Abstrações

Gregório Barbosa



© Gregorius Vatis Advena 2013, Record L 2, Engl. Abstractions, january 2013 to november 2013, Hampshire, dactylic hexameter, ten poems, 100-120 lines, lyric poetry, Portuguese.




Introdução

Era a meta inicial desta antologia ser uma ponte entre as tradições clássica e moderna. No processo de criação, porém, o projeto evolveu e tomou seu próprio corpo emancipatório. O nome da antologia evoca o que se abstrai da realidade sem deixar de ser real – a lírica da contemplação crítica.

As Abstrações são reflexões ou pequenas narrações em verso. Em geral, tematizam efemeridade, anseio e ilusão – fenômenos que em tradições orientais se vê como “as três características” da existência. É uma poesia conflituosa e ao mesmo tempo introspectiva, mas humorosa por vezes.


“Les sons et les parfums tournent dans l'air du soir”, Baudelaire, prelude by C. Debussy, performed by Jeremy Denk – FMA CC BY-NC-ND 3.0.


O verso é hexamétrico – seis tônicas separadas por uma ou duas átonas, ou por pausa. Em geral, o verso começa em tônica e termina em diérese bucólica – o ritmo tátata-táta. É datílico ao evocar o antigo dátilo no ritmo tátata. Todo verso possui ao menos um dátilo tonal. O dátilo classico, porém, era quantitativo.

O uso das formas épicas é tratado no ensaio Prosódia e Grafia. Nesta antologia, a única forma épica é a do verbo ser: [é] em contexto tônico, [è] em contexto átono.













I



Turva no grau da nuvem perde-se a vila sombria,
Fumam das chaminés do porto as águas a névoa.
Sonho, espuma e breu envolvem de fúnebre cinza
Portos, céu e mar, e os ânimos fogem o homem.
Vai vanecendo a silhueta que o trem atravessa 5
Rumo a verdejantes burgos e bosques vistosos.
Trilha sozinho. Dentro ninguém repara o percurso,
Dorme o mundo estranho, desconhecido e descrito.
Longe de ocelos vagos humanos estão as imagens,
Perto porém do interior, do vale e do abismo. 10

Vias que terra airosa e viço deixastes embora,
Vidas inteiras a vir, caminhais veredas opostas!
Passa a confusão da cena correndo cons trilhos e
Deixa em nossa memória amor, saudade e derrota.
Pobre o cor merencório, fundo e mundo gravíssimo 15
como um antro torto e de prantos refúgio celeste.
Alma depoente, cobres-te em verbos ingratos
Nunca traduzidos porém ouvidos de dentro.
Cala-se a língua pequenina e vozes passivas
São falar errante e cada palavra è sem forma. 20

Longe as linhas dançam do horizonte alheadas,
Movem como aladas céu, fundidas coa banda.
Flente a furto irrompe e dança a baila das orlas,
Turva de cílios chuva quando os olhos oscilam.
Perto da estrada, as folhas desfiadas esperam 25
Certo sopro ventá-las a toda e nenhuma sorte.
Como os sonhos levam quem os sonhos enleva
Qual se fossem leves, sopros são sonhos levados.
Dormem, porém, sonhando sono alegre de arcanjos
Folhas e linha, cílios – e as pálpebras guardam as juras. 30

Vai-se o trenzinho e corre e leva consigo a paisagem,
Leva além o verbo, que letras são feias nem simples.
Árvore! Nume pientíssimo e núncio sem nome,
Vila dos verdes generosos, amigos dos olhos:
São apenas tuas a luz e a verdade das almas! 35
Fosse puro o ânimo e fresco qual se de folhas!
Seguem trilhos, paragem futuramente passada,
Vista e sumida alhures por hemisférios ocultos.
Aves invejadas! Parti do claustro nas nuvens!
Ide a montes! Fugi procela e plagas humanas! 40

Voa por entre galhos e passa o pássaro afoito,
Busca cantando a causa e trina pela colina.
Mar de papilhões anis, margaridas mansinhas,
Ponde fim, pequenos, ao tempo grande das aves.
Casas de lenho, capelas trás o véu transparente 45
Vão ferindo o céu e além terminam as terras.
Findam como a gama que ocelos vagos avistam,
Perdem-se pós um piscar atrás do trilho corrido.
Onde, pássaro afoito, buscar de cores a causa,
Onde cantar, se canto è vento perdido nas rodas? 50

Musas mortas leram o livro dos imos do homem e
Letras lacrimosas, langura, angusta esperança.
Ride, algozes máximos, desses mínimos entes,
Lábios inábeis ao canto, hino de amores ingentes.
Símplices glórias, voz negada ao cabo dos húmeis, 55
Dai consolo ao mendigo da lira e rico na pena.
Houve deuses grandevos e semi-heróis na palavra?
Dai sossego ao inquedo abismo e sopro sem termo,
Dor feral que apenas astros quiça perceberam.
Ser humano è calar, e fora do ser a expressão. 60

Trás o monte escondem-se tantos burgos intactos,
Trás as terras perpassadas um rio prestimoso.
Rosto brioso raia no bom contraste de ondinas
Rumo ao fim das eras e ao terno começo dos olhos.
Verde sucede vertigem, cena aos cílios cerrados 65
Corre como o rio, e os cantos colorem as auras.
Trás o rio a palavra termina, começam letícias
Nunca faladas. Verbo, tenham fim as sentenças!
Cala-te, velha musa, não seja a beleza pequena
Para em ti caber, que as letras abstratas perecem. 70

Houve mestres de história, doutos e suma verdade?
Sábios, nunca fostes ao flume parvo e tão franco.
Rio cansado e corredio, sereníssimo curso,
Quanto sangue tingiu as tuas lúcidas ondas?
Passa a transição eterna fluente por ribas, 75
Plena de castros imotos e grades vãs catedrais.
São difíceis os homens, ruínas modernas tragadas,
Sonho e cobiça velha: As ondas deliram as causas.
Brado e soluços fartos diluíram com urros
Úmidos todo o sangue. Foram lutas inúteis. 80

Longe surge no monte a torre de ameias antigas,
Vale redondo e terras desbravadas e virgens.
Certa flor dormiu sorvendo a sombra poente,
Rubra nuvem desfez o frientíssimo escuro.
Como um sol fatigado vai morrendo a colina, 85
Ledas dão graça campinas à triste estrela primeira.
Noite invicta, cerraste os olhos pulcros das luzes,
Mortas do ocaso que cega as almas bambas na espera.
Trilhos lustrosos que iludis o romeiro sem rumo,
Désseis visse o trem o súbito termo das cores. 90

Fosse o homem menino pelo campo, correndo,
Véu de fantásticas chuvas, mistério puro esquecido.
Dizem que há tesouro trás paisagens coradas,
Ouro de raios e rosa rara e gemas briantes.
Mas o fumo se esvai, cruzando azuis impalpáveis, 95
Nuvem que o sol pertranse de impossível distância.
Simples amores sumos! Cantai calados os dias,
Trilho e verbo finito que não seduzem a treva.
Louca voz de riso, de pranto perene romagem:
Sede ingênuos, meninos, sede velhos ingênuos. 100








© Gregorius Vatis Advena 2013, Nulla Dies Sine Linea.



Abstrações






II


Queres mais sentido na vida que olhar o asfalto?
Coisa dura è ser ingênuo. O trem que termina
dá num mar cinzento: Trilho, viga de ferro,
pedra cor de nuvem. Ainda ontem raiava
sol num campo. Bom è estar sentado no banco, 5
ver o mundo passar e não saber de cidade.
Verde è muito bom: O mundo parece bonito.
Para o trem na estação, a gente passa descendo
pela escada e aqueles prédios, aquela feiura.
Feio mesmo? Talvez è só desgosto nos olhos, 10
esses sim os feios, treinados em ver as coisas,
cada coisa que o único canto è pousar num deserto,
verde, de fato, porém deserto e mato intocado.
Vai passando a pressa da gente na rua empurrando,
indo ao trabalho. Fica pensando o peão pela beira, 15
cuja vida è de beira, se gente è só quem trabalha.
Coisa boba. Ninguém se importa com tanta besteira.
Dá um aperto no peito a fumaça. Quase que mata.
Sabe Deus de que jeito se vive, Deus è que sabe.
Sabe nada, quem que sabe de quê nesse mundo? 20


1




Cada esquina è mistério. Vem de longe uma gente,
vence a strada e termina na rua. Ir-se embora?
Onde o rumo e cadê coragem? A vida è uma pedra.
Não existe lugar onde a mão se è mão de verdade
não passou sem fazer uma coisa feia. Desgasta. 25
Bom de verdade è ser menino sentado na escola.
Vem doutor e diz que trabalho è criar e criar e
criam gado, coitados, quase morrendo na seca,
plantam se Deus deixar, alavancando uma vida.
Dá um dó de levar ao rio o boi, carneando 30
como peão de rua que a gente parece que ama,
anda junto a vida inteira e depois que se dane.
Tudo boi carneado. Trabalho è criar. Carnear!
Gente sem rumo è isso, fica olhando o asfalto.
Quando a rua era terra, pegava coa mão e moía, 35
indo embora o grão pelo ar. Nascia uma grama,
planta qualquer. Mas essa pedra de asfalto sufoca,
rua preta pra carro passar. Ali não se cresce.
Tem luar de noite não, a luz è de poste.
É, peão, se for de pedra o asfalto, se mata, 40


2




leva também. Leva-te além, alguma cidade,
mato, qualquer lugar. A estrada è dura demais,
deixa triste o pé das almas, caleja o sossego.
É porém caminho de pé, e todo o caminho
quando anda è duro de andar mas um dia termina. 45
Coisa qualquer que faças salva, mesmo modesta.
Chega alguma parte. Será que chega de fato?
Baixa a cabeça. Se chega mesmo ou morre no meio
quem que sabe? Mas quando o pé se deixa e recua,
quando a boca sabe já que è nada o que espera, 50
só a morte, aí não tem caminho que ajude.
Pode ser de terra fresca e todo de verde.
Chega não. Talvez, quem sabe, chegue milagre.
Pega a enxada! Homem honesto não sobe na vida.
Sobe cadê? E trabalho? Tudo boi carneado! 55
Custa andar, e cidade a gente sabe o que é, que
mar de pedra, barulho, martelo batendo no prego,
carro de lá e de cá, buzina: Mundo-cinzeiro.
Nem se ouve nem passarinho. Ouvir de que jeito?
Árvore falta, cortaram, tiraram tudo da praça. 60


3




Fica no alto uma nuvem. Chove não, de sujeira.
Só pra calar a boca do céu. Se tocam viola?
Que esperança? Só se for tocar de sirene!
Volta e meia morre alguém por aí. Baleado.
Vem de longe querendo riqueza. Vira bandido. 65
Chega aí, conhece ninguém, se abate. Desiste.
Fica caçando droga. Gente ruim nesse mundo
nunca falta e nem cliente. Pobre que rico,
tudo atrás de fumo e de cheiro. Boi carneado!
Boa è vida de índio: Caçar e pescar pelo rio. 70
Índio? Cadê maloca, peão? Tomaram seu mundo,
deram-lhe a rua que è rua só de carro passar.
Rua de gente tem não. Melhor! Gente pra quê?
Gente è problema. Bom è viver o gado largado.
Gado? Boi que se dane, gado è carne ambulante. 75
Rumo seguro na vida gente nem boi se garante.
Pelo menos de noite a gente esquece asfalto,
anda aí pela sombra e chega em canto qualquer.
Droga de pobre è sperar, sentado o rego no chão.
Craque faz milagre nenhum, e nem aguardente, 80


4




viste, peão? Fazer o quê então? Desistir?
Todo rumo è rumo pra longe, rumo de embora-
nunca-mais-voltar. Ninguém que saiba morrer,
nem de perto nem de longe! Ficar na cidade
como? Abrir um bar de beber pra viver de fiado 85
rende riqueza não. Beber de graça è gostoso?
Vira padre que o vim da missa è teu. Carneado!
Cada coisa! Riqueza de pobre è saúde somente,
isso quando a vida poupa. Doença não falta.
Coisa dura è descer do trem sem rumo nenhum, 90
casa nem cama. Chega morta ao mundo a sperança.
Como não? Gente importante tem tempo de ver?
Boi que se dane, lugar de carne seca è churrasco.
Olha no asfalto o sentido da vida: Seguir a jamais
pela estrada, pedra feia. Mas nota que a strada 95
foi de pedra, viste, não pra ter formosura,
isso não – foi só pra mostrar um rumo qualquer.
Veio longe o teu pé, peão, e veio de longe
tão de longe parar aqui? A vida è essa.
Cada dia uma cama – pedra, relento, ribeira. 100
Vem até cachorro da rua fazer companhia,
Deus è bom demais. Abrigo não falta nem paz.
Falta rumo só, mas rumo a gente que inventa.
Essa vida è andando aqui. Ali. Sem destino.








© Gregorius Vatis Advena 2013, Nulla Dies Sine Linea.



Abstrações






III


Máquinas, força perambulante e metálicas flores
como feições de horrores úteis brincam co fogo.
Caos, um córrego metalurgicamente dourado
vai passando em vulcanizado insumo de lavas.
Mal imaginava um Euclides a crassa verdade: 5
Dessa caldeira sai o motor do carro, o cavalo
fica lá na roça. Cantemos curas de indústria!
Tubos cúbicos dão tensão, pressão ao substrato
quando na pressa o fogo furioso se alastra.
Passa o fluxo desordenado e de longe da aresta 10
dançam as armações alegres, maiores que a lenda.
Pela banda e nas margens liquefeito o lamento
ferro escorre feito escória. Dai-nos o coque, os
fornos altos vociferam, mas tarda a resposta:
Inda labora a coqueria, o calor enlouquece, a 15
carga parte às acerias, carvão se apresenta –
indassim o mestre de máquinas olha a formosa
queda, a caldeira infernal cozendo a sopa do aço
quando a faísca elétrica flui. No princípio, o
caos proclamava a criação cabal do universo, o 20


1




rolo trator, a comoção do cilindro de vácuo
pelo petrecho, o vapor, balancim rotativo.
Força adentro o teor do lingote filho da hulha,
sangue do sínter pesa e na rede jaz o resíduo,
fluido oleoso e moribundo. No torque ressoa 25
como a voz dum sino o novo sistema de arranque.
Vai surgindo torta entre emissões a estrutura, o
ferro gusa que o forno hospeda, hotel de carbono.
Lá de longe repica o bailar da bobina, a soldagem
raia, o líquido sol por entre escamas sombrias 30
vence, a verdade ilumina. Que fazer entretanto
quando a velhice corrói a ligadura do engenho?
Como dantes montado ao cavalo branco o guerreiro
firme de arnês corria, ora os pobres trabalham.
São valentes mãos a quem ordena uma indústria: 35
Contra o brio do aço lutar, amansar a dureza.
Vão passando de impávido arnês buscando a furna
donde o fogo inventa o mundo, os motores, o trilho.
Mas a mente ao calcular o problema se alarma, as
faces congelam quando a casa de máquinas treme. 40


2




É perigoso ver as mãos acionando o comando, os
pés descendo como se pela escada da morte:
»Desce logo, diminui a pressão, e cuidado!«
Nessa contenda seca o bate-boca se acirra, o
dedo tremula sobre a tela, o brinquedo apavora. 45
»Sobe a pressão, reduz a velocidade da banda!«
Pela força do modo imperativo a trombeta insensata
voa pela estrutura num contraponto de angústias,
cena insuportável. Perante o fogo travam batalha
contra a flama aqueles fracos, travam batalha 50
como quem reconhece, a guerra nunca se vence
nem se perde, somente o cálculo engana atrevidos.
Pelas histórias dessa gente insana perpassa
todo o querer de mais poder, o queimar indomado
contra as coisas, o roubo magistral do tesouro: 55
Surge a máquina, as armas, as novidades urbanas.
Esses obreiros queriam melhor, mas pobres e pagos
vão lutando armados pela aurora do incêndio:
Amam de certo modo o quanto pelejam, pelejam
fortes, mas o incêndio devora a própria existência. 60


3




Atos se perdem por entre a bruma suja do engenho,
não contudo em vão: Enquanto a lida naufraga a
vida emerge vitoriosa, o labor se trascende
pelo inferno e na escaldação redime os escravos,
eles que vão soldando o sol e maiores que o fogo. 65
Não te preocupes porquanto em nada te acusam,
cada um aceita o seu fado e vai-se lançando
flama adentro em busca da salvação e da cura –
pois a máquina è mãe e vale mais do que a vida a
mão que sustenta: Eles não desistem do prélio 70
quando a lida è lida irmanadora das almas.
»Anda, vai, diminui a velocidade da banda,
vamos senão a gente morre, a máquina explode.«
Certos párias são maiores que eterna memória
quando vencem o próprio ser em nome do amigo: 75
»Mas a tela quebrou, desobedece o comando,
gente, corre, sai, estou perdendo o controle!«
Uma coisa è mesmo verdade: A vida dum pere-
grino frouxo è só poeira a mais que se espalha.
Lá estão, no desespero, buscando equilíbrio as 80


4




mãos suadas, os pés que vão correndo da morte.
Quando o socorro sobe e chega ao topo, a fornalha
ruge desordenada: A caldeira, o vulção se transborda,
cospe lava na cara do mundo e traga os incautos,
náufragos sós que agora só quem salva è destino. 85
Dentro e fora, o fogo avança. »Aumenta a pressão!«
Doutra parte da fábrica chega auxílio: tardio, o
caso è grade, è caso perdido, è caso de apenas
salve-se quem puder. Como um ladrão fugitivo a
massa vai gritando e buscando a saída às pressas. 90
Pelo império ruente um bravo baixa alavancas e a-
vança afoito, o apuro, o pânico, o pranto mesclados.
»Vai explodir, quebrou, socorro, corre, cuidado!«
Culpa de quem? Quando o lingote pesado despenca
pelo coque e no ferro gusa, na poeira das hulhas 95
tudo acaba e desaba, anoitece, a morte devora.
É cruel, feições de horrores úteis, custoso o
preço do incêndio, o sacrifício pai dos motores.
É bonito o labor conquanto ingrato, o trabalho
farto e redentor e assassino, um suor castigado. 100


5




Homem brinca co fogo e no fogo o calor se consome:
Deve ser a vingança do acaso e do sol que se agita.
Eles morreram: O inferno destruïdor arrastando
pela explosão as vigas, a vida, o ferro torcido.
É, bastava a mão do destino e tudo era salvo. 105
Mas de trabalho e muita morte o mundo se assoma
pelo metal, motor, futura ferrugem que aguarda.
Máquinas, força perambulante e metálicas flores!
Que diria Platão dessas magistrais existências?
Inda sobe o vapor saliente dos corpos torrados. 110
Inda sobe a memória ordenada à causa comum, o
sangue sacrificado aos assassinos do templo.
Age como aqueles gregos que rentes à pedra
viram: A pedra è forte. Mas deixaram a pedra
pela terra, o inferno atrás, Pitágoras cego. 115
Vida de cavaleiro è livre e montada a cavalo.








© Gregorius Vatis Advena 2013, Nulla Dies Sine Linea.



Abstrações






IV


Sobre a rocha acasalam-se as cobras. Inda se ondulam
pela areia seca ou dentro de tocos quentíssimos,
entre escusos terrenos sob o sol caudalosos
giros, letais e lascivos. De longe acorrem serpentes
rumo a congresso de víboras. Agem caudas e vértebra, 5
jactam-se quase de ossosos os maxilares abertos,
dentes à espreita. Macabra dança de escamas e ecdise
densa excita aos hemipênis as fêmeas vorazes.
Costa e costelas uma às outras cobras constritas
qual na atrofia da vítima, ora em paixão calefeita 10
rudes amores répteis cravam de marcas a pedra:
Gozam em laterais espasmos a morte do antídoto.
Vem desse amor infernal nas elações de venenos
arte, elegante indústria: Vão guardando peçonha, a
dupla poção proteica – o céu e a terra invejam a 15
obra-prima perfeita das ovovivíparas vidas.

Junta-se às víboras caravana imensa e colúbridas
raças extensas. Ignotos, os maxilares ensaios
perdem o véu perante a morta vítima apenas, e
pelos músculos torce a boia uma estranha asfixia. 20
Pobre porém a crotálea de airoso e sevo chocalho,
pobres almas botrópicas: Mera malha sem viço
frente ao ávido neurotóxico fluido, inóculos
dentes elápidos, proteróglifas bocas de cobras
raro calmas. Chegam corais ao fausto concurso de 25
listras rubro-atro-amarelas, distinta a peçonha
pela América. Estas são pacientes contudo,
há piores ainda, o congresso apenas começa.

Doutra feição de humor se ornaram elápidas longe
pela costa que outrora Ovídio temera da Líbia, 30
najas do Nilo cuspindo elixir mortífero aos olhos.
São todavia fracas frente a monstros d’Austrália e
cobras oxiuranas, do prado ou remota em deserto
gênio irascível – irmãs daquela cobra marrom, da
cobra-tigre em rajadas listras, a doce elegância 35
mãe de gotas de nunca ouvido antídoto e cura:
Foram dom de hemorrágica graça e quiçá citotóxica.
Guardam da boca ovantes seiva na espera da presa
farta e moritura em respiratórios colapsos.

Como è baixo o molecular e levíssimo peso 40
visto em tais delicados venenos. Vasta veloz a
gota no sangue e no delicado tecido do corpo,
mescla-se ao leme desgovernado das células ávido:
Age como outrora as armas dos donos do mato, o
diro desbravador arrasando um perfeito sistema. 45
Outras vezes se ouviu dizer de instantâneo colapso,
pronta entrega de forças. Quando adentra a bandeira
suja dos impostores è espada o destino dos índios.
É preciso viver melhor e aprender com perícia,
ver e ouvir de quem viveu e conhece a verdade: 50
Nunca ouviram falar dos dendroaspísicos monstros?

Correm livres pelos tratos d’África elápidas
longas que a fauna universal e as feras temeram.
Podes cavar a cova se mordem! Cobra de espírito
vário, de raro e de raramente estável caráter, 55
move como a coda em barrocas bailas o esbelto
corpo delgado: A mamba negra apavora e passa
mais veloz que o corredor atleta de Atenas,
cruza cansada vinte quilômetros cada hora, um
terço do corpo erguido e buscando ensejo de bote. 60
Sobem as árvores. Máquinas irascibilíssimas,
são doadoras de morte e gratuita agonia, as
omnitóxicas glândulas guardam raro tesouro.

Tal poção è paraíso dum homem que invade a
própria veia na agulha dum cocaínico líquido. 65
Quando a víbora piedosa inocula econômica-
mente a injeção, a mamba negra morde com gosto,
lança o que puder de peçonha, o serviço è completo.
Ela recusa a carne humana mas se lança agitada a
múltiplas ágeis mordidas, doze se a sorte acode. 70
Dura este assassinato uns dez ou vinte minutos,
luta ingrata contra o mar e triunfo da gota.
Quatro-centos gramas vão navegando no sangue,
sim, navegar è preciso e navegando naufragam
nesse mar Cleópatra e multidões da coorte. 75

Quem não temeria as dendrotoxinas selvagens?
Basta se aproximar de longe a sombra da mamba,
basta abrir a boca em perigosíssimo alarme e
foge em debandada a matilha, o leão, o elefante
sai desesperado às pressas, a selva se esconde. 80
Há quem não se impressione: A solução è o mangusto
quando morde a cabeça e balança a cobra e mata.
Mas quem fica mordido morre e morre bonito:
Pelo campo aberto falta antídoto e herpeste, o
monstro morde e passa mas a morte se hospeda 85
pelas marcas rubras. Quando morde a cabeça o
termo, o colapso è generalizado e mais rápido!
Rumo ao congresso as elápidas dançam pela ribeira,
sobre a rocha lasciva misturam raríssimos ritos:
Macho mordendo macho estrebuchando por fêmea, 90
gozo grupal em meio às redes rudes de areia e
guizo de anéis. Enroscam-se pelas vértebras frias,
vão bailar além num dessabe-se-o-quê de calores
onde estrangulam e emanam loções, gozoso veneno,
proto-amor magistral reptilicamente expressado. 95

Mas depois a metamorfose da carne e do carma
faz um milagre: Passado e presente se aproximam
ora que ainda vês a imagem do tempo em que foste
mamba negra e que és. Ainda saliva nos dentes
teus o venenoso véu que disfarça as palavras, 100
inda vives como as cobras na espera do bote.
Hoje se vê correr na cidade uma prole de ofídios
ora eretos, outrora macacos. O réptil evolve,
cobras elápidas são agora uma estirpe distinta,
são pessoas grandes: o mestre, o homem de letras, 105
sábios, poetas que vão se arrogando importância,
seres perigosíssimos como os homens de bem e
muitos outros, guardiões duma toxina retórica.
Inda se ondula pela areia seca e quentíssimo
toco o lascivo e caudaloso simpósio de víboras, 110
mescla cardiotóxica, espasmos de rara elegância.








© Gregorius Vatis Advena 2013, Nulla Dies Sine Linea.



Abstrações






V


Quando se encontram no pentagrama de cima, ou de
baixo se preferires (qualquer que seja a clave,
sol ou dó, ou que seja escala menor ou maior),
duas vozes, três de repente ou quatro cantando
ponto contra ponto, ocorre o prélio melódico: 5
É que as notas se fundem loucas umas às outras,
lembram o bosque por onde o desavisado passante
quase creu que fosse harmonia a guerra das aves –
máxima a polifonia que outrora Josquin emulava!
Deu impulso à missa triste de Orlando di Lasso, 10
passos por onde Bach bebeu as águas de fusas, o
caos da contenda, o atrito tonal. Um raro comércio
move a linha por entre as indagações do compasso.
Notas vão-se casando e repulsando, os amantes
cujo amor corrosivo emana uns suaves efeitos. 15
Nossas aurículas pouco atentas e dadas a incerto
tom se contentam. Não porém sem norte se entortam
pela clave os sons, as vozes dependem de vozes.
Vão nascendo interrompendo-se, e mútua mente.

Quando se cruzam notas pelos quatro espaços 20
como pontos afoitos, é preciso cuidado.
Sobre o papel, aquelas duas cores contrárias
dão trabalho à vida auditiva e ver a verdade
custa caro. Ali, numa linha de cima, começa a
fusa com haste por baixo mas olhando pro alto. 25
Vem a segunda na contra-mão procurando problema!
Como se não bastasse, a terceira escolhe o caminho
duma já das duas, e a quarta. Não por acorde: O
grande encontro è melódico, n’é harmônico não.
É, meu filho, cada traste è tomando o seu rumo 30
lá pra cima, abaixo, aguda e grave a conversa:
Mas o rumo embora pareça sem rumo è prescrito,
viu, tudo è estudado. Tudo tem seu momento:
Hora de consonância, hora de dissonância,
hora de pausa. Hora do cara pensar que basta 35
pôr tudo junto e ver o que rola, quando a verdade
mesmo è deliberada, è raciocínio, è regrada.

Sabe novela? Então, contraponto não é diferente,
sempre a repetição daquilo, o mesmo boato,
isso, aquela fofoca de sexta-feira na esquina: 40
Todo mundo repete, mas cada qual a seu tempo,
cada um se dizendo senhor da versão verdadeira.
Tem o canto firme. E tem os sósias do canto:
Um termina, começa o outro, è como telhado –
telha contra telha, telha amparando telha 45
pois nenhuma cai: a de baixo apoia a de cima,
vai passando a mesma gota d’água por todas.
É regime democrático mesmo, o sistema,
filho, è participativo, è bonito, arrojado:
Cabe todo mundo e todo mundo aparece. 50
Canto sozinho è canto gregoriano, entenda,
saiba com quantos paus se faz um contraponto.
Não me venha dizer que bate-boca não pode
nem dizer que bonito è seu arranjo de acorde,
vá, me poupe. Vá passear na floresta enquanto o 55
lobo não vem. Ali tem muito pássaro e vaca
lá do pasto ensina, contraponto è destino.

Nota traço compasso voz cadência soprano
cláusula clave tenor passagem trítono frase
linha pentagrama escala e diaboli musica 60
quinta imitação dissonância quarta terceira
passa segunda primeira do ré me fá passará se
dó de baixo do ré do mi do fá consonância
passo pausa appogiatura sétima sexta
ponto contra ponto contra próximo ponto 65
contra ponto contra próximo ponto que ponto
ponto contra próximo contra ponto começa
quando se encontram ponto fusas a clave
ponto dá-se contra guerra melódica ponto
lá do pasto ponto ensina o próximo lobo 70
dando ponto pulso contra a missa de Lasso
raro contra comércio ponto próximo ponto
contra ponto contra contrapontro primeiro
canto ponto gregoriano próximo contra
ponto ponto ponto ponto ponto e pronto 75
contra ponto: Ali tem muito pássaro e vaca
lá do pasto ensina, contraponto è destino.

Não se sabe na confusão da fuga a verdade
nem a voz maior: O canto não è de ninguém.
Como è falso o renitente tom da certeza 80
quando imita o que não existe: Sim, a beleza
toca, pelas notas dum pentagrama invisível,
toda a corda eletrizada das células, toca
mas è fato, a barra dupla encerra a cadência –
todo canto è belo porquanto è curto e singelo. 85
É bonito e doloroso assistir o conflito do
sopro anunciando na fuga o fim da pureza –
é bonita a fé dum transtornado temente
quando à beira da morte busca eterna semente.
Ele chora pela força que impede a vitória, 90
fim que o tempo entrelaçou no mesmo remendo –
ele se torna a toccata redentora de Bach: A
vida è canto que só se pode cantar uma vez –
quem quiser ouvir esteja atento, que logo
vem a barra e tudo acaba e ninguém dissuade. 95
Mas o gado segue seu passo, vagando calado
pela sombra, os olhos endereçados à grama.
Quando o pasto parecer indigno do canto,
quando o canto for menor que a idade recorda,
vaca incauta: Ela te aguarda. Ela te aguarda. 100








© Gregorius Vatis Advena 2013, Nulla Dies Sine Linea.



Abstrações






VI


Toda fantasia, confuso e fortuito, parece
mas perece quando a cor descobre a verdade:
Verde sobre o mundo a linha cinza eminente
forma a meta-metamorfose incauta. Da curva
sombra cinza folha sombra flores verde 5
noite vagas cinza n’água sombra sombras
cinza folhas fronde esconde espelho verde
sombro n’água e cinza verde e verde e cinza.
Nuvem negro-claro fosca e sistema impressão e
toca perdida, verde no labirinto apodítico. 10
Ovo bozó, a cinza unidas na lava porquanto
rota e verde tenso. Grande parvas e quando
menos sombrias cinza, muito menos inqueda
vida tonta já se movendo verde e nos foscos
cantos, dança constante. Cinza ser movimento, 15
tom, sussurro verde ao derredor, epiléptica.
Traço baço-estranho e mouco, cinza conquanto
círculo flutuante do mar e verde das bordas,
ponto dondo e casto cinza. Escuros entanto
pálido três e verde esquálido nuvem amena, 20


1




verde e sombra seca o som, o versa mistura.
Luz de cinza, diclofenaco del ovo bozó se
cospe caminhão luvas uvas verde cadência.
Foram bolastes cinza perdera será denotavam
filme sorvete verde, quimera tenso de túneis 25
ave de sons ouvidos. Jamais em cinza nenhum.
Longe estrela verde potássio: viver sofrimento
cinza sintaxe luz, porém o côncavo gama
grande matiz. Verde inexiste ser inexiste,
ovo bozó pela relatividade dos pares. 30
Vistos banhavam correriam verde pudessem,
ondas tenha cinza brio ilusão corriqueiras.
Fluidos verde elevam, foi, morrer transparente
mente na cinza chama do ré mi fá sol e lá,
verde sim, se dou ré me faz chorar si mi nada. 35
Vaga e cinza dó ré mi fá sol lá sem dó,
dó do sol sem verde lá. Se o dó dançaria
nuvem vaga imagem cinzas deixa vozes
sombra vagas fronde noite verde n’água
cinza esconde sombras flor e cinza e nuvem 40


2




vaga fronde e cinza e verde e verde e cinza.
Iam voz esconde vagais alado cinza vorazes
manda mamar. Clarão e verde e fluiu prateado
tempo, raro de olhar. Cinza claros o risco,
ponto e verde a meta-matemática e curvo. 45
Listra caírem frente ao ser e cinza deitadas
leva estranha, verde comer. Convexa madeixa
cruza cinza causou tivesse dum ovo bozó de.
Pois que a teoria da verde atividade,
cinza embora a relatividade e das mortes: 50
Ó cantardes pouca sorte, verde momento!
Perde rubro ao cinza o sonho, sonho mentira,
tudo passa e doce o medo e verde e mistério.
Eis esquerda pedra cinza, os anos modernas,
folha cambelando verde: Querer, ser, sofrer. 55
Doido cinza Alice país, maravilha prosaico,
dentro ruído e rua e cinza e rasgo e de carro,
trem das árvores sempre verde nunca na ponte.
Postes cinza nasceste terá solfejo e sulfato
d’ovo bozó florescente. Hora verdes e boca 60


3




fala que nunca cinza acaba o cloreto de manga,
manjo, mangá que embora verde então ventilasse
canta metálicas: Ave fêmea cinza no asfalto.
Correm belas éguas de pés e verde rapaces.
Era drogado? Não e verde e tudo mentira 65
passa, passa, avenida cinza, irreais artefato.
Verde? Vovó de biquíni balança a sandália,
cai no chão o jiló da cumbuca cinza da bruxa,
verde o fio-dental-edredom grudado no modess.
Sapo de para com de cinza que passa e portanto 70
tudo passarem verde enquanto. Camadas diante
d’ovo bozó que sofre sempre cinza, vivendo
rato e vi rato vendo e roendo o rabo verde,
spelho cinza e vago vozes soam sombras
vagas verdes cinzas folhas vagam vão e 75
vêm em vão e n’água cinzas vozes sombras
flor e noite e cinza e verde e verde e cinza.
Olho que para da contra semi-outrora te cinza
formam do verde escuro vampiro onírico têm de.


4




Ovo bozó, ovo bozó – e cinza – e mormente 80
tudo passa as mordomo são mordente que verde.
Verde bozó, capitão, cafetão do capeta e peitão se
vândalos um, que longe a reta demais paralelam.
Vale próximo movem cinza estranho de pontos,
pontos de estranho verde movem próximo vale? 85
Cena e trator! Desejo è dor. A cinza è verdade.
Ovo bozó, ovo bozó, verde e jante o bozó dos
dedos os quais, retângulo cinza dá-lhe entretanto
longe da escada verde: Jacó numismática nuvem.
Abre-se quando quem todavia as nunca foi cinza, 90
digo e repito, verde de dó que porém sobretudo.
Trás o trânsito três transtorno e cinza vermelha:
Ovo bozó, ovo bozó coa vovó que a da verde e
beija o chupa-cabra e rebola a vaca da cinza!
Pousa a pupila sobre a sombra verde e medita 95
semirretas, prisco o cinza, vertigem de arestas.
Passo, sofres, verde, morremos, viveis, cessarão e
quando sentar, sentar e cinza. Das quais existência
letra e livro verde que quando cai de repente.
Ovo bozó, que noite-quase-dia e que os cinza 100
scondem verdes vozes sombro espelho soam
cinza imagem fronde vaga deixa nuvem
flores vagam folhas cinza e sombra e cinza
verde e cinza e verde e cinza imagem sombram.
São quimeras e pouca verde e cinza momento 105
nada, cinza a pata choca do chão que morrendo
beija: Tudo papa verde, tudo ilusão que sofres
ovo bozó, ovo, povo, ovo bozó.








© Gregorius Vatis Advena 2013, Nulla Dies Sine Linea.



Abstrações






VII


Bom è abrir um lindo e financeiro instituto
tipo um banco-zumbi, aquele banco falido
mas ativo: Todo mundo sabe que è treta,
só cliente que não. O cara guarda dinheiro,
quer sacar não pode: Defeito, o caixa lamenta 5
pelo transtorno. Fim de ano toma empréstimo,
compra casa e diz que pode pagar depois, que
banco è bom demais. A casa não vale a garagem
mas è casa própria, orgulho e sonho da gente.
Banco ruim è bom também. Vive de empréstimo e 10
Nunca fecha. Ministro torce a cara, protesta,
manda abrir falência. «Mas ministro, queísso?
Essa gente toda aí que depende do banco,
como vive se o banco quebra? Tem que ajudar!»
Tudo ator de primeira. Governo empresta fortuna, 15
faz aquele cu-doce mas cede. Gente do demo
mesmo è peão de bolsa, povo de ações e valores.
Volta e meia chega alguém caçando conversa:
«Banco zumbi vendendo toca a valor de palácio?
Vale nem a cueca essa porra! Pago a metade!» 20


1




Aí bastou. A comoção se alastra na bolsa,
nervo à flor da pele. Fazer negócio de otário
custa caro: Perde valor num dia o bagulho e
banco se alarma: Diz que a casa è boa, garante!
Quando a novidade se espalha o banco se irrita, 25
inda mais se è banco-zumbi. Não tem piedade: E
banco è flor que se cheire? Não perde nem tempo,
manda carta: «Dinheiro da casa paga amanhã!
Paga logo ou sai, vagabundo!» Pobre è assim.
Banco e bolsa se acusam, o bate-boca de praxe: 30
Teve banco aí dizendo que a culpa è da bolsa,
desde o começo peão botando fogo na lenha,
todo dia fazendo o preço da casa aumentar. Mas
quem não sabe o começo de falatório no mundo?
Seis bilhões de bocas! Converseiro, rapaz, que 35
nem novela da Globo vence. Culpa de quem?
Culpa do mundo! Daí se reúne gente do mundo
todo e começa a falar de crise e reforma do mundo e
banco dando dinheiro pro povo e país se acabando e
banco tomando a casa do povo. Dinheiro cadê? 40


2




Tem dinheiro mesmo, existe? Oitenta trilhões,
dizem, de americanos dólares correm na Terra.
Disso, porém, dinheiro impresso, nota e moeda
modo-de dar comida a pobre, cinco trilhões, è
isso aí. O resto è somente o valor nominal, 45
cifras só de alimentar programa de cálculo,
lista computada em máquina. Dinheiro è conversa.
Fosse impresso todo o valor nominal financeiro –
É metal e papel que não cabe nem no Oceano,
sem contar que o Pacífico todo foi invadido 50
já pelo império plástico, tóxico não reciclável.
Fica peixe tentanto comer sacola de compra e
ver se encontra rumo. Este mundo è de lixo, mas
banco diz que investe em limpeza, aí que è bonito.
Bom è ministro querendo dar lição em banqueiro. 55
Mexe com banco, negão! Vira e mexe descobrem
novo roubo e converseiro de imprensa e comédia.
Vem ministro falar de improbidade no banco e
dá-lhe multa: Toma! Banco reclama mas paga.
Dois milhões, jornal adora. Depois dalguns dias 60


3




vence aquela dívida lá do governo ao banco:
Dez milhões. Ministro ri, promete e não paga.
Faz o quê o rapaz? Empresta do mesmo banco!
Doze milhões, inclusos juros e juros de juros.
Terra onde banco se acaba se acaba junto co banco: 65
I rest my case. Crise? Crise de rico è enxaqueca e
lá se dói perder dinheiro que nunca existiu?
Dói è ficar na fila quando o banco-zumbi
fecha – fecha entre aspas, banco não fecha,
banco muda de nome. Fica a gente na frente, 70
spera o segurança vir e abrir a portinha.
Uns até se irritam, parece: Cena de filme.
Chato è quando a galera invade. Desce a escada
rumo à caixa forte e força. Cadê lo dinheiro?
Tem alguma coisinha, claro, podem comer 75
lá no Hilton uma ou duas vezes, com sorte.
Todo resto è dinheiro abstrato e nunca se vê.
Não poder imprimir senão o que existe de ouro?
Essa história do ouro e da prata como padrão,
isso acabou. Oitenta trilhões de dólares-ouro? 80


4




Minas Gerais teria de ser do tamanho de Júpiter:
Haja extração, colônia, haja porão na Inglaterra!
Quem precisa de ouro, gente? Ouro è bobagem!
Hoje è cartão de crédito. O cara compra a parada
sem tocar em nota e moeda, acabou-se a sujeira, 85
cifra, lenga-lenga. O mundo virou uma aposta
tipo a da mega-sena. Jogo de azar a quem perde
todo o dinheiro que só existe pra ser perdido –
sorte a quem ganhou fortuna que o povo perdeu.
Foi o cara da bolsa fazendo alarde do nada? 90
Foi o banco-zumbi que ressuscitou da falência?
Ambos os dois tiveram sim parcela de culpa.
Uma coisa eu digo, ministro: Mexe com banco
não pra depois não dizer que ninguém te avisou!
Essa coisa de Estado intervindo em banco, meu caro, 95
só quem pode mesmo e quem não pode se arranje!
Mundo justo mais que este è ruim de se crer.
Tudo è lindo, tudo è divino e basta um negócio,
mesmo com banco-zumbi, que nunca falta dinheiro.
Pobre reclama demais. Pra ter dinheiro de fato 100
basta enriquecer! Banco tem sempre lugar, não
falta nunca espaço pr’uma continha a mais.
Basta enriquecer, è simples, e a vida melhora.
Por isto è que digo: Bom è abrir um banco bonito,
bem bonito mesmo – daqueles que vendem casa, 105
treta e tudo o mais. Peão? Peão que se dane.








© Gregorius Vatis Advena 2013, Nulla Dies Sine Linea.



Abstrações






VIII


Dormes em frente à tela aborrecido na rede:
Quando a pulila recoberta em treva se estende
surge a imagem congelada que nunca sumira.
Como no filme as pausas paralisam os sonhos,
ora se assiste após a velha vertigem o enredo. 5
Passa a cena inteira frente aos pés da cadeira:
Longe os correios, longe aquela carta grafada,
hoje a bateção no teclado è pré-facricada;
perto continua a mentira, o buscar de mistério,
barca varando na seta branca o botão pequenino. 10
Vai buscando mas não há resposta nem busca:
Não existe existir, existir ilude a poeira.
Onde a margem do rio generoso esconde o vau, o
dedo cansado sofre – tocou demais o teclado.
Fica lendo mas o livro acabou, a verdade, 15
verso acabou, sobrou o comentário da massa.
Pouco vadoso è rio que mais parece oceano
pois ninguém atravessa, só navega e se entrega.
Quanto mais avança não chega a nenhum paradeiro.
Como pode ser infinito o pequeno, o quadrado 20


1




mar que è rede nem de peixe e nem de consolo?
Basta um toque no xis e o peixe morre na rede.
Tudo o que chamas eu ou meu transita num rio
entre duas margens longe de eu e de meu.
Esses amigos de rede e gente que não conheces 25
são aspectos perto e longe mesmo que perto.
Vão esparramando imagens, textos e heroicas
fugas que os animados comentam. Dividem a cena,
nunca a vida. Vivem sim por trás da existência.
Pela tela as mãos navegam nas vagas do novo, 30
porto que nunca è porto como o novo è novelo:
Passa o fio no rumo que o queres fiar pela roca,
antes, depois do dedo o mesmo traço delgado.
Desses mesmos fios se faz a rede moderna,
nova porém caduca porquanto rede è de fio: 35
Novas na vida apenas moda e morte que è velha.
Esse desassossego não tem amigo que amanse,
moda e nem a morte talvez. A rede è de imagens.
Dentro porém a vida è vária, ninguém a conhece.
Rede não cura o peito, rede não cura oceano, 40


2




fundo que nem do pego atro o monstro vislumbra.
Buscas debalde a fibra redentora da roca, o
fio que caiba em letra, cifra, traços, imagem.
Tudo o que chamas eu è traço e fio que se quebra,
nem proclames «existe, è verdade» se assim se desfaz. 45
Morres na rede que rola e reduz o peito a palavra,
nunca pisas no porto o chão de entranhas dum homem.
Sabes do estranho apenas por intermédio do símbolo,
mas no vento o amigo e o pai continuam estranhos.
Dormes em frente à tela, identidade assombrosa, 50
quando das cinzas ressuscita a ilusão da existência.
Essas navegações dentre alucinadas paragens
são mentira e nem a letra dum livro è constante.
Pulsa o peito, um fogo ao lado alheio da rede?
Há de fato um porto à barca em meio a tormenta? 55
Talvez se computem sós as letras, nós nos perdemos
como um poema sereno e sem verso, fim do infinito.
Quase toda função desta vida tem seu programa e
novo modo de cálculo, escrita, acúmulo e lista:
Gente outrora dispersa se reencontra na rede. 60


3




Mas o que não se vê nem conta è límpida essência,
e sim dizerem «eu» ou «meu» duma breve aparência.
É bonito como o novo botão obedece o comando,
é fugaz a união dos nautas num laço singelo.
Onde o discernimento soube o sopro do alheio, 65
onde existiram dois amantes que a si conhecessem?
Somos o beijo, mas beleza è mais perto do sopro, a
boca è pior que a verdade. Peito è somente conceito,
vírus trojano. Passam o scan, o set-up e consigo
levam a presunção para o lado certo do espelho: 70
Lado da imagem sem carne, onde a mentira è conspícua,
onde moramos e moram o eu e o meu que chamamos
mas não somos: Nada existe fora do espelho,
fora do espelho a carne è tão somente impressão.
Eles que são heróis, se agiram nobre e calados 75
não deixaram memória, são perdidos os atos.
Eles que são banais porém deixaram palavras,
têm memória até sem mérito: o verbo è maior e
vida menor que verbo è sofrimento, è momento.
Vais fechando os olhos frente àquele teclado 80


4




mas da rede não se assiste a tua incerteza.
É de raro proveito o dado e perfis se desgastam
ante o dano das horas que esgota glórias e gana.
Inda se busca amigo na vida e menos palavra?
Pulsa no peito aquela espera do ponto final, 85
verso derradeiro e confortador, invencível.
Pobre o coração que atende o termo da letra
quando no verbo finito o traço finda do peito.
Esta vida è busca de verbo mais do que amigo!
Vão passando cenas na tela. Os olhos saudosos 90
leram pelas teclas o livro errante da rede,
mas um toque no xis bastou, a janela se fecha,
joga fora a palavra, a identidade, aparência.
Quem navega entrega-se ao mar, è esta a verdade,
pois flutua, mas vence apenas se o mar permitir. 95
Não navegues e não caminhes, não existas,
não, transcende apenas a impostura do espelho.
Abre os olhos! Quando a vertigem traga a verdade,
quando o sono se abate em ambos lados da imagem,
tarde da madrugada è tarde demais, è fugaz. 100
Mas o cor vislumbra à janela um mundo indelével
como se fosse possível além do afã da palavra.
Essa janela è só imagem, mas sopro que sofre
sofre pois a cor è bela e mais que a verdade.








© Gregorius Vatis Advena 2013, Nulla Dies Sine Linea.



Abstrações






IX


Versu e sermom vulgare, vita cantemus vetusta,
Nullam in agru color, nuves graves in corde.
Neve eterna descende montes e terram invernesce,
Cade per planu ella flor ante virdes amors.
Curas vero a tantu, frigido montem ascender? 5
Quem in culme querer, quales curres itiners?
Paucum pectu sape rotas nostras obliquas,
Court inter pedes mort, multu morbu succumbes.
Tenes cum manu forte frumentu e virga cum altra,
Mundu, monstru, nox, umbra ni bruma timente. 10

Quando ad oclos surgit imago de baratros albos,
Animu quomo in crux perit crudel e turbatu.
Obe miran, silentiu, neve guberna cum ventu,
Solo consola cel pedes e paula peritia.
Miser spirat in hos periclos nullos calores, 15
Numqua que firme stat contra nuves tremente,
Quasi perdit ho cuer, hoc animu, virga si vasta
Manu intuta suflar, gelu a digitos duros.
Nulla nata si re amades, causa ni mente,
Buccas de ventu vox furia fauces de infernu. 20

Quis iudare abe qui fuge longe de terras?
Nullu refugiu das quando ermitas o rogant.
Preliu procelas ira profliga pedes sin passu,
Semper a mont ambular, home naufragu in neve.
Cum natiom qualconque impera nova superbia, 25
Vanas curas de lex contra flacos prorumpen.
Paula vero de imperiu gloria si fugas o premiu,
Mort e tyrannu rex, metu tantu e sevitia.
Fabulas curren buccas, odiu, diras doctrinas:
Patrie tantum sunt fils li home communes, 30
Ipsa de pelle color et ipso sermom loquentes,
Qual si peuplu jus plus habuera de mundu,
Unu poblu magis que totos altros a terram,
Parte queconque habitar obe nullu vicinu,
Numqua in urbe sua corpu de terra aliena. 35
Facil fortuna furt quando mal dividenda.

Sub ella neve pugnan quasi mortuas feras.
Sic inter homes pax, facies quomo de gelu,
Fundu vero infernu, furnu de virus feroces.
Venent a portas perir parias vitas sin patria, 40
Paupres pedes a callu, bucca cedendo a sitim.
Queren fugentes sol, locu alicum de morendi
Posque mundu negaui terras tantas refugiu.
Miser de cuncta part passu expulsu ambulante,
Super petra cade a vices ho corpu curvatu, 45
Nullu bracciu redder manus ad ossu levandas.
Facie triste cum toga rupta de ventu protegen,
Rugas de oscuru feral, oclos sin obe mirando.

Cuiu sperar pietat in tal desertu alicuna?
Gelu tantu et ar sunt a pedes companes. 50
Subito freme terra, mont e neve ruente,
Virgam devorat e spem, villas vasta vetustas.
Nulla conseque vero delir hoc animu forte
Cum ascend in o cuor foco de ventu vincendi,
Grands desirs ad ellas stellas tantu cognotos. 55
Suben semper plus ultra e contra nature
pedes petras quomo de monts et amurs sinuoses.
Quanta illuserun vix vias malas et somnu
Vitas a fauces unde ni volante egressere.
Homes furt ingannats, iocu de mort torturata. 60

Stelle Deu, ametz en umbre vous a mortales?
Courent tuit li vent contre vita e les vents,
Court li vents et la vita è vaine contre le vent.
Prend ella togam li vents, tarde queres salute.
Passa passu melior e spera fine de infernu! 65
Iam de circa pots verre o culmen abscontu,
Grande gaudiu a corde raru amorem stilante.
Que te sustene ment, quale premiu quereres?
Non te atende res in frigidu monte que morte.
Magis miras a cel, magis longe ceruleus, 70
Tantum livor te circat, tibi parat extremam.
Nullu flavu ni sol veult o solu salvere.

Ultima curvam vides ante victoriam clamante,
Vent in o monte nox atra gelu tremores.
Ubeconque mirares anima nulla apparere, 75
Perdes in vastu vall oclos animu pensu.
Cadet a vices virga, crema neve ellas manus
Quando molle prends vitam cum digitos mortuos.
Veuls in van ambuler si cata passu periclos?
Meurs in neve iam, exul, nulla morata! 80
Vero mult se plaint o cives a nullu peuplu,
Nuls desire voir home expulsu de cunctos.

Date, celi, poete parabola ad hora narranda
Clara cum ella lux fine de facies facit.
Advena curre cito ad ultimu culme de monte, 85
Genu flexu mort mirat in lapides latas.
Corpus iam declinatu crepa virgam de veteru,
Cranios vide mults mortos in terra clavatos,
Frigide cova ouverta d'homes illac arrivetes,
Locu a regressu nul, mundu invernu feroce. 90

Sed in baratru altissimu tingen neve miracles!
Miser primum de cel radiu diluculu et stellas
Anteque muria mirat e pleure in aurore supreme.
Vois le mysterium froid, joie qui cherche du mondu
Comme li ciel le pied du paupre a nulla demeura. 95
Viens chanter, mon fils, voix des hommes perdus,
Songe le triste état du pas sans but ni chemin.
Tant de niège descend, nuit, l'hiver de la terre,
Lourd le pas mendiant, le mont la ville du loup.
Courent tous les vents contre l'ivresse du coeur. 100








© Gregorius Vatis Advena 2013, Nulla Dies Sine Linea.



Abstrações






X


Deus dos deserdados, chega ao fim o pateta!
Como nada fiz na vida além do meu verso
morro tarde. Deito-me escuro e vejo no teto
turvo a luz que o carro, vindo da rua à janela,
vai deixando para trás. Pergunto às paredes 5
onde estou. Eu preferia que a luz não passasse
pela cortina da sala. Fechar os olhos ajuda?
Nem sabia que estavam abertos. Vias se fecham,
quase parece a vida parede e quadrado cercado.
Toda hora nossa è última e vendo a pintura 10
penso: Será possível? Passar fazendo nada.
Quero dormir, esquecer, o sono porém engana:
Durmo mal e acordo cansado, o peito pesado.
Nada? Que diria Deus perante o poeta?
Deus condena inércia mas è vão responder. 15
Quis ajudar alguém e dar ao mundo uma prenda
como se o mundo esperasse, desejasse, pedisse.
Spera dinheiro, tenho apenas o inverso, verso.
Nunca salvei uma vida embora às vezes quisesse.
Eu portanto confesso, nada fiz e não presto. 20


1




Quem è Deus? Perante a vida repito que nada
fiz além. O impulso da gente busca por tanta
coisa grande e nunca descansa e morre buscando.
Nem bozó de beira de estrada resolve o dilema:
Já pensei numa improvisada e penso demais. 25
Morro buscando. Morro, claro, e busco a verdade.
Tudo vai de como a gente enxerga essa vida,
pois se a vida è grande, como somos pequenos?
Mas se for pequena, como queremos ser grandes?
Nada vai de como a gente enxerga essa vida, 30
vida que acaba coa gente como a gente coa vida.
Tem quem fuja. Quando falava assim pela escola,
(pois na escola andava já descontente da vida),
tinha um amigo meu, não sei se aluno ou docente,
gente boa que sempre dizia: Casa que passa! 35
Certa vez me tomou a leitura: «Eh, Baudelaire,
quanta falta te fez ua boceta. Tivesse fodido
nunca teria escrito isso aí.» Amigo do peito,
ia ao baile caçar mulher. Caçou mas casou-se,
teve um filho: vida simples, aquela vidinha, 40


2




gente jovem caçando amor, afeição – fodeção!
Certo ele, bacana! Botar filhote no mundo
quem não pode! No esforço tudo vai se criando,
tudo: peão, menino, cachorro, tudo procria.
Mas se a vida for grande, como fica a vidinha? 45
Morre tarde. Vejo a parede, gado as gramíneas.
Que diria o rapaz se a vida de cada um esperasse
algo de cada um que ninguém sabe dar? Abstrações?
Eis o que o mundo espera, filho, mais que a vida.
Como Platão no Simpósio grego evocava seu parto, 50
obra imortal, eu vou buscando no muro o sublime,
marco o farol dos carros que nunca foram sublimes
nem no novo modelo – e como invadem as vidas!
Eu, averso à novidade? Suspeitas não faltam.
É que busco o novo mas buscando envelheço. 55
Noto o poeta do agora como corre do velho
rumo à modernidade e contemporâneas essências...
Como se Richard nunca tivesse composto Tristão,
como se fosse mesmo tudo autêntico e fresco.
Não se escreve para o tempo e sim para a vida, 60


3




firme, inexoravelmente, que nem o regente
surdo indiferente ao público algoz dessa vida.
Deus não dà asa a cobra, rapaz: Prefere abutre.
Parem de escrever, de sentir, de viver, de morrer.
Parem com esta inútil samsara. Calem a boca, 65
pelo amor da boca. Bonito è sentar numa pedra,
ver que è tudo mentira e meditar, meditar,
ver, meditar até morrer – e parar de morrer!
Ser è viver e foder, passar è maior que nascer.
Já falei demais, porém prossigo e com gosto – 70
Tinha uma amiga que apareceu do nada dizendo:
«Era viado ou mal-resolvido o Fernando Pessoa!
Essa negatividade do cara, essas coisas!
Dá no saco!» Freud explica e bonito è vidinha,
isso, bonito è novela e Epicuro vive escondido. 75
Vida de nunca ser notado e perdida è verdade,
ir passando o peixe num lago calmo e profundo.
Coisa verdadeira è coisa além desse tédio,
dessa dicotomia vida-e-morte, è vitória.
Mas o fim do verso, eternidade è derrota. 80


4




Que derrota, rapaz, não vale a pena memória.
Passa a razão além da razão e todas as causas
foram irracionais e è fortuito existirmos.
Eu que sei? Em milhares de anos esta poeira
proto-verbal será piada se houver existência. 85
Riso è poema hodierno, contudo o mesmíssimo riso
velho que entoa firme o moderno velho do agora.
Quero deixar poeira de eterna e nenhuma memória.
Quero arrancar um riso escroto dum povo pior.
Povo? Na morte ou memória, vou passando calmo 90
como se todo instante me fosse a última hora...
Nada melhor do que a compaixão, divino elemento.
Quero encontrar a luz que torne nobre a vidinha!
Quero parar, quero deixar de querer o que passa.
Quando melhor vier, deixarei de lado o poema. 95
Nunca escolhi poemas, sempre fui escolhido.
Tanto pareço ter vivido que nunca fui jovem,
eu que não sou, apenas passo e como passo
não existo de fato. Sou um farol de automóvel,
luz amarelada nas telas abstratas do teto. 100


5




Teto è bom. È irrelevante o infinito. Bonito
mesmo è morrer e parar de morrer. Ser è ilusão.
Pois assim è que é: Você pensa que é, e do nada
passa e quem fica passa a vida chorando o que passa.
Dor que è dor è dor porque nasce do apego: Apague. 105
Nada que existe em mim existe além do que è mim.
Vou deixando a cortina aberta, sentindo uma brisa
fresca e de muito longe. Vou buscando uma estrela
como se fosse a minha antiga e maior companheira,
mas me engano, não, a estrela nem me conhece, 110
ela que adentra o meu peito, eu que vou me apegando:
Por quê? È do apego que nasce o desespero e me perco.
Lanço o meu olhar aos astros e sei que sou fraco:
Ai se soubésseis, estrelinhas, o fim dos segredos!
Mas as estrelas são demais, joviais, arrojadas, 115
são irreverentes mesmo. Cintilam e cantam
lá do alto o seu canto inovador, a resposta.
Eu, da janela, fico ouvindo a grande verdade,
única voz que o firmamento ecoa aos que choram:
Deixe de viadagem e vá trabalhar, vagabundo! 120








© Gregorius Vatis Advena 2013, Nulla Dies Sine Linea.