Home

Canto Estelar

Gregorius Advena



© Gregorius Vatis Advena 2014, Record L 3, Engl. Song of the Stars, May 2014 to October 2014, Balearic Islands, Hampshire, one verse, 2229 lines, lyric poetry, Portuguese.



Canto Estelar

Introdução


O foco inicial desta obra são “as alegrias” no que revelam uma transcendência íntima espontânea. Ao buscar entender os sentimentos, o eu-lírico questiona sua relação com a verdade, a beleza, o bem e outros conceitos. O céu estrelado torna-se o palco da busca e parte do eu-lírico.

O Canto Estelar é uma evocação da noite como representação da fragilidade. Incapaz de explicar a origem e o significado final dos sentimentos, o eu-lírico confirma-se e duvida de si mesmo como objeto do auto-conhecimento. Recordará, em seu estudo, cenas da infância.


Kinderszenen, X. Fast zu Ernst, por R. Schumann, performance de Cristoph Zbinden – Musopen CC BY 3.0.


O verso é livre – embora passagens isoladas exibam caráter métrico, a liberdade do verso consiste em aceitar qualquer forma sem submeter-se a nenhuma. O poema forma um corpo unitário sem subdivisões. Cá e lá, a cruz pátea (✠) marca possíveis pontos de descanso ao leitor.













Canto Estelar





As alegrias supremas são noturnas.
Começam quando a forma da cor
E as causas terminam.
É nessas horas sem ruído
Que o homem se deita à relva 5
E começa a voar. Os olhos
Viajam dum ponto ao outro no escuro.
Da terra molhada que mira o céu
As metrias e as retas desaparecem,
E não existe teto na sombra além. 10
O imenso transforma-se no fim
Da imperfeição dos sentidos.
O espaço revela a multidão de pontos
Inalcançáveis, ao menos às mãos,
E daí se revela a fraqueza das mãos. 15
As alegrias vêm duma força maior.
Os focos longe e dourecentes
Que a mão dos olhos mal alcança
São acenos dum mundo impossível,
Fenômenos extremamente arrojados. 20


1




As alegrias vão calando
As palavras da vida e do espírito.
Será que existem tantas palavras
Quanto os pontos cintilantes?
Será tão grande o poder de cantar 25
E redimir o mundo?
O primeiro canto de dar às alegrias
Deve ser o silêncio do novo amor.
Quanto mais se perde pelas estrelas
Mais as estrelas de longe o recebem. 30
Abre-se ao sonho um pentagrama
Repleto de notas cintilantes.
São o canto que os olhos ligam,
Nem se sabe se abertos ou fechados.
As linhas vão surgindo 35
Por onde quer que exista espaço
E pelo espaço alcance. Os olhos
Vão caminhando e preenchendo
Os caminhos altos de tantas imagens.
Querem alçar-se ao fim do infinito, 40


2




Além do traço em que se perdem as letras
E o mundo o seu tamanho. Agora sim,
Agora o rumo é sem metro e sem fim,
E já não erram os passos, voam,
Pois voar é bom e toda parte é mistério. 45
O vento não sabe do olor que traz,
Não sabe que a sombra é só uma ponte
Para o jamais inesquecível.
Não temer, jamais, o segredo da sombra
Encubardora de todas as estrelas, 50
Alada no seu nada formosíssimo.
Gozo é fitar o berço do escuro,
Calmo, e ver e ser cego ou ver
Sem ver, amar a sombra refrescante,
Que as alegrias sublimes são noturnas. 55
Inventam astros e as noites que inventam
Foram as noites mais felizes de vidas.
Como é bonita a canção de ninar!
Basta um par de pontos e a linha
Passa no meio e liga, infinitas 60


3




As combinações, as paralelas bailantes
Que se cruzam por toda parte.
Viver é bom, e bom é deitar-se calado
O viajante perdido da vida ganha,
Ganha enquanto o tempo se perde, 65
Perde-se tenramente no pentagrama.
Como são leves as alegrias!
Os sonhos levantam as asas e levam
Rumo ao desconhecido um sopro.
Os sonhos voam velocissimamente 70
Pela doce distância além dos números,
Onde nada precisa de causa.
É nessas horas de voos e flutuações
Que o ser indefinido indaga:
Que são as alegrias? Donde vêm? 75
As palavras da boca são imensas,
Poucas, e as linhas inexplicáveis.
Não é melhor perguntar o que são
Os olhos e o quanto fazem de nós?
São os olhos que se abrem 80


4




E abrem o mundo que se fecha nos olhos.
Andar é tropeçar na pedra,
Melhor é parar como a pedra,
Correr cons olhos atravessando
A leveza das alturas. 85
Mas a leveza os olhos não tocam,
É pelo sopro que se atravessa o mistério,
É sopro a parte mais firme do corpo
E seus olhos e sua sede de longe.
O sopro passa de ponto em ponto 90
Até desaparecer pelo chão,
Até que os olhos vejam no sopro
O começo e fim da estrela cadente.
Por quê, se é tão pouco o que os olhos
Sabem, é tanto o que amam? 95
A verdade é que
Somos ingênuos. Ingênuos
Independente da pedra de tropeço.
Ingênuos vendo a ponte do eterno
Que é só eterno enquanto vemos. 100


5




Nada disso importa
Quando as alegrias sopram
Além do efêmero e do eterno.
Existem mais que os olhos e as palavras,
Existem simples. 105
Invadem ermos incalculados do espírito
E vão-se embora. É seu o querer
E nenhuma vida se impõe
Contra a sua vontade inexplicável. ✠
Eu, que jazia sobre a relva 110
Enquanto o sopro refrescava,
Ia abrindo os olhos e buscando
A estrela cadente,
Como se as alegrias fossem coisa
Do meu querer e meus olhos mandassem, 115
Como se meus olhos se convertessem
No motor imóvel do céu, mas não:
As alegrias são maiores que o céu.
O destino dos olhos é ver e esperar
E não saber aonde a estrela se move. 120


6




Vou me aquietando ao sopro da brisa,
Pronto para o querer que não se sabe
Querer, e vou me preparando
Para a morte, a noite e as alegrias.
Toda vez pode ser a última, 125
Mas enquanto é vez os olhos se abrem
E buscam a sua estrela cadente.
Os olhos sabem que as alegrias
São o vento, e no seu desencanto
O vento os leva, mas o vento que leva 130
Encontra e leva dentro dos olhos
A verdade maior das alegrias. ✠
O corpo está deitado
Mas os olhos saem dançando pelo mundo
Acima do mundo, onde as estrelas 135
Desconhecidas escondem as alegrias,
As quais invisivelmente abrem a porta
Dos olhos e os olhos cintilam:
A vida brilha como se a noite
Fosse o seu primeiro dia, o dia 140


7




De descobrir, e descobrir de repente,
Que a noite é misteriosamente
Imensa, e que são bons os sentimentos
Que o vento de muito longe sopra.
Como é fresco chorar a primeira vez 145
Ao beijo do amor primeiro:
O primeiro amor é o amor
Das estrelas do dia da inocência,
Na virgindade que nem a virgem possui.
Toda noite em algum lugar os olhos 150
Cintilam como se cada coisa pequena
Fosse o ponto final do infinito.
Bonito é parar e sentir, a sós,
O gosto redimido e redentor de existir
No meio de todas as estrelas. 155
Bonito é ver como é doce a verdade
Quando os olhos voam nas asas
Das alegrias e quem se perde se encontra.
Fica uma linda lembrança na margem
Entre o ver e o sonhar. 160


8




É distinta a doçura, a virgindade
Indestrutível de ser e deixar de ser
Na libertação final das pupilas.
A beleza do ser é deixar de ser
O que quer que seja, 165
Abrir suas asas, voar e tornar-se infinito. ✠
Eu, que me deito para esquecer,
Vou sorrindo e vendo nas alturas
Como é gostoso esquecer a vida
E seus motivos, como o sopro alegre 170
Que sopra sem saber o motivo.
Vaga pelo silêncio e desbrava
Nossas horas como se a liberdade
Fosse bela e fosse infinito o ser
Do sopro e de todos os pontos. 175
Ah, como é longe de meus olhos a brisa
Que sonha dentro deles.
Mas a vida é sonho e viver é despertar
De sonhos, para voar de verdade.
As paisagens inesquecíveis vivem 180


10




Como as asas pelas quais voei, e voo
Incessantemente. É impossível sim existir
Sem as asas que não existem
Nem existiram em mim. Ou existem?
Os olhos iludem a inocência 185
Do esquecimento doce e dos sonhos
Onde a verdade ilude os olhos.
Vamos esquecer sonhar e dessonhar.
Vamos deixar os olhos tocar
O infinito sem tempo de ser. 190
Quero zarpar como uma nave espacial
E tocar o rosto de todas as estrelas
Como se nada nos separasse.
Mas se houver espaço entre nós,
Que seja grande como o jardim 195
Por onde corria eu, a criança,
Sentindo o cheiro da flor e deixando
O meu pelo chão, como rabiscos
Dum poema invisível, de vento e
Longo, para ninguém ler nem terminar, 200


11




Para perderem-se todos no meio
Do céu onde as estrelas são palavras.
Quero apontar para todas as estrelas
E todas as palavras eu quero escrever.
Mas é muita coisa o peso das palavras, 205
Eu não carrego não,
E quanto mais meus olhos carregam o céu
Mais o céu carrega meus olhos.
Não me importo que existam mais estrelas
Que nomes: Divido com todas o meu. 210
A tristeza de ver é simples: É ver
Que a verdade está longe, tão longe
Que acaba sendo bela, e ver
É bonito como as alegrias supremas.
A felicidade de ver é simples: 215
É o engano recatado dos olhos.
Eles nunca veem o que é,
Eles veem o que são. E gozam
Ver estrelas que nunca foram antes
E que depois das alegrias não serão. 220


11




É refrescante esse dessaber
De existirem ou não inúmeras coisas.
Quero pensar nas coisas que pairam
Docemente sem ser e sem não-ser.
Os olhos saem dançando coas alegrias 225
Coloridas cuja cor é desconhecida.
Colorem mesmo os cegos
Que não veem estrelas mas veem
O que são. O que sei de meu dessaber
É saber que jazo e sou parte 230
Da brevidade da brisa.
Deve ser bom abrir os olhos,
Ou fechar, e sentir a leveza do sopro
Que passa ligeiro
E deixa para trás a saudade infinita. 235
É doce o sofrimento
Que vem da delicadeza das coisas.
Quero saber a química
Do todos os sopros supreendentes.
Quero medir o vento 240


12




Governador do mar e suas naves,
E das asas dos passarinhos
Cantando além cantigas
Como se a morte não fosse iminente.
Deus abençoe a viagem das naves, 245
Pois a vida é grave e não podem
Navegar por aí sem cuidado,
Senão afundam, senão flutuam
Deliciosamente coas alegrias
Na transubstanciação do oceano, 250
Como se o mar coubesse num canto
Estelar, no olor e nos olhos. ✠
Os olhos se fazem espelho
Mirabolante do inalcançável,
No qual se refletem três mistérios: 255
Os primeiros no horizonte, tão perto
Do fim do mundo que quase não brilham.
É gozoso o mistério da intransparência,
Entre o clareio do dia e da estrela.
É gostoso estar perto, ou parecer, 260


13




O horizonte onde começa a cama
A que me deito em busca das asas.
Os segundos mistérios são do alto,
Lá no meio do céu o cintilar do zênite,
Lá, minha parte mais longe de mim. 265
Um traço invisível une meus olhos
Ao que há de inultrapassável,
E viro a estrela mais radiante.
Será que vem de tão longe
O frescor do vento que é santo? 270
Frescor está nos terceiros mistérios,
Que estão escondidos atrás dos olhos
Como os sonhos e toda a saudade.
Como é doce não ver a parte do céu
Que não vejo, lugar bom de guardar 275
As alegrias. Respiro fundo e sinto
Os três: O hozironte, o zênite, o sonho,
Os meus serenos, os três mistérios
Do meu canto estelar. E vou sorrindo
Como se fosse infinito o canto 280


14




Dos meus serenos e o canto de estar. ✠
As alegrias são incomensuráveis,
Incomensuravelmente solitárias.
De dois amigos assistindo aos fogos
De artifício, cada qual enxerga 285
O céu sozinho, sozinho no céu
Que guarda os seus sentimentos.
O abraço adianta de pouco,
Inda que seja grande o coração.
Sentir, mas digo sentir de verdade, 290
É estar a sós.
É deitar-se à relva e calar a boca,
Pois a vida não suporta o ruído dos dias.
O dia ensolarado é cego
Para o mais profundo de nós. 295
O nome da noite é canto à solidão?
Quem se deita e fica olhando
Acima a floresta
Quer tecer cons olhos uma amizade
Doce entre a vida e as imensidões, 300


15




E desaparecer e ser o universo.
Não pode haver um canto à solidão:
A solidão que se transforma
Em canto tem no canto o fim da solidão.
Será talvez o silêncio 305
O pai da solidão? O silêncio é pai
Do canto que se gesta em silêncio,
O berço do canto estelar
Que só se pode ouvir sem cantar.
As alegrias supremas são silêncio. 310
Elas carregam nas asas
A voz inaudível de muito longe
Que faz o velho chorar
E deslumbra a criança. ✠
Viver como se não conhecêssemos nada 315
Será reviver a infância?
As crianças o que não
Sabem vão aprendendo
Na sua grande astúcia,
Numa simplicidade sem preço 320


16




Vendo cada hora como se fosse a primeira,
E todo dia o sol se reinventa.
Os grandes vão aprendendo
A desconhecer o mundo,
Em busca da ingenuidade do fim dos tempos, 325
Lembrando o que era doce.
Dá saudades o riso
Que ainda escuto, a cor
Que renasce no dia da minha morte.
Antes da morte esquecerei para sempre 330
Essas horas que me esqueceram,
Essa gente que a vida perdeu de vista.
Aonde foi aquele primeiro amigo,
Onde os amores, onde a profunda
Inocência que é mais saudade das horas 335
Que o segredo da infância? A verdade
Era o castelo que eu moldava cons amigos
E muitas coisas de areia. Cavávamos
Portas no castelo, cavávamos
Até que se encontrassem nossas mãos. 340


17




Depois as retirávamos, pouco a pouco,
Para que não desabasse a fortaleza.
Mas desabava e mostrava-nos
Onde o trabalho das nossas mãos termina.
Apenas um dia ficou de pé, 345
E tenho sentido falta
Desse dia, e já sabia
Desde então que a minha vida
Seria a busca dum dia perdido.
Olho para trás da alegria os castelos, 350
Todos de areia e de sonhos, e realizo
Que foi aquela a minha obra maior.
Vou pensando nessa gente sem rasto,
No mar incerto a que nos lançamos
Quando levou embora os meus castelos. 355
A vida acabará sem mistérios.
Os homens que a brevidade incomoda estudam
Buscando a si, e buscam verdade,
Vivendo e desvendando o véu.
Mas os sábios passaram por outras 360


18




Estradas em busca dum outro vislumbro,
Pois a vida é mais simples que a verdade.
Como os indoutos procurando a causa
Da dor do castelo em ruínas,
Coitados desses homens, 365
Foram ver estrelas no meio da noite
Rogando em vão pelo infinito.
Entendiam desde já que as alegrias
Não se espera jamais nem busca.
Houveram-nos alguns por loucos, 370
Pois adentravam lugares ermos
No amor da abstração.
Mas impressões bonitas pululavam
Nesses antros abertos.
Se desvendaram na estrela o mistério, 375
Quem é que sabe? Estão em paz,
E a vida inquieta. Traz o medo
Do escuro pela noite e nós sozinhos
Após o barulho inútil que move os dias,
Como se não fosse doce a liberdade. 380


19




Houve quem usasse verbo e fogo
Na conversão das terras. Eu não!
Minha vida né verbo não nem fogo.
Amei o canto do amor e o mundo impossível.
Vejo que os simples continuam calados 385
Fugindo o ruído. Vejo que a voz
De quantos falam morre, então me calo.
Sonho apenas, que a noite é longa.
Sonhar é ser? Eu sou poeira.
A vida é a vassoura 390
Das coisas e dos sonhos sobre o chão.
No dia do esquecimento enfim, terei vivido,
Eu, que não sou nem palavra nem sombra?
Capitularam meus castelos
E guardo o céu no meu quarto escuro. 395
Quero pedir explicações desmedidas
À boca das imagens e do berço
Esperançoso, para que se apague o farol
E naufraguem as naves enganadas.
Viverei doente numa inquietação, 400


20




No amor que não existe e não tem fim,
Na condição de sopro que sou.
O sopro que me contradiz
Deixa-me o fim da espera e do canto.
O navio navega sem porto nem remo 405
No mar de beber e morrer de sal,
E pó, e nada mais. A constância se rende
À sucessão das gotas e do riso.
Mas a constância de certas naus
Cruzou os mares. Será feliz? 410
Ou será como o saber dos pensamentos,
Onde as coisas se cruzam adoidadamente?
Venho eu de meu rumo ao leme e vem o mar
Tragar, e vem a noite. Ó estrelinhas,
Pequenininhas que abraço a meu coração, 415
Com toda a força,
Ó meu coração que não vales nada,
Por que parece o céu tão longe de mim?
Eu vejo estrelas e quero estar longe do mundo
Mas devo estar no mundo para ver estrelas. 420


21




Devo lançar ao vento as minhas questões
E ver que todo porto é porto velho.
Deitado ao chão que me fez poeira,
Vejo a vassoura e vejo o que não fui.
Vejo o que busquei e buscando não vi. 425
É verdade, o mar não cabe no mundo
E sou ainda menor.
Sou o ser que se impõe de alhures
Ao anjo iluminado, cujas asas
De alcançar estrelas nunca voaram. 430
Sou o menino cujos castelos
De areia o mar levou.
Ai, como seria lindo reencontrar um dia
Aquelas mãos dos meus amiguinhos.
Como seria lindo o anjo redentor 435
Vencer e defender o castelo.
Vem, espírito e símbolo arrebatador,
Manda embora de nós a maldade do mar!
Cabem tantas crianças e tantos castelos
Nas tuas asas, desce dos céus, aparece! 440


22




Aparecem estrelas, longe dos olhos,
Perto sobre folhas, sombras sobre mim.
Cintilam calmas, sempiternas em mim.
Deixai-me dizer que vos amo, estrelas.
Que a brisa leve além o canto meu d’amor, 445
Meu canto simples, meu amor fiel:
Meu canto que se perde ao vento,
Meu amor que alcança todo o céu.
Deus abençoe a inexistência dos anjos. ✠
Deus é que sabe o que sabe meu canto. 450
Eu buscava saber a novidade dessas
Alturas e nisto envelhecia: São do tempo
As alegrias acima do tempo?
Fico observando muito intrigado
Esses homens que escrevem poemas 455
Para hoje, ontem, para amanhã.
Escrevo antiguidades contemporâneas.
O que é hoje por entre oceanos?
Ainda não vi, estampado nos astros,
O nome dos dias nem dos séculos. 460


23




Darei a cada um o nome dum sentimento.
Viver é não entender do que se fazem
As alegrias supremas e o sopro.
São talvez aventuras químicas
No reino molecular secreto. Libações 465
Nervosas proto-existenciais complexíssimas.
O que se passa em sociedades de células,
Donde vêm e cujo líquido por onde escorre,
São o berço, isto sim, do riso e da verdade.
O berço nem sabe que existe, existe 470
Como um cérebro que pensa automaticamente.
Ou será que o sabe? Fico a pensar
Nas mitocôndrias sublimes e recônditos
Raros: Penso mas nunca avistei a essência
De mim que pensa. Vejo que nada vejo, 475
Nem a célula nem o seu pensar.
Existir é invisível, ver é parecer.
Mas será que existir é insensível,
Será que jamais poderemos entrar
Naquela essência pequena de sermos? 480


24




É tão pequena e maior que o mundo,
É o quase-nada que vai inventando
O infinito no meio da noite.
As alegrias dentro de mim ultrapassam
Os meus castelos de areia. 485
É estranho ser alegre e ser invisível,
Correr pelos lindos campos como um fantasma.
Bonito seria as estrelas de dentro de mim
Terem a forma das árvores, sim, dos vales.
Mas não, os neurônios são um quadro abstrato, 490
Divino e longe do crepúsculo.
As imagens que vou amando vão
Me dando o gosto da forma que não tenho.
É preciso pôr-se o sol
E despertarem no infinito os sonhos 495
Para que vejamos alguma coisa que importa.
As alegrias supremas não têm cor.
São tão profundas e tão cientes de si
Que são quase tristezas. Serenas,
Não aquelas desgostosas do todo. 500


25




São uma doce saudade
Do ideal impossível de além-ser,
Porquanto além de ser é não ser
E não saber. São as células
Do sublime além de nome e do limite. 505
O não-ser e o sublime se excluem?
Vinde me confortar, estrelas.
Quero ouvir dalgum recanto inaudível
Que o milagre manteve a doçura sua.
Do modo em que a mulher delicademente 510
Se entrega ao homem que ama, me entrego
Às mãos dos meus neurônios, que façam
Como queiram de meu corpo, que iludam
Meus olhos, já que todo ver é sonhar.
Entender o mundo é ficar cego. 515
É saber que as alegrias supremas
Vêm duma celulazinha tímida...
E eu aqui deitado pensando ver estrelas.
Que espelho intrigante existe
No meu cérebro: A célula reflete 520


26




A estrela, a estrela reflete a célula.
São a mesmo coisa? Talvez eu exista
Só na santa trindade do holograma:
A estrela, a célula e eu.
Mas é santa a trindade que me traz 525
Pela brisa as alegrias.
É santa a felicidade que emerge
De três hologramas feitos um:
Como o perfume que surge das essências,
Maior do que a mera soma de olores. 530
As alegrias emergem do meu não-ser
E me fazem maior do que tudo que é ser:
Além de ser e não-ser é gostoso além-ser.
Mas aquém é a vida, aquém o mundo
E no mundo a busca pelas suas palavras. 535
As estrelas cintilam caladas,
Pois a sua verdade é boa demais,
Ou deve ser, para caber em palavras.
Deve ser só comigo que a vida é assim,
Mas comigo a vida é esta: Só pareço 540


27




Existir e ser e me encontrar quando
As palavras me faltam. Pensar confunde.
Talvez as estrelas sejam as filhinhas
Que ainda não nasceram. Ah, não nasçam!
Continuem lindas no além-ser, continuem 545
Lindas na minha santa trindade, nas alegrias
Além de abrir e fechar os olhos.✠
Eu, que nunca saberei se as alegrias
Vêm de estrelas ou de células,
Se o de-mim criou o mundo além-mim 550
Ou se além-mim me fez mundo de-mim,
Direi que de-mim e que além-mim
São uma coisa apenas.
De nada me importa
A antiguidade do ovo ou da galinha. 555
Importa isto: As alegrias existem
No sonho dum firmamento
Onde é sublime perder-se no labirinto.
Os olhos vão criando o resto da vida
Pelo espaço, a vida 560


28




Nunca repetida, e vendo mais a fundo
E descobrindo além angustiados.
Quanto mais me perco por entre alturas,
Mais as alegrias supremas são serenas.
São desejos duma saudade 565
Indescritível do além-ser.
Quero abraçar bem forte o firmamento,
Sentir nas mãos a dimensão geométrica
Dos fins, a hipotenusa tangente,
Os paralelismos ímpares absolutíssimos 570
E o grau de adjacências angulares.
No quadro-negro os sistemas
Se concretizam e as maiores provas
Revelam a essência dos números.
Contando estrelas e perdendo as contas, 575
Vejo surgir do meio das sombras o infinito
Como um erro de cálculo e antecipação.
Os números cadentes são complexos
E quantos vão crescendo se repetem.
Inda não descobri, nem hei, se números 580


29




Quaisquer existam. As negatividades
Naturais e fracionárias da cadência
São traços humanos,
Caça ao vento as quantidades.
As alegrias são incontáveis, 585
Matematicamente inalcançabilíssimas.
Daí o problema: Se é matemática
A prova do mundo e do canto estelar,
Em que tristeza terei de viver,
Eu, que nunca soube nem hei de contar? 590
Quero contar o amor do meu canto estelar,
Mas a qual das cifras equacionar-me-ei?
Dizer que sou um? Mas em mim se move
O todo. Vou destruindo em noites doces
As leis da natureza e dos números. 595
Na minha confusão circulam
Quantidades infinitas como o nada.
Vou baixando os olhos e as asas:
As alegrias não existem sem os números
Mas só no fim das cifras são verdade. 600


Canto Estelar Folium II






Não se pode contar a verdade do céu. ✠
Outrora eu contava as pedras dum dominó
Vermelhas. Não sabia o tamanho do mundo,
O tamanho do mundo não me via.
Esparramava as pedras no chão 605
Que meu pai me dera e construía casas.
Ninguém se importava c’as minhas casas.
Apenas eu sabia quais impérios fundava
Em arrumar as pedras sobre as outras.
Evitava o que existia ao meu torno, 610
E no esquecimento das causas
Surgia o coliseu de Roma, o circo máximo.
Era uma construção custosa às minhas mãos.
Bastava um vento, um deslize qualquer,
E Roma vinha abaixo e restavam ruínas. 615
Era belo o meu sonho arquitetônico,
As suas cadências trágicas.
Eu meditava surpreso a transição das pedras,
Eu já sabia que as alegrias são breves
Pois eram como os sonhos, cujo fim 620


31




Eu via arruinado pelo chão,
Enquanto os homens
Pensavam que o meu silêncio era tolo,
Meu silêncio grave.
Mas era tão doce aquela gravidade 625
Contemplativa dos olhos silenciados
Que o seu silêncio se impunha além
Como se a sala inteira fosse meu sopro.
Nessas horas, as mais antigas que alcanço,
Eu era ingênuo. Não porque fosse criança. 630
As alegrias vinham como as surpresas
E todo o meu peito estava aberto.
Deitado sobre a relva, agora entendo:
As alegrias têm de ser surpresas,
Ingenuidade o peito aberto. 635
Eu era ingênuo e quero sê-lo ainda.
Eu sei a causa da ruína e dos impérios
Mas vejo estrelas qual se nada soubesse.
Descubro em repetidas cadências
Que as repetições surpreendem. 640


32




Por isto nunca me cansava,
Aos quatro anos, de reconstruir
Pequenos coliseus e mundinhos
Fadados a ruir, mas belos e tão repletos
De surpresa. Não me importava o paradoxo. 645
Eu era parte de Roma e Roma dos sonhos
E os sonhos eram a vida.
Alegria é ser parte de toda parte,
Eterna se algum eterno existe
Fora das pedras que nos dão memória, 650
Memória saudade, saudade alegria.
A maior surpresa da minha vida
Veio quando exclamei, do banco de trás:
– Olha o mar! – e não cabia no carro.
Em torno de mim os homens riram 655
Da minha pronúncia errada,
Da irrelevância do mar e do ingênuo.
Mas era a primeira vez que eu via o infinito.
Naquele exato instante, entendi
Que a minha vida era a busca do belo 660


33




Mas o belo era além do horizonte.
Era parte dalgum além-ser
Inalcançável. Ainda não lera,
No poeta, que a alma é incomunicável,
Que as alegrias são apenas minhas. 665
São moções de indescritível enlevo
Frente à revelação repentina do azul.
Eu me abraçava aos traços imprecisos
Como se algo de mim corresse ao horizonte,
Mas aquele horizonte estava em mim, 670
Entrava co’m mar os olhos adentro.
O mar se acaba no céu e dentro de mim.
O mar é memória. Será que me confundo?
Existirão alegrias na memória
Se a memória vem de ontem e as alegrias 675
De agora? Haverá na saudade
Alegria? Deitado no mar estrelado
Fecho os olhos, respiro o sopro leve
Que leva embora a resposta. Não sei
O que é o vento e donde vem. 680


34




O sopro leva embora os pontos
Cintilantes que os olhos ligam num traço,
Revelando mais estrelas e ao fundo
Imensidões incogitadas,
A margem do além-ser por onde as alegrias 685
Acordam e sonham. ✠ Fico deitado,
Passei a vida inteira deitado.
Ninguém sabe estar de pé: melhor se deitar
Para ver os traços que vão desenhando
Coisas desmedidas daquém além, 690
Livres da angústia e da saudade.
O corpo deitado, este sim recorda,
Torna as alegrias memória,
Memória saudade, saudade tristeza.
As alegrias não são de se pensar: 695
Pensar e pesar na nossa mente
São a mesma coisa. Então pesarei
O sopro leve? Surpresa é sentir
E os sentimentos não pesam:
Quanto mais se libertam de nosso peso 700


35




Mais se revelam e vemos mais estrelas.
Mas no meio do céu existe a grande lacuna
Pela qual se perdem as minhas células.
Se não se pode pensar, parar, pesar
As alegrias, se existem 705
Para ser esquecidas
E enfim me esqueço das alegrias,
Não serei triste? E como ser humano
Sendo nem alegre nem triste?
Como é vão o silêncio noturno 710
Onde o sábio procura o seu saber.
Anoitecer é a refutação dos sábios.
Mas ai, não era estrela, saber ou noite
O que eu buscava no infinito,
Era só uma palavra. 715
Esses astros de longe estão longe
Mas a palavra mesmo de longe é perto,
Existe como uma coisa dentro de mim!
Existe para ser escrita quando a estrela
Se esquece pelo que não pode ser dito. 720


36




Bonito é viver sem ter que nada aprender,
Nascer com todas as palavras já dentro,
A vida a noite da alegria incondicional.
Quem me dirá o nome de todas
As estrelas? Quem as porá delicadamente 725
Dentro de mim antes de eu existir? ✠
As alegrias supremas são belas.
Será que o belo, que não entendo,
É menor que os castelos e os sonhos
De areia que andava, eu, a construir? 730
Foi no tempo do dominó
Que me vi diante do piano e quis tocar,
Ouvindo a voz de dentro: Toca, toca,
Toca de qualquer jeito mesmo,
O mero toque é a tua libertação final. 735
Com quanto gosto pus as minhas mãos,
A minha alma sobre a promessa das teclas.
E que tristeza ouvir a resposta das teclas,
Que entre a vida e a salvação
Deve haver a arte, mas que a arte 740


37




Custa a vida inteira. Foi ali que acabou,
Duma vez por todas, a minha infância,
No antessonho do céu que entrevi de tão perto
Para então perceber que era longe de tudo.
Como invejei a facilidade do mar 745
Que abriu a porta do carro
E dos meus olhos e foi amor infinito,
Foi simples, repentino, espontâneo.
Como foi gostoso ver o mar e abrir a boca
E chorar e pensar que a vida é bela, 750
Boa e redentoramente singela,
Como uma tecla que basta tocar com amor
Para soar, do próprio coração, a canção
Que redime a dor do mundo inteiro,
ah, que canção bonita, serena, infinita! 755
Mas a verdade é que embebemos o mundo
Só duma forma estudada por onde se perde
O que a alma teria a dizer se a sua verdade
Fosse bela e salvadora só por ser dita.
O piano que outrora eu quis tocar 760


38




Era a comunhão final entre a alma
Na sua liberdade ingênua e o resto
Do universo num canto estelar. ✠
Quando atinei co’m limite do mar,
Que o mar divide o mundo da terra 765
Mas o céu é de todo lugar,
Entendi que o meu rumo
Era virar astronauta e voar.
Era tão clara a minha vocação!
Aos oito anos o trabalho liberta, 770
Ter uma profissão é ser feliz.
Aos oito anos dinheiro pouco importa,
A vida é sim uma busca
De peito aberto à transcendência:
As escolhas são livres e grandiosas. 775
Nesse mundo sensato e melhor,
Como era fácil voar a Júpiter
Ou pelos anéis de Saturno,
Como era palpável o infinito.
Bastava entrar na máquina imensa 780


39




E zarpar desvendando os espaços,
Ah, e como era refrescante zarpar.
Faria meu pouso em alguns planetas
E seguiria depois o meu rumo
Por estrelas e perdições geométricas. 785
Anunciava aos da casa e pela escola
Que a viagem sideral era próxima.
Os professores que eu amava sorriam,
Ou riam dessa loucura chamada infânica.
Que eu estude! Que eu pague o preço 790
Da liberdade, antes da noite encantada.
Agora que me deito por entre estrelas,
Que me tornei senão astronauta?
É como se fosse a mesma viagem.
Hoje os astros se fizeram palavras 795
Onde navego e por onde me perco.
Mal imaginava a criança,
Naquele tempo, que grandes profecias
Lançava sobre uma vida.
O astronauta é um homem perdido 800


40




Porém livre pelas nebulosas.
Não sou deste mundo. Ninguém é
De lugar nenhum, mas cada um
Vai brincando com suas estrelas.
A sombra que paira em torno 805
Consola no seu mistério calado.
Das metamorfoses invisíveis
Abandono as que posso tocar.
Abandono pois são de mentira
Como é longe da verdade a forma. 810
O belo ultrapassa os sentidos
E as alegrias são intocáveis.
Vem dos olhos o querer vê-las
Num pentagrama estelar.
A beleza do ponto é ser ponto 815
E nada mais. O resto do belo
Somos nós que inventamos:
As imagens que descobrimos,
A dança em que nos perdemos
Docemente, ah, a cegueira doce 820


41




Do olhar que se eterniza na sombra.
Mas se o belo ultrapassa os sentidos,
Tem sentido a arte que busca o belo?
Arte é calar a boca, o resto é viver
Errado e errando como as alegrias. 825
Não existe poema bonito,
Poema é longe do além-ser
Sublime tão pequeno e tão imenso.
Poema é perder-se na busca do impossível.
Bonito era toda busca ser um abrigo, 830
O belo o telhado
Por onde o ser repousa.
Mas são conceitos as esperanças.
Ainda que a busca seja possível,
O achado é distante. 835
A busca evoca a dor do limite,
Do pequeno que não cabe em si mesmo.
A busca é de além-ser, mas a vida é ser
E não lhe importa o canto do incomensurável.
Viver é sonhar e despertar do sonho. ✠ 840


42




No tempo do dominó vermelho,
Quando todo canto era verdadeiro,
O meu avô cantava como os seus avós
A sua canção de sertões esquecidos:
– No saco do limão, lá, onde eu nasci – 845
Era tão serena essa simplicidade...
Eu ouvia as palavras baixando os olhos.
Parecia-me torpe, confesso,
Nascer num saco eu, que não conhecia
Nem conheço direito as metáforas. 850
Os limões são azedos,
Sim, mas hoje pensar é doce:
Viver a vida inteira lá
No frescor do saco do limão,
Na canção antiga dum verso só 855
Ou do seu único verso que ouvi.
Nada é sublime no saco do limão.
Nenhum dos astronautas explora
O pedaço de pano. Vai se romper
E virar trapo, e alguns limões 860


43




Perder-se-ão. Mas ainda jazo,
Os olhos abertos
Desvendando os limões pelo céu,
E sinto a liberdade do pano.
Onde o velho nasceu no azedume, 865
Onde o belo é longe do sublime,
O belo que é torto abriga as almas.
São conceito meu as almas.
Quero pô-las no saco e dar-lhe um nó,
Levá-las comigo, andar além 870
Pelos ermos, o peso leve
Sobre as minhas costas, cantando.
Inscrevo no pentagrama da estrada
Notas e brincadeirinhas simples.
Vou pensando nesses jogos 875
De limão, jamais sublimes,
Nem mesmo os duma beleza sutil,
E fico triste, já que tanto queria
Por perto a margem do além-ser.
E no entanto espremo os frutos rudes 880


44




Com todo amor das minhas mãos
E vejo a liquidificação do verdade.
Vou bebendo o mel dos limões
E vendo que o belo absoluto é água.
São alegrias por onde flutuam 885
Logo e logo afundam as formas
Incorruptibilissimamente insípidas.
São inodoras, assim na terra como no céu,
Em reverberações incolores. Emanam
A imagem cega dum belo supremo 890
Que foge a forma e sacia a sede. ✠
Quero escrever teorias tremendas,
Verdades profundamente infundadas.
As estrelas são gotas d’água.
Eu saí por aí voando como astronauta 895
Muito longe, mas a destinação
Sublime, o porto final
É perto e se chama hidrogênio,
Ele e seu pequeno universo atômico.
Ah, moléculas, invejo eternamente 900


45




Simplicidades impassíveis,
Como o lipídio maior que meu sopro!
Mas contemplo as estrelas donde estou
E sei que logo estarei liberto.
Quando a complexidade acabar-se, 905
Sorrirei alegre entre os pontos
Na metamorfose-mor apocalíptica.
Ou serei um espírito eterno vagando,
Ou talvez a fração de leveza hidrogênica.
Aguardam-me tantas beatitudes 910
Delicadas pelo desconhecido líquido.
A maior alegria, eu sei, é a gota
Em metamorfoses máximas
Na liquidificação do meu ser infinito:
Nada é mais bonito que a lágrima. 915
Foi por isto que o mar me tocou,
Horizonte que em vão descrevo.
O mar são as alegrias que as palavras
Poluem. Quando falta a gota
A vida é sede, se falta pão 920


46




É fome, mas quando é sopro a falta
A palavra é qual? Ainda não sei.
Carecer de palavra é liberdade.
Ah, mas como é longe do saco do limão
A liberdade! 925
Sou prisioneiro de palavras pobres
E me rendo a cantigas,
Eu, cuja vontade é confusão apenas.
Quero me contradizer constantemente:
Quero que todos os espalhafatos 930
Libertem o mundo inteiro da lógica.
Quero que se revele a miséria das letras
E dentro delas a minha esperança.
Já me conformo com algumas letras
E a redução dum ser que já é pequeno. 935
Aquelas almas do saco do limão
Quiçá se alegrem nos seus antessonhos.
Talvez se esqueçam da sublimidade.
É maravilhoso esse confundir-me sempre:
Descobrir que o ser das alegrias 940


47




É sentir-se ser dalguma parte,
Depois dizer que a verdade de nós
É o porto sublime do além-ser.
É maravilhosa a confusão astronáutica.
Se a verdade das alegrias é além-ser, 945
Alegria é não ser parte de nada.
Assim me ponho triste a pensar,
Pois é tristeza o termos de pensar.
Brinquemos cons olhos e os astros.
Somos pano ao menos do hidrogênio: 950
Voarei um dia por aí, de verdade,
E se as moléculas perderem as asas
Reduzir-me-ei à cadência do fóton. ✠
Eu quisera que a substanciação da luz
Fosse uma brincadeira. Quanto mais 955
Vou desvendando as cores, mais recordo
O grande mar abrindo a porta do carro.
Naqueles anos de horizonte infinito
Eu via os quadros pregados na sala.
Eram perfeitos os traços, e austeros, 960


48




E a palidez dos homens, paralisados
Pela eternidade, lançava aos meus olhos
Uma dignidade densa e amedrontadora.
Mesmo as árvores livres gozavam
Duma perfeição fantasmagórica. 965
Eu, que me sentava à mesa calado,
Pondo o peso da mente entre as mãos,
Descobria no traço o resumo dum mundo
Retângulo. Os seres começavam de fato
Dentro daquelas molduras, apenas lá. 970
O resto de fora era um mero resíduo.
Era desde então o mundo de dentro,
Secreto, que eu amava, o mundo belo
E que jamais sorria ao seu além-ser,
O além-ser medíocre de fora das molduras 975
Que era apenas eu, cabeça entre as mãos.
Fui crescendo em meio à palidez perfeita,
Por entre pontos de esferas abstratas
Lembrando estrelas de alegrias sérias.
Inda às vezes busco em meio a miragens 980


49




As cenas pequenas de além-molduras.
Eu me deito sob a relva estelar
E cerro os olhos, que as alegrias
Não me sejam somente retângulos,
Envolvam, cá e lá, algum trapézio. 985
Como, porém, se o mistério das retas
É loucura, vou buscando o sublime
Como a sensatez harmônica das cores?
Na tela, todos os traços se explicam,
Parecem projeções da razão ousadas. 990
Explicam-se pela própria moldura,
Pelas bordas. É razão que define
O fim do mundo em margens firmes.




II





Eu, que jazo no entressonho,
Levava ao pátio da escola 995
A razão irredutível das causas.
Conhecia pouco as estrelas
E as alegrias eram ingênuas.
Meu mestre pouco tardou.
A lição ressoa ainda, 1000


50




Lembrando a cada passo o que sou.
É que uma vez apareceu, no idílio
Das flores lá do pátio,
Durante o recreio
Que como a tela eu quisera imóvel – 1005
O gato magro. De que buraco saiu,
Ou telha, não me lembra.
Era um demônio – era feio.
Vinha turvar o brilho do éden
Onde meus sonhos nus andavam. 1010
Não gostei dos membros
Que expunha, os pelos dispersos,
Angustiante o miado.
Não havia lugar, nem poderia,
Para aquilo no belo absoluto. 1015
Pois decidi, corri
Por entre os circundantes
E com toda a força agi
Como ordenava a razão:
Dei-lhe um pontapé bonito! 1020


51




O gato gemeu
E os homens indagaram Caim:
– Que fizeste? – Um gosto amargo
Vestiu, naquele instante,
A nudez do meu ato. 1025
Eu, que sonhara libertar
Do egro o meu éden, transformei
As quase-lágrimas num remorso
Incompreendido. A voz acusava,
Mas se a minha revolta 1030
Não banisse o gato
O belo seria menor.
O belo a que meu ser anelava
Era sem limite, era sem concessões.
Não havia sentido 1035
Existir, por entre estrelas:
Aquilo. Feri
Para que o mundo fosse perfeito.
Mas os homens do éden
Cercaram-no, como se adorassem 1040


52




A sua dolorosa estranheza.
O gato me olhou, mancou e foi-se embora.
Por entre o jardim,
Deixou para trás o peso da existência.
E porque me faltasse uma doce nudez, 1045
Dentro de mim eu contemplei o sublime
E dentro de mim calaram-se alegrias.
Pus o meu rosto entre as mãos:
Ergui meus olhos depois e ouvi
Meu veredito. 1050
E de saber como era carinhoso
O que meu peito buscava!
A infância inteira se perde
Num gesto apenas,
Num gesto pequeno, 1055
No amor ao sublime
Que apaga, ou quer apagar,
A dor do gato magro.
Depois o busquei,
Depois saí correndo. 1060


53




Estendi meus braços,
Pedi que voltasse ao singelo jardim.
Foi aí que chorei.
Mordi naquele instante o pomo
Proibido do saber, e como o saber 1065
Condena fui expulso do éden.
Antes meu amor às estrelas
Era nu, porque não amava o mundo.
Agora as alegrias
Nunca mais seriam as mesmas. 1070
Não tem como ser bonito o gato passar
E a pessoa chutar. O limite
De muitas coisas eu desprezei.
Ou por si mesmas ou pelo gosto
Da minha culpa, as estrelas fugiam. 1075
Eu, que divido o destino dos maus,
Percebo-as longe de mim
E vou chutando as pedras e as ondas do mar
E navegando a mágoa do meu coração.
Queria viver para olhar as alturas, 1080


54




Não para tropeçar em pedras.
Será maldade querer voar por aí
Além de tudo que é mundo?
É gostoso quando a cada passo
Parece haver uma nova alegria. 1085
Meu mestre me ensinou:
Ser bom é deixar
A vida passar e deformar
A verdade que não cabe no mundo.
Não pode ser meu coração 1090
O juízo final da beleza.
Talvez de perto a estrela seja feia.
Os dias do dominó vermelho
Foram alegres. Foi bonito o mar
Abrir a porta do carro, 1095
Dizer que as alegrias existem
Antes do querer ser e saber.
Mas a lição do banco de trás
Foi a primeira, havia mais.
Hoje eu sei que na estrada sublime, 1100


55




Por onde em sertões eu carregasse
O saco do limão nas costas, eu não
Me incomodaria não se atrás
De mim viesse, na sua estranheza,
O gato magro. Mas não virá, nem pode, 1105
Depois de tudo o que fiz. Nem eu
Carrego, nem sei, o saco do limão.
Mas é muito abundante a bondade,
O mistério que abraça os bons e os maus.
Olho para cima com medo de ser 1110
E surgem, de modo inadmissível,
As alegrias supremas, serenas, pequenas.
Não me perguntam quem sou, o que fiz
E porque me entristeço co’m pranto
Dos inocentes. Quero deitar 1115
E render-me ao juízo,
Mas uma graça distante
E desconhecida me pune
Coas alegrias que não mereço.
A bondade brutal do bom é boa: 1120


56




O mau arrasa o mundo
E recebe a sua graça infinita.
Quando o peito é verdadeiro
A vida não precisa não de juiz,
As alegrias podem continuar 1125
Soprando aos condenados, soprando
Deliciosamente como só elas sabem.
Eu, que buscava as estrelas,
Não queria saber, queria o sopro.
Todo malvado pensa que é bom 1130
De algum modo, e talvez seja.
Todo bom homem sabe da sua maldade:
Somos iguais perante as alegrias.
Somos as folhas da árvore da vida
Que o vento sopra sem querer 1135
Saber seu nome e sua vida,
Pois o vento é gostoso e bom.
Navego no vento rumo às estrelas.
Ah, qualquer lugar é bom
Contanto que não seja mundo. 1140


57




Não circulam no espaço os carros
Nem castelos existem nem areia.
O dominó vermelho cai ao chão
Sem fundo, fundo o saco do limão.
Ó minha vida, redime-te! 1145
As mãos que as minhas mãos ligavam
Castelos de areia adentro, cadê?
Quero cantar e repousar meus sonhos
Sobre a relva imaculada,
Quero que o tempo seja filho do vento 1150
Balançando as folhas.
Há maldade demais neste mundo,
Mas vento leva embora a maldade do mundo.
Eu vejo os céus e sei que a vida é crime,
Mas o vento é santo e maior do que o crime. 1155
Me leva deste mundo, vento,
Leva-me embora pelo universo inteiro!
Mas que bobagem a folha querer
Deixar sua árvore. Beija a folha,
Vento, no colo da sua mãe que a segura. 1160


58




Deve haver uma distância correta
Da vida e da estrela.
Sou filho da mesma árvore
Que incuba a flor verdadeira.
É preciso estar longe de muitas coisas 1165
Para estar perto do quanto importa.
Não que muito me importe, não,
Importa o sopro breve que me enleva.
A minha condição revelo ao vento
Que leva ao desconhecido a verdade que sou. 1170
É destino digno sim deste mundo
Querer subir ao céu e marcar, por onde
passo, o traço de toda a maldade.
É destino severo o prenúncio
Da eternidade perante a visão do mar 1175
Que se quebra em suas próprias ondas.
Mas existem as alegrias além das ondas,
Do fundo do mar à copa das árvores.
Meu erro foi a distância:
Estive perto do gato, 1180


59




Longe da estrela e do vento
Das alegrias supremas, que são noturnas.
Qualquer dia descubro, eu sei,
O amor correto no seu espaço
E no meu canto estelar. ✠ 1185
Abri meu coração aos sete ventos
Sem me esconder de mim,
Como se até tivesse renascido.
É comum querendo o bem fazer o mal.
Quando a cegueira abandona a doçura 1190
Os pés vão chutando as pedras e doem.
A verdade é que quero estar alegre
Toda parte, mas o espaço é falta.
Quero passar de peito aberto
Mas o peito é saltar dum abismo 1195
E sou a pequenez dum sonho.
Salto por ser sonho a minha essência.
As alegrias ultrapassam o espaço,
Voar e pousar.
A liberdade do abismo aberto 1200


Canto Estelar Folium III






Salta sem medo de suas asas.
É tão bonito o voo
Que redime a maldade do abismo
E resta o prazer da distância.
No pentagrama que as notas 1205
Preenchem, as linhas que se ligam
São quimeras. São longínquas
As massas e as frações corriqueiras.
A matéria escura em torno
Vaga e flutua – sonha. 1210
Mergulho na escuridão fantástica
E as alegrias me trazem a luz.
Os olhos brilham sem nada entrever,
E no vislumbro da liberdade
Nada se teme e nada ocorre de mal. 1215
Estou sozinho e deixo como os astros
No rosto escuro o traço universal:
Na sublimação dos males a poeira.
O grão se perde tão longe dos sonhos
Que nem lhe resta um ser a ferir. 1220


61




Abri meus olhos por um segundo
E vi que o mundo é corriqueiro atrito.
Fora do palco onde concorrem massas
Paira uma treva tranquila e me espera.
Cabem no abismo da energia desconhecida 1225
Os universos e a vida das almas.
Do fluido etéreo dum estranho além-ser
As alegrias ressurgem,
As criações explodem, expandem-se
Como o pulsar dum sentimento máximo. 1230
Surge uma estrela logo ali,
Que a minha mão vai tentando alcançar
Como se o brilho fosse aqui do lado.
Por entre sóis e distração de flamas,
As obras verdadeiras não se vê. 1235
Será que vejo alguma coisa que importa?
Queria ter sido bom a vida inteira.
Como fugir o mal que está em mim
Se estando em mim o mal vive em todos?
No além-espaço onde as alegrias sopram 1240


62




E do ser a sós a nudez é suprema,
Os sonhos não têm anseios.
Fora dos olhos os olhos
Repousam livres do não saber agir.
Mas vivo abaixo e dentro dos olhos, 1245
Vivo a dor de o mar ser belo, a vida feia.
Vivo sem saber que leis seguir
Nas concentrações passageiras do átomo,
Sociedades de prótons e proletários.
Já conheço o fim de todas as novidades. 1250
Sei que depois da noite vem a manhã,
O dia do gato magro e do pontapé.
Sei que depois do dia vem a sombra,
A noite em que lembro o meu erro,
Pois um gato magro queria passar 1255
E não deixei passar o meu gato magro.
Contemplo as conglomerações,
E como sei que sou poeira a sós
Ou cercado, deixo de as contemplar.
As alegrias compreenderam meu erro. 1260


63




Deus abençoe as alegrias que invadem
A vida em seu demérito antiestelar.
Meu peito queria sumir deste mundo
Mas tem de olhar ao lado,
Tomar cuidado e não chutar caídos. 1265
De vez em quando aparecem estrelas
E todas elas são apenas eu.
As alegrias que vêm de verdade
São surpresas livres como o sopro.
As alegrias supremas são noturnas 1270
Como a brisa perfumada do norte.
Abracei pela noite as estrelas,
E deitado sobre as flores do mal
O olor das flores redimiu Caim.
Se estendo as mãos, serei bondoso? 1275
Será que posso fazer o bem
Sem nem saber que coisa eu sou?
Meu dessaber insulta as horas:
Bom mesmo é ver o céu aqui calado.
Estendo as mãos 1280


64




Na espera do vento e da redenção.
Será que meu coração é bom?
Será que é bom desejar a estrela?
Será que é mau não saber de nada?
Deve ser calmo o ser sem amor e ódio. 1285
Mas como canto o meu canto
Dum peito aberto a surpresas,
As alegrias me dão um canto
Que vem do vento e não do juiz.
É gostoso o vento passar na poeira. 1290
Tem que ser humilde a vida,
Como este céu que parece um jardim
Singelo e doce. Bonito era não existir
A lembrança do gato magro
E de muita maldade atrás de meus sonhos. 1295
É verdade, viver é ser culpado
E flutuamos juntos no sangue inocente.
A culpa em cima dos ombros
Tem o peso do segundo e dos séculos.
A culpa é maior que o tempo, 1300


65




Mas a graça é maior que a culpa.
Ela vem de graça, essa graça
Que leva embora o tempo e a culpa
Numa dança imensa e maravilhosa
Rumo a nada demais, moleculazinha 1305
De pontos borbulhantes ultra-universos
Onde o vento redime a poeira.
Mas como vivo ainda sou poeira
Antes do vento.
Eu me confortaria no esquecimento 1310
Se não fosse aquela ilusão da culpa
Que se fez imortal.
Contemplo a sós minhas mãos
E reconheço a verdade.
Estou deitado sobre o sangue 1315
Dos mortos cantando pelos astros,
Mas pelos astros os mortos estão comigo
E no meu sangue vivo também,
Cantando além da vida e da morte.
É relva tudo o que me abraça 1320


66




Na escuridão bondosa.
As alegrias, que nem mereço nem peço,
Vendo meu peito aberto ao seu desfecho,
Descem dum sopro leve sobre mim,
Como se tudo em mim fosse puro. 1325
Aceito a surpresa que não peço
E vejo, no escuro mais profundo,
O espelho da verdade além da mim.
Meu peito fez as pazes
Com toda a distância dos sonhos. 1330
Os astros vão vivendo
Cada qual segundo a sua luz,
Levando atrás de si o mistério gozoso.
Eu vejo estrelas e vejo o que sou.
Busco no belo o bem 1335
De não fazer aos outros o que espero.
Será que é bom me abandonarem
Como quero abandonar a todos?
Não tenho cura?
A nudez que procuro é inalcançável. 1340


67




Esses tolos que quero deixar,
Feitos da mesma poeira
Que me nasce, são meus irmãos?
São acaso hereditariedades,
São Abel e Caim por acaso: 1345
Nascem e morrerão.
A nudez se revela
Nos astros, em seus brilhos
E tamanhos diferentes, independente
Dos fótons idênticos. 1350
É tão grande a liberdade, o mistério,
Que qualquer uma luz
Poderia ser qualquer outra.
O segredo de uma estrela,
A identidade atômica 1355
Está contida, se numa, em todas:
A poeira é feliz em sua luz.
Deitado vendo os astros
Vejo meu rosto deitado.
Como o pó que se faz da eternidade, 1360


68




Olho o derredor
E no pó dos meus irmãos
O ser que passa nos seus passos
Sou eu, a minha imagem.
Tapando os poços daquelas vidas 1365
Vou tapando os de mim mesmo,
Abel e Caim. Mas no começo
Do éden eu já estava contido
numa fauna estranhíssima.
Na fúria contra o gato magro 1370
Foi a mim que feri.
Nas alegrias parte do todo
Foi a mim que me descobri,
E mesmo culpado gostei de existir.
Em casa de Caim, ou de Abel, 1375
No dia do horror e da piedade,
Meu braço é generoso aos dois
Como se fossem os dois meus braços.
Mas o resto dói
Do chute contra mim mesmo. 1380


69




Fecho os olhos para sonhar
Os sonhos onde o gato e eu
Dançaremos a valsa do adeus.
O céu vestirá seu mais belo vestido
E dançará conosco. Pela estrada 1385
Eu quero andar e pelo silêncio,
E se na esquina deparar-me
Com alguma coisa,
Eu tirarei do saco do limão
Uma prenda divina e dar-lhe-ei, 1390
E direi que a vida é maravilhosa
E pedirei perdão pelo horror desta vida.
Quem sabe algum sertão de avoengos
Veja surgir, sob as auras do espírito
Lene, um paraíso perdido, 1395
Caim redimido
Não por mérito, pela verdade:
Caim é toda a gente vendo estrelas. ✠
As alegrias que nascem do saco
Têm um limão guardado 1400


70




Para cada boca.
O tempo maltrata o pano velho
Do saco, mas o mistério fresco
Que vem de dentro
Mata a sede de toda boca, 1405
Mata a sede e mata o prório tempo
No gosto azedo e no cheiro doce.
O pano se rasga e cai limão na estrada
E quem passa pega e quando pega
Vira astronauta do fim do céu: 1410
O limão se faz a sua estrela.
Pode cair, pode exalar o seu cheiro
De alegrias supremas.
Nada se perde no rio luminoso,
No rio que se libertou de suas margens 1415
Quando brotou do saco do limão.
Foi do saco do limão que o rio brotou.
O canto estelar brotou de onde?
A vida é assim: Quando descobri,
Na distância do mar, 1420


71




As impressões do horizonte
E da cor deliciosa, desdenhei
A luz dos postes na calçada.
A cidade ofusca as estrelas
Mas vem da luz da cidade, 1425
Depois do mar, a imagem do gato magro.
A cidade anoitece as árvores
Do novo alaranjar que cobre as ruas,
Mas o alaranjado carrega seu sonho.
Hoje eu me sento ao pé dos postes 1430
E deixo a cor pousar em meu peito.
Hoje eu sei que nenhuma luz é mentira,
Nem me incomoda o tom que cai
No meio do asfalto. A rua feia
Afaga a sua estrela escondida. 1435
Miro no poste elétrico o mistério
Da transubstanciação sintética.
Paro e procuro pela calçada
A metamorfose de todos os fótons.
Acabei de pensar que a beleza 1440


72




Sublime é como o líquido pluriforme.
Mas agora a reduzo
À força atrás do poste, que é feio,
Mas invisivelmente suprema.
Deito-me à relva e pouco importa 1445
Se acima paira um poste ou espaço.
Desconheço a matéria do sopro
Onde as alegrias se fazem lugar.
Mas sei, entendi finalmente,
Que as alegrias passam pelos postes, 1450
O que não sei é o que são
As alegrias, o poste e o passar.
E eu? Serei mais que uma palavra?
No tempo do dominó vermelho, diziam
Que as palavras do grego têm espírito. 1455
Quando aprendi, no dicionário,
O sinal do sopro lene e dos ásperos,
E que o nome parábola lá do grego
Deu à luz o nosso nome palavra,
Achei muito bonito. 1460


73




Vi a parábola em sua curva transcendental
Virar a curva dos sons que a boca fala.
A vida passa e o verbo está contido
Na curva de suas próprias letras,
Sim, achei muito bonito. 1465
É uma curva rara, uma curva de muitas coisas
Que levam ao zênite.
Cabem letras e estrelas naquela curva,
Cabe todo o trajeto do rio que brotou
Do saco do limão. 1470
Cabe tudo, ou quase tudo: Não caibo eu,
Que sou pequeno demais para o zênite.
Não, o que me cabe é meu canto estelar.
Não por acaso o grego deu aos astros
Espírito lene: A noite é tranquila, 1475
Presa da luz que encuba todos os dias.
Não por acaso o sol carrega, hélio,
Espírito áspero em seu calor,
E contudo um calor estrelar.
Onde terá perdido a lenidade? 1480


74




Perdeu depois do zênite,
Aurora é o fim da parábola.
Acusarei de crime os dias,
Eu, que contemplo no infinito
O nascer e o termo das palavras? 1485
Não existe infinito sem parábola,
E no entanto as parábolas findam.
Amo a sua curva que nada importa.
É dela, exatamente dela,
Que vêm de noite as alegrias supremas. 1490
Vêm do encontro da letra e da estrela
No topo de zênite.
Ali se encontram e descem dali
Na corrente do rio dos ventos
Perfumados de cheiro de limão. 1495
É muito boa a graça do vento
Que leva o meu canto ao fim do curva. ✠
Mas nem o zênite alcança o além-ser,
Além do mais belo e mais distante
No abismo e na cresta das ondas do rio. 1500


75




Balanço a cabeça e sei que ser,
Ser é mais além de tudo e de nada.
É uma esfinge.
Que me importa saber o ser?
Mas que nome darei ao meu ser 1505
Se meu peso no chão é poeira
E se em poeira se perde o limite
Entre os dois, meu ser e meu não-ser?
Fecho meus olhos para abrir e vice-versa.
Em não-ser está concebido o ser 1510
Negativamente sendo – eu não sendo
Sou astronauta. Se ser eu sou,
Se algo é, o algo é ser para quem?
Apenas para si mesmo ou para além?
Além do ser ninguém sabe o que é, 1515
E se o si mesmo é ser é mistério.
Como não? Eu, que penso e pareço,
Penso como parábola, não como ponto.
Vejo minhas estrelas e sei,
A parábola é o passo do ponto, 1520


76




Nem o ponto é ponto sem palavra.
Será mesmo tudo uma coisa só,
A curva e seus pontos
Infinitamente unidos e alheios?
Dentro de mim e do quanto peso, 1525
Sou e não sou em meu sopro?
Dirão que sou porque penso.
O pensar que não pensa a si mesmo
Deixa de ser? Deixo de ser o instante
Para ser mais, um não além-parábolas. 1530
Mas que digo? Quero deixar
De tratar o ser como se fosse estar
Aquém, além dum outro ser ou de mim.
Quem sou eu, serenos do espírito lene,
Para saber se sou e quem, que coisa sou? 1535
Ao sofisma prefiro a coisa simples,
Eu, que invento o verbo ser
Para ser uma ponte entre os pontos
E as parábolas, como se fossem dois
O que sempre foi um, mas dois 1540


77




Perante a fraqueza doce dos olhos.
Quero que o verbo ser do belo absoluto,
Se mau, seja um mal necessário. ✠
Nas asas do meu canto estelar,
Retorno à relva onde meu corpo pousa 1545
E não temo a brevidade da vida.
Temerei a morte
Se sendo pó venci no sopro a vida?
Nada me separa da massa
Que transforma os céus em astros. 1550
Eu sou a massa de todas as coisas,
Eu sou a quintessência enérgica,
Eu sou o poder que permeia o que há,
Pois como sou poeira existo sempre.
Meta-metamorfoses 1555
Heterogêneas, ser eterno é ser pó.
Ai se pudesse ser menor do que sou,
Eu, que tenho em mim a poeira infinita.
Quando morrer, eu formarei estrelas.
Serei, em toda a força do significado, 1560


78




Serei astronauta. Voarei pelo ser,
Voarei, na reconciliação derradeira
Com a treva tranquila, irei pelo ser
E pelo não-ser, e pelo belo absoluto
E pelo saco do limão, e pelos mares – 1565
Como um poema que ninguém leu
E vive escrito e viverá em todos.
Assim será completa a presença de mim
E da gozabilidade do universo.
Serei eu mesmo as alegrias que invadem 1570
O verso das vidas ingênuas.
Mas ainda vivo e como vivo contemplo
Pelas estrelas a dor.
Joguem fora do mundo o televisor,
Pipoca e musiquinha: A condição humana 1575
É trágica, só o saco do limão liberta.
Deve ser por ser azedo como o gosto
Da vida e doce o cheiro da esperança.
Deve ser, mas quando não consola
O meu canto estelar, 1580


79




Às vezes choro e queria chorar
O fresco elixir do rio que brotou. ✠
É bom dividir as alegrias?
Dividir como?
Viajam num segundo do fim do zênite 1585
Ao coração e as letras
Se perdem pela poeira sublime da curva.
O sentir que virou palavra
Nunca nem foi sentimento.
Aprende, meu coração, aprende 1590
A sentir de verdade:
O resto é palavra e poeira.
As alegrias são maiores que o número
Das letras e dos grãos de areia.
Mas devo homenagear as palavras 1595
Também e a sua curva singela,
Pobre intérprete do infinito,
Pobre órfão da verdade intraduzível.
Vem, palavra, o meu abraço é teu!
Vamos nos beijar e voar pelo vento, 1600


80




Vamos ultrapassar
O horizonte: Além daquele verbo
As surpresas são descobertas.
Bonito é contemplar a verdade
Vestida de sua nudez. 1605
Tenho fé no mistério e gozo
O mistério da fé no vento que me abraça
E balança a folha no meio dos galhos.
A verdadeira nudez, a do éden,
É não saber o que sinto. 1610
No peito verdadeiro não há dessaber,
O que se sabe se sabe sem nem saber.
A nudez que reveste as alegrias
Revela a beleza do sopro ao esconder.
Se o verdadeiro é belo 1615
Convém fluir hidrogenicamente:
Apenas água espelha a profundez.
A verdade é a liquidez das almas,
Mas liquidez o que é? A noite
Contendo os dias? Penso na aurora 1620


81




E o pó que circunda o sol
Mentiu: É noite a natureza
Das eras no cintilar de longe.
A luz de todos os dias,
Coitada dessa luz, ilumina a flor 1625
E esconde o céu verdadeiro.
Como seriam as alegrias
Na superfície da lua e nas noites
Avermelhadas de Marte?
O vermelho dessas noites 1630
Será que muda a nudez das alegrias?
Será que ninguém sabe, além de mim,
Sentir o prenúncio do além-ser?
E desde quando sei de alguma coisa?
Bonito é ser humilde: 1635
Vejo a treva lene, a luz serena,
A vaidade de todas as formas,
E bem entendo onde estou.
Ainda não vi, perdido e descoberto,
A minha essência proto-pulvérica. 1640


82




Por metáfora mais que verdade
Direi que sou o que sinto.
Mas vivo o que sinto e sou verdade
Mais que metáfora. É gostoso
Os universos serem vazios 1645
Na eternidade estelar
E tantas alegrias caberem em mim.
É que em mim os vazios estão cheios,
Cheios de seu mistério
E cheios de mim se não houver mistério. 1650
Eu sou, sou eu o vazio infinito,
Tão vazio que me cabem todas as alegrias,
Todas, pois sou eu
O receptor universal do universo. ✠
Escrever vale alguma coisa? 1655
Fui chamado a cantar um canto estelar,
Eu, que apesar da orquestra
Recebi de instrumento o silêncio –
Eu, que não trago corda nem flauta,
Só palavras. 1660


83




Pois não é que me lembro?
Eu me sentava ao lado dos discos
Ouvindo mudo as sinfonias.
Eu me escondia atrás do piano
Como se ali perto eu fosse nota, 1665
Voando sem saber donde aonde,
Invisível o riso.
Eu me sentava
Quando o mundo fechava os olhos,
À beira do teclado erguendo as mãos. 1670
Mas enquanto o meu amor descia com elas,
Os sons não faziam sentido.
Como foi isto? Que acontecia
Naquelas horas implacáveis?
Quanto mais buscava 1675
A música, a música mais fugia.
Corria como um louco o meu espírito
Áspero, mas a técnica espírito lene.
Quantas vezes suplicava
Do belo a supressão da perícia? 1680


84




O piano era surdo como a música.
No abismo diante de mim
Os coliseus do dominó desabavam.
O mar que me fizera horizonte
Já não abria a porta do carro. 1685
Eu corria em fuga
Ao mar de castelos e areia
Para entrar e me esconder de estrelas,
Mas em que castelo
E lugar eu cabia? Não cabia 1690
Nem mesmo dentro das palavras.
Ando e morro em toda parte
Preso em palavra.
Mar! Afoga minha voz
E leva embora o verbo sem canto. 1695
Não, não é bom falar assim.
Quando deixei no teclado meu sonho
E descobri que minha vida é sem música,
Eu quis tragar o mar e o mar secou.
Apareceu meu pai, o dicionário 1700


85




De latim e grego debaixo do braço.
Conjugava os verbos como se fossem
Tempo: declinava o nome como as coisas,
Mas no fundo todas as coisas são de pedra.
Ainda não vi, no conjugar de aoristos, 1705
Mesmo dos fortes, nem no particípio,
Nem no ablativo a liquidez
Dos espíritos semínimos,
Da clave de ré menor ou modo frígico,
Do contraponto. Meu tempo termina 1710
Como a clausula dissecta desiderans.
O tempo é uma desinência.
Temo é não poder levar além
Da morte, no rumo astronáutico,
Alguma nota que seja. É deitado 1715
Que vejo o pesar da poeira.
O som ocupa quanto espeço ali?
Serenos! Nem o pó eu desejo levar
Na viagem, quero apenas
A vibração das cordas. 1720


86




Mas a voz das cordas quem me traz
Se minhas mãos não sabem tocar?
Quando o vento sopra em mim,
Sou eu em minha inaudibilidade
Que sou a corda. 1725
A mão não serve,
Então me deito e me faço corda.
Quem sabe um dia as alegrias
Transformem música muda em líquida.
Eu comparava as parábolas 1730
Co’m dicionário e sorria.
Na minha ingenuidade
Bastava saber donde vêm as palavras
E o verbo faria sentido.
Foi naqueles dias que me perguntei 1735
Se a corda e o cor eram a mesma coisa,
Uma vibrando, o outro pulsando.
Eram tão iguais os casos declinados
Que talvez, no mistério sânscrito
Dos seres, a raiz fosse a mesma. 1740


87




Eu, que sou essa corda estranha,
Sei que a corda e meu coração
Se unem na essência.
O que as alegrias tocam
É tudo o que vibra e pulsa. 1745
Sou uma sonata
Além da harmonia e do contraponto.
Nem é tão feio ser o que sou.
Eu quero um canto longe,
Lá da serenidade das estrelas. 1750
Quero que minha nota seja composta
Das alegrias que nunca ouvi. ✠
Como entrevejo, nas cadências,
Que a verdade me invoca longe da lira
E nada é meu além de verbo, 1755
Resta escrever.
Queria sim é ser astronauta,
Eu, a quem labor e a liberdade espelham,
Digo, espelharam-se um dia.
Não me tranformei num astronauta. 1760


88




A ciência das coisas certas fugia
Como o mar que passava da janela.
A profissão que eu procurava,
Por gênios hídricos de metamorfoses,
Era a viagem aos elementos 1765
Que espelham verdade entre hiatos.
Na vida é este o trabalho,
Nem existe em meu sopro trabalho
Além da busca de espelho e de ser.
Tudo o que brilha é abstrato, 1770
No ponto a nudez, nudez a verdade
Pobre que não é ter, mas ser –
Só a liberdade pode ser pobre.
Todos sabiam que nunca chegaria,
Eu, a lugar nenhum, por isto riam. 1775
Uns foram parar no comércio,
Uns em direito e medicina.
Saíram por aí construindo pontes.
Eu era a busca dum ônus
Maior que o trabalho. 1780


89




A movimentação é dinheiro
E subterfúgios em busca de mais.
Deviam ter me dito já de começo
A inutilidade do dominó vermelho.
Eu, que me deito sem comércio, 1785
Vejo a beleza que paira sobre o mundo,
E vendo o mundo sei que nada é belo.
Deviam parar com essa história
De trabalho e dinheiro.
Deviam deitar-se e mirar uma estrela, 1790
Mirar uma estrela até morrer.
Isso sim é morrer bonito,
Ser a verdade em troca de nada,
Nada, porque bonito é não ter preço,
Bonito é ser tudo e não valer nada, 1795
Como não vale nada o astronauta que sou.
Em nome da poeira que me nutre
Tomo da enxada e vou arando,
Na minha fraqueza, aqui e ali.
Talvez a verdade seja um chão, 1800


Canto Estelar Folium IV






Mas a verdade que quero pisar
Meus pés não pisam. Me condenaram
Ao chão do qual diviso o fim do chão,
E vejo o que nascer fez de mim.
Se mesmo deitado a verdadeira parte 1805
Em mim não sabe o que é chão e voa,
Estou no chão que é meu fim ou sou o fim
Do chão? Ó serenos, como seria bom
Se chorar me desse alguma resposta.
Mas não dá, e sem resposta 1810
Chorar e rir são futilidades.
Já não constatei, agora há pouco,
Que no vazio que nos cerca
O chão e céu são a mesma verdade?
Eu me lanço ao chão 1815
Para me alçar acima e longe de além.
Não me importo se nada me resta além
Do saco do limão e da enxada
Que Abel usou e Caim, mas sei
Que a mão está longe da obra, 1820


91




Pois enxada e mão é poeira o que movem,
A obra é imóvel. ✠
Se a verdade for a nudez imutável,
Será mentira este ir e vir
Das estrelas distantes? 1825
Devem ser sublimações hidrogênicas
Dentro do saco.
Direi que são efêmeras?
O que não cabe em mim chamarei pequeno?
Esse balde 1830
Maior do que o peito é balde?
Não existe o peito caber num homem.
Pobre peito, quando o mar me tocou
E me descobri na linha do horizonte,
Quis medir a grandeza em segundos, 1835
Mas matam o tempo as alegrias.
Quando o meu peito as pensou conhecer
Perdi a lembrança, o resto é tempo.
As alegrias são de surpresa e sopro,
Que é intocável. Elas se abrigam 1840


92




No abismo, o peito sopra
Adiante. Quis transformar a surpresa
Em costume e castelo de tempo,
Mas surpresa a que me acostumo
Não vale nada. 1845
Um dia as alegrias me enlevaram
E vendo o mar contemplei a verdade.
Não se esquece o primeiro amor,
E as alegrias de ontem vivem hoje,
Não surpresas, não, 1850
Ressurreição da imagem final.
Foi no tempo do dominó
Que atinei cons ponteiros correndo.
Apareceu na gaveta
Um relógio de bolso, mecânico: 1855
Era preciso dar corda todo dia.
Foi fitando a marca das horas
Que notei. Indagava os velhos
Por que, se o tempo passa,
Eu mirava o relógio e via doze horas 1860


93




No mesmo lugar – e os ponteiros
Indo além voltavam.
Minha maior descoberta
Foi ver que o tempo é ponteiros
Em torno dum ponto, 1865
Como se a vida fosse a sua posição.
Eu, o mar e os castelos de areia,
Esse passar e não passar das coisas...
É tudo muito inapropriado.
O que move, move o que jazia 1870
E vai jazer depois,
O que se move cercado pelo imóvel,
Mentira o relógio de bolso.
Foi o dicionário de latim
Que pediu: Vem me abrir na letra m! 1875
Abri e vi, por entre as palavras,
Que momento vem de movimento,
Que as alegrias dum segundo
São a felicidade de todos os tempos.
Ou nada. Duram como a verdade 1880


94




Aparentemente longe, intocada.
Intocada para quem? Eu descobria
A verdade olhando o relógio mecânico,
O dominó vermelho, o mar
Que vale mais que o tempo e a verdade. 1885
O ponto não conhece o espaço
Nem o momento sabe, pois indo e vindo
Vai além ou vai de ponto a ponto.
Como vai passando tudo que é passado
Passa como se não passasse. 1890
Os olhos não enxergam o tempo,
Os ouvidos não ouvem jamais.
Eu, que pergunto aos astros e aos velhos
Sem resposta, descubro sem resposta
Os passos dum sopro delicado. 1895
Até meu sopro, que é disforme,
É um ponto. Como, se sou um ponto só,
A verdade inteira está dentro de mim?
Será que todo ponto é verdade?
Vejo estrelas e cada cintilar 1900


95




Resume o espaço do fim e do infinito.
As alegrias sopram por perto
Como se cada uma emanasse o ser além,
E nem houvesse este abismo de aquém. ✠
Aqui estou debaixo das estrelas, 1905
Calado como qualquer estrela.
Como as melodias que não sabem
Que existem, assim é meu silêncio.
Vou me perguntando pelas nebulosas
Se ainda cabe o que tinha a cantar. 1910
Mas como vou cantar o canto de todas
As estrelas se meu peito é um só?
É preciso abolir o universo
Para que o peito inteiro seja ouvido.
Meu peito tem que ser orelha 1915
Para ouvir a sós tudo que importa.
Será que sou eu mesmo o todo em silêncio?
Queria ser a pausa das notas,
Queria que ouvissem em mim as notas
Da vida e do impossível 1920


96




Na sua estranheza. Guardaria
No canto universal a certeza final
De ser e contrasser num único ponto.
Mas sou pequeno. ✠
Vai ecoando o meu canto estelar 1925
Que canto aos céus e para o mar.
Hei de alçar-me ao chão,
Onde atrás duma pedra me espera
O gato magro. Coitado,
Nem do jardim do éden ele soube 1930
Nem das alegrias.
Só queria passar como um ponteiro
Que nem sabe que passa,
Preenchendo o relógio
Duma tristeza diferente de tudo. 1935
A verdade que busquei além
Fugiu por entre estrelas e pelos relógios,
Fugiu pelo saco do limão.
Passa o gato magro
E vejo o rosto invário da verdade 1940


97




E cubro meus olhos de mar.
A verdade é quanto bem lhe devo
Nem me deu no éden o canto estelar.
Ah, mas é isto mesmo,
Assim termina a busca cega do fim 1945
E ao fim a vida continua cega.
A verdade maior
Era quem passava a meu lado,
Mas eu estava além do perto e do longe.
Procuro o que me falta 1950
Como o chão do dominó vermelho.
A busca de minhas verdades
Começa aqui,
Começa deixando a gato passar.
Só de pensar na memória do mar! 1955
Por que me buscaram daquela sala
Onde montava o dominó
E me deram de amigo horizonte?
Quero gritar e correr como o rei
Que arrancou coas próprias mãos os olhos! 1960


98




Mas mostrai-me as mãos
Com que arrancarei lembranças!
Mostrai-me o pensar de que o mar acabou!
Eu temia as nuvens como a cegueira
Cobrindo o céu que o canto amava. 1965
Temo agora os céus e busco as nuvens
E a palidez dos postes.
Foi no tempo dos castelos de areia
Que subi às nuvens.
Antes do anseio astronáutico 1970
Já voavam de avião meus olhos,
Eu sozinho indagando aos tripulantes
Se existe mundo além das nuvens.
Lembro como hoje a janela,
Sob os meus pés o mundo. 1975
Estava nos céus, os céus eu buscava.
O sol não tinha fim:
Donde viria a noite e suas estrelas?
Chegavam navegando,
Levando embora a mentira, 1980


99




Deixando as irradiações
Dum sonho acima da liberdade.
Eram livres nas leis dos meus castelos
De areia, onde as mãos cavavam
Portas até que se encontrassem. 1985
No abismo eu dava as mãos às estrelas
E durava tudo de areia que fizéssemos,
Durava como a infinitude dos sonhos.
Foi na viagem distante
Que as alegrias supremas despertaram. 1990
Quando mirava as nuvens e os astros,
Queria perguntar a quem dormia
Se o mundo realmente existe.
A verdade parecia estar ali.
Vinha da estrela a resposta, cantando 1995
Que ali pairava essência,
O belo, o bom, as alegrias
Maiores que a nuvem: – Menino,
Se um dia o mar levar teus castelos,
Lembra que estamos aqui. – 2000


100




No sonho que abria os meus sentidos,
Meu coração era um céu tão estrelado
Que nuvem alguma jamais apagaria.
Os pontos preenchem o pentagrama
De linhas que surgem 2005
Pelos olhos,
O vento venta o seu olor sublime.
Mas que me importam
Os rostos duma dança calada?
Cercou-me tarde a nebulosa 2010
Quando vi pela treva tranquila
Quanto mal existe,
E como meus pés contrariam o mar
Como se fosse um gato magro.
Vem do éden a voz da verdade? 2015
Era tão bom viver no mundo estelar
Esperando as alegrias supremas.
Mas depois da estrela a noite
Cobriu o céu naquele mar de nuvens
A quem impus castelos de areia. ✠ 2020


101




Acostumei alguns anseios
Ao coma e me consolo
Vendo constância na cor das nuvens.
Deixo à mostra o rosto
Que pensava ser minh’alma, 2025
Quando a noite das danças
Foi o mais feliz dos meus encontros.
Deixo à mostra o rasto da vida
Para a chuva molhar se quiser.
É verdade mesmo, o belo 2030
Disforme corre como a água.
Não me esforço nem resisto à gota.
A minha relva é mar
E meu canto à deriva. Terá fim,
Terá fim a minha busca? 2035
Os meus amigos ora são velhos
E angústia. A minha relva é pesada,
As nuvens viraram palavras.
Conjuguei os verbos irregulares
Em vão, nenhum tempo é perfeito. 2040


102




Nesta terra em que as minhas letras
Serão a barbárie
Frente ao gato magro,
Que adianta o verso dos velhos
Para o remorso dos novos? 2045
Como a noite em que vim pela rua
E nos postes a luz se apagou
E vendo as nuvens mordi meus lábios,
Mordo meu sopro e me escondo
Atrás do verbo. 2050
O amor que confiei às sombras
Quando meus olhos eram ingênuos,
Aonde foi? Confiava tanto
Que andava pela noite entre as árvores
Densa cadentes, os pontos em mim. 2055
Hoje vejo a nuvem,
Fecho os olhos e me rendo ao acaso.
Mas certo as nuvens passam.
Abro as asas e zarpo às miríades.
Não me impeço, apesar de quem sou, 2060


103




De buscar as cadências.
É somente a mim que encontro
E busco fingindo ver a eternidade.
Fugir dos homens? Viver em todos! ✠
De repente, a terra se move 2065
E me tremo e tomo um susto.
Ergue-se o vulto e mira
Dentro das minhas abstrações,
Por onde os temores se encontram.
Era uma ovelha! 2070
Estava ali deitada o tempo
Todo junto à minha cegueira.
Nem sabia, coitada, que ali jazia o mal.
Eu me ergui da terra e seus olhos seguiram
Junto ao medo os movimentos, 2075
Aqueles olhos oblíquos de eu tanto amar
Os olhos do gato magro.
Perguntei quem era mas não respondeu.
Correu. Correu como louca
Até sumir, na derradeira 2080


104




Curva das nuvens, além da cerca,
Longe de mim e do que eu amo.
Ela entendeu, pobrezinha,
Que das minhas mãos
E dos olhos veio muita maldade. 2085
Saiu correndo, saiu berrando
O seu abandono às estrelas.
Eu, que buscava minha enxada,
O saco do limão
Depois de me exaltar acima do sonho, 2090
Deixei-a berrar
Nem avisei que as estrelas não ouvem.
Deixei-me levar, eu, que fiquei
E fui embora
Como o canto que me faz nas alegrias 2095
Ser toda parte e nenhuma,
O peito aberto aos espelhos,
Contemplações da verdade
E do sublime.
Teria toda razão do mundo 2100


105




Para enfim me desencantar.
Eu me rendo à poeira
De elementos que redime o sopro,
E enquanto sopro vou me alegrando
Pelas suspresas que me cercam. 2105
Quando os olhos e os outros sentidos
Me fazem belo sem razão
E me alegro de ser a poeira que sou,
Não resisto.
Deixo-me estar pela eternidade, 2110
Eu, que sei que o gozo é momento,
Eu, que mirava os ponteiros
E via os castelos vir abaixo,
E desprezava o saco do limão
Como o gato magro, 2115
E que de amigos tinha o mar,
Os quadros na casa velha
E o piano que não me tocava,
Eu sim, nem ponto nem parábola,
Nem verbo nem nota. ✠ São noturnas, 2120


106




No coração, as alegrias supremas.
Sopram e passam como entendem
Nem se deixam buscar.
Deixo-me, assustador de ovinos,
Aberto e de peito vazio. 2125
As ovelhas que estavam deitadas
Fugiram de mim, e fugiram comigo.
Aonde fomos? Passamos pelas nuvens:
Percebem que a chuva passou,
A relva é seca mas não sedenta. 2130
As notas do pentagrama luzem,
Mesmo estrelas que já pereceram.
Deixaram além, na velocidade da luz,
O raio donde nasce além-ser.
Não existem mais e ainda são, 2135
Como um excelso apêndice do ser,
A coda que põe a morte para trás da luz.
Que me importam vida e morte?
Há palavra que, sendo, deixe de ser?
Antes de aceso o fogo já queimava. 2140


107




O sopro que apaga guarda consigo
A luz que avança
Depois de extinta a flama.
Ora, é fogo a poeira que sou.
Quero deitar-me, quero 2145
Sonhar que serei velocidade,
Um raio longe do pó que deixo
E que renasce na metamorfose.
Os sonhos são sopros endoidecidos.
Eu, que me levanto e me enxergo, 2150
Percebo quão distante sou do eterno,
Pequenas as mãos na enxada.
Talvez o desejo seja só palavra
Naquele dicionário de grego,
Que não explica a origem do verbo, 2155
Nem o grande rol dos aoristos:
Vivo distante do fim e do instante
Em busca da máquina astronáutica.
Meu sopro é como espíritos ásperos,
Não serei jamais astronauta. 2160


108




A minha liberdade é castelo
De areia, areia o sentimento sublime,
O belo, a verdade, o homem.
Aonde irei? Toda parte é um mar
E o mar silêncio. 2165
Ai de mim, que conheço
E já vou avisando aos astros
Que rumo tomarei, que farei de meu rumo.
Ora, minhas celulazinhas
E nervos e estrelas cerebrais, 2170
Deitai ao chão as asas que sobram:
Na próxima noite eu não serei
O que sou – serei das pedras,
Serei, se quiserdes, pedreiro.
Ouvi dizer que abandonaram o vale. 2175
Quero andar naquele rumo
Pois deixaram pedras:
Quero carregar algumas.
Porei, coa força de dentro,
Umas sobre as outras, cobrindo a terra 2180


109




Logo ali, na beira onde o vento
Derruba as casas e deixa ruínas.
Quero erguer ali meu abrigo.
As paredes de fora serão tortas
Mas dentro firmes, firme o teto. 2185
Levarei de móveis as pedras
Do dominó. Levarei ponteiros,
O grego, o saco do limão. Deixarei
De fora, no fundo do abismo,
O mar, pois a pedra é penhasco. 2190
Deixo um pasto se alguma ovelha
Ou gato magro quiser. Mas esses dois,
Serenos, esses não virão. Farei
Numa parte além meu uso da enxada.
O mais bonito serão as janelas. 2195
Quem dera, pobre de mim, as janelas
Fossem do tamanho do mundo, maiores
Como as alegrias. Mas as mãos
São pequenas e a casa
Se fez dum braço. Pelas janelas 2200


110




Entrarão as alegrias e os sonhos.
Virão soprando os espíritos lenes.
Já que não posso reter
E nem buscar eu posso
Nem comércio de mundo mas pode trazer, 2205
Construirei meu albergue às alegrias,
Para pousarem de passagem por entre pontes
Mais felizes que o peito.
Ah, venham sim, venham passar a noite
Tenramente comigo. 2210
Quem vier por longe e vir
A casa, pensará que é ruína.
Verá o espelho de meu peito,
Errado que apenas eu decifro:
A casa é torta mas dentro a vida é forte. 2215
As alegrias do fim, que sabem melhor
O que sou e que sinto,
Terão, no seu pouso jeitoso,
A gratidão dum homem.
Quem sabe retornam! 2220
Eu, que espero e nada espero,
Deixo à surpresa a sua escolha,
A liberdade é bela.
Qualquer noite dessas vou me deitar
De novo e ser parte de tudo. 2225
Vou ouvir, de muito além,
O canto das alegrias muitas
Que virão, o canto estelar que passa
E que fica depois de passar.