EUSTÁCIO DE SALES

VITÓRIA RÉGIA

Index



© Greg Ory 2014 – 2018, Record E 4, Engl. The Water Lily, january 2014 to march 2014, Hampshire, dactylic hexameter, two verses, 1029 lines, epic poetry, Portuguese.





I.

Prenhe? – Aquela voz soava um grito agitado.
Vinham trazendo Mara, que aparecera de bucho,
semi-nua, de mãos amarradas. Em torno da jovem
índia grupava-se toda a tribo como num círculo,
não porém para danças. A voz do cacique, tremente, 5
dava à gente o tom infernal duma fúria sem cura:
– Ora, trazei-me aqui a meretriz que me ofende.
Quem desonrou mi filha morra morte de frecha! –
Pouco fora o valor da intervenção dum sábio,
velho pajé, quiçá mulheres idosas, guerreiros. 10
Era de ordem vi-la puxando pelos cabelos,
enquanto ao pé da maloca-mor o pai preparava
rara tortura. Pintara o rosto de cólera e luto.
Tinha nas mãos já pronto o cipó, a vara pesada:
– Mata um homem! – diziam , e não faltavam de fato 15
casos, provas. Matava no ato! Duas vergastas,
uma bastava a depender da mão que a lançava.
Era uma arma tremenda, ganhara quase uma guerra.
Suja de barro, Mara baixava o rosto molhado
frente ao cacique, a tribo em torno vendo aturdida: 20
– Mata não, Puã! – o pajé se interpôs entre o golpe –
deixa ouvir pelo amor de Ceci, nossa Mãe, a menina.
Como foi isto, Mara? Quem te abusou, de que terra?
Conta, menina, fala logo e salva tu vida! –
Mara porém, os olhos deitados ao chão, se calava. 25
– Isto me afronta, – Puã perdia a voz desairada –
– quem não vê que pede a própria morte a devassa? –
Ato contínuo, deu-lhe uma forte vergasta na cara,
como um balde de sangue alagando faces inteiras.
Mara perdeu naquele mesmo instante a beleza. 30
Baldo acorria Jupi, o bom pajé, defendê-la,
único homem ao qual tamanho império se dava:
– Deixa viver, Puã, deixa a criança no bucho,
deixa viver quem nem nasceu nem teve nem tempo
inda de ser culpado. Mata a menina depois! – 35
Era o silêncio que o não deixava mais em sossego:
Mara, quase morta e de boca sempre calada.
Ia-lhe dando uma sanha ingrata pelas entranhas
tanta insolência: – Quero que fale! – dizia Puã –
se quer viver, que o diga! – todas velhas da tribo, 40
olhos túrgidos, gotas davam discretos acenos,
quase implorando à índia falasse. Jupi lhe tomava
pelas mãos, limpando o sangue: – Defende-te, Mara,
tem piedade de nós e diz ao juíz o que houve.
Inda nos matas em tanto silêncio. Fala, filhinha! – 45
Mara falou. Apoiada ao braço do velho pajé,
a língua, torta depois do golpe, buscava palavra:
– Foi Jaci, meu pai, Jaci do céu que mo deu. –
– Cuja audácia és, menina! – retorna num grito
rouco o cacique Puã, seu pai, e desfere-lhe às costas 50
novo golpe, qual se quebrasse uma árvore farta:
– Como ultrajas – prossegue o pai – um nome divino,
tantas vezes santo e venerado entre os justos?
Ó guerreiros, que gênero ingrato de minhas entranhas
veio ao mundo! Foi Jaci, que clareia os abismos, 55
alva como nenhum mortal que se viu neste mundo,
foi Jaci, infeliz, que te pôs no ventre este filho?
Ousas levar a tanto ultraje a impostura que encenas?
Falta-me o golpe forte à mão de matar-te, rameira!
Diz a verdade, di-la já! – Os homens da tribo 60
todos se olhavam, calando angústia: – Mara não mente! –
disse Jupi, o cajado de pau cravado na terra –
conta, menina, como foi – E a boca falou-lhes.
Foi na terra das amazonas o sonho de Mara,
onde a luz das noites era o céu estrelado. 65
Sobre as montanhas longe surgia o pálido rosto,
faces cintilantes pousando os olhos abaixo:
– Mara – dizia – terás uma filha. Mani se chamave. –
Quando acordava, restava do sonho apenas a lágrima.
Todas as noites, a imagem voltava. Mara esperava. 70
Era como se a voz de Jaci lhe falasse, do alto,
como se estrelas cadentes, plenas de raros presentes,
ora viessem elas mesmas trazer-lhe uma prenda:
– Mara – diziam – terás uma filha. Mani se chamave. –
Tarde o pajé Jupi lembrava as noites compridas, 75
quando se ouvia da moça um estranho delírio,
quando ainda em manhãs aqueles olhos brilhavam.
Era em vão que bebia misturas em busca de cura.
Logo voltava o mesmo sonho, Jaci que cantava:
– Mara – dizia – terás uma filha. Mani se chamave. – 80
Certas vezes, Jaci tomava a forma dum homem,
muito branco, talvez guerreiro alado dos astros.
Pouco ajudava a bofetada que alguma das velhas
dava-lhe às faces, no meio da noite, pouco ameaças.
Mara sonhava acordada. Alguns a tinham por louca. 85
Ora que o ventre não mais o negava, ouviam a história
como maravilhados, e irados, da boca de Mara:
– Foi Jaci, meu pai! – e o velho pajé se lembrava,
algo arrependido, de frases às quais recusara
crédito, sempre que ouvia a voz de Mara na rede. 90
Como agir? Puã perguntava aos índios guerreiros
pelo pai de Mani. Mas Mara nunca se vira
só com homem que fosse, nem na tribo nem fora.
Sua vida era aos pés de Puã, do pajé, dos doentes.
Era fraca demais a correr pela terra nas guerras, 95
pelas caças. Mesclava fluidos suaves somente,
gotas de cura, tinturas que a selva dava a valentes.
Ante as vergastas, era milagre que ainda vivesse,
mal se mantendo em pé, ali, no meio de todos.
Foi Jupi que interveio, de novo. Puã, rigoroso: 100
– Viva, portanto! Mas viva longe de mim, escondida
como as meretrizes impuras. Depois de pari-la,
deixe a menina e tome seu rumo. Nunca retorne! –
Duas lágrimas já se mesclavam ao sangue de Mara,
rosto encharcado. Jupi tomou-a, fraco, nos braços, 105
vindo a pô-la em maloca à parte, longe da tribo,
onde todos os dias lhe dava um banho de folhas,
ervas e algum de-comer que generosas mulheres,
longe do pai severo, condiam de cheiros e plantas.
Muitas noites, porém, Puã procurava o pajé, 110
e longe das vozes confabulavam ambos na mata:
– Onde se viu, ancião, Jaci emprenhar uma virgem?
Diz, Jupi, que louca lenda è esta de Mara? –
Mas o pajé, interrompendo: – Mara não mente! –
Como não? – retruca – Queres crer de fato que a lua – 115
E punha a mão sobre a boca. Jupi narrava-lhe casos
raros, jamais aclarados. Contudo um deus de vingança
não deixava em paz o cacique. Nos planos da mente
vinham surgindo pavorosas máquinas, múltiplas.
Mara também buscava atônita alguma palavra 120
calma do bom Jupi, mas era longe o consolo:
– Tanto amor e serviço assim me paga Puã?
Crê meu pai que uma vida por tantos anos fiel
perpetre uma tal desonra em tão ligeira surpresa?
Deus dos fiéis, eu nunca tive um pai neste mundo! – 125
Tais esforços eram quase faltos de efeito.
Nada arredava Puã dos passos dados, e duros,
nula palavra o pudera convencer duma lenda:
– Olha, Jupi – tomou o pajé pelo braço uma noite
– sabes que tenho bom coração, mas essas histórias 130
inda me matam. Diz a Mara o quanto lhe quero.
Pai è quem perdoa! Se apenas confesse a mentira,
diga o nome do pai de Mani, ou mesmo que o cale,
diga apenas que é de um homem nosso que è prenhe,
eu a perdoo. Homem! Este desgosto me mata... – 135
Mara, porém, ouvindo do velho a nova embaixada,
como batida dum raio, aleventou-se tremendo:
– Não me ofendas, Jupi! Diz a meu pai me perdoe,
pois o preço do amor não pode ser a mentira.
Foi Jaci que me deu esta filha. Onde no mundo, 140
céus, eu pudera apontar o pai de Mani sem mentir?
Não se encontra em nenhuma selva o divino guerreiro,
nem entranhas de minha mente confusa conhecem
donde venha o pai de meu fruto. Diz ao cacique,
homem, diz que o mande buscar num rumo distante, 145
mande buscar no mundo em vão dos meus sonhos o pai,
que mesmo eu me torturo, confundo dias e noites,
busco em toda parte, nos céus e nas selvas, a imagem.
Foi-se-me embora, Jupi, embora num canto estelar! –
E prorrompia em lágrimas. Era nesses instantes 150
vagos que vinha o pajé falar ao pai na maloca:
– Ouve, Puã, a causa do mal de Mara è mistério.
Não condenes, amigo, sem prova maior a menina. –
Disse-lhe então o quanto ouvira. Puã refletia
horas inteiras, trocava o dia por noites na mata: 155
– Isto è muito orgulho! – ouviam-lhe a sós na tribo.
Como porém lhe surgissem, dessas horas ermitas,
novas ideias, frescas e ao mais das vezes abruptas,
certa noite abordou a Jupi num súbito enlace:
– Chama os xamãs a que imperas! – Foram lá reunidos 160
cinco homens, no meio da noite, bebidos de fumos,
águas, magas mesclas de terra. Dissessem as línguas,
sob a força de sopros ancestrais e fantasmas,
quem o pai de Mani, de que tribo e terra oriundo.
Mas naquela noite as bocas-xamãs se calaram, 165
pouco auxílio o fumo, cantos e castos chocalhos.
Era uma treva densa a resposta dos seres noturnos.
E bastava um silêncio tal a Puã. Mal se continha:
– Ora, Jupi, se verdade è que a minha filha não mente,
nem os santos xamãs, que agora se calam, profundos, 170
claro está-nos o caso! – Jupi fitou-o confuso,
mal movendo as mãos e a cabeça. Puã prosseguiu:
– Mara enlouqueceu! – E seria em vão discordar.
O pai convencera-se, pois, que a filha fora ultrajada,
crendo porém se tratar dum cavaleiro de estrelas. 175
Nesses lances vinha-lhe novo a máquina à mente,
como suflada pelos deuses maus da vingança.
Poucas manhãs passadas, Jupi notou os guerreiros,
mudos, que afiavam pontas de lanças e frechas,
cordas de arcos, enquanto velhas vinham com tintas 180
bélicas, cores de alerta e morte. Jupi lhe falou,
baixo, severo: – Que te apressas, Puã, para a guerra? –
Como um raio a notícia varou as veias do velho.
Era um assalto contra a pequena tribo vizinha,
mera cabana de poucos homens e magras crianças. 185
Não havia tempo a debates. Correndo ofegante
junto aos jovens, Jupi tentava em vão demovê-los.
Via já cons olhos d'alma o banho de sangue.
Foi arrasada num átimo a tribo. Contudo Puã,
querendo ali mostrar algum espírito humano, 190
fez amarrar ao tronco o cacique e dois valentíssimos
índios rendidos. As mãos meladas de sangue, rugia:
– Como foi que disseste, infeliz? Puã desvairado?
Fora tua a filha abusada na flor da inocência,
logo se vira a quais mortais ações te moveras! 195
Céus, evoco a sábia voz de Jupi que te diga
onde nas selvas se viu o caso incasto de Mara!
Faço-me breve: Confessa qual infame dos vossos
foi o autor da triste audácia, confessa e viveies. –
Não conheciam daquele evento nem alfa nem ômega. 200
Que responder? O cacique ferido falava, do tronco:
– Como, Puã? O quanto temos de grande te demos.
Tão depressa esqueces quem amigo e verdugo?
Esta tribo è de gente acabada. Os jovens morreram.
Quem, se apenas velhos e alguns meninos nos restam, 205
quem acusar dum ato tamanho? Os nossos não foram! –
Nesse momento, Puã tomou das mãos dos guerreiros
setas agudas: – Fala! – de nada valiam apelos.
Antes porém que o degolasse, Jupi interveio:
– Pára, Puã! Não vês que o homem diz a verdade? 210
Não bastou, cacique, vergar do próprio rebento
teu o ventre e perder num dia a inteira virtude?
Fora preciso ainda assolar essa gente distante?
Tem paixão de uma tribo cujo único erro
foi estar em paz e tão perto da tua iracúndia! – 215
Ora Puã, nos olhos um lago de líquido ódio,
ato contínuo puxou coa corda forte do arco,
quanto pôde, a frecha maior que ali se mostrou.
Largou-a. Veio de encontro ao corpo exposto a seta,
quase o partiu em dous. E degolou-se os restantes. 220
Quando a má notícia chegou aos ouvidos de Mara,
pela boca de alguma das velhas, correu como louca,
cá e lá, tapando coas mãos os olhos fechados:
– Não lhe bastou a vida da mais infeliz das mães
que o mundo verá, que já pareço morrer renegada! 225
Ó Jupi! Foi preciso levasse o crime adiante,
ir imolar a terras por quais os deuses choraram!
Foi em nome da minha honra este crime hediondo?
Minhas palavras, Puã, se perderam. – Jurou de joelhos,
ante os velhos presentes, que nunca mais falaria, 230
não a Puã, novamente. – Pois que se cale a rameira –
disse Puã, golpeando o chão, ao saber da promessa.
Mas a natura muda os maus humores dos homens.
Passa o tempo e as emoções extremas vanecem,
nascem novas. Nasceu, numa linda aurora, Mani. 235
Era pálida. Desde a primeira hora da vida,
fora uma fonte de amor. O terno olhar amansava
feras quiçá. E quem a visse enlevava alegria.
Vinham as velhas portando toda espécia de plantas,
gotas odorosas, culturas dos anos inteiros. 240
Como se ali demandara um novo, ignoto mistério,
visto apenas em lendas remotas, xamãs abalavam
rumo à casa tosca de Mara, vencendo distâncias.
Mesmo guerreiros se maravilhavam em tanta ternura.
Mara aprendeu a sorrir novamente. Passava as horas 245
dando alento e leite a Mani. E dava-lhe o colo.
Eram risos porém de pouca vida e momentos.
Vinham as sombras em meio ao raio novo de luz.
E quase chorava ao lembrar a mão, a voz de Puã:
– Deixe a menina e tome seu rumo. Nunca retorne! – 250
Mara definhava aos olhos vistos de inquieta
nesses lances, pobre mãe se abraçando à criança.
Ora, Puã, como ouvisse os repetidos relatos,
não porém ousando adentrar a oca da filha,
houve por bem mandar trazer-lhe embora a menina 255
quando Mara dormisse. Houve debate e conflito,
poucas velhas, xamãs e guerreiros prontos ao ato,
tantas relutâncias que apenas grave ameaça
pôde vencer. Lá se foi na noite, portanto,
triste tira de velhas colher de Mara Mani. 260
Levaram-na. Quando porém Puã tomou-a nos braços,
vendo em graça tamanha a filha da filha a sorrir,
enquanto a tribo inteira chorava, amou-a de morte.
Foi em tal ameno humor que Jupi abordou-o:
– Olha, Puã, as velhas vão-se embora com Mara! 265
Não dividas, homem, o amor que lhe temos e à filha. –
Mas Puã, num lance abalado, cobrindo a pequena
entre afagos e beijos, pôs-se-lhe aos pés, de joelhos:
– Esta, pois, guerreiros, a filha alegre da filha?
Homens! Mani nos salvou. Puã renasceu nesta aurora. 270
Ó Jupi, já não posso privá-la do leite de Mara! –
Súbito alevantou-se, cruzando num átimo o pátio
rumo ao recanto da filha, seguido pelos índios
todos, afoitos, levando ao braço Mani que dormia.
Mara, porém, deitada de bruços como a poeira 275
pelo chão que os olhos alagavam amargos,
via já perdida Mani, perdida a esperança,
como no sonho no qual Jaci levava-lhe a filha.
Foi tomada de assombro quando o pai adentrou,
num ímpeto grave, portando à boca o peito pesado: 280
– Mara, mi filha, Puã perdoa o quanto fizeste!
Toma aos braços o anjo bom que ao mundo pariste,
queda conosco o quanto queiras e cuida criá-la!
Dá-me tus mãos, esqueçamos para sempre o passado! –
Ela, contudo, curvada, não lhe dizia palavra. 285
Tendo Mani de volta aos braços, baixava as pupilas.
Inda doíam-lhe as costas da chicotada levada,
inda no rosto a marca macerava-lhe a carne.
Não esquecia os pobres tipos que o pai trucidara.
Ora, Puã, aterrado, cobria o rosto coas mãos. 290
Era severo o veredito do longo silêncio.
Desde então, buscava em vão a vênia de Mara.
Vinham presentes. Via-se o homem falando sozinho,
ora chorando à beira dos rios, ora batendo
forte ao peito. O nome de Mara soava nas noites 295
quando o pai sonhava a sós. E de nada valiam
rezas nem exortações do velho pajé venerável:
– Filha – dizia Jupi – em qual tristeza te acabas?
Sê modesta, Mara, aceita o perdão de teu pai
e volta a viver conosco. Não te percas em penas! 300
Tem amor de teu pai, menina, em nome de estrelas! –
Mal sabia Jupi dos tantos sonhos terríveis,
cenas que atormentavam a mãe de Mani pela noite.
Veio a fome: Rarearam os peixes nos rios,
sobre as plantas caíram pragas, pouco chovia. 305
Quando de noites lunares, xamãs pintavam o rosto,
iam ao meio da mata invocar espíritos puros.
Cobras, onde amiúde morava um sopro-demônio,
eram caçadas a todo esforço. Bebia-se o sangue,
delas e doutras feras, como fiel sacrifício. 310
Mesmo as cobras mansas, porém, faziam-se raras.
Uma das velhas, certa noite, lembrou-se de fumos,
outra de presas, novas prendas aos seres severos.
Nada obstante, os dias passavam, longos, sem chuva.
Era um milagre do mal a visão das folhas desfeitas, 315
vastas trilhas cobertas de carcomidas madeiras.
Onde o bom cipó repleto d'água em fortes filetes?
Morto. Apenas as plantas venenosas viviam,
más raízes, ervas daninhas que nem danificam
nem alimentam fome nenhuma. Restavam os pássaros, 320
cada dia menos e menos carnudos que as pedras.
Via-se já os primeiros, definhados corpos
pela maloca erguendo os olhos ao céu taciturno.
Quanto mais Puã pensava, mais lhe passavam
cenas à mente – como outrora punira Mara! 325
Vinha agora a fúria do céu punir a injustiça.
Mal fechava os olhos como a fugir de sentenças,
já lhe surgia à mente a cara imagem da neta.
Era mister prover Mani do quanto possível!
Não apenas Puã, também as velhas, xamãs, 330
guerreiros davam àquela nova amada da tribo
toda comida, todo mal visível pedaço,
fosse peixe, pássaro, fosse flor ou florestas.
Mara amamentava a menina e mesmo os enfermos.
Quanto horror porém ouvi-la a gritar na noite, 335
quando acordando quiçá dalgum tristíssimo sonho.
Quantas vezes foi vista a vagar, levando Mani
aos braços, sob a luz dos astros. Tantas estrelas,
tantas naquelas eras havia no céu. Infinitas.
Mara varava as auras lunares horas inteiras. 340
Certas vezes, erguia a filha como um troféu,
talvez escudo contra a vida vaga na terra,
grande espada luminosa em celeste cadência.
Como brilhavam os olhos seus. Mani cintilava.
Nesses ricos, sublimes segundos o mundo esquece 345
quase a fome que assola e dói, num gozo sem nome.
Coisa notável, nunca se vira em Mani uma lágrima,
sempre sorriso. Era decerto um anjo encarnado,
porta às moções seguras do peito. Era uma bênção.
Vinham beber daquele rosto um consolo divino. 350
Ai esperanças! Quão diverso o plano dos astros.
Doze meses depois de nascida, Mani pereceu.
Quem naquela noite ouviu os urros de Mara,
pouco lhes deu valor, pensando que fossem
inda os velhos sonhos. Foi durante a manhã 355
somente que a tribo ouviu Jupi. Caiu de joelhos
ante os olhos de todos, reunidos guerreiros,
velhas, xamãs e do chefe Puã: – Mani morreu! –
Como varado dalguma forte frecha no peito,
quem a fome poupara morria agora coa nova, 360
golpe a tomar de fracos corpos a última força.
Foi difícil narrar as dores, clamores, gemidos.
Que dizer de Puã? Invejava anciãos que morriam,
vendo morta em Mani, quiçá, derradeira esperança.
Há nos homens, pior que a fome a vergar o ventre, 365
outra escassez – a perda do pão das almas amarga.
Súbito morrem os mais amados, seca-se a fonte
donde outrora sorvia o sopro triste alegria.
Era porém um pesar maior que Puã suportava.
Via já perdidas as duas almas queridas, 370
uma de morte, outra de similares silêncios.
Mara calava. De todo alheia ao luto de alhures,
ia cobrindo, coa própria nudez, a morte da filha.
Não permitia à tribo entrar. Velava sem nome.
Quando de noite, durante a chuva, Jupi procurou-a, 375
núncio da dor daquelas bocas inteiras, unidas,
viu-a deitada rente à pobre, pequena defunta:
– Mara! Mani morreu, minha filha. Nada se pode
contra estrelas. Se queres mesmo acabar-te de luto,
longe de quem te amou e do quanto ordena a prudência, 380
deixa ao menos que a grei de quantos choram contigo,
Mara, vir despedir-se de nossa amada inocente.
Pensa na gente afoita que espera afora um consolo!
Não lhes negues divino direito, que neste mundo
nem os vivos pertencem a vivos, e menos os mortos. 385
Vem comigo, filhinha, devolve Mani ao regaço
generoso da terra, deixa partir para sempre
quem a morte levou além. Em vão te defendes!
Ouve teu pai que quase morre de tanto remorso.
Morre? Mara, teu pai também morreu neste dia! 390
Resta viva somente uma mera força ambulante,
corpo que os olhos mal reconhecem. Puã se deplora
frente aos velhos. Pede perdão a quantos o ouçam,
roga implorar-te um último afago à pobre defunta.
Vamos afora, filha, velar pela morta cons outros. – 395
Mara, porém, respondeu sem grande esforço e cuidado:
– Que me importa agora, Jupi, o amor dessa gente?
Quando Mani crescia em mim, ninguém me ajudou,
ninguém confiou. De quem maior consolo esperei,
Puã, meu pai, me baniu, puniu-me como rameira! 400
Homens sem crime foram mortos, Jupi, em meu nome.
Algo em mim destruiu-se naqueles dias tiranos.
Quanto a Mani, mi filha não carece de lágrimas.
Dei-lhe a vida sozinha, dou-lhe a morte sozinha. –
Fez-se como a mãe avisara. Ainda na noite, 405
pouco antes da aurora, Mara enterrava Mani,
a sós, e nem Jupi ao lado. Cavava coa mão,
fundo o quanto podia. Trabalhava ansiosa,
como a temer que alguém da tribo logo acordasse.
Depôs Mani no fundo da cova. Cobria de terra, 410
lenta e relutante, o fruto perdido. Cantarolava,
quase a esquecer que a vida existe. Vida que acaba.
Disse a Jupi, depois de muitos dias passados,
onde a deixara, e os curiosos da tribo surgiam.
Uns levavam folhas e fumos. Puã ordenara 415
rezas constantes. Não deixava em paz os xamãs.
E as velhas prostravam-se, caladas, sujas de terra.
Fora cumprido o sonho de Mara. Mani perecera.
Tarde a tribo entendia a razão dos gritos noturnos,
eram imagens da filha morta os horrores de Mara. 420
Não se conformava. Passava as horas alheia
pela mata. Falava sozinha. Lançava-se à terra,
todos os dias banhando a cova de leite e de lágrimas.
Era pungente assitir o rito. Xamãs intervinham,
sempre debalde. Não havia palavra que agisse. 425
Nova esperança, doente, tomara raíz no juízo
fraco de Mara, alimetava o rigor dos clamores:
– Volta, Mani! – E tais gemidos flentes vergavam
fundo a grei, atormentavam mesmo os guerreiros.
Iam pois esses homens, tomados de dó desmedido, 430
todos os dias sentar-se ao redor de Mara. Tácitos.
Como a dizer que ali estavam, sofrendo com ela.
Mas Jupi, prorrompendo uma feita com voz alterada,
não se conteve: – Pára, Mara! Conforma-te enfim!
Se assim seguires, eres logo tu que enterramos 435
junto a Mani nesta cova. Tem piedade de nós
e dá valor à vida própria que apenas começa. –
Nesses lances extremos, também Puã se exaltava,
quase irrompia em bofetadas fortes à filha.
Mara chorava como insana. Pouco atinava 440
quem lhe falasse. Rejeitava comida. Bebia
pouco a goles afoitos. Inda grassava a fome
pela tribo. Puã pedia a Jupi que velasse:
– Não a deixes sozinha senão se perde na mata.
Já nem sabe o que faz, coitada, nem de caminhos 445
onde anda, nem de gente que avista. Fala a fantasmas.
Mara esqueceu-se até de viver... – Puã soluçava –
Foi demais, pajé, a punição que lhe dei?
Se foi, Jupi! A culpa è minha. Mara quebrou-se! –
Era a expressão que usava a dizer a perda da filha: 450
– Mara quebrou-se! – Ela, porém, mantinha o seu rito,
todos os dias. Agora já sem gemidos. Chorava.
Ia calma, sentava-se à beira da cova. Regava-a,
inda uma vez, regava-a, de novo, regava-a, regava-a:
– Volta Mani! – Nasceu, num lindo alvor, uma planta. 455
Mal se via o prenúncio dum caule. Duas folhinhas.
Como uma alvíssara a nova correu. Vinham vê-la.
Causa de enigmas, a planta estranha crescia ligeiro.
Homem nenhum conhecia a espécie, nem os xamãs
maduros, nem o próprio pajé. Puã se intrigava. 460
Ora, talvez naquela planta houvesse grande veneno,
plena poção de gotas, pronta a punir os guerreiros.
Fora possível, o chefe indagava de si para si,
que a filha de Mara fora filha também de Jaci?
Nunca se ouvira um tal relato. Mas como pudera 465
Mara mentir, fiel amiga de eternas verdades?
Dia e noite, curvado em tão cruel raciocínio,
não dormia, balançava a cabeça em desprezo
próprio Puã. Se apenas melhor tivera pesado
fatos na mente, dado a Jupi ouvidos atentos. 470
Mas a voz dos ancestrais lhe falava severa.
Não se aceita em tribos retas tamanha desonra.
Ai coitada, mas era não a Mara que a verga
rude cabia, era ao homem daquela desonra,
índio que seduzira e perdera a filha imatura. 475
Nada agora serviam lembranças. Baixava a cabeça.
Vinha-lhe entanto à mente a planta, novo mistério.
Não podia esperar que mais visões enganassem
sua filha. Mandou buscassem a planta na cova,
feita agora em formoso arbusto, depois de semanas. 480
Tal se fez numa noite, quando Mara afastou-se.
Velhos xamãs, descobrindo a funda raíz, arrancaram-na,
tendo consigo o caule e folhas. Passaram inteiras
horas em rigoroso exame do quanto encontravam.
Pela manhã, vieram os curiosos mesclar-se. 485
Vendo a raíz, bojuda, cortaram-na. Puã previa
nela morte: – Dai-me a comer um pedaço, guerreiros! –
Ora, pensava, foi o plano dos astros punir-me.
Quis comê-la, que a tribo soubesse o mal que carrega.
Ante a comoção de guerreiros e velhos, comeu-a. 490
Foi mordendo outros pedaços. Não perecia:
– Ide cozer a raíz – dizia às velhas astutas,
crendo que certo o veneno assim melhor agiria.
Foi servido. Não perecia: – Isto è comida,
filhos, isto è pão de matar a fome a milhares! – 495
Foram portanto provando os índios o novo cozido
contra a fome. E quem o comia, tornava-se farto.
Era, de fato, a cura da fome! Passaram semanas
inda cozendo novas raízes, plantando sementes.
Deram-lhe, pela regra da bela língua da tribo, 500
onde a casas chamavam ocas, um nome formoso,
como a lembrá-la pela casa, o dom de Mani,
portanto mani-oca. E nunca mais careceram.
Foi Jupi que entendeu a intervenção de Jaci:
– Mani, meninos, veio mandada longe, dos astros, 505
para acabar coa fome dos homens! Ela morreu,
Puã, a fim de que nós agora vivêssemos. Eia,
pão da vida! Bendita a mãe da bendita Mani! –
Puã, a sós pela noite, amargamente chorava.


II.

Que valiam a Mara milagres? Tomara-lhe a vida, 510
quase, a morte da filha. Desgostou-se dos dias.
Era apenas a noite que a via, faces alçadas
rumo às invisíveis miríades. Pouco dormia,
rente ao chão. Perdera medo de cobras noturnas.
Ia banhar-se, pouco antes da aurora, num lago 515
frio de profundíssimas águas. Numa das noites,
quando deitada, Jupi abordou-a, de fora da oca:
– Ó minha filha, sai daí! – Em vão intervinha,
pouco auxílio sermões, orações, ameaças. Quimera.
Quando Jupi tomou-lhe a mão, aterrado, rogando-lhe: 520
– Fala! –, Mara ergueu enfim os olhos, fitando-o.
Já não eram dela aquelas pupilas de espectro:
– Mara morreu com Mani, Jupi! Meu nome è Naiá! –
Jupi recuou de susto. Sorriu, num gesto confuso.
Veio-lhe à mente o claro efeito daquelas palavras. 525
Ora, trocar embora o próprio nome, por outro,
fora contra a mãe Ceci um sinal de repúdio.
Não se assentia tanta audácia. Era de império,
desde sempre, banir da tribo quem o ousasse,
fossem velhos, xamãs, guerreiros. Como uma seta 530
farta contra o peito a nova chegou ao cacique:
– Fala a verdade! – Puã cerrou as mãos, violento.
Ato contínuo, tomou do cipó: – Tragam-ma cá! –
Tremia–se. Correu a nova pelo pátio num átimo.
Vinham reunir–se, aflitos, em frente a Puã, 535
enquanto Naiá se deixava levar, austera, calma,
pelas mãos dos guerreiros. O pai delirava, transido,
vendo–a, mais uma vez, amarrada ao tronco e calada:
– Mara! Como è isto, menina? Mudaste o teu nome? –
Puã perguntou. A voz respondeu: – Meu nome è Naiá! – 540
A gente contrita dava suspiros. Puã reprimiu-a:
– Não se permite aqui viverem homens ingratos!
Já demais suportamos cenas das tuas audácias!
A tal torpor chegaste que queres trair o teu nome?
Foras de fora, já tiveras sentido, nas costas, 545
golpe de vara, castigo raro visto na selva.
Mara! É teu pai que te implora! Fala a verdade,
diz o teu nome. – Ela, porém: – Meu nome è Naiá! –
Falava serena, tanto que exasperava o cacique.
Mal terminara Naiá, o pai, erguendo o chicote, 550
fê-lo cair, com toda a força, contra a maloca.
Houve ali tumulto, porquanto a gente corria.
Vinham as velhas, falando baixo a Puã, desoladas:
– Mata não, Puã! – Naiá, porém, cabisbaixa,
sempre queda, não reagia: – Não me conformo 555
mais com tal desprezo! – disse o pai confuso –
dei-te o quanto pude! – Puã tentava de tudo:
– Quando vi Mani, tomei nos braços a neta,
vim a dar-te perdão, ò filha, quando de fato
fora eu que de mais, maior perdão carecera! 560
Rogo-te em nome da mãe Ceci: perdoa-me enfim.
Não passou de meus dias nenhuma noite sem lágrima,
Mara, desde que ousei lançar esta mão contra ti.
Em vão pedi perdão às ancestrais entidades.
Rogo às águas e ao fogo imerecidos consolos. 565
Ora, se queres punir-me pelo silêncio, que seja.
Mas se mudares teu nome, já não posso reter-te.
Rezam as leis ancestrais banir-te embora. Responde!
Diz uma última vez a verdade: Qual o teu nome? –
Era em vão seguir inquirindo: – Meu nome è Naiá!– 570
Puã convocou adentro os xamãs anciãos. E desfez-se:
– Ó minha gente, já nem sei o que faço com ela.
Podes, Jupi, banir as leis ao invés de Naiá? –
Jupi hesitava. Causar a ira de antigos espíritos?
Nunca! Reza o costume o desterro. Ouvindo anciãos, 575
Puã pesava à mente o maior agravante: Naiá!
Em toda a terra das amazonas, fora a guerreira
mais valente e mais temida mulher conhecida.
Nunca se ousara, nas eras, em selva nenhuma,
mínimo ultraje a tão distinta e grande amazona. 580
Como usurpar tamanho nome? – Coitada de Mara... –
disse o pai, solene, – Naiá nos céus a perdoe! –
Ora, Jupi, refletindo em meio ao fumo odoroso,
entre os xamãs, interveio: – Pois que seja Naiá,
se a tal se atreve! Não se sabe que sopro inspirou-a 585
nem se a condenando acertamos. Cumpre o costume;
sê contudo manso, Puã. O caso è de extremos. –
Deste modo confabulando, trazendo à memória
viva a bênção da morta Mani, o conselho saiu.
Puã, mirando a gente a esperar, enfim declarou: 590
– Naiá! O apreço nosso ao grande nome que abraças
pede que possas mantê-lo. Contudo, nosso costume
reza que vás de teu rumo! – e soluçaram as velhas.
Mas o cacique, pedindo calassem, seguiu, temeroso:
– Não porém te impõe a hora exata o costume. 595
Fica o quanto quiseres, entendes? Decide sozinha
quando irás. – Houve alívio. Jupi, ansiado,
inda inquiria, frente a quanta gente assistia:
– Que te move a tomar o mais sagrado dos nomes?
Aonde agora irás, Naiá, que rareiam os rumos? – 600
Ela, contudo, não respondia. Vivia nas nuvens.
Foi depois que Naiá lhe falou, no meio da noite,
quando se viram a sós, na oca. Disse-lhe, grave:
– Eu me vou deste mundo a melhor! – Jupi alarmou-se.
Que lhe passava à mente, pensava, quais os planos? 605
Era urgente impedi-los! Foi-lhe ouvindo o relato:
– Já não sabes como nascem estrelas no céu? –
Ai o sabia! Lembrava, de fato, com vivo remorso,
como as velhas contavam cenas, eras passadas,
longa história que o próprio bom pajé confirmava: 610
Quando Jaci, que brilha branca nos céus e nas águas,
toma de amor a jovens virgens, transfá-las em luz!
Leva-as e ao seu coração acima. E nascem estrelas.
Trás montanhas que apenas amazonas conhecem,
vem-nas colher Jaci de mãos maternas e beijos. 615
Deste modo falando, Naiá mostrava as estrelas:
– Olha o tamanho do céu e como tudo lhe cabe.
Há decerto um lugar para mim naquelas entranhas,
vê, por entre aquelas duas estrelas, aquelas...
Olha quantas outras ali, e quanto espaço as separa, 620
quanto mistério. Se for demais, algumas se movem,
dão lugar, cadentes, às novas que chegam, de longe!
Há lugar para todas as luzes – Naiá decidira-o.
Ia embora buscar Jaci, nos montes. Jupi ponderava:
– Ora, Naiá! Se fores porém tão longe do mundo, 625
que faremos nós, desolados sem ti, na floresta? –
Mas a outra, baixando a cabeça, dizia ao amigo:
– Este mundo è sombra somente, nada me resta.
Quais os dons da terra, Jupi, ainda carrego?
Esta vida somente cansa as almas que sofrem. 630
Ai Jaci, transfaz em luz o meu corpo de sombra! –
Era um caso a carecer de astutas indústrias.
Sob incasáveis apelos, Puã prometera calar-se.
Ante o perigo, bastava um passo falso somente,
ato impensado, e lá se perdia de vista Naiá! 635
Jupi foi ter coas velhas a sós, expor o tentame
triste ao qual Naiá se lançava. Foi decidido,
pois, demovê-la aos poucos. E, logo em seguida,
vinham algumas das velhas falar a sós a Naiá.
Narravam (e não mentiam) sobre monstros na mata: 640
– Toma cuidado, que o Boitatá devora os incautos! –
Tinha forma lodosa, vivendo à beira das águas.
Era capaz de façanhas, submerso nos rios proibidos:
– Sabes quantos rios existem nas matas, Naiá? –
Nenhum mortal jamais o soubera: – Sabes, de fato, – 645
iam seguindo as velhas – quais as formas a mata
toma pelas noites, o quanto se move nos ares? –
Foram, assim, arrancando, numa e noutra palavra,
toda a extensão do intento. Riam, como seguras:
– Ó Naiá, as amazonas se foram, aos montes, 650
mas os montes, que esperanças, longe demais.
E nem se sabe mesmo se existem. Nunca se viu
montanha na selva. – Naiá duvidava das velhas.
Vinham xamãs durante a noite. Longas conversas
sobre Jaci tomavam lugar. Os xamãs a ouviam, 655
davam-lhe crédito: – Isto è certo, quando Jaci
decide, nasce uma nova estrela. – Sonhava acordada
frente aos velhos, enquanto estes, porém, avisavam:
– É Jaci que decide, Naiá, e não o nosso desejo.
Ela que desce e colhe e leva os corpos ao céu. 660
A nós não cabe buscá-la. Ela sabe onde estamos. –
Mas Naiá retrucava: – È bem Jaci que decide.
É preciso, porém, num santuário de luzes,
ir buscá-la, longe do mundo. – E não concedia
quanto a isto. Como pudera? Sabia de outrora, 665
pelas bocas dos mesmos xamãs, das velhas viagens
rumo a indescritíveis paragens, onde amazonas
eram colhidas. As velhas ouviam, caladas, aflitas.
Horas inteiras, Naiá quedava, falando coa lua,
como a desenhar no firmamento os caminhos: 670
– Não percebes, Naiá, o preço de tanta viagem?
É perderes a própria carne, perderes a vida.
Queres ser uma estrela, fria, morta, longínqua?
Ó Naiá, as luzes dos astros nada sentem... –
era Jupi que argumentava em vão, devastado. 675
Quando Naiá pediu a guerreiros arcos e setas,
tintas, fumos santos às velhas, Puã interveio:
– Toma-te prumo, mulher, e deixa de pouca vergonha.
Queres morrer, Naiá? – Mas era clara a firmeza.
Foi em vão deixar as armas à espreita, na noite, 680
qual se até pudessem contê-la. Naiá se esvaiu.
Quem o viu a correr, aos gritos, sem rumo correto,
mal poderia crer que aquele guerreiro, vergado,
era Puã, desairando, ante a beira da aurora:
– Foi-se embora, Jupi! Perdi minha filha Naiá! 685
Quedê, minha gente, quedê Naiá? Quedê minha filha?
Não a verão de novo estes olhos. Dá-me a beber
de morte, pajé! – Jupi mandou os homens buscá-la,
mas tornaram, depois de poucas horas apenas.
Era verdade a nova. Naiá se perdera de vista. 690
Dentre todas as formas de morte ali concebidas,
feras, fome e venenos, monstros de vário caráter,
houve consenso quanto ao mais temível dos seres,
ermo à beira dos rios: o Boitatá traiçoeiro.
Movem-se ondas nos ares, pupilas, cílios de fogo, 695
levam embora as almas às matas da noite sem fim,
devoram os olhos, guardam ossos em grutas profundas.
Quem as enxerga, perde a vista, a vida por vezes.
– Calma, Puã, – dizia o pajé –, ninguém conheceu,
jamais, os bons e os maus intentos do Boitatá. 700
Não condenes um ser que muito pouco conheces. –
Puã, contudo, lavado em lágrimas, disse ao amigo:
– Protege Naiá da morte! Salva mi filha, se podes! –
Já se encontrava longe Naiá daquelas paragens.
Era o peito a bússola única. Durante os primeiros 705
dias, correu, o quanto pôde, por densa floresta,
rumo a montes onde as terras tornavam-se azuis.
Apenas a quem chegava ao mais elevado dos cumes
vinha Jaci buscar. Descia dos astros vizinhos
como um alvo, feérico véu, estendendo-se às mãos, 710
ao corpo inteiro. Transubstanciavam-se estrelas,
era eversa a madeira da carne em foco fulgente,
doce e doloroso o trabalho de parto da luz.
Desfeita a derradeira parte em poeira estelar,
Jaci ascendia, levando à cima infinda a criança. 715
Quanto porém de selva e quantas léguas errôneas
era preciso vencer. Naiá prosseguia viagem.
Sem descanso, correu quarenta dias e noites.
Dois os rumos, pensava, podem levar às montanhas,
tanto ao norte quanto ao oeste. Mas era sabido, 720
desde todas as eras, que os montes vastíssimos,
cumes que vão se avançando ao céu de terras oeste,
esses seriam quase que inalcançáveis aos pés,
e dentre as lendárias amazonas poucas os viram,
pois o rumo a tomar era rumo a dezenas de vidas. 725
Quanto aos montes do norte, mui menores em corpo,
não contudo de cumes, eram menos longínquos,
mas a selva os cobria co véu da copa das árvores.
Mesmo nas noites mais lunares, raios escassos,
um ou dois somente, vinham cair pela várzea, 730
focos mui discretos. Quando a noite triunfa,
resta no coração das selvas o azul invisível.
Rara estrela vence a crosta densa das folhas,
comas de impenetrável textura. Poucos ousaram
pela noite andar, na busca incerta de trilhas, 735
cada passo deixando atrás a severa certeza,
cada hora, de nunca ter-se estado tão longe:
longe dos homens, até de si, na selva deserta,
inda buscando mais, maior solidão, no mistério.
Ora, Naiá recusava a luz dos dias, dormindo, 740
desdo algor ao crepúsculo. Via o sol cabisbaixa,
astro que outrora abandonara a miséria de Mara.
Era doutra esfera de luz que Naiá carecia.
Onde, porém, o último raio? Onde as montanhas?
Pobre Naiá, que quanto mais errava entre as árvores 745
menos sabia por quais estranhas terras passava.
Veio o medo. Pareciam fantasmas as noites.
Entre sombras e outras, balbuciava os apelos,
vezes mesmo gritava, sozinha, chamando Jaci
no meio da mata. Respondiam urros de bichos: 750
Aves afoitas, símios, feras ignotas e répteis.
Deu-se conta enfim de que estava perdida. Chorou.
Quando vinha a noite, acostava o rosto nas pedras,
queda esperando as sombras, novos medos passarem.
Medo de monstros? Naiá temia o que não tem nome. 755
Que fazer, contudo, quando na morte da noite
ouve-se passos, vê-se um vulto? Naiá se agitava:
– Quem ès tu? – E desfazia-se em sombras o espectro.
Logo após ressurgia, passo esquivo entre troncos.
Roucos rugidos abafavam-se pelas folhagens. 760
Tinha talvez uma lança? Lançavam fogo as pupilas?
Era decerto o Boitatá. E Naiá preparava-se,
longe de toda terra que os pés humanos pisaram,
para o incerto. Atonitamente, a guerreira calou.
Lembrava agora o quanto sabia da história da morte. 765
Vinha o pavor congelar-lhe o peito. Naiá prorrompia:
– Que fizeste de mim, Jaci? Tão longe trouxeste-me,
mãe do mundo, e agora me deixas, que tanto te amei? –
Naquele momento, revelou-se a imagem tremenda,
vulto que desde dias, talvez, seguia a guerreira, 770
entre ascônditas árvores, lado a lado, gigante.
Ela, petrificada, gritou. Faltava-lhe a voz.
Naiá vislumbrou, num calafrio a mais, uma onça!
Era uma fera de proporções jamais conhecidas,
pronta a matar. Avançou num salto contra Naiá, 775
e farejou-a. No mesmo instante irrompeu a rugir,
de toda parte, deixando as águas e terras trementes,
forte trovão. E dos céus caíram raios, claríssimos,
contra os rios e as fartas altas comas das árvores:
– Eia, guerreira! – disse, do fundo da terra e dos rios, 780
a voz do trovão – levanta-te, amazona, e cavalga! –
Era como se a terra tivesse parado, embalada.
Viu então um clarão luminoso subindo às alturas,
vindo pelo véu, em resplandescentes exércitos
vão de amazonas que cavalgavam das selvas aos céus. 785
Num gesto pujante, Naiá lançou-se ao lombo da onça,
mais de valor que cavalos, e deu-lhe farta as esporas:
– Eia, jaguar, às montanhas! – Zarpou. E zarpou como raio.
Não cavalgava. Voava por sobre um cometa, dourado.
Como brilhava o gigante felino! E como varava 790
célere rumo a máximos montes, Naiá transformada,
feita transfigurada, selva e mistérios adentro.
Quase fora refeita a beleza que Mara perdera –
bela, porquanto sombra alguma cobria-lhe o corpo,
livre a veigas onde a nudez è pura e perfeita. 795
Seus cabelos, pretos, crescidos, eram a imagem
clara da noite, deitando estrelas em meio a caminhos,
pela dourada pelugem da onça. Subia em árvores,
como a buscar, das copas, cordilheiras e cumes.
Ia correndo aos infernos, profundezas, cavernas. 800
Indo, porém, de novas aventuras a outras,
já passada a terra das gentes gigantes, extinta,
reinos de seres anões, sem cabeça, pés para trás,
chegaram ao mais temido canto: selva de várzea,
onde as serpentes eram bem maiores que os rios – 805
cobras que devoravam até a terra coas árvores.
Vezes mudavam coa cauda mesmo o curso das águas.
Eram-lhes, muita vez, terremotos atribuídos,
mesmo inexplicáveis hiatos e terra engolida.
Quando pois no ninho abissal a primeira serpente 810
pôs a cabeça fora d'água, Naiá desferiu-lhe,
ato contínuo, com toda força a frecha iracunda
contra as escamas. Seguiram outras, cobras maiores,
ágeis, do rio profundo como de galhos, de pedras.
Não seria errado dizer chovesse serpentes, 815
répteis alados. Mas nada disso impunha temor
à onça valente. E Guaraci – assim nomeada
pela cor brilhosa a lembrar o sol – golpeava
várias cobras, coas patas e afiadas mordidas.
Certas vezes, bastava o rugido. Naiá combatia 820
como quer que fosse, mão vazia ou com arcos.
Dava saltos. Estrangulava monstros imensos.
Igualmente os mordia qual se fora uma fera.
Doutras feitas, tomava de pesadíssimas pedras
contra a viscosa e voraz alcateia. Numa das lutas, 825
quando Naiá subira o jaguar, viram-se ambos
presas dum perigoso lance – de fato engolidos,
dentro do gordo ventre duma delas, prensados.
Ai que nem de Guaraci conheceu a valência,
nem de Naiá guerreira, quem os julgara vencidos 830
por entranhas de meros ofídeos, e fossem gigantes!
Não lhes foram testemunhas os olhos dos astros,
nunca mendazes, dos atos? E não repararam
como Naiá, dum único golpe, falto de imagem,
fez uma frecha atravessar o império de tripas, 835
quando ao mesmo instante Guaraci devastava
fixos tecidos co'afinadíssimas garras mordazes?
Não sobrou daquele bicho buchudo um pedaço
firme de carne: – Sus, Guaraci, sigamos avante! –
disse Naiá, fortíssima voz, e não lhe importavam 840
um ou mais filetes de sangue no rosto, cansaço.
Ora que exército algum ousava o rumo deter-lhes,
nem de sombras mortais ou de mortos farta milícia,
era mister alcançar a estrada, dos dons e dos montes,
onde as sombras tornavam-se luz. E de fato surgiam 845
novas cores, cá e lá. As paisagens faziam-se
ora amenas. Um cheiro doce, talvez um anúncio,
vinha do alto, por entre esferas branco-azuladas,
poucas, morrendo e movendo-se calmas, pelo solo,
pele das folhas frescas, dormentes. Era Jaci. 850
Caía sobre as coisas como amplexo de sonho.
Mais uma vez, lançava véus do alto enlevantes.
Era como uma voz de prata chamando Naiá,
de perto, pois naquelas eras o céu era perto.
Vinha talvez dizer que se aproximavam os montes? 855
Mal sabia Naiá respirar. Ofegava adoidada,
quase esquecida de si, falando à onça pintada:
– Vê, Guaraci, as amazonas! – Desciam do alto
raios, clarões. A cavalgada das almas passava.
Como em milagre atravessando o verso das folhas, 860
iam cedendo as sombras à luz, e Naiá se banhava.
Fez-se estrela mesmo antes que fosse elevada,
foco a varar em noite morta o mistério das matas.
Tudo o quanto tocava, brilhava. Mas as montanhas,
essas ainda se escondiam. Bastava um momento, 865
vaga lembrança, porém, e desfazia-se em sombras
toda a luz de Naiá. Gritava: – Mani! – Esperava
sempre a resposta. Sempre em vão, as matas calavam.
Vinham nuvens. Subiam do cor aos céus e cobriam-nos:
– Onde, Guaraci, Mani me aguarda? – Prostrava-se 870
rente a raízes, inconsolável. Os urros da onça,
forte, sempre pronta a seguir, de pouco ajudavam.
Pôs-se a pensar a grande guerreira que fora traída.
Via as trilhas pensando tê-las vistas, passadas,
como se andasse em círculos: – Guaraci que me ilude! – 875
Tal suspeita de tal maneira invadiu as entranhas,
corpo e alma, que já tentava Naiá debandar-se,
tendo à mente a resposta: – Guaraci que me engana,
não me quer levar às montanhas. Deixa-me, ingrata!
Ai de mim, que a luz recusa e as feras iludem. – 880
Logo forjou, de si para si, a ideia da fuga,
clara, rapidamente. E aproveitando o momento,
pois Guaraci dormia, desvencilhou-se da fera,
célere o quanto pôde. Correu. Entrou pela sombra.
Foi por lá que Naiá conheceu os temores dos cegos, 885
como se as cores morressem, de vez. Vagava e parava,
olhos no nada: – Mani! – Palpava folhas das árvores,
fogo e frio no mesmo instante: – Onde as montanhas? –
ela orava às almas da noite, dissessem-lhe o rumo, –
Não lhes quero, fantasmas, nem a gente nenhuma 890
quero mal. O que os passos meus de longe procuram
são estrelas! Ó ancestrais, se algum dentre vós
conhece o rumo da luz, aclarai um rumo perdido!
Já não é de império que a vida minha carece
nem de espera alguma dos homens. Quero somente 895
luz, ancestrais, a luz sem fim que Jaci prometera.
Rogo, se algum de vós o sabe, rogo dizerdes
qual dos rios, de qual caminho tomar às alturas! –
Mas calavam severas como um túmulo as selvas.
Ó Naiá, por que quiseste a senda impossível? 900
Não se sabe se piedade ou desgosto moveu,
naquele triz, a luz que desceu do céu sorrateira.
Quase que rediviva pareceu-lhe a esperança.
Foi correndo, como louca, por novas distâncias,
não perdesse mais o derradeiro dos focos, 905
luz que parecia correr-lhe das mãos, fugiente:
– Não me fujas, Jaci! – a voz guerreira gritava,
ia como ganhando batalhas. Buscava quimeras,
já tocava coas mãos Jaci, nas folhas, nos galhos,
pela sombra dos bichos dormentes e pelo intocável. 910
Via o brilho no chão, no vento, no ascôndito fogo,
toda parte vestida em Jaci. E viu-a nas águas,
quando após desesperantes corridas, aos esmos,
veio a dar às plácidas, límpidas beiras dum rio,
águas sobre as quais Jaci pousou, cintilante. 915
Mas Naiá, na insana ilusão das próprias lágrimas,
via na luz, acenando das vagas, o fim da jornada.
Antes que alguma voz ou sopro pudesse intervir,
lançou-se, braços abertos, pelas ondas adentro.
Nem as mãos tocavam os céus nem os pés o chão: 920
– Ai, Jupi, que me abismo! – gritava como podia,
mas os goles gartanta adentro calavam os brados.
Quanto mais apelava a Jaci, Jaci lhe fugia
pelos braços, pernas às quais faltava governo.
Onde agora o socorro das bóias, a mão de resgate? 925
Cada onda engolida tragava as forças da vida
últimas. Ora Naiá, flutuando dos ares às ondas,
entre o mundo e a morte em derradeira agonia,
inda assim indagava se as vagas não eram estrelas,
águas brilhantes, vindo ajudá-la no parto difícil. 930
Era esta a origem da luz? Mas Naiá naufragou
sem nem ouvir do céu e nem da terra resposta.
Quando às superfícies as últimas bolhas subiram,
tarde demais, irrompeu da selva um homem aos gritos,
quase lançando-se às ondas, da margem aonde chegara. 935
Era Puã, que junto a duzentos guerreiros cruzara
toda a terra. Quando a morte escolhe o seu alvo,
não há porém jornada que a vença, nem de guerreiros:
– Vamos buscá-la, ainda è tempo! – Puã delirava,
– Minha vida è que jaz no fundo dessas águas. – 940
Foi demovido a grande custo pelos duzentos
homens chorando àquelas margens: – Naiá pereceu! –
Foram mergulhando em vão e buscando vestígios.
Quem sabia a quais paragens as ondas levaram-na?
– Ó Ceci, eu me vim de tão longe para perdê-la! 945
Que faltou de força a meus pés? – o pai prosseguia –
Leva-me junto coas ondas, morte, leva-me ao fundo! –
Houve porém um momento de susto, porque se abeirou,
na mesma hora, da outra margem, com urros medonhos,
ele, que em sombras acompanhara Naiá: Guaraci! 950
Se alguma onça jamais chorou, havia uma gota
presa nos olhos. Mas os guerreiros, vendo o gigante,
creram que a pobre Naiá se afogara fugindo o jaguar.
Puã, num gesto de extrema e raro vista iracúndia,
arco e frecha imensa às mãos, apontou-a, certeiro. 955
Antes porém que agisse, viu que a onça saltara,
ato contínuo, duma das margens à outra. No alto,
foi transida da frecha e sangrou. Caiu moribunda.
Como se aproximasse Puã, cons próprios guerreiros,
ai ilusões deste mundo, com qual pavor enxergaram 960
claro naquele animal o semblante bom de Jupi:
– Eu fiz a terra parar, guerreiros – dizia morrente,
– fiz cair relampos do céu e trovões e milagres
para salvá-la. Puã, não chores! Puã, ès um grande!
Neste corpo a morte è querida. A lida eu fali, 965
minha gente. Quem não cumpre o dever duma vida,
caros meus, a tal somente a morte è devida! –
Não esperou resposta dos outros. Apenas morreu.
Puã, os olhos fluentes como as bordas do rio,
caiu, amargo, perante o cadáver, num longo tormento: 970
– Não entendo mais este mundo, meninos, perdi-me.
Esta foi a mão maldita que ergui contra Mara,
mão que a largas bateu inocentes? Dizei-me, calados!
Esta a mão que matou Jupi, pajé dos homens?
Foi Puã que lançou à lama o nome do mundo! 975
Ai minha grei, essa vida nossa eu não sei o que é,
que quanto mais se vive, mais a gente se perde!
Como morrer? Lançar-me desta riba além nas ondas?
Não, meninos, a morte me fora doce demais.
É preciso viver e dizer ao mundo o meu mal. 980
Eu careço de pena pior ao crime que agi! –
Dito isto, Puã, tomando da clava afiada,
lâmina larga, fê-la cair, com força indescrita,
contra a própria mão, lançando um grito irascível,
misto de fel e sangue. A forte mão, decepada, 985
foi lançada selva adentro, longe, nas sombras:
– Ide, guerreiros, – a voz dizia, – ide sozinhos!
Esse que era vosso cacique, esse è perdido!
Hei-de apenas vagar, vagar além de sem rumo –
Nada o movia, nem de amigos pungentes apelos. 990
Antes porém que partissem dali, as ondas falaram.
Inda faltava àquela noite a final das palavras:
Era o Boitatá, defensor perpétuo dos rios.
Ia surgindo entre agitados borbulhos de vagas,
todo a separar-se das águas. Ergueu-se o gigante 995
monstro, maior que uma árvore, tendo aos braços Naiá:
– Jaci! – clamou a voz, intenso trovão pela selva.
Viu-se então das montanhas, coas amazonas aladas,
raro clarão, azulado manto que às vagas descia.
Não porém se contenta o Boitatá com miragens: 1000
– Que se passou nesta selva, Jaci? A glória dos rios,
é dos maus que cumpre a mim defender, e dos crimes!
Como quereis, estrelas, que o monstro feio reprima
dentro do peito as gotas, frente a tanta injustiça?
É verdade, Jaci, o lamento que as águas ouviram? 1005
Esta que a terra e céus enjeitaram, morta nas ondas,
é nas ondas minhas que deve ficar, que è preciso
dar uma paga menos ingrata ao sacrifício de Mara.
Já demais a iludiram! Custa-me crer que Naiá,
que apenas buscava luz e nunca império no mundo, 1010
veio morrer no abismo de minhas águas sem brilho.
Ora as minhas águas sem brilho a souberam amar!
Deste regaço, Jaci, eu não te entrego este corpo! –
Houve na terra tremores, e fogos, e a lua chorou.
Desde aquele momento, vem tentando esconder, 1015
em vão, a própria luz, passando noites inteiras
longe da vista humana. Alterna os dias minguante,
feita louca de tanto remorso: – Mas tanto querias –
Jaci dizia doída – tornar-te luz entre estrelas.
Ó Naiá, perdoa os mistérios do céu e não chores. 1020
Não me ofertaste em vão a tua vida inocente.
Hei-de fazer-te estrela, strela mesmo nas águas! –
Deste modo falando, deste modo elevou-a.
Mal a depôs o Boitatá sobre o rosto das ondas,
Naiá luziu-se como um lis estelar nos abismos. 1025
Todas as noites, abre-se a flor e luz a floresta,
marca eterna nos rios vitória régia dos céus.
As suas folhas flutuam firmes, em palmas abertas,
dando calma, socorro a quem se agita nas águas.





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