GUTHLAC

Eustácio de Sales



© Gregorius Vatis Advena 2016 – 2018, Record E 7, engl. Guthlac, Hampshire, alliterative pentameters, 737 lines, epic poetry, hagiography, Portuguese.




Introdução

Para uma introdução detalhada ao poema abaixo, leia a apresentação do autor no Carolíngio. São Guthlac de Crowland (674-715) foi um eremita inglês na tradição dos Pais do Deserto. O pouco que se sabe de sua vida provém duma hagiografia escrita em 740 por Felix, e dum poema narrativo baseado na mesma.

Guthlac é uma narração em verso. Relata a vitória de Guthlac contra o demônio e a sua morte. Insere-se no gênero da hagiografia: biografias de santos. Por tratar um tema sacro e medieval, a dicção afasta-se da linguagem popular cotidiana. O estilo é solene e elevado, como na tragédia clássica.

A métrica é particular a Eustácio de Sales. O verso é aliterativo: Há aliterações entre tônicas e tônicas, ou entre tônicas e átonas (eco); entre átonas (eco falso); entre sílabas adjacentes ou separadas. O verso possui cinco tônicas, geralmente uma cesura sintática e pelo menos um dátilo.






A


Por muito tempo errou sem rumo o demônio
buscando casa, e desde muito disputam
os sábios a causa como essência dum ser
sem paz devoto ao mal. Escritos relatam
a queda dum anjo outrora, excelso companha 5
dos céus perdido, inconformado co trono
de Deus e coa vida. Assim saiu pelo mundo
deixando atrás beleza, descendo ao abismo
por onde pragas entoam. Outros disseram
que desde sempre o mal, desdizendo do bem, 10
persegue a boa fé, desbarata os eleitos,
desfaz alegrias. Argumentaram terceiros
que nasce do coração maldade nos atos,
que não carece auxílio de seres alheios
a mão decidida ao crime, conduta incorreta 15
guiando infirme nau, agravando a tristeza
d’alma e solidão nesta borda abalada.
Numa coisa contudo os sábios concordam:
Inveja e covardia, por onde ocorreram,
testemunharam por onde andou o demônio. 20


1




Ora, o prisco inimigo, cansado do fogo
ao qual arremessara os espíritos vários,
caçou o gabo do rei, o mercante avarento,
incendiou em jovens o brio de fugazes,
amor de vanidades. De pouco bastou-lhe 25
a voz dos condenados e tantos incautos
que vida adentro, renunciando virtude,
jogaram fora o ser num prazer corriqueiro
querendo fama fácil, prata e vantagens
que Deus desabona. Comeram bem e vestiram 30
tecidos suntuosos, gozando as delícias
e menosprezando a dor de destitutos.
Errou, portanto, colecionando falanges
de vis e desviados, a essência covarde,
disseminando inveja por todas as eras, 35
tentando homens. Passava o dono do povo
pesando na mente a salvação duma gente,
e vinha de longe arrebatando a coragem
a voz do inimigo, semeando no peito
cobiça de império. O mercador elevava 40


2




a Deus a prece, agradecendo o trabalho,
e vinha um covarde estimular ganância
de mais dinheiro. A juventude buscava
felicidade do amor, mas inveja maior
soprava adentro excitações incessantes: 45
Vidas pervertidas largaram por terra
dever e constância. Em toda casa erigida
a sombra invejosa quis tirar do caminho
o bom intento. Tomou-se nota, porém,
dum caso raro e perturbador de serenos: 50
É que depois de muitas presas levadas
o algoz covarde avistou, de todos mortais,
uma vida coitada e desprovida de escudo.
Ouviu dizer que, retirando-se aflito
dum mundo angustiado, Guthlac migrara 55
sozinho pelos prados e pela floresta
até chegar numa ilha, distante recanto
que pés nenhuns pisaram. Ali demandando,
ergueu num cole a cruz, bandeira de Cristo,
e construiu no esmero abrigo de barro 60


3

Guthlac abandona as armas: cena de Vita Sancti Guthlaci (Guthlac Roll), representação do século XII, pergamento, acervo da British Library. Legenda: Guthlac recedit ab exercitu suo. Foto: British Library, Londres.




e transitória morada. Disto sabendo
porém o covarde, inconformado na inveja,
correu ao monte com tormentosa falange
rumo a Guthlac, abandonado do mundo
que percorrendo a trilha assim lamentava: 65
– Perdoa, Senhor, um homem transtornado
que apenas quer orar e que mal se concentra.
Percebo desde já que è penosa a batalha
da vida em busca de prece. Pelo silêncio
e pela paz que me cerca vou caminhando 70
e querendo e vou perdendo de mim o destino.
Vem, Espírito Santo, inspira a meu peito
a palavra que anelo e verdadeiro caminho
revela ao perdido que sou. Os dias me deixam
e quanto mais elevo o meu sopro sem força 75
entendo quão distante me encontro da prece
e carente de graça. Ensina ao destituto,
meu Pai, a vida sem erro. – Mas o demônio
no mesmo instante incendiou-se de fúria
e declarou-lhe de imediato guerra. 80


4




Desembarcava já, de visita apressada,
pomposo rei por quem outrora lutara
fiel espada de Guthlac, amigo avisando:
– Em qual desdita e desgostoso destino,
guerreiro, cá se encerra a vida dum homem 85
da tua estirpe brava e digno de glória!
Foi devida à tua espada a vitória
que tantas vezes abençoou nosso reino.
Informa apenas, ingrato, a graça e favor
que a minha corte negou, para que triste 90
e desdizendo o passado buscasses um ermo
donde ofendes, mesmo em pleno silêncio,
teu rei e teu povo! O bom governo carece
dum reto conselho e conselheiro serás:
A corte, povo e partido assim proclamaram 95
e venho eu, o rei em pessoa buscar-te.
Se ainda amas teu povo, retorna comigo,
levanta-te agora! Importa agir como homem. –
Contudo Guthlac, erguendo os olhos além,
balança a cabeça entristecido e responde: 100


5




– Também careço, rei, de conselho correto
e como Deus te trouxe, aqui te pergunto:
Será feliz uma terra por onde governa
o governante que não governa a si mesmo?
Desde cedo, amigo, entendi de meu peito 105
a quanta impostura a minha vida te expunha
como expunha a corte, o partido e teu povo.
Atormentado portanto, migrei de teu reino
trazendo migo um triste intento de vida,
vergonha que aqui somente às plantas ofende: 110
E por amor ao meu povo sirvo-lhe aqui,
pedindo a Deus por compaixão de pequenos
e amor dos justos: merecedores de corte,
partido e governo. A vida orando labora,
no império contudo nem trabalha nem ora. 115
Se não me queres crer, examina comigo
a perdição duma vida e verás o que sou:
O peito chamando, nesta terra arribei
querendo de Deus o dom da prece somente.
Ó desesepero, desenganadas andanças, 120


6




em tanto orar tampouco ainda aprendi
a vida nem prece, desolada existência!
Mas senhor, se apenas governo de prece
o meu intento rogava e governo me falta,
inda esperas de mim governar o teu povo? 125
Demônio desengana a constância de fortes:
Melhor convém ao mau aprender a rezar
e vou pedindo a Deus o governo de mim. –
O monarca, ouvindo e recuando aterrado,
partiu confuso, remando embora e pesando 130
na mente o destino. Ficou porém o demônio
na caça de brechas e já na próxima luz,
enquanto Guthlac colhia o grão da cevada
a preparo do pão, abordava aqueles ermos
mercante abastado, dissuadindo na oferta 135
e profusão de palavras e ricas espécias
a empresa do amigo, suplicando contrito:
– Sai deste chão de inadequada existência,
retorna comigo, Guthlac! Não impressionas
Deus nem mundo no quietismo que abraças. 140


7




A todo custo intentas chamar atenção?
Permite um momento por piedade do amigo
que aqui registre, eu, a ira dum reto,
escuta: Em minha vida o meu tempo erigi
no labor constante, desdenhando preguiça 145
e lucro devasso como a Jesus desagrada.
Antes, em tudo cumpri meu divino dever
e dever de todo homem: Erguer sua lida
no próprio suor, suando ganhar o sustento
que Deus deseja ao justo! Assim laborando, 150
assim cumulei nos anos serena riqueza.
Ganhei mas fui doando, cônscio dos fracos
que ergui da estrada como o céu testemunha
e como sabes também. Mas tu renegas,
gestor incauto, bens que Deus te confia 155
e jogas fora? Tu corres além às florestas
a fim de ocultar, da humanidade e dos anjos,
um ócio que chamas prece? O justo carece,
em todas eras, dum bem que chamamos labor,
do bem que tu, ao rei dos céus ofendendo, 160


8




lançaste ao chão! Voltarás portanto comigo
à cidade nossa: Ali te aguarda o caminho
da boa indústria, suor redentor e correto.
Eu pela senda do bem saberei te aduzir
ganhando a salvação! – Assim conclamando, 165
notava as mãos do eremita, tomando da pedra
e contra a pedra amassando cópia de grãos,
a testa suada. Guthlac mirando o mercante
largou num triz a rocha, arfando ansiado:
– A minha vida corrupta, em tanta incerteza 170
e rumo errado, errando uma coisa aprendeu
no meio do mundo: Dos bens que a lida acumula
o homem perde aparentes, conserva somente
indústria de Deus. A prata que a mão amontoa
de que me vale, amigo, se o vento que passa 175
carrega embora num dia a cobiça dos anos?
Trabalho rogando a Deus por todos os homens
e preparando o pão de que o corpo carece.
Chamaste verdade a propriedade dum lucro
voando de dono em dono, iludindo suor? 180


9




No engenho de Deus os bens imorredouros
o homem guarda no peito. A mão enaltece
a vida em suor, e no entanto o tesouro maior
do trabalho a mão non toca e jamais tocará. –
O mercador contudo insistindo no apelo 185
retorna a Guthlac: – Pois a quem favorece
um labor isolado? O generoso trabalho
rende a bênção do fruto no meio do povo
e prosperidade se afirma. O homem sozinho
fugindo o mundo foge Deus igualmente! 190
Mas esta vida triste que encenas, amigo,
de nada contribui à riqueza do mundo
enquanto os miseráveis esperam auxílio,
a boca bramindo: Guthlac, onde te escondes?
Guthlac se esconde? – Mas o homem da prece 195
considerando ilusões responde ao mercante:
– Deixei o mundo para que o mundo prospere
e não demais se ofenda coa vida dum ímpio.
Amando pois aos pequenos aqui me escondi
cedendo lugar, e espero sim que progrida 200


10




quem melhor merece o concurso do mundo.
Assim trabalho por todos, e mesmo isolado
laboro mais do que a mera lida das mãos:
Resiste ao vento e perante Deus se conserva
o trabalho d’alma. Constrói contudo ruína 205
quem explora da mão e se esquece do peito.
Amigo, a palma sem peito corre sem rumo:
Ignora o que faz, acumula apenas ao sopro
e morrendo a mão a lida morre co vento,
a Deus entristece. – No amor do bom suor 210
e renegando a mentira dum bem inconstante
ali se achava Guthlac, passando das horas
coa pedra amassando grão, do pó da farinha
fazendo seu pão, buscando d’água de longe
e misturando ao fermento: – E nada cobiço 215
além deste grão por insistência dum ventre
desavisado de Deus. Trabalho pois nas mãos
e o peito lembra no pão o corpo de Cristo
em cujo nome existo. Caçando fortunas
notei que a minha vida era vida incorreta: 220


11

Guthlac: representação da igreja ortodoxa. Foto: orthochristian.com




Acumulando riquezas, para mim acumulo
mais que ao pobre. Dando embora meus bens
doei do resto, verdade em Cristo contudo
è sacrifício de vida mais que de resto. –
Ouvido o relato, o comerciante aturdido 225
balança os braços e procurando a palavra
a verdade se cala. Retorna pois abalado,
remando seu barco e repensando nas ondas
vitória pouca de mundo, concurso acirrado
e triste palco de ganas. Recobre coas mãos 230
a sombra do rosto, reconhecendo inconstância
e vento na indústria, soluçando calado.
Aporta noutra margem saudoso de Guthlac,
rogando a Deus coragem. Adentra contudo
a treva e lá se perde, presa danada 235
do grande algoz destruïdor do trabalho.
Inconformado o covarde co viço de Guthlac,
encheu de bolores a massa em fermento.
O servo de Cristo preparando seu forno,
o barro aquecido, vendo entanto perdido 240


12




o labor de muitos dias, o pão destruído,
baixou calado os olhos, presa da fome
erguendo as mãos: – Leva embora, demônio,
o pão de meu corpo, pois o pão de minh’alma
a Deus pertence e de Deus apenas proveio. 245
Vem, Espírito Santo, ensina a teu filho
que o mal da privação em Deus è proveito! –
E caminhando por entre as árvores calmo
e calado evocando, derramava o seu pranto
enquanto a noite caía. O homem dos ermos 250
sem pão padecia e desdenhando abraçava
em prece o vento como o corpo dum árvor,
silenciosa amizade. Contudo um covarde
mirava na espreita, cavaleiro da inveja,
algoz de mansos, e já na próxima aurora 255
o barco arribava e revelava das brumas
o pai de Guthlac, desembarcando e correndo
em turvos urros rumo ao filho isolado,
trazendo prata e pão e perdendo palavras:
– Responde, filho, que mal terrível te fiz 260


13




que assim me pagas o amor? Desde que ouvi
da tua vida e de como abandonas o mundo
jogando fora, desde então me abalei
de vila em vila, perguntando por rastos
dum passo ingrato a Deus, infeliz peregrino 265
em viagem perdida. Aqui portanto erigiste,
neste pântano impuro, a morada futura
e final dos dias? Ouvi dizer pela estrada
que aqui trabalhas, como outrora ensinei,
o pão do próprio sustento! O mundo trocaste 270
apenas por pão e nisto encontras verdade,
vida em nome de Deus? Que triste episódio,
meu filho amado, cá me obrigas a ver!
O homem carece de amor e contudo renegas
de inopinada mente o futuro dum lar, 275
esposa e filhos? Sei duma certa mulher
que por ti se deplora, amando sem sorte
um homem desonroso, que à bênção do afago
o frio, a fome, o morbo, a morte prefere!
Ofendes, Guthlac, a Deus, gestor dos amores 280


14




unindo as almas no galardão da família,
tesouro que ultrajas. Inda è tempo contudo
e basta um gesto de ti que abordaremos
noutra margem do mundo, unidos volvendo
à boa sorte. Vem que teu pai te suplica! – 285
O filho porém, sentado à sombra dum árvor
coas mãos amassando grãos, aponta ao redor
floridas plantas longe e perto e responde:
– Amado pai, eu já me encontro no seio
de farta família, pois cercada de folhas 290
de nada carece a vida. A verdade que entendo
ensina ao modesto: Neste mundo sangrento,
por onde houver um árvor consolo haverá,
na verde calma inquebrantável constância,
espelho dos sábios e professor dos santos 295
orando calado. Por que me pedes família,
meu pai amado, se frente a mim se congrega
em toda aurora um lar de fiéis passarinhos
a quem doando grãos alimento e conduzo
à verdadeira família? Permite, senhor, 300


15




no amor dum filho que apenas busca verdade,
a minha paz e morada e batalha de prece,
escudo sereno que porventura defenda
o ímpio perante o Juiz. O pão entretanto
que aqui me trazes leva embora contigo 305
e leva pecúnia, porquanto não me isolei
dum mundo enganador a fim de enganar-me
vivendo do pão alheio, de alheio trabalho.
Amor, meu pai, caminha longe dos jovens
vivendo em busca dum corriqueiro prazer 310
que quanto mais se goza menos sacia.
Querendo pois de além um gozoso mistério
gozo meu gozo em contemplando a verdade
amiga das árvores. – Isto assim proferido,
um pai desdito, avermelhado nos olhos 315
tomou embora o pão, a prata, o tesouro
e cabisbaixo remava o que amava seu filho,
passando à velha margem por onde aguardavam,
na treva, correntes dalgum prazer passageiro
ao qual rendera a vida, tributo ao demônio. 320


16




Porém o gestor de calúnias, o ser invejoso
apenas se enfada com quantos já lhe pertencem:
Anela as almas zelosas. E assim cobiçando
a vida em prece, aproximou-se de Guthlac
de noite enquanto bebia, e n’água cuspindo 325
envenenou a Guthlac. Enfraquecido na febre,
andava pelo bosque o homem das súplicas.
Inda vagando na escuridão dos demônios,
a sós buscava longe o tecido das folhas,
erguendo as mãos clamando: – Quando da vida, 330
meu Deus, serei e viverei como as árvores?
Quando enfim estenderei os meus galhos
dia e noite ao céu, calado e constante?
Virão de longe a chuva, os ventos, a névoa,
passando a caravana do mundo e dos mortos: 335
E seguirão alçados meus braços em prece,
e não se abalam as orações de meus galhos. –
Angustiado de andar, o amigo dos pássaros
ora apertava ao peito troncos no escuro,
abraço firme, casório de corpo e de caule. 340


17




Inopinado contudo, o demônio se agita
em turbilhão tenebroso, clamando da treva:
– Aos réus ofereço império, prata e prazer,
escravos do inferno. Tu porém me recusas
e desconheces, Guthlac, o dono do mundo? – 345
Do vórtice em fúria revelam-se os rostos
e a legião dos monstros, os olhos de fogo
cercando o homem fraco, rugia impropérios
coa língua bifurcada. Mas Guthlac responde:
– O dono do mundo o meu saber desconhece, 350
conhece o dono dos céus e das almas em prece,
casa a que sirvo! – Dum turbilhão tenebroso
batendo ao chão, fazendo a terra tremer
ergueram contra Guthlac espadas de fogo
lançando ameaça: – Vai-te embora daqui! 355
A terra è nossa! Já non temes a morte? –
O homem a sós retorna: – Lutei no passado
a boa guerra e gustei da vitória do justo.
A espada entretanto já de nada me serve,
porquanto abandono e não pisei nesta terra 360


18




para por Cristo lutar com derrama de sangue:
por Deus apenas morro e jamais matarei!
Em vão aqui tentais à batalha das armas
um homem que luta por paz. – Isto dizendo
o genuflexo em rezas, rogava sem medo 365
a piedade dos céus. A falange contudo
retruca ousada: – Sabes mesmo, insolente,
se o território que ocupas já te pertence,
ou vives como o ladrão tomando posse
de bens alheios? – Mas um homem humilde 370
responde sereno: – Por toda terra inquiri
se tinha dono o monte por onde me encontro.
Como ninguém o reclama, eu nele transito
e dele me irei se aqui chegar o seu dono
e não me quiser. Conheço já que no mundo 375
ninguém de nada è dono e que nada cobiço
porquanto a terra è generosa matrona:
Encontra a todo andante morada e deserto
sem dono de mundo. – Não porém lhe cedeu
a cohorte da morte, e carregando seu corpo 380


19


Os demônios levam Guthlac às portas do inferno e São Bartolomeu intercede a seu favor: cena de Vita Sancti Guthlaci.




no turbilhão, a falange ao inferno baixou
levando além consigo o homem das árvores.
Mas o manso defende-se: – Todos os dias
em toda parte a minha vida è de prece
e mesmo do inferno conseguirei erigir 385
bandeira de Cristo. Vem, Espírito Santo,
por compaixão de abandonados espíritos,
luz o meu rumo incerto e seca meus olhos! –
Mas Deus apiedado, tutor de constantes
ouvindo daquele abismo um clamor inaudito, 390
conclama d’alto o anjo e do trono proclama
um retumbante decreto: – Defende esse homem! –
Felicidade quando os ambos se encontram,
o homem bom e o anjo, o guia do anúncio:
– Passa por esta senda, servo de Deus, 395
levar-te-ei ao galardão da verdade! –
O servo pois orando, o fogo do inferno
abriu caminho e recuando inclinava-se
em coloridos focos perante o pedinte
que pelos arcos passou, santíssima flama 400


20




em defesa de Guthlac. O inferno mirando,
os sofredores lançavam-se ao homem correto
rogando-lhe bom socorro e cura das almas,
aflitos em pranto. Mas legiões revoltadas
súbito agiram antes que Guthlac erguesse 405
do chão condenados, e maldizendo a virtude
devolveram à terra o guerreiro da prece
que fogo non queima. Despertando febrio
dum sonho entristecido, Guthlac lembrou
por todo o dia o desespero de abismos, 410
andando no bosque em orações abundantes
no amor dos mortos: – Entregarás, Criador,
as multidões ao sofrimento sem termo?
Estende misericórdia, Cristo, a perdidos!
Depois de tudo o que vi, de que me vale 415
vencer o demônio se abaixo um mundo padece? –
Assim rogando assim caminhava aturdido,
tristeza deformando a paz de seu rosto.
Mas muito errando durante todo o seu dia
cansou-se no rogo. O passo caiu derrotado 420


21




aos pés dum árvor, donde amassava cevada
ao pão do corpo: – Diz, Espírito Santo,
confortarás de fato arruinados do abismo? –
Um sopro leve soprou, chamando inaudível
o nome de Guthlac, e levantando a cabeça 425
o homem simples viu, radiante dos céus,
um arco-íris. Era maior do que o mundo
nas cores do fogo, rediviva promessa
incadescendo passos, doando esperança.
E Guthlac, penetrando um gozoso mistério, 430
orando e calando, andou no meio do arco.




Ω


Por quinze anos suspirou pelos ermos
o homem dos pássaros. Retirou-se do mundo
desembarcando, pouco longe das margens
que atrás deixou, em transitória paragem: 435
perdida ilhota que as antiquíssimas eras
dum mar violento dissociaram da terra,
emaranhadas lagunas por onde bosques
e priscos prados dividiam paisagens –
e bancos de areia quando baixa-mares 440


22




mostravam ao viajeiro passado submerso
em desastroso dilúvio. O homem de longe
ali portou, e vislumbrando um outeiro
beirando o verde, erguendo cruz e morada
ali quedou. Viveu dos grãos de cevada 445
fazendo pão, e caminhando entre as árvores
Guthlac alçava além, na batalha da prece,
o peito, a palavra. Por muito tempo o rancor
dum poderoso inimigo e covarde invejoso
atormentou constância – pela noite varava 450
o demônio a buscar. O ser iroso adentrava
escuridões na floresta mas nada encontrava:
Silenciosa e serena família escondia
um perseguido amigo na sombra dos troncos,
as copas defendendo a vida de Guthlac, 455
escudo distinto. Mas o verdugo contava
o mundo inteiro: Unira o rei e mercante
e seguidores de império, prata e prazer
que em multidões aduzia. Ao homem singelo
ninguém no mundo seguiu, e quantos beiravam 460


23

»Silenciosa e serena família«. Foto: Gregorius Vatis Advena.




o abrigo de Guthac querendo cura e conselho,
tornando embora além o demônio buscava
na margem oposta, recobrindo de angústia
a passageira esperança da vida quebrada,
enferma constância. Das perdições arribou 465
contudo um romeiro, apenas um aportou
àquela margem difícil buscando verdade
e vida em prece. Andando pelos ermos
ouvira dum bom, e abandonando pertences
viera segui-lo um servidor corajoso, 470
remando todos os dias, maré permitindo,
da margem vizinha por onde erguera morada,
saudoso de conhecer a vida dum simples,
virtude aprender. Assim correram os anos
e o servo desembarcava em breves visitas, 475
ouvindo palavras e preparando fermento
e fogo ateando. Remava embora e pesava
na mente a batalha, balançando a cabeça
e rogando de Deus coragem. Lembrava imagens
ainda de Guthlac sentado à sombra dum árvor, 480


24




a pedra amassando o pão enquanto indagava:
– Mas è qual o mistério da estranha oração
que obrando entoas? Se for verdade a palavra,
se ao coração apenas se gesta uma prece,
como elevas o sopro ao céu, se as mãos 485
atribuladas laboram? – Mas Guthlac arfava:
– Amigo de Deus, a prece nasce no peito
mas pelo corpo inteiro vive-se o canto.
Obrando o pão, recordo a fome dos homens
e o sacrifício de Cristo, em minhas mãos 490
suor e divina presença. – Mirando estrelas
o seguidor recordava e remava inquirindo
no dia seguinte: – Quando vais à floresta
pela trilha, Guthlac, pregas às folhas
a voz da palavra? – O solitário retorque: 495
– Pobre de mim que tanto aprendo nos bosques
e aos bosques nada ensino. Rogo às plantas
quase que intercedam por mim, ocioso na vida
e carente de rumo. – Caminhando entre o verde
certa feita, passavam do seio das trilhas 500


25




à beira dum lago, por onde o servo abordou:
– Por que te vejo, mestre, lento e mancando?
Por que te encontro abafando tantos gemidos,
o rosto pálido? Diz-me logo a verdade
porquanto já percebo na pele e no aspecto: 505
Um grande mal te assoma! Nunca te vi
por esses anos como agora te enxergo,
debilitado e mudo. Por amor duma angústia
maior do que mar, explica o mal que te passa
e se posso ajudar! – E suspirando tranquilo, 510
o amigo dos verdes, andando e vendo amplidões,
responde ao servo: – Desde sempre se soube,
fiel seguidor, que o vitupério de Adão
entristeceu a Deus, e que desde o pecado
um desgostoso legado persegue o passar 515
em este mundo mendaz do forte e do fraco,
do mau e do bom. A dois ilustres consortes,
que a mão divina uniu, um gesto impensado
impôs eterno divórcio, fortuna infeliz
que desde então separa a semente da casca, 520


26



»Desde sempre se soube, fiel seguidor«. Eustácio de Sales recita os versos 512-528.


jogando fora do corpo o cultivo das almas,
desperdiçado um tesouro. Assim se repete
em todas as vidas um veredito severo.
Assim se apodera da florescência do ser
ladrão de existências, colecionando carcaças 525
em triste gana que nada e ninguém dissuade.
Comeram sem medo do astroso pomo da morte
e cá pagamos, filhinho, o preço da audácia. –
Dos olhos, porém, dum seguidor abalado
e transbordantes de dor, seguiu a palavra: 530
– Entendo bem, senhor, a verdade que escondes?
Jesus me castiga atormentando o teu corpo?
Pela margem incerta da vida e do tempo
a morte desembarca, invejosa dum santo
a sorte implacável? – Mas o homem da prece, 535
mirando longe raios por entre folhagens
e pelas ondas, caminhava explanando:
– Sonhei um sonho na madrugada passada,
perene imagem. Resplandescendo das árvores
verde escada assomava. Perdidos em folhas 540


27




os olhos meus miravam buscando o limite
e não enxergavam donde escada descia
dentre altíssimos ramos. Eu, assustado,
ouvi de além do canto uma voz invisível
falando e ressoando, de cima, de baixo 545
e dentro do peito: “Não temer, guerreiro
da boa guerra da prece, e não te assustes
quando o Sopro Santo de ti se aproxima
co galardão da vitória. Tu que trocaste,
ermita, a gana enganadora por árvores, 550
que procuras ainda num mundo inconstante
por onde o mar violento arrasa moradas
e leva embora barcas? Sobe esta escada,
filhinho caro, por onde um singelo jardim
aguarda um homem bom e por onde te aguarda 555
um veredito sereno.” Andando nas folhas
desconheciam cansaço os pés de minh’alma.
E como tomado enfim duma certa tristeza
e também de alegria, abraçando-me ao árvor,
pedi dos céus piedade do engano dos sonhos, 560


28




bondosa ilusão. Porém de longe enxergava
um luminoso fruto ofuscando meus olhos
enquanto a voz entoava: “Amigo dos bosques,
o pomo prohibido que outrora ultrajaram
desperdiçou no mundo a nudez do saber, 565
um frágil tesouro. Mas um pomo te espera
maior que o prohibido que o mundo perdeu
rendido à morte. Come, pois, peregrino,
e senta-te sob a sombra d’árvore da vida,
mãe de teus passos.” Assim ouvi, seguidor, 570
uma voz invencível, e refletindo e seguindo
a voz e meu peito, subi degraus duma escada
que quanto mais me alçava mais alegrava
os pés do sonho e não porém terminava
e nem meus olhos sabiam por onde acabava. 575
Contudo ouvi, de cambaleado que estou,
que apenas sete dias a vida me resta. –
O seguidor, contudo, ouvindo o relato
e retardando seus passos, deixou ecoar
fortíssimo pranto e transtornados soluços 580


29




calaram os pássaros. Era um rosto inundado
de amargas gotas escorrendo das fontes,
d’alma e do corpo. Assim regou desolada
a boca das árvores, procurando governo:
– Percebo já, senhor, que triste destino 585
Deus me prepara. Quem agora me ensina,
aonde irei de rumo aprender a batalha
que à vida reta compete? Ó generosas,
chorai comigo o bom intento arruinado! –
Ajoelhando-se frente ao tronco dum árvor 590
e derramando a vida, ouviu do amigo palavra:
– A diferença, filho, de nós e das árvores,
ouve e reflete: Os inconstantes corremos
passando a norte e sul, e viajando agitados
passamos por toda parte e correndo sem rumo 595
em parte alguma estamos. As árvores ficam
por onde Deus plantar: O vento ameaça,
o mar se agita, e não se move uma vida
que ali se pôs para ser, estar e ficar,
raiz e copa. E desprezando os enganos 600


30




do mundo e tumultos, onde vive se eleva
aos céus calada enquanto Deus permitir.
Assim ensina a paciência das plantas
e assim te peço: Não perturbes a mente
buscando a quem seguir nem sigas a mim 605
que nada sei, mas antes segue esse exemplo
da vida verde. Onde estiveres perdido
o verdadeiro sentido è somente ficares
onde estás, alçando a Deus a constância,
batalha da prece. O resto da vida è poeira 610
que o vento varre a toda parte e nenhuma. –
O seguidor, entretanto, ouvindo aturdido
e contendo a dor retorna: – Mas augúrio
invade minh’alma, presságio: Nunca ouvirei
de novo a boa prece que livre entoavas! 615
Tu, se nada sabes, quanto menos conheço
dos sacrifícios eu, que aqui demandando
apenas começava a saber o que sabes
e a ser o que és? – O solitário minado,
tornando para trás, tossindo e com febre 620


31

»Assim ensina a paciência das plantas«. Foto: Gregorius Vatis Advena.




responde apenas: – Filho, pouco me resta
de raciocínio correto. Incêndio no peito
dilacera a carne e governo da mente,
confunde palavras. Mas desejo pedir,
se aqui permites, um derradeiro serviço: 625
Quando se for a carcaça e da vida restar
poeira apenas, prepara o remo do barco
e desbravando o lago, o mar e o palude
avisa à minha irmã, na margem que habita
a sós e sóror, que um novo alívio conforta 630
o sofrimento do mundo: O sopro de Guthlac,
testemunho dum ímpio, deixou de existir.
O doloroso silêncio que impus entre nós,
impus por amor daquele amor verdadeiro
que não no mundo, e sim no excelso jardim, 635
um dia unirá nossas vidas. Roga-lhe apenas
que venha, por piedade, enterrar o meu corpo. –
Tornaram pois os dois à morada de Guthlac,
andando calados, o pensamento distante.
Ali chegando o doente pôs-se a dormir 640


32




no caixão de pedra que pelos anos inteiros
serviu-lhe de cama, recordando constante
a verdade do fim e prenúncio da eternidade.
O seguidor diligente, contendo gemidos,
batendo ferro contra a pedra do fogo 645
e mecha de palha, preparou-lhe do sílex
a flama consoladora do forno e do frio,
remando embora na noite. Transtorno porém,
angústia nova assomou-o quando na aurora
desembarcou e viu, estirado e convulso, 650
o corpo de Guthlac recoberto de sangue:
– Por caridade, senhor, se ainda tiveres
poder de verbo, diz o mal que te passa
e como posso ajudar! – Dizendo isto,
erguendo da terra a moribunda ruína, 655
prepara-lhe o fogo e pão e trata feridas.
Mas Guthlac, tomando às custas fôlego novo,
profere calmo: – Casório feliz se aproxima
após o aflito divórcio do sopro e da carne,
mas não te aflijas de mim, guerreiro da prece, 660


33




será casório sem termo, d’alma e dos céus. –
O servo, contudo, servindo o pão suplica:
– Recorda de mim, senhor, e donde estiveres
aos céus intercede pela vida dum ímpio. –
O homem simples avisa: – Contigo estarei 665
no peito, filhinho, confia em Deus e verás
que não te abandonarei na batalha da vida.
Perpétuo laço nos une e não se arrebenta
na mão da morte, porém prossegue conosco
acima da escada. Aqui plangeremos em breve 670
a dolorosa passagem de Cristo às alturas,
sabendo porém que a dor se vence na prece. –
E assim dizendo, preparava as palavras
porquanto aproximava-se aurora de Páscoa.
Remando de longe em madrugada avançada, 675
o seguidor vislumbrou, na data preclara,
um tenuíssimo azul que descendo de estrelas
banhava a morada de Guthlac, serena visão
vencendo o mar violento. Depois aportando,


34




andou na trilha ansiado em busca do amigo 680
e prevendo surpresa entrou. Divino perfume
a casa tosca exalava e da carne de Guthlac
balsâmico olor expirava. O altar preparado,
partiram-se dois amigos dum pão redentor,
varão que o mundo enjeitara com seu seguidor. 685
Palavras que ali pregou dos ermos o amigo
a fala dos homens nem o verso traduzem,
excelsa alegria. Nem se sabe também
de quantas almas aflitas a prece curou
da boca de Guthlac, do coração e do corpo 690
e d’alma beleza ubíqua. Passada a tormenta,
soprou-lhe o Sopro Santo d’árvore da vida
no sétimo dia. E Guthlac subiu as escadas.
O peso do peito, porém, derribou de tristeza
um fiel seguidor, que atribulado por dentro 695
buscava o seu barco, a voz dum penoso dever
indagando severa. Tomando pois de impossível
força e coragem, o atormentado embarcou
e pelo mar remou. As águas, sabendo talvez
duma sina infeliz, passavam ora caladas 700


35




em luto brumoso. Quantas vezes contudo
as mãos navagantes fraquejavam no remo,
a mente debalde procurando o controle
e perdendo manejo, transitória madeira
no meio do mar. O transtornado remante 705
remou porém de seu remo e remando arribou,
a barca deslizando tranquila nas pedras,
serenas de atrito. Desembarcando abalado
perante virgem celeste, dilúvio de lágrimas
ferve nas faces, buscando ao mar estuário. 710
O servo, por fim, falando baixo e custoso
e sem que ousasse olhar o rosto da virgem,
revela a verdade: – Requer uma certa coragem,
distinta senhora, trazer a notícia que trago.
Roguei de Deus nas tribulações desta vida 715
jornada reta e fervor na batalha da prece,
sabendo que ao sofredor que serve e confia
o coração pulsando è conforto o bastante.
Aprouve a Deus, porém, confiar a meus pés
um tristíssimo emprego e desgostoso serviço 720


36




presto a Guthlac: Teu irmão e meu mestre,
o servo inseparável dos céus e da prece
como nunca se soube e jamais se verá,
migrou deste mundo a morada mais adequada
acima de nós, por onde um juiz compassivo 725
chamou su’alma ao jardim. O longo silêncio
que impôs entre vós, assim mo confessou,
terá seu termo no dia do amor verdadeiro.
Pediu-me rogar, apenas, que cubras de terra
o resto dum ser que agora jaz estirado, 730
tesouro largado, despojo exposto ao céu
que recebeu a semente. A missão merencória
que Deus me impôs, senhora, aqui se cumpriu.
Irei de meu rumo e desprovido de abrigo,
meu peito pesado entristecendo-se ao remo 735
d’alma aturdida. Flutua, meu barco, flutua,
carrega embora a vida rumo à verdade. –




Fim




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