EUSTÁCIO DE SALES

CANTO DA CORUJA

Index



© Greg Ory 2013, Record E 1, Engl. Song of the Owl, april 2010 to november 2013, Hamburg and Hampshire, dactylic hexameter, one verse, 557 lines, epic poetry, Portuguese.





[De como e onde a corujinha nascera]

Era uma vez a pequena coruja na vasta floresta,
longe da claridade urbana. Quando de noite,
iam embora recolher-se os bichos às tocas,
ela porém ficava. Nasceu do lenho limoso,
veio dum velho paul que toda a fauna temia. 5
Contam que não tivera pais e nasceu como nada
nem os sábios souberam como viera ao mundo.
Mas a terra que abriga animais, o largo berçário
viu a pequena e lhe teve bondade. Nada faltava,
néctar nem à boca nem ao corpo o regaço. 10

[De como a corujinha descobriu o mundo
e de como expressava o seu amor]

Tinha belos olhos que cedo gustaram amores
pela noite. Passava as horas doces com vivas
cores nunca percebidas por olhos humanos.
Onde vemos sombra, notava muitos matizes,
verdes oníricos: Vislumbrava folhas aladas. 15
Strelas, se ouvia, cantavam como as aves nunca,
brilho raro e maior que os postes iluminados.
Pelo bosque, beijava os prateados raios e
véus lunares: Os olhos reguardavam imagens,
nítida fonte. Eram tidos como perfeitos. 20
Eram cílios radiantes que amavam na grande
selva o quanto vissem. Enquanto o mundo dormia,
ela velava alegre e sonhava no espelho noturno.

[De como a corujinha carecia de amigos]

Ia embora o tempo e como adorava os momentos!
Já sabia da história do vento e ventando caducas 25
folhas revelavam os ninhos de seres menores,
trilhas na terra calmas. Eram verdes veredas.
Como não dividir coas aves o quanto aprendera?
Era tortura o silêncio das madrugadas eterno,
era melhor a vida ao narrar alegrias à selva: 30
Muitas histórias eram daquelas pulilas somente.
Foi voando, pois, buscando ouvidos e amigos.

[De como a corujinha veio a ver os pombos
e do que lhe disseram tais aves]

Quando a turba pousou, a revoada de pombos,
uma das aves lhe disse: “São serenos teus olhos!
Quase refletem além o prisma d’ouro do ocaso: 35
Vinde ver, amigos, a luz dessas bolas caladas!”
Mas a corujinha, tomada de afeto, responde:
“Fica aqui comigo e não te apresses, meu caro
pombo, que a noite è longa e passarei sem amigo.”
Mal terminou, porém, e viu-se a sós relegada, 40
pois as aves voavam embora, a voz bradejando:
“Foge logo do monstro, ouve que voz asquerosa!
Deus me livre, coruja, não chegues perto de mim!”
Indo-se embora, a corujinha colheu-se num toco,
onde a treva se houve severa. Jamais chorava 45
pois os olhos puros não careciam de pranto.
Foi fugindo apenas por outros cantos ocultos.

[De como a corujinha encontrou a rosa
e do que ouviu dos espinhos]

Quando a várzea calau e frio se fez a largas,
veio ver na rosa o sorriso e carícia da noite:
“Deixa-me tigo estar, ò rosa. As noites são longas!” 50
Mas a rosa calau, e a coruja dorida lhe insiste:
“Flor, por que me calas? Fala um pouco comigo!”
Veio do espinho a voz: “Vai-te embora, coruja!
Quem amará jamais uma voz desprovida de brilho?”
Mas o pássaro rouco não se contenta e remete: 55
“Eu vivi sem maldade e não me desfiz de ninguém!
Que pesar vos fiz da minha mão, meus amigos?
Veio comigo ao mundo esta voz mas eu sou maior,
eu, que vim ao mundo e vim pedindo tão pouco.”
“Sei que sou bela”, avisa a boca da flor recendente, 60
“vai-te embora, vai!” A coruja calada partiu.

[De como a corujinha buscava consolo]

Farta de rumos a corujinha pousou pelas folhas
inda guardando a voz amarga da rosa nos olhos.
Num momento, quisera defender-se da ofensa,
mas como visse o desdém deitava o rosto no ramo. 65
Como uma selva surda e muda, esta era a terra
cega àquelas faces que se afogavam na sombra.
Pouco penava andar buscando flores em beiras
onde os rios murmuram, pouco errar e mirar.
Não que faltasse o bom exemplo naquela floresta: 70
Toda parte passavam as formiguinhas levando
pelas costas um peso quase mais do que a vida.
Eram bonitas! Tal imagem levanta os ânimos,
bem alenta muita vez e consola os humores.
Quem não via porém no desconsolo indescrito, 75
entre um toco velho e outro a pobre coruja?
Ia varando estranhos rumos num voo desairado.
Mas saber verdades – vale alguma verdade
quando não se divide? Dizer ao céu emoções?
Mas palavras são barcas leves entre tormentas, 80
ilhas longe os grandes sentimentos sem porto.
Não se sabe e nunca se soube o quanto a coruja
viu na selva, voando, imagem tolhendo palavra.

[De como a corujinha encontrou a lama]

Veio a dar no antro da lama. Lá demandara
sem saber a vereda por qual passara a vagar. 85
Ante os olhos, surgiam ramos tortos no pântano.
Pelo breu assombrado e sem janelas ao alto
quase se transfaziam rios morosos em visco,
bolhas borbulhantes no chão de barro salobre.
Era um outro mundo. Faltava a flor no confuso 90
mar de emaranhados galhos. Frio. Labirinto.
Ora, estranha como raro perceita em paludes,
certa calma pairava na escuridão redormente
como convidando a pouso. Mas quando a coruja
quis deitar, um ruído rouco ecoau de repente. 95
Era a lama. Borbulhava um brado embalante
qual pudesse desde sempre falar aos alados,
justo aquela, a lamacenta saliva da selva!

[De como a lama tratou a corujinha]

“Quê?” replica a corujinha, “vai-te embora,
lama, a verdadeira poeira sou eu, a coruja 100
donde nada aflora, que nada tenho de amável.
Tira os olhos de mim! Eu fui expulsa da selva,
quero apenas dormir.” Mas a lama moveu-se
rumo à coruja num gesto de andar onduloso,
forte e pronunciando: “Mal me julgas, pequena! 105
Neste canto que a cor perdeu a verdade floresce:
Não se desdenha a dor e não se ofende o fraco.
Conta, coruja, que te passau em donde aportaste?
Diz-me logo o teu mal e divide a vida comigo.
Dar-te-ei talvez o consolo.” A coruja demite: 110
Não a chamasse a lama fraca ou nem inocente.
Qual a razão de tanto amor? Bastava o silêncio,
stava acostumada ao abandono dos pássaros.

[De como a lama falava e profetizava]

Era tanto o desumano pesar que as palavras
roucas falhavam. Mas a lama não se abalava. 115
Era enganado aviso, disse a bolha à coruja,
pois ali ninguém a vexava. Em calmas cavas
era daquela voz que careciam as sombras.
“Grande mentira!” aduz a corujinha aturdida.
“Como seria possível ser assim recusada 120
minha voz se fosse bela? Por que me abondanam
quando busco algum amigo?” A lama suspira:
“Tem paciência pois um dia, num mundo distante,
homens saberão de ti, viverás na memória.
Estes olhos doces teus brilhavem às almas 125
quando lerem a tua história. Muito falavem
sobre a tua beleza.” Mas a coruja duvida:
“É que não ouvirão a minha voz retorcida.
Falam só de flores.” Ora, a lama dissona:
“Ouve, corujinha! Da flor cairão as pétalas. 130
Tua voz ficará. Os outros cantos são vagas
letras que a flor odeia. Mas se queres a cura,
sei de como afinar tua voz.” Dissesse o remédio
pois a coruja faria de tudo em busca do belo!

[De como a lama ofereceu-lhe a cura]

Duas caminhadas havia. Ficasse na calma 135
simples e encontraria a felicidade perfeita:
Lá, teria as afeições duma fauna completa
nem faltaria abrigo nem abraço entre as ervas.
Mas o outro caminho seria um rumo de busca
longe e perigosa. Dentre os faróis da beleza 140
era aquele o da voz suave e da música doce.
Lá, ninguém ouviria a rouquidão da coruja.
Ela, porém, ouvindo aprenderia dos homens
como cantar: divino dom! E quando voltasse
para a selva teria o carinho de todas as aves. 145
Mas o rumo era incerto, pois chegar requeria
duro risco e risco maior retornar a viagem.
Nem se podia permancer ali para sempre
pois havia um mal naquelas terras distantes
inda que fossem belas. Ora, mesmo as cores 150
muita vez fugiam dali, soluçando assustadas.
“Eu não temo,” prepondera a contente coruja,
“quando chegar lhes dave alento.” Pouco atinava.

[Do quanto custaria a cura à corujinha]

Mas a lama explicau-lhe a gravidade do preço,
antes que decidisse: “Filha, teus olhos são fracos – 155
não poderás chorar senão morrerás pelos olhos!”
Pasma, a coruja ponderau, pesando a verdade.
Que penoso mal macerava uma terra de canto?
“Fica conosco pois o amor è somente dos nossos.”
Mas a coruja olhando os ramos feios em volta 160
não confiava no amor salobro e não se arredava:
Antes morrer que viver abandonada, pensava!
Stava pois decidida a venturar o seu rumo.
Pois a lama pelas ondas mostrou-lhe o caminho.
Quando a coruja livre abrive as asas na estrada 165
já não mais ouvia os avisos, voava empolgada.

[De como a corujinha voou e aonde chegou]

Foi ligeira a sequência: A coruja varar pela noite,
sombras, passar por emaranhados novos de estrelas,
ares, sorver esperança. Pensar também no retorno
nem caberem no peito alegrias da voz redimida. 170
Ver na viagem lugares impossíveis, ignotos
entre surpresas. Quando enfim o céu alvorau-se,
vindo o sol amar, na manhã, os amores primeiros,
veio a dar num campo crescente a fiel corujinha.
Duas árvores gigantescas em mares dourados 175
pelo trigo soavam notas amenas ao vento.

[De quem a corujinha encontrou no novo mundo]

Quis de pronto aprender das mães das avezinhas
nova e nativa língua. Ela imitava os cantares,
arte custosa que era. Repetia exercícios
como se fosse escola: Duro alcançar a meta 180
quando sublime. Porém seguia firme a pequena
pois sabia e reconhecia um divino desfecho.
Mas saiu correndo pelo campo um menino!
Tinha às mãos uma vara e remexia as espigas,
vinha brincando pela terra e na sombra da folha. 185
Era tão bonito assistir uma rara inocência,
tanto que a corujinha sentou-se junto à criança
como se fosse amiga de longa data invisível.
Ela desfrutava do mundo e seguia o pequeno
cada passo rumo à casa – mas algo a magoa. 190

[Do primeiro mal que a corujinha viu]

Conta, coruja, a cena que vês! A mãe do menino
cobre o rosto coas mãos. O pai demora por quê?
Mas morreu? E quem o levou? O pequeno pergunta,
vai ouvindo e não entende. Começa uma luta
pelo campo, onde as armas dos homens trovejam, 195
vão levando os pais e mal-tratando a colheita.
Muito ódio corria por entre um vale formoso.
Mas a mãe tomando o filho ao braço se esconde,
foge deixando a casa em fogo e nada se explica.
Vai correr no desespero da noite em ruína, 200
vida abandonada e jornada sem mão de socorro.
Quando pela aurora a coruja viu os caídos
foi menor a sua alegria ao vislumbro do sol.
Sangue coloria o mundo novo e formoso:
Era um rubro mar, veneno afogando a semente 205
como os corpos estirados, os olhos abertos.
Mortos dividiam campo coas folhas cortadas
pela espada, no fogo as margaridas amargas.
Sombras eram devoradas pelos calores,
flama carcomendo o vale. A causa da luta? 210
Cada um se aclamava dono da terra sem dono.

[De como a corujinha entristeceu-se no mundo]

Onde agora a corujinha veria os fugidos
pelo mundo, por onde procurar os perdidos?
Como se não bastasse não saber o caminho
mal pensava em si mesma e no aviso da lama. 215
Bom coração, esperava ainda virem os anjos,
céus colhendo os olhos dum pequenino caído.
Olhos, frascos de grave fluido gris e tristeza!
São brilhantes pedras mas são pedras espessas
como quimera pesada e nunca forte nas faces. 220
Duas pequenas se pesam tão amargas ao homem,
quão pesadas na cavidade estelar da coruja?

[De como a musa das aves inspirou a coruja
e de como a coruja aprendeu a cantar]

Mas a musa e generosa das aves infunde
força ao peito e logo a corujinha se eleva.
Quase decidira-se a retornar para a lama 225
mas a voz suave consola. Voando por plagas
veio pousar aos pés duma riba sonosa e riacho
para escutar calada: o canto do coro das aves,
ondas odorosas, murmúrios, brinco de bichos
pelos ramos endourecidos. O vento macio 230
dava dança aos arvoredos, voz da floresta:
São surpresas as alegrias suspensas nos ares.
Pois a coruja, atenta ouvinte, aprendeu a cantar!
Quando ouviu a própria voz afinada na várzea,
quase abrive as asas como as almas o peito 235
para engolfar a selva, o mundo inteiro no abraço.
Todo o ser da coruja transformara-se em flauta,
eco sorridente dum canto impossível e doce.
Era como se o coração renascesse num raio.

[De como as alegrias cantaram coa corujinha]

Canta pois um membro novo no coro supremo. 240
Quando alguma nota se perde perante alegria,
quando o ritmo, o metro correto se vai, recomeça.
Doa mais atenção à causa, esmero da indústria,
pois o preço do canto perfeito è perfeito trabalho.
Ora, passava os dias na imitação das cadências, 245
cada das horas dava às auras proezas precisas.
Nesses momentos intensos, as outras aves ouviam
como dum anjo invisível o canto maior da coruja.
Pulsa, amor, e passa das veias às vozes do vale,
deixa as aves saberem o quanto cabe num peito! 250
Música, canto estelar que calas armas dos homens,
fala às cavas das almas, leva além os lamentos!
Tanta natura e puras notas apagam as mágoas.
Como se esquecem pássaros que as horas exaurem,
sol que descendo e dormindo dourifica as margens! 255
Como se esconde o dia atrás das árvores velhas.
Quem será na terra mais feliz do que os pássaros?
Cerram ocelos e dormem doces no meio das árvores.

[De como a corujinha chegou à cidade]

Já podia voltar de viagem e toda a floresta,
mesmo a rosa amaria agora a voz da coruja. 260
Mas um grandioso intento aflorau-lhe na mente,
pois ouviu que a melodia na voz das crianças
era quase mais formosa que o canto das aves.
Era preciso saber de qual mistério se alegram
esses coros jovens, ouvir e aprender a cantar. 265
Nesta busca, a corujinha voau por veredas,
vias desconhecidas, até chegar à cidade.
Para trás ficarom os montes ermos e vales:
Era uma nuvem turva a primeira luz avistada,
ruas amareladas por artifício de postes, 270
fumo das casas pelas chaminés abafantes.
Eram muitas pedras, estranhos entre calçadas,
mais além o asfalto calçando o sapato de carros.
Prédios velhos surgiam, prédios da cor da fuligem:
Quando os olhos procuravam o céu, encontravam 275
cinzas paredes que nunca chovem, véu de vazios.
Não havia flores. Os pés passavam por praças,
turbas carregando maletas. Ninguém escutava
nem enxergava a corujinha no breu, no barulho:
Era o desassossego da rua adentrando a pequena. 280

[Do segundo mal que a corujinha viu]

Quão desassistidas as horas! Numas esquinas
caem da mão calada moedas que párias apanham.
Que te importa o pedinte, coruja? Segue na senda,
busca o coro jovem que queres, nota-lhe as vozes,
vai-te embora. Mas imagens malsãs te dominam 285
pelas ruas. Conta o novo pesar que te abate,
deixa prenhes de pranto os olhos teus inocentes!
Era aquela mãe caída, o rebento nos braços,
fome na espera do pão impossível. Onde buscar?
Vai cantando um ninar ao filho seu que definha. 290
Onde quis a coruja colher o canto dos jovens!
Era melhor fechar os olhos na morte dos astros
ora ofuscados por luzes falsas, farol de automóveis.
Era melhor deixar a cidade e fugir pela sombra.
Mas a pequena ficau. Enquanto rodas corriam 295
rápidas, passos passavam refranzindo a testa:
Nem atinavam coa febre do abandonado menino.
Veio por fim no frio da madrugada o gemido.
Quando porém a coruja ouviu a voz pequenina
deu-se a surpresa: Apareceu, na imagem fatal, 300
ele, o menino perdido por entre a luta no campo,
olhos doentes ali, na calçada. Geme no colo
magro da mãe que o morbo nada menos poupava,
morte iminente. Era verdade o aviso da lama.

[De como a corujinha apiedou-se dos fracos]

Mas agora cumpria agir e pensar num auxílio: 305
Certo um bom amigo tinha o pão preparado,
logo viria o leite alentar a dor do pequeno.
Eram diferentes, porém, os planos de tempo:
Só, a mãe beijava e recobria em vão o faminto.
Não se contentove a coruja e saiu à procura, 310
pobre alado ser invisível. Mas quem escutava?
Nem o desespero daquela mãe lacrimosa
pôde mover à piedade as turbas passantes:
Nada se dá de graça e pressa agita passantes.
Era mundo de ensurdecidos. Podiam as asas 315
inda salvar da morte aquele corpo minado?

[De como a coruja inspirou a bondade de estranhos]

Sem demais pensar, a coruja voau resoluta
rumo à praça e fez a promessa: Não retornava,
não de mãos vazias! O seu apelo inaudível
certo inspiraria o peito aberto dum homem. 320
Teve sorte! Como sentindo desejo imprevisto,
um dos pedestres, mera sombra, muda o caminho.
Vai dirigindo os passos à rua escura dos fracos,
vai seguindo, sem o saber, o cantar da coruja.
Inda que não se pudesse ouvir a flauta perfeita, 325
ela tocava a corda das almas. Aquele pedestre,
pois, chegou à rua da mãe, do menino e da morte.
Que te abate os olhos, valente? Toma coragem
ora que cá vieste, levanta do chão os caídos!
Passa o tempo num sopro qualquer. Usa o ensejo, 330
salva uma vida! O homem ouviu. A mãe explicau-lhe
tanto o céu que perdera como o que estava a perder.

[Da como a corujinha conheceu a morte]

Mas o pedestre corajoso lançau-se na busca
como nave em tormenta rumo ao porto: ao pão.
Quantos remos forom perdidos! O tempo passava, 335
mar amargo. A corujinha perdia esperança
pois o pequeno gemia e não chegava alimento.
Quando o desconhecido retornau da jornada
cheia de angústia, tendo às mãos o pão e consolo,
dons de doadores sem nome, a noite era tarde. 340
Quanto aos abandonados pela calçada, dormiam
ambos, a mãe o sono da vida, o filho o da morte.
Que vacilas, herói? Do destino os autos tremendos
nunca esperam por nautas nem toleram descrentes.
Toma as prendas ora inúteis que portas e parte! 345
Tu, pequena coruja estranha no mundo sem sonho,
só agora recordas a escolha que a lama te dera?

[De como a corujinha desgostou-se do mundo]

Ai, corujinha! O teu pesar na floresta virente,
onde vieste do lenho ao mundo e foste enjeitada
pelos bichos, era um sonho apenas contente, 350
sonho apenas se agora bem comparas os casos.
Ora que transformeres a voz em flauta formosa,
ora indagas o coração e a resposta se cala:
Onde è bela a beleza perante a dor da verdade?
São de invejar os cegos e surdos: Falam apenas, 355
cantam sem ouvir o desprezo às flautas felizes.
Que farás, corujinha, que rumo novo tomaves?
Não te atristes, que a profecia da lama se cumpre:
Tua lágrima è tua morte! Deixa os perdidos,
canta a canção de iludir o pranto gris iminente! 360
Falta alegria? Ora, não cantes, decide-te apenas!
Vai-te embora, contente da voz, e confia na lama.
Quem sorvere em selva a perfeição do teu canto,
filha, será feliz, e terás um amor do universo.

[De como a corujinha chegou à capela
e do canto que ali aprendeu]

Mas não veio de longe o som das vozes maiores, 365
quando na noite seguinte a coruja chegou à capela.
Eram crianças! E como perder o ensejo esperado?
Ora, a coruja decide ouvir, aprender e partir.
Senta-se àquela janela envelhecida e contempla,
junto à cor dos vitrais, os sereníssimos cantos. 370
Ouve tanto e quase se esquece de si, redimida
pelas suaves cantatas, longe do altar e divinas.
Como não se esquecer de si no instante sublime?
Ser è sempre pequeno: ouvir è maior do que ser.
Certos acordes são eternidades, recorda-se. 375
Mesmo o instante, o fugitivo extremo dos olhos
rende-se à flauta mas a flauta nem sabe que existe.

[De como as alegrias redescobriram a corujinha]

Como são grandiosos os pequeninos cantores,
como a coruja adora as melodias amenas:
Tangem do infinito as cordas, soam acima. 380
Vai cantando junto aos puros e vai aprendendo,
vai mesclando os próprios tons à ternura do sopro
como se até o templo, parede e pedra escutassem.
Alma atenta, não perderia uma única nota,
antes transformaria o corpo inteiro em ouvidos. 385
Lá chegavam pois alegrias, voando coas vozes
pela capela, como se fosse o fim do universo.
Mas a vida è pequena e não se cabe na lira.
Voa, corujinha, dança e repete as cadências,
mostra a vida aos seres cuja vida è sem música. 390
Quando as alegrias redescobrem essências,
deixam no dia jamais matiz, murmúrios apenas.
Quando a coruja atinava coas alegrias e as notas,
via cumprida a promessa de aprender a cantar.
Ante os vitrais coloridos, cantava e nada retinha, 395
nada mais a liberdade, o seu voo, o seu canto.
Já podia deixar a cidade e passar pelos campos,
já podia alçar-se rumo às noites e aos sonhos:
ir ouvir estes colecionadores de estrelas
pela floresta, pois agora a floresta floria. 400
Era maior que as alegrias do mundo a floresta.

[De como a corujinha conheceu o coro
e do que atormentava os coristas]

Mas a coruja foi medindo a forma das faces,
foi notando a tez entristecida e cismando.
Ora, deixavam cabisbaixos a porta, a capela.
Que lhes passou, corujinha, vai ouvir o que dizem! 405
Era a voz que faltava, o bom amigo impedido:
Era o canto maior, abandonado à miséria,
guerra e morbo. E quem sabia se ainda vivia?
Cuida dos olhos, coruja, não te apiedes demais,
deixa a cada ser as próprias dores e parte. 410
Ela não ouve! Reflete tanto que não se contenta,
voa angustiada e questiona: Quem o doente?
Era de império saber a causa, locais e pessoas,
ir encontrá-lo, pois talvez lhe desse um auxílio.
Ela descobriu pelo coro o distante endereço: 415
Pois voau apressada. Andau seu andar derradeiro.

[De como a corujinha buscou o abandonado]

Já deixara o fumo urbano e passava por vales
onde o tal enfermo morava, a voz da capela.
Ia por casas perdidas, pastos, batia nas portas,
ia ouvindo atenta os ruídos, buscava os caídos. 420
Mal chegove ao campo ensanguentado na luta,
foi estudando os tratos mal-tratados de terra.
Pois a coruja recordava o singelo casebre!
Não correrom ambos dali, a mãe, o menino,
quando o fogo infame fustigava a madeira? 425
Não fugirom transtornados rumo ao incerto,
rumo àquela triste esquina? Viagem perdida,
alça as tuas asas, coruja, e volta à cidade!

[Dos descaminhos que a corujinha encontrou]

Inda que seja ingrata a rota, máximo esmero
fartas vence de velhos quiçá vergados fadigas. 430
Vem a procela insana e profliga universas as vias,
vagas jamais de boca narradas afogam as ribas.
Ventos vencem margens, árvores vastas devoram.
Morte pravos semeiam ares larga nos prados,
fracas do homem armas ante as terras convulsas: 435
trons e tremores, monstros e raios e pélagos raros.
Mas a coruja não se abala. Demanda a cidade,
pousa após impossível viagem, na busca da esquina.
Certo perdera o rumo como perderam o rumo
face à morte a mãe, o menino, a vida largada. 440

[De como a coruja encontrou um vestígio]

Era como a busca da morte uma busca na noite.
Mas passadas horas, os olhos agora pesados,
surge à vista tremulante a tétrica esquina.
Era o vazio: A morte ali passara primeiro.
Mas aonde foram levados e onde enterrados, 445
quais estrelas recolherom os cantos perdidos?
Não sabia. Porém os olhos amigos de cores,
cavas de amor às imagens, iam notando matizes.
Como um traço os pontos coloriam as ruas,
bem pequenos entre as sombras mas engravados 450
fundo junto às pedras. Eram vestígios de vida
lá deixados, cores dum canto simples e fraco.
Mesmo mudo, deixava rastos o canto cansado
toda parte por onde passava o menino das ruas.
Eram cores que apenas olhos sutis recolhiam 455
como os da corujinha que carregavam estrelas.

[De como os pombos reencontraram a corujinha
e do apelo que o seu remorso lhe fez]

Mas uma revoada de pombos, que a lama enviara,
veio interromper de repente a coruja ansiosa:
“Para, coruja!” falavam em ofegantes apelos,
“não prossigas. Ai de nós que te enjeitamos outrora, 460
que divina amizade enjeitamos. Perdão, corujinha!
Tarde a lama nos disse a verdade, pobre corrente
cuja espera por ti desespera e que chora por ti.
Que diremos de nós, arrependidos, sem sonhos?
Desde que ouvimos da tua aventura, voaimos aflitos 465
rumo à dor deste mundo maldito. Volta conosco,
vamos embora contentes, a velha casa te aguarda!
Sobe a todos os mundos a perfeição do teu canto.
Não descubras em vão a dor duma raça perdida,
vem conosco e deixa a cada mundo o seu mal! 470
Ouve, corujinha! Se prosseguires, morreies.
Não te apiedas mais de todos nós que te amamos?
Queres mesmo delir tua vida e nossa alegria?
Mesmo a rosa anseia por ti, remoída de angústia.
Não sacrifiques ao mal do mundo a lágrima e vive!” 475
“Pombo,” diz a coruja, “por que te apressas de longe
para transformar o meu coração numa pedra?
Como deixar derribado ao leito ingrato da morte
quem carece de mãos e pão? Respeita-me, pombo!
Quero cantar aos pés de quem padece calado! 480
Ora que este mundo deu-me o dom do seu canto,
como fugir, mentir, abraçar uma vida covarde?
Ide embora se não quereis me seguir na jornada!”
Mas os pombos partirom, cobrindo o rosto e chorando
pelo intento perdido. Os pombos podiam chorar. 485
Ela porém contrita seguiu procurando a verdade.

[De como a corujinha seguiu na jornada
e da casa aonde chegou]

Quando os coloridos vestígios vierom ao fim,
veio a dar num jardim que a madrugada encobria.
Era pois no horto que encontraria os perdidos?
Inda soava pelos galhos o apelo da lama... 490
Longe e mal-iluminadas surgiam janelas
entre-abertas, pequena casa e casa singela.
Vinha dalguma vela o lume sombrio que velava
pelo quarto escuro, onde jazia o pequeno.
Frio! Vivia? Vivia, mas cobiçava-lhe a morte 495
contra quem a coruja foi lutando e cantando.
Mas o menino já não ouve o cantar da tutora
cujas asas vão abraçando uma vida sem viço.
Pelo jardim circula o pedestre da noite passada,
ele que em vão trouxera pão e leite ao pequeno, 500
ele que em vão trouxera àquele abrigo o pequeno.
Não morrera então! Seria possível salvá-lo?
Sem pensar, a corujinha se acalma e se alegra
como se o céu a tivesse arrabatada em surpresa.
Ora, amava decerto como um filho o menino, 505
filho sem nome e professor maior do seu canto.

[Do mal maior que a corujinha viu]

Mas o caso è grave e não permite alegrias
pois o corpo se debatia, a flama na vela
prestes à treva, a vida em renitente agonia.
Pobre mãe saíra triste em busca dum médico 510
mas a voz na cama esperava em vão o remédio:
Nem abraço e nem um colo lhe foi concedido.
Anjo incapaz, a coruja corre e geme e suspira.
Não havia ninguém naquele abrigo insensível?
Certo havia! Havia de fato os donos do abrigo: 515
Iam afora cobrando quantias à mãe do pequeno
como ao generoso pedestre: “Onde o dinheiro?
Paga agora, paga ou leva embora a criança!”
Mas os apelos e as esperanças pouco adiantam
contra impiedade dos cegos, espinho da rosa. 520
Como se ouvisse ameaça a voz implora na cama:
“Volta, mamãe!” Voltava só a coruja, coitada,
olhos pesando mais que o mar, a flauta quebrada.
Tanto buscara a cura da sua vida sem canto
mas o canto de agora mal salvava uma vida? 525
Foi em vão que a corujinha aprendeu a cantar?
Só restava ouvir daquele amigo um gemido
mas a coruja esperava cantarolando um ninar.
Quando as asas o envolveram, a morte abeirou-se.
Inda entoando a canção de redimir o infinito, 530
lá se rendeu às estrelas a vida calma e caída.

[De como a corujinha chorou no jardim
e do que então lhe ocorreu]

Ó quem visse no amanhecer os olhos da pena!
Quando o primeiro raio corou o silêncio do alto,
já desciam ao mundo três estrelinhas do céu.
Vinham de longe, vinham vivas, vinham ao quarto 535
frio levar um sopro infantil ao jardim encantado.
Mas as flores restavam indiferentes à morte,
inda lembrando a severidade amarga da lama:
Todo amor às flores paga o preço do espinho.
Tanto esforço a coruja fizera, tanto aprendera 540
pela beleza dum mundo que não se apieda?
Não se conteve e repentinamente entendeu:
Era o dilúvio, eram as lágrimas, era a morte!
Ela chorava e o corpo se desfazia nas gotas,
era um vaso feito de gotas e vaso quebrado. 545
Ela soube cantar, amar e morrer pelos olhos.
Mas da piedade deu-se um milagre bonito
quando um raio transluziu além de seu corpo!
Foi dispersa ao mundo intraduzível gama,
luz sem fim prenunciando ao véu a verdade. 550
Ela derramou-se em matizes pelo universo!
Ela deixou por toda parte um traço distinto
donde emana a derradeira visão da alegria.
Toda manhã, os pequeninos tocam nas flores
gotas luminosas que um gesto raro espalhou. 555
Ó bondoso e triste sacrifício dos olhos,
ela que te verteu à terra chamava-se orvalho.





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