GREGÓRIO BARBOSA

ABSTRAÇÕES

Index



© Greg Ory 2013 – 2018, Record L 2, Engl. Abstractions, january 2013 to november 2013, Hampshire, dactylic hexameter, ten poems, 100-120 lines, lyric poetry, Portuguese.




I.

Turva no grau das nuvens, perde-se a vila sombria,
Fumam das chaminés do porto as águas a névoa.
Sonho de espuma e breu, envolves em fúnebre cinza
Portos, céus e mares, e os ânimos fogem os homens.
Vai vanecendo a cidade em treva que o trem atravessa 5
Rumo a burgos, bosque vistoso em sóbria roupagem.
Trilha sozinho. Ninguém de dentro acompanha percurso,
Mundo estranho, descrito e nunca visto em trilho perdido.
Longe estão imagens de ocelos humanos e vagos,
Perto porém d'entranhas no vale do abismo das almas. 10

Vias que terra airosa e viço deixastes embora,
Vidas inteiras a vir, caminhais veredas opostas!
Passa a confusão da cena correndo cons trilhos e
Deixa na mesma memória amor sem fim repetido.
Pobre o cor merencório, fundo e mundo gravíssimo 15
como um antro torto e de prantos refúgio celeste.
Alma depoente se cobre de verbos ingratos,
Nunca traduzidos e sempre ouvidos do peito.
Língua tácita, em vão gramática e vozes passivas
São falar errante, cava e palavra sem forma. 20

Longe as linhas dançam do horizonte alheadas,
Movem como aladas céu, fundidas coa banda.
Flente a furto irrompe e dança a baila das formas,
Turva de cílios chuva quando os olhos oscilam.
Perto da estrada, folhas desfiadas esperam 25
Certo sopro ventá-las a toda e nenhuma sorte.
Como os sonhos levam quem os sonhos enleva
Qual se fossem leves, sopros são sonhos levados.
Dormem, porém, sonhando sono alegre de arcanjos
Folhas e linha, cílios – e as pálpebras guardam as juras. 30

Vai-se o trenzinho e corre e leva consigo a paisagem,
Leva além o verbo, que letras são feias nem simples.
Árvore! Nume pientíssimo e núncio sem nome,
Vila de verdes generosos, amigos dos olhos:
São apenas tuas a luz e a verdade das almas! 35
Fosse puro o ânimo e fresco qual se de folhas!
Seguem trilhos, paragem futuramente passada,
Vista e sumida alhures por hemisférios ocultos.
Aves invejadas! Parti do claustro nas nuvens!
Ide a montes! Fugi procela e plagas humanas! 40

Voa por entre galhos e passa o pássaro afoito,
Busca cantando a causa e trina pela colina.
Mar de papilhões anis, margaridas mansinhas,
Ponde fim, pequenos, ao tempo grande das aves.
Casas de lenho, capelas trás o véu verdejante 45
Vão ferindo o céu, e além terminam as terras.
Findam como a gama que ocelos vagos avistam,
Perdem-se pós um piscar, atrás do trilho corrido.
Onde, pássaro afoito, buscar de cores a causa,
Onde cantar, se canto è vento perdido nas rodas? 50

Musas mortas leram o livro dos imos do homem e
Letras lacrimosas, langura, angusta saudade.
Ride, algozes máximos, ride dos mínimos entes,
Lábios inábeis ao canto, hino de amores ingentes.
Símplices glórias, voz negada ao cabo dos húmeis, 55
Dai consolo ao mendigo da lira e rico na pena.
Houve deuses grandevos e semi-heróis na palavra?
Dai sossego ao inquedo abismo de sopro sem termo,
Dor feral que apenas astros quiça perceberam.
Ser humano è calar, e fora do ser a expressão. 60

Trás o monte escondem-se tantos burgos intactos,
Trás as terras perpassadas um rio generoso.
Rosto brioso raia no bom contraste de ondinas
Rumo ao fim das eras e ao terno começo dos olhos.
Verde sucede vertigem, cena aos cílios cerrados 65
Corre como o rio, e os cantos colorem as auras.
Trás o rio a palavra termina, começam letícias
Nunca faladas. Verbo, tenham fim as sentenças!
Cala-te, musa melosa, não seja a beleza pequena
Para em ti caber, que as letras abstratas perecem. 70

Houve mestres de história, doutos e suma verdade?
Sábios, nunca fostes ao flume parvo e tão franco.
Rio cansado e corredio, sereníssimo curso,
Quanto sangue tingiu as tuas lúcidas ondas?
Passa a transição eterna fluente por ribas, 75
Plena de castros imotos e máximas vãs catedrais.
São difíceis os homens, ruínas modernas tragadas,
Sonho e cobiça velha: As ondas deliram as causas.
Brado e soluços fartos diluíram com urros
Úmidos todo o sangue. Foram lutas inúteis. 80

Longe surge no monte a torre de ameias antigas,
Vale redondo e terras desbravadas e virgens.
Certa flor dormiu sorvendo a sombra poente,
Rubra nuvem desfez o frientíssimo escuro.
Como um sol fatigado vai morrendo a colina, 85
Ledas dão graça campinas à triste estrela primeira.
Noite invicta, cerraste os olhos pulcros das luzes,
Mortas do ocaso que cega as almas bambas na espera.
Trilhos lustrosos que iludis o romeiro sem rumo,
Désseis visse o trem o súbito termo das cores. 90

Fosse o homem menino pelo campo, correndo,
Véu de fantásticas chuvas, mistério feliz esquecido.
Dizem que há tesouro trás paisagens coradas,
Ouro de raios e rosa rara e gemas briantes.
Mas o fumo se esvai, cruzando azuis impalpáveis, 95
Nuvem que o sol pertranse de impossível distância.
Simples amores sumos! Cantai calados os dias,
Trilho e verbo finito que não seduzem a treva.
Louca voz de riso, de pranto perene romagem:
Sede ingênuos, meninos, sede velhos ingênuos. 100


II.

Queres mais sentido na vida que olhar o asfalto?
Coisa dura è ser ingênuo. O trem que termina
dá num mar cinzento: Trilho, viga de ferro,
pedra da cor da nuvem. Inda ontem raiava
sol num campo. Bom è estar sentado no banco, 5
ver o mundo passar e não saber de cidade.
Como è gostoso o verde. Parece mundo bonito.
Para o trem na estação, a gente passa descendo
pela escada e aqueles prédios, aquela feiura.
Feio mesmo? Talvez è só desgosto nos olhos, 10
esses sim os feios, treinados em ver as coisas,
cada coisa que o único canto è pousar num deserto,
verde, de fato, porém deserto e mato intocado.
Vai passando a pressa da gente na rua empurrando,
indo ao trabalho. Fica pensando o peão pela beira, 15
cuja vida è de beira, se gente è só quem trabalha.
Coisa boba. Ninguém se importa com tanta besteira.
Dá um aperto no peito a fumaça. Quase que mata.
Sabe Deus de que jeito se vive, Deus è que sabe.
Sabe nada, quem que sabe de quê nesse mundo? 20
Cada esquina è mistério. Vem de longe uma gente,
vence a strada e termina na rua. Ir-se embora?
Onde o rumo e cadê coragem? A vida è uma pedra.
Não existe lugar onde a mão, se fora de gente,
não passou sem fazer uma coisa feia. Desgasta. 25
Bom de verdade è ser menino sentado na escola.
Vem doutor e diz que trabalho è criar e criar e
Criam gado, coitado, quase morrendo na seca,
plantam se Deus deixar plantar. Criando uma vida.
Dá um dó de levar ao rio o boi, carneá-lo, 30
como os peões de rua que a gente parece que ama,
anda junto a vida inteira e depois que se danem.
Tudo boi carneado. Trabalho è criar. Carnear!
Gente sem rumo è isso, fica olhando o asfalto.
Quando a rua era terra, pegava coa mão e moía, 35
indo embora o grão pelo ar. Nascia uma grama,
planta qualquer. Mas essa pedra de asfalto sufoca,
rua preta pra carro passar. Ali não se cresce.
Tem luar de noite não, a luz è de poste.
Olha, peão, se for de pedra asfalto, se mata, 40
leva também. Leva-te além, alguma cidade,
mato, qualquer lugar. A estrada è dura demais,
deixa triste o pé das almas, caleja sossego.
É porém caminho de pé, e todo o caminho
quando anda è duro de andar mas um dia termina. 45
Coisa qualquer que faças salva, mesmo modesta.
Chega alguma parte. Será que chega, me dizes?
Baixa cabeça. Se chega mesmo ou se morre no meio,
quem que sabe? Mas quando o pé se deixa e recua,
quando a boca sabe já que è nada o que espera, 50
só a morte, aí não tem caminho que ajude.
Pode ser de terra fresca e todo de verde.
Chega não. Talvez, quem sabe, chegue milagre.
Pega a enxada! Homem honesto não sobe na vida.
Sobe cadê? E trabalho? Tudo boi carneado! 55
Custa andar, e cidade a gente sabe o que é, que
Mar de pedra, barulho, martelo batendo no prego,
carro de lá e de cá, buzina: Mundo-cinzeiro.
Nem se ouve nem passarinho. Ouvir de que jeito?
Árvore falta, cortaram, tiraram verde das praças. 60
Fica no alto uma nuvem. Chove não, de sujeira.
Só pra calar a boca do céu. Se tocam viola?
Que esperança? Só se for tocar de sirene!
Volta e meia morre alguém por aí. Baleado.
Vem de longe querendo riqueza. Vira bandido. 65
Chega aí, conhece ninguém, se abate. Desiste.
Fica caçando droga. Gente ruim nesse mundo
nunca falta e nem cliente. Pobre que rico,
tudo atrás de fumo e de cheiro. Boi carneado!
Boa è vida de índio: Caçar e pescar pelo rio. 70
Índio? Cadê maloca, peão? Tomaram-lhe mundo,
deram-lhe a rua que è rua só de carro passar.
Rua de gente tem não. Melhor! Gente pra quê?
Gente è problema. Bom è viver o gado largado.
Gado? Boi que se dane, diz o dono na fome. 75
Rumo seguro na vida gente nem boi se garante.
Pelo menos de noite a gente esquece asfalto,
anda aí pela sombra e chega em canto qualquer.
Droga de pobre è sperar, sentado o rego no chão.
Craque faz milagre nenhum, e nem aguardente, 80
viste, peão? Fazer o quê então? Desistir?
Todo rumo è rumo pra longe, rumo de embora-
nunca-mais-voltar. Ninguém que saiba morrer,
Nem de perto nem de longe! Ficar na cidade
como? Abrir um bar de beber pra viver de fiado 85
rende riqueza não. Beber de graça è gostoso?
Vira padre que o vinho da missa è teu. Carneado!
Cada coisa! Riqueza de pobre è saúde somente,
isso quando a vida poupa. Doença não falta.
Coisa dura è descer do trem sem rumo nenhum, 90
casa nem cama. Chega morta ao mundo a sperança.
Como não? Gente importante tem tempo de ver?
Boi que se dane, lugar de carne seca è churrasco.
Olha no asfalto o sentido da vida: Seguir a jamais
pela estrada, pedra feia. Mas nota que a strada 95
foi de pedra, viste, não pra ter formosura,
isso não – foi só pra mostrar um rumo qualquer.
Veio longe o teu pé, peão, e veio de longe
tão de longe parar aqui? A vida è essa.
Cada dia uma cama – pedra, relento, ribeira. 100
Vem até cachorro da rua fazer companhia.
Deus è bom demais. Abrigo não falta nem paz.
Falta rumo só, mas rumo a gente que inventa.
Essa vida è andando aqui. Ali. Sem destino.


III.

Máquinas, partes de invento móvel, pulsas de força,
vinde, feições de horrores úteis, render a metria
rija de incridas retas ao mundo: Caos recriando
faces de lava e caldos metais, imensos insumos
antes mal pensados na mente abissal de Pitágoras, 5
ora claro em palpáveis traços, severo, perfeitos,
frígido risco e morte. Cantemos curas de indústria.
Cúbicos tubos por onde fuma a fúria de fogos,
dais ao substrato tensão, propulsa de pressa,
fluxo informe na foz das arestas. Lidas de longe, 10
dançam de marcha leda armações maiores de lenda,
banda de largas margens líquidas onde lamenta
scorre escória do ferro fundido. Dai-nos o coque,
gritam famintos fornos altos. Tarda a resposta.
Inda laboram mãos, coquerias a loucos calores. 15
Parte rumo acerias a carga e chega o carvão.
Inda mestre de máquinas mostra ao outro formosa
Queda: Caldeira infernal cozendo a sopa dos aços
quando flui de faíscas lasciva, como ao princípio
caos formava aos universos cabal criação. 20
Rolo trator e cilindros de vácuo voam ferozes
entre petrechos, vapor, balancins rotativos.
Pesa na banda o teor dos lingotes, filhos da hulha,
sangue bravo do sínter. Na rede jazem resíduos,
óleos mortos, solventes fluidos. Bradam no torque 25
como um sino as sanhas de arranque, sistema de vozes.
Torta surge num gris de emissões repente a strutura,
ferro gusa de amplíssimos fornos, hotéis de carbono.
Longe o bailar das bobinas brilha, sol de soldagens
raia por sobre as escamas úmidas, líquido fogo, 30
rota película. Que contudo agir e governo
quando velho ligas do engenho más se corroem?
Correm (como outrora a selva em bravo cavalo
nobres, rentes a ribas de armações) os valentes
homens a quem indústria dera monstros e máquina, 35
feras do aço irado amansar, em mãos o controlo.
Passam de impávido arnês o rude rumo das furnas
onde fogo inventa ao mundo os motores e os trilhos.
Cálculo inferem e logo alarma a cor de avarias
lívidas faces. Luta e treme-se a casa das coisas. 40
Pelos doidos ruídos as mãos acionam comandos,
pés descendo afoitos pela escada da morte.
Desce logo, diminui a pressão e cuidado!
Nasce contenda seca, acerbas bocas discutem,
dedos inquedos sobre a tela, terríveis brinquedos. 45
Sobe a pressão, reduz a velocidade da banda!
Crassas as confusões do modo imperativo
entram pelos ares, trombeta de tons insensatos
soam contrapontos múltiplos, mal suportáveis,
fracos entanto frente ao fogo. Travam batalha 50
Flamas contra os homens, guerra nunca vencida
nem perdida. Será maior de infernos o cálculo?
Trilha pela história dessa gente insanada
sempre amor de mais império, queimar indomado
fogo e de tais calores roubar o ferro da idade, 55
clave de máquinas, arma, novas urbes e traste.
Pagos porém obreiros, quiçá de nulas escolhas,
metem torpe trajo de arnês a flamas infestas,
amam de certo modo o quanto fazem peleias,
fortes no abalo e quedos, prestes a raro narrados 60
atos por entre a bruma suja das vãs armações.
Vãs? Jamais se atreva a tais ultrajes o verbo
contra aqueles logos de lida, crassos labores,
cavas escuras onde vidas tornam-se vivas,
mãos que nulo canto lido às luzes legasse. 65
Não te importes não que não te acusam de nada,
motos no triste novo intento. Travam batalha
grave contra as flamas de nova e larga avaria,
pouca de vida a valia quando império lhes clama
cura à mãe-estrutura: Não sucumba nas flamas 70
obra que tantas vidas àquela casa ligara.
Vem, aumenta logo a velocidade da banda,
rápido, doutro modo a máquina para e sacode.
Tais heróis venceram do próprio corpo intempérie,
tossem o fumo que afoga pulmões, veneno vário. 75
Gente, reduz o calor senão explode com tudo!
Quer morrer, vagabundo? Baixe depressa o calor!
Mais ações e comandos e longas ordens circulam
entre tons de altercação e de agastes estranhos.
Como aumentar pressão, velocidade e calor? 80
Vão perdendo as mãos equilíbrio de forças!
Quando arribam primeiros ao topo, fera fornalha
ruge como um vulcão de extremas úlceras, acre,
cospe-lhes lava ao rosto e quase traga os incautos,
náufragos vários não fora mão tremenda do acaso. 85
Pane na tela recusa comando. Aumenta a pressão!
Clamam doutra casa auxílio que acorre e calcula,
roto em pavor, o problema em caso. Descem afoitos
como em fuga ladrão, pressionam botão de bobinas,
baixam num triz alavancas e avançam. Louco abalado, 90
corre pelo império ruente o mestre de máquinas,
pranto mesclado aos impropérios, rugas de raiva.
Olha a máquina fora de rumo, valha-me Deus!
Cuja culpa? Quando lingotes despencam profusos
entre o coque, gusa ferros, poeira das hulhas, 95
caos libera a casa ao cataclismo impensável.
Quão cruel, explosões, e quão custosa de vidas
vossa verga e diros artifícios de incêndio
contra nosso labor: conquanto ingrato trabalho
inda assim labor e suores de vós castigados. 100
Deixa em paz o fogo, peão, e passa em teu rumo!
Contra a flama arnês nenhum servia de auxílio
Frente a destruição do calor: O inferno tragava
fundo os homens, arma de ferro e viga vencida,
vidas salvas se apenas a mão do acaso quisesse. 105
Tanto trabalho e tanta morte ao mundo se assoma
pelo mero motor de um carro, pela ferrugem
triste que aguarda desde sempre o fado do ferro?
Quem diria, Platão? A tal estado chegamos.
Inda sobe ao ar o vapor dos corpos corrotos, 110
sopro de heróis doando as almas a causa comum e
sangue às obras rotas, porém no peito corretas.
Age como os gregos, peão, que rentes às pedras
tudo souberam ver, e no entanto deixaram pedras,
cavas da terra, inferno em paz: Pitágoras cego. 115
Diz à jovem que ao baile próximo irás a cavalo.


IV.

Sobre a rocha acasalam-se as cobras. Inda se ondulam
pela areia seca, dentro de tocos quentíssimos,
entre escusos terrenos sob o sol caudalosos
giros, letais e lascivos. De longe acorrem serpentes
rumo a congresso de víboras. Agem caudas e vértebras, 5
jactam-se quase de ossosos os maxilares abertos,
dentes à espreita. Macabra dança de escamas e ecdise
densa excita aos hemipênis as fêmeas vorazes.
Costas, costelas uma às doutras cobras constritas
qual na atrofia das vítimas, ora em paixões calefeitas, 10
rudes répteis amores cravam as pedras de marcas.
Gozam em laterais espasmos a morte de antídotos.
Dão-se no amor infernal as elações de venenos,
arte de extrema indústria. Stilam ferozes peçonha,
dupla proteica poção de invejar a céus e demônios, 15
obra-prima perfeita das ovovivíparas vidas.

Junta-se a víboras caravana de imensas colúbridas,
raças extensas de ignotos maxilares ensaios,
véu de mistério somente a defundas vítimas claro,
músculos tenros-duros de boias e estranhas espécies. 20
Pobres porém crotáleas de airoso e sevo chocalho,
pobres almas botrópicas, meras malhas sem viço
frente aos ávidos, neurotóxicos fluidos, inóculos
dentes elápidos, proteróglifas bocas de cobras
raro calmas. Chegam corais ao fausto concurso, 25
listras vermelho-preto-amarelas, peçonha máxima
vista em terras d'América - inda assim pacientes,
mui discretos ofídios de raro ataque valente.

Doutra feição de humor dotaram-se elápidas longe
pela costa que outrora Ovídio temera de Líbia, 30
najas do Nilo que aos olhos cospem morte em saliva,
inda contudo fracas frente a monstros d'Austrália,
cobras oxiuranas, do prado e remota em desertos,
gênio irascível; serpentes longas do oeste marrons,
cobras-tigre em rajadas listras de doce elegância, 35
mães de gotas a nunca ouvido antídoto e cura,
dons de hemorrágicas graças, ora quiçá citotóxicas.
Guardam da boca ovantes seiva na espera de presa
farta e moritura em respiratórios colapsos.

Como è baixo o molecular e levíssimo peso 40
visto em tais delicados venenos. Vastam velozes
pelo sangue e tecidos do corpo incauto extensões,
mesclam-se a leme e governo incerto de células ávidos,
quase coas mesmas armas de outrora donos do mato e
diros desbravadores de terra e perfeitos sistemas. 45
Houve nota muita vez de instantâneos colapsos,
pronta entrega de forças ao fino engenho da gota
como outrora rendidas selvas perante bandeiras.
Não se conselha entanto gabo em pouca vivência:
Ouve primeiro mais a mais ganhares prudência. 50
Nunca pois soubeste de dendroaspísicos monstros?

Correm livres pelos tratos d'África elápidas
desde sempre temidas de monstro e fera temível.
Cava à morte a cova se mordem! Cobras de espírito
vário, de raro e de raramente estável caráter, 55
movem como a coda em barrocas bailas o corpo
longo e delgado, metros incertos, cinzentas escamas.
Céleres mais que os pés dos celérrimos homens,
cruzam, cansadas, selva a vinte quilômetros hora,
terço do corpo erguido a buscar ensejo de botes. 60
Sobem árvores. Máquinas irascibilíssimas,
agem morte de graça. Não provocadas, atacam.
Stilam omnitóxicas glândulas rara peçonha.

Tal poção debalde invejam que invadem a veia
própria com doses loucas de cocaínicos líquidos. 65
Víboras pias, enquanto pouco inoculam veneno
(sempre à mente curam em tais injeções parcimônia),
lançam as mambas negras, nota bem este nome,
plena do dente ao sangue o quanto possam peçonha,
múltiplas ágeis mordidas, doze se a sorte te acode. 70
Vinte minutos, dez bastaram a certos decessos,
luta demais ingrata com gotas de mínimo peso,
quatro-centos gramas varando o sangue severos,
sorvo pronto a tragar Cleópatra e fartos exércitos,
mílites todos de Augusto como do Grande Alexandre. 75

Temem as dendrotoxinas dinossáuricas selvas,
feras malhas felinas. Largos leões e elefantes
fogem, levas extensas, matilha vasta às carreiras
quando apenas longe vislumbram sombra de negras
mambas abrindo a boca em aviso, gravíssimo alarme. 80
Speras debalde que bravo mangusto as cobras deguste.
Inda que acorra, nada pode a cautela do herpeste
contra veneno livrado a veias longe do antídoto,
raro recurso pelos tratos d'África abertos,
nula grande cidade e cura próxima ao corpo. 85
Duas rubras marcas te bastam no texto da pele,
deixam à tua escolha a parte. Protege-te o rosto!
Temes as mambas? Dançam apenas pelas ribeiras,
sobre a rocha lascivas, misturas raras de ritos,
macho mordendo em guerra macho na cura de fêmea, 90
gozos grupais em meio às redes rudes de areia,
guizos de anéis. Enroscam-se pelas vértebras frias,
indo a bailar além num dessabe-se-o-quê de calores
onde estrangulam e emanam loções, gozoso veneno,
raro amor fatal reptilicamente expressado. 95

Mambas eretas mostram teu passado presente,
turvos ancestrais dos quais debalde te apartas
ora que ainda guardas, hoje mais do que nunca,
frasco de ingrata peçonha. Salivam fartos à boca
tua os venenosos atos vestidos de verbos, 100
bote pronto ao infeliz que te cruze o caminho.
Correm pelas santas cidades proles de ofídios
ora eretos, outrora macacos. Répteis evolvem,
boias, elápidas, víboras, ora fatais hominídeos.
Vivem vidas distintas: mestres, homens de letras, 105
certos sábios arrogando-se certa importância,
seres perigosíssimos ditos homens de bem e
muitos outros, em cada pessoa toxina finíssima.
Inda se ondulam pela areia seca, quentíssimos
tocos, em caudalosos giros, letais e lascivos, 110
mesclas cardiotóxicas, spasmos de rara elegância.


V.

Quando se encontram pelas cinco linhas de cima,
linhas de baixo se queres (qualquer a clave cravada,
sol ou de dó, fortuita a scala, menor e maior),
duas vozes, três ou quatro rompendo repentes,
ponto contra ponto, dá-se o prélio melódico: 5
Notas intrínsecas uma às loucas outras se fundem,
lembram selvas onde incauto, ouvindo primeiro,
antes quisera crer harmonia a guerra das aves.
Máximas polifonias que outrora Josquin invejara,
destes pulso às missas tristes de Orlando di Lasso, 10
logos donde Bach bebera as águas de fusas,
caos de contendas, tonais atritos. Raro comércio
move nas linhas pelo rumo cruel de compassos
notas de mútua repulsa qual se fossem amantes
cujo amor corrosivo emane efeitos suaves, 15
gozo de aurículas pouco atentas, dadas a incertos
tons de rumores. Não porém sem norte se entortam
notas em tal simbiose. Dependem vozes de vozes.
Nascem por vezes em meio às outras, entrecaladas.

Quando se cruzam pelos quatro espaços de cima, 20
linhas de baixo se queres, os pontos pretos afoitos
sobre o branco papel, as duas cores grafadas,
cabe aos olhos cura extrema. Ver a verdade
custa caro. Nas linhas de cima largam abaixo
hastes e fusas, intrusas notas porém para cima. 25
Vê-se no rumo contrário dos traços vozes distintas.
Vem, se vier, terceira voz no mesmo caminho
duma das duas outras. Não porém por acorde:
Longos encontros, se raro os há, posições casuais.
Hastes de rumo vário lançam braços a parte, 30
uns nas linhas acima, demais abaixo no grave,
roubam dos ambos sistemas logo de vozes angusto.
Outra vez, enquanto as baixas repousam em pausas,
corre acima o sangue em chacinas, lata loucura,
quatro vozes talvez varando os quatro vazios, 35
quase fossem possíveis pontos, tantos ligeiros
contra pontos e contra o vago que cede ao milagre.

Dizem quase sempre a mesma novela de frases,
sósias de instáveis donas que à beira baixa de ruas
contam iguais boatos, cada boca a seus tempos, 40
línguas que a esmo narram casos, fala desfeita.
Cada qual reclama a si verdadeiros enredos
como se a sós alguma delas pudera manter-se.
Busca o romeiro abrigo em casas? Todas as telhas
ligam-se ponto contra ponto. Quando termina 45
delas uma, toma-lhe as mãos a próxima e leva
sempre a mesma gota às outras. Emulam-se mútuas,
levas de raios rudes rolam, compassos diversos.
Cobrem-se em mil abraços, repetem dança e cadência.
Não existe na selva harmonia. Confundem-se os casos. 50
Qual se boquejo de velhas, fazem-se contrapontísticas
artes de mero mesclar-se de vozes, notas sem verbo.
Não proclames portanto, como os mestres de modas
todas horas, que o modo contraponto dos velhos
seja evento raro visto, se as aves e as vacas 55
dão-lhes provas, e donas várias, a todo momento.
Doutro modo se assanha o vate a provar-te episódios.

Nota - começa uma voz - começa a passar no compasso;
frases irrompem contra frases e calam as linhas;
outra nota imita a mesma e despenca no ponto. 60
Nota começa - começa uma voz - a passar no compasso;
frases irrompem contra frases - frases irrompem -
calam as linhas; outra nota - começa uma outra -
contra frases - imita a mesma - calam as linhas;
outra nota imita a mesma - passar no compasso; 65
nota começa - imita a mesma e despenca no ponto;
frases - despenca no ponto - contra frases e calam.
Quando se encontram fusas, qualquer a clave cravada,
dá-se guerra melódica. Dependem vozes de vozes.
Doutro modo se assanha o vate, menor ou maior, 70
dando pulso às missas tristes de Orlando di Lasso,
raro comércio. Não porém sem norte se entortam
duas vozes, três ou quatro rompendo repentes,
qual se boquejo de velhas, linhas de baixo se queres.
Fazem-se contrapontísticas, cada qual reclamando 75
artes de mero imitar-se. Doutro modo se assanham,
pelo rumo cruel dos compassos, as aves e as vacas.

Raro se sabe, na confusão fatal de semínimas,
cujas vozes sejam frases e rápidos silvos.
Falsas fiéis harmonias vozes roucas repetem, 80
notas amantes, viva repulsa. Tocam contudo
muita vez o pentagrama estranho de entranhas,
corda de células fina ao cérebro roto e sisudo.
Pela banda que as barras separam, linha do tempo,
move-se algum momento o prélio de vozes ao cume. 85
Diro conflito de sopros a contragosto ligados,
caçam no trom os cantos ao mesmo logo o sublime,
como em terras longe os ódios e a fé de tementes
buscam em meio às mortes o mesmo amor se divino.
Choras quiçá de amor ao ódio que impele procelas 90
dentre as vidas que um deus coseu no mesmo remendo
como as notas brutas um Bach na tocata antagônica.
Temem, os brutos e amores, pelas síncopes surdas
cegos os dois travessões, a barra dupla impassível,
longe além da qual nenhumas vozes avançam. 95
Segue o drama em risos, o gado agindo em minutos
mera sombra, bestas, olhos ao céu e compassos.
Cura te apresses menos quando ao fundo buscares
fim ao lúdico auto, nota em que encenas a idade,
vaca incauta: Firmes, as barras duplas severas. 100


VI.

Ó fantasias de pouca sorte, fortuito momento!
Tênues quando cor, mistérios iludem os olhos:
Sobre o mundo louco linhas imenso pendentes
são de infirme forma, reta e curvas estranhas.
Sombram cinzas folhas sombras flores verde 5
noite vagas cinzas n’água sombra sombras
cinza folhas fronde esconde verde espelho
Sombro n’água e cinza verde e verde e cinza.
Houve impressão de negro-claro, foscas, marrons,
umas toscas perdidas, rijas de grão labirinto, 10
duma partindo-se mil, larvas unidas da mesma.
Rotas e grosso tenso, gigantes pequenas, escuso,
menos sombrias, vasto, muito menos inquedas,
tontas já se movendo de foscos lados a todos
cantos, dança constante. Puderam ver movimento, 15
tom, sussurro do derredor que gritava sem urro.
Traços baço-estranhos, moucos acaso faláveis?
Círculo vem flutuante do mar e bordas losango,
pontos dondos e número casto, escuros entanto,
pálidos uns, esquálidos outros, visíveis ao cego, 20
verde e sombras verdes, cor de versas misturas.
Vezes houve mudando a luz as gosmas e reta,
luvas, liga implícita, tão confusas cadentes.
Balas atônitas, quase perdidas, ocelos notavam
filme abstrato, passo a quimera tensos de túneis, 25
ave de sons ouvidos jamais em logos nenhuns.
Longe surgiu dos ângulos foco farto coridos,
luz fortíssima, prisma côncavo rindo-se em gama,
grandes matizes. Davam-se a tudo e mais alcançar.
Mesmo as valas secas, círculo, pares distintos 30
vistos cons olhos banhavam mais e líquido menos,
mui lumosas ondas que o brio de longe exalava.
Fluidos leves elevam, fumos, olor transparente,
fracos correndo velozes, calma, quando tormenta,
flocos vazavam sem rumo certo corte disforme. 35
Vaga surgia à vista a vargem d'ondas e ponta,
hora seva, cruzes nubiladas, triângulas.
Nuvem vaga imagem cinzas deixa vozes
sombra vagas fronde noite verde n'água
cinza esconde sombras flores cinza e nuvem 40
vaga fronde e cinza e verde e verde e cinza.
Iam olhos vorazes à busca tenazes inglória.
Máximo fez-se clarão, fluiu doirado no belo
tempo, raro de olhar. Rezavam claros os riscos,
ponto fresco esferas losangos triângulas curvos. 45
Listras caíam frente ao ser deitadas formoso,
leva estranha, nuas uvas, convexa madeixa
raro cruzando em causa alguma, nítido rasto.
Querem correr, assustadas, soturnas cores embora,
pés pisando incerto chão dos afoitos de morte. 50
Ó fantasias de pouca sorte, fortuito momento.
Rubro se perde aos verdes grande sonho celeste,
doce medo e mistério, princípio das eras e ocaso.
Eis à esquerda pedra marrom, os anos modernos,
folhas pendendo à louca direita, diversos eternos, 55
doido de Alice país, maravilha, dileta planície,
dentro ruído, rua, pequeno rasgo de carros,
trens surgindo d'arves longe, ponte de imagens,
postes nascendo verde solo sono cinzentos
gamas roda mesclas horas fortes e boca, 60
fala que nunca acaba, descrições desamadas,
planta e vis adjetivos: Voz insanas de fadas
canta metálicas ave fêmea duro no asfalto.
Correm belas éguas de pés e rodas rapaces.
Cá se reduz correr e almoço, cansa avenida. 65
Verso do velho substrato, surreais artefatos,
praia: Vovó de biquíni balança a sandália,
cai no chão o jiló da cumbuca podre da bruxa,
seca o fio dental no edredom, grudado no modess,
sapos pulando pasto movem as nuvens de farsa, 70
listras três, camadas maçãs diante da mamba,
doces plumas, mel nem doce nem podre de inveja,
rato apenas roendo roupa do rei de Hannover.
Spelho verde e vago vozes soam sombras
vagas verdes cinzas folhas vagam vão e 75
vêm em vão e n'água cinzas vozes sombras
flores noite e cinza e verde e verde e cinza.
Olhos que outrora Cruz e Souza brancos buscara
formam, do verde escuro onírico-quase-vampíricas,
sonho de atrozes puritanos e Victores Hugos, 80
arcos coloridos à íris, nações de Dalí, e
vede ao lado: Redondo quadrado dança intensos
vândalos três, que longe as retas demais paralelam.
Pontos de estranho ardor removem próximos vales,
remam nas águas faunos gozando à larga no barco, 85
cena e trator de Melo Neto nas obras humanas,
ovos de peixe e transparente mistura de rimas.
Dedos respiram bege retângulo, Brecht isolado
longe da escada azul, Jacó na fantástica nuvem.
Abrem-se nunca ocelos, sentem cegos o claro 90
quente esquerdo fluindo folhas ocas líquidas.
Trás o trânsito três correndo bolas vermelhas
oram, cadeira, relógio. Passa, cruel cinderela,
beija o chupa-cabra e rebola, vaca devassa!
Pousam pupilas sobre sombra extensa e meditam, 95
semirretas, prisco bico, vertigens de arestas.
Canta, pássaro lânguido, sobre as tripas marrons,
fartos amigos informes, calva mão, penduradas
letras de um livro. Cima azuis, baixos a sombra,
quase-noite-quase-dia e sorrisos concretos. 100
Scondem verdes vozes sombro espelho soam
cinza imagem fronde vaga deixa nuvem
flores vagam folhas cinza e sombra e cinza
verde e cinza e verde e cinza imagem sombram.
Ó fantasias de pouca sorte, fortuito momento. 105
Rosa! Morrer ao chão das rubras pétalas tuas,
beijo e cultivo eterno de amor e perene gramínea,
doce repouso à dor dos olhos, simplíssima flor.


VII.

Bom è abrir um banco tipo banco-zumbi,
serve mesmo zumbi: Aquele banco falido
inda em serviço. Todo mundo sabe que è treta,
só cliente que não. O cara guarda o dinheiro,
quer sacar não pode. Defeito no caixa, lamentam 5
pelo transtorno. Fim de ano toma empréstimo,
compra casa e diz que pode pagar depois, que
banco è bom demais. A casa não vale a garagem.
Casa própria, porém, orgulho e sonho da gente.
Banco ruim è bom também. Vive de empréstimo e 10
Nunca fecha. Ministro torce a cara e protesta e
manda abrir falência. "Ora, ministro, queísso?
Essa gente toda aí que depende do banco,
como vive se o banco quebra? Tem que ajudar!"
Tudo ator de primeira. Governo empresta fortunas, 15
faz-se quiçá de rogado mas cede. Gente do demo
mesmo è peão de bolsa, gente de ações e valores.
Volta e meia chega alguém caçando alarde:
"Banco zumbi vendendo barraco a valor de palácio?
Vale nem a cueca essa porra! Pago a metade!" 20
Isto já basta. Comoção imensa alastra-se à bolsa,
nervo à flor da pele. Fazer acionista de otário
custa caro: Perde valor num dia o negócio e
banco se alarma. Diz que a casa è boa, garante!
Quando a nova da bolsa se espalha, banco se irrita, 25
inda mais se è banco-zumbi. Não tem piedade: E
banco è flor que se cheire? Perde tempo nenhum,
manda carta: "Dinheiro da casa paga amanhã!
Paga tudo ou sai, vagabundo!" Pobre è assim.
Banco e bolsa se acusam, o bate-boca de praxe. 30
Teve banco aí dizendo que a culpa è da bolsa,
desde o começo peão botando fogo na lenha,
cada dia fazendo o preço da casa aumentar. Mas
quem conhece começo de falatório no mundo?
Seis bilhões de bocas! Converseiro demais que 35
nem novela da Globo vence. Culpa de quem?
Culpa do mundo! Daí se reúne gente do mundo
todo e começa a falar de crise e reforma do mundo e
banco dando dinheiro a ministro e país se acabando e
banco emprestando do mesmo país. Dinheiro cadê? 40
Tem dinheiro mesmo no mundo? Oitenta trilhões,
dizem, de americanos dólares correm na Terra.
Disso, porém, dinheiro impresso, nota e moeda
modo-de dar comida a pobre, cinco trilhões e
nada mais. O resto è somente valor nominal, 45
cifras só de dar de comer a programas de cálculo,
listas computadas em máquina. Dinheiro è conversa.
Fosse impresso todo o valor nominal financeiro,
é metal e papel que não cabe nem no Oceano,
sem contar que o Pacífico todo foi invadido 50
já pelo império de plástico, tóxico não reciclável.
Fica peixe tentanto comer sacola de compra e
ver se encontra caminho. Este mundo è de lixo, mas
banco diz que investe em limpeza (crise não deixa).
Bom è ministro querendo dar lição em banqueiro. 55
Mexe com banco, negão! Vira e mexe descobrem
novo roubo e converseiro de imprensa e comédia.
Vem ministro falar de improbidade no banco e
dá-lhe multa! Banco chora, reclama, mas paga.
Dois milhões. Jornal adora. Depois de semanas 60
vence a dívida velha do Estado ao mesmíssimo banco:
Dez milhões. Ministro ri, promete e não paga.
Faz o quê então? Empresta do mesmo banco!
Doze milhões, inclusos juros e juros de juros.
Terra onde banco se acaba se acaba junto co banco: 65
I rest my case. Crise? Crise de rico è enxaqueca e
lá se dói perder dinheiro que nunca existiu?
Dói esperar na fila quando o banco-zumbi
fecha – fecha entre aspas, que banco não fecha,
banco muda de nome. Fica a gente na frente, 70
spera o segurança vir e abrir a portinha.
Uns até se irritaram, parece: Cena de filme.
Chato mesmo è quando invadem. Descem escada
rumo à caixa forte e forçam. Onde o dinheiro?
Tem alguma coisinha, claro, podem comer 75
lá no Hilton uma ou duas vezes, talvez.
Todo resto è dinheiro abstrato e nunca se vê.
Não poder imprimir senão o que existe de ouro?
Essa história do ouro e da prata como padrão,
isso acabou. Oitenta trilhões de dólares ouro? 80
Minas Gerais teria de ser do tamanho de Júpiter,
haja extração, Portugal, e haja porões de Inglaterra!
Quem precisa de ouro, gente? Ouro è bobagem!
Hoje è cartão de crédito. O cara compra a parada
sem tocar em nota e moeda, cifras de números 85
loucos, lenga-lenga. Faz do mundo uma aposta,
jogo de azar e de sorte. Jogo de azar a quem perde
todo dinheiro inventado pra ser perdido somente,
sorte a quem ganhou fortuna que o mundo perdeu.
Foi aquele peão fazendo alarde na bolsa? 90
Foi o banco-zumbi ressuscitado de dono?
Ambos os dois tiveram seu quinhão merecido.
Deixa banco em paz, ministro, mexe com banco
não pra depois não dizer que ninguém te avisou!
Coisa pior que país querendo intervir no governo 95
próprio dum banco raro se viu. Tem que deixar!
Mundo justo mais que este è ruim de se crer.
Este mundo è bom demais e basta um negócio,
serve banco-zumbi também, que dinheiro não falta.
Pobre reclama demais. Ora, se queres riqueza, 100
torna-te rico! Banco-zumbi tem sempre lugar e
nunca falta espaço a novas contas e somas.
Torna-te rico apenas e a vida se torna melhor.
Abre logo um banco e deixa o resmungo de lado e
cumpre a regra do jogo: Perder dinheiro è de praxe! 105
Vai girando a roleta na treta. Peão que se dane.


VIII.

Dormes talvez em frente à tela, perdido na rede.
Quando pálpebras, treva à volta, de novo se abrem,
surge a congelada imagem que nunca sumira.
Como no filme as pausas paralisam os sonhos,
ora se assiste após vertigens o enredo deixado. 5
Passa a cena inteira frente aos pés da cadeira:
Longe os correios, como outrora em cartas grafadas,
hoje em letras pré-defeitas, bater de teclados;
perto como sempre angústias, buscar de mistério,
barcas varando na seta branca botões pequeninos. 10
Cada parte do amargo a sperança de um nicho na neve,
música ouvidos, aos olhos janelas, frestas, buraco.
Onde no rio de largas margens esconda-se um vau,
sofre a saber cansado o dedo, doído no toque.
Passa em vão na estreita arena acima-abaixo 15
lendo livros, notas e maldições pela margem.
Pouco vadoso o rio que mais parece oceano,
mar que ninguém atravessa, pois o mar se navega.
Quanto mais se parece andar, a menos se vai.
Como infinito se tão pequeno? O mar è quadrado, 20
rede nem de peixe e nem de sono dengoso.
Basta um toque no xis e o mar se afoga na rede.
Muita vez aportas no estranho, descobres o vau, a
ponte na fossa abissal, pequena como teus olhos.
Novos amigos na rede, gente que não conheces, 25
rostos de perto e sempre longe mesmo que perto.
Deixam no vago imagens, rastos de textos e heroicas
fugas que amigos novos comentam. Dividem as cenas,
nunca as vidas. Vivem imagens atrás das imagens.
Pela tela as mãos navegam nas vagas do novo, 30
porto que nunca è porto como o novo è novelo:
Passa o fio no rumo que queres fiá-lo na roca,
antes, depois dos dedos o mesmo traço delgado.
Desses fios, dos mesmos se faz a rede moderna,
nova, porém caduca, porquanto rede è de fio. 35
Novas na vida apenas moda e morte, que è velha.
Essa angústia do peito não tem amigo que amanse,
moda e nem a morte talvez. A rede è de imagens.
No peito, porém, a vida è vária. Ninguém a conhece.
Rede não cura o peito, pois não cura oceano, 40
fundo de mar que nem do pego monstros enxergam.
Buscas debalde fibra qualquer na roca do peito,
fio que caiba em letra e cifra e traços, imagem.
Cabe nunca, cabe nunca, nunca e jamais!
Entre ti e mim existe um silêncio infinito. 45
Morres na rede que rola e reduz o peito a palavra.
Nunca pisas no porto o chão de entranhas dum homem.
Sabes do estranho apenas por intermédio do símbolo,
sempre estranhos o amigo, o teu pai, e longe o divino.
Dormes talvez em frente à tela, talvez de desgosto, 50
quando repente surge na rede um símbolo novo.
Lendo letras, rabiscos curvos quase que vivos,
quase medita a mente se a letra vestígio de gente.
Pulsa um peito, um fogo ao lado alheio da rede?
Há de verdade porto ao barco aberto à tormenta? 55
Talvez se computem sós as letras. E nós nos perdemos.
Dai-me, Deus, um poema sem verso, amor sem limite.
Há para quase todas funções da vida um programa,
novo modo de escrita e cálculo, acúmulo e listas.
Traz a perto a rede pessoas outrora dispersas. 60
Já se buscava entanto, antes do tempo moderno,
inda se busca o programa a delir de abismos distância.
Novos botões que computam corpos, decifram escuros,
tentam em vão unir os nautas no intrínseco laço.
Nunca penetra um peito humano entranhas de alheio, 65
nem os amantes no beijo frio que a pele separa.
Somos talvez o próprio beijo, menos que o sopro,
mais a palavra que o vau. O peito è defeito de letras,
vírus trojano que apenas set-up das almas remove,
velho que everte re-set. A mente è cálculo errado. 70
Resta o peito? Resta nada. Resta palavra.
Quando lês punhados avulsos quase desprezas
tanto grafo torto. Mas nunca tanto se lera.
São maiores que os atos, que a própria vida palavras.
Eles que heroicos agem, se agiram nobre e calados, 75
nula resta memória, perdidos atos ingratos.
Eles que pouco agiram, porém deixaram palavras,
restam sem mérito heroicos, palavras maiores que eles.
Quanta angústia entre vida e verbo e quanto oceano!
Fechas de novo os olhos frente à tela de teclas e 80
pouco assistem da rede amigos a tanta incerteza.
Raro proveito gabo ao perfil, os dados desgastam-se
ante o dano das horas que esgotam glórias e gana.
Inda se busca amigo na vida e menos palavra?
Pulsa no peito ainda espera do ponto final, 85
último verso de universa vida descrita.
Pobre peito que tanto atenta ao termo da letra
quando no verbo finito termina o trato do peito.
Essa vida è busca de verbo mais do que amigo!
Passam ainda na tela as cenas, os olhos saudosos 90
lidam pelas teclas o livro errante da rede.
Basta um novo toque ao xis e janela se fecha,
joga fora as palavras como as palavras o vago.
Fechas num átimo e abres ao mesmo tempo vertigens,
várias que o dedo escolhe. Navega, se enfada, se afoga. 95
Dormes talvez na espera de a vida afora jogar-se
como na tela as janelas que ao leve tato vanecem.
Quando porém vanece a vertigem, e os olhos à volta
caem sobre as telas carentes do xis que deleta,
quão estranho render-se à madrugada, verdades. 100
Doutra janela vislumbra a mente mundo indelével,
inda que exista apenas porque palavras insistam.
Longe de tudo o que sente e carece sempre de termos,
resta a lida, que o peito è só de letras, mas pulsa.


IX.

Versu e sermom vulgare, vita cantemus vetusta,
Nullam in agru color, nuves graves in corde.
Neve eterna descende montes e terram invernesce,
Cade per planu ella flor ante virdes amors.
Curas vero a tantu, frigido montem ascender? 5
Quem in culme querer, quales curres itiners?
Paucum pectu sape rotas nostras obliquas,
Court inter pedes mort, multu morbu succumbes.
Tenes cum manu forte frumentu e virga cum altra,
Mundu, monstru, nox, umbra ni bruma timente. 10

Quando ad oclos surgit imago de baratros albos,
Animu quomo in crux perit crudel e turbatu.
Obe miran, silentiu, neve guberna cum ventu,
Solo consola cel pedes e paula peritia.
Miser spirat in hos periclos nullos calores, 15
Numqua que firme stat contra nuves tremente,
Quasi perdit ho cuer, hoc animu, virga si vasta
Manu intuta suflar, gelu a digitos duros.
Nulla nata si re amades, causa ni mente,
Buccas de ventu vox furia fauces de infernu. 20

Quis iudare abe qui fuge longe de terras?
Nullu refugiu das quando ermitas o rogant.
Preliu procelas ira profliga pedes sin passu,
Semper a mont ambular, home naufragu in neve.
Cum natiom qualconque impera nova superbia, 25
Vanas curas de lex contra flacos prorumpen.
Paula vero de imperiu gloria si fugas o premiu,
Mort e tyrannu rex, metu tantu e sevitia.
Fabulas curren buccas, odiu, diras doctrinas:
Patrie tantum sunt fils li home communes, 30
Ipsa de pelle color et ipso sermom loquentes,
Qual si peuplu jus plus habuera de mundu,
Unu poblu magis que totos altros a terram,
Parte queconque habitar obe nullu vicinu,
Numqua in urbe sua corpu de terra aliena. 35
Facil fortuna furt quando mal dividenda.

Sub ella neve pugnan quasi mortuas feras.
Sic inter homes pax, facies quomo de gelu,
Fundu vero infernu, furnu de virus feroces.
Venent a portas perir parias vitas sin patria, 40
Paupres pedes a callu, bucca cedendo a sitim.
Queren fugentes sol, locu alicum de morendi
Posque mundu negaui terras tantas refugiu.
Miser de cuncta part passu expulsu ambulante,
Super petra cade a vices ho corpu curvatu, 45
Nullu bracciu redder manus ad ossu levandas.
Facie triste cum toga rupta de ventu protegen,
Rugas de oscuru feral, oclos sin obe mirando.

Cuiu sperar pietat in tal desertu alicuna?
Gelu tantu et ar sunt a pedes companes. 50
Subito freme terra, mont e neve ruente,
Virgam devorat e spem, villas vasta vetustas.
Nulla conseque vero delir hoc animu forte
Cum ascend in o cuor foco de ventu vincendi,
Grands desirs ad ellas stellas tantu cognotos. 55
Suben semper plus ultra e contra nature
pedes petras quomo de monts et amurs sinuoses.
Quanta illuserun vix vias malas et somnu
Vitas a fauces unde ni volante egressere.
Homes furt ingannats, iocu de mort torturata. 60

Stelle Deu, ametz en umbre vous a mortales?
Courent tuit li vent contre vita e les vents,
Court li vents et la vita è vaine contre le vent.
Prend ella togam li vents, tarde queres salute.
Passa passu melior e spera fine de infernu! 65
Iam de circa pots verre o culmen abscontu,
Grande gaudiu a corde raru amorem stilante.
Que te sustene ment, quale premiu quereres?
Non te atende res in frigidu monte que morte.
Magis miras a cel, magis longe ceruleus, 70
Tantum livor te circat, tibi parat extremam.
Nullu flavu ni sol veult o solu salvere.

Ultima curvam vides ante victoriam clamante,
Vent in o monte nox atra gelu tremores.
Ubeconque mirares anima nulla apparere, 75
Perdes in vastu vall oclos animu pensu.
Cadet a vices virga, crema neve ellas manus
Quando molle prends vitam cum digitos mortuos.
Veuls in van ambuler si cata passu periclos?
Meurs in neve iam, exul, nulla morata! 80
Vero mult se plaint o cives a nullu peuplu,
Nuls desire voir home expulsu de cunctos.

Date, celi, poete parabola ad hora narranda
Clara cum ella lux fine de facies facit.
Advena curre cito ad ultimu culme de monte, 85
Genu flexu mort mirat in lapides latas.
Corpus iam declinatu crepa virgam de veteru,
Cranios vide mults mortos in terra clavatos,
Frigide cova ouverta d'homes illac arrivetes,
Locu a regressu nul, mundu invernu feroce. 90

Sed in baratru altissimu tingen neve miracles!
Miser primum de cel radiu diluculu et stellas
Anteque muria mirat e pleure in aurore supreme.
Vois le mysterium froid, joie qui cherche du mondu
Comme li ciel le pied du paupre a nulla demeura. 95
Viens chanter, mon fils, voix des hommes perdus,
Songe le triste état du pas sans but ni chemin.
Tant de niège descend, nuit, l'hiver de la terre,
Lourd le pas mendiant, le mont la ville du loup.
Courent tous les vents contre l'ivresse du coeur. 100


IX.

Deus dos deserdados, chega ao fim o pateta!
Como nada fiz nessa vida além de versejo,
morro tarde. Deitado no escuro vejo no teto
curvas que a luz de carros, vindo da rua à janela,
deixam, cá e lá, corriqueira. Pergunto à parede: 5
Onde estou? Não quero ver essas luzes que passam
pela cortina das salas. Fechar os olhos ajuda?
Nem sabia que estavam abertos. Veredas se fecham.
Quase parece a vida paredes, quadrado cercado.
Toda hora minha è última. Vendo as paredes, 10
penso: Será possível que eu nada tenha feito?
Quero dormir-esquecer. O sono foge, me engana.
Durmo mal e acordo pesado. Nojo no peito.
Nada? Que diria Deus perante o poeta?
Deus o acusa de inércia. Tento em vão responder. 15
Quis ajudar a gente e dar ao mundo uma prenda
como se o mundo alguma coisa esperasse da gente.
Spera dinheiro. Tenho apenas o inverso – meu verso.
Nunca salvei uma vida embora às vezes quisesse.
Ante Deus, confesso que nada fiz de grandeza. 20
Quem è Deus? Perante a vida, confesso que nada
fiz além. O impulso da gente busca por tanta
coisa grande e nunca descansa e morre buscando.
Quê? Bozó de beira de estrada resolve problema?
Já pensei também nessas coisas e penso demais. 25
Morro buscando. Morro, que sinto. Busco debalde.
Tudo depende de como a gente enxerga essa vida
grande, pequena. Se grande, por que pequenos os homens?
Vida pequena? Por que queremos homens ser grandes?
Nada depende de como a gente enxerga essa vida, 30
vida que acaba coa gente, tanto faz o que pensa.
Tem quem fuja. Quando falava assim pela escola,
(pois na escola andava já descontente da vida),
tinha um amigo meu, não sei se aluno ou docente,
gente boa, que sempre dizia: Casa que passa! 35
Certa vez me tomou a leitura: "Eh, Baudelaire,
Quanta falta te fez ua boceta. Tivesse fodido,
nunca teria escrito isso aí." Amigo do peito,
ia aos bailes: "Caçar mulher!" Caçou mas casou-se,
teve filhos: vida simples, vidinha decente de 40
gente jovem caçando amor! Fodeção, se preferes?
Dou apoio, legal! Botar filhote no mundo
quem não pode? Com certo esforço até se cria,
claro que cria, peão, até cachorro consegue.
Mas se a vida for grande, tem aonde fugir-se? 45
Morro tarde. Vejo a parede, gado as gramíneas.
Que diriam contudo se a vida esperasse de cada
dar ao mundo dom que poucos podem render-lhe?
Eis o que ao menos o mundo espera, mais do que a vida.
Como Platão no Simpósio implorava aos gregos parissem 50
obra imortal, procuro em vão na parede o sublime e
marco faróis de carros, que nunca foram sublimes –
nem os novos modelos –, como invadem as vidas.
Sou talvez averso ao novo. Suspeitas não faltam.
Inda o busco também, o novo, se existe de fato. 55
Noto os artistas de hoje, como correm do velho
rumo a modernidades, contemporâneas essências.
Fico pensando qual seria a forma dos versos
hoje se Richard tivesse ganhado a guerra germana.
Certo seriam como as óperas belas de Wagner, 60
arte total que impera e diz ao público pasmo,
dedo erguido no palco: "Sente-se e ouça calado!"
Asa Deus não deu às cobras. Prefere os abutres.
Caçam carniça e modelam quais que sejam os versos,
arte porém senil. Onde encontrar o moderno? 65
Vejo que a dor, o riso è velho, tudo è passado.
Como mudar o verso e fingir que as letras são novas,
jovens, se toda letra è mundo e mundo tão velho?
Quê? Fodeção resolve? Deus! O peito è buraco.
Já falei demais e constantemente o repito. 70
Certa vez uma amiga, lendo Fernando Pessoa,
disse que era na certa um veado mal-resolvido,
como o são, dizia, os bons poetas do mundo.
Freud explica? Talvez a vida seja pequena,
seja como o diz Epicuro: Vive escondido! 75
Vida de nunca ser notado, memória perdida,
ir passando o peixe por águas calmas profundas,
nunca subir, jamais, à superfície dos mares.
Ora, como ser imortal num mundo fadado
desde já ao fim das eras, dos homens, dos versos? 80
Tal a memória que buscas? Não vale a pena memória.
Indassim, se a pena não vale nem a memória,
qual a razão de nós havermos sido e jamais? E
eu que sei? Em milhares de anos este poema
fora causa de riso, se houver os milhares de anos. 85
Riso então moderno, no entanto o mesmíssimo riso
velho que entoam alto os modernos velhos de hoje.
Quero deixar um verso de eterna e de nula memória.
Nunca quis arrancar um riso do povo o meu verso.
Povo? Na morte ou memória, vivo sempre sozinho 90
como se as eras todas fossem últimas horas!
Deixo o mundo sem nada deixar além de versejo?
Quero encontrar os atos que tornam nobre esta vida!
Busco em vão mas não desisto e sigo escrevendo.
Quando melhor vier, deixarei de lado os poemas. 95
Nunca escolhi poemas, sempre fui escolhido.
Tanto pareço ter vivido que nunca fui jovem,
Pouco me lembra. Mas tanto viver memória termina
sobre a cama? Lançam ainda faróis de automóveis
luzes sobre a tela abstrata do teto que vejo. 100
Tão vizinhos terminam os olhos? Onde o infinito?
Tudo invenção de poetas tristes. O quarto è uma caixa.
Lá terminam os dias, os mais grandiosos se queres.
Dormes mirando o teto que cerca os olhos no escuro
nem te deixa dormir, a lâmpada ao alto apagada, 105
inda melhor que acesa, tortura clara às pupilas.
Quando deixo as cortinas abertas, nunca sabendo
como escrever ou viver, eu busco as velhas estrelas
qual se desde sempre me houveram sido companhas
(nada grande a fresta, mero buraco à parede), 110
mas o peito è vazio! Quero na angústia extrema
luzes, resposta eterna, sempre o porto impossível.
Lanço num átimo olhar aos astros, imploro clemência:
Strelas, dizei-me o fim do segredo e dai-me consolo!
Ouço então do alto, como se eternos falassem, 115
fria uma voz descendo (talvez estrela cadente),
canto que ao peito pobre acode como um poema
novo, moderno. Resposta clara sussurra aos ouvidos,
única frase que a vida sabe dar aos que choram:
Deixe de veadagem e vá trabalhar, vagabundo! 120




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