EUSTÁCIO DE SALES

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© Greg Ory 2017, Record E 6, engl. Totila, Hampshire, dactylic and short hexameters and free verse, 6122 lines, epic poetry, epography, Portuguese. Background: Canterbury Roman mosaic.





EVOCAÇÃO DE APOLO


Como devotos de Iemanjá lançando prenda ao mar depus no entardecer, Apolo, ofrenda de flores sobre a pedra cantando pelo prado um nome relembrado. Terás talvez de eternidades perdidas um olhar generoso sobre a sombra das vidas? Tutor de firmes, é somente um poema que dedico ao teu escudo maior, è dom menor que a beleza da flor e que a força das armas. Acede não por mim, mas pela dor de Roma que o verso recorda e que outrora te honrou.

Naveguemos, Febo, pelas ondas desta Internet, abominável bênção por onde, agitados, caçadores de moda e divisores de tempo vão flutuando vagos, intrigados no facebook e no twitter comentando a temperatura do vento. Comparam as fotos e as vidas alternando virtude e vilania pelos sítios, esquisita existência. É por esse deserto que um destino severo impôs viver e dividir o que somos, e desse palco improvável evoco, na flor e na voz e no html, a transcendência dum deus incompatível.

Eu, se puder pedir, pedirei, ò Febo, que a tua mão se abata pelo mundo como um raio escaldante, sol devorador que és, e destruas as redes e os cabos, como um martelo esmagues no ferro uma impostura exterminadora de letras e vida e verdade. Confunde, guerreiro insaciável, a pretensão dos distraídos: Atira os seus filhos contra a rocha!

Muitos quiseram prantear a desventura que canto e também pranteio tarde. Poema! Teu verso è tão velho que do olvido acaba sendo novo. É preciso evocar, Apolo, com toda a força do sopro e todo o peito o teu concurso: Não naufrague na indiferença dos brutos o esmero raro e digno de nota! É preciso muitas flores depor a teus pés a fim de que a boa sorte vença, se assim quiseres, a inveja de tantos deuses e dum destino destruidor de desígnios. Praza às tuas setas cruzando o peito de eleitos despertar amor ao belo, ao bom e ao vero. Ensina ao tolo que nada è velho nem novo, eterno ou não eterno apenas.

Feita a minha parte, Febo, faz a tua. Ordena à musa inebriar o sopro do bom coletor e destruir, na batalha do verso, a presunção de quem lê com pressa e má vontade. Tu que miraste, rei de guerras, o fundo das almas, prepara-me algum pequeno lugar no templo donde Platão com veredito aguarda, juiz implacável de Homero e do verso dos maus. Não ergui minha voz para cantar quimera e peço perdão se, nalgum momento em verso meu, a verdade soou porventura mais sonora do que ordena a gravidade. Redime, Apolo, a pequenez dum poema vahidoso e contudo ansioso da verdade. Ave, eleitor de fortíssimos, ave, desarmado desarmador de armadíssimos!




ODE AO FIM

Por quê, se a verdade
è boa que luz, destino
quis o fim de todos
dias? Antes da aurora,
serenidade o rever
da sombra eternidade,
cintilante céu.




ARGUMENTO

O povo de Roma fala a Pelágio | Declina o Império Romano | Pelágio intervém a Totila | Totila busca Bento de Núrsia | Totila faz justiça ao camponês | Guardas oferecem Roma a Totila | Totila conquista Roma | Os godos comemoram vitória e Ruderico trava batalha com Vilas | Pelágio lamenta ao mar | Pelágio intervém a Justiniano | Vilas perdoa e adota Ruderico | Totila incendeia Roma | Um Romano morre nas flamas | Belisário intervém a Totila | Belisário reconquista Roma | Totila consola os godos | Totila lamenta ao céu | Os godos reconquistam Roma | Germano marcha a caminho da Itália | Totila apela a Leôncio por Roma | Justiniano envia Narses à Itália | Totila fala ao povo no Circo Máximo | Narses em marcha adota Procêncio | Totila invade Sicília | Os francos recusam Rodelinda a Totila | Godos e bizantinos travam batalha no mar | Narses educa Procêncio | Segisberto dos francos impede a marcha de Narses | Rigo apela a Segisberto e Rodelinda | Rodelinda lamenta ao céu | Ruderico retorna são e salvo | Paulo conduz a Ravena as tropas de Narses | Os godos conclamam à batalha em campo aberto | Narses como Totila encorajam as tropas | Paulo e Rigo aduzem façanhas de guerra | Os godos e as tropas de Narses travam batalha | João sobrinho de Vitaliano e Vilas travam combate | Prossegue a sorte das armas | Termina a guerra.










T O T I L A





– Já non resta em Roma nem urtiga nem rato!
Pois o corpo, Pelágio, desmoronou de repente
sobre mim do nada! Caiu no meio da rua
morto e mastigando poeira. Sabes quem era?
Era gente dos Flávios, povo lá do Senado! 5
Mês inteiro passou cozendo urtiga e comendo
vento, Deus me livre, clausurado co filho!
Mas amigo, este cerco acaba quando, faltando
pão e carne? Vi peão comendo excremento,
tudo que cabe na boca põe que ali mastiga. 10
Bessas lá, guardando gado junto das armas!
Fala com ele! Tem ninguém aqui com dinheiro
nem milagre mas cobrando cinquenta moedas,
gente, por carne assim se vive? Vive nada!
Só de pensar a pessoa para e fica sem rumo. 15
Pois eo quero viver, peregrino! Abre este muro
pelo amor de Cristo compassivo ao faminto.
Guerra è deles! Eu que vivo aqui no meu canto
quero o quê com guerra, Pelágio? Minha vitória
foi comida! Olha bem a que ponto chegaimos, 20
pois melhor de nós até lo escravo com dono,
ai, a vida tem mais sorte longe dos tristes
casos que vou vivendo e vendo. Quem escraviza
dá sustento ao menos! Mas coisa dessa no mundo
nunca vi, e digo mais: Ontem de tarde Terêncio 25
vinha subindo e carregando os cinco filhos
rumo à ponte ali, a prole inteira gemendo
dava dó, e Deus è que sabe como passaram
quase um mês sem comer. Adota um filho pequeno
pois assim se sabe a dor o que é: Terêncio 30
lá com cinco andando sem poder, prometendo
leite e pão. Ô meu Deus, na frente daquela
prole arruinada um pai se atira da ponte!
Some do mundo morto e deixa cinco sem rumo,
vivos só por força do Céu. E vi de meus olhos 35
como do nada mães de empréstimo, osso vagando
semimorto e choro pesando mais que o corpo,
deram braço a renegados, enquanto nas turvas
margens buscavam caçando carne o corpo afogado.
É, meu amigo, a pessoa quer falar e se engasga, 40
come a língua! Esta gente cansada e sem guerra
fez que mal no mundo? Mereciam descanso.
Olha bem o caso! Nõ é favor que nos fazem,
foi Bizâncio com Belisário e Justiniano,
essa gente estranha foi que aqui nos trancou: 45
Nem nasceram perto nem nunca vieram nem viram!
Isto non fosse, Roma inteira estava deserta e
nós correndo pelo mundo, qualquer paradeiro
bênção já, contanto que a vida caiba e comida.
Olha, se querem prender o povo como escravo 50
dentro dum muro do inferno, frei, alimentem!
Ou então que matem, que a fome acaba coa morte.
Mas do modo que vamos, vamos todos embora,
cada qual fugindo como puder e sem medo e
quem vier punir que puna, contanto que mate! 55
I, Pelágio, diz a Bessas que entregue a cidade
toda a Totila, o rei desalmado desses godos.
Coisa feia demais esconder comida do povo!
Já falamos duas vezes, já lhe imploramos:
Ele mente! Vem reforço o quê de Bizâncio? 60
Era fermento o melhor reforço! Tu que doaste
tanto, meu amigo, de prata e valor e bondade,
vê se intercede um pouco por piedade de muitos.
Só teu manto, Pelágio, protege o povo de Roma!
Pede ao general que as vidas vamos embora 65
cada qual de seu rumo e sem destino e demora. –


A fome cala a boca vaga de audazes
corajosos lamentos. Plebeus e patrícios
vão dividindo caídos terra e farrapo
levando areia à boca. Homem da Igreja, 70
Pelágio promete ao povo o quanto pode.
Apareciam-lhe já senadores, privados
de glória tristes esqueletos apenas,
e mães seguravam ressecados rebentos
berrando como gado e concurso de gritos. 75
Chegara ao termo, a multidão entendia,
o brio da idade eterna. Não adentravam
soldados pelos arcos com prenda famosa,
portando forte a lança que outrora partia
os montes nem escudo. As setas punham-se 80
como o sol: Ocaso de impérios raiava
cedendo espaço à treva. Onde os leões
leixando atrás Itália rumo aos extremos?
Passavam devastando em moções arrojadas
peritos no cerco. Formavam fileiras firmes 85
estados de braços imbatíveis. Venciam
valentes. Muita vez as tropas alheias,
ferozes, foram atravessadas a fundo
por uma lança: Bastava a mão dum herói
impôr-lhe força e voo. Espessos houve 90
broquéis suportando a queda de templos.
Os cavaleiros cruzavam a terra num dia
e triste a tropa usando marcha contrária.
Pisar os Alpes, passar o Reno e Danúbio
fora jornada de morte: Cães implacáveis 95
e furiosas mãos dirigindo quadrigas
atropelavam bárbaros, homens e jovens
e cavalgavam sobre o chão de cadáveres
nadadores natos de sangue e de entranhas.
Vorazes carregavam troféus e as cabeças 100
de volta ao ninho das águias, pelas vias
a turba ingente dando salvas afoitas
em nome de deuses. Quando longe estandarte
de tropas tremulava trazendo vitórias,
abriam-se as portas de Roma e Roma dançava 105
em delírio libações de glórias e guerra,
o nome são do Senado e do Povo passando
de boca em boca como vinho de amantes
por almas ébrias lascivamente imortais.
Onde essora entretanto os leões agitados, 110
onde os homens de imoderados humores,
varões violentos? Era terra perduda
e campo aberto a toda espécie de gente
o traço destruído da Itália. Entrava
como o vento em popa o cavalo inimigo 115
matando à toa. Bárbaros, homens novos
apareciam do nada lutando por terra.
Desnorteavam cidades dantes floridas
vertendo muro ao mar. À beira da estrada
cruzava-se norte e sul com pilha de corpos, 120
a terra fértil deflorada em batalhas.
El homem sábio largava da mão la enxada,
leixava gado à deriva e corria sem rumo.
Quem se creu seguro em próspero abrigo
viu subir na aurora o soldado da morte. 125
Quem buscou la cidade cercada por muros
deu-se ao cerco hostil, campanha de meses,
privados de pão e d'água, morrendo fracos
uns nos braços dos outros. El homem prudente
quando havia tempo e valor em tesouros 130
zarpava em perigosíssimas naus a Bizâncio,
por vezes tomadas em alto-mar ou na praia
de súbito assalto, corpos lançados às ondas,
famílias desfeitas. Quem outrora soubera
o mal dos destinos de Itália cantara talvez 135
com lira menos forte o delírio das armas.
Frequentador da corte em Constantinopla,
Pelágio chegara rico de trigo e de prata.
Expôs um triste caso a Bessas, o chefe
das tropas defendendo a muralha de Roma, 140
mas esse enriquecera vendendo comida:
– Home non pode leixar esta gente sair!
Correndo morrem de fome e mão inimiga.
Todos viram a dira sorte de Nápoles
onde sem dó se dizimou fugitivos. 145
Há perigo demais, Pelágio: Esperem!
Em breve Belisário vem com reforço. –
Porém a voz duma grei perdeu paciência:
– O povo, Bessas, somos nós e queremos
que acabe logo o cerco! – Alguns fugiram 150
indiferentes à lei saltando de pontes,
caçando façanha contra incerta corrente,
mas nem por isto se contentaram restantes:
Houve conselho e debate forte e tumulto.
No meio da noite, senadores buscaram 155
Pelágio, andantes tábuas: – Homem de Deus,
jamais se viu parar o comércio de Roma.
Parou! A gente quer obrar e non pode!
A vida humana jà não difere dos ratos
porém milagre, Pelágio, ainda existe 160
que salva Roma e presta bem atenção:
Irás a Totila! – O nome caiu feito raio
sobre um fraco, que recuou aterrado:
– Totila, rei dos godos? – Era impossível.
Tremendas narrações circulavam por Roma 165
da iniquidade dum rei, variado relato:
Cortava e decepava o braço de bispos,
lançando fora da boca a língua do audaz.
Homem irado e vário de humor e nervoso,
mudava de ideias. Dava ordens de morte e 170
traía Deus e promessas. Envolto em sangue
ergueu la espada e Florença veio por terra.
Tratava como escravos romanos e godos
forte no punho. Destruiu monumentos
coas próprias mãos. Tesouros antiquíssimos 175
foram roubados, herdeiros perderam a terra.
Bastava um ato, palavra errada ou depressa
custava a vida ao pedinte: Um rei implacável
reganhara uma guerra e rugiu lo tirano
amigo dos maus, seu nome causando tremores 180
em Roma e toda Itália. Em Constantinopla
o medo perseguia os passantes na sombra
e Justiniano rolava noites em branco
falando a sós no pavilhão de audiências.
Totila esvaziava as cidades e as almas 185
no inferno, parece, temiam dardos do godo
mais que ao demônio. Juiz injusto feria
o ventre inocente expondo tripa na estrada.
Como entorpeçudo em vertigem, Pelágio
meneava a cabeça e mãos tremulavam: 190
– Romanos, qual poder de mundo convence
um homem desta estirpe? Totila me mata! –
O veredito porém de anciãos moribundos
mal se deixa esperar: – Hesitas, Pelágio? –
Assim falando mostravam as multidões 195
prostradas rente à morte. Ora o nobre,
envergonhado de pôr a própria vida
acima da salvação de seu povo, cedeu
temeroso. Pôs-se a sós ao caminho de fora
levando ao godo as embaixadas difíceis. 200
Saiu sem ouvir o apelo extremo de Bessas,
saiu pedindo a Deus piedade e constância.


Ora, a boca de Roma assim lhe rezou a Totila:
– Desconheço, rei, da lei e costume de godos
como tratam na guerra mensageiro de estranhos. 205
Mas em Roma como em terra de gregos sempre
foi ouvido com caridade el homem sem armas,
boca oferecendo paz. Ao gesto de trégua,
quando è justo o governante e bom, acede e
Deus o tenha. Eu, entretanto, fui enviado 210
sem me darem tempo ou preparar as palavras.
Venho aqui pedir por humilde gente e famintas
ordens venho cumprir. Deus ilumine o caminho
desde já dum rei que der ouvido ao pequeno.
Quero falar, se puder, e se aprouver falarei ou 215
como ao rei convier. – Totila ouvindo responde:
– Podes falar! Inclui porém à paz a verdade e
diz o dia, Pelágio, onde o rei dum correto
povo castigou desarmados. Não me recordo e
tanta petulância me ofende: Somente covardes 220
ferem na guerra boca buscando paz e concórdia.
Mas diácono, nem dum cão se soube de ofensa
como a que temes. Quero conhecer a proposta:
Tenho a paciência de ouvir o que Roma deseja,
como anela a paz e quais os termos do acordo! – 225
Isto dito, Pelágio rogou: – O povo se acaba e
vai caindo de fome e quase um ano de sítio.
Ó senhor, uma gente atormentada definha
sem maldade, sequiosa da vida e da morte.
Quem socorre, soberano, um destino arruinado? 230
Vão morrendo sem saber a razão duma luta
já maior que razão. Melhor è nem recordar
as bocas mastigando rato e catando formiga,
verme, urtiga. Foram inventadas comidas,
ai, que nem se pode dizer. Culpa do povo? 235
Não! Os homens dessa resistência de Bessas
são apenas poucos: Reprimem no fraco o rouco
grito por paz. Será possível, rei dos godos,
certo amor ou piedade da vida inocente?
Como Teodorico, o rei de outrora e ditoso 240
pai de romanos e godos, cumpre agir. Agiremos? –
Mas responde surpreso um novo rei aturdido:
– Nunca desdenharei de imereçudo infortúnio,
sempre ajudei e protegi da morte inocentes:
Basta a rendição de Roma e seremos amigos! 245
São apenas três as condições da concórdia:
Para o próprio bem do povo a muralha de Roma
será destruída em primeiro lugar. O longo cerco
já teria acabado se os muros não impedissem.
Não devolvo, em segundo lugar, escravos fugidos 250
dividindo a bandeira dos godos. Não quebrarei,
jamais, el hombridade a quem combate conosco.
Puno Sicília em terço lugar! A terra de ingratos
há de pagar seu mal, porque meu povo a poupou
mas ela abriu seus portos às tropas de Belisário: 255
Sempre ajudei e protegi da morte inocentes! –
Mal ouviu lo diácono e fraquejava perplexo:
– Que dureza de coração, Totila, e que raiva
contra um povo decente e quão injusto juízo!
Nem sabia Sicília que Belisário aportava, 260
nem se soubesse, coitada, que combate ousaria
contra tanta esquadra a triste grei desarmada?
Vão pesando já los meus olhos só de pensar
naquela gente agricultora que mal se mantém e
jamais erguerá no mundo espada contra uma vida. 265
Este o crime, Totila, de que acusais uma simples
grege que tão somente abriga quem foge de Roma?
Mas que digo e que esperança ainda me resta?
Pois se contra um povo tão pequeno e pacato
tendes tanta raiva, quanto mais do de Roma, 270
ai, que tanto tempo abriga as tropas de Bessas
inda que a contragosto? – Mas o rei sitiante
não concede e Pelágio reconhece a derrota,
fim do intento e breve intervenção por caídos.
Era melhor, talvez, perder os pés e a palavra? 275
Antes porém de soluções e juízo acertado,
Pelágio viu-se a sós e transtornado e sem rumo.


Totila, porém, recordava o falar do legado
todos os dias. E sob o sol como em sonhos
a imagem do mal que descrevera de Roma, 280
fantasma, perseguiu-o. Cismando consigo
e contrito falava a sós, a mente agitada.
– Rigo! – chamou no meio da noite assombrada
o mestre de escudos. Num surto de frio e de febre,
Totila mostrava os guardas na torre distantes. 285
Andando com Rigo no escuro, em torno dos muros,
debaixo dos árvores, súbito rompe o silêncio:
– Certa verdade existe, amigo, na voz de Pelágio. –
Mas Rigo perito avisava: – Nega-lhe crédito,
rei, que Pelágio reza por nossa desgraça, 290
frequenta a corte e conhece donos de império.
Aguarda somente a Belisário coas tropas
ca então verás a verdade das suas palavras. –
Totila ouvia e concordava com rosto,
mas Rigo não o vira. Verdade era parte 295
da voz de Pelágio e verdade cabia buscar.
Pensando além, ruminando as perdas inúteis
de guerra e tempo, pesando à mente presságios,
medo e cansaço por entre guerreiros antigos,
tomou pelo braço a Rigo, brando mas firme: 300
– Irmão que és, ajuda-me e leva-me a Deus!
Farás um favor que te peço. Toma estas armas,
veste o valor do rei dos godos e apressa-te! –
Mas Rigo não entendeu, e Totila explicou-lhe:
– Sabes del homem de Monte Cassino, do santo? 305
Busca-o, diz-lhe “Sou Totila”, pergunta
por Deus e pela causa e vitória dos godos. –
Lembrando imagens da morte no meio das ruas
(Pelágio pintara detalhes), o rei ponderou:
– Se o cerco de Roma è vão, partiremos embora 310
para que pobres sem causa non morram de fome! –
Não se acalmava e tornava e falava aturdido
e repetindo palavras. Perdera o juízo?
Rigo partiu de manhã, cavalgando por ermos
sozinho, no siso incerteza: Deus se esquecera 315
dos godos? E vindo ao monte recluso e calado
por onde ao sopé cuidavam dous de verduras,
Rigo irrompeu co cavalo e vendo-o coas armas
dous hortelãos prostraram-se, certos da morte:
– Leva o que queres, deixa-me apenas a vida! – 320
Mas o amigo do rei, descendendo do equestre e
nobre de gesto, pergunta: – É nas entranhas
destes abrigos que Benedito se encontra?
Totila, o rei dos godos, desejo falar-lhe.
Quero esperá-lo aqui. – E leixando hortaliças 325
pela terra e tomados de assombro subiram
dous a chamá-lo. Mas quando Rigo avistou-o
descendo moroso, Bento abria-lhe os braços:
– Bem-vindo, Rigo, à nossa simples morada. –
Como se um raio o fulminasse, o temente 330
amigo do rei, surpreso escondendo soluços,
presa dum pranto ardente ouviu Benedito:
– Filhinho meu, se Totila quiser visitar-me
será bem-vindo na humilde escola de Deus! –
Mas Rigo pasmo subiu ao cavalo e num átimo 335
deu-lhe esporas. Entrou aos gritos na tenda
do rei: – Totila, Bento è mágico ou santo!
Os olhos seus pousando em mim conheceram
quem eo sejo e quem me mandara. Milagre! –
Contou-lhe tudo. O rei, naquele momento, 340
leixando atrás negócios de paz e de guerra,
subiu ao cavalo e varou, com Rigo e com outros,
os campos tristes levando ao Monte Cassino,
passando rente aos mortos, no peito esperança
e desgosto. Quando a prima estrela raiava 345
chegou, de longe como olor da terra molhada
subindo ao céu, e pediu chamassem a Bento.
Ora, Bento, acedendo, desceu a saudá-lo:
– Salve, rei, que buscas? – Um rei de joelhos
beijando-lhe a mão falou co sopro do peito: 350
– Aclara um pouco, Dom, uma mente confusa!
Diz-me, primeiro, qual razão deste mundo
faz um homem culto e de ilustre família
leixar embora nome, passado, pertences
e longe de Roma e cidades buscar abrigo 355
em caverna dividindo a vida coas feras,
bebendo chuva e comendo terra e poeira.
Quem, Benedito, mandou-te embora de Roma,
quem te fez vagar no frio sem amigos?
Diz que punirei los godos que forem! 360
Era de paz o tempo quando partiste e
nenhuma guerra pôs-te aos ombros a fuga. –
Mas Benedito, ou Bento, como lhe chamam,
a destra calma sobre el ombro do rei,
falava brando: – Filho, a vida è constância 365
quando o Cristo nos guia e nunca fuga.
Não por desdém leixei las ruas de Roma,
livros, os pais e companhias ilustres.
Eu, porém, que passei meus dias de jovem
por entre os homens valerosos da glória, 370
julguei de mim pelo amor eterno de Roma
que um homem tão pequeno e fraco e singelo,
filhinho, ofende o bom concurso dos grandes.
E quanto mais o amor de Roma movia-me
mais me recolhia às cavernas escuras, 375
para que aos grandes não faltasse lugar
em Roma que Roma è tão bonita, Totila!
Movido eu da compaixão desses homens
cá me abrigo e peço a Deus pelos grandes
que, como tu, fomentem paz pelas terras. – 380
Totila, porém, mirando os olhos do velho
responde ardente: – Ai de mim, Benedito,
herdei de meu povo dever extremo de guerra,
eu, que nasci na sombra dum reino tranquilo
nos anos do Rei da Paz, do meu Teodorico: 385
Era uma flor a Itália, Roma era amor.
A guerra nova veio da gana de estranhos.
Quero saber de Deus uma coisa somente:
A vitória de Roma è nossa ou de Justiniano?
Um ano quase è passado de cerco e de fome. 390
Se Deus mandar embora eo vou, Benedito,
reúno o meu povo e busco alguma caverna.
Será porém a derrota uma paga divina
depois de tantos anos arados em paz? –
Mas Bento mostrando o céu além respondeu: 395
– Totila, o futuro a Deus apenas pertence.
Talvez se te esforças Roma caia-te em mãos.
Porém se algum pequenino saber eo pussuo,
mi fili, sei que è breve o ganho do mundo:
Vitória e verdade são distintas de essência. – 400
Isto e muito mais el homem santo lhes disse.
Um triste rei cavalgando à noite por bosques
junto a Rigo et outros cismava tristonho:
Não sabia, lembrando as graves sentenças,
se Bento falava da sorte ingrata do mundo 405
ou predizia-lhe a queda e fortuna em ruínas.


Veio a pé da Calábria gritando por dias inteiros
um homem atravessando a terra, arfando cansado:
– Rei! A piedade que rogo è somente a da morte,
sim, ordena ao soldado que desonrou minha filha 410
crave fundo esta faca forte aqui no meu crânio.
Olha, senhor, o mundo nem me ensinou a falar:
A vida minha è leite de vaca e vagar em cidades
onde Deus me ajuda e vou vendendo e vivendo.
Era tão bonito quando a menina era alegre. 415
Nunca fez um mal a ninguém, coitada que era,
só tocava em teta de vaca e cuidava de bode.
Dia e noite ela orava e preparava a comida,
tinha tristeza em minha vida não, soberano,
pois a menina pensava mais em mim que na vida, 420
eu, que vou ficando fraco e ficando caduco.
Ai, meu Deus, chegou de repente aquele soldado,
dei-lhe o gado inteiro e comida e leite e dinheiro
não lhe bastou, Totila! A minha filha gritava
feita louca implorando em vão mas nada ajudava. 425
Maltratou demais a menina, desdisse de Deus!
Ela agora corre e grita e non sabe o que fala
nem reconhece pai nem mãe, mas chora agitada.
Isto vida nõ é. Se alguma cura eo soubesse
dava dinheiro mas ali, senhor, non se cura. 430
Já que Deus non teve de nós piedade nem graça
vim morrer. Senão, eo vou viver de que modo?
Era ela o sustento meu e da mãe perturbada
nem justiça ajeita mais uma vida perduda:
Mata logo, gente de Deus, um homem de nada! – 435
Dito isto prostrou-se como curvado de cãibras
mas Totila estendeu-lhe a mão, o rei ao caído,
contendo como podia as impressões desregradas:
– Tem a bondade, ancião, de revelando o nome
desse soldado. – Feito assim Totila alterou-se:
– Prendam! Tu porém, senhor, descansa por hoje e 440
logo discutiremos o termo da morte que imploras. –
Mas aos soldados o rei ordenou lhe dessem abrigo,
pão e remédio: Fosse provudo bem e de tudo!
Quando aos conselheiros houve chegado o caso,
pela manhã demandaram transtornados Totila: 445
– Este guerreiro, rei, è forte herói de batalhas!
Veio do peso da sua lança, tremendo projétil e
míssil que como nulhome arremessa, nossa vitória
contra Nápoles: Veio de graça ofertar a vida!
Quando a morte era certa, cercado nunca fugia 450
nem se viu no tempo valência maior entre godos;
antes corria enquanto a multidão de aliados
debandava em retirada escondendo-se em selvas,
todo a sós, al ombro a lança contra milhares
homem sem medo. Perdeu respeito à morte lutando. 455
Pois o corpo carrega inteiro marcas de guerra
como troféu de sacrifício por homens e tropas!
Não baixar jamais o viço do bravo soldado:
Que pensarão ao verem preso, punido ou caído
raro exemplo e monumento à coragem de guerra? 460
Toda guerra è feia, senhor! Os crimes da carne
foram preço, nel ato extremo, de várias vitórias.
Algo de compaixão lo bom guerreiro merece,
doutro modo a causa gótica nossa se perde e
vai-se embora entristeçuda a massa dos bravos. 465
Já passaram tantos anos de morte na Itália,
Deus dos céus, e cada dia se assoma incerteza
pelas mentes. Não destruas a pouca esperança e
foco de fé que nos resta ainda: Tempo è verdugo.
Rei, aqui conclama o bom conselho dos grandes: 470
Seja solto, pelo amor da penúria dos godos,
solto um bravo a quem devemos vida e vitória! –
Mas Totila responde: – Perdestes vossa memória?
Eu, senhores, selara acordo de paz com Bizâncio
pronto a render o forte et homens meus de Treviso 475
quando viestes suplicando ofertar-me a coroa.
Fôramos lá leixados por Vítice, rei dos vis
covarde abandonando as armas durante a batalha.
Fora morto o meu tio Idibaldo, Deus o tenha,
mas a vós pareceu prudente crer no impossível! 480
Ora, desde o primeiro dia roguei me dissésseis
contra quem imperava prosseguir a contenda.
Contra quem lutamos, godos, quem combatemos? –
Eles porém perplexos retrucaram de súbito:
– Contra Justiniano, Totila, e contra Bizâncio. 485
Como não, se veio deles a guerra e ganância? –
Isto dito, o rei retorna: – Não me rogastes,
homens, a luta contra romanos, contra inimigos
sim jurei guiar o meu povo, rei dos romanos
como dos godos. – Soldados recebendo o sinal 490
trouxeram adentro o genitor duma vida sem honra:
– Diz uma coisa, senhor – Totila assim começa –
tinha a menina alguma relação com Bizâncio? –
Mas o velho assustou-se: – Tinha como, Totila?
Nunca saiu de casa. – O rei porém continua: 495
– U nasceu? – O velho disse: – Lá na Calábria. –
Nisto Totila apontando os anciãos do conselho
pede ao pai: – Explica por piedade aos juízes
qual a vida que a tua filha em casa levava. –
Mas o senhor ouvindo clara a palavra juízes 500
teve medo e deformado por lágrimas trouxe:
– Só tocava em teta de vaca e cuidava dum bode. –
Foi levado afora por onde esperava aturdido,
Totila dentro falando aos anciãos temerosos:
– Fui traído, godos, foi punida inocência! 505
Era aquele o soldado mais valente dos nossos,
ele que arremessou coa mão lo exército ao chão?
Foi de fato o mais covarde dos homens aquele
que tanta força usou e contra a vida sem erro! –
Quando o guerreiro houve compareçudo na corte, 510
vendo junto ao rei lo conselho, o pai da menina,
pôs a verdade: – Rei, o crime meu è sem cura. –
Totila retruca: – Cão! Algum soldado dos nossos
foi mandar te unires sujo a nossas cohortes?
Como e por que pagaste em modo tão grotesco 515
tanta esperança depositada em ti pelo povo?
Para quê lo ardor de tantos gestos heroicos?
Não leixei passar um único dia em batalhas
sem avisando à tropa que não tocasse castos
nem ferisse mulheres. Onde estavas, guerreiro? 520
Éramos vinte mil soldados no início da guerra
mas gana e presunções e gestos feios minaram
nossa força: Homens como tu, vergonhoso!
Raça melhor requer um rei de escasso recurso
quando a salvação de seu povo exige vitória. – 525
Mas o guerreiro sem medo agora calava-se,
vendo que nem defensores seus se alegravam,
antes balançavam baixa a cabeça confusos
inda buscando em vão na mente fraca argumento.
Disse-lhes pois o rei: – O pai daquela menina, 530
já sabeis a graça que veio rogar de Totila?
Veio pedir, juízes, a própria morte somente!
Que farei? Mostrar al homem triste e minado
que neste reino a morte vale mais do que a vida?
Ou foi nobreza maior mostrar por alguma atitude 535
que neste mundo alguma coisa bonita è possível? –
Entra entonce o velho trato adentro na corte
donde Totila olhando os olhos seus explicou-se:
– Tenho torturado a mente em vão ruminando
como posso perante meu Deus, juiz de juízes, 540
dar-te a morte que firmemente pedes e imploras.
Diz algum dos crimes que perpetraste na vida,
dá-me ajuda, ancião, porquanto rem encontrei.
Antes pesei na mente os atos teus e palavras
e como pude as comparei com juízes. Andante! 545
Quanto mais a tua boca articula as palavras
mais se evidencia a mim que tou nome è justiça.
Como manchar de morte a vida que veio de longe
reta e caminhando por léguas a pé destemuda,
trazendo ao peito apenas confiança em Totila? 550
Desta corte o justo vai-se embora com vida! –
Mas o velho não se leixou levar por palavras:
– Rei generoso, è mais amarga a minha verdade.
Tudo acabou: Levaram meu gado, leite, dinheiro.
Todo dia eo busco um lugar de andar pelo mundo 555
mas no mundo acabou lugar e meu gado acabou-se.
Sei viver sem rumo não, eo quero um descanso
e peço morte è para estar chus perto de Deus. –
Isto dito Totila estendeu la mão que calasse!
Junge-lhe o rei: – A tua morte non posso te dar 560
mas posso dar justiça e dom maior do que morte.
Para que tou pedido non fique em tudo incompleto
dar-te-ei de fato uma morte, a morte del ímpio
ser que maltratou la menina. E dou-te um ordem:
Leva contigo o gado, o leite, o remédio, dinheiro, 565
leva el ouro que o rei te daremos e trata a menina,
trata como se fosse filha dum rei que a protege
nem reclames: Maior justiça somente por Deus! –
Totila, pois, ordenando a morte dum pravo soldado
deu los seus haveres todos, pilhagem de guerra 570
ao pai, que retornava embora aos braços da filha
rico rezando a todos que encontrava na estrada
quão bondoso lhe fora o rei Totila dos godos.


[Prosação]

Na mesma noite apareceram quatro
soldados bizantinos. Eram remotos 575
de Isáuria pois lugares ermos proviam
de combatentes o Império. Vindo Totila,
o rei temudo a quem rogavam palavra,
os guardas implorando insistentemente
diziam-lhe: – A gente vem aqui lhe falar 580
da parte de Bessas, mas não mandada por ele.
Totila, até daqui se consegue escutar
gemido e som de todo jeito e sofrido
que mesmo surdo sente. Inda tem gente
em Roma que aguenta gemer na fome, milagre 585
e visão do inferno! Mas uma coisa è verdade:
Non vale nada esse Bessas guardando comida
do povo, comida que nem è dele, è do povo,
pedaço de grão e carne lá da Sicília.
Do que ele gosta è de cachorrada, Totila. 590
Semana passada lhe escreveu Belisário:
Tome vergonha na cara, seu traste infeliz,
e dê de comer ao povo. E Bessas se importa?
Ficou foi rico de tanto vender a quem pode
pagar, ou melhor, podia, dinheiro acabou. 595
Agora me digam: Isto è serviço de gente?
Até soldado passando fome! De noite
o couro come que è bebedeira e mulher
e dança e só festança e lambança na torre.
Mas fora, meu Deus, dà dó demais de ver 600
morrer menino e gente feito cachorro:
Negócio do cão! – O rei porém respondeu:
– Soldados, várias vezes propus a paz
e a culpa, como se sabe, è só de Bessas.
Buscade caso e jamais vereis entre godos 605
esse tipo de coita. Que Bessas se renda!
Com Bessas cumpre falar, comigo não! –
Mas um dos quatro irrompeu suando nervoso:
– Nem que o demônio me leve falo com Bessas,
gente ruim, que se depender dum cachorro 610
feito aquele Roma se acaba de fome e
morre de vez. – Foram pois revelando-lhe
o plano: – Conheço el hora da troca de guarda
no muro. Eu, e os três aqui, começamos
de madrugada o nosso turno, o resto 615
dormindo. Pelo amor de Deus, soberano,
entre de vez em Roma e acabe com isto,
a gente abre o portão lateral da muralha
e a tropa inteira invade e termina o suplício,
promessa nossa. Mas quero saber um negócio, 620
senhor: Se a gente abrir portão para godo,
será que o godo deixa a gente viver? –
Totila foi tomado como dum raio e
faísca nos olhos respondendo exaltado:
– Se for verdade, guardas, esta promessa, 625
não somente vivêieis mas ricos sereis
e tereis de mim recompensa raro pensada. –
Mostrava-lhes nisto baú repleto de joias,
deliciosas prendas de prata e d'ouro
e pedras delicadas, pulseiras, correntes. 630
Erguendo uma rica presilha, dourado detalhe
na forma talvez de borboleta raríssima,
o rei lhes disse: – Vale mais duma vida! –
Choravam quase em comoção los soldados
lembrando as toscas ocas donde saíram 635
pelos ermos de Isáuria, eles, coitados,
que só buscavam pão de início, dinheiro,
leixado atrás em regiões desgraçadas
família larga na espera, mães e meninas.
Totila marcasse a data e logo abririam 640
generosos ao godo as portas de Roma
e cada qual encontraria ao final
lo paraíso seu, dinheiro out império.
Mas o rei confabulando nos bosques
com Rigo, lo amigo leal, rogava aviso 645
e falava baixo: – Será verdade a promessa?
Sõ espiões mandados por Bessas decerto
tramando ruína. Parecem retos, amigo? –
Mas Rigo ponderava em silêncio cansado
e temendo o destino. Vez et outra mirava 650
folhagens dalgum árvor, antigo ancestral
incerto no meio da noite e respondia
sisudo: – Melhor esperar um pouco, estudar
melhor o palavreado e ver as promessas.
Pode esser emboscada. – Conselhos de Rigo 655
bastavam pelo forte efeito. Os soldados
isáuricos iam esperando em vão resposta,
desesperados ao ver perdudo o prospecto
de boa fortuna e Roma renduda e de paz.
Totila foi astuto e de fato mandara 660
dous ou três dos godos rondar a muralha
de madrugada e comprovar as palavras.
Nisto porém a notícia do plano iminente
chegou a Bessas. Veio da boca abalada
dalgum soldado zeloso e fiel de deveres. 665
Era braço leal de Belisário, chefe
maior e general das tropas de Justiniano
em toda Itália, conquistador de Cartago
contra o povo dos vândalos. Era um homem
de fama em Bizâncio. Belisário contudo 670
via portos e fortes da Itália perdudos.
Por qual perigosa estrada trazer os poucos
soldados? Só que Bessas ouvindo a notícia
decerto ouviu de noite ao canto da cítara,
bebudo em libações nos braços de amantes, 675
decerto assim porquanto não reagira,
antes terá responso ao soldado ansioso
que a flecha forte dos homens seus bastava
contra o godo cansado. No mesmo momento
quatro soldados transbordando de medo 680
buscavam Totila: – Pelo amor de Jesus,
senhor, demora è demais! Se Bessas souber
de alguma coisa a gente morre linchado.
Eo quero que um raio caia na minha cabeça e
me mate agora na frente de tudo que è gente 685
se for mentira o que eo digo. Quase que pede,
está que implora invasão a cidade de Roma,
falta só quererem! – Totila enviava espiões
e nesses lances de medo e tanta incerteza
o monarca buscava como aprehenso na mente 690
a tenda amiga de Rigo: – Talvez Benedito
tenha previsto a vinda da nossa vitória!
Reza, amigo, roga que Deus se apiede
da nossa gente, vitória seja a verdade
e não começo dalgum tropeço de morte. – 695
Mas quando ouviram que já seguiam a Portus
donde Belisário intentava os resgates
certos soldados afoitos, peito na boca
o mais velozes possível querendo avisar
perigo ao general, cavalgando e tremendo, 700
aqueles quatro isáuricos foram aos godos:
– É agora ou nunca, invadam! – Ouvindo atento
os detalhes um rei incerto e lívido incede
a Rigo e poucos outros dos próximos seus
que fossem ver de si mesmos na morte da noite 705
o estado da rês. Em poucas horas voltaram
e Rigo medês lhe disse: – Tudo em silêncio,
a guarda dorme e ronca e sonha tranquila. –
Deu-se assim que um rei arfando exaltado
mandasse a quatro soldados: – Podem abrir 710
as portas de Roma, podem abrir a cidade! –


Quando aluvião de tropas entrou na cidade
Bessas e os seus soldados debandaram embora.
Pela porta oposta desordenados perplexos
cães leixavam pelo chão escudos e lanças, 715
ora que o medo vivo cambaleava a coragem.
Mas as tropas fugiram duma fuga ligeira:
Era o povo que não valia a correr enjeitado
pela sarjeta e dividindo a vala cons mortos.
Que visão e triste sina aguardava Totila e 720
quantos corpos apodrecendo à beira do Tibre,
vivas quinhentas almas em Roma, dantes milhões.
Quem a força extrema dos pés ainda ajudava
já buscava igreja de abrigo e não se enganava:
Era um ódio tremendo depois de meses em duro 725
cerco et anos florescendo no peito dos godos,
era de pouco efeito o sermão dum rei moderado.
Quanta vez se viu pelas ruas a lança, imenso
míssil atravessando pelas costas um velho
corpo merecedor talvez duma morte melhor. 730
Mas aglomaravam-se aflitos dentro de templos
dividindo a fome, a dor e o medo os caídos.
Não havia nem plebeus e patrícios: Romanos
terrivelmente irmãos, e os senadores de agora
vinham batendo porta em porta pedindo comida, 735
concorrendo em caça com cães e moscas por carne.
Uma coisa, parece, Totila ensinou aos soldados
quando houveram trata por ansiosos lanceiros
Rusticiana, tristonha esposa de outrora Boécio:
– Esta mulher ingrata pagou para destruirem 740
a estátua de Teodorico, rei da paz ultrajado!
Rei, a rameira de Roma nem precisa morrer
se só pudermos usá-la toda e como quisermos. –
Mas a refém mirava o chão e negava palavra,
ela cuja dor, relatavam, matara de pena 745
Teodorico em remorso e desgostoso da vida.
Inda lembravam como outrora o rei da paz,
depois de trinta anos aclamado por todos,
fora imprudente em breve e desgraçado instante.
Dando ouvido à língua duma invejosa mentira 750
veio a crer que Boécio, homem de prece e poemas
cuja causa era um pobre povo, tramava assassínio.
Antes que algum apelo forte pudesse movê-lo
deut à morte Boécio com Símaco, pai et esposo
dela que agora ali se calava perante Totila. 755
Mas o rei da paz percebera tarde o seu erro:
Era em vão que perdia a noite inundado de pranto,
era em vão correr como louco berrando orações.
Nem perdão que pedira da esposa contrito de pena
nem o perdão de Deus bastava, antes sonhava: 760
Via Boécio derramando seus olhos no claustro
e tendo às mãos sangrando a decepada cabeça.
Ora, a visão do inocente seguiu lo rei da paz
na aurora e tarde da noite não havia sossego:
Meses depois, Teodorico enfermou-se e morreu. 765
Mas também a matrona passara os últimos anos
presa dum pranto imorredouro e porém ajudando,
como outrora o marido, infortunados de Roma.
Totila entanto manda: – Fique em paz a mulher! –
Mas uma dor maior se viu de manhã nos famintos 770
quando o monarca, tendo Roma inteira renduda,
veio rezar e agradecer a Deus por tremenda
e grandiosa vitória dentro da igreja de Pedro.
Ora, el igreja de Pedro amanhecera lotada,
era uma densa massa e mar buscando refúgio: 775
Desde a madrugada mães escondendo menores
atrás de bancos gemiam baixo cobrindo o rosto.
Quem podia andava arfando a todos os lados
inda clamando o nome dalgum parente perdudo.
Outros enfim deitavam num canto escuro calados 780
vendo a cruz enquanto perto alguns se abraçavam.
Quando Totila pôs os pés adentro da igreja
rumo al altar, um povo em desespero irrompeu.
Tremendo caiu de joelhos implorando clemência
como insano e balbuciando os apelos confusos, 785
tentando fugir em transtornados saltos e gestos.
Criam que o rei entrara o templo para os fazer
sair à força quando afora a spada esperava.
Veio porém distinto vulto de encontro a si,
curvado e carregando uma bíblia. Era Pelágio: 790
– Amor de Deus soberano e piedade da gente!
O pobre povo abandonado de tudo em Roma
fez o quê para merecer – pero não prosseguia
pois as suas palavras afogavam-se n'alma.
Mas Totila lhe acede: – Sai do chão, infeliz, 795
agora! Eu devia è quebrar a tua cara infame,
eu devia mandar cortar-te a língua, fingido!
Quando me houveste visto fiz ofertas de paz
e generoso acordo: O testemunho da vida
prova quem eo sou e quanto fiz pelo povo 800
não dos godos, mais até por gente de Roma.
Ende rem impressiona as ambições de Bizâncio!
Tens a memória curta, cão! – Pelágio contudo
recomposto um pouco sussurra: – A minha ambição
de mundo, meu senhor, è pão para Roma somente! 805
Eu que servia Bizâncio sejo agora tou servo e
servo apenas teu: Ordena de mim o que queres e
minha vida è tua. El única prenda que imploro,
rei, è compaixão por estes que nada fizeram!
Tem paixão de nós estora que Roma è renduda: 810
Ordena por Deus aos invasores teus caridade
pois aqui se congregam não inimigos, escravos! –
Totila assim ergueu Pelágio et outros do chão
e proferiu aos seus leixar em paz moribundos,
mas voltou adrentro invocando: – Para, Pelágio, 815
suportei demais ofensas por esta paróquia
nem sairei leixando alguém pensar que è minha
culpa a devastação duma terra. Quero justiça!
Quero falar aos senadores de Roma no Forum! –
Foram reunidos às pressas caindo aos pedaços 820
homens velhos e maltratados de fome farrapos.
Já também lo povo se aglomerava ansioso
para ver o que o rei diria e quanto ouviria.
Mas aqueles homens de outrora império calados
foram despidos per ordem do rei perante o povo, 825
para que dessem nus o testemunho da inglória:
– Raça infeliz – Totila acena –, desde o começo
tenho mandado apelos desesperados e cartas.
Não entendo donde veio a vossa descrença e
vou buscando em vão resposta e me desiludo. 830
Que de mal Teodorico outrora vos fez,
senhor que dava ao povo pão e mão amistosa?
Era um protetor do Senado e do povo da Itália,
ele que amava mais a Roma que a própria gente.
Inda dileto em toda a terra nunca interveio, 835
antes vos dava a cada dia mais liberdade.
Mas que paga feia a gestos tão valerosos!
Muitos foram privados para dar ao Senado
nova glória, inda que efêmera como vemos.
Mas i se vê lo princípio que move o destino. 840
Ele que tudo fez se pedisse de volta favor
de vós seria rem comparado ao que dera e
deu de graça, pois è este o modo dos godos.
Pedi somente me abrissem as portas duma cidade
para que o bem de Teodorico em vós prosseguisse! 845
Quis evitar o triste caso em que agora vos vejo
mas foi tudo ilusão, foi tudo incauto juízo:
Ora sei que de todo gesto nobre se esquece! –
Ossos encolhudos no frio perdiam olhares
pelo chão enquanto a gente tapava os olhos. 850
Mas Totila em novo acesso incluía-lhes inda:
– Er dizede perante a sombra de Teodorico
de qual bondade Justiniano usou per Itália!
Homem que nem aqui nasceu peleja por Roma
como se Roma fosse berço, mas eu vosso rei 855
è nado na terra e na mesma terra cá me criei!
Não cheguei nem vim de alhures como soldados
gregos e persas e constantinopolitanos,
mercenários sem causa e de toda causa paga!
Não saí por aí corrompendo no mundo inteiro 860
jovens na prata para lutarem, nem combatemos
como aqueles no amor dalgum passado de glória:
Nós lutamos è pela própria vida dos nossos,
vida que um homem decidiu ruir sem remorso.
Quero ouvir um bem que el Imperador vos confira 865
fora guerra e demolição de serenas cidades.
Neste ardor de passado e glória foi retomada
já dos vândalos toda costa d'África e Líbia:
Deus dos céus, acabou-se el África e Justiniano
cada dia aumenta imposto, arruína as ruínas! 870
Ora quereis que faça o mesmo da Itália? Fará! –
Mas nenhum senador aduz e Totila antefere
frente ao Forum quatro combatentes de Isáuria:
– Pois, Romanos, doravante serão senadores
estes quatro, estes sim amigos do povo! 875
Eles abriram as portas para o fim da miséria!
Não julgaram justos os homens de Justiniano
servos duma ingrata gestão e fazenda de guerras. –
Desta vez, porém, foi mais amargo o silêncio
pois Totila mirava aqueles homens nos olhos. 880
Mas ergueu la voz por eles um vulto distinto:
– Rei! Tamanho mar de abomináveis anátemas
fora mais correto contra os mais criminosos.
Muita fome faz perder as palavras no ventre
nem convém insultar quem já caiu moribundo. 885
Qual das tuas cartas alcançou senadores?
Todas eram retentas pela guarda de Bessas
ora que o bom Senado non tem exército nulho.
Dentre os homens nus que acusas muitos amaram
Teodorico e cá ficaram, leais a Totila. 890
Não o Senado foi chamar a Roma essas tropas
nem lo Imperador nos consultou de Bizâncio.
Tanto non são Romanas que nem lutaram por Roma,
antes fugiram já com Bessas e sous provimentos.
Estes que increpas poderiam ter debandado 895
mas melhor pareceu ficar conosco e servir-te!
Ora, assim non trates quem te implora tutela
e quem ficou por confiança e não covardia! –
Foi talvez no efeito desse apelo que o godo
mandou vestir do frio los macerados aspectos 900
mas intermitiu a Pelágio: – És o meu servo
como dizes? Ouvi direito o termo no templo?
Ora Pelágio, Roma quer a guerra ou la paz? –
Roma decerto queria paz e Totila arremata:
– Boca de Roma, tu que dantes iste falar-me 905
agora irás de Roma falar a Constantinopla! –
Houve tremor e convulsão perante os caídos
dum povo quando a nova correu as ruas: Pelágio
fique conosco! Totila contudo não concedeu.
Na mesma noite foram acertados às pressas 910
termos de paz: – Em tuas mãos – o rei avisa –
jaz o destino de Roma. – E não havia demora.
Zarparia a nave em breve et era de império
quanto antes retornar ca lo rei esperava.
Mas uma grave ameaça fora escrita e com ódio 915
na carta al Imperador: Se Roma caída non basta,
caso a guerra prossiga um pior evento virá.
Ruína em fogo uma eterna cidade será destruída,
mortos os senadores, tomadas outras províncias.
Tendo em mãos a missiva Pelágio zarpou apressado: 920
Pelas ruas atrás vislumbrava um povo alarmado
antecipando a dor e o fim duma eterna cidade.