werreiros, non seja este o fim duma gente 5160


258




tão generosa! Não leixemos que a mão de impostores
apague da história o nome do povo dos godos.
Já sofremos demais em desengano, injustiça
seguindo e perseguindo nossos passos serenos.
Tenha fim a dor! Ergamos altíssimo as clavas 5165
para enfrentar a derradeira luta que atende.
Inda temeis, meninos? Que temer, generosos?
Credes que os vis ali gregados lutam por honra,
homens comprados sem nenhum amore à bandeira?
Credes que algum lombardo vel outro povo distante 5170
venha dar a própria vida em frial de Bizâncio?
Quando a batalha lis impuser o peso del honra,
filhos, o sacrifício de vida e morte a comprados,
bem sabei que mercenários debandam embora!
Não porém na ganância de impreciosos metais 5175
entraumos destemudos neste campo de guerra,
mas salvando a própria vida e vida dos nossos.
Nada obstante, quanto orgulho corre dos ogos
meus ao ver a multidão que aqui se congrega
como as ondas do mar maior, sabendo com Deus 5180


259




que nunca nulho guerreiro foi preciso comprar
e lutam pelo amor apenas, jamais por moeda.
Salvam o nosso povo amigo que longe inimigos
tantos quiserom fragadar, apagando de mapas.
Nós jamais buscaumos a guerra, o guerso anelamos! 5185
Quantas, quantas vezes em meio a quantos apelos
forom feitas propostas de paz? Os melhores intentos
rem encontrarom além da indiferença do Império,
pois nõ é la paz que desejam, procurant o fim
do nosso povo, do rei ao peão: Portanto às armas! 5190
Lutemos como quem luta não por mera contenda,
pela sobrevivência do próprio povo e dos últimos
nomes que restam, e não titubëeis na batalha!
Não carece de grande arbel a certeira vitória
contras multidões de mercenários confusos. 5195
Esta nos basta, werreiros, esta vitória basta
ca nunca mais rëerguerei-la bandeira de guerra.
Rogai a Deus armel e nossas armas venceiem:
Regai de vosso amor, suor e sangue guerreiro
nossa semente e terra abençoada da Itália! – 5200


260




Pois assim falou Totila, o rei de seu povo,
e assim rejubilou-se novo o viço dos godos
pronto para a sorte das armas, o cor confiante.
Ora o monarca, montando repentino o cavalo,
passava frente aos seus em dourecente armadura, 5205
destra lançando alto lanças que a mão esquerda
calma pegava del ar em queda franca e velozes.
Homens de toda grei, impressionados miravam
quanta perícia o rei atestava. Lançava sem medo
como em desafiando inimigos, erguendo o moral 5210
de muitos combatentes. Ora, Narses, o eunuco,
certo non fora capaz da façanha. O rei cavalgava
como cavalga quem passou la vida a cavalo.
Era uma imagem sem par a luz do céu refletindo
nítido o rosto amado a refratárias distâncias: 5215
olhos claros mirando as almas em cada soldado,
pálida a tez e cabelo balançando ao vento,
barba envelheçuda, nariz e boca delgados,
mãos delicadas nem por isto alheias à clava.
Ele dançava! Firme em dirigindo o cavalo, 5220


261




dava aos olhos mil dos encantados werreiros
rara prenda, lição de vida heroica nas armis.
Como uma estrela irradiando o sol que reflete
brio da verdade, Totila cavalgava e bradava
como a trompeta final anunciando vitória. 5225


λ’

Antes que os grandes cavaleiros chegassem
àquelas regiões tortuosas del Úmbria
dava-se já contenda aos pés dum outeiro,
porquanto os ambos openentes o vendo
virom vantagem para a mira do arqueiro. 5230
Totila num sobressalto enviout em velozes
cavalos guerreiros, já porém se abrigavam
peritos escudeiros a mando de Narses
obstando estrada. Eram menos em número
mas o tamanho da audácia de fato se infere 5235
dum raro episódio: Quando houvero arribado
aos pés do monte e vislumbraront escudos,
os godos prepararo os cavalos e eloro
clavas ameaçando e mostrando o tamanho
da morte, mas como os escudeiros do Império 5240


262




não lis cedessem, cavalgarom de encontro,
a mão armada caçando o peito incautor
e a pata de violentos equestres cabeça.
Romanos então se ajoelharom às pressas:
– Já se rendem! – ouviro o coro de godos 5245
em prematura emoção, porquanto inimigos
tomando da terra o quanto vissem de pedras,
roçavam-nas contra a superfície do escudo,
criando no atrito os acutíssimos guinchos
e sons que transtornavam éguas, medrosas 5250
ora em desordenados relinches e saltos
enquanto os escudeiros nel ódio gritavam:
– Ô vagabundo, vamo medir nossas arma e
bora ver quem è mais! – Mas se avançavam
os godos titubeava o galope dos bichos 5255
ouvindo os guinhos. Inda não conformados
coa cena desgastante, os homens do froia
largando a rédea desciam trazendo espadas,
lançando-se contros detestados broquéis.
Porém os Romanos, peritos de antigo modo 5260


263




depondo cabeça e corpo atrás de escudos
e lado a lado, desbaratavant o ataque,
espada pronta à mão esquerda esperando
a brecha do imigo et al: Um gesto impensado
expunha o braço ou peito ao gume afiado. 5265
Delibarando melhor a incerteza do acaso
os combatentes mandam legado a Totila
pedindo reforço. Não porém debandarom,
antes lançavam assaltos notando melhor
a cada movimento o preparo de guerra 5270
dos escudeiros de Narses. Estava claro,
patente estava: Prosseguindo a contenda
conquanto nada perdessem nada ganhavam.
Mas com muita astúcia os lanceiros irom
aos poucos se adequando ao novo cenário: 5275
Agora evitavam contato, caçando lacunas
de gesto e falhas que vez e vez sucediam.
Ganhando tempo exasperaro openentes
e pouco a pouco o bom moral oscilava,
fortes acumulando respeito e vitórias. 5280


264




Foi então que da formação dos escudos
alevantou-se firme um home, clamando:
– Eia, godos, vejamos qual dos vossos
guerreiros luta à minha altura e lutemos! –
Assim falando, avançou perante os broquéis 5285
chamando imigos à sorte e guerra de corpo.
E com certeza sabiam que sol um perito
faria um tal desafio. Mas como os godos
contavam com muitos agastados, perdiam
a paciência primeiro, depois a contenda. 5290
Ora, o valente, quando não derrotava
armado muitas vezes tomava a lanceiros
espada e lança coas próprias mãos, lançando
ao chão perante as testemunhas atônitas,
um gesto desonroso à virtude de incautos: 5295
– Desarmo mas non mato! Verme e covarde
eo deixo viver! – E provocava aos poucos
incêndio nel imo dos cavaleiros, bradando
sem medo e desarmando as mãos de peritos.
Quando contudo a multidão ultrajada 5300


265




veio toda de encontro ao peito do herói,
os outros homens levantando os joelhos
e escudos encorajados pel alma do sangue,
gritarom guerra e, defedendo do ataque
o bom valente, ainda uma vez impedirom 5305
fortíssimo prélio. Mas o caso notório
vindo ad ouvidos de Narses, Narses indaga
os detalhes, ouvindo impressionado o relato.
Quando pois se li avança l’homem sem medo,
em qual surpresa os olhos do eunuco desvendam 5310
de tal semblante um nome estimado: Paulo
que outrora guiara as tropas pelas lagunas,
os pés enfileirados passando por barcas,
Paulo fizera-se herói maior do que fora.
Ao desarmado desarmador de armadíssimos 5315
e como animado dalgum divino elemento
Narses, o eunuco, orou: – Doravante serás
o guarda, herói, do general que te fala
e doríforo como os hipaspistas exímios! –
Assim falando, Narses tomou-se de Paulo 5320


266




como de amigo fiel no peito, retendo-o
todo instante perto de si na batalha.
Do monte contudo aproximava-se Rigo
a mando do rei, averiguando o terreno.
Mal vislumbra os escudeiros do Império 5325
contendo ataque e remata: – Bons de guerra,
aqui perdemos tempo que o caso è perdudo
e não me espanta. Conheço bem la façanha
de escudos, escudeiro que sou, e de fato
em vão roguei do rei enviasse broquéis 5330
e não cavalos. Sabia já que um escudo
se atento vale mais do que vida e cavalo
jamais derruba e nem espada a constância. –
Dito isto, guiava embora do outeiro os
desiludidos guerreiros quando romanos, 5335
ora embebudos de si, cercaro os equestres
e a marcha de godos, provocando iracúndia.
No mesmo instante alevantarom-se espadas
das ambas partes e corpo a corpo o combate
tingiu lo chão. Seguindo lo aviso de Rigo, 5340


267




porém, de guardando as armas par’a batalha
em campo aberto, os godos se contentavam
na defensiva e na retirada ligeira
ao sopé, recuando sim, fugindo jamais.
Mas Rigo, acompanhado apenas de escudos, 5345
num súbito lance foi cercado de lanças
e gumes, hostis interrompendo-li o passo.
Num gesto inusitado, interpôs o seu braço
em frente aos violentos que ali marcharom
e deu-se o prélio: Os poucos homens seus, 5350
peritos no escudo e desprovudos d’al
obstavam. Na força de suas égides largas
a ponta e desavisada espada crepava-se
contra as placas. O peso de tantos metais
condidos em arma rem impedia que Rigo 5355
erguesse como pluma apenas, levíssima
prenda que o braço alçava e rabiscava
nel ar e cá e lá, confundindo os expertos.
Vindo dous ou três em fortíssimo ataque
o braço de Rigo entanto sabia o momento 5360


268




de cada espada e rumo de gume e de punho,
a mão esquerda livre esperando vacilos.
Como girasse a toda parte e sem tempo
o metal que a vida inteira passara lidando,
impunha contro corte o peso nel ângulo 5365
certo e deturpador de intrépidos fios,
como um destino destruïdor de desígnios.
Quebrando as lanças, exasperava os incautos
e incautos no desespero e nel ódio lutavam
com menos perícia. Menosprezaro o talento 5370
da vida dedicada ao emprego correto
dum certo petrecho! Quanto mais perdiam
a ponta afiada mais se lançavam a Rigo,
irados ao ver o fio cortante do rasgo
retento na superfície firme e rugosa. 5375
Era como se o ferro gostasse dos golpes
que quanto mais apanhava mais o poliam.
Incrédulos frente às milagrosas proezas
lutarom até lis cair el última espada,
ponta quebrada ou torta, a força humilhada; 5380


269




brados insanos, Rigo entretanto calado.
Notaront enfim lo viço de quem se impôs,
e deles quis entendeu que aquele petrecho
de lidas era inquebrantável. Partirom.
Souberom apenas depois, no meio da noite, 5385
que o portador de escudos era o maior
escudeiro dos godos e protetor de Totila.
Estava completamente apagada a vitória
de poucas horas antes e escudos menores.


μ’

Mas l’aurora trouxe nova força al Império 5390
quando arqueiros forom deslocados ao monte:
Erant olhos sutis a la espera da mira certeira.
Dentre os atiradores daquela estirpe distinta
stava Procêncio, a pontaria melhor que existia:
Não existia o seu dedo equivocar-se nos arcos. 5395
Subira o monte enfim no entusiasmo da guerra,
pronto à proeza. O pai porém chamando João
ainda roga: – Anda perto e defende da perda
Procêncio, cuida bem do menino como puderes! –
João de Vitaliano tampouco hesitou, e durante 5400


270




toda a manhã manteve a vista perto do monte.
Pois houvero arribado os cavaleiros de Teia,
Totila já non carecia de espera e dispôs os
godos em posição de batalha, o exército inteiro.
Narses contudo concatenando os riscos ordena: 5405
Frente a todos e face a face perante inimigos
fosse exposto o povo lombardo, a grei violenta
cercada em toda parte por cavaleiros do Império.
Não lis fosse possível reconhecendo o perigo
mudar de ideia e desertar, repentinos na fuga. 5410
Hunos dispôs atrás de lombados. O povo contudo
dos érulos, grei fiel de palavra, houve consigo,
cônscios eles dum erro grave e gratos em tudo:
É que durante a guerra contras armas de Vítice
d’anos antes houvera de fato um certo episódio – 5415
quando se houveram dispersos pelo norte do Pó,
los érulos forom passando e saqueando cidades
pondo fogo e roubando inocentes, seguindo adiante.
Perto porém de Milão buscando chus, a nembrança
doutro mundo arribout a frear ela grei cobiçosa: 5420


271




Pois o próprio rei Fanisteu morrera na guerra
pelo Império ca sucumbira ao lado de Narses.
Mas se ata lo rei doau sua vida, atinarom,
os aliados seus mereciam melhor atitude.
Súbito pois se arrependerom cruzando embora, 5425
morte no peito, regando toda a Itália de pranto.
Eles mandarom missiva confessando o lor crime,
carta contendo dentre mais: “Concede perdão,
Senhor, ad um povo ingrato em desditoso delito
e decide, por caridade, a qual deserto do mundo 5430
iremos além, escondendo sob as mãos a vergonha,
a sina infeliz dum gesto apagador de amizades.”
Mas o Imperador, conquistado dalguma emoção
melhor e mais generosa que a brevidade da vida,
deu-lis perdão e permitiu e pediu que voltassem 5435
pronto, para lutar ao lado de Narses campanha
nova em novíssimo gesto apagador da vergonha.
Isto ouvindo, mudaro o rumo e vierom de encontro,
firme no cor o intento de reparando uma falta.
Quão diverso entretanto o peito de Justiniano 5440


272




julgara um povo rem pior do povo dos érulos;
quão diversa atitude frente aos legados godos
portando em vão desesperadas missivas e apelos!
Fato somente e mistério maior explicant o vário
modo dum peito protetor e verdugo de iguais. 5445
Mas ali se juntava aquelora o povo dos érulos
grande e grato, Narses o pai. E Narses dispondo
mais dispôs nos flancos laterais os lanceiros
junto ao mar de espadas bradejando coas vozes.
Totila enfim notando as posições de inimigos 5450
pôs o grosso das lanças na prima linha de guerra,
para atrás apenas a espada, arqueiros ao lado.
Rigo ainda assim e Vilas ouvindo as ordens
não hesitarom: – Mistura mais espadas ao campo
para que a força da lança esteja menos exausta 5455
pois vier ajuda do flanco. – Totila discorda:
Quer ativos na linha frontal lanceiros somente
e pouco atina com Vilas balançando a cabeça.
Já se avança Ruderico na frente do exército,
braço intimorato em carregando o petrecho 5460


273




junto à grupação de clavas, forte dos godos.
Ó destino incerto, será possível vencerem
ambos os lados, merecedores ambos de prêmio?
Mas fortuna è surda a preces e avançam as armas
e súbito vida contra vida em fortíssimo impacto, 5465
dous imigos mesclando morte ao rubro da aurora:
O sangue ao chão impôs ao raio nascente ocaso.
Firmes em tanto embate as armaduras colidem
contras outras, umas contras outras lutando
lança e spada. Fortuna viu la mão de lombardos 5470
longe arremessar ao chão oponentes sem viço,
godos no mesmo instante atravessando armadura
como o corpo hostil na fúria louca de lanças,
muitas vezes uma apenas quebrando a coragem.
Raro guerreiro a tropeçar ergueu-se de novo 5475
mentre os milhares de pés pisoteavam a carne.
Passo desordenado passava contra o primeiro,
braço cravante ao peito ou pelas costas espada.
Os godos peritos ora mirando longe perdudos
davam rumo forte à clava: Deitaront à terrae 5480


274




gama incautor arrancando sem dó suas arma
da carne furada, agonizante a carcaça jorrando
puro sangue. Vinha porém destemudo o lombardo
contra os pouco atentos: Segurando os cabelos,
súbito o golpe dissociava do tronco a cabeça, 5485
novu troféu ereito ao céu. Passava ao rosto
fel em ritual tenebroso quando de encontro
gótica espada ou clava terminava-li o gozo.
Doutra vegada o guerreiro, crepitados ousados,
vendo além amigo em perigo corria de auxílio, 5490
pronto dilacerada a carne atacante por duas
lanças fortemente enterradas, caindo sem alma.
Doutras almas ainda arqueiros cortaront o grito
quando a flecha no coração calava impropérios.
Ora atacando marchavam, marchavam ora em defesa: 5495
Marchavam pelo campo e pelas pilhas de corpos,
em todo andar tegumentos ofendendo a semente.
Quando enfim dos godos se aglomeraront espadas
nem esperavam mais o gume dalgum dos érulos,
nova batalha ecoava pelos metais de armaduras. 5500


275




Pois do trom atroz que trovões invejarom dilúvio
d’ondas cobriu a gleba de fluidos atros purpúreos.
Rem de mais impedia façanhas que a mão inventava
como os passos de Ruderico cercado e sem medo.
Ele, atacado, jogava a sós de ribas ciclopes, 5505
a lança deitada ainda à terra. A lança, se erguia
rumo ao peito dum certo atrevudo, a vida fugia
já do corpo amedrontada evitando arremesso.
Mas ao filho de Vilas não ferirom feridas
quando li houverom deformado o rosto ligeiras 5510
como o corpo. Rasgarom fendas que pouco notava
pois sabia: O bom guerreiro adentra o combate
para exibir na ferida o troféu de sacrifícios
pelo amor de maiores. Sangra e luta contente:
– Vinde, malditos! – repetiu lo jovem lanceiro 5515
frente a muitas levas. Impressionados lombardos
vinham à luta menos nel ódio que pelo respeito
franco e fascinante a tão impávido apelo.
Certo a morte pelas mãos dum tal corajoso
viço a desprezar sem medo a vida e sem mora, 5520


276




tal derrota lis era quase motivo de orgulho.
Não existia Ruderico enganar-se na mira
nem mirado jamais recuar evitando projéteis,
não, a palma da mão que muita lida adestrara
já se fizera quase pedra. E calmo estendia 5525
contra flecha e lança escudo aberto de carne,
calos imperfurados derrubadores de mísseis.
Muita vez, o herói tomou la espada de imigos
como clavas, partindo em dous metal e madeira
quando os batia a toda força contra o joelho. 5530
Numa coisa, entretanto, Ruderico cedia:
Quando hostis oferecendo-li a vida deitavam
armas ao chão, ajoelhados rogando clemência,
mão de honor ergueu rendudos. Issem embora
como friãos leixando atrás as arma perdudas! 5535
Não se esquecera jamais da própria vida caída
quando aos pés de Totila após o crime implorava,
Vilas e Rigo reerguendo abalada hombridade.
Mas o rei se concentrava em assuntos diversos:
Vinha camuflado por entre comuns e guiando 5540


277




como ouvindo ansioso o parecer de peritos.
Prélio sem rumo passava adiantado o farol
do dia e pouco ganho os ambos lados contavam.
Que toer? Chamando Vilas e Rigo e rogando
Totila ouviu: – Agora, amigo, cabe ao destino 5545
curso de guerra e piedade de nós pequeninos. –
Rigo mandaut a campo os escudeiros melhores
e novas espadas arribaront à foz do combate
mas l’angústia penetrava o rei que escutava:
Deus redentor terá desdito do povo dos godos? 5550


ν’

Narses não se via em melhor conjuntura,
guerreiros sacrificando em vão openentes
porquanto a linha de guerra pouco moviam.
Mas ao ver a moção dos arqueiros ordena:
Atirem contra os cavalos! E assim atacando 5555
projéteis dilacerarom a carnem de equinos
causando alarde e perturbando projetos.
Corria dele outeiro aos ouvidos do eunuco
o milagre d’arco pelas mãos dum herói:
A mira infalível derrubava os impávidos 5560


278




como animais, e presto Procêncio trocava
os alvos marcando imperturbado no tiro.
Soltas as cordas, sous dedos inopinados
puxavam a sua próxima flecha, deitando
às cordas uma atrás das outras, perito 5565
diminuindo aos poucos o exército godo.
Em tal fortuna Vilas, l’home sem destra,
andava atrás da linha ajudando caídos
e removendo as setas de peitos feridos
coa mão esquerda apenas. Veio contudo 5570
num turbilhão desordenado de marchas
a guerra, pois a linha mudara de rumo e
surprehendeu em campo o varão desarmado,
perdudo agora no vero seio do prélio.
Pois alevantando da terra a primeira 5575
lança que ali divisara, Vilas impede
como pode lo assalto do gume dos érulos.
Quando porém recua buscando os sentidos,
guerreiro hostil que vislumbrava de longe
obstou num sobressalto o passo do velho: 5580


279




– De mim non fujas, godo, a fuga covarde! –
João de Vitaliano indali se expusera,
alçando a spada e desferindo ataques
que a mão de Vilas a todo custo parava,
porquanto o gládio minuto não alcançava 5585
o corpo ancião devudo à lança comprida.
– Desiste, gadrão, à tua espada compete
espada apenas e contra lança ere inútil –
avisa o mestre de godos. João todavia
peleja, fiel à bõa guerra que abraça, 5590
quando num gesto de titubeio do imigo
derruba pelo chão lo que resta de Vilas.
Erguendo porém a espada ao golpe final,
João, ouvindo o brado exausto dum velho
divisa no corpo de Vilas verdade: A destra 5595
outrora dissociada feria os sous olhos
como o fio da espada. Em triste vertigem
João generoso e tomado de angústia recua.
O godo contudo crendo a morte iminentem
tira do chão la primeira adaga que atende 5600


280




e de súbito fere em desespero por vida
a mão et as faces do general, que no susto
tombou, enquanto Vilas erguendo-se presto
tomou da sua lança e com força enterrou-a,
profundo, na terra e por um triz de João, 5605
roçando-li quase o crânio. Olharom-se ambos
num longo e desgracioso silêncio de morte,
que Vilas enfim interrompeu, rematando:
– Aí se vê, werreiro, a vida que engana,
assim se aprende o que a vida tói da gente. 5610
El home vão comemora fugaz as vitórias
e passa um vento e já li mostra a verdade.
Verdade porém se descobre com vida no chão,
ca l’home de pé non comemora a verdade
e verdade derriba e quem caiu testemunha. 5615
Levanta-te desse chão, inimigo, levanta
e leva embora de mim tua vida, que vida
nulha è minha e não adentro uma guerra
buscando vida que nimigalha mi serve. –
Vilas estende al outro a mão que li resta. 5620


281




João, porém, ouvindo do chão penitente
reflete ainda e dedica: – Notei de começo,
inimigo, que a tua estirpe era rara e distinta.
Talvez por esto vim correndo a deter-te,
prevendo que certo aprenderia verdade 5625
na luta contigo. Disseste mal uma coisam:
Caí ao chão que me enterra não por fugaz
amor e vislumbro de corriqueira vitória.
Caí porque perdi moções de meu peito.
Perdi porque te vi sem mão e lutando, 5630
varão a quem somente a vida covarde
derruba e vence. Mas no ataque atestaste
a verdade que já supunha: El home correto
em luta mesmo sem mão è gestor de vitoria.
Elo e mais por nosso encontro entendi, 5635
e no entanto ignoro como seja possível
lo excelso guerreiro perder a destra perita:
Não se encaixa o quadro em meu raciocínio.
Aclara, portanto, o entendimento e revela
o verdugo que desonrou tua mão e tou braço. 5640


282




Revela apenas para que a mão que mi resta
procure e vingue a dor que impôs a tou nome. –
Mas Vilas contendo os olhos e os membros
opõe a João: – Eo er percebo, inimigo,
quão distinta grei por aqui representas, 5645
e foi sabendo da piedade que abraças
que vim olhar a profundez de tous ogos
e ouvir tua voz e dizer de nós a verdade:
Da luta nossa aprendi que uma ponte nos une,
um laço invisível maior que vitória de guerra. 5650
El homem porém que arrebatou minha destra
foi lo que mi ensinou da vida a verdade
e fez o bom guerreiro que sejo e prossigo.
Meu filho e professor apagou lo seu erro
e não me vingues pois éste Gus a vingança. 5655
A vida que agora levas a deves àquele
que tanto tem chorado um momento infeliz.
Werreiro porém me fiz depois de a perdendo
pois, estranho, non fosse a mão que mi falta
eo não me comportara perante tous ogos 5660


283




como compete ao verdadeiro guerreiro.
De ti contudo rogo: Quando me vires
caído em campo e se novamente eo caíro
em tuas mãos, recorda de como tratei-te.
Levanta já do chão, inimigo, levanta-te 5665
e segue embora! – Mas João que se erguia
tomando a mão de Vilas assente responde:
– Viveste bem, disseste bem, uma ponte
se abriu entre nós, inquebrantável certeza:
Jamais ergueia contra ti, e nem permito 5670
a meus amigos, a mão de guerra e de morte! –
E assim falando e misturando promessas
partirom, cada qual na incerteza do rumo,
olhando vez e vez para trás e querendo.


ξ’

O novo estrondo contudo interrompia o juízo 5675
pois a guerra avançava cá e lá demandando.
Ó visões de transtornadas gentes parindo
morte e desassossego e tormentoso estupor!
Jazia desafiando o viço das flores a carne
pela terra, clamando em vão socorro caídos. 5680


284




Ora que a seta dilacerava parcela do crânio
como entranhas, ora a multidão de estirados
ia buscando por entre pilhas pedaços e membros.
Os godos e os esgueirados pela beira gemiam
como o gado sem rumo e suplicando um pastor, 5685
enquanto irados gládios dilapidavam-se mútuos,
homens atracados caçando sangue e desgraça.
Mas Procêncio, o dedo inabalado e sem pausa,
fere quejendos mira de morte e cala clamores,
vai mudando de posição polo monte e buscando 5690
plus de cavalgantes ousados, em cujos peitos
abre um poço fundo e profundamente rubente.
Quanto mais a mão arrancava do tórax a ponta,
mais os contrafios da pua arrancavam do abismo
pele e carne: Eram três os gumes metálicos, 5695
um pela frente e dois traiçoeiros por trás.
O filho de Narses ora ouvia o mestre flecheiro:
– Cuja força és, Procêncio? Manejo perfeito!
Que pontaria, menino, parabéns, è milagre! –
Mas o jovem supõe: – Dever humilde, senhor, 5700


285




à mãe de minhas mães e ao general que me adota,
nada mais, porquanto em verdade temo o combate! –
Pero o mestre não li permite: – Temor è certo
quando ensina amor à vida que almeja coragem.
Nada temas porém: O galardão que te atende, 5705
bom gestor, è paga de heróis! – Assim ensinava
mais detalhes de mira e tiro, mesclando Procêncio
pelos muitos gépidas que àquele monte chegavam:
Eram competentes arqueiros! O filho do eunuco
vendo o modo dos novos tutores plus se apurava 5710
e chus certeiras setas largava embora da corda.
Nada entanto abalava e rem minava o guerreiro
godo que não demandara aquele campo de guerra
para fugir de inimigas setas ou al, pero antes
cair com honor. Ainda ajoelhados, quebravam 5715
pois da própria mão a flecha, tirando de dentro
a ponta, peito e vísceras que afloravam afora.
Lá fechavam os olhos plangendo pelo seu povo
mais que por si, sofrendo e terminando calados.
Longe e de perto, abutres pelejavam a guerra 5720


286




dentro da guerra: Dissecando o cor de cadáveres
frescos co bico, especial banquete o das tripas,
as aves dilaceram no afã da gana a si mesmas
como misturando o lor sangue à carni engolida.
Abutres que se atacavam decepavam cabeças 5725
uns aos outros: Mentre rolavam vertiginosas
inda mastigavam co bico a moela de entranhas,
numa fome de morte já maior do que a morte.
Quanto mais a batalha alimentava a rapina
como as horas, mais distante andava a vitória 5730
d’ambas pártio ca partes ambas sorte arruinava.
Vendo pois o estrago que ali flecheiros faziam
quase inalcançáveis no outeiro, Totila consulta
Vilas que impera apenas cautela. Rigo pondera
risco maior, porquanto o sol ansiava esconder-se, 5735
triste riso, dum dia astroso de astroso destino.
Triste o sol? Mas quem non via, estrela ultrajada,
quanta imensa dor embarcava nel erto dos homens,
nave pesada e naufragatura quiçá pelas ondas!
Cujo froia portanto em vendo tanto suplício 5740


287




não se condói dum povo face a tal sacrifício?
Mal sabia o rei explicar, nos destinos da marcha,
como chegaram, andando que estavam perto de Roma,
neles abismos del Úmbria por onde agora lançavam.
Ora Totila na angústia dum desairoso suspiro 5745
reza a Rigo: – Por Gus bondoso, traz o cavalo!
Quero avançar à linha de frente como mi cabe,
rei que sou, e encorajar o braço bravoro
lança e bandeira às mãos! – Mas Vilas e Rigo:
– Fica, rei, por caridade a caídos e vivos! 5750
Queres expor tua vida e terminar a batalha
para a derrocada dum povo? – Isto apelantes
ambos reprimindo a gota, Totila interrompe:
– Vejo que titubeiam, grandes, nossos guerreiros,
vejo que cedem já los primeiros e o dies se apaga. 5755
É preciso impedir a desdita sem medo nem mora:
Não sabeis que deste prélio depende o futuro?
Não sabeis que buscamo-la derradeira esperança?
Venha o cavalo! – De pouco adiatarom os rogos
e veio o cavalo. Totila montava o bicho apressado 5760


288




mentre ao longe divisava o que enfim se passava.
Antes pero que o rei dos godos desse as esporas
foi avistado pelo arqueiro: Procêncio mirou
atrás da linha Totila camuflado de guerra.
Pensando ver um mero soldado puxou intrigado 5765
o quanto pôde a corda, a flecha mais afiada.
Totila tomava da lança quando veio de encontro
a seta lacerando-li o peito em rajada de sangue:
– Rei alvejado! – ecoa o brado e Totila atingido
cai, amparado pelos braços de Rigo e de Vilas: 5770
– Deus è grande, amigos, e o curador de feridas
não desampara o peito sereno! – Isto dizendo
mal continha a dor nas distorções de seu rosto
como li ardesse fundo a carne. Antes porém
de mais irrompe Ruderico, buscando o patrono 5775
Vilas e derramando forte afluência por terram:
– Eo vi, meu pai, eo vi lo autor dum tiro covarde!
Eo vou, meu pai, vingar meu bom Totila e meu povo! –
Antes que ouvisse os moderados apelos de Vilas
ele partiu, ca não julgou correto o valente 5780


289




guerreiro ver o quanto vira e leixar impune.
E Ruderico marchou, com lança forte no braço
e passo firme atravessando a linha de frente.
Não se importou desafiando em tudo o destino
pois o peito dum rei generoso fora ultrajado. 5785
Ele marchou, e demandando l’outeiro de arqueiros
viu fugir os atentos: Sabiam que ali penetrava
bom lanceiro e certo o maior do exército godo.
Porém Procêncio desatento mirava adiante
quando o grito de Ruderico irou retumbando: 5790
– Não de novo atires pelas costas dum bravo,
covarde, a flecha infame e vem lutar de verdade! –
Mas Procêncio no sobressalto dum gesto agitado,
ato contínuo volta-se a Ruderico e li aponta
contra a cabeça a seta que preparava na corda: 5795
– Sou guerreiro bravo e pela frente eo atiro
como atiro, atrevido, contra ti se quiseres! –
Isto dizendo lançarom destemudos olhares,
mas tomando firmes cada qual de petrechos
ambos correrom rumo al irrevogável combate: 5800


290




Foi combate curto ca Ruderico arremessa,
qual se fora flecha, todo o peso da lança
contro corpo vulnerável do filho de Narses.
Quando entretanto a lança dilacera Procêncio,
jogando fora o seu corpo e cravando na terra 5805
um juvenil cadáver – da corda avança uma seta
e míssil que penetrando Ruderico no crânio
derriba o filho de Vilas em violenta agonia.
Procêncio caído mal parece ainda mover-se
pelo derradeiro reflexo – l’outro guerreiro 5810
nembra porém lo seu dever et amor de seu povo:
Ergueu-se e como em desastroso milagre marchou
lo monte abaixo para expirar no braço do pai.
Contudo um corpo cambaleado recede e se nega:
Em meio à linha de guerra lança um grito inaudito 5815
e finda no meio do rumo; assim morreu Ruderico.
O prematuro fim duma busca revela-se ao mundo,
leixando ao chão entranhas e pranto petrificado.
Mas também Procêncio beirando a porta da morte
ainda um momento recorda a pobre mãe que leixava. 5820
Que destino infeliz e vergonha à vida de Narses
como guerreiros de quem a sua sombra abeirou-se!
Ora entendia, e como não, que um pequeno ladrão
furtando galinhas non cabe numa guerra bravor:
E pois assim pensando assim leixou de pensar. 5825














Ode ao Sol


Por quê, se a verdade
è bõa que luz, destino
quis o fim de todos
dias? Certeza maior
è que, todos os dias,
da sombra da morte
estrela aurora nasceu.















ο’

U lo paradeiro porém de Totila?
Era verdadeira a notícia da flecha?
Caía a noite e lo desespero invadia
guerreiros, rumores circulando confusos
que o rei quiçá caíra, fugira, morrera. 5830
Assim começou la debandada e gadrãos
querendo em vão resposta lançavam embora
escudo e clava. Ajoelhados e exaustos
batiam ao peito reconhecendo a derrota,
livrando angustiados clamores. Perdudos 5835
por entre cadáveres divisavam no escuro
escado talvez de amigos, imigos quiçá.
Mas aonde fugir e por quê, e como agir,
de que modo viver? Desordenados lanceiros
corriam rumo à sombra abismal do bosque, 5840


292




caçando a própria vida por entre buracos,
o pranto como o medo guiando na treva.
As tropas de Narses, embebudas del ódio,
buscavam ainda assim desarmados seguindo
o passo e perseguindo aflição de caídos. 5845
Ó destino espedaçador de esperanças,
quanta vegada o bom guerreiro aturdido
lançou-se aos pés de vencedores irados
rogando clemência? Quanta vez vencedores
erguendo a spada decapitarom rendudos 5850
ajoelhados e mendigando e plangentes:
– Me mata não, seu filha da puta! Deixa
nós viver, respeita quem se rendeu. –
De pouco adiantaront apelos de Narses:
A caça a fugitivos tornara-se o novo 5855
lazer dos atrozes. Cá e lá combatiam
ainda isolados godos, talvez dessabendo
uma triste verdade os derradeiros heróis.
Alguns unidos resgatavam-se em grupos
de dous ou três buscando abrigo na sorte. 5860


293




Pobre a vida em fuga porém que caísse
nas mãos de caçadores vis de caídos.
Feitores da treva e da violenta falange,
os hunos e os bizantinos matarom a esmo.
Passavam lombardos incendiando aldeias 5865
de perto e trucidando quanto avistassem.
Assim perecerom juntos romanos e godos,
crianças, mulheres, inocentes pastores.
Quão diferente Totila tratara essa terra!
Mas os godos corriam, comprehendendo 5870
a cada passo que aquela batalha pusera
fim à florescência de todo-los anos:
às obras de Teodorico e viço dos povos,
às esperanças de paz e do bem de Totila.
Clamarom! Amargamente choraro o desfecho 5875
dum reino mas fecho não dum reino somente,
dum povo inteiro exterminado num dia:
Jazia uma tumba aberta no meio do mundo.
Mas Narses, angustiado na incerta vitória,
ainda atende a palavra final de peritos 5880


294




vinta a resistência nos últimos focos.
Qual non foi porém la surpresa do eunuco
quando se houverom aproximado da tenda
dous legados – vinham de opostas veredas:
Um li depôs ao braço esquerdo a bandeira 5885
em sangue do rei Totila atestando a vitória;
l’outro li impôs ao destro o corpo ensan-
guentado do filho testemunhando a verdade.
Narses – lançando embora ao chão a bandeira,
Narses num grito ensurdecedor desmorona 5890
perante um corpo sem vida qual se vivesse.
Ele para, ele cala, ele fala e confessa:
– É, meus amigos, uma coisa è verdade:
Quando destino odeia a vida dum homem,
quando o destino decide a derrota, 5895
aí non tem vitória nem guerra
nem façanha nem milagre que salve.
É assim que se acaba mesmo essa
vida quando o destino inveja.
Como pude crer que meu amor 5900


295




por Procêncio fosse maior?
Como pude crer que uma certa alegria
coubesse dentro do meu coração, aqui,
num mundo por onde nunca nada me amou?
Não existe, guerreiros, è tudo ilusão, 5905
eo sempre soube, eo disse al Imperador:
Desde que vislumbrei la sombra do mundo,
indústria de ultrajes, o mundo me castigou.
Por que me abandonas, morte libertadora?
Eo passo pelo mundo lutando e marchando 5910
pelos vãos de toda esperança frustrada.
Ai, Procêncio, meu filho era tão inocente!
Tiveste a desventura, filhinho, de um die
cruzar meu andar, e não se conformou
lo destino ao ver meu coração jubiloso. 5915
Lançando a ti, menino, um olhar generoso,
matei-te! Lancei contra ti uma ingrata
fortuna e destruïdora de todos que amei:
É, meus amigos, uma coisa è verdade ... –
Perdendo a palavra, um general sem vitória 5920


296




prostrou-se longamente ao lado dum corpo.
Mas mirando estrelas, tornando à verdade
e secando os olhos, a voz clamou resoluta:
– Paulo! – E levantando-se chama um soldado
e desarmado desarmador de armadíssimos: 5925
– U se encontra Paulo? Paulo, guerreiro
que bem te vejo, sai de perto de mim!
Destino arrasa quem se aflige por mim.
Ainda procuras, menino, o gesto correto
de guerra e gesto redentor da existência? 5930
Ai, meu caro, eo conheço o fim dessa busca!
Toma aos ombros teus o meu filho Procêncio,
sê meu amigo! Vai devolvê-lo aos braços
da mãe, de quem num movimento infeliz
sequestrei, selando a desventura de três 5935
desafortunados! Cruza por mim a distância
por terra ou mar e tem coragem, prossegue
ata lo fim da jornada! Procuras ainda,
Paulo, o gesto excelso? – Paulo escudeiro
inesitante assente e tomando Procêncio 5940


297




monta o primeiro equino que lá se mostrava,
cônscio que foi de inquebrantável dever.
Mas Narses, retirando do peito um anel,
dourada e valiosa prenda que entrega
ao bom guerreiro, roga: – Pois chegares 5945
entrega àquela mãe meu tesouro singelo.
Ela que venda e com fé em Deus encontre
algum abrigo pelo mundo e seu pão.
Diz que descobriste no chão este anel
e não que vem das mãos do eunuco odioso, 5950
porque matei seu filho mais do que meu.
Reporta somente, Paulo, uma breve mensagem:
Procêncio caiu porque o destino invejou.
Não contudo como um ladrão de galinhas
Procêncio caiu: Procêncio caiu como homem, 5955
como um guerreiro digno do nome de Roma
Procêncio caiu, porque Procêncio venceu. –
Assim partiu a cavalo um fiel escudeiro,
na madrugada misto de treva e de luto.
Estava determinado a varar como raio 5960


298




e como relampo em poucos dias tornar.
O eunuco entretanto balançava a cabeça
buscando ainda notícia do fim de Totila.


π’

Pelas escuridões a cavalgada avançava,
Rigo perto, os escudeiros, 5965
Totila retorto por dentro.
Iam varando a treva em galopes
e defendendo o rei de armadilhas.
Era possível remover das entranhas
a flecha? 5970
Totila comprimia os gemidos,
a dor, o incêndio no peito,
quando mais um ataque irrompeu:
Lombardos perseguindo
vinham mirando as suas lanças. 5975
Mas Rigo crendo ali desertores
reprime: – Alçais a spada contra Totila,
cães, o vosso rei? – Alçarom, e atirando
cegos pelos ermos as lanças
uma acertou, assim o quis destino, 5980


299




uma adentrou, por acaso e pelas costas, o rei,
que lançava um novu golfo de sangue
boca afora, o galope cortando seu ventre.
Mas a busca dalgum retiro os impeliu
por horas pelos bosques e estradas. 5985
Quando enfim Totila em seu tormento
lançou do cavalo um grito,
Rigo parou, o rei parou, os escudeiros pararom,
ouvindo: – Findemo-la jornada,
vou perdendo as rédeas e o fôlego. – 5990
Rigo mandou buscarem água e desceu
lo rei do cavalo: Deitou-o
pela beira da estrada. Totila
olhando muito além ponderava:
– Andei demais e demais cavalguei. 5995
Minha ferida, Rigo, è maior do que a vida. –
Não permite resposta:
– Que será de meu povo?
Deus desdisse de mim e do povo dos godos. –
Mas o amigo: – Não, as feridas se curam 6000


300




e Gus protege um povo inocente.
Calma! Tiraremos a flecha, amigo,
vamos embora vivos! – O rei retruca:
– Não percebes que aqui se acaba uma vida?
Deus non quer o nosso povo entre os povos. 6005
Não li agradou meu sacrifício. –
A mão que mal se levanta aponta
para uma pedra, a voz implorando:
– Toma aquela pedra, apaga da história,
Rigo, apaga da história meu nome. – 6010
Mas um fiel herói tomando aos braços o froia
falava e consolava.
Era em vão! Perdendo os olhos,
ele cuja mão alçara caídos
mira el outro e questiona: 6015
– Onde està Deus, amigo? Rigo, onde está Deus? –
Totila morreu.
Rigo na escuridão plangeu:
– Por quê, destino e Deus?
Paga melhor mereci ca tanto arrisquei 6020


301




no amor de meu povo e meu rei!
Falhei, Totila, falhei meu dever.
Antes morresse a minha vida errada,
vida sem rumo, vida menor! –
Falando e soluçando e gritando 6025
Rigo correu, e nem se sabe por qual abismo
Rigo caiu.
Narses ouviu do paradeiro final
pelas escuridões, e mandou
buscarem um fio de cabelo e pedaços 6030
do vestuário,
a prova que desejava lo Imperador.
Mas aproximou-se uma certa mulher
rogando baixo:
– Ouvi dizer que Maria, 6035
mãe de Cristo, intervém pelos mortos.
Vim de longe fiando a Deus a viagem,
migrei de ermida em ermida:
Onde está meu amigo, Narses?
Onde está sua tumba? 6040


302




Não viölentes
um corpo sem vida! –
Mas sentindo o destino e tantas perdas
Narses superou
sua dor: 6045
– Chamo covarde o guerreiro que vendo um cadáver
nega-li a paz, atormenta um jazer derradeiro.
O gesto que temes, Senhora, não se inscreve
em minha bandeira. –
Mas el outra responde: 6050
– Pois o gesto que ainda mi resta
è gesto simples, è só recordação.
A minha vida pequena non cabe em poemas:
Quero pedir a Deus piedade! –
Narses revelou-li o jazigo. 6055
E Rodelinda partiu, levando uma prenda.
Rogando a sós a compaixão do impossível,
ela prestou l’homenagem da sua amizade.
Ó tormentosa noite,
quantos olhos se erguerom pela treva 6060


303




cônscios da perdição de Roma e da morte da Itália.
Ó tormenta que tanta vida iludiste!
O senador se alegrava, pensando que a guerra
acabara e que Roma estava livre.
Levando pela estrada a vida e a família 6065
caía nas mãos dos godos.
Pois os godos vingarom pela estrada a covardia
de quem decapitava rendudos.
Não se teve dó de quem ofertava a própria vida?
Pois responderom: 6070
Quando Teia viu los filhos do patriciado,
na escola que o rei erguera num die melhor,
mandou destruir –
e forom degoladas trezentas crianças.
Fortuna decidiu: 6075
Non cabe vitória neste mundo.
Não renasças, sol, esconde o teu lume:
Nada rëergue desta noite a ruína de Itália.
Já non passa pelo campo o guerreiro,
já ninguém enterra a multidão. 6080
Apenas Vilas, o homem sem mão, procura
pelo escombro remexendo despojos,
clamando: – Ruderico, meu filho! –
Mas na madrugada os corpos eram sem rosto,
o rosto non tinha brilho. 6085
Caídos e misturados pelo destino
jaziam calados, juntos, como se fossem irmãos.





FIM