GREGÓRIO BARBOSA

CANTO ESTELAR

Index



© Greg Ory 2014 – 2018, Record L 3, Engl. Song of the Stars, may 2014 to october 2014, Balearic Islands, Hampshire, one verse, 2229 lines, lyric poetry, Portuguese.




As alegrias supremas são noturnas.
Começam quando a forma das cores
Se esvai e quando as causas terminam.
È nessas horas sem roupa nem ruído
Que algum dos homens se deita a calar. 5
Não porém a dormir. Os olhos abertos
Vagam de um ponto ao outro no escuro –
Vago, pois do chão que mira o teto
As metrias e as retas cessam de ser.
E não existe teto na escuridão. 10
O imenso afora transforma-se no fim
Da visão, da perfeição dos sentidos.
Um espaço cheio de pontos, perdidos,
Inalcançáveis talvez. Ao menos às mãos.
Mas as nossas mãos são mesmo infelizes. 15
As alegrias vêm dalguma cegueira doce.
Tantos focos que nem desejam ser vistos
Nem a vista alcança ou vê de verdade
São acenos dum mundo impossível,
Fenômenos extremamente arrojados. 20
O impenetrável visto como supremo
Cala as palavras, a boca e poderes.
Se houvesse tantos lábios falantes
Como acima de nós as folhas e brilhos,
Já se pudera cantar como nem estrelas. 25
Como è fraca a boca e fracos olhos!
O primeiro canto de dar às alegrias
Seja a canção dos nossos olhos fechados.
Quanto mais se escondem das causas
Mais as causas de longe os invadem. 30
Abre-se frente aos sonhos o pentagrama,
Vasto onde as notas se inscrevem sem linhas.
As partes são canto e canto os olhos ligam,
Nem se sabe já se fechados, se abertos,
Ligam apenas – e as linhas vão surgindo, 35
Longas, onde quer que exista espaço,
Pelo espaço alcance. Mas os olhos fracos
Tudo tocam coas mãos e vão enchendo
Os caminhos altos de imagens invisíveis.
Querem alçar-se aos derradeiros largos, 40
Além do traço em que se perdem as letras
E o mundo o seu tamanho. Cessam estradas,
Agora que o rumo è sem metro e sem fim,
E já não erram os passos. Andam apenas,
Pois andar è bom, e toda parte è mistério. 45
Nem o vento sabe olor dos astros que traz,
Rastos de algum perdido deus e de sombras.
O medo nosso de sombras se esquece.
São a ponte apenas para os jamais,
Elas que certamente mais nos temem, 50
Pontes aladas ao nada formosíssimo.
Gozo è fitar no alto o berço do escuro,
Calmo, e cego fiar-se nas cavas,
Sem temer – amar a cegueira sem fim,
Que as alegrias sublimes são noturnas. 55
Inventam astros e as noites que inventam
Foram as noites mais felizes de vidas
Entre florestas de afrescos abstratos.
Se basta um par de pontos entre os quais
Passar uma linha, linhas e linhas passam, 60
Brincam como cílios. As paralelas bailam,
Se cruzam toda parte onde a parte è todo.
Esse porém que cala, deitado no espaço,
Viajeiro perdido – perde o seu tempo.
Mas o tempo a gente sempre vai perdendo, 65
Existe apenas para ser perdido além.
O tempo pesa. As alegrias são leves.
Os sonhos levantam as asas e levam
Rumo a fogos distantes um sopro,
Como se fosse fácil vagar – e voar. 70
Não existem números mais nas distâncias,
Até de causa prescinde o tempo suspenso.
Nessas horas de flutuações indescritas,
O ser indefinido indaga o nada:
Que são as alegrias? Donde vêm? 75
As palavras da boca são imensas,
Poucas, e as linhas inexplicáveis.
Firme apenas o sono que envolve
A nudez das respostas. E quão vazias.
Mal se encerram os olhos, os olhos veem 80
Como parte qualquer è falta de causa.
As pedras de tropeço jazem por aí,
Indiferentes, mostrando o que há.
E no entanto os ares calam-se tenros.
Gozam a sós alguma breve leveza, 85
Breve, já que venta e logo se esvai.
Como vento a voar por cá, por lá,
Sem mal notar, assim os olhos passam
Pelas cenas. São sedentos de longe.
Quando entanto pousam, de ponto a ponto, 90
No chão, e no chão o sentido termina,
Acordam. Afora falta ainda o fim.
Por quê, portanto, se è tudo engano
O ganho das horas e abandonos,
Os olhos amam? A verdade nossa 95
Foi sabida desde sempre e de todos:
Somos ingênuos. Restamos ingênuos
Independente do paladar amargo.
Ingênuos vendo as pontes do eterno,
Somente eterno em nosso vendo breve. 100
Nada ensina a dureza dessas pedras.
Malgrado o mal das horas e das almas,
As alegrias existem. Não há negá-las.
Nem os olhos nem palavras as pedem.
Existem simplesmente. Flutuantes. 105
Invadem incalculados ermos do império.
E vão-se embora. Vão-se quando querem.
Vida nenhuma, mesmo a vida constante,
Triunfa, nunca, contra o sopro leve.
Eu, que jazia sobre a relva estelar, 110
E que o sopro menos temo que busco,
Ia abrindo os olhos e querendo,
Toda parte, alguma estrela cadente.
Mas alegrias não se deixam querer.
Os pontos que acima se movem, nunca 115
se movem pelos olhos, sempre alheios.
As cadências não se prevê. Vêm do nada,
Vão. Cabe ao acaso colhê-las como dão.
E no entanto eu permaneço sobre a relva,
Sem saber o quanto esperarei moções. 120
Nem as espero mais. Aquieto-me apenas.
Quero estar pronto quando venha o sopro,
Consigo cadência. Preparo-me para tanto
Como os anciãos quiçá para a morte.
Pode ser que venham por última vez, 125
Ou voltem. Hei-de gozar o que há,
Sem escudo contra espada invisível.
Quando os olhos percebem que as alegrias
São o vento, desencantam-se apenas.
Vão-se embora, por entre alguma nuvem. 130
Inopinado, o sopro os encontra,
Onde quer que se escondam, tenaz.
Esses mais que se deitam no escuro
Mirando longe pontos, são deixados.
Nada lhes é devido. Abrem, contudo, 135
Junto aos olhos o desconhecido de si.
Por esta porta adentra breve impalpável,
Passa e leva embora memórias, calado.
Toca os ingênuos homens que vão vivendo
Pelos dias como se fossem primeiros, 140
Nada aprendessem – porque dos sábios
E doutros que já viveram e viram tudo
Passa longe a cadência. Nada os toca.
É porém dos olhos mirando os pontos
Que as alegrias se ocupam, tão pequenos 145
Que o gênio quase chora de só pensar.
Há de fato, sob os pontos abstratos,
Lugar para os olhos simples, distâncias?
Os astros altos do longe são pedras.
Mas toda noite alguns dos olhos sopram 150
Como se o mundo fosse novo e nada
Fosse grande. Mundo sem importância.
E mesmo quando entreveem, profunda,
No chão de tantas mentiras verdade,
Esses olhos se perdem pelo extenso 155
Como se todas verdades fossem fáceis.
Nas alegrias, a verdade transforma-se
Nalgum momento doce. Não importa o breve.
Fica um gosto bom no paladar das pupilas.
Não lembranças – das alegrias se esquece –, 160
Doçura apenas, néctar quase insuportável
Face às pedras. Os olhos deitados ainda
Prosseguem. Para as pedras há os dias.
O ser imerso no abstrato è diferente.
Vê cadências e cala, porém difere, 165
Aberto a voos de imprevisíveis pontos.
Eu, que ainda sempre jazo querendo,
Pergunto em vão a bocas impossíveis
Por qual motivo me esqueço da vida
Vendo alturas. Os sopros são infirmes, 170
E as alegrias não conhecem motivo.
Vagam pelos silêncios e vão desbravando
Nossos olhos, qual se fôssemos livres.
Nada disso existe, nem os infinitos,
Nem os pontos, nem os sopros talvez. 175
Mas a brisa perdeu a constância dos olhos,
E nos sonhos os nossos pés são alados.
Ora, já não sei se recordo ou se durmo
Sempre ainda. As lembranças desta vida
Mais ainda vivas são paisagens e asas 180
Pelas quais voei. Continuo a voar,
Incessantemente. Não consigo saber
Como existo sem as asas que não existem
Nem jamais existiram em mim. Ou existem?
Os olhos iludem e sonhos são inocentes. 185
Se a vida è sonho apenas, ora, sonhemos,
Por um momento somente, já que a noite passa.
Mal se recorda o que resta da brevidade.
Inobstante os olhos parecem tocar
O tempo. O infinito sem tempo de ser. 190
Sou talvez uma nave desairosa?
As estrelas sobre a minha cabeça,
Pode ser que sejam tão longínquas?
Pode. Pode ser que exista espaço
Entre nós – e maior que o jardim 195
Por onde corria eu, os pés de criança,
Brincando e deixando rabisco. No nada.
Pelos rastos de alguma cadência,
Como um poema invisível, de vento e
Longo, a fim de que ninguém o termine 200
De ler, e todos se percam no meio
Do caminho, do vão das alegrias.
Quero apontar a todas as estrelas
E todas as palavras eu quero escrever.
Mas que farei de tantas palavras, 205
Eu, que tão pequeno jazo em terra,
Eu, que quanto mais transformo os céus
Em meus olhos mais os meus olhos se perdem
Pelos céus? Se cada estrela tivesse um nome,
Quisera encontrar aquela chamada essência. 210
Dizem ser a estrela dos priscos olhos
Que não se cansam de ver o engano.
Vão enxergando o que há, enxergando
Como se fossem cegos, e de repente luz.
Como se não houvesse, num mesmo lugar 215
Eterno, duas alegriazinhas iguais.
Ver? Os olhos nunca veem o que é,
Os olhos veem o que são. E gozam
Ver estrelas que nunca foram antes
E que depois das alegrias não serão. 220
Como, porém? Direi que não existem,
Juntos, as alegrias, os astros e os olhos?
Que as alegrias nos invadem pelos olhos
Mas que começam onde os olhos terminam?
Ora, os olhos terminam pelos astros, 225
Mas alegrias já descendem aquém.
Penetram mesmo os cegos sem os astros
Que não veem estrelas mas que veem
O que são. O que sei de tanta insciência,
Sei apenas que jazo e que me faço parte 230
Da brevidade. Aceito o vento, portanto.
Será este o nome da alegria? Sentir-se
Parte do espaço que os olhos vislumbram?
Talvez por isto as alegrias sejam breves,
E nem direi das horas que as circundam. 235
Nossos olhos só inventam desejos.
Não porém me conformo em tal pensar.
Quero saber de que matéria è feito
O sopro que invade os olhos sem tempo.
Quero medir o breve peso do vento 240
Que deixa à deriva as almas como naus,
Sem velas, num mar de tristezas apenas,
Cantando além das canções e cantigas
Como se a morte não fosse iminente,
Nem as naus carecessem de leme, 245
Pois a vida è grave e já não podem
As barcas voar por aí sem cuidado,
Senão afundam. Nunca escolhem tempo
As alegrias. Fazem voar as barcas
Pequenas na tormenta irascível, 250
Como se o mar coubesse num canto
Estelar, um canto maior do que abismo.
Transformam os olhos em modulações,
E no espelho de abstrações mirabolantes
Os pontos brilhantes são de três espécies: 255
Uns penetram pela porta de horizontes,
Ou menos penetram que vislumbram anseios.
Os olhos os vendo já não sabem direito
Donde veem, vizinhos do fim do alcance.
Estes porém são perto e sempre perto, 260
Porquanto ainda jazo, e como jazo ainda,
O horizonte sou eu, e findam sobre mim.
Os pontos segundos, divisando alturas,
Rescendem pelo zênite, que nem o sopro
Sabe ventar abaixo os seus olores longe. 265
Conquanto acima estejam da grande linha,
Perdidos, direi que sejam longe de mim,
Em cujos olhos jaz o próprio zênite?
O vértice reto rumo às alturas
Traga as alturas como vento olores. 270
Mais além do zênite os pontos terceiros
Flutuam, atrás dos olhos, impossíveis.
Há que mover-se o corpo para vê-los.
Mas para quê mover-se o que jaz
Em liberdade? Quem não sabe de além? 275
É minh'alma que vive atrás dos olhos,
Dentro dela as estrelas atrás dos olhos.
Não existem estrelas longe de mim.
Vou-as vendo e vou dando risadas
Como se fossem de fato infinitas 280
E todos os olhos as vissem finitas.
As alegrias são indivisíveis.
Sentimo-las por nós e para si.
Dos homens reunidos frente ao céu
À luz de fogos de algum artifício, 285
Ainda que juntos, cada um enxerga
O céu sozinho, quem o sentiu o sabe.
Pouco adianta abraço entre amigos,
Inda que seja grande o coração.
No nosso comércio coas estrelas 290
Ninguém interfere. Calam-se todos.
Deitam-se. E que se deitem a sós,
Pois o dia è farto já de ruídos,
E não pertencem à vida dos dias
As coisas mais profundas de nós. 295
Serão as noites canto às solidões?
Os homens que jazem vendo os pontos,
Cercados pela floresta de abstrações,
Têm as estrelas e as liberdades,
E no silêncio aparente dos astros 300
Um matrimônio de cor universal.
Se fosse a noite um canto à solidão,
A solidão que se transforma em canto
Quê seria, já que todo canto è pleno,
Ela porém vazia? Direi que o silêncio 305
Seja o pai da solidão? Direi melhor
Que o silêncio è pai do canto estelar.
E como não? Os cantos querem ser ouvidos,
Mas ruídos nunca nada ouvem. Gritam.
As alegrias supremas são silêncio. 310
Silêncio apenas. Jamais solidões.
Nas solidões os cantos terminam,
Quando a bem dizer os cantos começam
No silêncio. Apenas no silêncio.
Viver como se a nada conhecêssemos, 315
Será de fato trazer de volta infâncias?
As crianças sabem tudo. São arrojadas.
O quanto não sabem vão aprendendo,
E as astúcias dos jovens são temíveis.
É de maior valor o preço do simples, 320
Do ver as horas qual se fossem novas,
De todo dia sentir-se parte dum algo.
Os grandes que jazem sobre a relva
Querem aprender a desconhecer o mundo –
Obra quase de séculos a vida ingênua. 325
E no entanto lembrar infâncias è doce.
Saudades como pegos imensos e risos
Que ainda escuto, se as imagens idas
Renascessem coas alegrias, morreríamos.
Antes esqueça para sempre, eu, 330
Essas horas que já me esqueceram,
Essa gente que perdi de vista e vida.
Aonde foi o meu primeiro amigo embora,
Onde amores agora, onde a inocência,
Inocência que è mais saudade das horas 335
Que a verdade da infância. A verdade
Era o castelo que eu moldava cons amigos
E coisas outras de areia. Cavávamos
Portas no castelo, cavávamos além,
Até que se encontrassem nossas mãos. 340
Depois as retirávamos, a pouco e pouco,
Que não viesse de ribas a fortaleza.
Mas desabava e mostrava aos meus amigos
Onde o trabalho das nossas mãos termina.
Apenas um dia vimo-la estar. De pé. 345
Apenas uma vez. E tenho sentido falta,
Desde então, desse dia, e já sabia
Desde então que passaria a minha vida
Inteira na busca desse dia perdido.
Olho para trás da alegria dos castelos, 350
Todos de areia e de sonhos, e realizo
Que foi aquela a minha obra maior.
Vou pensando nessa gente sem rasto,
No mar incerto em que o resto lançou-nos,
Mar que levou embora os meus castelos. 355
A vida acaba. Sem grandes mistérios.
Os homens a que a breve incomoda estudam,
Por saber quem sejam. E buscam verdades,
Valores, vivendo e desvendando o véu.
Os sábios porém passaram por estradas 360
Tristes, em busca e vislumbro de veredas,
Pois a vida è simples, verdades difíceis.
Como os indoutos procurando as causas,
Que a dor de ver um castelo em ruínas
Fosse mestra e boca de alguma resposta, 365
Foram ver estrelas no meio da noite,
Deitados, rogando em vão infinitos.
Entendiam desde já que as alegrias
Não se esperam jamais. Não se buscam.
Houveram-nos alguns por loucos, 370
Pois vagos adentravam ocos, escuros,
No amor de abstrações. Mas a verdade,
Sim, è que impressões ocultas pululavam
Nesses antros abertos, moções sem letra.
Se vendo os pontos desvendaram mistérios, 375
Pouco sei. Deixei-os, quem sejam, ser.
A vida inquieta. Vive como o medo abissal
De que as noites sejam escuras, nós sozinhos
Após o barulho inútil que move os dias.
Mas as letras de silêncio não se inquietam. 380
Foram gentes mundo afora, usando verbo e fogo
Na conversão das terras. Que me importa missão?
Julguei não ser a vida minha uma palavra.
Amei o canto do amor no mundo impossível.
E no entanto, os simples continuam calados, 385
Fugindo os ruídos, vendo que mesmo a voz
De quantos falam morre. Portanto me calo.
Sonho apenas. Sonho, pois a noite è longa.
Sonho, mas quem eu sou? Eu sou poeira.
A vida è vassoura. Vai varrendo a poeira 390
Das coisas e dos sonhos sobre o chão.
E quando olvido triunfar, terei vivido,
Eu, que não sou nem palavra nem sombra?
Capitularam os meus castelos de mentiras
E o céu è tão somente um quarto escuro. 395
Quero pedir explicações desmedidas
À boca das imagens de meu berço
Esperançoso, que se apaguem faróis
E que naufraguem naves e consolos.
Viverei chorando inquietações doentes, 400
Amores que vencem as horas do peito,
Desprezo à condição a que me deixo sopro.
E que me deixa o sopro? Contradição.
Deixa-me o termo da espera e dos cantos,
Velha nau de mar sem porto nem rumo 405
Certo, mar de beber e morrer de sal,
E pó, e nada além. A senecal constância
Vai-se rendendo à sucessão da gota ao riso.
E no entanto a constância de certas naus
Cruzou os mares. Será feliz a constância? 410
Ou será como o saber dos meus pensamentos
Onde as coisas se cruzam adoidadamente?
Busco ao leme torto rumos. O mar os traga.
Vem a noite e vem ninguém. Ó estrelinhas,
Estrelinhas que chamo pequenas, pequenas 415
Para caber no diminutivo de meus anseios,
Meu coração que não vale nada, vento,
Por que parece o céu tão longe de mim?
Eu vejo estrelas e quero estar longe do mundo
Mas devo estar no mundo para ver estrelas. 420
Enquanto lanço além questões aos ares,
Vou vivendo e vou buscando portos velhos.
Deitado sujo ao chão, eu sou poeira.
Quando a vida varrer, eu nem terei estado.
Busquei de valores, valores não tive. 425
Verdades? O mar não cabe no mundo,
E eu sou menor do que o mundo. Sou
O ser que se impõe a mim de alhures,
Sem nenhuma escolha. As minhas asas
De alcançar estrelas nunca voaram. 430
Nem o sabem. Meus saltitantes desejos,
Desconhecidos, são ruínas de areia.
Tento reconstruí-las coaquelas mãos
Dos meus bons amiguinhos de outrora,
Protegê-las contra o mar que se avança, 435
Tanto mar que parece eterna angústia,
Como se o gênio preferisse a morte
Quando mesmo a morte abandona o porto.
Vem, portanto, mar, e faz o que queres.
Esperarei o fim que houver, que vier. 440
Aparecem estrelas, longe dos olhos,
Perto, sobre folhas, sombras, sobre mim.
Cintilam calmas, sempiternas em mim.
Deixai-me dizer que vos amo, estrelinhas.
Que a brisa leve além o canto meu d'amor, 445
O meu canto simples e o meu amor fiel:
Ó meu canto que te perdes em folhas,
Ó meu amor que alcanças todo o céu,
De que me valem agora as palavras?
Meu verso è trem descarrilhado apenas. 450
Quanto mais eu pensava saber de estrelas
Nunca vistas, mais eu vinha perto dos velhos,
E já não sei de que eras vêm as alegrias.
Ando longe dos versos servindo o tempo,
Desses homens que escrevem poemas 455
Para as horas, para hoje, para amanhã.
Falarei de antiguidades contemporâneas.
O que è hoje por entre oceanos?
Ainda não vi, estampado nos astros,
O nome dos dias, nem dos séculos. 460
Darei a cada ponto o nome dum sentimento.
Ainda busco entender do que se fazem
As alegrias supremas e o sopro leve.
São talvez arrojadas aventuras químicas,
Reino molecular secreto. Ou libações 465
Nervosas proto-existenciais complexíssimas.
O que se passa em tais sociedades de células,
Donde vêm, e cujo líquido por onde escorre,
São o berço dos risos como das verdades.
Berço que seguro nem sabe que existe, 470
Cérebro, céu de estrelas celulares compacto.
Ou será que o sabe? Eu, que penso
Nas mitocôndrias sublimes e recônditos
Raros de imagens, ainda não avistei
As minhas células. Vejo uma coisa apenas: 475
Vejo que nem as sinto, pequenininhas.
A existência è de fato invisível.
Será de fato insensível também existir,
Tanto que seja impossível, dentro de nós,
Aceder àquela essência pequena de sermos, 480
Ao existir em si? Serei de verdade um mundo,
Burgo de células lindas que pelas noites
Vão inventando os meus olhos e as sombras?
As alegrias de dentro de mim são maiores
Quase que os meus castelos de areia caídos. 485
Mas como serei alegre sem ver a mim mesmo?
Ó correr pelos campos, ó paisagens.
Por que as estrelinhas do meu cérebro
Não têm a forma das árvores, dos vales?
Parecem antes um quadro expressionista, 490
Uma tela abstrata, longe do crepúsculo.
Talvez eu seja feito para amar as imagens
Porque o imo de mim è carência de formas.
É preciso pôr-se o sol nas sombras
E despertarem no infinito os sonhos 495
Para que vejamos alguma coisa de eterno,
Que as alegrias sublimes não têm cor.
São tão profundas e tão cientes de si
Que são quase tristezas. E quão serenas!
Não as tristezas desgostosas do todo. 500
Essas são doenças. Refiro-me à tristeza
Das abstrações impossíveis, do além-ser,
Triste, porquanto além do ser è não ser
E não saber. Serão estas as células
Do sublime, além de nome e de limites? 505
O não-ser e o sublime se excluem.
Ó estrelinhas, acudi que me aquiete.
Já não me importo co gosto insípido
Das secreções que nos fazem milagres.
Deixo ao bel-prazer das glândulas império 510
Sobre as poções de exagerados elixires,
Gotas de humores brandos e reações
De proteínas cintilantes que me evitam.
Ou a quem sou eu que evito, que para elas
Sou um cego, eu, escravo delas que escrevo. 515
Ingratas! È dessas coisinhas miudinhas
Que ventam portanto as alegrias minhas?
E eu aqui deitado pensando ver estrelas?
Que teimosas sois, meninas células!
Mais atrevidas que as estrelas amadas, 520
Amadas por serem talvez a vossa imagem.
Ou vós a de estrelas? Galinheiro velho,
Nem sei se estrelas são ovos de células
Ou se as minhas pequeninas filhas do céu.
As alegrias que as células sopram, 525
Que motivo as faz soprar ou não-soprar?
Dizer que as minhas teimosas sou eu
Será mentira. Dos céus eu quero alegrias,
Mas minhas células já não sabem o que querem,
Ora tristes, ora alegres – imprevisíveis. 530
Não sei quem são nem podem elas ser eu,
Mas vivem dento de mim, como se fossem eu,
E eu escravo delas, que sem elas morro.
Será demais querer buscar palavras,
Saber, ai, de mim mesmo quem eu sou? 535
As estrelas porém cintilam, caladas,
Perto, pois as vejo mais que a mim,
De quem sempre estou longe, segregado
Das células que me fazem ser o que sou,
Fazem-me sem que o queira, como sempre 540
O têm feito desde que acaso uniu as duas
Primeiras, numa esquina do colo materno.
Talvez as estrelas sejam criancinhas
Que ainda não nasceram, inda esperando.
O dessaber desanima, mas nada impede 545
Aos que ainda jazem sobre a relva estelar
Fechar os olhos e sorver as levezas.
Eu, que nunca saberei se as alegrias
Venham de estrelas ou de células,
Se o de-mim criou o mundo além-mim 550
Ou se além-mim me fez mundo de-mim,
Direi que de-mim e que além-mim
São uma coisa apenas, coisa única.
São o mesmo fenômeno, que pouco importa
Antiguidade do ovo ou das galinhas. 555
Venham donde for, as alegrias existem.
Sonham num firmamento fixas, cadentes,
Perdem-se num labirinto sublime.
Os olhos vão criando formas difusas
Pelos espaços entre elas, abstrações 560
Nunca repetidas, e vendo mais a fundo
E descobrindo mais e mais angustiados.
Quanto mais me perco por entre alturas,
Mais as alegrias supremas são tristezas.
São desejos apenas, indescritíveis, 565
São saudade do além-ser impossível.
Quero abraçar a meu peito os pontilhões,
Pesar em mãos as dimensões geométricas
Dos fins, de hipotenusas tangentes,
Paralelismos ímpares absolutíssimos 570
E todos graus de adjacências angulares –
Pelo quadro-negro por onde os sistemas
Se concretizam e provas matemáticas
Revelam essências ingentes de números.
Contando estrelas e perdendo as contas, 575
Vejo surgir das sombras o infinito
Como erro de cálculo e matemática.
Os números cadentes são complexos,
E quantos vão crescendo se repetem.
Inda não descobri, nem hei, se números 580
Quaisquer existam. Negatividades
Naturais e fracionárias das cadências,
Os números são apenas traços humanos,
Caça a ventos como a quantidades.
As alegrias são de fato incontáveis, 585
Matematicamente inalcançabilíssimas.
Que digo, porém? Se è matemática
Prova-mor do mundo e do canto estelar,
Em que tristeza agirei minha vida,
Eu, que nunca soube nem hei-de contar? 590
Tende amor, estrelas, dos homens baixos.
A qual das cifras equacionarei o meu ser?
Dizer que sou um? Mas em mim existe
O todo. Vou destruindo em noites doces
As leis das naturezas e dos números, 595
Que em mim confuso circulam, num átimo,
As quantidades infindas como o nada.
Vou baixando lento os olhos e as asas.
As alegrias não existem sem os números,
Mas só no olvido das cifras sou alegre. 600
Quem saberá contar verdades nos céus?
Outrora eu contava as pedras dum dominó
Vermelhas. Eu não sabia o tamanho do mundo
E o tamanho do mundo me via como autista.
Esparramava as pedras do dominó no chão, 605
Que meu pai me dera, e construía casas.
Ninguém se importava coas minhas casas.
Apenas eu sabia quais impérios fundava
Em arrumar as pedras sobre as outras.
Eu evitava o que existia ao meu torno, 610
E no esquecimento das causas pairando
Surgia o coliseu de Roma, o circo máximo.
Era uma construção custosa às minhas mãos.
Bastava um vento, um deslize qualquer,
E Roma vinha abaixo e restavam ruínas. 615
Eram belos os meus sonhos arquitetônicos,
As suas cadências trágicas. Calavam-me.
Eu meditava surpreso a transição das pedras,
Eu já sabia que as alegrias são breves,
Pois eram como os sonhos. Ora, o fim 620
Dos sonhos eu via arruinado pelo chão,
Enquanto os homens dos meus derredores
Pensavam que o meu silêncio era tolo,
Meu silêncio grave que nunca brincava.
Mas era tão doce aquela gravidade 625
Contemplativa de meus olhos calados
Que o meu silêncio se impunha ao mundo
Como se a sala inteira fosse minh'alma.
Nessas horas, as mais antigas que alcanço,
Eu era ingênuo. Não porque fosse criança. 630
As alegrias vinham a mim como as surpresas
E todo o meu peito estava aberto às alegrias.
Deitado sobre a relva estelar, entendo agora
Que as alegrias precisam ser surpresas,
Ingenuidade o peito aberto às surpresas. 635
Eu era ingênuo e quero sê-lo ainda.
Eu sei a causa da ruína e dos impérios
Mas vejo estrelas qual se nada soubesse,
E descubro em repetidas cadências
Que as repetições também me surpreendem. 640
Era por isto que nunca me cansava,
Quando aos quatro anos, de reconstruir
Os meus pequenos coliseus, os mundinhos
Fadados a cair, mas belos e tão repletos
De surpresas. Não me importavam paradoxos. 645
Eu era parte de Roma e Roma dos sonhos
E os sonhos arquitetônicos eram o todo.
Alegria è ser parte de toda parte,
Parte eterna, se algum eterno existe
Fora das surpresas que nos dão memória, 650
Memória saudades, saudade alegrias.
A primeira surpresa me veio de longe,
Quando exclamei, do banco de trás do carro:
– Olha o mar! – já não cabia no carro.
E em torno de mim os homens riram 655
Da minha pronúncia errônea dos erres
Como da irrelevância do mar e do ingênuo.
Era a primeira vez que eu via o infinito.
Eu entendi, naquele exato instante,
Que a minha vida era a busca do belo, 660
Mas que o belo estava além do horizonte.
Era decerto parte dalgum além-ser
Inalcançável. Ainda não havia lido,
No poeta, que a alma è incomunicável,
Que as alegrias são apenas minhas. 665
São moções de indescritível enlevo
Frente à repentina revelação do azul.
Eu me abraçava aos traços imprecisos
Como se algo de mim corresse ao horizonte,
Mas aquele horizonte já estava em mim, 670
Entrava co mar os olhos meus adentro.
Deixemos o mar que se acaba distante.
O mar è memória. Ora, direi confusões?
Como vive em memórias alguma alegria
Se memórias vêm de longe, se as alegrias 675
Devem ser de perto? Haverá na saudade
Alegrias? Deitado e vendo estrelas,
Fecho os olhos, respiro sopros leves,
E as respostas se me esvaem. Não sei
O que são as alegrias, donde vêm. 680
Os pontos que a vista liga com traços,
Imaginados por células, vão se perdendo.
Vão revelando outros e ao fundo mistérios,
Imensidões esquecidas, jamais pensadas.
São beiras de nada por onde as respostas 685
Dormem. Ou sonham. Deitado alcanço pouco,
Eu, que passei a vida inteira deitado
E já nem sei se alguém jamais levantou-se.
Mas os traços que vão se mostrando
Daquém além desenham metros desmedidos, 690
Livres de angústia e de saudades.
Apenas o homem deitado os recorda,
Que torna as alegrias memória,
Memórias saudade, saudades tristeza.
As alegrias não são de pensar-se: 695
Pensar e pesar, ainda que só na mente,
São apenas uma coisa. Ora, pesarei
O sopro leve? São de sentir-se apenas
Os repentinos sopros e as surpresas,
Que quanto mais os deixamos libertos 700
Mais se revelam, e vemos mais estrelas.
Lacunas do céu, as minhas meninas
Células são demais pequenas que saibam.
Se é verdade que não se pode pensar,
Jamais, as alegrias, que são alegres 705
Para ser esquecidas, esqueçamo-las.
Mas se me esqueço já das alegrias,
Não serei eu triste? E se eu não for
Alegre nem triste, serei ainda humano?
Serão decerto vãs as noites caladas 710
Onde os sábios procuram saberes,
Pois os astros refutam todos sábios.
Céus! O que eu buscava no infinito
Era uma palavra apenas, apenas uma!
Será de fato muito o meu desejo? 715
Já não é dos astros que quero saber.
É de palavras, repito, a minha busca,
É somente de coisas que existem em mim!
Ó vaidades, quanta ingênua esperança
Eu nutria quando exclamava do peito: 720
Astros se esquecem, palavras se escrevem.
Eu, que não conheci jamais as estrelas,
Sei de palavras inda menos que dos astros?
Quem me dará, de quais estrelas distantes,
O nome das alegrias? Parecia-me pouca 725
Empresa a busca dum termo sem limite.
As alegrias supremas são intraduzíveis.
Entenderei ainda ao menos o belo?
Será menor que os castelos de areia,
O dominó vermelho, o banco do carro? 730
Foi no tempo do dominó, se recordo,
Que me vi diante do piano e sentei-me.
Sim, eu já conhecia o seu timbre doce,
Mas eu não sabia que a verdadeira lira
Estava escondida por detrás das teclas. 735
Eu pus as minhas mãos sobre as teclas
Como se lá deitasse o próprio coração.
Pensava que o belo só precisava estar
Em mim e que o meu coração era o belo.
As teclas devolveram a feia verdade 740
Das minhas mãos. E me deram tristeza.
Faltavam-me algumas distinções.
O belo existe mas o belo se expressa
Por técnicas fora do meu coração.
Qual dessas técnicas usara o mar 745
Quando outrora tocara minh'alma?
Corri por toda praia indagando!
Como foi isto, alegrias? O mar
Abriu a porta dum carro a buscar-me
Num banco traseiro ao lado oposto, 750
E eu, e minh'alma e o ser inteiro
Sentado frente à lira possuída,
Não sabia tocar um mínimo acorde?
O mundo embebe-nos do belo em surpresas,
E as surpresas são estrelas abstratas. 755
Mas o belo do qual embebemos o mundo,
Nós, que somos apenas forma distinta,
Vem de concretas técnicas tristes,
E das artes que se fazem das técnicas.
O piano que outrora eu quisera tocar 760
Era o belo enfim liberto da arte.
Era o mundo da liberdade ingênua,
E dum canto estelar inaudível.
Quando atinei co limite do mar,
Que o mar divide o mundo coas terras 765
Enquanto o céu se vê de toda parte,
Entendi que o meu rumo na vida
Era tornar-me astronauta e voar.
Era tão clara a minha vocação!
Aos oito anos, o trabalho liberta, 770
As profissões nos tornam felizes.
Não se trabalha, jamais, por dinheiro!
O dinheiro è grotesco. A vida è busca
Do belo e peito aberto às alegrias.
As escolhas são livres e grandiosas. 775
Nesse mundo em plena sensatez,
Que me impedia de voar a Júpiter,
Ver os gases verdes, pais da leveza
Quiçá, dos sopros breves e abstrações?
Decidira entrar numa imensa máquina 780
E zarpar desvendando os espaços,
Cruzar um trato infinito de pontos.
Faria pousos curtos nalguns planetas
E seguiria mais e mais longe o meu rumo
Por estrelas e perdições geométricas. 785
Anunciava aos da casa e pela escola
Que a viagem sideral era próxima.
Os professores que eu amava sorriam,
Eu pensava que me levavam a sério.
Que eu estude! Que eu pague o preço 790
Da liberdade, antes da noite encantada.
Ora que ainda jazo por entre estrelas,
Que me tornei enfim senão astronauta?
Já naquele tempo eu buscava o abstrato!
Hoje os astros se me tornam palavras 795
Por cujos mundos navego e me perco.
Fiz-me logonauta. Mal imaginava,
Naquele tempo, que veras profecias
Lançava sobre a minha vida sem rumo.
O poeta è um astronauta, perdido 800
Porém livre por entre as nebulosas.
Eu não sou deste mundo. Ninguém é
De lugar nenhum. Eu nem sei onde estou,
Que vou brincando cego cons astros.
Cego? Eu vejo sombra e não sinto falta 805
De nada. Amo os vazios indistintamente.
Das metamorfoses do belo que me surgem
Sem que nunca as veja, se alguma delas
É tangível, lanço-as. As concretizações
São longe da verdade e longe as formas. 810
O belo è a sublimação dos sentidos,
E não conhecem forma as alegrias.
São os olhos que as querem enxergar
Num pentagrama extenso de abstrações.
Os pontos são belos por serem pontos 815
E nada mais. As linhas que nós ligamos,
Porque nossas, são beleza apenas nossa.
As imagens que delas descobrimos além,
Inventamos, como inventamos a dança
Das cadências. As cegueiras são doces, 820
E cada olhar se eterniza nas sombras.
Mas se apenas abstrações são belas,
Serão as artes abstratas como o ponto?
Serão sublimes de fato as alegrias
Se tão concreto o traço das letras? 825
Quem vos disse que os poemas são belos?
Pobres os olhos longe do além-ser,
È tão pequeno o sublime e tão imenso.
Perder-me-ei na busca do impossível?
Às almas todas buscas são abrigos, 830
O belo a casa que abriga as almas,
Onde o ser repousa em prazer supremo.
Mas são conceitos as minhas palavras.
Se às almas todas buscas são possíveis,
Os achados são distantes das almas. 835
Toda busca evoca a dor dos limites,
Do pequeno que não cabe em si mesmo.
Que eu deixe além as dores d'além-ser!
Que me importa o canto do incomensurável?
O sublime è somente o belo extremo. 840
No tempo do meu dominó vermelho,
Quando me sentava ao colo dos velhos,
O meu avô cantava como os seus avós
Uma velha canção de sertões esquecidos:
– No saco do limão, lá, onde eu nasci – 845
Era tão serena a pobreza do verso.
Eu ouvia as palavras baixando os olhos.
Parecia-me outrora a coisa mais torpe
Nascer num saco, eu, que não conhecia
Nem conheço direito as metáforas. 850
Ora, os limões eram tão azedos.
Ora eu recordo aquele verso doce:
Quisera viver a vida inteira lá,
No frescor do saco do limão,
Na canção antiga de um verso só, 855
Ou do seu único verso que ouvi.
Nada è sublime no saco do limão.
Nenhum dos astronautas o explora.
É pedaço de pano. Vai se romper,
Tornar-se trapo, e alguns limões 860
Perder-se-ão. Eu, que ainda jazo,
Olhos abertos desvendando sombras,
Vou enxergando os limões pelo céu,
E sinto alegre a liberdade do saco.
Lá, onde o velho nasceu no azedume, 865
E o belo è tão distante do sublime,
O belo è ainda sutil. Abriga as almas.
São também conceito meu as almas.
Quero pô-las no saco e dar-lhe um nó,
E com elas assim abrigadas andar além 870
Pelos ermos, carregando o peso leve
Sobre as minhas costas. E cantando.
Inscrevendo no pentagrama da estrada
Notas, e brincadeirinhas simples.
Vou pensando nessas brincadeiras 875
Co saco do limão, jamais sublimes,
Nem mesmo as da mais sutil beleza,
E me descubro triste, como quisesse
Perto dos limões a margem do além-ser.
E no entanto espremo os frutos rudes 880
Com todo amor das minhas mãos mentirosas
E vejo no sumo que o sublime è líquido.
Como não? Eu bebo o mel dos limões
E descubro que o belo absoluto è água.
São alegrias líquidas por onde flutuam 885
Logo e logo afundam as formas, abstrações
Incorruptibilissimamente insípidas.
Manam pelo mundo e nos céus inodoras
Em reverberações incolores. Emanam
A imagem cega do belo supremo: 890
Foge toda forma e sacia toda sede.
Quero escrever teorias tremendas,
Verdades profundamente infundadas.
Serão portanto estrelas gotas d'água?
Eu, que me quis astronauta a voar, 895
Voei tão longe perante infinitudes,
E me esqueci de que o porto sublime
È porto perto e se chama hidrogênio.
Inda è tempo a tornar-me nano-nauta?
Ó moléculas, invejo eternamente 900
Simplicidades impassíveis vossas.
Fosse minh'alma maior que moléculas!
Contemplo as estrelas donde estou
E compreendo que logo serei liberto.
Quando a complexidade acabar-se, 905
Quão alegre serei entre os pontos
Na metamorfose-mor apocalíptica.
Ou serei minh'alma eterna vagando,
Ou serei fração de leveza hidrogênica.
Aguardam-me, em todo caso, beatitudes 910
Astronáuticas, líquidas, entre estrelas.
E como seja a gota a maior alegria,
Faz-se em metamorfoses máximas
A liquidificação do meu ser universo:
Não há beleza maior do que a lágrima. 915
Foi talvez por isto que o mar me tocou,
Horizonte líquido que em vão descrevo.
As alegrias são mar. As palavras poluem.
Oxigênio lhes falta. Leveza de sopros,
Se à carência de mar chamamos sede, 920
Fome à de pão, não existe palavra
Para a carência do sopro? Melhor calar.
Carecer de palavras è liberdade.
Como è longe do saco do limão
A liberdade, mesmo dos frutos sutis. 925
Prendo-me ainda às palavras pobres
E me rendo a cantigas menos líquidas,
Eu, de quem vontade è confusão apenas.
Quero contradizer-me constantemente:
Ó contradições e espalhafatos, 930
Libertai-nos do império da lógica.
Revele-se ao mundo a miséria das letras
E dentro delas a ingênua esperança.
Já me conformo co traço das letras
E a redução do meu ser já pequenino. 935
Aquelas almas do saco do limão
Quiçá se alegrem nos seus ante-sonhos.
Talvez esqueçam moções do sublime.
Já me contradigo, mais uma vez?
Não descobri que o ser das alegrias 940
Era o sentir-se ser dalguma parte?
Que parte de nós seria o porto
Perto daquele sublime além-ser?
Os astronautas voamos debalde.
Se deste belo já não somos pano, 945
Alegria è não ser parte de nada.
Também. E me ponho triste a pensar,
Pois é tristeza o termos de pensar.
Ora, brinquemos cons olhos e os astros.
Somos pano ao menos do hidrogênio. 950
Voarei um dia por aí, de verdade,
E se as moléculas perderem as asas,
Talvez eu me reduza à cadência do fóton.
Eu quisera que a substanciação da luz
Fosse uma brincadeira. Quanto mais 955
Vou desvendando as cores, mais recordo
O grande mar abrindo a porta do carro.
Naqueles anos de horizonte infinito
Eu via os quadros pregados na sala.
Eram perfeitos os traços, e austeros, 960
E a palidez dos homens, paralisados
Pela eternidade, lançava aos meus olhos
Uma dignidade densa e amedrontadora.
Mesmo as árvores livres gozavam
Duma perfeição fantasmagórica. 965
Eu, que me sentava à mesa calado,
Pondo o peso da mente entre as mãos,
Descobria no traço o resumo dum mundo
Retângulo. Os seres começavam de fato
Dentro daquelas molduras, apenas lá. 970
O resto de fora era um mero resíduo.
Era desde então o mundo de dentro,
Secreto, que eu amava, o mundo belo
E que jamais sorria ao seu além-ser,
O além-ser medíocre de fora das molduras 975
Que era apenas eu, cabeça entre as mãos.
Fui crescendo em meio à palidez perfeita,
Por entre pontos de esferas abstratas
Lembrando estrelas de alegrias sérias.
Inda às vezes busco em meio a miragens 980
As cenas pequenas de além-molduras.
Eu me deito sob a relva estelar
E cerro os olhos, que as alegrias
Não me sejam somente retângulos,
Envolvam, cá e lá, algum trapézio. 985
Como, porém, se o mistério das retas
É loucura, vou buscando o sublime
Como a sensatez harmônica das cores?
Na tela, todos os traços se explicam,
Parecem projeções da razão ousadas. 990
Explicam-se pela própria moldura,
Pelas bordas. É razão que define
O fim do mundo em margens resolutas.
Eu, que ainda jazo no entre-sonho,
Levava outrora ao pátio da escola 995
A razão irredutível das causas.
Eu conhecia pouco de agora estrelas
E as alegrias eram impiedosas.
Mas o meu mestre pouco tardou.
A lição ressoa ainda, imperdoante, 1000
Lembrando a cada passo o que sou.
É que uma vez apareceu, no idílio
Sublime do meu pátio perflorido,
Cena de eterno recreio excelsa,
Que como a tela eu quisera imóvel, 1005
Um gato magro. De qual buraco saiu,
De que telha, não me lembra mais.
Era um demônio – porquanto feio.
Vinha turvar o brilho do éden
Pelo qual meus sonhos nus andavam. 1010
Vi com desdém os membros rotos
Que expunha, os pelos dispersos.
O seu miado era causa de angústia.
E não havia lugar, nem poderia,
Para tal criatura no belo absoluto. 1015
Decidi-me pois ao extremo. Ganhei
Espaço por entre os circundantes
E, coa força toda de meu ser, agi
Como imperava a voz da razão:
Ao gato magro dei-lhe um pontapé! 1020
Ainda me dói no estômago. Em torno,
Os olhos dos homens indagavam Caim:
– Que fizeste? – O gosto do amargo
Vestiu, naquele veríssimo instante,
A nudez do meu ato impuro, estético. 1025
Eu, que sonhara apenas libertar
Do egro o meu éden, transformei
As quase-lágrimas nalgum remorso
Incompreendido. A voz me acusava?
Se a minha revolta contra o gato 1030
Magro o não banisse daquele quadro,
Não seria supremo o gozo do belo.
O belo a que o meu ser anelava
Era sem limite e sem concessões.
Não havia sentido, dizia a razão, 1035
Que existisse, por entre estrelas,
Aquele ser impuro. Eu o feri
Para que o mundo fosse perfeito,
Sem ele. Mas os homens do éden
Cercaram-no, como se adorassem 1040
O grotesco e não me entendessem.
Foi-se embora o gato. O que deixou,
Por entre o jardim que se estrelasse,
Foi um peso imenso. Um peso vazio.
E porque me faltasse uma doce nudez, 1045
Dentro de mim eu contemplei o sublime
E dentro de mim calaram-se alegrias.
Pus em vão o meu rosto entre as mãos.
A minha inocência foi o meu crime.
Estrelas frias, por que vos calastes? 1050
Era somente um brio que o meu peito
Buscava em dimensões. Era pureza.
A quanto preço o meu sopro entendeu,
Na contrição, que certas alegrias
São feias! Mas como eu pudera saber, 1055
Se pequeno, que tanto amor ao sublime
Não prescinde, nem o pode, jamais,
Dalguma vã piedade ao gato magro?
Como o busquei por entre as flores,
Depois, correndo em vão pelos astros! 1060
Como estendi-lhe os meus braços,
Céus, e com quais gotejantes moções
E remorsos meus olhos caíam aos pés!
Eu fora expulso do éden, mas o pomo
Que eu mordera nem era provindo 1065
Da árvore má do saber. Eu sabia
Somente que o meu amor às estrelas
Era nu, o que dantes me escapava.
Mas eu não conhecia ainda males
Além da ira contra o gato magro, 1070
E me perguntava se as alegrias
Inda seriam as mesmas. O limite
Do belo eu desprezara como ao bem.
Desde então busquei coas mãos os astros
E os astros me fogem junto ao universo. 1075
Eu, que acedo ao coro dos maus deste mundo,
Como perceba as estrelas longe de mim,
Vou chutando as pedras e as ondas do mar:
Quanta mágoa, céus, o meu peito carrega!
Querer olhar para sempre as alturas 1080
E nunca cuidar das pedras acerca.
Será maldade o querer estar alado,
Cego ao mundo, no vislumbro eterno
De abstrações? Ora, a cada passo
Eu pareço estar em mim mesmo alegre. 1085
Mas não vejo a cada passo um gato magro?
O que é, estrelinhas, ser bom? Deixar
O gato estar e deformar as imagens
Sublimes, lembrar-me por onde ando.
Ou fechar os olhos, para que nem 1090
A vós, que sois belas, eu perceba,
Nem ao gato feio. Eu não quisera,
Naqueles dias do dominó vermelho,
Ser mau. Eu nem pedira outrora ao mar
Viesse abrir a porta do carro atrás, 1095
Dizer a minh'alma que alegrias existem.
Que de fato eu quisera ser e saber?
Eu nem sei se algum querer eu havia,
Eu, a quem o mar e o céu surpreendiam.
Hoje eu sei que na estrada sublime, 1100
Por onde em sertões eu carregasse
O saco do limão nas costas, eu não
Me incomodasse, não mais, se atrás
De mim viesse, na sua estranheza,
O gato magro. Mas não virá, jamais, 1105
Porque os meus pés o feriram. Nem eu
Carrego, nem sei, o saco do limão.
E fecho vezes os olhos como se acima
Nada existisse, em mim o mar escuro.
E no entanto, a brevidade basta 1110
E surgem, nos vãos do inadmissível,
As alegrias supremas, noturnas, e leves.
Nem me perguntam quem sou, o que fiz
E quantos chutes desferidos ao mar,
Ao chão dos inocentes. Deito-me, 1115
Como não sou bom, ao mesmo chão
Que me rende ao juízo final. Mas juízes,
Que não conheço, punem a minha razão
Coas alegrias-ser, que não mereço.
No inferno ledo que vislumbro cego, 1120
O limite do belo è sempre o bem
Que a nudez do meu ser desconhece.
Quanto mais o tempo vai percebo mais
A infinitez do meu crime. Se gustei
A maçã do saber proibida e nada sei, 1125
Quanto mais os pomos d'árvore da vida
Não me dessem de amargo? Basta ultraje
Contra o gato magro. Eu, que buscava
Apenas estrelas, não cobiçava pomos
Nem saberes. Comi sem querer. Acaso 1130
Por engano. Não desobedeci, jamais,
A leis desconhecidas. Conheci-as
Tarde, após ferido o gato. Em queda.
Ferirei também, por acaso, as folhas
D'árvore da vida? Eu corro pelos astros 1135
Fugindo-a como somente quem à morte.
Navego em meu foguete astronáutico
Rumo às terras estéreis do universo.
Jazem longe em projeções hipotéticas
Onde o mal não alcança as pretensões. 1140
Não circulam no espaço mar nem carro,
Nem castelos existem nem areia.
O dominó vermelho cai ao chão
Sem fundo, fundo o saco do limão.
Ó vidinha, fecha logo os teus olhos. 1145
As mãos que as minhas mãos ligavam
Castelos de areia adentro, calaram.
Mas eu canto ainda e vou pousando
Sobre a relva sonhos meus sem mácula,
Como se o tempo fosse todo ingênuo, 1150
Não soubesse da morte e do opróbrio.
Ai, o tempo è tão somente conceito,
Espaço è vento. Quero estar deitado.
Eu vejo céus e sei que a vida è crime.
Eu desconheço as leis das alegrias. 1155
Mas como jazo e deitado vou andando,
Ergo as mãos para tocar o vazio
E me preenche o nada como os astros.
As estrelas são somente sublimes
Pois as contemplamos de muito longe. 1160
Quero vê-las duma distância correta.
A distância mais correta das causas
é o nada, como a liberdade do vácuo.
Apenas nela cresce a flor das alegrias.
É preciso longe estar de muitas coisas 1165
Para estar a perto do quanto importa.
Que me importa, porém, que sou mau?
Importa o sopro breve que me enleva.
A minha condição revelo aos astros
E levo ao vago a verdade que sou. 1170
Por quê, amadas estrelas minhas,
Se è tão somente os céus a que anelo,
Todo traço que marco è maldade?
Não dissera, num verso mais feliz,
Que as alegrias são sentir-se parte 1175
De alguma ou de universas partes?
As alegrias são partes sem espaço.
Não existem perto nem longe. Existem.
Será portanto o mal querer as causas
Perto demais? Por isto talvez eu feri 1180
O gato magro, eu, que tanto quisera
E tão perto de mim a perfeição do éden.
Muito è perfeito a quem sabe mirar.
Mas o saber è breve e me esqueço
Que o gozo peito aberto às surpresas. 1185
Cerrei a sete chaves as minhas entranhas
Para o magro. Basta um sopro, momento,
E já se torna todo o ser tristeza.
Maldade foi amor demais às essências.
Quando a cegueira deixa embora a doçura 1190
Vão chutando os pés as pedras, e doem.
Como, estrelas? Eu quero estar alegre
Toda parte, mas espaço è falta de alegria.
Ao menos quero estar aberto em peito,
Mas o peito que resta tanto abismo! 1195
Saltar? Eu me reduzo à pequenez dum sonho.
Como è sonho a minha essência, salto.
Onde alegrias evadem o vão de espaços,
Voar e cair serão a mesma viagem.
No peito, abismo aberto è liberdade; 1200
Maldade tapar um poço e seguir.
O poço a quem passa poço apenas,
Nem maldade, nem poço, no abismo.
Agora entendo o gáudio das distâncias.
No pentagrama que os átomos como as notas 1205
Preenchem, mesmo as linhas que ligam
São quimeras. Infinitamente longínquas,
Sós, as massas e as minutas frações.
A matéria escura que as circunda cala,
Vaga e flutua, corre – sonha. Sente? 1210
Mergulho na escuridão fantástica
Como se fosse a luz o supérfluo.
Os olhos brilham de entrever o nada,
E no vislumbro da vácua liberdade,
Nada se teme e nada ocorre de mal. 1215
Estou sozinho e deixo como os astros
No rosto escuro o traço universal.
A sublimação dos males seja a poeira.
O grão se perde tão longe dos sonhos
Que nem lhe resta um ser a ferir. 1220
Abri meus olhos um segundo em terra
E vi que o mundo è corriqueiro atrito.
Fora do palco onde concorrem massas
Paira uma treva tranquila e me espera.
Cabem, no abismo da negra energia, 1225
Os universos e os olhos dos homens.
Do fluido etéreo de infindo além-ser,
As alegrias como acaso infláveis:
Omniversos que explodem se expandem
Qual pulsar e os sentimentos máximos. 1230
Nos vagos que escapam mãos do abstrato
Surge estrela, lembrando o mirar
De que os raios somente artifício.
Por entre sóis e distração de flamas,
As obras verdadeiras não se vê. 1235
Que digo, porém? Desejo ainda
Que o bem me governe, ser e pés.
Mas que governo eu busco de mim
Se fugindo o mal os homens fujo?
No além-espaço onde alegrias sopram 1240
E do ser a sós a nudez è suprema,
Os sonhos não têm anseios éticos.
Fora dos olhos os olhos só contemplam,
Repousam livres da incúria de agir.
Mas vivo abaixo e sirvo a terra atômica, 1245
Mar de atritos que apenas lei mitiga.
Não me importo. Sigo leis que importa
Ao bem das concentrações passageiras,
Sociedades de prótons e de proletários:
O que quer que seja. Conheço o seu fim. 1250
Lembro que à treva seguem os dias
E no claro circula o gato magro.
Como porém recordo a maçã,
Os males que aos pés outrora agi,
Quero deixar o gato ser; que passe, 1255
Junto do pelo a prole dos egros.
Contemplo as conglomerações grotescas,
E como sei que sou poeira, a sós
Ou cercado, dou à prole o que devo.
As alegrias não se apagam coas leis. 1260
Tornam-se humanas. Acedem, humildes,
A compromissos antiestelares, graves:
Olhar ao lado, ao derredor de si,
Quando o peito quisera ver os vastos.
O peito eu disse abrir a surpresas? 1265
Que mendaz eu sou, comigo mesmo,
Se a surpresa escolho apenas eu?
As alegrias só revestem verdade
Se as surpresas livres como o sopro.
Como o peito a muito poucas grato, 1270
Tapa o poço e cadências se calam.
Deixei embora estrelas, ai de mim,
E deitado sobre o sangue de Abel,
A desventura eu sofri de Caim.
Se estendo as mãos, serei bondoso? 1275
Fazer o bem requer de mim conhecê-lo.
Mas eu não sei quem sou e que faço.
No dessaber que me insulta as horas
Deito-me como se o bem o belo estelar.
A mão que ofereço abraça os dois, 1280
Na espera de que vejam os altos.
Amor? Mas qual daqueles amei?
Não o mau, porque desejo estrelas;
Não o bom, a quem desconheci;
Nem amor e nem ódio lhes devo. 1285
Como canto o meu canto estelar,
E minha lira peito aberto a surpresas,
Convém não seja réu da consciência,
Que a canção de meus olhos seja pura.
Que me arrogo, porém, que sou poeira? 1290
A tanta audácia o meu ser se permite
Que já me conto ao coro dos justos,
Eu, que ergui no idílio dum divo jardim
A foice de outrora Caim? Aquele gato
Magro persegue-me ainda nos sonhos. 1295
Não, estrelas, o canto meu è culpa,
Gato a terra inteira. Riquezas minhas,
Dizei-me como pôr em cima dos ombros
O sangue de holocaustos seculares.
Séculos? É também conceito o tempo 1300
Como espaço. Vós que acima entrevejo
Sois talvez uma bolha pequena de ar,
Flutuando entre bolhas milhares,
E bolas milhares, quase imensas
Como o todo, somente moleculazinha, 1305
Ponto o corpo máximo, ultra-universos
Onde o tempo um movimento apenas.
E no entanto, como eu sou poeira,
A pouca culpa que trago culpa imensa.
Eu ganharia os gozos do olvido 1310
Se a culpa minha, maior que poeira,
Não me fizesse imortal nesta terra.
Eu contemplo a sós minhas mãos
E reconheço nos punhos as penas.
Como pois deitar-me sobre o sangue 1315
Dos mortos cantando a voz dos astros?
Eu me deitara, estrelinhas, a morrer,
Eu, que já dos campos nada anelo
Senão dividir o destino dos corpos.
Mas como à relva eu caio e me perco 1320
Dentro de vós, de escuridões saudosas,
As alegrias, que nem mereço nem peço,
Vendo o meu peito aberto à tristeza,
Descem, dum sopro leve, sobre mim,
Como se fosse o puro os meus olhos. 1325
Como aceito a surpresa que não peço,
Vejo no escuro, mais e mais profundo,
O espelho das verdades sem vozes.
O peito em fenda, faço pois as pazes
Coas distâncias e vivo as verdades. 1330
Os astros vão vivendo, sendo ao menos,
Cada qual segundo a própria natura,
Como o quer algum mistério multiverso.
Eu vejo estrelas e vivo o que sou.
E porque busque o belo, quero o bem. 1335
Fazer aos outros o que a mim desejo?
Será de fato bom que me abandonem
Como os quero abandonar, ou maldade?
Não sei de quais remédios careço.
A nudez que procuro perdeu-se. 1340
Esses tolos que quero deixar,
Também os forma a mesma poeira
Que me nasce. Seremos irmãos?
São acaso hereditariedades,
São Abel e Caim por acaso. 1345
Nascem, contendem. E morrerão.
Inobstante, a nudez se revela
Nos astros. Os brilhos se diferem
Como tamanhos, porém nos raios
Seus navegam idênticos fótons. 1350
Por leis dalgum mistério gozoso,
Uma única dessas estrelas
Pudera ser uma outra, qualquer.
O segredo de uma, que digo,
A própria atômica identidade 1355
Está contida, se numa – em todas.
Inclui-se a poeira nestes seres.
Deitado e vendo acima as estrelas,
Nos pontos encontro minhas faces.
Como o pó permeia eternidades, 1360
Olho o derredor, como convém,
E no pó dos meus irmãos, em pé,
O ser que vislumbro nos seus passos –
Sou eu, a minha própria imagem.
Tapando os poços daquelas vidas 1365
Vou tapando os poços de mim mesmo,
Abel e Caim. Mesmo no começo,
No éden, na própria fauna estranha
Eu estava contido. Maldoso,
Na fúria contra a pele do gato 1370
Magro tive ferido a mim mesmo.
Ora que as alegrias supremas
Revelam serem parte do todo,
Toda parte está contida em mim.
E em casa de Caim, ou de Abel, 1375
Tomado de horror, e piedade,
O meu braço è generoso aos dois,
Como se fossem os dois meus braços.
O meu estômago dói do gato magro,
Sofre do chute contra mim mesmo. 1380
Eu quero fechar os meus olhos,
Tratar os gatos, a prole dos egros
Como estrelas e como as cadências.
Curvas ingênuas pelo escuro avançam,
Dando ao céu momento. Pela estrada 1385
Eu quero andar, e pelos silêncios,
E se na esquina das vias deparar-me
Com barulho de sombras ou gatos,
Eu tirarei, do saco do limão,
Uma prenda divina e dar-lhes-ei, 1390
Que do sumo extraiam maravilhas
E campos bebam mais do que sangue.
Quem sabe algum sertão de avoengos,
Sob as auras do espírito leve,
Veja surgir um paraíso perdido. 1395
Caim pudera enfim redimir-se,
Não por mérito, mas por verdade:
Caim è toda a gente vendo estrelas.
As alegrias que nascem do saco
Guardam algum limão azedo e fresco 1400
A toda boca, toda sede se aplaca.
Quem de fora me visse, astronauta,
Que o saco pano e remendo velho,
Quase roto de tempo, humidade
E das rugas porosas da fruta, 1405
Certo tivesse um dó do meu peso.
Ai que se engana a vista e ganância!
Se o pó se rompe e cai limão na estrada,
Passa o pé de ninguém, e qualquer,
E descobre uma fonte. Que me importa 1410
O limão cair se o fim do céu cadência?
Caia pois, que o seu segredo brilhe,
Líquido como as alegrias supremas.
Chamarei de perda o rio parabólico
Por onde as águas passam alheias 1415
Aos olhos; aos olhos meus somente?
Se o mundo mudar, temerei o fim
Do meu canto estelar e de luzes?
Quando em castelos velhos de areia
Eu descobri, na distância do mar, 1420
As impressões de horizontes além,
E mais além os pontos, desdenhei
A luz dos postes caindo a calçadas.
Eu mirava as ofuscadas estrelas
Como se a luz abaixo fora a dor, 1425
A morte longe do mar. Nas folhas
Que alguma cor laranja abraçava
Logo eu chorava o progresso da cor.
Evitava passar pelas ruas sem sombra.
Hoje eu me sento ao pé desses postes 1430
E deixo a cor pousar em meu peito.
Hoje eu sei que nenhuma luz è mentira,
Nem me incomoda o tom que a mão alheia
Fez cair no meio das ruas. Todo fóton
Afaga os seus sonhos, toda rua estrela. 1435
Miro o mistério dos postes elétricos
E as eletricidades me fazem alegres.
Inda procuro em calçadas voltagens
Dum verso que a mim me faça raio.
Como, porém, eu dissera que o belo 1440
Sublime è como líquido pluriforme?
Bem melhor eu fizera em reduzi-lo
À força atrás do poste, que è feio,
Mas invisivelmente suprema. Falar?
Deito-me à relva só, e pouco importa 1445
Se acima paira um poste ou espaço.
Desconheço ainda a matéria do sopro
Onde alegria se transforma em lugar,
E como eu pouco saiba eu apenas direi
Que as alegrias são um poste ou espaço. 1450
Indassim menti, que nada conheço,
Nem o poste, nem passo. As alegrias
Serão apenas eu, que sou palavra?
Diziam, nos velhos anos de olvido,
Que as palavras do grego têm espírito. 1455
Quando aprendi, no relógio verbal,
Os sinais do sopro lene e dos ásperos,
E que na língua antiga a parábola
Deu à luz o que grafamos palavra,
Eu preferi à vida a presença do verbo. 1460
Como cri, por quase eternidade,
Que as parábolas pouco bastassem,
Que os fenômenos fossem infindos?
Se vejo alguma estrela e me perco,
Os pontos poucos existem apenas 1465
Porque palavras os levam ao zênite,
Ponto-além ao qual conferem parábola.
Devo dizer que a ponte dos astros
Apenas ponto a percorrer palavras?
Se já minutas estrelas, quê de mim? 1470
Contudo existo, como assim o pense,
Levando o peso da essência pequena.
Calar-me-ei perante à lenidade.
Não por acaso o grego deu aos astros
Espírito lene, que a noite tranquila, 1475
Presa da luz que traz ao mundo dia.
Não por acaso o sol carrega, hélio,
Espírito áspero, calor confuso.
Mas que coisa o sol, senão estrela?
Donde terá perdido a lenidade? 1480
Perdeu o sopro depois do zênite,
Que o fim da parábola as auroras.
Acusarei porém de crime os dias,
Eu, que contemplo no infinito
O nascer e o termo das palavras? 1485
Não existe infinito sem parábola,
E no entanto as parábolas findam.
Amo além extensões que nada importam.
Os anos-luz que me separam do espelho
Pousam lentos sobre o véu das vistas. 1490
Como, se as distâncias tão estéreis,
Dos fundos vácuos venha alegria?
As palavras prescindem de estrelas.
Se alegrias não conhecem cor,
Por que cintilam como coloridas? 1495
É destino das cores começar,
Palavras calar atrás do ponto.
E não alcançam letras o além-ser,
Além que não sei se belo na distância
Ou no abismo intrínseco de mim. 1500
Como néscio da palavra e do ponto,
Ser è mais além de tudo e de nada.
Tais esfinges quase pouco incômodo.
De que me importa saber o ser?
Mas que nome darei ao meu ser 1505
Se deitado o peso ao chão, poeira,
E se em poeira se perde o limite
Entre dois, meu ser e meu não-ser?
Fecho em vão meus olhos, abro em vão.
Em não-ser está concebido o ser, 1510
Negativamente sendo – logo, não sendo
Sou, astronauta. E se ser eu sou,
Se algo é, o algo è ser para quem?
Apenas para si mesmo ou para além?
Além do ser ninguém sabe o que é, 1515
E se o si mesmo è ser è mistério.
Como não? Eu, que penso e pareço,
Penso como parábola, não como ponto.
Relegado e vendo ainda estrelas,
Sei que a parábola o passo do ponto, 1520
Nem o ponto um ponto sem palavra.
Como porém desconheço se os dois
Serão da mesma coisa, calo-me
Sob os parabólicos pontos. Vejo,
Dentro de mim e do quanto peso, 1525
Que sou e que não sou em meu sopro.
Dirão que sou apenas porque penso.
Mas o pensar que não pensa a si mesmo:
Deixa de ser? Deixo de ser um instante
Para ser mais, um não além-parábolas. 1530
Que digo? Que eu deixe enfim
De tratar o ser como se fosse estar
Aquém, além dum outro ser ou de mim.
Quem sou eu, estrelas de espírito lene,
Para saber se sou e quem, que coisa sou? 1535
Aos sofismas prefiro um verso simples,
Eu, que invento em poemas o verbo ser
A que seja uma ponte entre os pontos
E as parábolas, como se fossem dois
O que de fato apenas um, mas dois 1540
Perante os olhos fracos das almas.
Seja pois o verbo do belo absoluto,
Se mau, ao menos mal necessário.
Que bom que mau cantar, estrelinhas?
Retorno à relva onde meu corpo pousa, 1545
E já não temo a vida e nem o vago.
Como temerei no acaso a morte
Se sendo pó venci no sopro a vida?
Que me separa, sábios, da mesma massa
Que acima transforma os céus em astros? 1550
Se a massa cessa, nem por isto è longe,
Dentro de mim a quintessência enérgica,
Mesmo poder que permeia o que há,
Pois como sou poeira, há-me sempre,
Certo em toda parte. Metamorfoses 1555
Heterogêneas, onde a morte do pó?
Ai eu pudesse ser menor do que sou,
Eu, que tenho apenas infinito em mim.
Quando eu morrer, eu formarei estrelas.
Serei, em toda força do termo e do ponto, 1560
Serei enfim astronauta. Voarei pelo ser,
Voarei, na reconciliação derradeira
Coa treva tranquila, irei pelo ser
E pelo não-ser, e pelo belo absoluto
E pelo saco do limão, e pelos mares – 1565
Como um poema em vão que ninguém lerá
E que no entanto vive escrito em todos.
Assim será completa a presença de mim,
Ponto-universo e somente-parábola.
Serei eu mesmo as alegrias que invadem 1570
Os versos alheios e os olhos ingênuos.
Mas inda vivo e, como vivo, contemplo
O belo dos astros e a dor do gato magro.
Nas dúvidas que pairam de meu ser,
Sigo e defino o meu ser pelas dívidas. 1575
Se algum momento eu busco a cadência
Como fuga dos atos, ressoa a cadência:
– Que fizeste? – e perco-me em gota,
Na dissolução amarga da poeira.
Como enfim na verdade o consolo, 1580
Desfaço-me em gota como se o sumo
O fresco elixir do limão e do saco.
Fora o bem o dividir alegrias?
Indivisíveis! Sopram como acaso.
Há diferença entre sentir e pó, 1585
E as alegrias, que invadem sentires,
Vêm dalguma poeira soprada ninguém
Entende donde. Dividir o que sinto?
Indescritível! Sopro como incauto.
Se alegrias parecem inumanas, 1590
Como esperar me façam humano?
Eu dissera acima que são sentir-se
Como parte dum todo em toda parte.
Os homens somos parte do todo.
Oxalá me induzam alegrias, vez ou mais, 1595
A ver em torno o bem do gato magro!
Não por cálculo, que as alegrias
Vêm de matemáticas mais abstratas.
São a visão, direi, da verdade.
Abertos olhos, a boca e poderes, 1600
Deito o peito ao fresco da relva,
E no horizonte, além das palavras,
As surpresas se fazem descobertas.
A nudez contemplam os olhos
E nos olhos a verdade das almas. 1605
Saberei, porém, o segredo do vero,
Eu, que indago a noite como ao ser?
Mais eu vejo além e mais eu desconheço.
Eu não sei o que sou e não há renegá-lo.
Será nudez não saber o que sinto? 1610
No peito não há dessaber, eu o sei.
Como negar os sentimentos próprios?
A nudez que reveste as alegrias
Não desvenda a verdade como forma.
Se o vero è belo como as alegrias 1615
Convém ao vero o fluir hidrogênico.
Apenas água espelha a profundez.
Se a verdade nudez em minh'alma,
Que será nudez? Será talvez a noite
Contendo os dias? Penso em auroras 1620
E sei que o pó que circunda o sol
Acaso apenas, noite a natura maior
Das eras, ao longe as luzes pequenas.
Como não? No estado de todos dias
Vive a mesma exceção que de esferas 1625
Onde à noite o céu esconde os astros.
Assim o faz a superfície da lua
Como em Marte e lugares ingratos
O solo, o ar e as noites vermelhas.
E no entanto, nas noites vermelhas 1630
Não menor a nudez, se menos visível.
É que a nudez não revela as esferas
Nem haverá no que não sabe sentir.
Os olhos voltados ao canto estelar,
Um canto menos do céu que dos olhos, 1635
Eu vejo a treva lene e luzes simples,
Que as formas plenas vanidade apenas,
E atino em ares onde estou, que sou.
Ainda não sei, perdido e descoberto,
A minha essência proto-pulvérica. 1640
Por metáfora mais que por verdade
Direi somente que sou o que sinto.
E como sei o que sinto, sou verdade
Mais do que metáfora. Por que, cantar,
Se os universos que entendo são vazios 1645
E toda parte eternidade das noites,
Tanta alegria cabe embora no peito?
Mas os vazios são vazios para quem?
Eu vejo estrelas e estendo o meu dedo
Rumo à nudez de ser, que è ser inane. 1650
E se em meu peito as alegrias cabem
É que o meu peito è somente um vazio.
Como não? Eu busco um ponto no escuro
E somente encontro parábolas. Que valor
O ser que encerra apenas as letras? 1655
Fui chamado a cantar um canto estelar,
Eu, que na lene orquestra do eterno
Recebi de instrumento o silêncio –
Eu, que nem corda nem aura de flautas,
Apenas trago, apenas sou palavras. 1660
Não me sobem à mente ainda imagens?
Eu me sentava ao lado dos discos
Ouvindo mudo as alegrias sinfônicas.
Eu me escondia em vão atrás do piano
Como se perto da corda eu fosse nota, 1665
Voasse, donde não sei, e nem aonde,
Somente invisível como as alegrias.
Estrelas, eu me sentava também,
Quando o mundo me fechava os olhos,
À beira do teclado erguendo as mãos, 1670
E no entanto as mãos, se amor descia,
Já não subia do toque nada sublime.
Como foi isto, pequenas, que me passava
Naquelas horas de abismo e de amargo?
Quanto mais eu buscava nos pontos 1675
A música, a música mais me fugia.
Corria como um louco o meu espírito
Áspero, mas a técnica espírito lene.
Quantas vezes, serenos, eu suplicava
Do belo a supressão das perícias? 1680
O piano era surdo como a música!
No abismo que só infância conhece
Os coliseus do dominó desabavam.
O mar que me fizera o ser horizonte
Já não vinha abrir a porta do carro. 1685
Eu corria, então, em fuga desastrada
Ao desalmado mar de castelos e areia,
Para entrar e me esconder de estrelas,
Mas que esperanças, em que castelo
E lugar eu cabia? Cabia em palavras? 1690
Cala a boca, poeta – deixa a poeira!
Eu ando e corro e morro em toda parte
E toda parte estou preso em palavra.
Mar! Vem afogar, hiato, a minha voz,
Leva embora de mim o verbo sem lira. 1695
Ai as imagens, ai a mente contrita –
Quando deixei no teclado o meu sonho
E descobri que a minha vida è sem música,
Eu quis tragar o mar e o mar secou.
Apareceu meu pai coaquele dicionário 1700
E co latim e grego debaixo do braço.
Eu conjugava os verbos como se fossem
Tempo e declinava o nome como as coisas.
De que me vale império sobre pedras?
Ainda não vi, no conjugar de aoristos, 1705
Mesmo dos fortes, nem nos particípios,
Nem no ablativo absoluto a liquidez
Daqueles espíritos cadentes, semínimos,
Da clave de ré menor ou modo frígico,
Nem contraponto. O meu tempo termina 1710
Como a clausula dissecta desiderans.
Tempo? Tempo è desinência apenas.
Eu temo entanto a tristeza na morte,
Não poder levar, no rumo astronáutico,
Notas – apenas uma. Deito-me à relva 1715
E compreendo amargo o pesar da poeira.
Quanto espaço o som da nota ocupa?
Serenos! Nem o pó eu desejo levar
Na viagem, eu quero apenas um sopro.
A vibração das cordas me basta! 1720
Mas a voz das cordas quem me traz?
As minhas mãos sem perícia repousam.
Se sopra em mim dum pego qualquer
Sou eu a corda que sopra inaudível.
Como não? Porque as mãos não me sirvam 1725
Para a lira e todas cordas me fujam,
Deito-me sobre o mar e me faço corda,
Que as alegrias um dia me toquem,
Transformem música muda em líquida.
Eu comparava outrora as parábolas 1730
Co dicionário de grego e sorria.
Na confiança da corda intocada
Bastava saber o donde vêm palavras
E soaria livre o canto, além do verbo.
Foi naqueles dias que me perguntei 1735
Se a corda e o cor uma coisa somente,
A corda que vibra como o cor pulsando.
Eram tão iguais os casos declinados
Que talvez, no mistério sânscrito
Dos seres, a raiz lhes fosse a mesma. 1740
Eu, que sou corda e lira sem nota,
Sei que a corda que sou e meu cor
Essência da mesma poeira e do abismo.
Ora, a corda que as alegrias tocam
Qual será senão o pego que pulsam? 1745
Vivem como os dois naquela sonata
Que soa harmonia, porém contraponto.
E no entanto, pareciam dois distintos.
Eu quero um canto, serenos, longe,
Seja nem harmonia nem contraponto. 1750
Deixo a minha nota a ser composta,
A corda muda às alegrias supremas.
Porquanto acima eu veja, nas cadências,
Que a verdade me invoca longe da lira
E perto apenas de verbo eu me encontro, 1755
Dou-me o trabalho de invadir o verso.
Trabalho? Eu fora melhor astronauta,
Eu, a quem labor e a liberdade espelham,
Digo, espelharam-se um dia idênticos.
Nem tampouco astronauta eu cresci, 1760
Que a ciência das coisas certas fugia
Como ao mar as calmas matemáticas.
Ora, a profissão que eu procurava,
Por hídricos gênios de metamorfoses,
Era a viagem sublime aos elementos 1765
Que entre hiatos espelham verdade.
Em tal labor ocupo minha indústria,
Nem existe em meu sopro trabalho
Além da busca de espelho e de ser.
O que brilha è somente abstrato, 1770
No ponto a nudez, nudez a verdade:
Pobre, pois nada tem, apenas é –
Pobre como a liberdade apenas.
Outrora me indagavam os homens
Quê seria senão um ser astronáutico. 1775
E vi seguirem muitos o seu comércio,
Outros amor às leis e cura de vidas,
Alguns a construção de grandes pontes.
E no entanto eu era a busca dum ônus
Que talvez trabalho algum rendesse. 1780
O mundo è comércio de espécias,
Jogo e troca e moção de fortunas.
Receba aquele que der e dê quem tiver,
E quem não tem trabalhe em comércio.
Eu, que me deito sem comércio, 1785
Vejo acima o que paira sobre o jogo,
Que acima como abaixo a troca è vã
E de nada carece o que sabe querer –
Pois não rareia, que è plena, verdade.
É comércio de só poeira o que quero? 1790
Se troca de coisas torna os homens ricos
Mas nem nas coisas nem homens verdade,
Prefiro dar a verdade em troca de nada,
Porquanto o vero poeira não compra –
Caro o ser que não carece de preço, 1795
Rico o ser. Prossigo astronauta.
Se a cura por mera poeira e sustento
Põe às minhas mãos enxada, dou ao chão
O pulso necessário apenas, nada mais.
Talvez a verdade seja um chão, 1800
Pois de pisar o céu não tenho pés,
Apenas alma. Se piso o chão de pé,
O céu de alma, deito-me à relva
Para estar de alma e não de pé.
Mas se mesmo de alma estou deitado 1805
E se deitado iguais os pés e alma,
Estou no chão ou estou no céu?
Ó serenos, dai algum perdão maior
À minha triste inconstância e dizer.
Não incluo à pobreza dos meus versos 1810
As grandes pretensões apodíticas.
Já não constatamos, noutro espaço,
Que no extremo vazio que nos cerca
O chão e céu são a mesma verdade?
Eu me lanço ao chão, estrelinhas, 1815
Para alçar-me, mais e longe de além.
Não me importo se pousa a meu lado
O peso já da enxada e terra ingrata.
Abel lhe deu uso e Caim, e não a nego.
A mão na enxada longe porém da obra, 1820
Que enxada e mão è poeira o que movem,
Obra o que restou imóvel nos olhos.
Se a verdade for nudez imutável,
Onde estão as alegrias, indo e vindo,
Por que distantes e tão incertas? 1825
Serão talvez sublimações hidrogênicas,
Líquidos sopros do saco do limão.
Direi que as alegrias são efêmeras?
O que não cabe n'alma chamarei pequeno?
As alegrias são balde maior do que o peito. 1830
Balde? Nem no saco do limão o peito cabe.
Ora, como? Se as alegrias foram breves,
Breve o peito. Quando o mar me tocou
E descobri na linha reta as alegrias,
Eu quis medir-lhes grandeza em segundos, 1835
Mas são a morte do tempo as alegrias.
Quando o meu peito pensou conhecê-las
Perdi do fundo lembrança e vi-me tempo.
É que as alegrias são surpresa e sopro.
Como sopro, não se prendem. Abrigam-se, 1840
Por átimos, no abismo, e peito as sopra
Para além. Quis transformar a surpresa
Em costume, que é castelo de tempo,
Mas surpresa a que o cor se acostuma
Não o toca e vive longe do espelho. 1845
Outrora as alegrias me enlevaram
E vendo mar eu contemplei verdade.
Não se esquece os primeiros encontros,
E as alegrias de ontem vivem hoje,
Não surpresas, mas do mar lembranças, 1850
Que certas imagens me vêm de repente.
Foi no tempo do dominó vermelho
Que atinei com correr nos ponteiros.
Apareceu na gaveta de baixo uma vez
Um relógio de bolso – relógio mecânico: 1855
Era preciso dar-lhe corda todo dia.
Foi fitando a marca das horas, paradas,
Que notei mistério. Indagava os velhos
Por que, se o tempo, como dizem, passa,
Eu mirava o relógio e via doze horas 1860
No mesmo lugar – e mesmo os ponteiros,
Indo além, voltavam. Os velhos calavam.
Talvez não quisessem revelar ao menino
Que o tempo è ponteiros. O tempo è mais:
Ponteiros girando em torno dum único ponto. 1865
Então as horas posição dum ponto apenas?
Fora de mim, o mar e os castelos de areia
Eram inda os mesmos. Não havia passarem.
Depois e antes só se vê por movimento?
O que move, move o que dantes jazia 1870
E depois também jazerá. Eterno relógio:
O que se move está cercado pelo imóvel
Como pelo que dura cercado o que passa.
Foi o dicionário de latim, de meu pai,
Que me disse: Abre-me, mão, na letra m! 1875
Movi-me pois e vi, por entre parábolas,
Que o nome mo-men-to vem de: mo-vi-men-to,
E que as alegrias dum segundo apenas
Serão o gáudio de todos os tempos.
Duram, invisíveis, como a verdade 1880
Aparentemente longe, imota, intocada.
Intocada para quem? Eu descobria
A verdade mirando o relógio mecânico,
Contemplando o dominó vermelho, vendo
Que o tempo è ponto e que verdade espaço. 1885
O ponto não conhece espaço inteiro
Nem momento o sabe, pois indo e vindo
Vai daqui além ou vai de ponto a ponto,
Enquanto o vero dura em todos os traços
Nem carece o vero de andanças daqui além. 1890
Mas que seria dos olhos sem cadências?
Não são momento e ponto e tempo cadências?
Eu, que pergunto aos astros como aos velhos
Sem resposta, sem resposta descubro alegrias
Como espelhos, passos do vero num sopro. 1895
Sem embargo o meu sopro, mesmo disforme,
Ponto apenas. Como, se apenas ponto,
Dentro de mim verdade? Direi porventura
Que todo ponto verdade? Eu vejo estrelas,
Serenos, e quase direi que cada ponto 1900
Resume em si da verdade espaço inteiro.
Direi melhor: as alegrias sopram por perto,
Como se cada ponto emanasse a verdade,
Nem abismo fosse entre espaço e ponto.
Aqui estou, por entre estrelas vasto – 1905
Estrelas eu, que somente deito e me calo.
Decerto como as melodias que não sabem
Nunca que existem será de mim silêncio.
Ante as nebulosas do nada, pergunto-me
Se mais que uma melodia cabe no infindo. 1910
O canto estelar que o meu peito quisera,
Como pode existir se o peito apenas um?
Fora preciso que os outros cantos calassem
Para que o meu peito inteiro fosse ouvido.
E no entanto, o meu peito faz-se orelha 1915
Para que nele soe o verdadeiro inteiro.
Minto? Serei eu mesmo o todo em silêncio?
Quisera ser o coma incontável das notas,
A fim de que se ouvisse em mim as notas
Das melodias e do impossível, conjuntas, 1920
Cada qual porém distinta. Eu guardaria
O canto universal, abstração derradeira
De ser e contra-ser, num único ponto.
Mas eu sou pequeno, menor que as estrelas.
Vai chegando ao fim o meu canto estelar, 1925
Que menos canto ressoa que o mar profuso.
Hei-de alçar-me não aos céus, ao chão,
Por onde atrás duma pedra me espera ainda,
Talvez, um gato magro. Nem sabia, coitado,
Nem no jardim do éden nem na minha relva 1930
O gato magro sabia dum canto estelar.
Queria apenas passar – como um ponteiro
Que em verdade nem sabe que vai passando,
Preenchendo o meu relógio de lembranças
E dalguma tristeza eterna, incurável. 1935
Fugiu a verdade que busquei no infinito,
Fugiu por entre estrelas e pelos relógios,
E nem no velho saco do limão me consolo.
No entanto, sopro, passa o gato magro
E vejo o rosto invário da verdade 1940
E cubro em vão os meus olhos de mar,
Que a só verdade o quanto bem lhe devo
E nem me deu no éden o canto estelar.
Percebo bem o mal que se me abate?
Eu buscava a verdade em tais distâncias 1945
Fechando os olhos aos pés que passavam?
Os pés dos outros, parvas estrelas,
Foram sempre a verdade mais próxima.
O vero desconhece o perto como o longe.
Como ainda eu procuro o que me falta 1950
Como outrora o chão co dominó vermelho,
Quero que a busca das minhas verdades
Comece daqui por perto, pelo chão
E pelos pés e pelos olhos que passam.
Céus! Tirai de mim a memória do mar! 1955
Que me buscaram outrora daquela sala
Onde apenas montava o dominó vermelho,
Sim, e me deram de amigo horizonte?
Quero gritar e correr além como o rei
Que arrancou coas próprias mãos os olhos! 1960
Mas, serenos, mostrai-me logo as mãos
Com que do corpo arrancarei lembranças!
Mostrai-me o pensar de que o mar acabou!
Eu temia outrora as nuvens como a cegueira
Cobrindo o céu que as ambições amavam. 1965
Eu temo agora os céus e busco as nuvens
E a palidez dos postes e pouca luz.
Foi no tempo dos castelos de areia,
Antes, que subi por acima das nuvens.
Antes do grande anseio astronáutico 1970
Já voavam de avião os meus olhos,
Eu sozinho indagando os tripulantes
Se existe mundo além daquelas nuvens.
Lembro como hoje a janela estreita,
Sob os meus pés as nuvens e o mundo. 1975
Eu estava nos céus e céus eu buscava.
Se o sol não tinha fim naquelas relvas
Donde viria a noite e donde estrelas?
Navegando o mar-oceano chegavam,
Levando embora as mentiras e as cores, 1980
Deixando as ondas, o pélago, a morte
Abaixo como acima os pontos livres.
Eram livres nas leis dos meus castelos
De areia, nos sonhos onde as mãos cavavam
Portas até que se encontrassem, no fundo. 1985
No fundo do abismo eu dava mãos às estrelas
E durava o quanto de areia fizéssemos,
Durava como os sonhos e como as cadências.
Foi talvez em tais viagens distantes
Que as alegrias supremas despertaram. 1990
Quando eu mirava as nuvens sob os astros,
Eu quisera acordar os mesmos tripulantes
E perguntar se existe mundo sob as nuvens,
Porquanto o mundo eu descobria acima.
Respondiam estrelas como a cantar 1995
Que ali moravam, ali pairava essência,
O belo, o bom e o vero. E as alegrias
Maiores que as nuvens diziam: – Menino,
Se um dia o mar e o mundo forem cinzas,
Lembra o que somos e donde viemos. – 2000
No sonho que abria os meus sentidos,
Meu coração era o céu estrelado
Que amargas nuvens jamais apagariam.
O pentagrama que os pontos preenchem,
Linhas que vão surgindo e se perdendo 2005
Como os olhos bem as façam imagens,
O vento que venta olor aos sublimes,
Que me importam agora tantos rastos,
Rostos de além e dança calma calada?
Cercou-me tarde a floresta de estrelas 2010
Quando mirando a treva tranquila vi,
No quanto lhes fio, quanto mal existe,
E nas ondas os pés contrariando o mar
Co mesmo golpe que outrora o gato magro,
E do éden verdade em veredito e voz. 2015
Era tão verde viver no mundo estelar
Esperando apenas alegrias supremas.
Parte das noites, talvez a maior,
Cobriu o céu coaquele mar de nuvens
A quem impus meus castros de areia. 2020
Acostumei, ou tento, alguns anseios
Ao coma e me consolo certas vezes
Vendo constância na cor das nuvens.
Deixo à mostra o rosto, o pouco sopro
Que outrora eu cuidava ser minh'alma, 2025
Quando a noite das danças cadentes
Foi o mais feliz dos meus encontros.
Deixo à mostra o rasto da minha vida
Que a chuva, se quer molhar, que molhe.
Ora, não dissemos acima que o belo 2030
Sublime corre como água e disforme?
Não me esforço nem resisto à gota.
De repente, a minha relva è mar
E meu canto à deriva. Tenha fim,
Serenos sopros, fim o meu abismo! 2035
Os meus amigos ora são velhos mortos
E angústia. A minha relva è pesada,
E as nuvens tornam palavras inúteis.
Eu conjuguei irregulares verbos
Em vão, que tempo nenhum perfeito. 2040
Nesta terra por onde as minhas letras,
Se prossigo, serão ainda barbárie
Frente ao gato magro de holocaustos,
Eu quero ainda o verso dos velhos
Para escrever o remorso dos novos? 2045
Como a noite em que vim pelas ruas
E nos postes as luzes se apagaram
E vendo as nuvens remordi meus lábios,
Remordo o meu sopro e me escondo sombra,
Remorso de quase cada palavra e de nada. 2050
O amor que um dia confiei às sombras
Quando os meus olhos eram cor ingênuos,
Aonde foi? Eu confiava tanto em pupilas
Que andava pela noite entre as árvores
Densa cadentes, pontos por mim adentro. 2055
Hoje vejo nuvens em tácitas sombras.
Cerro os meus olhos e quero apenas acaso.
Entretanto, serenos, certo nuvens passam.
Abro as minhas asas e zarpo às miríades.
Eu não me impeço, apesar de quem sou, 2060
De buscar as cadências deitado à relva.
É somente a mim mesmo que encontro
E que busco, fingindo ver eternidades.
Fugir dos homens? Viver em todos seres!
De repente, move-se a terra a meu lado 2065
E tremo, menos de encanto que de susto.
Ergue-se um vulto à minha frente e mira
Ofegante dentro das minhas abstrações,
Por onde os nossos temores se encontram.
Era uma ovelha! Donde saiu e como chegou, 2070
Mistério sabe. Estava ali deitada a hora
Toda junto à minha enxada e cegueira.
Nem sabia, coitada, que ali jazia o mal.
Eu me ergui da terra e os olhos seguiram
Junto ao medo os meus movimentos, poucos, 2075
Aqueles olhos oblíquos de eu tanto amar
E como os olhos de outrora o gato magro.
Serão surpresa os temores dos fracos?
Correu. Correu embora como louca e varou
Por onde podia até sumir, na derradeira 2080
Curva das nuvens, sem tempo e sem cerca,
Longe de mim e de tudo o que eu amo.
Vai, minha filha, corre longe daqui,
Eu pensava, que destes pés e das mãos
E até dos olhos que vês è pouco o bem 2085
Que chega afora. Correu além, berrando
Grave o seu ovino abandono às estrelas.
Eu, que já de pé buscava em vão enxada,
Em vão o saco do limão, de pano velho,
E remoía o ter-me alçado acima do sonho, 2090
Deixei que se fosse embora a pobrezinha
Nem curei dizer que as estrelas não ouvem.
Deixei-me levar com ela, eu, que fiquei
E que fui embora, parte dela e de mim,
Como o canto que me faz nas alegrias 2095
Estar em toda parte e talvez em nenhuma,
Peito aberto aos repentinos espelhos,
Contemplações da verdade hidrogênicas
Entre cadências e pontos sublimes.
Eu tivera todo argumento do mundo 2100
E razão de calar e deitar e moer-me.
Não, não o fiz, eu me rendo à poeira
De elementos brutos que redime o sopro,
E porque sopro entendo que me alegro
Não por mim, e sim pelo que me cerca. 2105
Mas quando os olhos, a boca e poderes
Como outrora me fazem belo sem razão
E me alegro de ser a poeira que sou,
Não resisto a tais imprevisíveis alegrias.
Deixo-me estar com elas por eternidades, 2110
Eu, que sei que o gozo e mundos momento,
Eu, que já de cedo mirava os ponteiros
E via os castelos vir abaixo e dominó,
E desprezava o saco do limão rasgado
Como o gato magro a que dei pontapés, 2115
E que amigos buscava o mar e os austeros
Homens dos quadros na minha casa velha
E mais em vão as cordas que apenas fugiam,
Eu, agora menos que ponto e parábolas,
Longe do verbo e da nota. São noturnas, 2120
No meu coração, as alegrias supremas.
Pairam e sopram e passam como entendem.
Não as peço e quando as busco apenas sofro.
Deixo-me pois, assustador de ovinos sonhos,
Aberto e de peito vazio e nada espero. 2125
As ovelhas outras que estavam deitadas
Já fugiram de mim, e fugiram comigo.
Aonde fomos? Decerto perpassamos nuvens,
Como perceba agora que as chuvas passaram,
Que a relva è seca, não porém sedenta, 2130
Que as notas do pentagrama ainda luzem,
Mesmo talvez as estrelas que já pereceram.
Deixaram além, na velocidade da luz,
Da força, do raio donde nasce além-ser,
Porquanto nem existem mais e ainda são, 2135
Velocidades excelso apêndice do ser,
A coda que põe a morte para trás da luz.
Que me ocupam, estrelas, vida e morte?
Há palavra que, sendo, deixe ainda de ser?
Antes de aceso o fogo já queimava e morto. 2140
O sopro que apaga o foco o guarda consigo,
Não o destrói e nem à luz que avança além
Depois de extinta a flama, feita poeira.
Ora, serenos, è fogo a poeira que sou.
Quero deitar-me ainda e, vendo estrelas, 2145
Sonhar que serei velocidade apenas,
Um raio, longe do pó que deixo extinto
E que renasce no raio e na metamorfose.
Sonhos são somente sopros insanos.
Eu, que levanto o meu corpo e me enxergo, 2150
Percebo quão distante estou do eterno,
Quão pequenas as minhas mãos e enxada.
Talvez os meus desejos sejam só palavra
Naquele velho dicionário meu de grego,
Que já não explica dos verbos a origem 2155
Nem me contenta co rol dos aoristos:
Estou distante do eterno e do instante.
Procuro em vão por máquina astronáutica.
Lento o meu sopro como espíritos ásperos,
Não serei, serenos, jamais astronauta. 2160
A minha liberdade sonho somente e castros
De areia, de areia o sentimento sublime,
O belo absoluto, a verdade – e o homem.
Aonde irei, estrelas? Toda parte um mar
E mar silêncio, ruir de castelos e verso. 2165
Ai de mim, ai de mim, ai que conheço
E já vos digo e digo aos astros acima
Que rumo tomarei, que farei de meu rumo.
Doravante, minhas caras celulazinhas
E nervos e estrelas cerebrais preclaras, 2170
Deitai ao chão as asas que vos sobram,
Que já na próxima noite eu não serei
O que sou – serei um homem das pedras.
Serei, se quiserdes, pedreiro somente.
Ouvi dizer que abandonaram um vale 2175
Pouco longe. Quero andar naquele rumo,
Pois, se bem ouvi, deixaram pedras lá,
E dessas pedras quero carregar algumas.
Porei, coa força que dentro couber,
Umas sobre as outras, cobrindo a terra 2180
Logo ali, na beira donde o vento passa
E dizem derrubar as casas e até ruínas.
Eu quero erguer naqueles ermos abrigo.
As suas paredes serão de fora tortas
Mas de dentro firmes e firme o teto. 2185
Levarei de móveis as pedras velhas
Do dominó vermelho. Levarei ponteiros
E o dicionário de grego. Deixarei
Do lado de fora, no fundo do abismo,
Mar, pois o abrigo è forte em penhasco. 2190
Deixo também um pasto, se alguma ovelha
Ou gato magro quiser. Mas esses dois,
Serenos, esses não virão. E farei,
Numa parte além, o meu uso da enxada.
O mais importante ali serão janelas. 2195
Eu quisera, pobre de mim, que as janelas
Fossem do tamanho do mundo – maiores,
Do tamanho das alegrias. Mas as mãos,
As minhas são pequenas, e a casa minha
Se fez de um braço apenas. Pelas janelas 2200
Entrarão de noite as alegrias e os sonhos.
Virão soprando como de espíritos lenes.
E como não? Já que não as posso reter
E nem buscar eu posso aquelas alegrias
Nem comércio de mundo mas pode trazer, 2205
Construirei albergue às alegrias longe,
Que, de passagem por entre duas pontes
Mais felizes que o meu peito, pousem,
Venham, quando queiram, e lá pernoitem,
Vez por outra, na breve escala dos voos. 2210
Quem vier por longe e vir cons olhos vãos
A minha casa, certo dirá que em ruínas,
Pois verá, talvez, espelho de meu peito,
Espelho errado que apenas eu decifro:
A casa è ruína, mas nela eu vivo forte. 2215
As alegrias do fim, que sabem melhor
E sabem mais do que eu o que sou e sinto,
Terão, no breve pouso janelas adentro,
A gratidão de um homem pequeno e momento.
Passada uma noite, talvez jamais retornem. 2220
Eu, que espero apenas, nada mais espero.
Deixo às doces surpresas toda escolha,
Liberdade ao acaso. Se numa noite
Quiserem voltar e que eu me sinta parte
De toda parte, as minhas janelas tortas 2225
Estarão abertas. Se desejarem soprar,
Trazer um canto estelar aos silêncios,
Que venham. Se desejarem subir aos céus,
Que partam serenas. Passem como quiserem.



FIM




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