EUSTÁCIO DE SALES

POEMAS DE GUERRA

Index



© Greg Ory 2014 – 2018, Record E 5, Engl. War Poems, december 2014, Hampshire, dactylic and short hexameters, five poems, 200-225 lines, epic poetry, Portuguese.




I.

Já não passam Xerxes nem Ciro o deserto
nem o rei de Pasárgada. Corre somente
gente que o raio partiu – longe do éden.
Quando subiam inda ontem aos montes,
um descia, moroso, criança no braço: 5
– Quer morrer, Assã? Estamos cercados! –
O velho, porém, mirando o seco abaixo:
– Olhe, rapaz, mataram-me toda a família.
Vou enterrar um filho caído, na areia.
Levo meu neto, que vai embora comigo.– 10
E não deixou ninguém lhe dar resposta:
– O mundo fugiu e vida aqui não dura! –
Vou-lhe contar, a breves termos, o caso,
mas vale a pena, creio, dizê-lo logo:
Morreu degolado. Digo – ambos morreram, 15
se o canto humanitário contar a criança.
Fica um pouco pedante, mesmo ao poeta,
nesses dias tão medíocres de mídia,
dar um verso ao velho drama de Pérsia,
velho, demais, para a moda. Anda calada 20
a voz das musas. Depois de tanto tempo
pega mal, parece, usar os órgãos do belo,
como dizem, às custas de vidas alheias,
dores prosaicas já narradas por telas e
outras fontes sérias – de fato modernas – 25
mais verdadeiras que o verso. Dito isto,
fica ao leitor de saco cheio o conselho.
Mas depois do mal que lhe fez a existência,
tenha a bondade, rogo, de ler um apêndice.
Bem pequeno. A quem parecer alongado, 30
repito o fim do relato: Morreu degolado.
O fato è corriqueiro e de pouco revelo,
mas uma coisa, convenhamos, comove:
Assã não teve muita sorte na vida.
Quero narrar-lhe o caso sem efeito 35
retórico – caso não apenas do velho,
meu também. Quando chegou a notícia,
veja, até me queimei babando meu chá:
a fundação, na mesopotâmica Pérsia,
digo, o renascer, num raio inequívoco, 40
do reino de Hamurabi – algo que abala.
Entrevi, naquele instante, a presença
duma nova antiguidade, crescente.
Veio depois, efeito forçoso da causa,
em nota de rodapé (depois de subirem 45
o monte, note-se bem, aqueles perdidos),
a referência à degola de Assã – e do neto.
A causa do novo estado antigo? Divina.
Não espanta, portanto, ira dos justos
contra toda gente e crenças iníquas. 50
Foi assim, se não se engana o cronista,
que Assã subiu, levando os seus, ao monte.
Corrijo-me: Levou apenas o neto, ferido.
Deixou apenas os mortos. Sei que repito
o apenas. Mas existe uma certa ironia, 55
vã, no segundo apenas. Ora – sentado
aqui no meu sofá humanista, custa-me
crer, confesso, que um ser humano, corpo,
possa estar, ou ficar, apenas morto.
Anos atrás, um certo incômodo ainda 60
vinha à minha mente quando tentavam
dar à morte a qualidade de – apenas.
A foice parecia maior no meu mundo,
mas a minha escola è mundo distante,
algo que, hoje, fizera canto de musas. 65
São valores tão antiquados, coitado
de mim e minhas enferrujadas virtudes
longe da morte de Assã – poeira de livros.
Não por acaso os meus amigos repetem
que sou, e creio, velho demais ao mundo. 70
Mas velho ou jovem, uma coisa lhe digo:
Assã não quis saber de conversa, meu caro!
Pegou cajado, sapato, tudo o que tinha:
– Eu vou-me embora! – A gente via, pensando
que algum delírio abalara-lhe o viço. 75
Foi descendo, descalço – o sol escaldante.
Quando o neto chorava, porque chorava
por vez ou outra, Assã batia o cajado:
– Venha, diabo! – mas era um modus dicendi,
exortação afetiva no tom do deserto. 80
Lembrava ainda o outro. Já lhe dissera
que Assã tivera um outro neto? (Confuso
como estou, vou escrevendo, esquecendo,
como vêm a boca o verbo e lembrança.)
Morreu, também – mas de morte diversa. 85
Ora, quem, se jovem em tais abandonos
de chão, resiste à terna cor dum boneco?
Apareceu um desses na porta de casa,
e diga o bom leitor que mão, se meiga,
não se abaixa a levantá-lo da terra! 90
Custa dizer, a quem ainda não saiba,
que aquele boneco era mina. E mina mata.
Mas isto è bobagem, detalhe. Vamos avante.
Vinha gente em vão, do topo e de baixo:
– Espere, Assã! Chegou notícia de rádio, 95
vem chegando avião e comida e socorro. –
Ele, porém: – Deixe-me em paz! – e seguia.
Cabe aqui parêntese: Gente em deserto
crê dificilmente em promessa e cidades.
Ur e Babilônias e as águas do Tigre 100
são de pouco emprego no reino do medo.
Isto, porque vizinhos. Agora pensemos
como tratam novas de além dos Eufrates.
Sejamos francos: Desmembrar um império
tem um preço. O buraco aberto deixado 105
torna-se cova, muitas vezes a própria.
Mais amor a quem oprime que opressos
moveu governos humanistas da Europa
que, Deus do céu, mais de século ido,
despertaram mesopotâmicas cóleras. 110
Agora escute, leitor, aquele enfático
– venha, diabo! – e diga se afeto lhe falta!
Diabo chorou. Cobriu areia de angústia.
Mas veio. Obedeceu ao clamor avoengo.
Nome? Algum pudor me previne o dizê-lo. 115
Chamemos pois o jovem um filho da morte.
Ou melhor, a fim de evitar parábolas
algo dramáticas: Não me ocorre o nome.
Mas vou-lhe revelar um fato notável:
Quando a moribunda renca de velhas, 120
subindo o monte, viu Assã desdenhando
co neto o medo, quis saber o destino,
razão daquela jornada rumo contrário:
– Pelo amor de Deus, Assã, subamos! –
Qual não foi espanto ouvir a resposta. 125
Veja que estranho e curioso programa
surgiu, nas joviais ideias do ermita:
Assã cruzaria o deserto a pé co cojado
e tomaria o rumo das ilhas britânicas.
As velhas ouvindo riram. Era verdade? 130
Mas Assã não lhes dava atenção e gritava:
– Abram caminho! – Os aviões demoravam,
a espera incomodava alguns, exaltados.
Calor altera os nervos, como se sabe
(tudo, ou quase tudo, explica a ciência), 135
e fome e sede fazem milagres de vulto:
– Inda estão esperando avião de comida? –
era Assã que bradava a quem se lançava,
pois é preciso dizer ao leitor sossegado
que aquela pobre gente, no espasmo do páramo, 140
tinha visões do – direi: inferno? – e lançava-se
ao chão, chorando ou tentando chorar uma gota.
Não por dor, a propósito – por sede somente.
Bebiam toda água que os olhos brotassem.
Em baixo, tremulava a bandeira do estado – 145
digo: do novo estado, atrás de carretas.
Pneus deixavam marca e morte na areia.
Mas não tardou, ou não demais, a comida,
que vez e outra o céu mandava-lhe naves.
É preciso dizer que ao menos ingleses 150
cumpriram promessas, como homens honrados
que são e sabemos, interessados apenas
na causa humana e salvação das almas.
Ora, digam o quanto quiserem Diógenes,
resgataram da morte a montanha cercada! 155
Ao menos alguns o fizeram. Outros soldados
abriam fogo ao sopé – contra Hamurabi,
dando esperança ao velho homem, ao neto.
Sim, o intento, leitor, era verdade:
cruzar o deserto rumo às ilhas britânicas. 160
Dizia ao neto: – Olhe, quando chegarmos,
teremos pão e água e teto e camisa. –
Se tivesse esperado, talvez helicópteros
arrojados tivessem-no salvo da morte.
Mas e o medo? Algumas daquelas naves, 165
meu caro, vieram bem abaixo: Caíram!
Ademais – quando as naves chegaram,
Assã se aproximava dos pés da montanha,
ante as lonas sujas dalguma carreta.
Pegaram-no, junto ao neto, pela manhã. 170
O resto sabemos, o dies irae sumário.
Parece (assim o reza ainda o cronista)
que Assã se defendeu: – Filhos de Deus,
eu quero apenas ir e deixar-vos em paz.
Mal não fiz a ninguém! – Vale a pena 175
seguir narrando? Quando ainda no cume,
um dos mortos dissera: – Deixe o menino
ao menos, Assã! Não basta querer morrer?
Tem de levar a criança junto? – Levou-a.
Nunca fora tão antevista uma morte. 180
Mas Assã contava quase um século.
Avô com neto, débeis, era uma imagem
que comovesse talvez carrasco otomano,
homem rude do tempo da longe infância.
Mas Hamurabi tinha um outro parâmetro. 185
No seu dicionário, Assã e a triste gente
surgiam como adorando o mal e o diabo.
Era favor a Deus puni-los, coa vida:
– Deixai meu neto vivo – o velho implorava,
– a minha vida tem não tem valia nenhuma, 190
mas a dele, coitado – terei piedade:
Termino aqui. Estou demais ocupado,
amigo. Veja, quase me queimo de novo
co chá de camomila, sentado à poltrona.
Que engraçado! Queria falar sobre os mortos 195
mas acabei me lembrando de Assã – e do neto.
Culpa do chá, da poltrona. Velhas leituras
causam digressões, na lembrança de Xerxes.
Melhor pensar que de nada servem os mortos,
fechar o livro e – quanto ao chá lenitivo, 200
deixar em água alguns minutos a mais.


II.

Mandem calar ao Cariri de vida sedenta,
onde o gado cai pelo chão, o nome dos fortes
homens que, passeando rente a margens distantes,
decidiram: Joga fora esse mar! E jogaram.
Foi secando, coitado, secando embora e morrendo. 5
Graças a Deus, partiu num paciente silêncio:
Teve a bondade, vejam, de abafar a própria agonia
sem chamar atenção de ninguém. Talvez um desejo
derradeiro as águas deixem. Apaguem dos mapas,
por compaixão, o nome velho do mar e deserto. 10
Já não faz sentido qualquer azul cartográfico,
só lhe cabe um doloroso amarelo – um vazio.
Pede apenas morra sozinho, longe a memória.
Mas a criança não conhece as dores dum mapa.
Dizem que ali, na margem seca, brincava Bobur e 15
construía castelos de areia junto aos amigos.
Eram fortalezas – resistentes às ondas
como às altas marés. Ao fim de algum esforço,
lá esperavam vir as vagas, cercando castelos:
Quais resistiriam? Fora imensa façanha o 20
ver baixar marés e ver castelos intactos,
pouco dano. Aos engenheiros dava-se prêmios e
muita inveja rondava as vitoriosas proezas.
Um dos mais famosos, Bobur excedia em perícia.
Tinha uma técnica nova, prensando areia molhada 25
quanto possível, dando gênese a massas compactas.
Certas vezes, o afã de construções hiperbólicas
quase causava inimizades. Bobur se lançava
contra rivais e vice-versa. Dessas batalhas
foi surgindo a mal chamada guerra dos bagos. 30
Eram refregas diárias, e começaram aos poucos.
Diz a versão majoritária que o próprio Bobur,
fora de si, lançou bolotas fartas de areia
contra algum atrevido, dizendo: "Batata na cara!"
Como não? O punido lançara o pé num castelo e 35
não ficou sem resposta tamanho gesto de guerra.
Cada qual tomou partido e formaram-se exércitos.
Ora, Bobur, nas palingenesias da glória,
fez-se o líder de jovens gravemente sedentos,
ávidos todos de corajosos feitos – heroicos. 40
Hitler e Stalin eram incorporados com brio e
não deixavam em paz Napoleões e Alexandres.
Eram rudes. "Batata na cara" tirava do jogo.
Quem lograva pisar na fortaleza das hostes
sem que a batata, como diziam, voasse na cara, 45
este vencia e recebia do time as insígnias.
Fato claro, Bobur era estrategista de classe e
tática boa. Pintava estranhos mapas na areia.
Dava ordens. Planejava ataques-relâmpago
dias antes, vários, confundindo estadistas. 50
Reações de improviso pareciam treinadas.
Vale menção a resistência de Stalingrado,
como ficou chamada a mais ousada campanha:
Três flancos de ataque "nazistas", frontais e
mais numerosos, "batateados" num quase-milagre. 55
Ora, cavaram trincheira funda frente ao castelo,
tabula rasa ao fator quantitativo. Falanges
laterais de flecheiros arremessavam de longe
bagos de peso vário. Houve graves feridas.
Como troféu, deixado para trás por soldados 60
batendo em retirada, conquistaram os símbolos
nobres do mal-logrado invasor, e tomadas bandeiras
– vejam quanta audácia – trocavam águias guerreiras,
todas, por mal traçados abutres sustendo suásticas,
logo hasteados ao sol de abomináveis afrontas. 65
Era somente a náusea de esplendorosas vitórias –
sabe Deus – que vez ou outra deixava entrever um
vazio abissal, e algum soldado-criança enxergava:
– Bobur, por quê que o mar está fugindo? Por medo? –
Tal resposta cabia somente a maiores oráculos: 70
– Mãe, por quê vai indo embora o mar? – Mas calavam.
Já não mais impunham risco aos burgos as ondas,
pois as altas marés rareavam. Perdiam o viço
bolas de areia, pois de pouco molhavam-se.
Cada dia, o rumo à beira do mar aumentava, 75
novos centímetros iam dando a luz a desertos.
Suspeitou-se que o mar migrasse. Raro fenômeno
veio interpôr-se à guerra dos bagos. Algo tremendo
lá tomava lugar, e polêmicas tropas homéricas
converteram-se em largas expedições geológicas, 80
repletas de oceanógrafos, doutos ad-hoc intrigados
migrando junto co mar. Migrando aonde do mundo?
Medo deviam chamar o mistério. Puseram Bobur
à frente da inusitada coorte e Bobur lhes rezava
ordens de busca e descobertas. Que se passou, 85
diziam, aos grandes rios que o mar migrante bebia,
quem os roubou? A paciência dos homens minava-se.
Fossem ver, Bobur mandou, que agente inumano
trancara a foz do legendário rio de Alexandre,
esse que helenos chamaram Oxos. E foram sabê-lo. 90
Mas Bobur, irritado e pouco crente em boatos,
decidiu correr em pessoa ao lugar, relatado
em cores mortas, onde o braço da baça corrente
vinha terminar em poeira, estanque no nada:
– Gente, o rio não quer correr? – o pântano-delta 95
dava uma dor estranha no peito. Sabiam agora:
Não migrava o mar, morria. Porém estuários,
deltas, por quê secavam? Vinham já de tão longe.
– Esse mar è grande demais e mar não se perde,
seca não! – Bobur assegurava e terrores calados. 100
Todos os dias mandava alguém correr ao deserto,
ladeando navios-fantasmas, colados à areia:
– Seca não! – Bobur repetia, menos verdade
séria que mantra, mesmo ordem. Como não seca?
Era hiato já no meio do mapa. Debalde em 105
dias limpos ainda tentavam retinas mirar
no vago traço d'água. Nem uma fata morgana
tinha dó de tantos olhos. Faltava-lhes gota
como à boca peixe. Bobur deixava as coortes,
vindo vagar no meio do vácuo. Sentava-se ao solo 110
onde outrora o mundo era mar e tomava de areia
nas mãos, deixando um vento seco levar as quimeras
no rumo do amargo. Era longe demais o que havia
inda de água, nem valesse a pena buscá-lo,
tão azeda a terra cruzanda. Plantaram em vão, 115
que nem a grama crescia. A velha guerra dos bagos
dera lugar a batalhas contra um forte invisível.
Quando a mãe de Bobur falou, pediu-lhe somente
não olhar os pescadores – passasse direto.
Inda perambulavam incrédulas hordes ao Oxos, 120
indo ver que de fato um rio se cansara de ser.
Mas crianças não se cansam. Mudaram o jogo e
novas guerras, corrosivas batatas surgiram.
Isto porque, num belo dia, Bobur conseguira
quase reinventar algumas bolas de areia. 125
Como? Fechava bem as mãos a que nada caísse e
vindo perto das hostes, lançava bolas ao alto.
Estas porém se desfaziam no ar, espalhavam-se
como as tempestades. Foi sucesso instantâneo.
Tropas temíveis ressurgiam. A guerra dos bagos 130
intensificara-se. Quando a bolota alcançava
corpo alheio, não se restringia à batida,
antes espalhava silício por todos redores,
pela pele e pelas roupas. Fizeram-se múmias
vivas, fantasmagóricas, impressionante atavismo. 135
Passavam como diros monstros cobertos de tempo,
grãos que outrora o mar cobria. Lutavam combates
pelos vãos ou dentro de enferrujadas carcaças,
navios descalços – peças de relavância estratégica,
pois as tempestades de terra tornaram-se várias e 140
velhos navios formavam escudos. Os fortes agora
eram as naves abandonadas. Bobur e oponentes
cruzavam o vasto na busca de glórias militares.
Pouco atinavam nessas horas coa perda das ondas.
Era superstição o dizer que daquelas poeiras 145
vinham males, que não se devia respirá-las.
Muito mais importavam à juventude valente
grandes gestos. Nenhum herói sabia direito
quão distante estava o moribundo dos olhos.
Fora tabu perguntar – temor da seca verdade. 150
Tão somente seguiam na imitação de contendas,
não se sabe bem se Segunda Guerra ou Primeira.
Nada disso importa aos que ficam. Nem aos que deixam.
Para os que morrem, toda guerra è guerra primeira.
Sem segunda. Vejamos primeiro, porém, a derrota 155
do mar, e depois a dos homens. O mar se perdeu.
Escondam à gente do Cariri a verdade de Aral:
Era demais irrelevante aquele mar destruído,
era um inútil, era um lago de Genesaré –
a gente a carecer daquelas águas estanques 160
eram só pescadores, e mais ninguém se importava.
Joga fora esse mar de quem ninguém precisou!
Talvez crianças carentes se lhe usassem de amor,
mas as crianças do Cariri nem ouviram falar –
espero – duma terra tão longínqua tão perto. 165
Certos pais fariam como o pai de Bobur, que
certa vez tomou-lhe do braço, quando o menino
fitava o deserto: – Feche os olhos, filho, feche,
isto è feio demais. Ali não volte a brincar. –
Digam porém aos estadistas que não se incomodem, 170
pois o mar malquisto è calado. Pouco lhe falta e
morre de todo. Talvez um poeta menor o relembre,
mas o seu pranto será decerto em português, e
português è língua que não se lê, que se joga
fora como jogam o mar – assim se combinam, 175
o mar e o grito no vácuo, no vão hiato dos mapas.
Quanto à derrota dos homens, foi derrota clemente,
pois Bobur não chegou a ver a morte do lago.
Quando veio a famigerada tosse, entenderam:
Fora a constante exposição a grãos de poeira 180
altamente tóxicos, filhos dos agro-resíduos e
doutras misturas. Fizeram parar o curso do Oxos.
Culpa minha, como não? O algodão do pullover
rubro que visto vem dalguma lavoura do mundo.
Jogaram fora o mar em nome do fino algodão 185
e agora o rio irriga imensos tratos de terra;
jogaram fora Bobur e muitos outros pequenos.
Felizmente, ninguém precisou de Bobur e pequenas
vidas irrelevantes como a vida que pesca.
Quando o mundo era feito para glória de guerras, 190
César mandava às armas milhões de em-vãos a morrer
o fim de heróis, deixando em paz em casa o patrício.
Hoje, que já não facilmente se livra da massa,
a morte grátis da plebe è demográfica bênção,
alívio ao Senado. Joga fora Bobur e o seu mar! 195
Mas mandem calar aos Cariris o destino de Aral,
a fim de que menos chorem a fealdade das horas
nem tencionem irrigar o vasto coas lágrimas –
pois um grande mar perdido nem choro devolve,
nem o São Francisco, o rio dos mortos, transposto. 200


III.

Cabe talvez num porão a ruína dos séculos?
Soavam sirenes e ouvia-se angústia no coro:
– Ave Maria, cheia de graça – exclamavam,
– rogai por nós, pecadores. – Martha rezava
menos por si que pelos pais que guiara 5
pela escada às pressas, descendo ao abrigo:
ambos cegos. Trouxera, num átimo, roupa e
quanto valor cabia às mãos. Tremiam-se
forte as paredes, interrompendo a esperança
das preces. O mundo afora era flama somente. 10
Duas mil toneladas de bombas, lançadas
abaixo, causavam tempestades de fogo
pelas ruas. Fez-se um tornado infernal.
O calor de mil e quinhentos graus devorava
as casas e os corpos, sufocadas as almas. 15
Quando a fumaça subiu as paredes, de pedras
quase ferventes, e a fé perdeu-se no pânico,
cada qual correndo e buscando um socorro,
Martha via aterrada a fraqueza dos pais.
Mal andavam, a vida questão de segundos. 20
Os poucos que ousavam ir aos gritos à rua
eram de pronto carbonizados aos ossos
ou se deixavam cair num térmico choque,
mortos de asfixia. Era porém dos deixados
entre vida e morte a imagem pungente. 25
Tropeçavam em corpos de velhos, crianças,
tateavam o escuro buscando a parentes,
encobertos nas cinzas. Chamavam amigos
em vão e as vozes mistas se entre-abafavam.
Dresden chegava ao fim. Aviões inimigos 30
iam lançando os monumentos à terra.
Martha porém cuidava pouco de estátuas,
jóias barrocas e construções imortais
da velha capital cultural por escombros,
antes migrava desesperada coa massa, 35
porão a porão, em fugas mal-ordenadas.
Vez ou outra, surgiam poucos bombeiros,
guias mostrando longe o rumo de escadas,
cantos talvez seguros onde os cansados
aglomeravam-se. Deixavam toda bagagem 40
para trás, e pertences que atrapalhavam
os passos alheios eram tomados à força.
Assim se perderam recém-nascidos em cestas,
confundidos, na rapidez das angústias,
com mero brinco, e tristes mães desmaiavam 45
vendo paredes soterrando os pequenos,
perdidos pela poeira em berros inúteis.
Eram impedidas por mãos socorristas,
e quem ousasse retorno a porões torrados
para salvar o mundo, nunca voltava, 50
e quem ousasse sair afora coa cesta,
logo tropeçava em escombros, perdia
de mãos o filho ao turbilhão do tornado.
Foi na madrugada, no meio do incêndio,
depois de poucas horas, que mais uma vez 55
soaram sirenes. Foram poucos que ouviram,
já que poucas foram poupadas das bombas
horas antes. As explosões irromperam
quase repentinas, lançando ao chão
refugiados desprevenidos, soldados, 60
enfermeiros mergulhados no abismo
donde tentavam resgatar os feridos.
– Ave Maria, cheia de graça – soava
pelos porões lotados, no meio de gritos,
o desespero completando as palavras 65
que a confusão dos mil soluços tragava:
– rogai por nós, pecadores. – Martha lembrava
em vão a voz de Adolf Hitler nas rádios:
– Não vos iludais, alemães, de esperança,
nenhuma cidade está isenta de ataque. – 70
Eram conclamados à guerra total
até a morte heroica do último homem.
Martha, porém, guiava os pais por escombros
buscando menos vitória que a vida salva.
Mas o teto a cair interpôs-se ao caminho 75
dos fugitivos. Restava somente um buraco
para a rua, ou para a morte iminente.
Martha mirava aquela magra abertura
e a multidão sem rumo e gemia escondida:
Que milagre do mundo, pensava aturdida, 80
pode salvar esta gente inteira da morte?
Quem não via a temperatura aumentando,
quase insuportável, e os tóxicos fumos?
Não restava mais uma sombra de dúvida:
Ninguém teria a compaixão de deixar 85
os dois idosos passar por aquele buraco.
Custava tempo demais e já se pisavam
alguns, desordenadamente, sem ar.
Mas percebendo a pouca ordem que havia,
foram eles, os pais de Martha que agiram: 90
– Minha filha, corre e toma o teu rumo,
sai daqui, que nos veremos depois. –
Ela, porém, tomou-lhes ambos do braço:
– Ficarei, meu pai, sairemos juntos! –
– Martha! Não destruas a nossa esperança. 95
A vida nossa já não presta de nada,
salva a tua e nossa morte è feliz! –
E foram indo embora, por entre fumaça,
bengala às mãos e tateando paredes:
– Filha, vai-te já! Sairemos ilesos, 100
não te aflijas. Cristo è compaixão! –
Martha saiu, ajudada de anônimas mãos,
à beira da rua. Que visão, que cenário,
que ruína indescritível do inferno!
Onde os olhos pousavam, eram pedaços 105
de pernas, braços, reduzidos cadáveres,
crianças torradas segurando bonecos.
Das casas restava tão somente a fachada,
fogo dentro e fora dos prédios, janelas
ilusórias, temíveis. Inda moviam-se 110
ônibus, dentro todos mortos, em flamas,
grei de refugiados vindo do campo,
cidades longe por onde as tropas hostis
deixavam morte. Morriam agora nos ônibus.
Martha não pensava, sentada à calçada, 115
mãos à cabeça. O bombardeio cessara,
deixando atrás por vários dias incêncios:
– Martha! – bradou de longe voz conhecida –
Martha, menina, que alívio! Havia um cadáver,
logo ali, que me fez pensar que morreras! – 120
Era idoso vizinho, mas Martha interpôs-se:
– Cala a boca, Lothar, eu vivo culpada!
Deixei meus pais morrer naquele porão! –
E recusava as mãos que o velho estendia,
gemendo e retorcendo o rosto e tremendo: 125
– Lothar, eu quero só saber onde estão! –
Contou-lhe o caso desde a primeira sirene:
– Tinha um bolo de amora pronto no forno.
Era o aniversário amanhã do meu pai.
Inda brinquei a dizer que só amanhã 130
podia comer o pedaço que já lhe cortara.
Foi um dia de festa e de tanta alegria. –
Mas o outro, escondendo os olhos: – Levanta!
Vamos embora que aqui morremos de vez! –
Martha deixou-se levar por algumas esquinas, 135
antes que oficiais e bombeiros de longe,
frente ao colapso geral, pedissem ajuda:
Era uma ordem. E separaram-se os rumos,
ele buscando corpos, ela coas outras,
limpando e retirando pedras de escombros, 140
repassadas, mãos em mãos, por esquinas.
Quando Martha desmaiou de cansaço
e as bofetadas a retrouxeram ao mundo,
pôs-se a vagar. Vagou por horas inteiras,
vindo a parar naquela mesma calçada. 145
Era quarta-feira de cinzas em Dresden
e Dresden amanhecia em ruína de cinzas.
Tiras desabrigadas voltavam às casas
destruídas, buscando pertences, parentes.
Desde a hora clara, Martha tentava 150
abrir passagem rumo ao porão soterrado.
Pusera fixa à triste mente uma ideia:
Recolher os corpos dos pais de destroços,
vê-los por última vez, fechar-lhes os olhos.
Não descansaria – custasse-lhe a vida. 155
Desdenhava o dizer de soldados peritos:
– Senhora, naquele prédio todos morreram,
nem restou seguro acesso ao porão. –
Martha levava à boca a mão, suspirava
ante o calor de flamas. Mal reparara 160
os seus cabelos secos, torrados na noite.
Separava as pedras o mais que podia,
e pelo mesmo buraco entrevia, no escuro,
entre poeira, várias passagens estreitas.
Qual daquelas teria engolido os seus pais? 165
Mas sabia que aquela rede era vasta.
Ora, os pais teriam podido perder-se
muito longe. Aflita, migrava de bairros
a bairros, junto a caravanas caladas.
Perguntava em vão aos passantes, aos mortos 170
descrevia os aspectos. De nada ajudava.
Ajoelhou-se perante a polícia, contrita:
– Pelo amor de Deus, eu quero encontrá-los! –
Perto um bombeiro ferido, levado na maca,
tendo ouvido-lhe o choro, disse-lhe o nome 175
da praça, tão longe àqueles pés fatigados,
aonde em carros-de-mão carregavam os corpos.
Expostos ao público ou sobrepostos em tiras,
aguardavam os olhos de algum conhecido
ou quem lhes devolvesse o nome perdido. 180
Martha abalou, com toda a força que tinha,
rumo à praça dos indigentes disformes.
Ouvia ainda a voz: – Salva-te, Martha,
pensa em ti, que sairemos ilesos! –
Mas tormento fora maior que a razão, 185
e Martha andava, corria como uma louca.
Sabe Deus de que modo e milagre chegou.
Eram milhares que ali deitavam sem vida?
Não perdeu nem tempo de impressionar-se,
revirava os corpos. Perdia o juízo e 190
recomeçava. Confundia-se em lágrimas,
ora caindo, ora lançando-se aos vários
novos carros-de-mão que chegavam, pesados.
Muitos miravam chorando a cúpula-máter
da Catedral de Nossa Senhora, uma fonte 195
seca de força e constância em meio à ruína.
Que mal meus pais fizeram ao mundo, pensava,
que mal o meu povo fez? Fizera-se o mal,
e ao meio-dia, para extrema surpresa,
mais uma vez as sirenes de rua soaram, 200
mas poucos bairros vizinhos ouviram o rádio:
– Homens de Dresden, máximo alerta, atenção,
um novo imenso ataque virá sobre nós! –
Todo o centro de Dresden estava sem rádio.
Quando de novo as explosões irromperam, 205
viram tarde os aviões de inimigos no céu
mostrando ao mundo que o mal se paga co mal.
Muita vitória de espírito cabe ao poeta
a prantear o que ali se passou de tormento.
Martha lançou-se ao chão, de corpo e de alma, 210
no meio da rua – perdera amor pela vida.
Foi depois de pouco que o velho vizinho,
homem reto, cruzando grátis perigos,
veio buscá-la ao braço, lágrima aos olhos:
– Martha, os teus pais sobreviveram o ataque! – 215
Quem morreu foi Martha. E Lothar tornou
ao hospital, levar a nova aos vizinhos,
cegos, e salvos do inferno, dizendo à filha:
– Cristo è compaixão! – E os pais de Martha
dividindo com leitos sem nome o destino, 220
erguiam calados o pensamento perdido:
– Rogai por nós, pecadores! – repetiam.
Mas a Catedral de Nossa Senhora,
depois de tantas tristes horas intacta,
desabou por inteiro – a cúpula e o corpo. 225


IV.

Quando a milícia quis tomar à força a favela,
Jorge correu, temendo a morte, pracima do morro.
Era bala pra todo lado e malandro correndo
com medo e com raiva. Parecia festa junina
tanta rajada cruzando o céu. Mas nego chorava, 5
tinha corpo no chão. Passava gente na pressa,
parava e reconhecia morto amigo e parente.
Vinha mãe de família feito cantora de ópera,
filho baleado no braço. Rolava de tudo,
rapá, até vovó rolando no chão e berrando 10
pelo marido, mortinho, dando tapa na cara –
tinha, não tinha o quê? Gritava, baixava demônio,
falava em língua. Culpa dele! Vai passear
na faixa de Gaza! Ali o buraco è mais embaixo:
Ouviu polícia chegando fica em casa e se cuida. 15
Deu bobeira, mané perdeu e ficou na sargeta,
sinto muito. Nego não quer saber de conversa.
Foda è quem passa e leva a sério sas coisas,
tipo-caxias, playboy, careta. O cara baqueia:
Nunca viu, não tem experiência de vida. 20
Jorge entrava numas também, mas era de boa.
Matatuva de vez em quando e voltava à real:
dar moral pra zona sul è parada de otário;
chega osomem, pá! na cara, e bola pafrente.
Tem que ser assim, tem que ter esperteza. 25
Só que ali, naquele dia pegou de surpresa.
Ali foi feio, o pessoal ficou – chateado.
Vou contar sa parada: No meido tiroteio
apareceu João – e sabe Deus de que jeito –
fazendo manha, choramingando: – Toma cuidado, 30
pai, senão te matam, vem padentro, te enconde! –
Criança a gente releva e João ficava nervoso,
tinha puxado a mãe e Jorge até que brincava:
– Moço sério, vai virar doutor desse jeito! –
Ia pra escola e professor comia a cabeça 35
dele: – Traficante è criminoso, não brinca.
Gente boa tem que andar direito no mundo,
tem que respeitar polícia! – Como se osomem
fosse pôr comida na mesa de algum favelado.
Ali se alguma coisa foi pafrente, mermão, 40
foi por ca-de Jorge. Se for falar de detalhe,
vão pensar que tá pagando pau – com certeza.
Mas com João a coisa andava bem diferente,
dava dó de Jorge só de ver. Na verdade,
foi melhor do jeito que terminou sa parada. 45
No meido tiroteio, Jorge ficou preocupado:
tava complicado o negócio, mas o moleque
nunca dava trégua, ficava lá insistindo.
Tava com medo, a tropa tava cercando geral:
– Deixa disso, pai, te imploro, vamo padentro! – 50
E foi assim: acabou de falar, caiu baleado.
Jorge? Gosto nem de falar no bagulho direito,
dá desgosto. Levou padentro o menino sangrando.
Morreu, fazer o quê? O cara ficou arrasado,
diz que João se jogou na frente tipo-escudo 55
de salvação. Contava história, falava sem nexo.
Jorge sumiu depois do enterro. Ficava trancado.
Eu que tomei coragem de entrar na casa do cara –
parei na porta do quarto. Nisso, falava sozinho:
– Mataram meu filho, bicho, vou matar 'se maldito, 60
tem desculpa aqui não que gente assim è covarde,
nem viver merece. – Entrei, tentei conversar:
– Jorge, mermão, queísso, bola pafrente, rapá!–
Fez de conta que nem me viu. Chorava de raiva,
só de noitão que saiu. Sentou no topo na laje 65
tipo-olhando pracima, pro mar, parecendo maluco.
Chegava alguém pra conversar, mandava pabaixo.
Eu que pude ficar, depois de muita insistência,
lá na minha. Dá pra entender: João era a vida
de Jorge, tudo o que mundo tinha de puro pra ele. 70
E dizia até que queria morrer, Deus que me livre,
nunca eu tinha visto Jorge falando besteira,
mas o estado do cara era esse. Digo a verdade:
Tinha um incêndio dentro de Jorge – coisa de louco,
dava pra ver estampado no rosto feito uma ruga, 75
traço áspero. Era uma assombração ambulante:
quem não conhecesse, via e saía às-carreira.
Hoje, eu penso, até entendo. Sa vida difícil,
nego crescendo sem saber se basta a comida.
Jorge foi assim, destino ali foi carrasco – 80
velha história: pai morreu, a mãe sem trabalho,
dava nem pra mandar pra escola. Passava era fome.
Dizia que o pai morreu baleado – Deus è que sabe.
Porra de escola, rapá, cultura de Jorge era droga,
acorda pra vida! Sem contar que depois de crescido, 85
quando o cara cai na real, termina no tráfico.
Vai fazer o quê? Conheço um montão de gente
decente lá no morro. Chega a lugar nenhum.
Jorge guardava rancor demais. Na certa sentia
na própria pele o precisar de ajuda e milagre 90
sem ninguém pra dar apoio. Certo è que Jorge
nunca acreditou em justiça. Nem na polícia.
E vendendo pó dava inveja a qualquer traficante.
Era mordaz. Vendendo a preço bom pra riquinho,
tipo-punia playboy viciado – bom que morresse 95
tudo no vício! Dava gosto saber de overdose.
Dizia que nunca falta cliente nesse mercado,
tinha orgulho em contar pra nós história da boca,
que nem no primeiro dia de venda a festa que teve,
depois o rolo com dívida paga com bala na cara, 100
nego implorando por vida e morrendo. Quando João
nasceu, mudou. Tinha mais atenção pelos outros.
Mas agora que tava morto, o negócio era sério.
Falo assim e quem escuta até que se assusta:
tipo-madame torcendo nariz e fazendo cu-doce, 105
tipo-caxias metendo a boca no pobre, no crime,
como se fosse melhor que Jorge ladrão de gravata;
como se Jorge fosse monstro e político santo.
Tanto faz! Mas Jorge esperou madrugada passar
e passou de manhã no bar do Beto, irmão dasantiga: 110
– Sangue bom, negócio è urgente, chama a gangue! –
Revólver na mão, Jorge expôs o plano qual era,
que tinha descoberto o chefe do esquema sangreto:
– É um tal de Duarte o vilão! – Falava com ódio
e de cara nego apoiou: – Tem que morrer 'se covarde, 115
mete fogo, te vinga, mermão, já passa da hora!–
Todo mundo sabia que o velho Duarte era o cão,
matava a esmo. Era a hora daquele palhaço,
já não dava pra liberar, acabou piedade.
Só que Jorge incluiu: – Filho dele eu conheço 120
a escola onde vai! – E nisso o pessoal se assustou:
– Queísso, Jorge? Aí perdeu a noção, na moral.
O filho do cara nada a ver, è outra pessoa.
Vamo conversar melhor, peraí! – Não teve conversa.
Jorge forjou-lhe a morte no ato – cinco minutos. 125
Mas a resposta foi longa e o rapaz se irritou:
Pela primeira vez, apontou revólver pra nós!
Só na paciência: – Beleza, Jorge, te acalma.
Vamo se ver depois e a gente acerta detalhe. –
Foi de noite que, mais tranquilo, na laje molhada, 130
a galera tentou de novo falar verdade pra Jorge.
Ele entendeu. Teve uma hora que até parecia
concordar. Mas Jorge nada no mundo convence.
Quando botaram pressão no cara, disse na hora:
– Olhe, quem quiser sair, pegue sas coisas 135
e saia. Eu que sei o que eu vou fazer, decidido!–
Horas depois, eu na laje ainda enxergava
meu amigo, de longe. Coitado, tava ferido,
rosto todo pro mar, olhar sem nenhuma esperança,
feito doido nas ondas, luar, bebendo tristeza. 140
Era um náufrago. Conheço bem o que Jorge pensava:
– Eu, viver praquê no mundo? O mundo uma praga!
Quero sucumbir de vez, melhor que vida sem rumo,
tipo-intruso e sem amigo e fugindo dosomem.
Paz pra mim não tem, melhor morrer de verdade. 145
Eu, me render? Ladrão que prende volta pior;
tanto ladrão por aí governando impune, quenada!
Cara, matarem meu filho, do nada, dá pra esquecer? –
Eu que sei. Não tava com ele na hora escutando,
mas sei, conhecia o jeito dele: – Nem a vingança, – 150
pensava, – vai trazer de volta o meu filho,
nem o nervosismo meu, eu sei que não presta,
mas se nem vingaça eu posso ter, que me resta?
Guerra tem que ser! Duarte vai ter que pagar.
Ué? Se for verdade que um criminoso não vale 155
nada pro mundo, deixa eu morrer de vez co rapaz,
vai fazer diferença nenhuma, dane-se o resto,
a vida minha è essa; nasceu fodido, se foda. –
Tava desnorteado, tipo-roído por dentro;
era o dilema, nem sabia o tamanho do peito: 160
– Mato ou não? – Passou a noite vendo estrelas.
Eu, que não sou otário, liguei pro Beto avisando:
– Manda a galera, que Jorge vai fazer besteira,
negócio vai terminar mal! – Fomos seguindo
Jorge de carro. Chegando lá na porta da escola, 165
entra-e-sai do diabo, vinham vindo as crianças.
Nisso, mermão, tudo se deu num piscar de olhos:
Jorge, detrás dum carro parado, saiu atirando.
Quando um moleque caiu ferido, a mãe se jogou:
– João, levanta! Socorro, gente. – O jovem responde: 170
– Mãe, me deixa morrer não! – Saímos do carro:
– Porra è essa, Jorge, pára com isso, maluco! –
Quando Jorge viu que aquele moleque era outro,
o cara pirou: – Puta, Beto, quem que eu matei? –
Teve tempo nem pra resposta, que nisso chegava 175
viatura abrindo fogo e o combate foi duro,
luta toda a torto e sem regra, fogo sem trégua.
Olhe: Aquilo ali virou depósito de pólvora!
Virou crepúsculo aquela manhã de névoa vermelha.
Bala voava pra tudo què lado e gente morria, 180
sangue correndo feito enxurrada pela calçada.
Era uma fumaça, rapá, que não se viu nesse mundo,
todo mundo com medo e correndo e couro comendo:
– Cara, eu sou um monstro! – Jorge dizia, ralado,
– que degraça queu fiz, deixei até de ser gente! – 185
dava pra ver o frio do suor escorrendo no rosto
tipo-gota de morte, uma coisa pálida, estranha.
No desespero, a galera fugiu, entrando em bueiro,
buraco, qualquer lugar que visse. Jorge na pira
tava abrindo a porta do carro – quando caiu, 190
desfeito em choro e sangue, mas sem ódio no grito.
Olhou pro céu, miserável, todo encharcado de bala
estribuchando e pedindo perdão, alguma clemência
que homem nenhum podia lhe dar. Mas ele sabia,
naquele remorso agonizante, que a vida è essa. 195
Todo mundo tentou avisar. Agora era tarde.
Vinha gente da rua com raiva, rindo de Jorge:
– Morre, infeliz, diabo te leve! – Mas Jorge caído
lembrou João. Tinha lhe prometido na angústia
que nunca mais mataria. Agora sofria, coitado, 200
nós chorando em vão aquele amigo querido,
Jorge ferido de morte, gemendo feito cachorro.


V.

Junto à tormenta anunciada de longe,
surgiam do fim do mar em crescente perigo
quarenta e um navios de linha, pujantes
trunfos da frota franco-espanhola, temíveis.
Houve comoção entre as naus de Britânia! 5
Horácio Nelson, a bordo da barca Vitória,
mirando as largas formações coa luneta
a comando de trinta e três navios, ponderava
enquanto as hostes geravam linha de guerra.
Chegada a hora, esperada atenta e com ânsia, 10
fora expedido o sinal de batalha: England
expects that every man will do his duty!
Nelson, porém, ouvindo em torno guerreiros,
antecipava o pungente suor que os movia,
fogo e frio, e dura angústia nos olhos. 15
Era patente o que o brio dos bravos temia
como soando murmúrios duns para os outros:
– Deus dos céus, jamais se viu esquadra
tão extensa! Aqui morremos, amigos,
chega ao fim a pátria. – Alguns incluiam: 20
– Vês o tamanho daquele mastro à direita
junto a canhões? E temos menos navios! –
Outros, menos fatais, não menos temiam:
– Sabe Deus os poucos de nós que veremos
vir amanhã! – E manejando petrechos 25
d'armas pesadas tibubeavam no império:
– Tenha dó de mim o mar que me espera! –
E mesmo homens de estado maior insistiam:
– Dá lembrança a meu pai se sobreviveres.
Dá consolo a meu filho se vires – sabiam 30
(como não?) que da grave batalha iminente
dependia o futuro e destino da pátria.
Era a salvação dos amigos, dos caros,
do povo e do rei, a mais urgente vitória
que aos ombros seus pesava como oceano. 35
Quando veio aos ouvidos da massa a nova:
que não seria em linha o combate dos bravos,
mas que a frota dividindo-se em duas
como um relampo avançaria co ataque,
frontal, quebrando ao meio a linha inimiga, 40
lutando lado a lado; e quando atinaram
co custo de vida e coragem de tanta audácia
contra uma esquadra ainda mais numerosa,
houve desespero por entre os peritos:
Trafalgar era a tumba do povo britânico, 45
era naufrágio certo da frota e da história.
Ora, Nelson, temendo-lhes ânimo incerto,
como a trompeta conclamando ao prélio
fez ouvir ao Vitória: – Homens do mar,
de vós eu quero saber uma coisa somente: 50
Vossa causa de guerra qual, marinheiros?
É por um bem ou por um mal que lutais?
Se algum de vós è por um bem que peleja,
tome com brio e bravura as armas da pátria,
corra aos canhões, imponha fogo a ferozes! 55
Esses homens hostis sedentos de império,
são conquistas vãs e visões que cobiçam!
Imoderados, espalham terror pelas terras,
medo aos mares. Nós, porém, que sofremos
não pelo bem de poucos homens intrusos 60
e sim pelo bem que traz à vida constância,
reto império sobre as causas, verdade
com Deus e respeito pelo cetro do justo,
nós do mar ergamos forte a bandeira
contra o crime de povos pouco avisados, 65
de fato abusados pela astúcia das hábeis
mãos que os dominaram. Clamam concórdia
mas dissipam sangue bebidos de morte.
Inscrevem o nome da liberdade nas clavas
mas oprimem pequenos cortando cabeças. 70
Heróis do mar, está traçada a derrota
da nossa terra pela astúcia de França!
Basta um erro e vereis Britânia perdida,
entregue à guilhotina, derrota dos reis
e dos retos. Não somente o rei vos carece: 75
Pensai nas vossas mães e filhas, nos fracos
entre os vossos, fracos, sim, repitamos,
não contudo a menos caros e amigos
rogando em dor a Deus por vossa vida:
A sua esperança sois agora vós! – 80
Entre tensa angústia, uns abraçavam-se,
olhos rubros, mas outros a quem o destino
não deixara em casa ninguém, indassim
batiam forte ao peito, rezando promessas.
Lançando mão às armas, a nave fitava 85
como eterno pai a figura de Nelson.
Nelson, contudo, erguendo genuflexos,
deste modo orava a pequenos e a grandes:
– Marinheiros! O vosso dever è severo!
Quem de vós por amor à vida covarde 90
quiser tomar embora o caminho de casa,
junte-se a naus de França e tome seu rumo.
Mas se algum de vós considera o dever
aos pais maior que a vida salva sem honra,
ide às armas, mostrai a vossa valência, 95
nada temais. Se morte è vitória, morramos! –
Neste momento ecoou-se uníssono o brado
de guerra dum extremo ao outro da esquadra:
– Heróis! – Horácio Nelson disse – não vos abale
o fardo da frota inimiga. Ali se congregam 100
homens parvos sem viço e perícia de lidas.
Tememos menos que somos deles temidos.
Eu vos prometo em nome de Deus e da pátria:
Se apenas lutardes co vosso garbo de sempre,
nenhum navio, ouvi-me, nenhum perderemos, 105
antes levaremos dezenas de alheios! –
Já soavam de longe disparos esparsos,
tiros, canhões, porquanto as duas colunas
agora avançavam destemidas ao corte
contra a linha inimiga. Navios desatentos 110
eram pronto cercados, por dois ou por três,
e sem trégua minados pelos homens de Nelson.
Feridos, feriam mais. De dentro o manejo
próprio dava a canhões o rumo certeiro.
Fora, atiradores de todos os gêneros 115
miravam em grupo os homens vis, acertavam
tiros ao peito. Jogava-se mortos ao mar:
– Nelson, – disse-lhe o capitão do Vitória –
retira o manto militar do teu corpo,
senão te reconhecem de longe e te matam! – 120
– Este manto, – Nelson retruca – estas medalhas
exibem verdade que não se pode esconder! –
E assim afligia quantos grandes o viam
de todo exposto. Quando foram cercados
pelo rigor do Redoutable e de mais, 125
a luta deu-se corpo a corpo e sem regra.
Balas atravessavam as velas e os corpos,
canhões comiam madeira vorazes por vidas,
e vinham procelas ameaçando de longe.
De cima do Redoutable perto dum mastro, 130
eis que o soldado atirador de perícia
manda mensagem ao chefe da frota francesa:
– Nelson à mira! Permissão para o tiro? –
Villeneuve em comoção lho consente.
Foi por acaso que viram Nelson, caído, 135
mão ao peito e calado no meio da luta.
Quatro heróis acorreram: – Calma, guerreiros, –
disse, – não assusteis a bravura dos outros. –
E pondo-lhe à frente do rosto um lenço, suado,
levaram-no abaixo, não porém instantâneos, 140
como Nelson, vendo ao timão marinheiro,
fez parar os quatro e deu-lhe instruções
de melhor manejo. Quando o médico veio,
Nelson somente tendeu-lhe a mão impedindo:
– Caríssimo amigo, conseguiram matar-me! - 145
E nada se pôde fazer: Fora atingido
atrás do ombro e perturbada a medula.
Quando o capitão acorreu, aterrado,
levando à boca, aos olhos fracos a mão
e vendo Nelson cercado de amigos, fiéis 150
e tristes, deitado ao chão em lenta agonia,
não se conteve o homem de guerra clamando:
– Como foi isto, Nelson? Começa a batalha
e já parece perdida a nossa esperança.
Quando souberem do triste fato que abraças, 155
qual no mundo força contém marinheiros? –
Nelson, porém, resoluto, impôs-lhe silêncio:
– Não ofendas, caro, o valor de meus homens!
Já não sabes quem os formou como heróis?
Estes bravos hão-de cumprir seus deveres, 160
pois, amigos, não por mim è que lutam,
mas por causa muito maior e mais nobre
que a vida dum homem só. Pelejam inferno
pela pátria. Quanto a mim, marinheiros,
posso já morrer, que já lhes mostrei 165
a estes homens o bom manejo das armas
como valor da constância mãe de vitórias.
O meu andar por estas naves de guerra,
a minha vida tornou-se toda supérflua.
Tanto amor ao dever emoveu estas almas 170
que em vida apenas atrapalho valentes.
Formei um time fiel e todos os homens
nesta frota conhecem as suas tarefas,
lançam-se a tanto sem carência de ordens.
Mal notarão, amigos, ausência de Nelson, 175
porquanto apenas vitória aqui se requer
e repito, se a morte è vitória morramos! –
Passavam-se longos instantes, horas doridas,
e muita vez o navio tremulava por dentro,
enquanto fora o mar mesclava estandartes 180
e as naves guerreiras, sem nenhuma ciência
da morte de Nelson, prosseguiam impávidas.
Eram rendidos navios de porte maior,
alguns afundados e confundidos peritos.
Fora quebrada enfim a linha inimiga 185
pela Grande Armada de Nelson, irônica,
dira lição às incastas ganas de França,
de Espanha: que não se atrevam desmedidas
à luta inglória contra mestres do mar.
Dos homens bravos nenhum navio se perdeu! 190
Nelson não viu, porém, o fio da contenda
quando as naus atormentadas renderam-se,
passadas horas extremas, de fogo e de morte
fugindo unidas à luta, tormenta e naufrágio,
prestando ao mar o testemunho dos corpos 195
no abismo e nas ondas. Nelson via somente
amigos caros e os macerados no amargo
junto ao chão imundo. Do limbo entregava
o derradero sopro ao extremo mistério,
deixando atrás de si no suspiro imortal 200
apenas rouca frase: – Deus e meu povo! –





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