EUSTÁCIO DE SALES

A BELA ADORMECIDA

Index



© Greg Ory 2013-2016, Record E 3, Engl. Sleeping Beauty, december 2013 to january 2014, Hampshire, dactylic hexameter, one verse, 570 lines, epic poetry, Portuguese.





A Morte

Quem enxerga, por entre espinhos, aquele castelo,
nem imagina quanto sangue se esconde abaixo.
Mas o moribundo grito dos príncipes uiva
pela cerca e pelas poças o pus se revela.
Entram no paraíso as almas e vermes vorazes 5
gozam a decomposição dos édens na carne.
Quando o coração se acaba, a pele se veste
toda em palor, primeiro ato da vida encerrada.
Segue em poucas horas o algor: A temperatura
cai daqueles trinta e sete graus que sustentam 10
todo o corpo a vinte graus, apenas. A vida
prega as suas peças, sim, e pouco seguros
são sinais do palor, frigor, do sopro, do peito,
pois se viu palor em cadáveres inda viventes.
Muita vez, defuntos abrem os olhos, surpresos, 15
frígidos mais que pedra, como ressuscitados.
Noutras feitas, o peito retornou a pulsar,
como se o corpo só dormisse. A vida se esconde
como pode: Foge e revive. As horas, contudo,
speram certas como o rigor severo da morte. 20
Quando músculos se enrijecem durante palores,
tens à vista a certeira prova do termo. Começa
pelos olhos, pelo queixo, descendo por membros,
tronco, pés. Na rigidez cadavérica perde-se
toda a matéria fléxil do texto, presa da hidrólise, 25
quebra-se adenosina-trifosfato que outrora
dava à carne energia, relaxe. E marcha o êxodo,
passa quase ao mesmo tempo, do sangue deixado.
Ora que o peito já não mais o pulsa nas veias,
cede às opressoras leis da causa do mundo e 30
vai descendo negro perto do chão do repouso.
Deixa enfim o palor aos abandonados tecidos
como lhe reza a gravidade, juiz implacável.
Desce às pernas e pés nos enforcados cadáveres,
cai às costas no corpo deitado. Surgem livores, 35
manchas roxo-azuladas ou lagos nos quais o líquido
morto se cristaliza e seca, antes da aurora
pútrida. Temes o verme, larva, fungo que o come?
Ó timorato, se apenas visses quantos amores
rende aquela difamada fauna ao defunto e 40
bichos salvando o ser da rigidez final e
fungos transfazendo em gas o gasto tecido,
quase dirias que rara vez se viu piedade
tanta no mais humano ser. Restam os ossos e
duram pelos anos brancos: Muitos dos climas 45
generosos conservam em certos casos a pele.
Múmiās são as roupas renegadas por líquidos
antes que os animais da cova venham bebê-los.
Causa de morte existe mais até que de vida:
umas naturais, diversas de ação violenta, 50
ora anóxiā, ora afogamentos ou forca ou
fogo e choque elétrico, homicídio doloso a
tiro e perfuração profunda. Armas de gume
rompem a carne dilacerando fio de tecidos.
Tais exemplos inda pendem entre os espinhos e 55
corpos testemunhando triste estado de morte,
uns esqueletizados e decompostos demais e
muitos pútridos, outros inda na fresca rijeza e
poucos até naqueles primos algores da pele em
jogo extremo, palor em cima, livores em baixo. 60
Sob as estrelas, porém, que circunvalam a torre,
viu-se apenas duas coisas: o amor e a morte,
ambos preenchendo os hemisférios do orbe.
Ora, pela vida viaja o que foge da morte,
mas a fuga da morte è fuga rumo ao amor. 65
Mal viveu quem mal amou, porquanto è procura
nesta vida o mundo, amor o fim da procura.
Tarde porém se lança a busca quando livores
já se avançam pela pele. O amor è de agora,
quando o sangue ainda está correndo nas veias. 70
Vai dançando enquanto o curto tempo tolera.
Com razão percorrem vidas aflitas a estrada:
Só o amor faz jus à dança breve do sangue.

A Bela

Trás as espinhosas cercas de podres cadáveres
era o castelo. Jazia na sua altíssima torre 75
bela princesa sobre uma cama simples, imóvel.
Pela janela adentro, cresciam ramos de árvores
como floresta. Iam ramificando-se os galhos
toda parte, a natureza ordenando detelhes
verdes pela paz do espaço. Pálido linho 80
veste em delicado texto a nudez da dormente.
Vê-se pelas faces sinais de morte e modesta
pétala desbotada, na pele macia palores.
Velho algor recobre o corpo, hálito fúnebre.
Quem aproximasse ouvidos ao peito, contudo, 85
logo ouvia um flácido pulso, porque respirava!
Contam que lá ficou durante um século quase,
como n'África presas daquela doença do sono
(tétrica triponossomíase) dormindo sem cura.
Uns atribuem o mal às bruxas, uns às moscas: 90
Dormem porém e morrem depois de meses passados
(mal que teria cura se fossem ricas as vítimas,
só que n'África vítima conta?). Mas a princesa
forma um caso à parte, inusitado episódio:
Tanto tempo passara e nem por isto acordara! 95
Era milagre o sono da bela? Ora, ilustremos
bem o curioso ocorrido. A verdade ilumina:
Era uma vez um rei velhão que tentou e tentou e
enfim engravidou a rainha, que teve um chilique:
Mal pariu e organizava já pormenores dum 100
rendez-vous delicado, festim de socialites.
Foi uma agonia que só. Mandavam convite
mundo afora, cartas, intimações e despachos, e
já chegavam apressadas respostas por email:
Justin Bieber chamado e confirmada presença em 105
vídeo de marketeiro rondando pelo YouTube,
detalhes da novidade compartilhados no facebook,
todo um frisson, comoção sem igual. Era conversa
pelo twitter, Google + e notícia de imprensa,
pois a lista dos convidados passava milhares e 110
dava inveja, deixava toda xuxa chocha.
Era como a legendária festa na velha
Veneza em mil novecentos e cinquenta, aclamada
como o baile maior do século vinte, imaginem,
três ou quatro noites de luxo, convites rondando 115
pela Europa com mais de um ano de antecedência.
Não diferiu lo festim da princezinha mimada:
Foi um carnaval bacanálico, um ato de gozo
quase maior que em Salvador, o nível perfeito.
Quanto a requinte, ah, as maquiadas madrinhas 120
foram mais zelosas que a bulimia das magras.
Era um concurso aberto o tapetão vermelhante e
saltos na passarela, as agitadas mocinhas
carregando os presentinhos. Doze madrinhas
punham roupinhas rente ao lindo berço dourado. 125
Foi uma bolsa da Louis Vuitton o primeiro presente,
larga, imensa, maior que o bebê. A segunda fada,
mais discreta, trouxe três colares de pérolas
inda frescas made by Tiffany & Co. de New York.
É melhor evitar os detelhes de Christian Dior e 130
outros dons da terceira fada, os óculos épicos.
Gente, haute couture podia faltar àquele congresso?
Era cada tecido que tinha passado, diziam
muitos, pelas mãos da própria Coco Channel, e
Gucci e Prada, Giorgio Armani e Gianne Versace 135
lá deixavam as veneráveis marcas da moda.
É verdade que alguns se chateavam com isto,
óbvio, pois ficar comprando acessório pronto,
isto è palhaçada de novo rico e vexame.
Uma pessoa de classe, princesa não se rebaixa, 140
não, jamais. Questão de decência: Gente de estilo
manda tecer que-nem os machos da inglesa coroa.
Buscam na Savile Row alguma loja caríssima
onde encomendam bespoke tailoring, justa medida.
Houve certas almas erradas comprando à francesa, 145
grifes de muita fama e muito pouca fineza,
mas por cortesia os parvenus de Paris e
doutros cantos eram todos bem recebidos.
Tantos mimos, dons e tantas prendas fantásticas
quase ofuscavam uns aos outros, e a décima fada 150
vinha coaquele pó de maquilagem compacto
quando uma velha doida começou a berrar
do nada. Devia ser a empregada perdida na festa,
feia demais para ser verdade em conto de fadas.
Era decerto alguma presepeira adoidada e 155
malmorada. Era um Exu, o nome è este, ou
sombra meretriz de Medéia, migrante ilegal e
filha de operário romeno em Londres, o pária
longe da glória e construindo estádios olímpicos.
Não percamos tempo em vagações infrutíferas. 160
Claro e manifesto estava o caso, perfeito
spelho de torturante verdade. A vida da velha
pouco importava. Não cabia naquele banquete.
Era um elemento perturbador de delícias.
Tinha uma cara estranha, meio arrombada e sem jeito, 165
tinha todo um je-ne-sais-quoi de inquiëtante.
Mas falou. Abriu a boca sem dó nem bondade:
"Tudo mentira!", mas soava com ar abatido e
quase confusa vendo a bolsarada de couro.
"Cock off with you", algum embriagado replica 170
perto, nariz e prato repletos de cocaína,
pó que nem as mesas ilustres do Rio de Janeiro
possuíram. Era possante a química e fina.
Claro, o body-guard da festinha foi notificado e
vinha já retirar a bruxoxona encardida: 175
"Essas prendas", pois assim a mulher continua,
"nada valem. Pois que bem vejais o meu rosto!
Dorme quase num véu de vaïdade a menina e
como entorpecida de vago anseio e de morte.
Como não baste a vida vossa, vária, largada, 180
inda quereis roubar à mesma rota pequenos?
Como è só de morte a vossa prenda à donzela,
era melhor deixar dormir a sempre a menina.
Eu lhe concedo, meus senhores, como presente
dom de amor." A cadavérica voz se alastrava, 185
mãos, por sobre a face decomposta, rugosas,
quase a cobri-la. Quando a pele gela em palores,
pouco ajuda o pó compacto, o peeling, o rouge e
nem se viu Louis Vuitton vencer os livores
quando a mancha se espalha, nem colares de brilho e 190
jóias da Tiffany & Co. Na vida como no verso,
toda moda è morte somente. O belo adormece.
"Sendo de morte o venenoso véu que escolhestes,"
segue a bruxa, "meros manequins ambulantes,
dar-vos-ei a vós também uma prenda perfeita: 195
Ide dormir!" E naquele mesmo momento caía
já do céu um manto, imenso algor que lançava
rumo ao chão os corpos, em rigidez de cadáver,
ora elevados à nobre condição dos móveis e
bolsas de couro, colares e pedras e gemas briosas. 200
Vendo entanto ao berço a pobre bela dormindo,
teve amor dos mansos a bruxa. Será possível
pois punir quem não viveu? As fadas madrinhas
inda imploravam como podiam, rogando clemência e
mais apelos fortes em prol da princezinha. 205
"Ela crescerá na inocência!" revela a bruxa.
"Quando porém chegar aos quinze anos de idade,
há-de tocar uma roca a fiar. E cair. E dormir.
Cerrar os olhos ao véu da vaïdade que invade
como vermes corpos o mundo em sonho funesto. 210
Quem a despertará da cena vã que a tormenta?
Praza a Deus que um dia um príncipe, voz da verdade,
venha desvendar-lhe o dom que chamaram amor."

O Sono

Três fadinhas criaram a bela e faltavam apenas
asas aos pés. As fadas, porém, temendo feitiço, 215
logo mandaram embora daquele reino as rocas.
Quanto aos pundonorosos presentes, foram queimados,
roto consigo todo sinal que houvesse de luxo e
mesmo irresistíveis vestidos da Coco Channel.
Antes pomposo castelo, o paço real parecia 220
quase um campo americano de hippies agora,
onde a malta maconheira dos anos setenta
livre amor gozava ao chão e cachimbo da paz.
Longe porém daquelas califórnicas feiras
ia crescendo, lenta como as aves, a bela. 225
Dava as mãos às fadas e passeava entre flores.
Era puro o seu sopro. Cantava e calava e dançava
bailes airosos por entre as verdejantes trilhas.
Mas o tempo não se impressiona. Foram corridas
quinze primaveras – só de pensar nas meninas 230
tantas que aos doze são mulheres feitas, inteiras,
putas mães nalguma favela do Rio de Janeiro ou
mães de tailandeses bordéis e boquetes baratos, ou
bem de Johannisburgo e doutros antros largados,
quase nem se sabe se as primaveras existem –, 235
quinze anos de castos sonhos e risos ingênuos,
sim, nos contos de fadas os seres são ingênuos!
Quando porém ouviu por vez primeira do mundo
fora do encanto da paz, interessou-se por roupas e
bolsas, sapatos de salto alto e fotos de facebook. 240
Dia-e-noite, navegava em sites de moda e
punha ao rosto o pó da beleza. Gastava fortunas!
Dois costureiros gays encomendou da Suécia:
Deu-lhes abrigo dentro da torre e lá costuravam
vestes suntuosas que mesmo os reis invejaram. 245
Foi assim que certa tarde, quando os senhores
iam tomando dela as medidas, longe das fadas,
viu as máquinas, rocas tecendo novo tecido, e
pôs, num único e apaixonado relance, um dedo
sobre a madeira clara afiada. Caiu. Abalaram-se 250
ambos homens rumo às fadas. Debalde a jornada:
Sete dias e noites transfizeram-se em pranto.
Dentro da torre, a bela adormeceu numa cama.
Pois aqueles costureiros foram os últimos
inda a vê-la, antes que o maranhão de espinhos 255
lá se erguesse. As fadas madrinhas foram morrendo,
não impressionaram o tempo. Na cama, sonhava
sonhos altos a bela e falava louca de príncipes
ora alados, ora montando a brancos cavalos,
ora descendo rios no cisne-barco de Lohengrin. 260
Vinham chegando porém de muito longe os primeiros
homens e atrevidos mancebos. Como um relâmpago
fora dispersa a notícia da bela adormecida,
nova que os costureiros de Estocolmo levaram
mundo adentro. De lá, vazou para Copenhague, 265
desta a Hamburgo e desta a Londres e Nova Granada.
Era quase um exército rumo ao útero extremo e
cerca rude às infantarias vãs. Sitiavam-na
tropas de todo tipo. Mas aos incautos, coitados,
era de pouco proveito o gume do Zé da Peixeira e 270
nem facão cortava aquilo, enxada nem foice.
Uns perdiam paciência: Lançavam aos galhos
corpo e alma e lá ficavam, premidos em gritos.
Quem tentava ajudar, entrava e nunca saía.
Era sem volta emaranhar-se à maldita muralha 275
quase viva. Vez por outra, até que mostrava
certa trilha de rosas feéricas. Iam dezenas
túnel adentro e súbito o maranhar os tragava.
Fora se ouvia as moribundas árias, suspiros
últimos semi-asfixiados. E o suco de fresco 280
sangue corria pelo espremedor de laranja.
Essa inflexibilidade dos mórbidos muros
ia irritando valentões de todas as terras e
já corria o causo em grande alarde no facebook.
Novas expedições preparavam-se, rudes recrutas. 285
Veio até o Chucky Norris coa tropa de elite:
Tudo despreparado e desbaratado de vez.
Junto a soldados a pé, cavalaria avançava em
vultos da Idade Média. Já os moderninhos e
práticos, inda que vaidadosos, usavam de máquinas. 290
Já que não podiam passar o bendito do muro,
pelo menos impressionassem dormente beldade!
Houve toda uma exposição de cavalos, chiquérrimos
carros de fórmula 1. O gostosão da quermesse
vinha em BMW, ou M6 Gran Coupé, e 295
logo atrás o Mercedez-Benz CLA, o
Bentley Continental GT Speed Convertible co
Lamborghini Aventador. E havia os excêntricos
4 Roadster, Audi R8 e Jaguar F-Type.
Dava dó de ver a rapazeada avançando e 300
sempre trucidada, os gostosões e cavalos.
Eram jovens tão delicados que ali pereciam!
Essas novas enfim revoltaram os fabricantes
como os sequiosos dum Penis-Ersatz freudiano.
Ora, ao menos o Chevrolet Corvette era digno, 305
bem como o Prosche Cayman e Boxter, to have a go.
Tudo bom partido e rapaz de família decente,
mas cantavam de galo em vão, a princesa dormia.
É que Marí-Gasolina, gente, è dum outro folclore.
Nem se importava coa carralhada dos marmanjões e 310
as rodas do Hennessey Venom GT Spider,
os orgulhosos boçais ao volante. Tanta galinha
fácil de discoteca de quinta cedia ao galã,
mas aquela nem dava bola, coisa intrigante.
Será que ela procurava um rapaz comedido? 315
Não que fossem maus os babacões que chegavam.
É que se repetiam naquele concurso de carros
tantos playboys e gogo-boys na McLaren F1 e
Koenigsegg Agera que não lhes caía a ficha.
Lykan Hypersport? Nenhum cavalo faltava e 320
tudo que è carro estava ali. Bugatti Veyron?
Nem o Lamborghini Veneno causou desespero
junto coaquele maridinho da Barbie ao volante.
Claro que, quando o Maybach Exelero chegou,
esse que custa ainda oito milhões de dólares, 325
chega em dez segundos a cem quilômetros-hora,
teve tumulto! Don Juan gracioso sorria
como dantes o Zé Bonitinho. Era um malandro, um
ai-jesus de meninas meiguíssimas. Era um possante
sosiazinho de George Clooney. Abriram-se os galhos 330
tanto que alguns puderam ver o fim do túnel.
Lá se avançou lo galã, acelerando às carreiras, e
lá ficou, distorcido como o carro acabado.
Ê carraiadazada danada, passa um tempinho e
tudo ferro-velho, Deus me livre e defenda. 335
Olhe! Dum musculoso e troglodítico exército
não pudera sair a verdade. Contra muralha
desse tipo tanque de guerra da Wehrmacht ajuda
não, que nada, nem canhão conquista ternura.

O Príncipe

Mas voltemos ao caso inicial das estrelas: 340
Só existem duas coisas, nada se encontra
pelo orbe além do véu do amor e da morte.
Há de fato um vazio que a velocidade das rodas
não preenche. É diversa a viagem de amores.
Tarde pois o carro avança quando livores 345
já se espalham pela pele. O amor è de agora.
Mas alguém podia passar pelo muro de espinhos?
Era uma vez um peão perdido, sem era nem vez.
Vinha dalgum lugar desconhecido e sem brilho.
Vinha a pé. Na verdade, chegara ali por acaso. 350
Longa rota o trazia àquela terra espinhosa.
Era tímido. Dizem que andava a dizer pelos sites
virtuais de amor que tinha um pênis pequeno:
Que modéstia, Senhor! E só vestia roupa de quinta.
Não sabia guiar e nem queria saber de 355
carro e parafernalha e dinheiro e porra nenhuma.
Foi quiçá por isso que tantos anos passara
só naquele apartamentozinho enfadonho,
falto de luz, de calores. Animal suburbano,
lá levava a velha vidinha, que nunca releva, 360
como gente que nunca chega a lugar nenhum:
Nem engenheiro, juiz ou médico, nem fazendeiro.
Era decerto ajudante de algum pedreiro fodido e
mal remunerado, quiçá professor de bandido
pondo a vida em risco nalguma escola pública, 365
certamente um funcionário baixo do Estado.
Sabe Deus o que era, mas coisa grande, coitado,
esse aí não podia ser, de maneira nenhuma.
Tépido o passo, andava cabisbaixo na praça.
Ia lembrando, talvez, um beco abissal de Lisboa, 370
filho do século velho sem canto, talvez Recife,
homem de seus quarenta anos, talvez Paris,
sim, decerto Paris, rememorando a calçada
suja perto da Rue Pigalle. Descia apressado,
já que tomaram desde cedo o seu pálido ursinho e 375
desde sempre carecera de abraço e de infância.
Certa vez, confessara a certas meretrizes,
olhos nos olhos: "J'connais rien, j'suis vierge!"
Coisa curiosa, quanto menos recebem
almas amor, amor a mais a dar acumulam. 380
"Faites vos jeux, messieurs", reverberava a fala
rente a roleta toda encardida, enquanto a mundana
como num gesto de asco: "On dit jamais cela!"
Tão barata resposta e recusa abafava-se à mesa,
grito: "Rien ne va plus, monsieur, rien ne va plus!" 385
Et plus n'alla rien. Deixando embora o convento,
inda ouvia na mesma rua uma voz insistente,
quase tomando o braço: "Venez passer une soirée
toute entière au Royal, je connais une fille parfaite!
Elle saura vous satisfaire comme il faut, monsieur, 390
elle saura!" Perdeu porém dinheiro e coragem,
indo adiante: "C'est trop tard, madame, trop tard..."
Há tristezas que não envelhecem, não, sobrevivem.
Quebra a gota, talvez, a rigidez cadavérica.
Mas vidinha também è vida. E a gente se acalma. 395
Dorme, princezinha! Sonhar è melhor que viver.
No quarto e só, o peão que não era peão ponderava.
Era doutra gente o amor e de poucos a sorte.
Essas recusas daqui, dali, de todas as coisas,
toda parte, enfim desanimam. Vinha de jovem 400
já jogado, raro afeto em casa e na escola,
vida na base de berro e tapa e surra. Vidinha.
Nunca menina o quis. Agora a criança calava.
Ora era grande. Grande o medo. Grande incerteza.
Foi demitido. Pôs-se a vagar por aí, sem arrimo. 405
Indo assim, de rumo em rumo tragara um deserto.
Quando chegou ao ferro velho, o arame farpado
spesso cobria restos de carros, rostos e corpos.
Vendo melhor a verde cerca, funesta, pensava:
Era talvez um campo santo? Campo de guerra! 410
Sisudo frente ao muro, cala. Recua. Lamenta.
Nem deseja saber que terra estranha se esconde,
causa quase um asco a morte exposta nos galhos.
Ia já que saía, quando um aroma o reteve e,
pasmo, viu espinhos como dantes ursinho, 415
ai pudesse pois o dedo abraçar o infinito.
Foi porém tocando, levemente, nas pontas
finas, os copos de antiflores plenos de morte,
como se os afiados amassem. E deu-se o milagre.
Já daqueles mesmos espinhos surgiam botões e 420
novos olores. Vento forte soprou, de repente e
frio, e no vórtice vasto galhos armaram-se em arco,
pórtico antigo. Abriu-se frente aos olhos a trilha:
Ele temeu? Entrou sem saber pelo túnel do sonho!
Ele, sem apreço nenhum a tesouros e prêmios, 425
ele, pequeno, transpassou a muralha impassável!

O Despertar

Bom jardim, num canto estelar, lembrava o sublime
tempo das coisas grandes, no século décimo nono.
Lá detido, via passar a passagem dos sonhos e
sopros vindos da torre, das alegrias da sombra. 430
Como um Lohengrin no reino eterno de Pársifal,
era agora chamado a ver a virtude do máximo e
gozo do belo absoluto, do homem total e da arte.
Era chamado à superação do homem relâmpago,
claro sinal da perfeição dos tempos, elísios, e 435
mundo sem erro, onde os feios eram banidos
dentro de câmaras, campo de renitente extermínio e
fim de degeneradas raças, estética estranha.
Lá morreria o moderno, lá reinariam, supremos,
clássicos versos, românticos, sereníssimas obras 440
entre as rosas. Lá mirava uma estrela o jardim,
o brio polar das orações de Wolfram, sublimes.
Dizem ser barbárie o verso perante Ausschwitz?
Era tão lindo o amor no século dezenove.
Era a quimera que Hitler quis salvar da verdade. 445
Como nos perdemos pela estrada sublime.
Inda vivemos sob a sombra de crimes e crenças.
Tantos, eternos civilizatórios projetos –
nada. Nada. Tinha ua pedra no mei-do-caminho,
tinha uma pedra. No mei-do-caminho tinha ua pedra. 450
Tarde o poeta enxerga, as fatigadas retinas,
viu-a tarde o poeta. Tarde demais a descobre.
Mas as flores, coitadas, nem conhecem as pedras.
– Eu? – pensava o peão perdido – Eu vou è mimbora!
Sou peão dessa terra não, sou fraco de Deus. – 455
Mãos aos olhos, alevantou-se do idílico banco
rumo à torre-ruína que a flora farta invadira.
Ora, à pobre criança que ainda havia no homem
disse um sopro modesto que aquela torre guardava,
ah, o abraço dum tenro ursinho. Peito assustado, 460
foi subindo as escadas qual se fosse menino.
Ante a porta extrema, para. Teme. Perpassa.
Desvendemos o véu! Aquele homem de medos
quase velho, velho ao menos dentro do espírito,
viu deitado à cama um cadáver, pálido, grave. 465
Veio tocá-lo aterrado. Quanto amor escondido!
Era a bela mais dormente que os olhos souberam.
Morta? A mão sentiu-lhe a face. O peito soprava!
– Só que perturbar um sono calmo e profundo,
como è isto? – pensava o homem como se amasse. 470
Quem não via a quais formosas esferas cabia
vir despertá-la? E quem duvidava da clara recusa?
Era um peão perdido, sem era nem vez que varara
pelos arcos de espinhos. Era um homem errado.
Como porém partir, daquele quadro perfeito 475
rumo a nunca mais, sem nem o sonho dum beijo?
Houve beijos pequenos que nem meninas notaram.
Era uma bela adormecida, um anjo intocado.
Foi baixando o rosto, baixando baixo. Beijou-a
leve o lábio sobre as faces, a pálida rosa. 480
Inda alguém se lembra da grande saga germana,
como o beijo herói de Siegfried acorda Brünnhilde?
– Heil dir, Sonnenlicht, heil dir, prangende Erde!
Lang war mein Schlaf. Ich bin erwacht! Du wonniges Kind! –
Nessas óperas loucas, nos cantos lentos de Schubert 485
reina aquele amor-mentira, como se os homens
nunca fodessem. E quão sublime a mentira dos velhos,
ai os amores fossem beijos, afagos eternos...
Vem do século vinte a ressureição das volúpias,
coitos agraciados e os pornográficos filmes. 490
Como è feio o tesão, e como o tesão è nojento.
Come as entranhas. Come cu. E porra na cara,
tão errados o belo e o feio. O amor è de nunca.
Mas também aquele homem ainda esperava.
Era adepto dum novo amor, nem novo nem velho. 495
Ora, beijou-a! Nada a ganhar e perder. Um adeus.
E pela porta o peito, amargo, descendo as escadas.
– Príncipe! – já varava uma voz a torre universa.
Era a ordem. Subiu de volta. Passou pela porta.
– Foi você? – O peão perdido inclinou a cabeça e 500
quase desculpou-se vendo a bela aturdida.
Deu-se ali conversa, difícil. Vidas distintas.
Ia a princesa perguntando de jóias briosas e
dando voz a lascivas imagens, erótico sonho.
Onde castelos, roupas, bolsas? Onde o cavalo? 505
Certas perguntas quase ferem mais do que espinhos.
Cabisbaixo e sem saber, o peão se encolhia.
Via como os olhos da bela perdiam o brilho,
breve paixão, extinto já lo amor. Enfadava-se.
– Mas você, menina, que deseja de mim? 510
Olhe! Da terra minha não tenho riqueza nenhuma.
Vinha passando aqui, ali, sò Deus è que sabe
como aqui cheguei. Cheguei! Mas vou de meu rumo,
viu? Se afobe não, que não demoro nadinha. –
Foi porém contando a vidinha, que a bela escutava. 515
Causo em causo os corações até que amolecem,
vezes há. Mas quando a jovem corria à janela,
vendo afora o Jaguar, o Lamborghini Veneno,
dava um fogo dentro do peito. Olhava o perdido
quase com dó, que nada tinha a dar, que dizia: 520
– Vá com eles, menina, tenho carro nenhum! –
Veio porém a bela sentar-se ao lado, na cama,
devolver-lhe aquele beijo à face modesto,
quando o peão feioso a mão tolheu, num soluço:
– Sei amar sei não, senhora, desculpe a fraqueza, 525
só quem viveu que conhece. Meu amor è sem rumo,
meu amor è sem jeito – rezou coas mãos enlaçadas,
olhos baixos. Ela, entanto, a quem os delírios
mais oníricos dia-e-noite afogavam de anseio,
descobrira em tão pequena carícia conforto. 530
Desvendemos o véu! Viver è melhor que sonhar:
– Príncipe! Diz o que queres de mim. – E ele fitou-a
como deslumbrado. Baixou a cabeça entre as mãos:
– Quero um abraço só que a vida è breve demais.
Olhe! Um homem assim, que-nem eu, não sabe de nada. 535
Sabe amar, mas sabe amar de lá dentro do peito.
Esses milagres de cama não sei se faço, menina.
Tem que se acaba o mundo de tanto homem melhor,
pode escolher – e foi assim explicando, direto,
menos direto, que o dom das fodeções poderosas, 540
essas performances épicas raro vistas nos épicos,
ass-to-mouth e threesome, gang-bang, gaggings heroicos,
doidas posições camasútricas, eram império de homens
outros, talvez de si também, mas menos explícito.
Era afago calmo seu império distante. 545
Lá se deitaram, pois, num longo abraço amoroso, e
desde então divergem as fontes. Dizem algumas,
novas, que, pela manhã, a princezinha fugiu
pela porta, na ponta dos pés. Passou pelos arcos
rumo ao rendez-vous co namorado do facebook, 550
loving date, e nunca voltou. O carro era imenso, o
Bentley Continental GT Speed Convertible, as
rodas deixando atrás aquele otário perdido.
É o que sói se ver. A verdade acorda sozinha.
Outra fonte, a velhinha, diz que viveram felizes. 555
Não para sempre. Cedo ou tarde irrompem livores
pela pele. A cadevérica fauna, contudo,
pode pouco contra a rigidez dos defuntos.
Geralmente o rigor termina antes que os fungos
venham putrefazer os tecidos em gases sublimes. 560
Dura por vezes setenta e duas horas. Depende
sempre do clima, da causa da morte, força do corpo.
Começa a partir da terceira hora após o decesso e
chega ao auge em doze horas. Depois, enfraquece.
Some do mesmo modo que avança. Cai pelos olhos, 565
vai descendo pelo queixo, pescoço, por membros.
Morrem os últimos órgãos, mesmo aqueles tenazes,
mesmo o fígado. Quando enfim os pés se desfazem,
tem lugar o relaxamento eterno dos músculos.
Pobre a bela a qual verdade alguma acordou. 570





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