GREGÓRIO BARBOSA

LIRA MENOR

Index



© Greg Ory 2003 – 2018, Record L 1, engl. Minor Lyre, december 2003 to june 2013, Hamburg and Hampshire, free verse, 75 poems, lyric poetry, Portuguese.



*

Aos poucos era mais gente,
Queda, cada qual consigo.
Nos bancos as vidas velhas,
As jovens mirei contente.
Um riso gigante, mundo
Veio alegre, boca ingênua
Tão doce quanto inocente
Prostrada num palco imundo.
Nada além das vidas vagas,
Vento, vanidade humana
Pobre como podre e nada –
Ninguém sorriu de retorno
Nem notou jamais teu riso,
Gigante, dos bancos velhos.


*


A gente passa em pressa e a chuva não.
É noite em dia e noite em mim – em vão.
Talvez nem seja pressa, fossem passos.
Que pensa tanta gente pela chuva?

Preso, relegado a livros,
Penso, leio, fujo a letras.
Porque fujo, vejo chuva.
Porque stou, a gente passa.

Deixo a gota e o verbo.
Penso, porém vivo.
Vou-me pois embora.
Vou por entre a chuva.


*


As três bruxas, em torno da caldeira
Onde borbulha o caldo incandescente,
Dançam e cantam maldições, duendes
Dando tempero à sopa gordurenta:

– Bota veneno aí nessa porra pra queimar,
Que Macbeth mandou! Pega o sapo
Atrás da pedra, bicho ruim, que ficou
Juntando peçonha um tempão mas dormiu
E dormiu vacilou: Joga dentro, credo, e zói
De peixe e pé de verme e rabão de morcego,
Quero nem saber, bora logo!
Cu de lagarto e língua bifurcada chega
Combina, meu nego, e pena de corujão
joga aí, e pó de mandioca brava. Espera
A lua escurecer pra caçar no espinheiro
A mão do filho da puta que a puta
Estrangulou e junta co sangue da porca,
Que a porca comeu filhote. E o sebo
Do assassino em forca põe que salga:
Meu rei vai beber, vai gozar, vai morrer. –


*


Quando chegares a novas cidades
Procura ver primeiro as arves secas,
Os sopros crassos e os rios congelados.
Busca no porto os navios e os guindastes,
As torres tristes e túneis de gritos,
Ruídos largos e máquinas cinzas.
Contempla as frestas que enfeitam cimentos.
E se encontrares pelos céus gaivotas,
Pesca com estas no agito das ondas,
Devora os peixes, pequenos e grandes.
Os rios brilhosos e as luzes dos postes
Iludem peixes e os pés dos passantes.


*


Sentei-me ao banco que molhara chuva,
Vendo mares passados, naves pássaras.
Em movimento, paro frente ao mar,
Ao vento, quando imóvel sou momento.

Sentei-me à relva ouvindo um canto novo
Como se o peito a nada conhecera.
E sem gozo nem nojo, num passar,
Hei vivido este hoje a vida inteira.

Entre as almas virentes, fartas comas
Que entrevi recendentes entre sombras
Vivas, andei. Pequeno ao mundo em folhas
Sóbrias, sem fim nem rumo caminhei.


*


Num momento, tornou para trás.
Era o céu, a veste branca e suja
Rente às pedras no topo do andaime,
Vala que as cãs das mãos trabalhavam.
Os labores desgastam os braços !
Ergueu os punhos cobrindo a testa
Como a fugir do mundo ao concreto.
E as aves cruzavam de vertigem
Sorrisos meros de nuvens.


*


Posto frente ao não, apenas sou.
Amor? Ver a luz que ocorre fugente
Rumo à noite, meros sonhos de aurora.
Cai o céu sobre as pedras,
E o vanecer dos azuis
É mais duro que as letras.
Quisera ser uma cor,
Dormir entre perdidos pontos
Enquanto a sombra cobre as pedras.


*


Surge a torre catedral
Em meio às feias chaminés,
Ora altas, ora baixas,
E as cidades são nuvens.
Andando pelas ruas retas
Um chapéu vislumbra fumaças.
De repente, numa squina,
As cores do nada,
Um tropeço na calçada de pedra.
E o homem corre à casa,
Narrar ao papel o sublime.


*


Na cidade os rios são verdes rasgados,
Deixando ler nas vagas como vento as vidas,
Cores fugindo as folhas dispersas.

Sentado o ponto extremo à beira d'água,
Vão-se as pontes, pedras e passos do céu,
Histórias e risos dos ratos passando
Pelos cais, pela margem, debaixo da ponte,
Livros que o tempo não leu nem lerá.

Como é triste a prosa desses olhos,
Cidadãos de ferro, braço às janelas
Vermelhas que um toque no xis encerra,
Como se as vagas jamais tivessem sido,
E a cidade uma ponte afogada.


*


Nas estações de trem os sapatos e os sacos
Encontram-se nos vãos coas verdades eternas,
Mundos extremos num único cubo,
De pé ou por algum assento livre,
Sacolas de compras, sorrisos ao nada,
Canções pelos trens e pelos corredores,
As maldições das filhas ao calor,
Sapatos pisados ao suor dividido.

Por quem procuras, andante?
As escadas que adentram pela porta
Não param, e os chapéus dos jovens
Para trás, se atrás caírem, ficam.
Tombam pela escada dessas paragens
As invenções sublimes e as superstições,
E verás na estação de desceres
Que o rumo é livre e pequeno.


*


Na estrada, longe do rumo e do céu,
Vinham subindo, direções opostas,
O verso que dizem que é velho
E o verso ao qual nomeiam novo.
Ao ver de poucos passos cada qual
As sombras um do outro, flutuantes,
Deitaram ambos olhar aos fantasmas,
E no desprezo mútuo que os moveu,
Seguiram calados rumo ao fim dos ires,
O verso velho no orgulho das eras,
Na fresca vanidade o verso novo,
Portando às mãos as letras como o tempo.
Deixaram para trás a noite indescrita,
O infinito trocado pela fuga
Dum relógio de areia irreversível;
Pois ninguém lhes dissera, dos cegos,
Que ao fim dessa estrada a subir
O tempo morreu.


*


No escuro diversas de sombras e plano
Reluzem ratângulos, formas e feias
Que bela e mui lentas a dança nas teias
Das ruas semeiam, no meio da morte.

Reluzem retângulos. Outros acendem,
Apagam-se muitos. Deslocam-se loucos
Na paz da que dorme, cidade das casas,
Morada das larvas. Retângulos correm.

E morrem retângulos perdendo cores
Quase naturais ao silêncio meloso
Nobre, surgindo coa noite das luzes.

Não passam os carros. Nenhuma janela,
Retângulo algum se perturba, não mais.
Resta a torta imagem dos sonhos sem luz.


*


Vielas estranhas, passos
Correm-vos certas incertos.
Ruas quaisquer, dias tortos,
Os pés vos beijam, desertos.

Caminhas por todas ruas.
Nenhumas delas são tuas.
Ah mendigo, deixa o mundo.
Ruas serão sempre as mesmas.


*


Vão soando vozes,
Os cães vão ladrando,
Carros vão por ruas,
Silêncio, velozes.
Morreram as musas,
Deixa o dia as árvores.
Não houve nem sol.
Sombra sorve as ruas
Qual se fossem vastas.
As janelas luzem
Longe. Nem é noite.
Ruas amarelas,
Por que tão amaras,
Tão pálida lua?


*


O fim do tráfico?
Bota o Rio no Maracanã, tranca de vez
E bota vagabundo pra ouvir
A Hammerklavier
(De preferência o quarto
Movimento. Deixa rolar o dia inteiro):

Morre tudo.


*


A lua brilha sobre as ruas queda,
Lumes às faces, dando alma aos olhos.
Transfaz a noite, toma parte em sonhos,
Vai colorindo os sopros de tristeza.

Quantos reluzem altíssimos astros!
Já não semelha a sombra ser inverno,
Como do céu pareço ouvir do eterno
Cantos de flores e lágrimas vastos.


*


Foi amor à primeira vista.

Rebolou, desceu até o chão.
Mas desceu, hem? O quê? Desceu dum jeito
Que dava gosto ver. Maluco babou, babou
E passou a mão. Não quis saber:

Levou po banheiro,
Pegou de quatro e bola padentro.
Dava tapa na cara.

Chá de rabo:
Melou, vazou.

Dizia que era professor de literatura,
E era de um talento incrível:
Pegava todas.


*


Dir-vos-não-ei que m'ouvis,
Cujo aqueste mar será,
Quanto qu'esta barca diz,
Que males, por onde irá.
Não temo o segredo em vão
Da nau que me spera ao cais.
As velas franger-se-ão !
Naufrágios, que m'assomais?
O mar noitece sem sonhos,
E as barcas são como os seres,
Sonos de insanos quereres,
Mares de abismos medonhos.


*


Não tenho esmero,
Vanguarda, princípio.
Movem-me todos.
Sendo apenas sinto,
Soberano às letras,
Prisões tenebrosas.
Não busco licenças,
Sempre o mundo,
As mesmas imagens,
Outros rabiscos.


*


Na relva o tempo termina,
Reta que interrompe os pés,
Resposta da grama aos céus,
Aos traçados verticais
Que o verde traga coas horas.
Os olhos são como as aves.
Voam por comas e estrelas,
Vislumbram gemas eternas
E pousam ao chão.


*


Ô maluco, avisa aí pa galera:
Tá saindo o novo poema do Greg Ory.
Não quero sabê de nhenhenhem de neguinho:
Bota vagabundo pa lê o bagulho!

Ói: Se aparecê fazendo cu-doce,
Mané que não leu descendo a boca no bróder,
Dá-li camaçada na cara que apruma.
Sai semana que vem a parada, morô?

Peraí, mermão, peraí, peraí que tem mais:
Não venha botá palavra na minha boca!
Não é pa ficá pagando pau pa ninguém,
peraí que eu vô te explicá pa você como é:

Não te mandei lambê o rabo do cara.
Gostô? Valeu! Não gostô? Bola pa frente.
Agora, não leu direito e qué dá palpite?
Quéta esse rabo e cala a boca, diabo!


*


Os perfumes em brisa, doce olor da noite,
Entre as folhas vacilam, negras como o céu.
O mundo sparge o éter, torpecem as flores,
A toda parte as ébrias almas loucas bailam.

Os olhos pedem cor, vislumbram luzes cegas,
Vastidões de miragens nas árvores altas.
A lua lança em vagas vapores de um véu
Amarelo sombrosas feéricos alva.


*


Onde as estrelas, as luzes das letras?
As palavras são cegas.
Esconderão teus rabiscos mil prantos,
Porquanto o amor é nobre.
Mas nada fora dito de teu peito,
Porquanto a letra é pobre.

Dormir – viver é despertar de sonhos,
E viveremos pouco.
Pouco a pouco não sonharemos mais.
Desviá-los, ó turba,
Desviar da flor os olhos. Dormir,
Porquanto a letra é pobre.

Ó palavras, pequenas como os homens
Maiores que este mundo –
Que sorris aos olhos ermos, candeias,
Cavas do céu escuras?
Em sombras vanece o mundo sem sonhos,
E as estrelas são longe.


*


Quando Deus ficou de saco cheio,
Mandou parar com poeminha de flor.
Daí teve as reações populares
(Teve no singular mesmo!):

Teve um que pegou e disse:
Ô gente, eu vou viver sem passado é como?
Tem jeito não. Eu vou pegar
E incluir um pouco dessa velharada
Na minha novidade. Ué? Se eu sou novo
E não sei donde eu venho, não sei
Nem porque sou novo e nem quem eu sou.

Aí chegou um outro, virou e disse:
Já era hora de acabar co nhe-nhe-nhem
dessa velharada, Deus me defenda.
Mas cá entre nós: Ali rolou coisa boa
Também. Ali eu tiro o chapéu,
De vez em quando até que releio.

Você não! Você chegou quebrando o barraco,
Você e seu saco plástico e seu chinelo.
Você foi fundo e já disse de cara:
- Joga fora no lixo! - E jogaram.

Primeiro você derrubou aquela estátua
Que tinha mais de cem anos.
Depois, demoliu a cidade velha toda:
Botou foi concreto!
No final, você arrasou coa velharada
E queimava é livro no seu quintal que eu vi!
O cara chegava cuma ideia diferente
E você já acabava é coa raça do cara.

E taí até hoje, nessa mesma mesmice,
Você e sua cidade e sua bermundinha informal
Nesse seu jeito legal de falar,
Nessa sua novidade que já é sabe o quê?
É passado, meu velho, sai dessa!


*


Os espelhos trevosos, turvas faces pulcras,
Refletem rastros, remos e barcas nas bordas.
Os mistérios embalam as folhas em sono,
Coberto em sombra prata co'as auras amantes.

Por entre as sombras luz a poeira dos focos,
O riso negro atrai a sede farta e louca,
Fonte fluindo azuis que noite em flor seduz,
Livres farois de cor e fantasmas ocultos.

Os festivos ardores colorem as nuvens,
Os fogos sobem ares, dançam como divas.
Espectros descem mortos, fumaça de cinzas,
Baixel de imagens foscas e vidas perdidas.


*


Distinto tempo brilha ao céu,
Renasce azul em suma luz.
Labor o ano deu em paz :
Verdeja ervas, frutos traz.
O feto brota em terra sã,
O trigo doura o campo bom.
O prado luz repleto em grão,
Vencendo a fome, dando pão.
Mais alto o céu conduz o sol,
Que vai às ondas, donde sai.
Ilustra o campo em alvo véu,
Tornando dia o turvo brio.
Os ares trazem voz ao mar,
Aos astros sobe a brisa mor.
A luz de strelas não se pôs,
Em sol dá nova luz a rir.
A hora vai, vestida em cor,
Amor retém aurora em foz.
Foi grande quem remiu o pó,
Vertendo grão ao campo nu,
Porquanto à mão que lida dor
A grama adora dando a flor.


*


RATO:
É terra o que a gente quer,
A gente quer só é terra
Pra plantar paz e feijão.

GATO:
Sai daí, seu comunista,
Aqui não tem terra não,
Aqui tem bala na cara
De comunista e ladrão!

RATO:
Tem comunista aqui não,
Só gente pobre e sem pão.
Oh doutor, peão só quer
Um pouco, não é tudo não!

GATO:
Vá trabalhar, vagabundo!
Tem comunista aqui não:
Gente decente é cristão!


*


Há flores na sombra parvas,
Ocultas na grama grave,
Poucas e perdidas gemas
Entre as ofuscantes gamas.
Em maio aparecem cores
Vivíssimas como os raios,
Ramos, rododendros, rosas,
Gozo e deslumbro de amores.
Quando a cor anil dos lírios
Deludir a lira incauta,
A vista torpida em sonho,
Cuida não pisares pravo
Nas pérolas, simples frágeis,
Guardadas ao chão dos olhos.


*


No começo, era só falatório, bobagem.
Mas o tempo passou, e falatório
falado e repetido vira verdade.
Ninguém tava nem aí, ninguém ouviu
Nem viu nem falou porra nenhuma.

Foi assim: Chegou dizendo que o cara
Era otário, quem pegasse podia xingar.
E xingaram. Chegou dizendo que o cara
Era gente ruim, pegasse podia bater.
E bateram. Chegou dizendo que o cara
Era filho da puta: - Pega e mata!

E mataram. Mataram o cara e mataram
Junto o pai, o filho e toda a família.
E mataram a rua inteira e a cidade.
Morreram seis milhões. Mas olhe,
Não venha apontar o dedo não, viu?
Porque vizinho seu, meu amigo,
Vizinho seu cê não sabe quem é?
Já esqueceu? Vizinho seu é o Paraguai.

No dia que esse seu povão sossegado parar
De cantar, dançar e assoviar, aí você vai
Saber quem é o Paraguai: O PARAGUAI!


*


Minh’alma é leve qual fogo.
Arde em vesano prazer,
Recende brio, brasa luz,
Glória irmã do amanhecer,
Que a mil deleites seduz.

Minh’alma é brava qual fogo.
Clareia as mãos e destrói
Quem cuja face se opõe,
Quem arte aversa constrói,
Ao fasto meu brio se impõe.

Tu’alma é fraca qual fogo.
Passa um sopro frio, um vento,
Morre a flama, glória passa.
Vai-se o brio num só momento,
Luz desfaz-se em vã fumaça.


*


Sparge a fonte imagens,
Ondas odorosas.
Jóias hei cativas,
Cadentes em bailas.
Brilham sobre o chão
Contentes e verde,
Vidas sobre o fauno,
Ah, que sou mau –
E em luz sorvo risos,
Ah, que sou bom –


*


Fugir ao pranto, dor, ao fel,
É não viver inteira vida.
Fugir ao riso, luz, ao céu,
Não faz menor a vil ferida.
A lucidez, insensatez,
A glória lúcia, gozo, pó,
O deus e o nada em vã nudez,
É tanto a vida, ser, o dó.
Se sou feliz, se sofro em vão,
Não sei, odeio e amo, vivo,
Meu fado seja nada ou não.
Mas devo dar-te fim, cativo,
Se a vida não mo deu, a mim?


*


APHRODITE:
Por que colheste a flor serena?
Jamais verás candor tão nobre.
O brio morreu, colhido pobre.
Retém audaz a mão pequena!

ATHENA:
A forma vã que vês fugaz,
A cor que cai ao chão não pensa.
Se doce olor, beleza imensa,
Do verbo foi jamais capaz.

APHRODITE:
Palavras mais, se a vida é morte?
Que serve ao mundo tanta sorte?
Não viste angústia na agonia?

ATHENA:
À flor lhe falta a fantasia.
Os ramos calam vendo horror.
Olores passam, resta a dor.


*


Contam-me tantos poucos anos.
Que não vindes, folhas mortas,
Cobrir para sempre esses dias?
Buscando as árvores das avenidas,
Páro frente a státuas. Os anos não passam.
Státuas de herois que sonharam,
Vós, que vedes cegas o meu sopro,
Regai de lágrimas meu coração e sonhos.
Pedras imutáveis que me amais,
Clamores mudos que invadis o peito,
Meu pranto é seco. Onde estão meus olhos?
Errastes e orastes, heróis de sonhos e ruas,
Regastes as praças de lágrimas,
E as praças vos renderam pedras.


*


Vede como brilha a strela
Oculta de escusas folhas.
As questões não têm resposta.
Quem aclara a voz da brisa?
Scurece, passam os barcos
De sombra rumo às candeias.
Vede como brilha a strela,
Como aos barcos fosse porto.
Não tem sentido a resposta,
Verbos sem olhos e ouvidos.
A noite devora as barcas,
Toma das folhas a strela . . .
Ninguém aclarou as horas,
E os desgostos foram doces.


*


O mar revolto adentra o céu,
Nem existe horizonte no escuro.
Correm pelas vagas sombras,
Chorando onde termina o mar.
Na fúria surge a strada branca.
Selene cavalga pelas águas,
Vindo entre as ondas e os olhos.
Perdeu-se nas nuvens Selene.
O mar tragou inteira a strada,
Recobriu em treva a própria face.
Tão bela era a luz de Selene...
Que chorais, ó graves tormentas?
Nos mares já não cabem os ais.
Selene perdeu-se nas nuvens.


*


Ô malandro, você aí debaixo do coqueiro:
É gostoso o sossego da sombra, né?
A brisa é boa, a vida é boa: Tudo é bom.

Só tem uma coisa que é ruim: É resíduo.
Enquanto você fica aí coa mão no saco
Plástico, atrás de você tem um mar inteirinho
Só de plástico. Sua praia, malandro,
Tá cons dias contados. Vai chegar com tudo,
E vai feder.

Lixo é assim: Cê não sabe usar, ele toma conta.
Sua tripa vai tar lá, flutuando no meio da química,
Logo logo: Pode crer!
Ninguém nem liga, né?

Liga não! Tá longe ainda.


*


São como os hinos os dias ditosos,
Paisagens claras de os vates cantarem.
Douradas ondas flutuam por ribas,
Como se às cores fora dado o riso.
Serão contentes as causas de ver?
São mais felizes os olhos falazes.
Traçados nunca por ningúem traçados,
Detalhes toscos de treva e de lume,
Ah! fartas flores, ricas como as pedras,
Será verdade o clamor das angústias,
Que as ondas d'ouro nunca nada sentem,
Que o coração é sempre um mundo ermo?
Quero deitar sobre a verde agonia,
Cerrar os cílios e enxergar o extenso.


*


Parcas! Entranhas de mortos,
Gritos de rostos torcidos,
Restos deixados, perdida
Guerra e ganhada, confusos.
Brados rompidos, silêncio,
Corpos, fedor aos pedaços,
Mãos erguidas, armas, vidas,
Desprezo e nojo, no peito
Fuga e medo, covardia,
Palavras nunca nem boca,
Tarde tomadas as mãos,
Vivos trementes, o frio,
Flamas e o ódio infinito,
Vermes, entranhas e restos.


*


Calai, milhares,
Ouvi das aves cantos,
A voz dos rasgos abertos,
Brios de fragras frias
Que brotam do vento.
Texturas frágeis e viças,
Ilusões de pupilas,
Doces como apenas gotas
Entre os verdes vapores,
Calai, milhares musas –
O fumo finda.


*


Um canto merencório ressoa nos rios.
Choram o mundo que as vagas tragam embora.
Os olhos sábios correndo coas águas
Já nem sabem suspiros donde venham.
Quem roubou do mundo os odores?
As almas calam frente à rosa,
E no espelho que desvenda as vidas
Vislumbram rios de roucas ondas
Cantando calmas como as noites
Primaveras e alegrias idas.


*


Sentado à colina, trago um canto.
Os livros meus calaram-se abertos
Como se houvessem lido à cor do belo
Letras mais profundas que o peito,
Vago onde encontrara a flor.
Meu canto ressoa sem notas
Num livro fechado e colorido,
Imagens que amava a criança
Quando o mundo cabia num riso.
Donde vindes, moções ansiosas
De às mãos apanhar o infinito?
As mãos, o fim, a flor – que são?


*


Ô Poeta, vem cá, chega aí! Me diz uma coisa:
Cê escreve pra quê, pra quê que cê escreve?
"Pra ficar rico!" Então cê é empresário?
"Eu hem? Escrevo só pra ficar famoso!"
Então tu paga pau? "Que pau? Escrevo
O que vem do fundo do coração, entende?
Escrevo só pra mim, só pra mim mesmo!"
Mas então pra quê escrever? Basta pensar!

"Peraí que cê não entendeu, é pros-ôto
Também!" E é pra agradar ou desagradar?
"É pra agradar!" Então tá pagando pau!
"Eu não! Se não agradar, tô nem aí."
Querido, pra que escrever então?
Cê não tá nem aí pa opinião dos-ôto!

"Mas pode ser que alguém goste, caralho!"
Ah, paga pau mesmo! "Porra de pau! Escrevo
Pra dizer quem eu sou, e vem do fundo!"
É só você que tem fundo? "Todo mundo tem!"
Então todo mundo é poeta! "Não é, rapaz,
Nem todo mundo sabe escrever que nem eu!"

Tá, mas cê quer o quê? Mostrar quem tu é
Ou como você escreve? "Como eu escrevo!"
Então bajula! "Só pra mostrar quem eu sou!"
Querido, quem precisa saber quem você é?
E pra quê? "Ninguém precisa saber nada,
Mas talvez alguém aprenda algo pra vida."

Cê é filósofo, é isso? "Tipo assim!" Então
Pra quê metáfora? Escreve um tratado!
"Eu sei, mas o bonito é poema!" E é verdade
Ou mentira o que tu quer escrever? "Verdade!"
Poeta mesmo é quem diz a verdade? "É!"

Então, mané, cê pode escrever de qualquer jeito!
Quer dizer, quem escreve feio mas diz a verdade
É poeta, não é? "É poeta!" E quem escreve pra
Ser bonito, é o quê? "Ah, isso aí te digo depois."


*


Calado escuto ecoar pelo campo
Como se fosse um canto a voz do cor,
Peregrino sedento e sem caminho.
Respiro a relva de formas infindas,
Néctar de sonhos sorvidos de abelhas.
As sementes que outrora a terra teve
Cresceram tanto e tornaram-se vento,
Pétalas, sonhos caídos ao chão,
Poeira aos pés, aos céus revés.


*


Correu entre tílias, cantando,
Menina de meigas madeixas.
As mãos desenhavam, no ar,
Rabiscos perdidos de folhas.
Os olhos cor do sol falavam
Em falas serenas de flautas
Do olor de flores, telas, mel.
Sorrindo como a musa rica
Scondeu-se num túnel virente,
Triste instante a morrer de imagens,
Enquanto os pés passavam rastos
De trilhos que davam em nada.


*


A história da chuva começa coas janelas,
O canto das gotas caindo sobre o vidro.
Trovões se misturam aos sons dos ventos fortes
Levando folhas, lançando medo às aves.
No momento maior das procelas bravias
Os galhos se calam e o mundo inteiro escuta:
Resta apenas um pássaro pelo silêncio,
Única voz a varar o verde invencível.

Quando irrompem das nuvens coroas de raios
Ressoa o coro das aves tardias.
A luz infude as invisíveis partes,
As águas que sobram nas poças, nos rios,
Imagens onde o mundo ainda é chuva.
Fora do mundo os olores da terra
Sobem aos céus que as nuvens descobriram,
Levando a longe a liberdade dos sonhos.


*


Rememos aos mundos que os flumes revelam,
Secretas sendas no véu das florestas.
Flutuantes flocos, poeira de flores,
Cobris em alvos céus as auras vagas,
E à face das águas dais milhares fragras.
Frestas de sol em vias verdes sóbrias,
Na baila dos brilhos confundem-se as cores
Da pele dos rios à boca das copas.
Os faunos navegam e brincam às beiras,
Cantando enquanto surgem silhuetas,
Vilas austeras e torres, sombras velhas.
Ó vida simples dos faunos, feliz!
Nada cobiçar senão amor às cores.
Remar além, que ao remo somos glória.


*


Ninados os teus olhinhos,
Dormiste entre os dedos meus
Como entre um leito de mares,
Ondas anis e macias,
Spumas de olores e plumas,
Canções do vago às estrelas.
Pára, tempo!
Deixa em paz os pequeninos,
Deixa-os sonhar entre os dedos,
Mais uma noite somente.


*


Das cinzas recobrindo as cimas
Cruzaram retas a escura terra,
Raios tragados de abismos.

Ó campos ridentes e céus,
Abri do nada as cadeias,
A porta impossível para o peito.

Cercado de azuis e algodão,
No espaço livre e sem fim
Brinca a sós o passarinho marrom.


*


Fico debaixo de folha.
Essa vida, maluco, é repetição.
É isso mesmo!
Mas não venha tirar onda pracima de mim não!
Seu linguajar de merda eu relevo
E se quiser imito até:
Jogo na sua cara pra você ver quem você é.
Mas peraí que eu vou te dizer pra você
Uma coisa:
Quando você vier pra me esculhambar
Co seu churrasco e coa sua farofa,
Co seu bonézinho de time de futebol,
O botão de última geração e os sete mil
Do facebook, aí, maluco,
Aí tu vai ver quem eu sou. Eu sou que nem o
V I O L I N O
Do quarteto de cordas que eu não te digo
Qual é porque você vai ouvir e não vai entender.
Ou vai? Meu estilo é tipo opus 131, o gritão lá bem histérico
E feio e brega - e profundamente verdadeiro.
E olhe: Vai cair com tudo em cima da sua cerveja,
Vai cair feito um
R A I O
E vai agarrar e arremessar tudo
Que é filho seu contra a pedra!
Vai sobrar você, deitado debaixo de folha,
Que nem eu agora.
Dessa sua parefernalha aí, meu filho, não vai ficar nada,
Pode crer.
Tá pensando que vai avacalhar geral o bagulho?
Aqui não, jacaré, aqui o buraco é mais em baixo.
É isso aí,
E é melhor não esperar pra ver.
Lembrou de mim? B E E T H O V E N


*


Se existe em formas beleza,
Se as rodas apenas passam,
Resta pelo rasto um mundo.

Fluem sobre as águas brilhos,
A cor desdada a correntes,
Ondas de dentro das almas.

Será tristeza esse canto,
Perdido a correr imagens
Entre veredas sem voz?


*


Como se esgota na sorte
A verdade doutras horas,
Pés que removeis o pó
Das noites que plangem frias,
Douradas sombras, vazio.
Tragastes um prado alegre,
Mistérios de amaros males.
Não resta às letras um leito,
Saudade apenas e sanhas.
Tragai-me nas vagas cegas,
Sombras, silêncios eternos.


*


Sonhei que a um discípulo francês
De Manuel Bandeira, no impossível século XIX,
Aparecera Maria.
E perpassávamos, desconhecidos e eu,
A trilha streita dum extenso jardim que dava em nada,
Horto onde entre árvores havia uma cobra, azul,
Perigosa mas amedrontada, coitada.
E de repente viemos ao pátio dum mosteiro,
Ou dum castelo, ou duma universidade,
E procurávamos desesparadamente pelo discípulo.
Fora-se embora, mas aonde fora?
Restava ao ar uma saudade tão grande de Maria,
E dos mistérios.
E de repente nos vimos numa praia agreste e rochosa,
Deserta, da Namíbia, onde o mar vergastava,
Dava medo a quem subisse às rochas.
Houve um doce incidente diplomático com a França.
Era talvez a visão, talvez, da janela donde estávamos,
Enfileirados, esperando pelo próximo avião.
E dançávamos valsas, ah tão alegres, pelo aeroporto,
Subindo a rampa das despedidas em pares,
Sempre dançantes,
Rumo a nada demais.


*


Vivo o silêncio da noite
Ouvindo-lhe os sons serenos,
Poemas de amores puros.
Ó alegria indescrita,
Folhas escuras imotas,
Afoitos ares, ondinas
Doces, pequenos vãos,
Quantas d'explicar angústias,
Contento ao ver os moveres.
Minh'arte é pobre dizer:
Não saber ouvir silêncios
Nem grafar de escrita certa
Cor de luminosas sombras –
Rabisco dos versos feios,
Mãos do poeta feliz.


*


De manhã, passou a marcha dos grandes,
Cavalarias de heróis pelas ruas,
Homens de império aos olhos do povo.

Que direi da marcha das árvores,
Canções das aves na cima dos céus,
A paz dos campos santos e nuvens?

Essas marchas que passam são marchas,
As árvores mais do que as árvores,
Grande império que as ruas não viram.

E no entanto vi passar a marcha
Cons olhos amando como apenas glória,
Se fora verde o triunfo dos reis.


*


Madrugada,
Mergulhas o nada em sono
Como se as árvores fossem sonhar.

Doce noite!
Ora que o mundo repousa
Semelha a strela que cai vanecendo.

Ó delírios,
Dizer que a noite feliz,
O mundo em sono apenas foram sombras...


*


Ansiedade?
É, mas
Aquela dorzinha no fundo do peito,
Só quem tem é que sabe.

Bobagem.


*


Quando o mistério fulgir nas alturas,
Guarda nas faces o espelho da espera,
Milagre claro que abraça, calado,
Num corpo infindo os imos das almas,
À mesma lâmpada vertidos alto.
Se houver morrido em mil anos o verso,
Mais de mail anos viverão as vidas
Que a vista unira na flama lunar.
Lembra de mim quando a vires nos vastos,
Que os olhos meus também te viram lá,
E sê feliz no eterno, caro amigo,
Olhos que as ondas levaram do mar.


*


Como seria lindo se a redução
Eletrônica do ser já existisse
No século XVIII. Seria uma dádiva
Fina ver Voltaire e o Tiririca
Dividindo, juntos, o mesmo lugar
No facebook, profundamente nivelados
Pelo mesmíssimo padrão de account.
Imaginem o facebook de Sartre -

Aquela fotozinha básica esquerda,
Os amiguinhos, as suas vidinhas,
E os comentários da massa erudita.


*


Três passarinhos pousaram rentes aos pés,
Pequenos demais que conhecessem medo.
Apenas eu me calava em temor
Pois um passo pudera assustar.
Na voz que d'os ouvi cantar
Nascia a grama dos campos.
Fosse meu corpo um prado,
Mundo imoto, relva.
Jamais o medo.
Simples sopro.
Um vento.
Voz.
.


*


Não existe mediocridade no mundo.
Aquela amiga postando fotos de roupas,
De comida e tiradas de auto-ajuda,
Quer apenas dividir um momento,
Uma alegria serena. Proporcionalmente,
O séquito áulico vai comentando
As imagens e cultivando amizades.
Mesmo os invejosos que nunca curtem
Nada, mesmo eles se regozijam.
A prole humana se confraterniza
No divino banquete do news feed,
Onde a vida é festa e todo o mundo
Cheio de flores e tecidos de veludo.


*


A lua nasce sobre as ruas, casas,
Telhado das árvores ermas.
Torpece os velhos sobrados e estrelas,
Distantes estradas, florestas.
Tão logo as nuvens devoram a cor,
Os sonhos se tornam saudades.
Entre as árvores que sombras invadem,
A noite vem buscar os corpos.
Caminhando na calma escura a sós,
Pareço perder-me das sombras,
Como se o perto fora o longe eterno.
Nem fora o que envolver não pode,
Nem em mim encontrei o que não cabe,
Ó noite maior que os anseios.


*


Como é possível se emocionar
Com as mesmas músicas de sempre?
Me deitei aqui, vendo os galhos
Secos pela janela; a janela de tantas vezes,
A janela de sempre.
Mas o tempo é uma babaquice.
É na repetição dessas músicas
De sempre que a gente vê
Como as coisas passam, como se não passassem.
Vocês são mesmo terríveis, galhos. Terríveis.
Ficam aí fora, surdos, e o mistério
Da voz de vocês eu decifro aqui dentro:
- Desliga o som,
Desliga o som que a babaquice acaba.


*


Viera deitar-se a meu leito,
Verter-me ao rosto o pranto seco
Num lânguido beijo amaroso,
Paredes, repouso de luzes,
Palores dum branco sem cor.
Pudesses beijar eternamente,
Verter ao leito o sangue d'ouro,
Fosse o tempo menor que a janela.
Paredes envoltas de noite,
Ó langores leves como os céus,
Saberei um dia o mistério,
Dizer a tristeza em meu cor?


*


Ê macacada,
Gostoso era viver pelas árvores.
Mas hoje é assim: Você passa
Por aquela rua e se lembra:
- Eu morei aqui. -
E continua passando na chuva
Como se a rua fosse sua;
Mas a rua, coitada, a rua é de alguém?
A rua é só da chuva.
Deixei pra lá saudade donde
Eu morava. Morar é morrer.
É morrer sim, porque viver, eu acho que
Viver é vagar.
No mais, é isso:
Faço de conta que toda janela é igual,
Que nem a chuva
Na calçada.


*


O talho dos tempos
Transfaz os terrenos
Em deuses de danças,
Os divos em flores
Que faunos festejam.

As pétalas rosas,
De beijos e olores
E límpido bojo,
Arejam os lábios,
Mais leves que as auras.

Cada rosa é mundos,
Lábios mais que traços,
Palavras sem letras.
Reserva-lhes zelo,
Cada deus um dia.


*


Eu vi.
Eu vi sim os detalhes do mundo,
Aquela pontezinha verde embaixo do vale,
Pontezinha.

A vaquinha
Correndo no meio da chuva,
Essa eu vi.

Não fiquei
Só metendo a boca
No banheiro da rodoviária não.


*


Lágrimas, alvos sonhos, donde sois?
Adentram d'alma a janela os mistérios!
Sopros moucos qu'invadis o peito,
Feliz angústia dos limbos noturnos,
Tristeza é stardes tão longe das lidas.
Ó silêncios de luzes infinitas,
Será possível calar as entranhas?
Morre-se o peito do amor inexpresso,
O tempo curto dos sonos sublimes.
Ah, alcançar as alturas o cor!
Nas auras doces do esboço lunar
As alegrias distantes são lágrimas.


*


Me apaixono é pela alma das pessoas.
Como é desalmada essa vida.
Que alma que nada? O negócio é a começão
Que a gente vê por aí, o exemplo ancestral
Da bicharada esbelta
(ê bicharada!), costume
Que vem do fundo.
Eu acho isso lindo, lindo, prodigiosamente lindo.
Essa gente toda aí nesse mundaréu de meu Deus,
Não tenho nada contra. Eu? Nunca! Não tenho
Absolutamente nada contra que fodam
E que se fodam todos
Mutuamente.
E poetinha aí perdendo tempo com poeminha:
Ai ai...

É que alma não dá pra comer.


*


Tu que preenches as horas penosas,
Caminhas migo em sendas de sombra,
Contemplas ondas de bojos ingentes,
Spelho das almas, elos suspirantes;
Quando entre as árvores largas me levas
Sonando amor em melodias mudas,
(Eis me prorrompem as lágrimas plenas!)
Como se a ti divertisse o meu tempo,
Por que me vens se o verso meu é vento?
Contigo em terra como ao firmamento,
Astros que emanam aos medos tu' voz,
Fosse minh'alma tu, meu verbo livre.
Quando me deixas imerso em silêncio,
Vejo-te às luzes d'ouro como um sonho
Sobre a folhagem das almas escuras.
E quando as cores deludem os olhos,
Vens a cantar ao abismo medonho,
Dizendo aos cegos que as flores existem.


*


POETA:
Eu hem? A gente escreve poema
E depois ninguém lê.
Ai ai... e daí vem amigo
Vadio querer falar de querela.

PATETA:
Uai, poeta! A gente na vida
Tem é que cultivar amigo.

POETA:
Porra de amigo, peão!
Quero amigo não. Quero é leitor.

PATETA:
Credo em cruz, seu ingrato!
Aquele seu livro de poema,
Já não falei que vou ler?
Só não li porque não tive tempo.


*


Na névoa que envolve a noite
O espelho da sombra é sonho,
O fim das fronteiras vistas
Como nos prados estrelas,
Firmamento as margaridas.

Andando a trilha entre folhas,
Atrás dos passos as sombras
Ferindo a flama lunar,
Na estrada em treva temi.


*


Pavio comido e sem cera
Debate-se à boca prata.
A flama no castiçal
Recusa a morte no fundo.
O fogo dança sem rumo,
Lânguido azul d'agonia.
Pavio transformado em brasa
Sufoca as luzes extremas,
Perdidas, pulando em vão
Como se a força vencesse,
Vida de poucos segundos,
Brasa que encolhe, que encolhe.
De repente o fumo é sombra.


*


Ventos!
Falanges de estrelas
Atrás de sombras de montes,
Mundos que o ver apenas sente,
Pudessem os pés subir aos cumes,
Mirar do alto a imensidão:

O homem e a mosca.
No espaço.


*


Aparecem estrelas, tão longe dos olhos, tão perto.
Brilham sobre folhas, sobre strelas, sobre mim.
Cintilam calmas, sempiternas,
Paz ao mundo, luz a mim.

Flores em sombra, deixai-me dizer que vos amo.
Que a brisa leve além o canto meu d'amor,
Meu canto simples, meu amor fiel –

Meu canto que se perde em folhas,
Meu amor que alcança todo o céu.


*






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