EUSTÁCIO DE SALES

O CASO DE AMANDA

Index



© Greg Ory, 2013 – 2018, Record D 3, Engl. Amanda's Case, Hampshire, decasyllabic verse, farse in five acts, 2253 lines, dramatic poetry, Portuguese.





FARSA EM CINCO ATOS


PROCÓPIO, banqueiro
AMANDA, sua esposa
MAURÍCIO e
PATRÍCIA, seus filhos
ROGÉRIO, mau devoto
DEUSDETE, empregada

Dois policiais
Dois enfermeiros


CENÁRIO: em casa de Procópio e seus recintos
TEMPO: Não sei, só digo isto: O tempo atual não teria como ser.

GRAFIA: prosografia varidada





ATO I.

Cena I.

PROCÓPIO. AMANDA. MAURÍCIO.
PATRÍCIA. ROGÉRIO. DEUSDETE.

Rogér. Ponde o copinho, filhos, cá na mesa
A fim de olharmos a bênçam do céu.
Delirante paixão seduz o incauto
E prestai atenção que a vida engana.
Este mundè covil de fornicantes 5
Onde o pecado pulula sem freio.
È necessário coragem demais
A tanta flama e tentação vencer.
Ou preferis a tortura do inferno?
A libação dos vis na juventude 10
Pelos botecos toda sexta-feira,
A labareda de excêntricos bailes,
Credes que a Deus agrade a putaria?
Grande ilusão vos desperdiça a vida
E quando enfim reconheceis è tarde. 15
Por isto peço, filhos, vossos olhos
Voltai à vida e jaez de profetas.

Aman. Escuta comō é, Maurís, a vida!
Esta família luta em vão, Rogério,
Pecado triunfando aos olhos vistos. 20
Meu filho chega ao lar de madrugada
E vive doido e sem eira nem beira!

Maur. Queísso, mãe?

Aman.                             Quïeto! Fala logo:
Ontem à noite, por exemplo, diz
Aonde foste, malandro! Calado? 25
A hora passa e vou te lamentando,
Rapaz, que vida sem vergonha levas.
A minha cara já se encheu de rugas
E a cabeleira vai ficando branca.
Minh alma apunhalada não te importa 30
Nem o desgosto que trago!

Maur.                                          Mas como...?

Aman. Perguntas? Deixa de lado o teatro!
Toma muito cuidado com Maurício!

Maur. Que queísso, gente?

Aman.                                     Olha, Rogério,
A vidè dura mesmo! Todo dia 35
Aparece no mundo algum boato
Sobre meu filhō, um pior dō outro.
Aquela porta da sala, Procópio,
Podes cerrar, pelo céu, para sempre!
Não, eu preciso falar, meu querido, 40
È nada menos que a honra dum lar
Que aqui defendo, pois esse menino
Quer acabar coa paz duma família.

Deus. Mas não se exalte demais, Dona Amanda!

Aman. Fala, Deusdete, diz se estou mentindo, 45
Fala, infeliz! A madrugada inteira
Passo desperdiçando um pranto amargo,
Mar que me resta. Quanto mais eu morro
Maurício goza mais. Bebe sem sede
Este ordinário, carente de inferno. 50
Ai, dissabores cruéis que trouxeste
À própria casa. Perdeste o juízo?
Nem todo um livro pudera escrever
O precipís a que lançaste os teus.

Maur. Ave Maria, o sermão da beata 55
começa, a pregação jà foi bem fundo!
Fala, Patrís, onde estive esta noite?
Virou pecado, agora, visitar
Um amigo estudante? É pecado
Estudar para a prova e debater 60
Um projeto de lei? Então pequei!

Patríc. Euzinha estava lá que sei. Vi tudo!

Maur. Quando rolou āquela cervejinha
Do anfitrião, do venerável pai,
Eu nem direito vi. Bebi somente 65
Um copinho, molhei o bico e pronto.
Mamãe duvida? Eu non tinha tempo
E tinhè coisa a fazer e aprender.
Assim cheguei nesta casa de noite,
Surpreso ao ver acordada mamãe 70
Orando pragas. A boca virou
Altar de maldições, fiquei com medo.

Aman. Viste, Rogério? Assim que me trata
Este indivíduo. Em casa decente,
A família cristã se junta à mesa 75
E ali se expõe um caso e se discute
Com amor e na paz. Assim se acalma
E se resolve o problema de casa
E fica tudo ali. Estirpe nobre
De gente escuta os pais e se respeita, 80
Sabes, Rogério? Faz a diferença.
Os bons ensinam e são venerados.

Deus. Fale com calma aos jovens, Dona Amanda!

Aman. Aqui, meu caro, estilè o que se vê:
Os pais amedrontados frente à mesa, 85
E a prole transbordando o desrespeito.
Son trovadores de todo impropério!
Nenhum debate se dá sem tumulto,
Em toda parte irrompe grito e mais
Palavreado misturado às preces: 90
E assim caminha família sem rumo.

Rogér. Nesses momentos, pai què pai educa:
Procópio, toma uma atitude, ensina!
Sabes què grande o dever de parente
E que no céu el homem presta contas 95
Dum filho mau e seus atos perdidos.
Não hesitar, amigo, quando o tempo
Exige a mão que pune et orienta.
É melhor prevenir a perdição
Das almas preguiçosas pelo fogo. 100

Proc. Ouviste, filho, a palavra dum santo,
Profeta e bom! Abençoado o dia
Em que Rogér adentrou esta casa
Abandonada! Seguirei lo exemplo
E te pergunto como cabe ao justo: 105
Eu punirei teu despautério como?

Maur. Non sei, papai! Ordena e vamos ver,
Eu cumpro sempre, toda vez cumpri!

Proc. Assim se diz, gostei de ver, rapaz!
Ouviste, Amanda? Maurís obedece, 110
Nem tudo está perdido nesta casa.
Eu sempre tive esperança nos jovens,
Nò é verdade, Rogério? Que dizes?

Rogér. Cabe ordenar ao pai, portanto ordena!
Veremos logo atè onde obedece. 115

Proc. Parece justo que Maurício passe
Mais tempo em casa relendo profetas.

Maur. Impossível!

Aman.                   Calado!

Proc.                                 Decidido!

Maur. Okay, então, vou ler, vou ler, okay?
Eu vou mudar, obrigado, Rogério. (sai.) 120

Rogér. A juventude perdida do mundo...

Patríc. Nossa, mas que exagero, minha gente,
Maurício mal bebeu...

Aman.                                 Agora, filha,
Falemos sério que teu casè grave,
Quase pior. A lista dos teus atos 125
Vai a bem longe! Basta olhar na cara
Da tua estirpe e reconheço estrago
Em teu caráter. Agora confessa:
Queres o quê desta vida, menina?
Se penso em ti, padeço em desespero 130
E vivo como condenada à morte.

Patríc. Ai ai ai, que marmotè esta, gente?

Aman. È cada coisa quessa moça veste
E cada baile doido que frequenta
E cada tipo de amigo que escolhe... 135
Eu quase desfaleço enquanto penso.
As armas que o diabo prega contra
A vida reta, nada disto importa.
Quanto mais me recordo mais me abalo:
Teu casè triste e já chorei por ti. 140

Patríc. Olha que lindo e que tocante, conta!

Aman. Esse namoro tam longo e profundo,
Queísso, gente, sejamos sensatos,
A que ponto chegamos, minhā filha?
Devo dizer que proveito perfeito 145
O namorado, mancebo sem rumo
Tirou de ti? Agora então te calas?
Pois já passou da hora e já repito:
Tome vergonha esse despudorado!

Proc. Tem paciência coa pobre Patrícia! 150

Aman. Ora, Procópio, que mais o menino
Tem de esperar e que mais a provar?
Isso nem ouso dizer, eu nem sei,
Meu Deus, se resta nesse templo santo
Algum recanto intocado a buscar. 155
Homens de bem perdoarão contudo
O pranto incontrolado que me afoga
Desde que vi la verdade: Patrícia
Perdida pelo mundo e seminua.
Age, Procópio, por Deus, intervém! 160

Patríc. A intromissão, mamãe, encheu meu saco:
Amo e sou muito amada e quero mais!

Rogér. Então, se queres mais, o mais quem dá
È Deus no altar. O casamentè paz!

Patríc. Sermão bonitè sermão praticado, 165
Macaco olhando o próprio rabè lindo.

Proc. Patrícia!

Rogér.                Vida proba...

Aman.                                      Conjugal!

Patríc. E quem disse que não nos casaremos?
Basta ele terminar a faculdade
E já jurou que se casa comigo! 170

Deus. Ai ai, Patrícia, não me faças rir
Porque te digo: Desse tipo tem muito
Jurador de promessa e querem só
Tirar proveito. Na hora do vamos
Ver, querida, peão vai tudo embora. 175

Aman. Ouve, Patrícia, Deusdetè mulher
Experiente!

Rogér.                    Essa sabe è coisa!

Proc. Sabe o quê?

Deus.                        Enfim! Seja como for.

Patríc. Que confusão, ninguèm sabe o que fala
E perco tempo. È nisto que dá 180
O converseiro de quem se incomoda
Com vida alheia. Querè ser feliz,
Viver em paz! Um falatório destes
Nem merece atenção e nem resposta:
Resposta eu dou saindo e logo, fui! (sai.) 185

Deus. Spera, Patrícia, não foi isto o queu... (sai.)


Cena II.

PROCÓPIO. AMANDA. ROGÉRIO.

Proc. Assim termina a fraqueza dos jovens.

Aman. Perdão, Rogério!

Proc.                               Que vergonha, amigo!

Rogér. Encerrada a sessão educativa,
Meus amigos, falemos do dinheiro, 190
Imperioso dom do qual depende
A bem dizer a salvação das almas:
Assunto urgente, caso raro e grave!

Aman. Meu Deus, que assunto?

Proc.                                         Queremos saber!

Rogér. Nem sei por onde começar, mas digo: 195
Esses exemplos raramente vistos
Duma assembleia universal non bastam,
Pois toda igreja custa o seu dinheiro.
A nossa ainda custa até mais caro,
Porque na nossa a pessoa se salva: 200
Ali non tem falatór, ali salva!
O durè quando falta o necessário.
O apoio financeirè para poucos,
Pois é preciso investir um milagre
E milhões a manter o templo em pé. 205

Proc. Que queísso, Rogério, que besteira!

Aman. Dinheirè solução, problema não!

Proc. Non posso permitir que a nossa igreja
Venha a falir por culpa minha, nunca!

Aman. Sinceramente, Rogério, non cabe 210
Agora hesitação, e não te faças
De rogado: Jà disse que ajudamos!

Rogér. È dessa ajuda mesmo que preciso,
Dinheiro e nada mais! Melhor, corrijo:
Caridadè bonito, ajuda aos pobres, 215
Só que pobre non paga nosso templo.
Explicarei melhor o que se passa.

Proc. Fala, mal consigo esperar!

Aman.                                              Agora!

Rogér. Aqui está, portanto, pronto o novo
Orçamento, uma bomba a novidade: 220
A cotação dō ouro tem subido!
Fico me perguntando comō é
Que pagarei lo Hall da Salvação.
Encomendei pilastra d'ouro grosso,
Material maciço, e vem chegando. 225
Mas a verdadè que a flutuação
Dō ouro engana. Pagaremos caro
Coisa que me disseram ser barata!
Fazer o quê? Tem que ser ouro mesmo,
Pois o Templè visão do Paraíso, 230
Nò é folhagem só de superfície:
Espelho da verdadè ouro puro!

Proc. Pois eu falei, Rogér, e repeti:
Rogér, escolhe logo a tua igreja,
Eu vou-te dar, escolhe e vou comprar! 235
A caridade dos bons te confunde?
Quando o projetè pregar a palavra
Eu gasto tudo, invisto, eu propicio.
Non quero ver, por cristã piedade,
Nenhuma conta de nossa irmandade 240
E não me ofendas! Passa este orçamento
Ao secretário lá do banco e pronto!

Rogér. Frente a tocantes exemplos, insisto:
Em verdade, Procópio, sou um homem
Sem mérito nenhum, de vida simples 245
A bem dizer, e recuso favores!

Proc. Favores não, deveres, e non tires
De minhas mãos a chave para o céu:
Eu quero me salvar, eu vou pagar!
O que estou dandè pouco e comedido, 250
Presente simples è quase avareza!
Eu sou pessoa má, eu dou do excesso,
Rogério, resta-me aindūm império.
Eu posso dar è tudo e tudo sobra:
Posso dar o meu banco pelos pobres 255
E nada mais serei que escondedor
De meus tesouros, a verdadè esta!

Rogér. Calma, Procópio, que te passa, amigo?
Guarda estas justas emoções aos santos:
Homens de bem merecem mais quē eu, 260
Que já te vejo no rumo correto!
Há muitos modos de ser caridoso
E cada qual contribui como pode.
Se preferires, ir doando aos poucos
Também è dar. O Templo te agradece! 265

Aman. A tonelada dē ouro, Procópio,
Não me venhas dizer que foi bastante:
Um templo inteiro está ēm construção!
São pilastras, o altar, o chão e teto:
A salvação, meu caro, è muito cara! 270

Proc. Dez toneladas!

Rogér.                          Quantas?

Aman.                                         Bom começo!

Rogér. Estou confuso e non posso aceitar!

Aman. Non cabe a ti recusar, meu amigo,
Vem de Procóp e dos céus o presente!

Rogér. Quē ouço?

Proc.                   Ouro jamais pagará 275
La redenção que Rogério nos trouxe.
Eu poderia até morrer de fome
E não seria grande o pagamento!

Rogér. Este abandono de mundo e de coisas
Tão bonito comove os meus fiéis. 280
Eu mandarei gravar no fundo d'ouro
Os vossos nomes: Amanda e Procópio
Serão louvados todos os domingos!
Que caridade, amigos, benfeitores
Do Impér Universal da Salvação. 285
Meus olhos choram só de imaginar
As emoções do Paraíso agora!
Son tantas existências redimidas!

Aman. Isto aí nò è nada, nem começo!
Cumprimos um dever e muitos outros 290
Cumpriremos aindā: Eu prometo!

Proc. Escrito está: Quem quiser ir ao alto
Deixe de lado a luxúria do mundo.
O caso está resolvido, Rogério!
Passa lá no escritório se puderes: 295
Tem uma carta para ti, de hoje,
Parece urgente!

Rogér.                             Muito obrigado, sim,
Irei buscar! A mesma remetente?

Proc. Temo que sim!

Rogér.                         Non tenho paz na vida!
Mas istè outra história, tema à parte. 300
Quero fazer apenas um pedido:
Se for possível, que fique entre nós
A vossa ajuda ao Hall da Salvação.

Proc. O caso dessas cartas, meu amigo,
Requer prudência. Mas o caso nosso 305
E nosso auxílio requer discrição
E nesta casa silêncio non falta.

Rogér. Com isto não me inquïeto. Conheço
A retidão do lar que aqui me acolhe,
Pobrezinho que sou. E quanto a cartas, 310
É melhor que o problema se resolva.

Proc. Isto sim, mas non posso proïbir
A remetente (e como poderei?)
De remetê-las. Não te preōcupes:
Com paciência tudo se resolve, 315
Mesmo a flutuação dō ouro, calma!

Rogér. Essa insistência muito me incomoda!
Mas que fazer e como se livrar? (saem.)


Cena III.

AMANDA. DEUSDETE.

Aman. Gente, quē homem divino esse bispo!
Mas que diabo de cartas sõ essas? 320
Deusdete, faz favor!

Deus.                                    Mas Dona Amanda...

Aman. Como demoras, pelo amor de Deus!
Abre as janelas já, non percas tempo!

Deus. Mas o que foi?

Aman.                         Um segredo, Deusdete!
Sabes guardar um segredo terrível? 325

Deus. Sou uma cova!

Aman.                          Fala baixo então!

Deus. Meu Deus, que foi? Abre essa boca e fala!

Aman. Ele tem outra!

Deus.                        Impossível, Dona...

Aman. Cala-tē ouve, infeliz!

Deus.                                     Fala logo!

Aman. Essas cartinhas inda me matam, 330
Uma depois dā outra: sem vergonha!
Olha, Deusdete, dei tudo o que pude,
Tudō, e agora o que ele paguè isto!

Deus. Mas como assim?

Aman.                               Este homem è tudo!
Sem ele eu morro e se viver me mato. 335

Deus. Comé quié? Entendi bem? Procópio...

Aman. Mas que Procópio? Procópio là vive?
É de Rogério que falo!

Deus.                                      Meu Deus!
Mas Dona Amanda, que escândalè este?
Rogério? Cada esquina tem melhor 340
Que um cara desses, conheço o tipinho!
Comō é que consegues, minha amiga,
Que coisa viste num traste daqueles?

Aman. Pois meu amantè demais diferente,
Deusdete, nosso amor è tão divino. 345
Rogério diz palavras que me tocam,
Juras que nunca ninguém me fizera.
Sabes, querida, eu teria motivos
De condenar essa conduta estranha,
Um sentimento que o mundo despreza. 350
Mas não, jamais, foi o céu que mandou.
Se conhecesses, amiga, o meu gozo,
Calor que me consome cabo a rabo:
Nò há melhor emoção nesta vida!

Deus. Toma cuidado com juras de amor! 355

Aman. Basta Rogér entrar queu já me tremo,
Paixão que se apodera de meu corpo.
Eu vejo e fico tonta de delícia,
Meu sangue ferve, meu peito balança.
Nò é diabo nenhum que me inspira, 360
È tão bonito o beijo de Rogério,
Rogério me possui, sou dele e só!

Deus. O casè sério, devemos agir!

Aman. Mas que fazer, criatura de Deus?
Eu vou dormir e não consigo e penso 365
Nos seus abraços, beijos e batidas.
Minh almè seca como são desertos!
Rogério deu-me da seiva do alento,
Fez-me feliz, ensinou-me a viver.
Minha filha, meu corpè todo ardente: 370
Quanto mais elevo aos céus uma prece
Mais me recordo do calor fervente!

Deus. Essa eloquência toda não me agrada.
Toma cuidado com homem casado,
Dona, Rogério tem esposa e filhos. 375

Aman. Mas tem também um coração, Deusdete!
Eu não me engano e conheço este mundo,
Conheço o coração do meu amado!
Rogério me deseja e me redime:
A minha vida sem Rogér è morte! 380
Que carè esta, minha amiga, fala:
Minha alegria agora te incomoda?
Estou no céu, encontrei a razão
Da minha vida e meu amor eterno:
Posso morrer e morrerei feliz! 385

Deus. Uhé? Mas se é assim, qual o problema
De tanta carta? Rogério te ama!

Aman. Pobre inocente mulher que tu és...
Para e reflete, criatura, um pouco!
Nunca ouviste falar em Satanás? 390
Demôn acaba coa raça dum homem,
Inventa intriga, engana até visão.
Uma coisa aprendi na minha vida:
Contra o diabo nossa curè pouca!
È Satanás, mulher, è Satanás 395
Tentando sequestrar o meu amado:
Alegria de Amanda dura pouco!
Uma coisa de fatè muito certa:
Quando Satã se esforça contra nós
A vida se complica, amor também – 400
È isto aí, menina, o casè grave!

Deus. O casè muito mais grave queu cria.
Mas uma coisè certa desde sempre:
Quando se acusa sem saber verdade,
Quanto maior o equívoco pior. 405
Refletir è melhor que maldizer:
Quanta certeza tens da traïção?

Aman. Ah, que queísso, Deusdete, me poupe!
Correspondências longas que recebe,
Non faltam provas da mão do diabo! 410
Olha bem nesta minha cara e diz:
A remetentè fiel inocente?
Vivi demais, ouvi distintos casos,
Jà decifrei segredos indescritos.
Issé pecado e paixão perigosa! 415

Deus. Ah é? Então Dona Amanda jà leu
As cartinhas de amor do tal demônio?
Reconhecer uma letra do inferno
Agorè fácil? Amanda, cuidado,
Nò é assim que se distingue a coisa. 420
Um tal estudo exige mais que medo!

Aman. Ô gente, quêqueu fiz de mal no mundo,
Eu fiz o quê que merecesse isso?
Estou confusa e preciso de ajuda!
Eu sei que quem è nobre não repara 425
Cachorrada no mundo e cavalada
E, minhā filha, eu perdoei de tudo:
De falsidade, avereza a calúnia,
Non teve coisa, rancor eu non guardo!
Mas olha aqui: Rogério vou deixar? 430
Non tem pecado pior que trair
Um coração tam puro quanto o meu.
O mundo sabe da força que tenho
E nem me abalo com qualquer ofensa.
Mas este gesto imoral de Rogério... 435

Deus. Misericórdia!

Aman.                       Merece perdão?

Deus. A digressão moral è bem profunda,
Mas a resposta não me caibo a dar.
È bom passarmos da fala às ações:
Será melhor desvendar de uma vez 440
O escandaloso segredo dos selos!

Aman. Sabedoria vejo que possuis!
Mas que fazer então e como agir?

Deus. Existe apenas um plano, menina.

Aman. Fala, infeliz! Quero ouvir em detalhes 445
O plano e começar sem mais demora.

Deus. Basta encontrar a mão apropriada
Ao furto, Amanda, desses papeizinhos.

Aman. Ah, coitadinha de ti, Deusdetinha!
Procópio guarda a coisa a sete chaves 450
Ou já nem sei se precisa de chaves!
Nunca avistei qualquer que fosse carta
E procurei, mulher, de cabo a rabo.
Eu vou fazer o quê? Prossigo como?

Deus. Nò é preciso ser grande espião 455
Para saber que neste mundo inteiro
Nunca existiu ūma carta segura.
Nenhum papel se è papel de verdade
Jamais resiste à mão que se interpõe:
Bastou chegar ladrão nā hora certa. 450

Aman. O ensinamentè mesmo filosófico,
Mas quem vai pôr a mão naquelas cartas?

Deus. Isto veremos!

Aman.                       Então me prometes?

Deus. Se me ajudares...

Aman.                               Juro que te ajudo!
Dá-me esta mão e juremos por tudo: 455
Procuraremos juntas essas cartas!
Deusdete não descansa até saber
Com que cadela Rogério me trai.
Vamos, amiga, dêmos logo as mãos!

Deus. Antes que encontre as cartas não descanso: 460
Jurado está!

Aman.                     Pelo céu?

Deus.                                         Pelo céu!



ATO II.

Cena I.

MAURÍCIO. PATRÍCIA.

Maur. Quistór è essa, Patrícia?

Patríc.                                          Mas calma,
Esses acessos dē ódio son vãos:
Era melhor eu nem ter avisado.
O homem sábio não resiste a fatos, 465
Primeiro aceita, combate depois.

Maur. Fala a verdade! Então o santinho
Da boa igrejè santim do pau oco?

Patríc. Filho de Deus! Non vi cons olhos meus
As conversinhas de amor que trocavam? 470
Ouvi promessas, Maurício, palavras
Que nunca alguém imaginara ouvir
Duma pessoā do estilo do bispo!

Maur. Ah! Impostor! Pois eu quebro-lhe a cara,
Jà faz è tempo queu estou buscando 475
Ocasião de acabar coesse cara!

Patríc. Qualquer emoção, rapaz, ou chilique
Destruirá destes nossos desejos
O fim, o ensejo e sucesso dos meios.

Maur. E que farei então? Devo esperar 480
Quesse infeliz indivíduo se aposse
Duma mulher casada e mãe de dois?

Patríc. Isto o bispo jà fez, amor, faz tempo.
Além do mais, as traïções requerem
Dois elementos, e mamãe tem parte... 485

Maur. Comé quié, Patrís, esse negócio?
Estás lançando uma luz dubiosa
Sobre mamãe! Mamãe merece isto?
Uma mulher inocente nos modos
Vive no céu, e da nuvem que a cega 490
Nem percebe, coitada, o que se passa.

Patríc. A coitadinha de Deus è tam pura
Que já mandou Deusdete averiguar
Com vista grossa os papéis de papai!
É porque os céus levantaram suspeita 495
Doutra devota que o bispo tragou,
E cujas cartas é papai quem porta.

Maur. Ah, desgraçado, non passa de hoje!
Pega um punhal porque quero matar:
Cravo-lhe a faca bem fundo no crânio! 500

Patríc. O gestè grande e as intenções heroicas,
Mas poupa o sangue, por amor divino.
Há modos mais elegantes de agir.

Maur. Vai-te danar com tamanha ironia!
É de barata, Patrís, o teu sangue? 505
É de aceitar atrevimento desses?

Patríc. Olha o machão, que bonito e que forte!
Vai, meu querido, morrer na prisão
Por cado bispo do céu, de Rogério.

Maur. Pois eu me mordo, desejo-lhe morte! 510
Ou deixarei viver? E se eu deixar,
Fazer o quê, ficar aqui parado?

Patríc. Nada melhor que forjar um flagrante:
Armar encontro de amor neste lar
E aqui trazer papai na hora certa! 515

Maur. Expor papai então à baixaria,
Homem de bem e de tanto valor?

Patríc. Bota valor! Seus valores começam
Tipo a partir de noventa milhões...

Maur. A pessoa trabalha e fica rica! 520
A quem mais possuir, mais se dará.
Quem pouco tem, a tal se tira tudo.

Patríc. Que interessante essa avaliação:
Mamãe então era pouco demais!
Papai que a tinha já perdeu faz tempo... 525

Maur. Ah, por favor, Patrícia! Eu non quero
Que aqui se monte um teatro barato
E que papai assita a palhaçada.

Patríc. E que farás de melhor contra o bispo?
Cravar a faca no fundo do crânio? 530
Pagar ō ato heroico numa cela?

Maur. Direi eu mesmo a papai la verdade!
Não lhe permito tanta humilhação.

Patríc. Spera, Maurício!

Maur.                            Procópio, papai!

Patríc. Que palhaçadè essa?

Maur.                                      Ao diabo! 535

Patríc. Assustarás vizinhos!

Maur.                                 Que se explodam!


Cena II.

DEUSDETE.

Deus. Non tem sossego vida de empregada:
Como se já non bastasse a labuta,
Ficar limpando podres dessa grei
Por um salário, gente, tão miúdo, 540
Inda me resta acompanhar intrigas.
Se os diplomatas e agentes secretos
Soubessem, ai, do poder duma serva!
È cada confissão, Senhor, que escuto
E documentos que me incumbo a ver, 545
È cada crime passional que evito,
Ave Maria, cabe até num livro
E livro grosso, chega a dar inveja
Tanto que vejo, entrevejo e pressinto.
É que me falta o tempo de escrever, 550
Diabo, consternações e comédias
De tanta putaria e de episódios,
Ai ai, que só quem viu de perto sabe!
E como não? Eu fico aqui pensando:
Gente de Deus, enlouqueci de vez? 555
Eu sou è lúcida e nada me assusta!
Ou melhor: Assustou-me a novidade!
A natureza suè muito rara.
Procópio porta cartas a Rogério?
Homem de Deus envolvido em paixões 560
E agora amante de Amanda o sujeito?
Requer estudo a conjuntura estranha.
Mas calma, analisemos bem o quadro:
Vou começar coa fé de Procópio,
Pois aqui na maleta esconde tudo. 565
Vamos abrir os segredos da vida
E desvendá-los, eita papelada,
A pessoa se afoga só de ver.

(retirando papéis da maleta)

Primeiro tesouro: Livro de rezas?
Começa bem. Mas tem mais escondido! 570
Ah que bonito, rols de loteria!
Procópio quer ficar rico na vida,
Coitado, tem tam pouco. Caderneta
de conta, queixas... e débito antigo!
Então meu chefe compra mas non paga? 575
Interessante! Mas eu quero as cartas!
Nessa maleta o cara até se perde
De procurar – ingresso de teatro?
Nova faceta revela-se ao mundo,
Quem diria, pecado grande e grosso! 580
Mas que ruídos sõ esses agora?
Jà não se pode trabalhar tranquila!
Toma teu rumo, Deusdete, depressa,
Sconde a maleta, ligeiro, anda!


Cena III.

DEUSDETE. ROGÉRIO.

Rogér. Falando a sós, Deusdete, vendo coisa? 585
Que se passou?

Deus.                          Sua impressão, senhor,
Calor demais que me deixou nervosa,
Muito trabalho e pouca paz na vida!

Rogér. Contra esse fogo conheço remédio.

Deus. De charlatão, meu filho, estou correndo. 590

Rogér. A gratidão passou longe de ti!

Deus. Melhor è cobiçar mulher dos outros.

Rogér. Inveja mata o servo mais fiel.

Deus. È piedade, isto sim, disfarçada!

Rogér. Uma virtude de pouca modéstia. 595

Deus. Modéstia falsa melhor que nenhuma.

Rogér. Vamos deixar de insolência, menina?
Non sou ator de comédia grotesca!
Sabe você se Amanda aqui se encontra?

Deus. Olha que bom o interesse do bispo, 600
Tão adequado em tal situação.

Rogér. Deusdete, amor, me responde uma coisa:
Teve algum dia em que me comportei
Talvez feito cavalo coa senhora?
Um pouco de respeito sempre alegra: 605
Então agora, já que sou amigo,
Virei amante de Amanda, è assim?
Se ajudar quem precisa for pecado,
Melhor tirar proveito? Lealdade,
Danada, è quem eu sou, honestidade 610
O lema duma vida sem tropeço!

Deus. Disto nò ouso duvidar!

Rogér.                                         Pois bem!

Deus. Ora, que quer você de mim? Amanda
Non sei nem como vai chegar nem quando.
Eu tenho bola de cristal? Sou bruxa? 615

Rogér. Meu bem, essa desculpa esfarrapada
Pode deixar para algum outro otário.
Ou vocē diz a verdade ou se cuida:
Amanda vai saber quem vocē é.

Deus. Pois é favor, meu filho, vai e fala! 620
Nada melhor que trabalhar em paz...
Rogér, escuta, vou dizer sò isso:
Retorne às três! A patroa te aguarda.
Sò não confesse pelo mundo inteiro
Que aqui virá. Se Amandè sua amiga, 625
Melhor poupá-la, viu, dalgum boato!

Rogér. Muito bonito, Deusdete!

Deus.                                            De nada!

Rogér. Bem que merece alguma recompensa
O seu favor! Que recompensa então?

Deus. Sai do tapete, cão, estou limpando! 630

Rogér. Olha, ficou modesta agora a moça,
Gostei de ver a guinada, perfeito!
Sabe, Deusdete, se eu fosse solteiro,
Sem os deveres de pai de família...

Deus. Toma teu rumo, peão!

Rogér.                                          Como quer! 635
Os gestos rudes revelam origens
Nem perderei meu tempo com você.
Alguma novidade dos patrões?

Deus. A discrição è virtude esquecida...

Rogér. Importa apenas o bem desta casa! 640

Deus. Melhor dizer os bens.

Rogér.                                    Você me ofende!

Deus. O bem do lar me parece abalado
Desde o rumor de que cartas secretas
Passam das mãos de Procópio...

Rogér.                                                   Malícia!
Explicarei esse mal-entendido : 645
Quando os fiéis precisam duma ajuda
Farei o quê, deixar de lado ovelhas?
Pois as defendo do lobo na espreita!
A cada dia eu socorro uma vida
Encaminhando uma mulher perdida. 650
Como negar amparo a tanto pranto?
Convém ouvir o lamento dos seios.
Eu na verdade nem pedi por isto
E viveria feliz sem as cartas.
A confiança em mim depositada 655
Humilha minha humildade, mas vivo
E como vivo ajudo meus amigos.
Roguei das ovelhinhas muitas vezes
Que pelo amor do Senhor me poupassem,
Poupassem pelo amor de Deus Procópio! 660
Imploro em vão, as fiéis me perseguem,
E assim prossegue uma triste existência,
Ó, confessor que sou dos desvalidos,
O coração contrito de gemidos.

Deus. Meu Deus, mas que tocante exemplo, amigo! 665
Entendo agora que Amanda se uniu
À grande grei de ovelhas seguidoras:
Entendo agora o martírio dum santo!
Tarde demais reconheço a bondade
Dum homem simples, solícito aos seus. 670

Rogér. Deusdete, poupe-me dos elogios
Deste orgulhoso mundo que desprezo!
Eu não cobiço um mundano apanágio,
Meu interesse dirige-se ao alto.

Deus. Calar-me-ei, senhor, se assim prefere. 675
Contra essas dores conheço remédio!
Rogério, pode confiar em mim:
Divida o seu segredo e guardarei!
Quero ajudar você nas suās dores,
Quero ouvir a verdade dessas cartas! 680
Eu sou fiel e non traiō quem sofre.

Rogér. Quê? Impossível!

Deus.                               Que temer, senhor?

Rogér. Nò é temor, apenas discrição.
È complicado explicar em detalhes,
È cada coisa triste que me escrevem. 685
Se até um santo fica triste ao ler,
Quem nò è santo enlouquece de vez:
Prefiro proteger Amanda e todos!

Deus. A caridade comove, mas...

Rogér.                                              Não!
Estou ficando já de saco cheio! 690
Preciso ir, questão de compromisso.
Faça o favor e diga a Dona Amanda
Que aqui virei às três e conversamos. (sai.)

Deus. Vai-te danar, demônio, vai-te embora!


Cena IV.

DEUSDETE. AMANDA.

Aman. Que voz è essa, Deusdete? Rogério! 695

Deus. Pois acabou de sair.

Aman.                                 Mas Deusdete,
Como pode uma coisa dessas, traste?
Ai, meu amor, espera-me, Rogério...
Por um segundo o perdi para sempre,
Tudo acabado, maldita, desfeito. 700
Ele pouco se importa, foi-se embora:
Uma mulher conhece o fim do amor!

Deus. Modéstia, Dona, faz bem al amor,
Mar de ilusão confundida com flor.

Aman. Abre logo a janela, condenada, 705
Non vês que morro de tanto abandono?
Falta-me el ar, a palavra, o sentido!
Mar que conheço è choro que me afoga
Quando o meu peito arrasado soluça.

Deus. A paciênciè melhor conselheiro 710
Que desespero e suspiro ligeiro.

Aman. Quero saber que mulher mo roubou
Para morrer em paz no desconsolo.
Quero saber quem foi que o seduziu,
Deusdete, eu vou matar a vagabunda! 715

Deus. Calma, por Deus! Rogério foi, mas volta.

Aman. Volta? Quando? Como? Por quê? Com quem?
Que foi que disse? Descreve os detalhes!

Deus. É que non tinha tempo, então saiu.
Mandou dizer que volta às três!

Aman.                                                     Verdade? 720
Algo me diz que me aguarda desgraça,
Meu coração non se engana jamais!
Prepara um banho de aromas campestres:
Minh alma frágil precisa de calma
Quando a verdade arrasar minha vida. 725


Cena V.

PATRÍCIA. MAURÍCIO.
DEUSDETE. AMANDA.

Maur. O queque foi, mamãe?

Patríc.                                       Por que chorando?

Deus. È pela causa dos pobres que chora!
Tenhamos caridade duma santa e
Mártir mulher, agonizando em público
Mãe valorosa. Quem diria, Amanda 730
Outrora forte agora até definha.
Dê-me, patroa, segure esta mão!

Aman. Olha, Deusdete, eu prefiro ocultar
O duro fardo que trago nas costas!

Deus. Não interrompas, Maurício, por Deus! 735

Maur. Os olhos de mamãe se emocionaram?
Devo dizer que a profusão do pranto
Confunde um pouco, vindo deste rosto...

Aman. Que audaciosas insinuações!
Que desrespeitè este? Alto lá! 740

Maur. Posso dizer uma coisa?

Aman.                                      O quê?

Maur. Sou burro!

Aman.                     Que patifariè esta?

Patríc. Maurício, calma!

Maur.                              Apenas informo,
Non vês escrito na testa? Sou tonto!
Eu sei de tudo e contudo sou tonto, 745
Olha que estranho e que gozado o caso.

Aman. Queísso, filho?

Maur.                          Nada não, santinha,
Mulher ingênua que és, inocente.
Eu nunca vi atriz de tal talento!

(Amanda dá uma bofetada em Maurício)

Patríc. A correção è certa mas tardia! 750
Podemos conversar a sós, Deusdete?
Mamãe precisa ouvir umas coisinhas.

Deus. Alguém precisa de obrar nesta casa. (sai)

Patríc. Quero saber, Dona Amanda, uma coisa.

(silêncio)

Que caso existe entre Rogér e Amanda? 755
Mamãe! Non quero entender que motivo
Levou-te ao ponto extremo de trair
O amor dum homem probo e grande pai.
Se este adultério se passa em verdade,
Confessa apenas! Eu, da minha parte, 760
Perdoarei la tua triste infâmia,
Se a boca for suficiente honesta!
Peço somente que bem consideres
Se è merecido o gravíssimo golpe
Que a teu marido desferes às costas. 765
Imploro menos por ti que por ele.
Papai è nobre e despreza vingança
Como nas casas baixas é costume:
Onde se pune ultrajes mui menores
Coa pronta morte dambas as partes. 770
Nò é capaz de te ferir Procópio:
Prefere a morte, de dor e desgosto
E sê segura, não lhe falta muito.
Como te falta a grandeza do justo
A confessares ao marido um crime, 775
Confessa pelo menos a teus filhos,
Para que el ódio non siga à tristeza
Das almas altas traídas sem causa.
Fala, mamãe, que se passa entre vós?

Aman. Vejo com gosto a mulher valorosa 780
Que meu exemplo formou em teus atos.
Mas o exercício de oratória, filha,
Podes guardar para um melhor ensejo:
Grandiloquência jamais impressiona!
Entre Rogér e mim não houve nada 785
Além de apreço, amizade e respeito.

Patríc. E a mentirada tuā nos engana?
Ainda insistes na mesma impostura?

Aman. Casa-te, cala-te e logo saberás!
Esta revolta que mostras non cabe. 790
Ocorrem casos na vida em casal
Que não consegues entender ainda.
Teu pai teria orgulho do que dizes
E de como respeitas sua imagem:
Porém a esposa aqui nò é Patrícia. 795
Nunca busquei de meu pai companhia
Que apenas coube à minha própria mãe.
Son sentimentos e papéis distintos
O duma filha boa e duma esposa:
Cuida da tua vida e não da minha. 800
E quanto a mim, teu pai permite queu
Possa entreter em paz algum amigo.

Maur. Então agorè nossa el oratória?

Patríc. Tanta amizade faz cair meu queixo!

Aman. Chegou bem longe, gente, a palhaçada 805
E vou ficando aos poucos enfadada.
Que mal no mundo Rogério te fez,
Um homem de orações e tão pacato?
Deixar em paz è melhor que odiar
Sem ter certeza da culpa increpada. 810
Nò é virtude ouvir atrás de portas
Nem construir histórias de tais fontes.

Patríc. É, Maurício, mamãe quer me obrigar
A comprovar que mente e vai mentindo.
Confessa, Amanda, ou provaremos tudo! 815

Aman. Não me ameaces como criminosa.
Onde se viu um desrespeito desses?
Estou ficando louca ou transtornada!
Depois da cara de Maurís inchada
Terei de inchar a tua, mentirosa? 820
Proíbo ambos de ofender Rogério!
A voz da vossa hipocrisia espanta.

Maur. Péssima atriz!

Aman.                          A mão me ferve ainda,
Menino, toma cuidado, respeito!
Ator ès tu que frequentas teatro 825
E os baixos antros da vulgaridade.
Eu bem que sei o que trazes ao lar
E as perdições de tais sociedades.
Palco, meu filho, è lugar de palhaço,
A verdadeira vida tens em casa. 830

Maur. Diz a mulher que non viu uma peça!
Conhecimento de causa esclarece.

Aman. Deus me defenda de entrar num teatro!
A decadência moral deste mundo
Ali chegou foi longē. É por isto 835
Que Rogér ilumina nossa casa.
É por isto que ator e nem artista
Jamais entrou no Hall da Salvação,
Nem pode, pois ali sò cabe santo.

Maur. Falou lo grande papa d'arte cênica, 840
Autoridade mundial no assunto.

Aman. Issè coisa de porco e baixaria!
Meu filho! Olha bem na minha cara
E diz se dessa cambada de gente
Alguém prestou! A pessoa direita 845
Não se mistura nunca coesse tipo.
Non falta um ato errado pelo mundo
Que não se tenha assistido num palco!

Patríc. E pelo jeito, Amanda, só fogueira
Resolve então, bonita a digressão! 850
Como se fosse menos farsa e palco
Viver na própria casa a própria peça:
A mentirosa encenando a santinha.

Aman. Rogo somente um pequeno favor,
Queridos filhos, antes que me cale. 855
Não cogiteis trazer as cenas tristes
Que pelos palcos vedes a meu lar!
Julgai de vós se um homem respeitoso
Como Procópio fora ver cenários!
É de decêns esta casa e será! 860

Patríc. Decência, mãe, è dizer a verdade
Em vez de apenas perverter o assunto.
Ou queres ver virtude em perversão?

Aman. Nò é de meu dicionár este termo!
Em casa minha nada se perverte. 865
Aqui se vive como diz Rogério,
Porque repito: Rogér ilumina!
Mas vou curar a vossa má vontade:
Deusdete, escuta, traz o copo d'água.
Mas que diabo essa mulher apronta? 870
Maurício, pega esse copo na estante,
Pega depressa, toma esta garrafa,
Enche com água, põe logo na mesa!
Isto, meus filhos, sentai-vos aqui.

Maur. Agora, mãe? Agora estou sem tempo. 875

Aman. Calado! Quero ouvir da tua boca,
Promete e reza, menino, e repete:
Non ponho mais o pé num mau teatro.
Teatro bom è teatro fechado!
Pois é, Maurís, a verdade castiga 880
Mas é reméd e remédio que cura.
Rogério mandou, repete comigo:
Eu abandono esta vida devassa!
Fala, menino!

Maur.                          Abandono, claro!

Aman. Agora podes ir, e tu, Patrícia, 885
Toma vergonha na cara e te apruma
Como Rogério todo dia ensina.

Maur. E com certeza, mamãe!

Aman.                                        Muito bem,
Nò é de mim que rirão as plateias!
Eu saberei mostrar ao mundo inteiro 890
Quem orienta a minha casa e como.
Ide, meus filhos, e sede orgulhosos
Da mãe que tendes. Mudai vosso modo!



ATO III.

Cena I.

PROCÓPIO. MAURÍCIO. PATRÍCIA.

Proc. Cão, celerado, canalha, malvado,
Sai desta casa, ingrato, vai-te embora! 895

Patríc. Papai, acalma-te!

Proc.                             Calma, Patrícia?
Este infeliz difama a própria mãe!

Maur. Spera um momento!

Proc.                                   Calado, Maurício!
Some do alcance meu, a mão lateja
Prestes ao ato extremo contra ti! 900

Maur. Injusto! Tanto apreço tens por nós
Que dás valor à farsa de Rogério
Mais que aos nossos olhos?

Patríc.                                              Deixa, Maurício!

Maur. Explica, pai, que tremenda macumba
Enfeitiçou teus olhos a tal ponto! 905

Proc. Queres morrer aos golpes deste punho?
Non falta muito e te puno a malícia!

Patríc. Matar um filho em nome de impostores?

Proc. Manchar o nome dum homem ordeiro
Não se permite no lar que domino! 910

Patríc. È pois o teu, papai, que se desonra.
Onde se viu que um pai punisse os filhos
Quando disseram somente a verdade?

Proc. Para, Patrícia! Por que me torturas?
Issè calúnia destemida e grave: 915
O justo chora frente a tanta indústria
Contra um ministro dos céus difamado!

Maur. Eis o pior enganador do mundo!
Abre teus olhos, Procópio, por Deus!

Patríc. Assim se porta um cristão ante os filhos? 920
Foi tão profundo esse nosso pecado?

Proc. È muita inveja que vive nas almas,
Meus próprios filhos perseguindo santos:
A que desgraça chegastes, pequenos!
Mas não penseis que tam logo me iludo: 925
Conheço a podridão do vosso peito.

Patríc. Houve muitos ministros nesta casa!
Quando foi que jamais disseminamos
Alguma intriga contra quem que fosse?

Maur. Non sei dizer se foi pior ofensa 930
Na presunção que ouvimos ou no inferno.

Proc. È para lá que os teus caminhos levam!

Maur. E vêm de lá os ladrões que te iludem!

Proc. Os invejosos filhos deste lar!

Maur. E a presunção dalgum desavisado! 935

Patríc. Tam pouco crédito teu merecemos?
Tanto desgosto quase até me mata!

Proc. Teu coração è mais forte que o meu!

Patríc. Permite ao menos que agora expliquemos,
Papai, o caso imoral que se passa em casa. 940

Proc. Filhinhos meus, tende enfim piedade.
Nò há recurso que eviteis usar!
Por que me torturais com tal mentira?

Maur. È piedade o que temos, Procópio!

Proc. Conheço os rumos deste mundo impuro 945
E tradições terríveis que se passam.
Os adultérios carecem de dois!
Conheço Amanda como o próprio peito
E suspeitar dum farsante Rogério
Fora também suspeitar duma santa! 950
Permitirei de vós tamanha audácia?
Se vos faltou respeito à própria mãe,
Defenderei quem amo até la morte!

Maur. Entre os vizinhos circulam rumores
E pelos vãos de escadas e das ruas 955
Soa teu nome a brados, altos risos.
Com quanto viço vingar a vergonha
Se è verdadeira a causa da conversa?

Proc. Por que te importas com voz de vizinhos?
Em vão proclamem o quanto quiserem! 960
Issè cambada de gente invejosa:
Correm atrás do meu dinheiro apenas,
Enlouquecidos por ganho e migalhas.
Mas não! Tam logo percebem quem sou
Propagam pelo mundo tal mentira! 965

Maur. Isto eu entendo, mas o que non sei
È como deste a Rogér uma igreja
Mais cara que um produto interno bruto!

Proc. Terminará em tragédia o debate
Se não calares a boca, maldito! 970
Amanda nunca pudera trair-me.

Patríc. Será preciso que um falso profeta
Destrua a paz de toda uma família?
Difícil crer que vejo um pai prudente
Ameaçar de tal maneira um filho! 975

Maur. Não te incomodes com isto, Patrícia,
Prefiro a morte a permitir um crime,
Grosseiro golpe que Rogér emprega...

Proc. Queres de fato que um farto revólver
Resolva o caso? Dou-te quatro horas: 980
Deixa esta casa e non tornes jamais!

(grave silêncio)

Maur. È dura a ordem, mas clara! Adeus!

Patríc. Spera, Maurício! Perfeito, papai:
E se provarmos que foste traído?

Proc. Provar que o demo iludiu vosso orgulho? 985
Não conheceis os cruéis artifícios?

Patríc. Apenas fala! Podemos provar-te?

Maur. É de Patrís o plano, estou calado!

Proc. Nò há sentido algum em tanto engenho:
Conheço os santos ambos que acusais. 990
Mas como queira melhor demonstar
O erro torpe que perde os impuros,
Quero assitir tamanha palhaçada!
A condição contudè muito clara:
Quero encerrar o caso em poucas horas. 995
Caridoso demais eu sou, filhinhos,
Porquanto um pai de respeitoso império
Já vos tivera punido e com força.
È pena grave e raramente vista
A melhor paga contra mentirosos: 1000
Amandè vossa mãe, Amandè santa!

Patríc. Prepara o peito e pratica modéstia:
As ilusões desmascaradas doem!

Proc. Passado o tempo que a prudência reza,
Se não puderdes provar a impostura 1005
Parti de casa. Covil de bandidos
Aguarda os desbocados, entendido?

Patríc. Assim faremos, papai! Pouco tempo,
Não carecemos de muito e verás.

Proc. Ouvi-me bem, que me faça distinto: 1010
Provai os casos ou deixai a casa.
Jà suportei por demais insolência!

Maur. Posso falar?

Proc.                     Fala então, miserável!

Maur. Guarda o revólver, pai, a sete chaves,
Porque senão perderás o controle 1015
Em poucas horas: Teus olhos verão!

Patríc. Ouve, papai!

Proc.                       Ao diabo convosco!


Cena II.

DEUSDETE. MAURÍCIO. PATRÍCIA.

Deus. Cristo nos céus, que foi que aconteceu?
Que rosto tristè este, quem morreu?

Maur. Ninguém ainda, mas non falta muito, 1020
O casè serio, de vida ou de morte!

Deus. Mas que exagerè este?

Patríc.                                         Foi Procópio!

Deus. Que lhe passou na mente?

Maur.                                           Minha morte!

Deus. Como foi isto?

Patríc.                          Non vi com meus olhos
Como acabou de ameçar de morte 1025
O próprio filho?

Maur.                             È tudo verdade!

Deus. Procóp è homem de muito dizer...

Maur. È pouco o tempo que resta, Deusdete.
Papai mandou-me embora desta casa!

Deus. Nò é possível!

Patríc.                          A non ser que prove. 1030

Deus. Provar o quê?

Patríc.                         Não te faças de boba!
E quem non sabe do caso entre dois
Despudorados entre abraço e beijo?
Amor devasso, inusitadas juras!

Deus. Falais de Amanda...

Patríc.                               Também de Rogério, 1035
E do elemento mau que os acoberta!

Maur. Se tens apreço algum por vida minha,
Cara Deusdete, è tempo de agir.

Deus. Mas que fazer?

Patríc.                            Dizeres quanto sabes!

Maur. Sem mais delonga! Quando o novo encontro? 1040

Deus. De qual encontro falais, que non sei?

Maur. Quanta inocência!

Deus.                               Mas o que queísso?
Eu sei o quê dessa embrulhada toda?
Desses encontros nunca ouvi falar!
Insinuar que uma pobre empregada – 1045

Maur. Insinuamos não, sabemos! Fala!
Que horas vem Rogério ver mamãe?

Patríc. Somente tu no-lo podes dizer:
Toma vergonha na cara e responde.

Deus. Como dizer o que non sei, meninos? 1050
È muito injusta a vossa acusação!

Maur. Desejas mesmo que papai me mate?

Deus. Não coloqueis palavra em minha boca!
Sò quero trabalhar em paz e pronto:
Nem de almoçar Deusdete teve tempo. 1055

(começa a descascar uma banana)

Patríc. Era bom se coubesse só comida
Mesmo na boca. Mas não, cabe mais:
È cada intriga rolando na língua
E até silêncio certas vezes mata.
Sõ estas coisas e ainda piores 1060
Que cabem muito fundo numa boca.

Deus. Opa, filosofou bonito a jovem:
Faltou citar o falso testemunho
Quando se acusa de crimes o inocente!
A pessoa caladè quem mais sofre. 1065

Maur. Cuidado, alguém vem vindo! Quem? Rogério?

Patríc. Calma, Maurício, trata bem o traste!


Cena III.

ROGÉRIO. DEUSDETE.
MAURÍCIO. PATRÍCIA.

Rogér. Que falatór è este, minha gente?
É de respeito e de paz esta casa!
Ah! Tenha dó, Deusdete, já lhe disse: 1070
Cubra coa mão a banana, repito!

Deus. Quanto pudor e quanta castidade!
Assim se faz, meus queridos, mirai!

(põe a mão na frente ao dar a mordida)

Rogér. Não se diverta assim de meu conselho!
Você concebe o pecado que passa 1075
Na mente insana dum homem devasso?
Melhor non dar motivo a maus intentos!

Patríc. Isto mesmo, Deusdete, nesta casa
Cada um se comporta com decência!
Escuta o bispo, obedecer è bom! 1080

Rogér. Assim se diz, Patrícia, fico alegre
Ao ver que alguém deseja a salvação.
Estava bem receoso, confesso,
Quanto à virtude tua e de Maurício.
Deus è que sabe quanto mau olhado 1085
Existe por aí contra inocentes!
Mas menina, palavra não me basta:
Bajulação jamais me convenceu!

Patríc. Não, Rogério, tudo o que recomendo
E digo vem do coração somente. 1090

(silêncio)

Maur. Muito labor?

Rogér.                     Eu que o diga, meu filho!

Maur. E quanto à construção do novo templo,
Do Hall da Salvação?

Rogér.                                    Pois nem me fales,
Aquilo ali non termina tam cedo.
Nem quero entrar em detalhes, menino, 1095
Do quanto custa um trabalho daqueles:
Eu vejo os preços e fico abismado.

Maur. Que lastimável! Que fazer agora?

Rogér. Por favor, nem comentes a Procópio
Tanto temor que vem me angustiando. 1100
Teu pai è bom mas tudo tem limite,
Porque se aproveitar dum generoso
Nada mais é, rapaz, que covardia.

Patríc. Queísso, caro Rogério?

Rogér.                                         Non posso!
Procópio já doou demais, Patrícia! 1105
Não me permito explorar um amigo.

Patríc. Mas que besteira!

Maur.                               Esta casè tua!

Rogér. Melhor nem discutir um tal assunto.
Deusdete, dê por favor um recado:
Amanda insiste em conversar comigo. 1110
Parece urgente e cancelei por isto
Um punhado de encontros lá na igreja.

Deus. (para si) Uma palavra e tudo está perdido!

Rogér. Jà confirmei: Retorno às três, avise...

Deus. Valha-me Deus!

Patríc.                            Mas queque foi, Deusdete? 1115

Deus. Rogér, Amanda adoeceu, non pode.

Maur. Mas que queísso, filha, desde quando?
Mamãe se alegra de tanta saúde.
Não acabei de vê-la?

Patríc.                                      Eu também!

Rogér. Que lhe sucede na mente, Deusdete? 1120

Maur. Fica à vontade, saïremos logo.

Patríc. Antes das seis papai non volta à casa.

Rogér. Que prestimosos sois! Vamos, Deusdete,
Temos alguns assuntos de interesse...

Deus. O que tiver que ser, senhor, que seja! (saem.) 1125

Patríc. Busca papai!

Maur.                        È āgora ou jamais! (saem.)


Cena IV.

PROCÓPIO. MAURÍCIO. PATRÍCIA.

Proc. Por que me chamas?

Patríc.                                    Os céus nos ajudam!

Maur. Chegou la hora das provas cabais!

Proc. Mas eu sabia que aqui maquináveis!

Patríc. O planè simples demais de cumprir.

Maur. Logo entrarão nesta sala os amigos... 1130

Patríc. Enfim verás que poderosos laços
Hão reunido Rogér e mamãe.

Maur. E julgarás por ti mesmo o teor
Das uniões que os céus abençoaram.

Proc. Faço questão de estar, de ouvir e ver, 1135
E punirei los culpados que forem.
Mas onde estão?

Patríc.                               Chegando já, cuidado!

Proc. E donde os posso ver?

Maur.                                       Spera um momento!

Proc. Será possível? Amanda e Rogério! 1140

Patríc. Ouvi as vozes!

Maur.                          Os passos!

Proc.                                              Sõ eles?

Patríc. Scondei-vos já num canto, cada qual!

Proc. Meus filhos, onde...

Maur.                               Calado, papai!

Patríc. Onde um armário?

Maur.                               Cuidado!

Patríc.                                                A mesa!


Cena V.

AMANDA. DEUSDETE.

Maurício e Patrícia dentro do armário.
Procópio debaixo da mesa.

Deus. Valha-me Deus, Amanda, todo mundo 1145
Está sabendo já do vosso encontro!

Aman. Que tolice, Deusdete, por favor!
Maurício tem um compromisso sério
Na faculdade e tam cedo non volta.
Patrícia agora sò vive, menina, 1150
Em função do namoradinho novo.
Aqui non tem ninguém e nem Procópio.
Por que temer?

Deus.                            Non sei dizer direito.
Não me parece seguro o negócio:
Toma cuidado aí coestas paredes. 1155

Aman. Deixa de tanta palhaçada, amiga!
Ninguém me viu, ninguém ouviu nem sabe.

Deus. Depois non digas que fui desatenta!

Aman. E quanto às cartas, encontraste alguma?

Deus. Procópio guarda um museu na maleta, 1160

(mostra a mesa, sob a qual estão a maleta e Procópio)

As mais estranhas coisas desta terra.
Sabes que até ingressos de teatro
Pude encontrar na papelada solta?

Aman. Quê? Verdade ou gozação?

Deus.                                             È verdade!

Aman. Sò me interessa saber...

Deus.                                         Se encontrei! 1165
Non vi nenhum vestígio de bilhete,
Correspondência, mensagens e cartas.
Esse Procópio, minha amiga, è bicho
De muito bom talento, esconde tudo:
Eu nunca vi na vida coisa dessas! 1170

Aman. Eu que o diga, amiga, conheço a peça.
O que quero saber è que mulher
Está mandando cartas a Rogério!

Deus. Mas cuidado com tanta paranoia:
Quem sabe, pode ser que seja apenas 1175
Uma fiel precisando de ajuda.

Aman. Sei muito bem da ajuda de Rogério,
E neste pontè demais generoso.
Basta um apelo maior a seus olhos
E o corpo inteiro, filha, pega fogo. 1180

Deus. Tem paciência!

Aman.                            Que fácil falar!

Deus. Que mais dizer?

Aman.                             Dir-lhe-ei que detesto
Correspondência de mulheres loucas
Que em casa minha vejo acumular-se!
Era melhor se de fato eu soubesse 1185
Em que buraco as cartinhas se escondem:
Mas mesmo sem saber eu sei de tudo!

Deus. Pois Procóp è pior que ratazana:
Esconde queijo e coisa em cada toca
Que até quem sabe fica transtornado. 1190

Aman. Estè Procópio.

Deus.                             Eita maridão!

Aman. Mas de hoje non passa e não sossego
Até dizer na cara de Procópio:
Mande parar essa perseguição
De condenadas contra meu amigo! 1195

Deus. Mas que ruídè este?

Aman.                                       É Rogério?

Deus. Seguramente! Vou-me logo embora!

Aman. Fica, Deusdete, preciso de ti.
Escuta bem a conversa e dirás
Que confiança o cachorro merece! 1200

Deus. Mas minha amiga, que queres de mim?

Aman. Sconde-te já, debaixo da mesa!

Deus. Mas onde, aqui? Perfeito, vamos ver!

(debaixo da mesma mesa está Procópio.
Deusdete o reconhece e tanta fugir,
mas Procópio tapa-lhe a boca e segura-a.)


Cena VI.

AMANDA. ROGÉRIO.

os demais escondidos.

Aman. Não te aproximes de mim, ordinário!

Rogér. Mas queque foi, delícia, fala logo! 1205

Aman. Inda perguntas, inda tens coragem?
Tudo acabou, eu sei, jamais me engano.
Quanto mais o meu peito te deseja
Mais enlouqueço, tu porém desprezas
O meu amor: Mata-me então, Rogério! 1210
Será melhor que tanta humilhação:
Eu mal te vejo e já me tremo inteira,
Meu corpo incendiado te pertence.
Mas já me sinto morrer de desgosto,
Mal amada que sou dum mau amante! 1215
Não te incomoda uma vida em ruína?
Só de pensar nas tuas mãos macias
Por toda a minha carne desfaleço,
Desmaio relemenbrando tantos beijos!
Foi muito longe o teu golpe, Rogério. 1220
Olha os meus olhos! De nada te importa
O que vive por trás destes espelhos?
Agora que sou tua e tudo eu dei
E muito mais darei que quero dar,
Agora te aproveitas? Não me incluas 1225
À triste estirpe dessas tuās putas!
Teu corpè meu, meu vasè todo teu!
Domina, toma e possui, meu querido,
O que ofereço e faz o que quiseres!
Sò não me enganes mais e não me traias! 1230

Rogér. Trair jamais, princesa de meus sonhos:
É de teu vaso doce e de teus olhos
Que vou bebendo o fim do desespero.
Julgaste mal e cedo condenaste:
A tortura maior de minha vida 1235
È ver teu corpo e não poder tocar-te.
Nem me provoques nem me desafies,
Beleza, a demonstrar o meu desejo:
A minha carne inteira está pulsando!
Olha bem no meu corpo em qual estado 1240
A tentação do teu calor me deixa!

Aman. Queres queu creia num conto de fadas?

Rogér. O meu amor sò conhece a verdade!

Aman. Tantas vezes te disse, meu docinho:
Se um dia te cansares do meu fogo 1245
Avisa apenas – seremos amigos!
Mas se meu fogo ainda te sacia,
Delícia, vem, apaga! Teu desejo
È meu também! Eu vejo como pulsa
Na carne a tua espada, então reage: 1250
Lugar de espadè dentro da bainha!
Derrama sobre mim tua afeição
E pela minha pele espalha todos
Os beijos que tiveres e carinho.
Depois, repousa o rosto no meu colo 1255
E nossos corpos serão redimidos:
O meu no teu abraço, o teu no meu.

Rogér. Quero o teu corpo!

Aman.                               Minh alma também?

Rogér. Amanda, em ti existe apenas um:
È corpo e alma o que desejo e tudo 1260
Mais que puder de teu, amor eterno!
Non passa um dia sem que me pergunte
Em que momento estaremos sozinhos.
Non penses mal jamais de meu desejo:
A belezè divina e divindade 1265
São teus olhos e seios, tuas pernas,
Cada pedaço um motivo de gozo.
Amor e deusa, non posso esperar:
Se è verdadeiro o fogo que te come,
Vem-te beber daquele mel gostoso 1270
Que apaga incêndio, mata sede e fome.
A tuā vidè minha, ès minha dona!

Aman. Por que me iludes?

Rogér.                                 Por que me recusas?

Aman. Eu me ajoelho, Rogér, e te peço,
Imploro até, adorando o teu corpo 1275
E cultuando como um deus ou templo:
Vem aqui, vem me dar o que preciso!
Eu só existo em função de ser tua
E sendo tua eu sou escrava e dona.
O amor que me condena me liberta! 1280
Usa sem medo o què teu e me pega
E toca e bate: Faz o que quiseres,
Amor, contanto que mē ames sempre!

Rogér. Como tē amo, mulher!

Aman.                                         Meu querido!

Rogér. Vamos falar apenas d'alegrias. 1285

Aman. É de teus braços que as busco!

Rogér.                                                   Amanda!

Aman. Diz que me amas!

Rogér.                               Duvidas ainda?

Aman. Preciso ouvir o mais claro possível
Até que ponto o teu amor se estende.

Rogér. Tu és um anjo dos céus que me salva. 1290

Aman. Presente mais divinè tua carne,
Mesmo teu sopro me preenche toda!

Rogér. Quero passar, Amanda, a vida inteira
Dentro de ti: Começarei agora!

Aman. Mas não disseste ainda!

Rogér.                                       Que dizer? 1295

Aman. Se for verdade esse amor de que falas,
Fala, maldito: Que mulher è essa
E que cartinhas essas que te manda?

Rogér. Queísso!

Aman.                  Diz, infeliz, pelos céus!

Rogér. Mas nunca ouviste falar na pessoa: 1300
Não persigas, Amanda, uma coitada!

Aman. Seja, querido! Confessa-me apenas
Que sou a única amada em teu peito:
Diz que me queres acima de tudo.

Rogér. Amo-te, Amanda, por ti morrerei! 1305


Cena VII.

PROCÓPIO. AMANDA. MAURÍCIO.
PATRÍCIA. ROGÉRIO. DEUSDETE.

(saltam do Armário Maurício e Patrícia)

Maur. Morre, maldito, jà passa da hora!

(saem Procópio e Deusdete de sob a mesa)

Traz o revólver, Patrícia!

Rogér.                                         Queísso?

Aman. Misericórdia!

Deus.                        Separa!

Patríc.                                       Cuidado!

Rogér. Socorro!

Proc.                  Que vejo?

Aman.                                      Nò é possível!

Maur. Dois ordinários pegos em flagrante! 1310

Patríc. Nò é profundo, papai, este amor?

Rogér. Calma, eu me explico...

Maur.                                      Melhor te calares!
Traz o maldito revólver, Patrícia,
Senão eu mato este canalha agora
Com pancada na cara e tudō: Anda! 1315
Estou fora de mim. E tu, Procópio,
Queque foi, calaste a boca por quê?
Será que o gato comeu tuā língua?

Proc. Mas que situação! Agora entendo!

Patríc. Pois é, papai, e que dizer da mártir, 1320
Desta mulher tam pura e coitadinha?
Estava até chorando pelos pobres!
Quem te viu, Dona Amanda, quem te vê!
Desculpa aí se interrompi momentos
De muito amor: »Son tantas emoções!« 1325

Maur. Quero acabar de vez coesse Rogério.

Deus. Valha-me Deus!

Proc.                             Silêncio nesta casa!

Rogér. Faltam palavras, meu caro Propócio...

Proc. Faltam palavras?

Patríc.                               Pois faltè vergonha!

Maur. Quando se pega em flagrante, papai, 1330
Pode matar os dois, a lei permite:
É preciso vingar este adultério!

Aman. Tem piedade, esposo meu, de nós!

Maur. Non dou nenhum ouvido a choradeira,
Non quero nem saber de gritaria. 1335
Mata logo, Procópio, mete bala
Nos dois, enterra no meio da cara!

Patríc. Sai desta casa, Rogério, por Deus!

Aman. Sai, meu amigo, salva a própria vida.

Maur. Estou ficando louco, gente, ou surdo? 1340
Age, Procópio, toma uma atitude
Ou sai daqui! Eu matarei Rogério
Se for preciso a sós: Decide logo!

Proc. A decisão foi tomada, Maurício!
Toma vergonha nesta tuā cara, 1345
Arruma teu farrapo e vai-te embora!
Corre de mim, que non quero punir
Os teus pecados com bala na cara.
A paciência minha se acabou!

Maur. Que dizes? Eu?

Proc.                            Você, seu vagabundo! 1350

Patríc. Maurício fez o quê? Quanta injustiça!

Proc. Depois de tanto nojo e palhaçada
Posso falar finalmente? Silêncio!

(grave silêncio)

Eu nunca duvidei que nesta casa
Alguèm quer me trair e faz è tempo. 1355
Em tanto falatór eu percebia
Quanta maquinação se preparava.
Agora sei, agora ouvi quem era
O traïdor que enganava meus filhos.
Satanás perverteu meu lar inteiro! 1360
Encenou nesta sala um adultério
Imaginár e falso entre Rogério
E minha esposa!

Patríc.                             Deus dos céus!

Proc.                                                       Pois é,
Minha filha, a verdade te confunde?
E digo mais, o nosso casè sério: 1365
Satã se aproveitou dum lar ingênuo
Para inspirar ardis em nossa mente,
Desconfiança entre amigos, inveja.
Foi assim que nos trouxe nesta sala
Perante um palco, uma cena impossível! 1370
Ele ousou inventar este adultério:
Um gesto ingrato do qual minha esposa
Non foi capaz jamais, e nem Rogério!

Maur. Ès tu que deverei matar, papai?
A sala inteira viu este adultério! 1375

Proc. Ah é? Então confias mesmo em tudo
Que vês e já non sabes mais de quanta
Coisa o demôn è capaz de inventar?
Inventa som, inventa cor e vulto!
Non sejas tão ingênuo! Quando foi 1380
Que um ser humano sér e respeitável
Confiou numa cena tão grotesca?
É montagem barata e cachorrada
E punição, meu filho, a teu orgulho:
Tenho vergonha e compaixão por ti 1385
Que crês nos olhos mais que na razão!

Maur. Meu pai, Rogér està rindo de ti,
Mamãe também! Não me venhas dizer...

Proc. Que tenho muito a dar aos três de vós:
Aos desviados cabem penas graves. 1390
Começarei contigo, minhā filha!
Entra no quatro e fecha bem a porta:
Quatro semanas passarás trancada!
Quanto a você, Deusdete faladeira,
A minha esposa já sofreu demais: 1395
Tome seus trapos e deixe esta casa.

Deus. Eu? Como assim? Procópio, piedade,
Foi Satanás que enganou seus ouvidos!

Proc. Cale-se já! Vá-se embora, cretina!

Maur. Sò falta agora Rogério, papai! 1400

Proc. O que faltès apenas tu, maldito:
Sai desta casa, rua, delinquente!
Sai se non queres sentir em teu corpo
A sevícia do justo: Meu revólver
Vai pôr na tua cara o que mereces! 1405

Aman. Vai-te, Maurício, por Deus poderoso.

Maur. Deixa-me em paz e non fales comigo!

Proc. Ir ou morrer!

Maur.                      Conseguiste, Rogério.

Patríc. Calma, Maurício! (sai com Maurício.)

Proc.                             Quanto a ti, Deusdete...

Deus. Peço perdão, Procópio, pelo erro. 1410
Nò é preciso insistir, entendi:
Eu vou-me embora e jamais me verá.

Aman. Deusdete estava só me obedecendo:
Ela merece um pouco mais de amparo!

Rogér. Procópio, meu amigo, piedade... 1415

Proc. Tarde demais!

Deus.                        Adeus!

Aman.                                      Spera, Deusdete! (saem.)

Proc. Agora sim se edifica esta casa!


Cena VIII.

PROCÓPIO. ROGÉRIO.

(longo silêncio.)

Proc. E como vai o Templo?

Rogér.                                      Muito bem!

(silêncio.)

Proc. Mas...

Rogér.           Quando...

Proc.                          Quem...

Rogér.                                       A verdadè queu non...

(silêncio.)

Proc. A nova caixa de vinhos chegou. 1420

Rogér. Fico feliz! Vinhos brancos ou tintos?

Proc. Eu não imaginava que o demônio
Fosse capaz duma montagem dessas!

Rogér. Pois é, meu caro, sempre comentei:
Satanás è capaz de qualquer coisa! 1425
Mas mudemos de assuntō. Esse vinho...

Proc. Encomendei vinho tinto!

Rogér.                                         Perfeito!

(silêncio.)

Proc. A cena triste que aqui se passou
Terá ferido uma grande amizade?

Rogér. Seguramente não! Explicarei. 1430

Proc. Mas por favor, Rogério, nada expliques.
Eu è que devo explicação, de fato,
Pelos meus filhos, escravos do demo:
È juventude, moderna e sem modos.

Rogér. A tuā santidade me emociona! 1435

Proc. Uma coisa està certa, meu amigo:
Meu apreço por ti jamais se abala!
Tenho uma nova carta, toma aqui!



ATO IV.

Cena I.

AMANDA. MAURÍCIO.
PATRÍCIA. DEUSDETE.

Deus. A vidè esta, meu filho, a pessoa
Pensa que vai subir, ai ai, na vida 1440
E quando vê caiu bonito e feio:
Pelo menos a mala de Deusdete
È mala rasa e non pesa nas costas.

Aman. Non percas fé porque vou-te ajudar.
Quanto a meus filhos queridos porém, 1445
Convém esclarecer melhor o caso:
Non quero ver Maurício pelo mundo
Falando coisa, inventando mentira.
Então parece que traí Procópio?
Eu sei que o que se ouviu foi forte, 1450
Mas é somente a força da amizade.
E se alguém duvidar, eu tenho provas
De que Rogério ama, de verdade,
Outra mulher, fiel que nem conheço.
A verdadeira amante tem mandado 1455
Cada carta, meninos, que nem digo
E digo mais: È Procópio que entrega.

Patríc. Tem homem desse tipo, fã de muitas,
E por favor, me poupes de detalhes:
Jà foi bastante a baixaria hoje. 1460
De Rogér e seu gado e seu rebanho
Non quero nem saber, Deus me defenda!

Aman. Pois a mulher à qual me referi,
Esta ganhou-lhe inteiro o coração.
Nò há lugar para outra em seu peito. 1465

Maur. Foi diferente a cena que assistimos.
È por milagre que aqui me supero,
Dividindo no peito gargalhada
E muito ódio: Eu quero um revólver!

Aman. Quanta injustiça me fazes, meu filho. 1470
Desejo só provar o que te digo!

Maur. Mas onde estão as mensagens de amor?

Aman. Excelente pergunta, e finalmente
Chegamos bem ao ponto: Lê-las-emos
Em pouco tempo, Deusdete me ajuda! 1475

Deus. Oche, menina, eu sei de nada disso?
Estou correndo, isso sim, de problema:
A minha mala inclusive està pronta!

Maur. Bem lembrado, Deusdete, falta a minha:
Estamos juntos nesta expedição! 1480

Aman. Pois eu quero que um raio me arrebente
Se estou mentindo, cambada de frouxos!

Patríc. Opa, que desespero e que bonito:
Que arranjo louco ilude o teu juízo?

Aman. Loucura não, querida, só verdade: 1485
Volta mais tarde e saberás de tudo!

Deus. Deus è que sabe como encontrarão
Correspondência melhor escondida
Que um cofre d'ouro no fundo do mar.

Aman. Encontraremos, istè coisa certa! 1490
Vamos, gente, Procóp está nervoso,
Some, Maurício: Volta pelas cinco!


Cena II.

AMANDA. DEUSDETE.

Deus. Mas Dona Amanda, como achar as cartas?

Aman. Non faço ideia...

Deus.                           Pelo amor de Deus!

Aman. O que me importa è que o bispo me quer. 1495
Que coisa linda as promessas de amor
Que trocamos, amiga, e que tocante!
Foi tudo tão profundo, comovente
A força da emoção! Pois nem flagrante
Abala duas vidas que se uniram 1500
N'alma e no corpo, bota corpo nisso!
A nossa química passa, menina,
E nem demôn impede o nosso fogo.

Deus. Como se teme Satã neste lar...

Aman. As cartas são recurso provisório: 1505
Vão acalmar e distrair os ânimos
Até que o nosso plano se complete!

Deus. Oche, que planè esse, Dona Amanda?

Aman. Pois nem te falo, ai, que maravilha:
Em pouco tempo, amiga, fugiremos! 1510

Deus. Rogér e tu? Mas como? Para onde?

Aman. Qualquer lugar distante desta amante!
Rogér eternamente nos meus braços.

Deus. Meu pobre emprego perdi duma vez!
Madame foge e fico aqui fodida. 1515

Aman. Olha a boca, Deusdete! Acha as cartas!
A recompensa vai ser tão imensa
Que nunca mais precisas trabalhar!

Deus. Non faças isto comigo, querida,
Eu sou de carnē osso, eu passo apuro! 1520

Aman. Por isto mesmo, vai, decide logo!

Deus. Muito dinheiro?

Aman.                          Muito!

Deus.                                       Muito mesmo?

Aman. Para uma vida inteira e muitas outras.
Irrecusável proposta, Deusdete!

Deus. Só de pensar eu fico arrepiada! 1525
Mas este esposo teu è bicho astuto,
Eu vasculhei a casa inteira em vão!

Aman. Arrepiada estou eu, condenada!
O desespero meu non tem tamanho.
O tempo passa e non sei de meu rumo, 1530
Se devo crer em Rogér e fugir
Ou se a perua seguirá conosco.
A vidè dura e me acaba, menina.
Se queres mesmo queu viva feliz,
Acha estas cartas onde quer que for! 1535

Deus. Para com isto, jà disse que quero
Ajudar, mas querer non basta não,
Tem que poder, mulher, tem que saber.

Aman. Então descobre, jà passa da hora,
Arranja um jeito, inventa algum feitiço! 1540
Será, meu Deus, que neste mundo inteiro
Só Satanás que consegue encontrar
Esse cofre de cartas, criatura?

(Deusdete gargalha de repente.)

Que te divertes? Que risadè esta?

Deus. Deixa comigo e Satanás, amiga, 1545
Viremos juntas extorquir Procópio!

Aman. Mas que queísso, que loucurè esta?
Non sei se estou gostando muito disto.

Deus. Cala a boca, menina, o planè bom:
Escuta e faz o queu disser, agora! 1550

Aman. Fazer o quê?

Deus.                     Fecha a casa inteirinha,
Janela, fresta, quero a sala escura.

Aman. Posso saber o que está se passando
Nessa tua cabeça, minha amiga?

Deus. Fecha a janela e vai chamar Procópio: 1555
Um vulto apareceu aqui na sala!
Deixa o tipão entrar sozinhō. Anda!
Non tenho todo o dia, estou com pressa
E Satanás também, agora ou nunca!

(Deusdete fecha as janelas e sai às pressas.)

Aman. A escuridão me deixa amedrontada 1560
E não me agrada este plano esquisito.
Non tenho medo nenhum do demônio
Mas o respeito e jamais me divirto.

(olha ao redor e teme.)

Procópio, corre, parece que vejo...
Será verdade? Socorro, Procópio! 1565
Mas que situação, que desespero,
E que diabos meu marido apronta?
Será que o vulto está me perseguindo?
Procópio, vem, Procópio, vem aqui!

(sai chamando Procópio; silêncio.)


Cena III.

PROCÓPIO.

Proc. Amanda, queque foi, cadê Deusdete? 1570
Que sala escura, tem alguém aí?
Istè lugar de assombração, acende
A luz, ai, nem consigo ver direito!
Fico abismado vendo coisa dessas:
Tem gente aí pensando que sou bobo, 1575
Como se fosse possível Amanda
E Rogério se amando aqui na sala!
Fico espantado coa credulidade
De meus filhos e tanta gente jovem.
Comé que pode, imagina, Procópio 1580
Confiar numa imagem descabida?
É que as pessoas non sabem, de fato,
De quanta coisa o demôn è capaz.
Mas nada disso espanta, comprēendo:
Quando a pessoa perde o juízo 1585
Feito Maurício, Satã se aproveita!
Patrícia, quando vejo, tenho dó,
Deusdete nem se fala, ali foi feio.
Tudo isso por fim atrai, atrai,
Digam o que quiserem, mas atrai! 1590
Se todo mundo nesta casa ouvisse
A pregação de quem è santo e bom,
A tentação parava sem domora.
Mas lar sem fé termina tudo assim:
Do nada, o diā vira madrugada, 1595
A luz se apaga, assombração passeia.
Lembro do vulto que outrora rondava
O casarão de meu pai na fazenda.
A minha consciêns está pesada
Pois o dinheiro que doei non basta: 1600
É por isto que o demo me atormenta!

(silêncio)

Que foi aquilo? Maurício? Patrícia?
Calma, Procópio, vai, respira fundo!
Peraí, que queísso, gente, para,
Cadê Rogér, estou com muito medo! 1605


Cena IV.

PROCÓPIO. DEUSDETE.

(Entra Deusdete disfarçada.)

Deus. È Belzebu que chegou, desgraçado!

Proc. Deus me defenda, socorro, queísso?

Deus. Nenhum pecado se esconde de mim!

Proc. Mas não pequei, demônio, piēdade!

Deus. Tuā hora chegou, malandro, vem! 1610
Rondei demais esta casa de puta
E dominada por corno: Calado!
Não se pode enganar o enganador!

Proc. Mas deve ser engano, eu sou temente:
A vida inteira ajudei como pude 1615
Os meus amigos e o filho do pobre.
Demônio, pelo amor de Deus, adoro
Todo mundo: Me ajuda queu te ajudo!
Deixa-me em paz e vou-te dar de tudo,
Casa e comida e cūecas de seda. 1620

Deus. Toma vergonha na cara, ordinário,
Eu quero o quê com cūeca de seda?
Non tem dinheiro que compre, jamais,
O juiz que te aguarda, estou com pressa!

Proc. Então non tenho mais nenhuma chance 1625
De salvação? Eu mudarei meu jeito,
Eu quero só viver, mudar meu rumo!

Deus. Agorè tarde, peão, o pecado
Que cometeste Deus jamais perdoa.
Na tua juventude eu já sabia 1630
Do teu estilo frouxo e pervertido.
Desde esse tempo investiguei teu passo
E coisa boa até hoje eu non soube.

Proc. Um momento me basta, pouco tempo!

Deus. E para quê?

Proc.                     Convencer o demônio! 1635

Deus. Non tenho tempo!

Proc.                               Um segundo apenas!

Deus. Já que detesto tanta choradeira,
Eu posso até ceder, mas fala logo!

Proc. Escolhe alguma coisa desta casa,
O que quiseres, carrega contigo! 1640
Em pouco tempo gente velha morre.

Deus. Cuidado com promessa, meu amigo:
Tem uma história por aí correndo
De certas cartas que Procóp entrega
Ao tal Rogério, comparsa de pragas. 1645

Proc. Mas eu sabia que um grande segredo
Não ficaria escondido de todos!
Essas cartinhas son curtas e poucas,
Palavras de consolo e caridade.

Deus. Do conteúdo eu jà sei, salafrário, 1650
O inferno inteiro conhece o teu tipo.
Foram poucas as vezes que existiram
Tanta besteira e tanta putaria
Em meras folhas, papel condenado.

Proc. Nò é assim porque posso explicar: 1655
Quando se preōcupa cons amigos,
Certas palavras son mal entendidas.
No começo, essas cartas eram santas,
Foram mudando aos poucos e pecando.
A culpè tua e das tuās falanges 1660
Que pervertero a vontade dos bons.

Deus. E desde quando uma culpa foi nossa
Se quem agiu foi gente e não inferno?
É do demôn a parte de incitar,
A de aceder porém compete ao homem. 1665
Pouco me importa se quem peca peca
No começo, no meio ou só no fim:
Problema teu, non meu! Toda pessoa
Peca e contanto que peque perfeito.

Proc. Istè verdade, mas non tenho parte 1670
No caso dessas cartas, nem pecado.
Entreguei os papéis e fui-me embora
Toda vez e nem vi nem li nem soube!

Deus. Eu tenho cara de otário, querido?
Fala a verdade, cretino, confessa! 1675

Proc. Então me diz de vez o que desejas,
Ofereci de tudo e nada basta!
Socorro, Amanda, socorro, Rogério,
Estou sendo levado injustamente!

Deus. Palavreado non serve de nada: 1680
Estou de saco cheio, até com raiva.
Deixa de caso e chilique e cu doce!
Non dou moral a converseiro, nego,
Mas quero ser legal contigo, escuta:
Me entrega toda carta que tiveres, 1685
Põe tudo aqui na minha mão e pronto,
A salvação è clara e garantida!

Proc. O quê? As cartas?

Deus.                               Vem comigo então!

Proc. Nò é possível!

Deus.                            Non mintas de novo!

Proc. È traïção que perpetro a Rogério! 1690

Deus. Problema teu: Eu cobro meu tributo
E quem non paga tem que assar na brasa!

Proc. Deus me defenda!

Deus.                               Olha aqui, mané,
Estou sabendo de toda a marmota!

Proc. Mas neste caso deixa aqui las cartas! 1695

Deus. A legião do inferno só descansa
No dia em que essas cartas forem vistas.
É agora ou jamais, Procópio, anda!

Proc. Meu Deus, Rogério nunca aceitará:
E se eu queimar eu mesmo a papelada? 1700

Deus. Podes queimar, mas vem então comigo,
Tem muita gente esperando por ti,
Querido, lá no andar de baixo, pronto!

Proc. Não me conformo!

Deus.                            Decide-te logo.

Proc. Pelo jeito, non tenho mesmo escolha! 1705

Deus. Então...

Proc.             Preciso...

Deus.                            Passar...

Proc.                                         Os papéis...

Deus. Vai, desgraçado, passa logo as cartas,
Não tenho o tempo inteiro deste mundo!

Proc. Leva contigo, demo, toma tudo!

(tira do bolso uma leva de cartas)

Deus. Aí estão!

Proc.                  Sõ estas que me restam! 1710

Deus. Perfeito, passa!

Proc.                             Então me salvei?

(entrega as cartas)

Deus. Nas mãos corretas!

Proc.                                 Cumpri minha parte?

Deus. Ainda não! Um pequeno detalhe:
Que dizer de Deusdete, meu amigo?

Proc. Mandei embora e despedi com gosto 1715
Quem passa a vida inventando mentira!

Deus. Opa, rapaz, Deusdetè gente boa.
Deste serviço Deusdete non sai.

Proc. Nò é possível!

Deus.                          Queres vir comigo?

Proc. Não não, demônio! Deusdete vai ficar. 1720

Deus. Muito bonito, e vê se te comporta:
Non quero vir de novo, okay, bandido?

Proc. Eu vou mudar a minha vida inteira!

Deus. Gostei de ver! (sai.)

Proc.                        Coitado de Rogério!
Como direi ao meu melhor amigo 1720
Que Satanás roubou nosso segredo?


Cena V.

ROGÉRIO. PROCÓPIO.

Rogér. Procópio, meu amigo, queque foi,
Levanta-te do chão, estás morrendo?

Proc. Infelizmente não: Estou è vivo!
Se a tua ajuda tivesse chegado 1725
Antes, Satã teria sido expulso.

Rogér. Que palhaçadè essa e que delírio?
Não me parece bem lo teu estado!

Proc. Pois o demônio já levou embora
Tudo o queu tinha de carta e guardava! 1730

Rogér. Comé quié, Procóp, esse negócio?
É melhor me sentar, explica o caso!

Proc. Mas explicar o quê, meu caro, è isso:
Demôn apareceu e me extorquiu:
Ou eu lhe dava tudo ou iā junto! 1735

Rogér. Que desgraça foi essa, delinquente?
Onde se viu que o demônio viesse...

Proc. Pois eu o vi!

Rogér.                     A que ponto chegamos!

Proc. E mais: Também ouvi!

Rogér.                                        Por piēdade,
Procópio, desde quando que o demônio... 1740

Proc. Amigo, eu não estou ficando louco!
Non vimos ambos a cena grosseira
Que Satanás arranjou nesta casa
Em frente a filhos, amigos, esposa?
Pois ele apareceu-me aqui de novo 1745
Nesta mesmíssima sala, meu caro!
Ameāçou me levar para o fogo
E por pouco eu seria sequestrado:
Só me salvei porque lhe dei as cartas!
Perdão, Rogér, eu sei que te traí! 1750

Rogér. Cão! Miserável!

Proc.                             Maldito demônio!

Rogér. Demônio lá existe? Que demônio?

Proc. Ora, Rogério, jà disse que o vi!

(silêncio)

Rogér. Percebo a farsa que aqui se passou!
Ah salafrária! As cartas que deste 1755
A Satanás, eu sei quais são, Procópio!
Pois eu as vi pelas mãos de Deusdete
Descendo pela escada em gargalhada:
Levou consigo um terrível segredo!

Proc. Que dizes?

Rogér.                    Despudorada!

Proc.                                            Deusdete! 1760

Rogér. Vamos, amigo, com sorte a pegamos,
A condenada certo não foi longe!

Proc. Deus me proteja: Nosso casè sério,
Tudè perdido e saberão de tudo
Nas horas próximas.

Rogér.                                  Aindè tempo! 1765

Proc. Não, impossível, conheço Deusdete.

Rogér. Vamos correr!

Proc.                        Deixa-me ver o cofre.

Rogér. Traz o dinheiro!

Proc.                           Non cabe na mala.

Rogér. Pega os papéis, transações, documentos.

Proc. Pronto, na mala!

(saem; ouve-se as vozes fora do palco)

Rogér.                             Deusdete!

Proc.                                              Deusdete! 1770

Rogér. Com sorte a vemos, coragem!

Proc.                                                 Cadela!



ATO V.

Cena I.

AMANDA. MAURÍCIO. PATRÍCIA.

Aman. Cadê Deusdete que nunca me chega?

Maur. Calma, mamãe!

Aman.                          Mas calma como, filhos?
Fugiram juntos Procóp e Rogério!
Estou morrendo, traz o comprimido, 1775
Pega o diclofenaco, o navagina
Ou sei lá como chamam, traz o meu
Supositór, o de duzentas gramas!
Pobre mulher que trabalha por nós:
Deusdete achou as cartas! Mal me deu 1780
E já foi ver se achava mais, coitada,
Correndo risco de vida e de morte.
Saiu sem rumo e salvou-se por pouco,
Procóp atrás perseguindo e Rogério!
Passou desesperada pela esquina, 1785
A vizinhança rindo e se acabando!

Patríc. Motivo com certeza não faltou!
Quistór è essa de fuga, mamãe?
Anda Maurício, traz o ibuprofeno!
Mamãe enlouqueceu de vez, delira 1790
Ou deve estar com dor na consciência.
Conselho todo mundo aqui te deu:
Rogério nò è santo, Dona Amanda,
Teu amigo non prestā, abre os olhos!
Teu casè triste e nem remédio cura. 1795

Aman. Dizei lo nome duma só desgraça
Que non tenha caído sobre nós!
Ouvi, filhinhos, chamai enfermeiros,
Estou morrendo já de desespero.
Quanto às cartas, lereis e sabereis 1800
Que Amandè santa, pura vossa mãe:
Non tive nada com Rogér, eu juro!

Maur. Estou perdendo mesmo a paciência!
Pega essas cartas, quero ler agora!

Patríc. E quanto a mim, nem sei se quero ouvir 1805
O nome dessa amante: Tanto faz!

Aman. Maurício pode ler, eu nem consigo!
Acabou minha vida, cava a cova.

Maur. Dona Amanda e seu drama, mas vejamos
As cartas: Ah! Olha aqui – um poema: 1810

(começa a ler da carta)

»Meu amor! A calcinha colorida
Está cremosa, esperando por ti:
Eu fico olhando no espelho a beleza
Do fio dental e lembrando a batida
Da tua mão nesta molhada gruta. 1815
Son tantas emoções, a carne gruda
Bem gostoso no fio enquanto penso.
Em pouco tempo estaremos juntinhos:
Tudo està pronto, tudo vai perfeito,
Ninguém desconfiou do nosso plano. 1820
Quando estiveres só, querido, bate
Para mim na pontinha do teu peito!
Atè breve, cachorro, até mais tarde:
Do teu eterno amado, teu Procópio!«

Aman. Para, infeliz, estou ficando louca, 1825
Estou morrendo, socorro, meus filhos!
Alguém me acuda pelo amor de Deus,
El ar me falta, è farsa do demônio,
Traz o remédio, chama uma ambulância!

Maur. Calma, mamãe, Patrís, ajuda logo! 1830

Patríc. É gozação, Maurís, è palhaçada?
Mamãe vai ter um treco e tu me enganas?

Maur. Engano não, Patrícia, podes ler!

Patríc. “Quando estiveres só, querido, bate
Para mim na pontinha do teu peito! 1835
Atè breve, cachorro, até mais tarde:
Do teu eterno amado, teu Procópio.”

Aman. Eu bem sabia que o demo iludia
Minha esperança de vida e virtude!
Já vem vindo, meninos, l'ambulância? 1840
Dai-me esta carta, deixa ver agora!

Patríc. Pai de família, casado faz tempo!

Maur. Para, Patrícia! Acha o telefone!

Aman. »Atè breve, cachorro, até mais tarde:
Do teu eterno amado, teu Procópio!« 1845

Maur. Custa-me crer!

Patríc.                          Mas eu entendo agora
Por que fugiram esses dois pombinhos!

Maur. Estás melhor, mamãe? Abre a janela!

Aman. Que mulher infeliz e mal amada!
O coração de Rogér è sensível, 1850
Mas a musa que inspira seus suspiros,
A meretriz que o seduz è Procópio?
Eu não entendo mais esta existência,
Fui traída por todos que me amavam.
Onde está meu remédio, desgraçado, 1855
Quero estar viva e chamar a polícia:
O meu marido roubou meu amante?
Ou meu amante roubou meu marido?
A palhaçada nò entra direito
Aqui na minha cuca, estou maluca? 1860
Son dois amigos, filhos, são cristãos:
Bispo Rogério tem mulher e filhos!

Patríc. »Mas tem também um coração, Deusdete!«
Gente, Maurício, verifica os cofres!

(Maurício abre e inspeciona os cofres)

Maur. A puta que os pariu! Levaram tudo! 1865
Eu vou matar Rogér, eu mato, eu mato!

Aman. Aindè tempo, ai! Chama a polícia,
Vamos deter esses dois salafrários,
Anda, Maurício!

Maur.                            Vamos já!

Patríc.                                             Polícia!


Cena II.

DEUSDETE. AMANDA.
MAURÍCIO. PATRÍCIA.

Deusdete junto a dois policiais.

Deus. Pode parar, boiada, aondē ides? 1870
Perdi de vist ē olha que busquei
Por todo beco e por todo buraco.

Aman. E quanto ao cofre?

Deus.                               Levavam consigo
O mundo todo, um montão de dinheiro!

Patríc. Onde os perdeste?

Maur.                               Conta o caso inteiro! 1875

Deus. Gente de Deus, estou de fato viva?
Foi por milagre que encontrei do nada
Os dois aqui, soldado muito honrado.
Quando expliquei lo caso e tudo mais,
A virtude e dinheiro os comoveram: 1880
E de repente, dois heróis guerreiros
Me ajudavam correndo pela rua!
Assim que vimos os dois foragidos
Houve perseguições, houve batalhas
Mas destino non quis, destino opôs! 1885
Aí, meu filho, nem herói resolve
E num segundo a quadrilha fugiu,
Bandido ali se escafedeu com tudo!

Aman. Inda podemos...

Deus.                          Pode nada, para!

Aman. Deusdete está cansada! Vai, Maurício, 1890
Toma uma providêns e vê se encontra:
Nò é possível que estejam tam longe!

Maur. Vamos agora!

Aman.                         Mas toma cuidado!

Maur. Non voltarei de mãos vazias não,
Eu quero o crânio daquele canalha! 1895

Patríc. Usa juízo!

Maur.                   Ao diabo! Vamos! (sai cons policiais)


Cena III.

DEUSDETE. AMANDA. PATRÍCIA.

Deus. Eu não achei as cartas, Dona Amanda?
Mas Dona Amanda, cadê meu dinheiro?

Patríc. A Dona Amanda se acabou, Deusdete,
Lê por ti mesma o teor da tragédia! 1900

Deus. Eu quero lá saber dessa tragédia?
Eu quero meu dinheiro e quero agora!

Patríc. O dinheiro sumiu! A cartè esta!

Deus. (lendo) »Meu amor! A calcinha colorida
Está cremosa esperando por ti...« 1905

Patríc. Que coisa escandolosa e que passada,
Gente, eu fico abismada coessa história.

Deus. »Do teu eterno amado, teu Procópio!«

Aman. Cala essa boca pelo amor de Deus,
Eu nunca mais quero ouvir este nome! 1910
Foi triste a farsa, foi feiā demais!
Eu já nem sei se consigo saber
Qual desses dois foi pior traïdor.
È cada coisa que a pessoa escuta:
Essa paixão que el igreja condena 1915
Non pode ser correta, Deus non gosta!

Deus. Nò é possível isto, Dona Amanda.
Digo – nò é possível que tenham fugido
Pela paixão que o pregador condena.

Aman. Como não, criatura, se essas cartas 1920
Son claras, são explícitas? Son provas,
Documentado amor de dois comparsas.
Não se duvida de indício tam forte!

Deus. Pois descobri, minhā filha, um vestígio
Maior que a papelada, eu tenho imagens! 1925
Foi coestas mãos que Deusdete pegou
Uma pista tremenda e coisa linda:
Caiu na rua em toda a correria!
Se os dois amigos são também amantes,
Que fotè esta e que mulher è esta? 1930
Olha aqui lo que achei: E não me venham
Dizer que este corpinhè masculino!

Aman. Dá-me esta imagem, por Deus, infeliz!
Ah! Entendo, Deusdete, o caso inteiro,
Agora eu sei como foi que fizeram. 1935
Eis a mulher que destruiu meu lar,
E que mocreia, que corpo acabado!
Abre a janela, Patrícia, socorro,
Morre de dor o coração traído...

Patríc. Deixa-me ver! Ave, que coisa horrível, 1940
Que jaburu! Por sorte, a fotè pouca,
Non mostra a cara, o traseiro bastou:
Rogér e seus bagaços, coisa triste.

Deus. Eu fiquei transtornada quando eu vi,
Eu juro, eu quase desmaiei de susto. 1945
Olha, tem hora que até me pergunto
Se o nosso amigo vai bem da cabeça!

Aman. Quero saber o caso dela inteiro,
Quero saber detalhes da cadela!
Quem pode ser?

Patríc.                             Uma nobre fiel 1950
Que lhe mandava cartas por papai.
Uma mulher sofrida e bem carente:
Rogério lhe mostrava o seu cajado!

Aman. Para, Patrícia! Como te divertes
Da triste sina que a vida me arrima? 1955

Deus. E pelo jeito està só começando
E vem vindo mais bomba pela frente!

Patríc. Mas uma coisa me parece estranha.
Como explicar essas cartas de amor
Expressamente assinadas »Procópio«? 1960

Aman. A desgraçada usurpava seu nome,
– O que Procópio talvez consentia –
E assim cobriu la própr identidade.
A vidè essa, eu conheço esse mundo:
Procópio foi levar os dois embora, 1965
Era ele o correio dos pombinhos!
Foi ele que pagou pelo romance!
Procópio vai entrar por esta porta
Como se nada estivesse ocorrendo!
È cachorrada, è cachorro, è putada! 1970

Patríc. Plausível soa!

Deus.                         Em nada me assusta!
Depois de tanto baque e tanto susto
A pessoa acredita em qualquer coisa:
Fotografia, ingresso de teatro...

Aman. Digo e repito a meus queridos filhos: 1975
Teatro acaba coa vida dum homem.
Donde foi que saiu la inspiração
Que levou meu marido a tal ruína?
Veio do palco e duma raça podre!
Non foi no seio dum lar delicado 1980
Que meu amor aprendeu este gesto!

Patríc. Nem ousarei questionar de que seio...

Aman. Ah! Não me mates pois estou morrendo,
Chama a polícia, chama uma ambulância,
Falta-me el ar!

Deus.                       Calma, Amanda!

Patríc.                                                   Mamãe! 1985

Aman. Chama meu médico, filha, Deusdete,
Levai-me logo ao leito do hospital!
Um mal terrível me assola no peito,
Sinto que expiro, Patrícia, socorro!

Deus. Uma ambulância!

Aman.                            Um médico já! 1990

Patríc. Vamos agora, dá-me as mãos, mamãe!

Aman. Fica, Patrícia, pelo amor de Deus,
A proclamar a Maurís o meu fim.
A minha amiga saberá guiar-me
No derradeiro rumo que me resta: 1995
É muito abalo numa vida só!

Deus. Vamos, Amanda!

Aman.                               Aqui, pela porta! (saem ambas.)


Cena IV.

PATRÍCIA.

Patríc. Cachorrada se acaba tudo assim!
A pessoa quer ser o que nò é
E termina pior do que jà era. 2000
Aceito Deus, acredito em virtude,
Mas deixo sempre todo mundo em paz.
Eu quero me salvar, salvar o mundo
Não consigo e nem tenho autoridade.
Macaco olhando o próprio rabè lindo, 2005
È comovente ver, o restè farsa.
Nada disso acontece quando el homem
Cuida da suā vida e do què seu:
Hipocrisia foi mãe de comédias.
Quem mandou Dona Amanda se meter 2010
Na vida alheia e não viver a própria?
Assim tropeça a pessoa que abusa
Religião que nem metralhadora.
Bonitè falar menos, agir mais,
Senão se vê como a coisa termina: 2015
Rogério santo então virou devasso,
Trocando o seu amigo pela esposa,
Abandonando Amanda pelo amigo.
Falava só de Deus, pregava bem,
Corria atrás de mulher e dinheiro. 2020
Discernimentè bom, cegueira não,
Moderação è mãe do qué virtude.
Por isto eu vejo toda essa passada
E calo a boca e não me meto em nada.
Não faltou quem dissesse: Dona Amanda, 2025
Nò é assim que se encontra resposta.
Mas a resposta da vida dos outros
Eu não conheço, vou buscando a minha.
O que parece bom, estudo e sigo:
Sem pretensão, examino meus erros, 2030
Pratico sem alarde o que acredito.
Mas cada diè lição fugidia...
Cadê Maurís, o povo nunca chega,
Será que alguém morreu, será possível?
Só faltava uma coisa dessas, ave, 2035
A demora me deixa até nervosa.


Cena V.

PATRÍCIA. MAURÍCIO.

Maurício cons mesmos policiais.

Maur. Desisto!

Patríc.               Quê?

Maur.                         De buscá-los.

Patríc.                                                Mas como?

Maur. E quem consegue perseguir papai
Coa multidão correndo pelas ruas?
É muita gente, apareceu do nada 2040
Gritando e protestando e sabe Deus:
Papai se aproveitou, sumiu na massa!

Patríc. È complicado e só faltava essa!

Maur. Mas queque foi, cadê mamãe, Patrícia,
Fazendo o quê sozinha aqui na sala? 2045

Patríc. Nem te conto, Maurís, o casè grave:
Mamãe parece morrer dum ataque!
Fiquei aqui para dar a notícia.

Maur. Dona Amanda e seus trecos, ai ai ai:
Aonde foi, tomou que rumo, diz! 2050

Patríc. Non sei, saiu com Deusdete mancando.

Maur. È muita bênção que Rogério trouxe.
Santo de casa nunca faz milagre?
Roubou dinheiro e mamãe se acabou!

Patríc. Deixa de drama e toma uma atitude! 2055

Maur. Vamos, amigos!

Patríc.                          Aonde?

Maur.                                        Buscá-las!

Patríc. Acaso sabes...

Maur.                         Se ficar em casa
Seguramente nunca saberei!

Patríc. Espera então, irei contigo ver!


Cena Final.

AMANDA. DEUSDETE.
PATRÍCIA. MAURÍCIO.

Amanda em maca, enfermeiros.

Aman. Vede, meus filhos, os restos mortais 2060
De quem um dia foi mãe valerosa!
Vede o que um gesto infeliz de Procópio
Causou na vida virtuosa e calma
Da triste esposa que à cama se acaba:
Assim termina no mundo a virtude! 2065
Mas não reclamo, meus caros, de nada,
È este o preço que a justiça custa.
Maurício, filho, que fazes aqui?
Deixa morrer tuā mãe ultrajada.

Maur. Mas que se passa contigo, mamãe? 2070

Deus. Amanda sofre um mal desconhecido:
Quando a mártir chegou al hospital,
A doutorada examinou-lhe o corpo:
Non deu em nada! Retorcendo a cara,
Disseram que frescura não tem cura. 2075
Mas quando expus melhor a gravidade
Do caso e da quantiā da virtude,
Pensaram bem e tudo se arranjou:
Colheram sangue, tecidos e urina,
Foram medindo os calores e o frio 2080
E tudo mais, foi bonito assistir.
E reunida uma excelsa assembleia,
Os artistas da cura demandaram:
Foi travado um debate memorável,
Foram passadas horas de pesquisas. 2090
Era cada aparelho e cada máquina!
Tudo em vão, meus amigos, não bastou!
Depois de muito tempo e muita angústia
Foi confessada uma triste verdade:
Era a ciência o verdadeiro mal! 2095
Amanda sofre duma tal moléstia
Que nem doutor e nem médico explica.
Mas refletindo, coitados, no caso
E na quantia e na virtude, agiram:
Mandaram junto estes dois enfermeiros 2100
E passarão conosco a noite inteira,
Velando atentos em graves exames.

Patríc. A narração foi de fato tocante,
Jà vale prêmio: Nobel de Chatice.

Maur. Que maldição de moléstia foi essa? 2105
Toma-te prumo e deixa de bobagem,
Anda, levanta a bunda dessa cama!

(toma-lhe do braço e põe-na de pé)

Aman. Mas gente, que queísso, estou de pé?
Cura doença o toque de Maurício?
Que maravilha, Deus, meu filhè santo! 2110
Estou curada, estou saudável, nossa!

Patríc. È bom que Dona Amanda esteja bem
Porque tem muita coisa pra escutar.

(Amanda joga-se à maca de novo.)

Aman. Socorro, filha, estou ficando tonta:
Que novo mal se abateu nesta casa? 2115
Percebo já! Non pudeste alcançar
A bandidagem que roubou meu sonho?
Minha inocência foi demais traída:
Que aconteceu na rua, fala logo?

Maur. Eu temo o triste estado em que te vejo 2120
E fico até com dó de avacalhar,
Desmascarar a pilantra que foste:
Só que artista maior foi teu marido.

(Amanda salta da maca num átimo)

Aman. Jà fui curada, pelo amor de tudo,
Fala, infeliz, a demora me mata! 2125

Maur. Quem assistiu a desgraça que vimos
Jà não se alegra desta vida mais...
Éramos lentos na praça lotada,
Maluco doido em tudo què bueiro.
Virou concurso ali de palavrão, 2130
De pau e pedra e de couro comendo.
Em tal cenár avistamos Procópio:
Camisetinha estreita e calça curta,
Passando de mãos dadas com Rogério.
Eu tive um treco e teve um rebuliço: 2135
Mandei correr atrás mas se safaram
E agora estão safados dois ladrões,
A multidão pensando que era festa.
Quando porém aportamos à praia,
O nosso brado se uniu aos da massa 2140
E percebemos a inteira verdade!
Estavam buscando papai, gritando:
»Abaixo o bispo impostor, o banqueiro,
Cadê Rogér, eu quero meu dinheiro!«
Foi ali, meus fiéis, que me dei conta 2145
Da vida e da verdade, ouvi foi coisa!
De mão em mão passava a lista imensa
De crime e roubalheira, fiquei zonzo:
O Hall da Salvação, desviō, roubo,
Sonegação de imposto, estelionato, 2150
Formação de cartel, difamação,
Um longo rol que prefiro ocultar.
Quando fui ver, Procóp estava longe,
Cantando em alto mar com seu amante:
»O barquinho vai! A tardinha cai!« 2155
Parava o povo na beira da praia,
Perdendo já de vista uma canoa
Que rumo às águas do Havaí remava:
Os tripulantes em beijos e abraços,
Dinheiro e transações por todo lado. 2160
Enquanto isto, seguiam batalhas
Entre a polís e a multidão nervosa.

Aman. Para, palhaço! Quem pensas que sou?

Patríc. Será verdade o que escuto, Maurício?

Deus. Eu quero meu dinheiro, achei as cartas! 2165

Maur. Foi o que vimos, os guardas e eu!

Aman. Istè conto de fadas, é piada?
Menino, sou mulher que viu a vida!
Issè calún e falatório frouxo:
Onde se viu Procópio sonegando 2170
Imposto algum e roubando dinheiro?
Não te envergonhas de tanta mentira?

Patríc. Melhor non pôr a mão no fogo!

Aman.                                                    Mentira!

Maur. »O barquinho vai! A tardinha cai!«
O mundo inteiro ouviu, lo mundo viu! 2175

Aman. Viu o quê, ordinário, viu o quê?
Procópio se beijando com Rogério?
Tem dó de mim, Maurício, me respeita,
Um caso desses nem demôn encena!

Deus. Amanda, eu quero meu dinheiro agora! 2180
Mas uma coisè certa, o casè claro:
È necessário curvar-se às imagens!

Aman. Son pois imagens que aqui mencionais?
Eu vou mostrar a foto então que acharam,
Acharam não, Deusdete achou: Aqui! 2185
Olha o traseiro aí no preto e branco:
Issé mulher, Maurís, issé Procópio?
Olha aí que bagaço e que mocreia
Rogér andou comendo pelo mundo!
Será Procóp o jaburu da fato? 2190

Maur. Deixa-me ver!

Aman.                         Assombração sem roupa!
Caiu do bolso de Rogério, filho!

Deus. Eu fiquei baqueada quando olhei!

Maur. Pois essa bunda bem sei de quem é!

Patríc. Quem é, Maurício?

Deus.                                 Fala logo então! 2195

Aman. Quero saber onde mora a vadia!
Quero acabar coa raça dessa vaca!

Maur. Pois a mulher è você, Dona Amanda,
Você de cabo a rabo, eu vi de cara!

Aman. Seu desgraçado!

(lança-se contra Maurício)

Deus.                           Aparta, polícia! 2200

(os guardas intervêm separando)

Patríc. Peraí, peraí, que coisè essa,
Maurício, peraí: Mamãe na foto?

Maur. Ah, por favor, Patrícia, que pergunta!
Olha a mancha estampada, escancarada,
Olha o sinal da perna e do traseiro! 2205
Não te recordas daquele biquini,
A praia inteira vendo a cicatriz?

Patríc. Deixa-me ver!

(toma a fotografia às mãos)

                         Nò acredito, gente,
Essa mocreia da fotè mamãe!
Eu reconheço tudo, eu vejo tudo, 2210
A marca, a cicatriz, a celulite.

Aman. Não merecia, filha, tal calúnia.
Deixa-me ver melhor este retrato!

Maur. O casè claro, verdade inegável!

Patríc. È raio X completo e confiável 2215
»De quem um dia foi mãe valerosa!«

Deus. Será possível? Quero ver também!

(toma a fotografia às mãos)

Então as cartas eram de Procópio,
Procópio que mandou: Azar o meu,
Era melhor non ter achado nada! 2220
Rogério dava a Dona Amanda os dias
E dedicava as noites ao marido?
Equilibrada a divisão das horas!
E foi assim: Amanda apaixonada
Propôs a fuga e Procópio também. 2225
Que dilema de amor viveu Rogério!
Mas agiu bem, Procópio tem dinheiro.
Fugiu perfeito às ondas do Havaí,
Querendo até levar de souvenir
O carinhoso retrato de Amanda! 2230

Maur. È muito horrível para ser verdade!

Patríc. É, meu filho, no mundo duas coisas
Sempre se excluem: Verdade e beleza!

Aman. Jà terminastes o triste debate?
Posso falar?

Maur.                     Falar o quê, mamãe? 2235

Patríc. O casè simples!

Deus.                           Perdi minha fé...

Aman. Eu lembro agora desta foto, filhos,
Estava bêbaba quando Rogério
Se aproveitou de mim, me fez de puta.
Eu tentei resistir mas ele disse 2240
Que apagaria tudo ou rasgaria!
Que o meu destino sirva de lição:
Perdida honra e fortuna roubada!

Patríc. Pouco importa fortuna a quem trabalha,
Minha fonte de renda não se abala! 2245

Maur. Menos ainda a minha!

Deus.                                    Quanto a mim...

Aman. Deixa comigo, Deusdete, prometo!
Inda amanhã saïremos humildes
Redimindo os pecados dessa vida!
Conheço um outro santo e grande amigo: 2250
Padre Pedrão resolverá meu caso!
Vem comigo, menina, vem sem medo:
Esse me salva mesmo, esse me cura!



FIM




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